sábado, 15 de dezembro de 2012

PELO GRITO GALGAM ÁRVORES


Salvador Espriu é um poeta catalão que sempre admirei, desde que, adolescente, li A Pele do Touro, e que releio periodicamente. Hoje voltei a fazê-lo e traduzi estes canteiros, fragmentos de vários poemas, que juntei, numa ordenação nova. A edição que me serviu de pano de fundo é a Antologia Lirica da Catedra, uma antologia bilingue editada por José Batlló.

1

Pelo grito galgam árvores.

 
2

Cada manhã contemplo
dois pés de vencido dentro
de sapatos que riem.

 
3

Voavam falcões
sobre a certeza

da minha morte.

 
4

Contar-te o medo
que me dá a chuva nos cristais!

 
5

Navio serenado pelo mármore.

6

A lenta ferida do rio
e o incêndio do céu.

 
7

Derrama-se o sangue pouco a pouco pelos socalcos da rocha
e assusto-me ao sentir-me sonhado, no vento,

pela impassível luz das altas montanhas.

 
8

Como me rodeia o bosque!
Esconde-me das árvores

do meu medo.

 

9

Reminiscência do sândalo,

tão aveludado.

Oh, a saudosa neve

de umas mãos.

 
10

Que é a verdade?
A solidão do homem

e o seu secreto espanto:

só, talvez, este homem,

o teu esconderijo.

O poder sentencia

um rei de mãos atadas.

Longinquamente, na noite externa,

ouvimos como cantam galos.

Alastra um rumor de matracas

 as luzes murcham.

 
11

Que é a verdade?
Quem sabe se tu, talvez tu

ou também tu. Talvez ninguém.

Entretanto ventos e lobos baixam dos ermos

onde reina erguida sobre o gelo

a negra torre, medida, dedo

ilimitado do que é finito,

e a faixa se converte exacta num ponto

e dentro, sepulto, o tempo defunto.

Não há começo, descanso, nem quem

vença o nu espanto do caminho.

Arco escuro, alçado olho da noite:

na clausura do vazio, falho de sentido.

 
12

As palavras são
forcas onde aos poucos

penduro a razão.


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