sábado, 29 de novembro de 2014

LOTE DE SALVADOS, VINTE E DOIS

Mário Quintana



Macedonio Fernández, um amigo do pai de Jorge Luís Borges e um curiosíssimo escritor, escreveu um livro onde jocosamente reúne primeiros capítulos de obras virtuais e nunca completadas.
É um espantoso “jubileu do fracasso”.
Nunca terei fôlego para tamanha contenção… é como os haikus, o mais difícil não é fazê-los mas ter a coragem de não os estragar com a tagarelice, o que raramente acontece.
Porém, semanalmente, lá pinga um primeiro parágrafo de um conto ou livro, que na maior parte dos casos esqueço rapidamente, na desarrumação dos cadernos.
Ontem veio-me este:
«Quando o seu carro embateu a alta velocidade na roda do camião, ainda Pedro Aires não tinha reflectido sobre se o erro ou pecado natural aos homens resultaria da perda de uma condição pristina original. Pedro Aires era até aí um homem de acção, que decidia instintivamente, como se cada situação não passasse de um implante no seu corpo, todavia distante da promessa do raciocínio. Mas, enfim, a proximidade da morte actua como um aguilhão e por isso Pedro Aires acordou do seu coma disposto a ponderar todos os seus actos, desde Adão até ao oitavo uísque que emborcou na borga com que comemorava a sua eleição como deputado.»



A propósito de haikus, capturei dois numa Canção do Mário Quintana. Ei-los, vão a amarelo:

CANÇÃO MEIO ACORDADA

 Laranja! grita o pregoeiro.
Que alto no ar suspensa!
Lua de ouro entre o nevoeiro
Do sono que se esgarçou.
Laranja! grita o pregoeiro.
Laranja que salta e voa.
Laranja que vai rolando
Contra o cristal da manhã!
Mas o cristal da manhã
Fica além dos horizontes...
Tantos montes... tantas pontes...
(De frio soluçam as fontes...)
Porém fiquei, não sei como,
Sob os arcos da manhã.
(Os gatos moles do sono
Rolam laranjas de lã.)

Se eu fosse o Mário Quintana, acabaria por transformar o poema em dois haikus, mas ainda bem que ele nos deu a alegria de me contrariar.
No outro poema que cito em baixo também só ficaria com o que pus a colorido:

CANÇÃO DE OUTONO
PARA SALIM DAVI

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida...

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo...

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma...
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!

Mas isto sou eu a ler dois poemas de 1940. E o Mário acabou por fazer uma obra magicamente enxuta, cristalina, e bem-humorada como em poucos. Não sei porquê, cheira-me que a feliz “leveza” do Jorge de Sousa Braga, teve aqui um mestre.


Partilho esta ideia de Montale: «Toda a arte que não renuncia à razão, mas que nasce do choque da razão com algo que não é razão, pode também chamar-se metafísica». Esta tensão existe, e acho piada que no horizonte da aporia se abeire a metafísica.


Arguto Valéry: “Todos os políticos leram a História, mas ficamos com a impressão de que só a leram para daí retirar a arte de reconstituir as catástrofes” – lê-se, pasme-se, num poema inacabado.


“O racionalismo mantém com a superstição uma relação de complementaridade”, defendia Jung, e isto é claríssimo nas ideias-feitas (mágicas) que precisamos de urgentemente abandonar para reconstruir uma ideia de futuro que construa virtualidades que, embora sem ferir o fluxo e o ritmo das coisas do presente, rompa a barreira dos artifícios retóricos - os quais habitualmente degeneram em superstições.
Por exemplo, a justa ideia de que os homens devem ter todos as mesmas oportunidades, desencadeou a superstição que infere que os homens são todos iguais.
Só quando uma ideia faz nascer uma sensibilidade, um novo discernimento, é que deixamos de ser apenas intérpretes de projecções passadas e reféns da sedução da inteligência que naquelas se arma.



ESTUDAR A NATUREZA

O girassol não delata.
Não há peças sobressalentes
Para a polinização.


Necessitamos da nostalgia de Deus. Deus já seria um excesso.


