domingo, 27 de março de 2011

AS FLORES DE LEMINSKI

Paulo Leminski, uma das figuras cimeiras da geração de setenta no Brasil, era poeta que menosprezava, por influência de um ex-amigo brasileiro (onde os afectos nos levam), até que, em 2009, em Maputo, numa feira de livros de fundo comprei uma sua recolha de contos, póstuma, Gozo Fabuloso. Foi tal a pancada que fui à net e baixei 90% da sua obra e o li e reli de fio e pavio, e nele descobri, para além de livros maiores como Catatua, ou Metamorfose (que entretanto perdi, se houver uma alma caridosa que me quiser mandar uma cópia agradeço), como se pode responder com propriedade e despretensão ao apelo da concisão e do silêncio na poesia, pois as suas são pegadas de bonsai.
Não sei se os brasileiros continuam a fazer boca fina à menção de Leminski (os portugueses imaginem liga conseguida pela mistura de Al Berto, António Baharona, Luís Pacheco e Jorge de Sousa Braga) o que talvez resultasse do seu alcoolismo e da mitologia do maldito que seguiu até ao fim. Mas os que rondaram por aí e sobreviveram a essas idiossincrasias épocais, como eu, são sensíveis à extrema inteligência que se arma em muitos dos seus textos e ao seu notável ecletismo (experimentem ler por exemplo a sua biografia sobre Cristo). Para os que se interessarem, busquem em «4shared». Está lá tudo, e a sua curiosa biografia, O Bandido que Sabia Latim.
Escrevi o ciclo que se lê em baixo para um livro de admirações, inédito (onde endereço textos a Henri Michaux, Carlos de Oliveira, Hugo Claus, Grabato Dias, Al Berto, Herberto, etc.), e faço derivações em torno de admirações firmes, às vezes no exercício dramatúrgico de incorporar alguma coisa do estilo do poeta que homenageio.
 

LOTAÇÃO ESGOTADA
Encontro com Paulo Leminski à esquina de um haiku*

1
A dignidade suprema
de um navio
perdendo a rota:

sentou-se
o mar
naquela rocha

a olhar
o farol

o seu círculo
por tudo
quanto é fissura


2
Poema
abandonado
sobre a mesa

como a maçã
mordida
pla criança
desaparecida:

circo
dentro
do pão                                            


3
Despressurizada
a vida

no vento
que se agarra
aos Seus cabelos

4
Encavalita-se
o castanheiro
na lua

pelo menos
uma vez
por mês:

paisagem
em quarenta
clipes

5
Qual é a parte
de trás
de uma árvore?

onde
se mija.

qual é frente
de Deus?

a que faz urinar.

6
Sempre
que uma peça
do presépio
se quebrava
e a cabeça
se separava,
subitamente
espessa,
a minha mãe
punha uma uva
no seu lugar:

o vinho
crisma
o corpo.


INFIEL, EU?
Deus
dis
cerne

as serrilhas
de um selo
das teclas
de um piano

o baile
no teu decote
das ervas daninhas
que agora
se arrepelam
ao meu toque

Deus
des
centra
Lisa

8
Digno de nota
a laranja cravada
na duna

e esta cauda
de preguiça

nas palavras
que tocam
o sol


FRACTAL
na talha cinzenta
daquela nuvem
há aguaceiros
de verão.


POSTIGO
a placa
de luz
aplaca
o pó:

xis
coxo

amanhecido


11
Cabeça
tem o prego,
e o martelo

o homem
tem o silêncio
que se segue

e às vezes
a palavra
que o antecede

se tiver
evitado
perder
a mão.


THRILER
Aporrinhou-se,
só porque lhe dei
uma azeitona

foi para estrear a arma,
juro!

Que mal tem crivar
o peito nu
de rosas
humedecidas?

É falta de humildade,
é o que é!

Humor, se o teve,
saiu ao Trostsky,
o zagueiro
mais frangueiro
do século!

Falava ele
em poema
poroso!

Osteoporose
mental!


