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foto de ricardo rangel |
E a minha Maputo é… chama-se o livro colectivo de que participo e que será lançado no próximo sábado, na Minerva – que aliás o edita.
A minha Maputo é uma ilha flutuante, rigorosamente inapreensível, porque nada é certo ou está cristalizado, tudo dança, como o uso dos verbos que já mudaram todos os modos e significados – onde era levo passa a trago e quem ia vem. Nas aulas, sou rigorosamente contra, fora das aulas sou a favor das danças de salão e todas as fugas à lei me divertem. Quando a gente chama Livraria a uma loja e só vende motorizadas e artigos de serralharia; ou combina almoço na segunda e aparece na quarta ao jantar, ou chega alegremente a uma universidade com a bagagem da quarta classe e nos conduzimos convictamente como cábulas, não há que esperar nenhum tipo de realidade fixa: tudo é dunar, é apenas uma questão de oportunidade e sintonia com o trânsito do momento.
Por isso, acrescentando o que ficou por dizer no meu texto, a minha Maputo é:
o “vigarista do aeroporto”. O homem que ao longo dos anos me abordou 30 vezes na rua para me perguntar se eu não me lembrava dele, da alfândega do aeroporto, e me cravar cem ou duzentos meticais como garantia de que “passará tudo na terça-feira”; dia em que me insiste em despachar para fora do país, impreterivelmente. Ao fim de 30 abordagens recomendei-lhe uns comprimidos para a amnésia e obriguei-o a pagar-me uma cerveja por tanto incómodo causado. E então levei-o a dizer-me o nome verdadeiro: Evaristo. Evaristo, o vigarista, é um anagrama e uma aliteração de si mesmo, como Maputo em muitas outras dimensões;
o puto que no Xipamanine fez correr o zip (o fecho éclair) para mostrar à francesa a sua ponte de brooklin;
o Museu de História Natural, onde já foi empalhado o leão do Jardim Zoológico, que de tão magro dava flor;
os bares do Museu onde o Emílio Manhique faz gargarejos com gemadas e o Eduardo White faz de cada xirico uma corda na ensanguentada lira do Bocage;
os gala-gala, que quando se viram do avesso são os guarda-chuvas de deus;
a biblioteca do Franco-Moçambicano, a única biblioteca de jeito numa cidade onde toda a gente finge que lê em inglês;
o Piripiri, com a sua montra em acordeão, e que só toca quando o vento vira as saias das boers;
a agressividade com que os jornais parem rato sobre rato, sem lograrem arranhar a montanha;
a promessa de um dia vir a conhecer pessoalmente a Andorinha;
o Zambézia, onde gosto de assistir a partidas de futebol, porque nessas horas se alastra uma hilariedade que não se compadece;
a Garaginha, onde o Zé Cabral, o Tuxa e o Zé Tomás fazem blocagem aos espíritos daninhos, com um humor rigorosamente homeopático;
o Jardim dos Professores, onde invariavelmente me imagino proprietário do Hotel Cardoso;
o bar dos CFM, uma gema que não frequento porque servem um inflacionado uísque marado;
um honesto caranguejo envenenado pela minha gula, num fim de tarde no Mercado do Peixe;
o zunzum dos taradinhos da vela, no terraço do Marítimo, enquanto as crianças brincam aos bombeiros na piscina;
as vociferações do José Flávio contra a alarvidade, a ignorância, de um quadro do Partidão, que se identifica no Facebook com um retrato do Hitler e chama a tamanho disparate «o nosso sentimento»;
os cafés com o João Paulo e o Khosa, placidamente adiados;
tempo, tempo para ler, tempo para escrever, e voltar atrás e amassar numa nova versão, até ao dislate;
o amor que tenho à minha mulher e que nesta cidade sangra;
esta história que me contou o José Forjaz: um dia, à beira da independência, o António Quadros/Grabato Dias e Ricardo Rangel, normalmente dois folgazões, apresentaram-se na esplanada do costume com cara de poucos amigos. E assim continuaram, lacónicos, numa tristeza que contagiava quem se sentava. Até que alguém estranhou tanto rigor mortis neles e lhes invectivou o trombil. Resposta solene do Quadros: «estamos a ver passar as últimas mulatas!».
Não se cumpriu a profecia e a própria cultura da cidade continua mestiça, ainda que o poder não goste. Também é isso a moçambicanidade… e a minha Maputo.
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