Em frente à paragem do chapa tem uma tasca atamancada – cimento cru e grades sobre bandas de vermelho pintadas para anunciar uma marca de cerveja - como são quase todas na periferia de Maputo, ladeada por duas garagens, uma que parece o Museu do Escape, a outra especializada na recauchutagem de pneus. Engraçado é os nomes escolhidos para as garagens: a Auto-Motora Passarinho e a Auto-Motora Passarão. Explicam-me na tasca que ambas pertencem a dois cunhados desavindos, e que a primeira, a dos escapes, é de alguém de apelido Passarinho, o que determinou o nome da outra garagem, escolhida por pirraça e sarcasmo.
Mas a graça completa-se porque descubro este mimo - e isto configura aquilo a que o Jung chamava uma "sincronicidade" - no dia em que começo a ler a obra completa de Mário Quintana, de onde pesco esta delícia:

POEMINHO DO CONTRA

Todos esses que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
 



sábado, 22 de novembro de 2014

E QUEM NÃO TRABALHA NO CIRCO? VALÉRIO ROMÃO


Esta época que precede o Natal é de alguma folga, o que me permite ir aos cadernos catar alguns textos para o lote de salvados. Este é o primeiro, o lençol que li em Novembro passado em Lisboa para a apresentação da segunda novela do Valério Romão. Cá fica:



