quarta-feira, 5 de setembro de 2012

PSICODELIC SNAKE

PSICODELIC SNAKE se chama a exposição que hoje inaugurará na Fortaleza, em Maputo, de Rafo Díaz, um peruano excelentíssimo que, quis a sorte e o destino, habita entre nós.
Rafo é um andino puro e um maravilhoso contador de histórias que palmilha todos os anos milhares de quilómetros para alegrar as crianças com fábulas e lendas locais ou amazónicas e que, num país decente, já tinha sido adoptado como cidadão honorário, mas que aqui faz o seu percurso apesar de.
Desta vez não nos vai contar histórias de embondeiros, como as que coleccionou no seu livro "O Coração Apaixonado do Embondeiro", mas desce (ou sobe) na vertical à sua alma xamânica para nos apresentar "a sua particular viagem" com cobras, que, inquietantemente, mistura com os padrões das capulanas.
Daqui, esta exposição seguirá para Nova Iorque, e por isso é aproveitá-la enquanto podemos, pois a seguir as peles das cobras serão largadas em terras do yanke.
Para o catálogo da exposição escrevi este pequeno texto:


ORAÇÃO

Ilimitadas e imortais,
                                    as cobras
são o princípio e o fim de todas as coisas da terra.
                  Músculos de deus ou do diabo,
consoante se aninhem no coração ou na mente,
          é negro e bífido o seu relâmpago.
Ao seu coleante aceno o vento
                                                 eriça-se.
Conhecia as cobras de mel,
que no Peru vão dormir no oco das flautas,
                       mas as que se dissimulam nas fibras,
            nos padrões das capulanas,
acordam um metal na voz.
                      E fica mudo
aquele que as vê deslizar dos tecidos
               para o meio das letras,
sentindo que lhe cosem no olhar diamantes tão frios
que só sobra uma pergunta:
                                             quem escamou o sol?
É com estas cobras que o Rafo Diaz nos encadeia,
               e, se por duas vezes seguidas elas nos fixam,
                           como imagens mortas
se desprende a nossa pele.
Só então os olhos do meu espírito
circundam na tua boca os Seus favos de silêncio.

 

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