13
Vida é esgueirar-me,
sussurrar baixinho
no covil do grito.

ver como o gavião
perfura
o vapor de água
na catarata

e pensar
há dias
em que é assim mesmo!

14
Uma vidinha mal passada
com um ovo a cavalo
e uma cerveja como (s)ela.

15
Apenas beliscou o amor.
Entre um e outro gole,
beliscou o amor,

como se pasmo, diante
do cromado da torneira,
a esquecesse de abrir.



luis bastos, red 2
EM MARES MORTOS
Abrir-lhes a cuca
deixar que transvasem
os maremotos

no seu lugar
plantar
o Teatro Paiol.


TER OPINIÃO
- Achei pernóstico?
- Eu também

- Ouve lá, que significa pernóstico?
- Eu também


AS CEREJAS DE MALLARMÉ
Tinha crises de megalomania:
desde miúdo que as cerejas
lhe enfeitavam as orelhas,

não topava interruptor
que não premisse de imediato,
vítima de incontinência!

Assim que se apanhou no velório
da mãe quis esticar as pernas
e pôr-se ao fresco

mas a lâmpada que levava
na cabeça estava quente.


PIETÁ
Vagões
cheios de lágrimas
de vidro.


QU’EST QUE L’ARGENT?
O museu do vento
tomado pela chuva
e o granizo
e a rapariga de cabelos
cheirando a salsa,
de olhos melados,
convulsa
sob a tua sombrinha,
asperamente
amarfanhada,
enquanto cabotino
lhe explicas
que devemos manter
intacta
a fragilidade
original.


NABI

i
Deveria a palavra adúltera
ser apedrejada
pelo povo
até à morte?

a natureza
admite cucos -
por que não nós?

quem nunca
tiver comido
um fruto
seco
atire
a primeira pedra.

ii
É nascida,
a Virgem
de uma coxa
de Cristo

tragam ouro,
incenso, mirra,

em faltando,
electrodomésticos

aceitamos tudo.

iii
Num dos evangelhos
apócrifos
um menino pula
nas costas de Jesus
e morre instantaneamente,
só para Jesus ressuscitá-lo

talvez a moda
tenha pegado,
nunca esclareceremos
se os poderes
do taumaturgo
foram menorizados
pela censura romana
ou pela sua modéstia

iv
Tudo o que faz é pregar.

Pregos – signos.

Pregos que um dia o crivariam,
carpinteiro, numa cruz
de madeira.

A explícita deslocação
dos sonhos, segundo Freud.

Teria sido Cristo
um sonho colectivo,
algo como um maremoto
no mar, quase
andrógino, quase nada?

22
A colher
com que o tempo
mexeu
os líquidos
amnióticos
extraviou-se
a caminho
do leilão

não há agora
como controlar
a velocidade
do abismo
que te puxa
o tapete.

23
O que me fascina
na morte:
o vento
declina
de sondar
os buracos
da minha ausência.


24
Com os dedos
artilhados a noite
minuciosa
faz
de cada rouxinol
emudecido
um brinco;
se na eminência
da alba
surpreenderes
ainda
no pássaro
uns olhos melancólicos,
não hesites
e mete-lhe a cabeça
no tabasco.


URGE
Uma arte amnésica
que chapinhe
no seu próprio
sangue
como um pinto
decapitado.


VARIANTE DE UMA VARIAÇÃO
DE LEMINSK ARTILHADA
EM BASHÔ E MALLARMÉ
O schlaaap à tona da verdoenga
água do poço jamais
abolirá o acaso: é sapo!


RETRATO DA TIRANIA
DE SER EU MESMO
Glu glu!

* os versos em itálico são de leminski

PS - Estou a ficar farto de poesia, para a semana é só política

2 comentários:

  1. Fartei-me dessa fartura com muito gosto!!!
    Quando se fartar da política volta e dá-me de beber!
    Beijos, um montão!

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  2. Obrigado por recordares Leminski - o faixa-preta que colocou Curitiba no mapa das letras. E que melhor homenagem que esse polir ritmado da palavra? Abraço

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