quarta-feira, 13 de abril de 2011

Polpa, aroma e arte – uma novela imaginal

Na nota final que Nicodemos Sena adicionou à sua novela, «A Mulher, O Homem e o Cão» (Letra Selvagem, 2010), e onde se dirige directamente ao leitor, lê-se: «Oxalá não tenhas interpretado apenas como fantásticos e excepcionais os acontecimentos narrados neste livro – bichos que falam, homens que se metamorfoseiam em plantas e animais, cidades submersas, gente que emerge das águas, seres insepultos, sentimentos personificados… A essência do real não se encontra na visão estereotipada dos fenómenos; ao contrário, um sonho extraordinário pode se converter na realidade mais nítida e bruscamente desenhada».
Podemos encarar este aviso do escritor de duas formas, ora como irónico (com uma piscadela de olho o autor estaria a sinalizar o género literário em que se situa), ora como profissão de fé. Arriscamos, Nicodemos Sena – que diria com o poeta Alain Bosquet: ‘No fundo de cada palavra, assisto ao meu nascimento’ – alinha pela segunda.
Nicodemos Sena será hoje talvez, na ficção, o mais lídimo representante do «imaginal» (já lá iremos) da Amazónia.  Não falo de uma escrita de alguém oriundo ou a partir da Amazónia, como António Moura ou Olga Savary, mas de um autor-arauto que dimana dos mitos da sua comunidade como a manga da mangueira, com polpa, aroma e arte.
Os elementos da narrativa parecem quase minimais: uma mulher, um homem, um cão, os seus múltiplos ou metamorfoses: a criança-passarinho, o homem-cachorro, a cobra, o boto, a criatura de sete cabeças e dez chifres, a encantaria (isto é, nas lendas da Amazónia, o mundo resplandecente e invertido que vive no fundo das águas). Tudo isto comandado por uma mobilidade-transitiva-das-identidades, numa espécie de jogo de matrioskas, cujo mecanismo se dá logo no segundo parágrafo da narrativa quando, para falar da manhã que nasce, se descreve que «o sol – que, como o senhor, sabe tem uma língua esponjosa  - já lambia coisas e pessoas, pessoas e coisas, pois aqui tudo dá no mesmo» (sublinhado meu). Acresça-se a estes elementos o enigma, que funciona como gancho: quem narra e a quem é narrado nesta história - e teremos os ingredientes desde pequeno-grande livro.
À primeira vista parece de facto estarmos diante duma narrativa fantástica, sem mais; a diferença neste autor, já detectável na sua novela anterior, A Noite é dos Pássaros,  como também em Vicente Franz Cecim, é que as suas narrativas superam em muito o estado de «rêverie» para se situarem num outro plano gnoseológico.
Que quer dizer coisa tão abstrusa? Talvez nos ajude a pensar – e afastando logo a alegoria, um espectro não desejado – a distinção que C.S. Lewis faz entre alegoria e símbolo. As duas figuras são manifestações do pensamento analógico, ambas postulam uma relação secreta entre “aqui e acolá” entre o mundo das ideias e o das coisas. Mas a alegoria é uma projecção imaginada enquanto o símbolo funciona como a cópia ou reflexo do mundo imaterial, sendo um suporte para a incarnação.
Esta distinção introduz um outro plano, não apenas na ordem da leitura, como na ordem do real, e aproxima-nos do «mundo imaginal» e da sua «geografia visionária», tal como os mapeou Henry Corbin, filósofo francês, nos seus estudos sobre a filosofia e mística iraniana do século XIII. Estes autores, di-lo Corbin, repetem incansavelmente que há três mundos: a) “o mundo inteligível” puro, b) “o mundo imaginal”, designado como el Malakut, o mundo da Alma e das almas; c) “o mundo sensível”. Esse mundo intermédio, é um mundo tão real, ontologicamente, como o mundo dos sentidos e o mundo do intelecto.
Esclareça-se que esta concepção não é apenas Persa. O Mundo dos Antepassados, dos povos Bantu, ainda vigente no imaginário africano, participa desta visão de um mundo articulado nessas três modalidades do real. O mundo de alguma poesia visionária de todo o mundo reflecte também este articulado. De igual modo, o imaginário da Amazónia.
Que importância têm isto? Toda, na medida em que implica uma noção do que é a imaginação ao arrepio da que é comum. De comum associa-se a imaginação à fantasia, e reconhece-se a imaginação como faculdade da alma mas não como “parte da alma”; a imeginação recorta-se então como uma espécie de heteronomia lúdica - na sua feição positiva - ou, nos seus aspectos nocivos, como a fonte da paixão da alma e das suas  desordens. Mas a fantasia, lembra Corbin, pode ser inofensiva enquanto o imaginal nunca, exactamente porque a sua “função fantástica”, diria Gilbert Durand, “não desempenha na prática o simples papel de refúgio afectivo, ele é bem uma auxiliar da acção”, uma coisa concreta, experimental, e não um mero exercício intelectual. Trata-se da “imaginação agente” que reivindicavam William Blake e Coleridge e que hoje reconhecemos actuante em Herberto Hélder, por exemplo.
Daí que classificar Nicodemos como um autor de narrativas fantásticas seja uma maneira redutora para designar um processo (ou um jogo) que opera com vários níveis da realidade, e onde a imaginação tem um valor reminiscente.
As sociedades hodiernas não gozam de um qualquer núcleo ou centro determinado que produza identidades fixas, verificou-se um deslocamento de centros e vivemos embaraçados pelo facto desconcertante do inegável progresso tecnológico mostrar-se afinal incapaz de produzir uma “representação do mundo”.
O que era até aqui a cultura? O aparato com que se organizavam respostas. Ora, a indeterminação tornou-se a rede onde nos aconchegamos para a sesta. Não creio que para a literatura tenha sido diferente e se é hoje nítida uma morfologia clivosa na comunidade literária a isto se deve: estamos face a distintíssimas manifestações com uma aparente comum origem mas que visam meios, objectivos e “realidades” muito diversos. Convém falar disso. Quero com isto declarar que existe uma literatura do lado da fantasia e outra do lado do imaginal, e que toda a literatura de molde visionário viaja nesta última esteira, que é, diga-se, um modo operatório para sair do tempo cronológico para entrar num tempo qualitativo e numa dimensão suprasensível, aflorada numa especial percepção da realidade, e não um mero efeito da fantasia-placebo, como acontece em Harry Potter, ou  Tolkien, por exemplo.
Mas nada disto servia para alguma coisa se literariamente a coisa não se sustentasse. «A Mulher, Homem e o Cão» é uma vigorosa e rigorosa narrativa, que entrança-múltiplas-estórias-dentro da história e nos interpela com o seu modo secretamente polifónico, posto que às vezes a sua elocução muda como mudam as personagens de pele, metamórfica. Por exemplo, toda a primeira parte, após breve preâmbulo do homem, é narrada pela mulher e isso implica um prisma do mundo e um tipo de diálogos e relato muito distinto do que é encetado logo a seguir quando se conta a história do menino triste, da sua alegria com o cão e do seu rapto pelo passarinho, seis páginas que a meu ver constituem o gancho que nos agarra definitivamente ao livro. E esta variação continua consoante vão desfilando as estórias delirantes, digressivas, sem que se perca nunca a unidade, o foco. O que era difícil numa narrativa deste género, lembro uma narrativa desta linhagem, o famoso O Bebedor de Óleo de Palma, do nigeriano Amos Tutuola, um dos livros inaugurais da moderna literatura africana, e que palmilha num igual universo digressivo, de uma imaginação sem freio, mas que se perde, a meio da narrativa, perdendo a intensidade do começo. Nicodemos Sena exibe por isso aqui um domínio técnico-narrativo que é por si só um atestado irrecusável, mas junte-se a isto a limpidez da escrita, o veio poético na esteira do estranhamento e do maravilhoso de Guimarães Rosa, e, o que é mais difícil, sem sombra de epigonismos.
Agora que o universo do moçambicano Mia Couto começa merecidamente a penetrar junto do leitor brasileiro, a Amazónia oferece na mesma linhagem um autor maduro e assaz fulgurante.
E quem narra? O segredo é a alma da leitura.  
nicodemos

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1 comentário:

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