Num conto magnífico de Ray Bradbury narra-se como a mulher mais gorda do mundo vai ao psicanalista e roga, carente, sr. doutor preciso absolutamente de engordar, o meu marido já olha para as outras mulheres. O psicanalista fica tão desconcertado que lhe pede para precisar as suas motivações. E então ela conta, o meu marido trabalha no circo, é o homem que é disparado no canhão, mas na verdade ele é um artista, um pintor de paisagens. O suporte para as suas pinturas é a minha pele, e assim que ele me viu percebeu que tinha em mim a superfície para a sua obra magna, algo tão complexo e rico como a Capela Sistina… e então durante sete ou oito páginas ela descreve a obra do marido, as suas imagens, com uma minúcia como só se encontra no escudo de Aquiles, em Homero, onde os horizontes se sobrepõem, encantando-nos, com o seu suceder sem fim, e, depois da descrição que nos deixa sem fôlego, lastima-se porque já não tem uma réstia de pele que esteja por tatuar e daí que necessite de engordar para que a superfície da sua pele dilate e volte a ter espaços em branco, antes que o marido se proponha continuar a sua obra na pele das mulheres gordas que já catrapisca na duração da sua elipse como homem-bala. O psicanalista fica tão fascinado pela descrição da pintura que pede, Mostra-me a obra do seu marido.
A paciente anui ao pedido e despe-se e diante dos olhos do psicanalista apresenta-se uma pele incólume, nua, sem um único traço, cor ou desenho tatuados.
E o conto acaba no momento em que os olhos do psicanalista desfazem a sua crença, enrolado, como nós leitores, pelo transe da narrativa, ainda que não saibamos se ele foi também tomado pela alucinação.
Este conto é uma das mais magistrais provas do sortilégio da ficção e age em nós como um truque de ilusionismo, poucas vezes repetido com esta perícia.
Pois começo por ousar dizer que o Valério nos conduz com a mesma habilidade, conseguindo construir diante do leitor “bolsas de espaço intersticial” onde se desdobram figuras, numa poderosa cenografia da miragem – sendo este, para além dos assuntos de que trata, o seu primeiro condão: ler um livro do Valério é um jogo que nos agarra do princípio ao fim, num acto de sucção. Como é que isto nos acontece?
Havia um grande editor francês, o Jean Paulhan, que um dia recusou um manuscrito a Henri Calet nestes termos: “É genial, mas é liso!”. Esta é uma particularidade de que o Valério Romão não padece: nenhum dos seus livros é liso, como a maior parte da literatura de hoje, que confunde a novelização com o romance. A novelização é o género com que dantes se adaptava a livro alguns filmes de êxito, e cujo fluir narrativo era naturalmente condutivista como o cinema, carecendo as suas personagens de espessura. Pelo contrário, tanto Autismo, como este O da Joana erguem-se contra a lisura e apresentam picos, pregas, rugosidades, descidas verticais ao íntimo das personagens ou das cidades, zooms e travellings, zonas de opacidade e esclarecedores flash-backs, num trânsito de duplo sentido que faz com que as criaturas e a urbe sejam um mútuo reflexo especular invertido.
Este mecanismo narrativo - o jogo da inversão - é aliás exposto pelo autor que por duas vezes no texto convoca a Alice, de Lewis Carrol, como no momento em que Joana pensa: «gostaria de ter uma faca para poder fazer uma incisura no corpo frágil e plástico desta miúda confusa e, entrando nela aos poucos, pelas costas, magicamente, como no espelho da Alice, até lhe ocupar o espaço todo do corpo, numa invasão de parasita, carregá-la como uma segunda pele…».
Que conta pois O Da Joana? Simplesmente o percurso mediante o qual uma mulher habituada «a preparar sempre tudo», grávida de uma criança que espera com tal afinco que já tem um quarto mobilado para ela há oito anos, quarto este limpo todos os dias, e que já foi remodelado quatro vezes e pintado todos os anos, uma mulher tão prevenida que até já se familiarizou com a vista aérea da maternidade pelo Google Maps; o livro, afinal, conta a inversão especular de uma mulher que estava grávida e que acaba por ficar dentro do seu útero, inconsútil com a sua placenta.
Claro que falamos figurativamente, ou seja, psiquicamente esta mulher fica em clausura dentro da placenta que gerou – é uma Alice que passou para o outro lado do espelho e que vive uma metamorfose truncada.
Então, nessa condição, Joana descobre que toda a realidade é espúria porque é irrigada, tal como as placentas, por pontos de fuga que nos minam qualquer ilusão do controle, pelo que à beira de perder o seu, Joana, numa verticalidade trágica agarra-se à única palavra que lhe serve de salvo-conduto para que «a realidade não lhe fuja por inteiro»: a palavra morrer, que agónica repete como um mantra. Eis um dos momentos mais fortes do romance e dir-se-ia que nele, Valério Romão, que vem da filosofia, responde a Descartes e à sua dúvida metódica, da forma mais inesperada e paradoxal: “eu morro, logo sou…” - única certeza daquela mulher a quem a loucura submerge num discurso ininterrupto que a vaza para o “neutro”, a tal ponto que até os tectos lhe falam.
Mas por que é que isto funciona tão bem? O romancista turco Oran Pamuk explica:
O prazer real de ler um romance surge com a capacidade de ver o mundo, não a partir de fora, mas pelos olhos dos protagonistas que habitam esse mundo. (…)”.
Portanto, a cartografia do espaço interior às personagens reproduz-se na cartografia do espaço exterior, e as paisagens dentro do romance convertem-se, como quem não quer a coisa, numa extensão, numa parte do estado mental dos protagonistas, e isto acontece, repito, como quem não quer a coisa – daí que que o romance nos agarre, o sermos capturados.
Mas há outro mecanismo de captura nos processos técnicos do livro. O Valério faz progredir a narração em frases longas, que não separam os eventos das descrições, as reflexões das situações ou dos diálogos, e que sabem entrançar as emoções e os pensamentos dos protagonistas com os objectos que os rodeiam. Este processo narrativo torna-nos mais íntimo das personagens porque se desenrola como se conversasse com o leitor.
Em Portugal, este modo de urdidura polifónica da frase, que introduz vários planos temporais, várias lentes e vários movimentos de câmara no fluxo de uma frase, foi realizado com perícia por José Saramago e às vezes por Lobo Antunes, e isto coloca-nos diante do assombro técnico que este pequeno livro é.
O da Joana aparentemente tem uma estrutura mais simples que o primeiro da Trilogia, o Autismo, mas é uma ilusão. Tecnicamente é um livro mais ousado porque não só consegue condensar em 150 páginas uma rede infinita de sinais e de memórias, ao arrepio da simplicidade da sua trama – uma mulher a quem rebentam as águas vai para o hospital ter a sua criança -, como a sua unidade temporal – o enredo passa-se em poucas horas da vida das personagens – obrigava a um muito maior prova de fôlego quanto à perícia romanesca de Valério Romão. Ora a sua habilidade para o detalhe ampliou-se, e aquelas duas exigências foram plenamente superadas.
Há ainda uma outra qualidade elencada por Pamuk e que se patenteia em O da Joana. Diz o romancista turco, “Num romance bem construído, tudo está relacionado com tudo, e essa rede de relações forma a atmosfera do livro e, ao mesmo tempo, aponta para o seu centro secreto”, de modo, que “achamos os indicadores desse centro em toda a parte e que o centro conecta todas as partes do romance”. Isto é muito nítido neste livro, dou como um exemplo entre dezenas, o teor do documentário que Jorge, o marido, vai espreitando numa sala de espera, e que se debruça sobre a vida dos cegos e a sua condição, dificuldades e superações, num pequeno aparte cuja significação se avolumará. O que Tchecov explicava numa lei dramatúrgica: se uma espingarda aparece sobre uma chaminé no primeiro acto a arma terá de ser utilizada no terceiro acto.
Quero frisar ainda um último aspecto. Um bom romance rouba-nos o tempo da sua leitura mas compensa-nos com uma intensidade que não experimentaríamos sem ele. Ou seja rouba-nos um fragmento do nosso tempo linear mas restitui-nos um naco de tempo magnificado, ao contagiar-nos com o seu campo de forças. Ainda que o seu tema nos agrida a sua energia enreda-nos, vivifica-nos. Daí que não concorde com o tom pesaroso com que algumas crónicas comentaram esta novela, com críticos a referirem-se ao seu realismo cru, selvático até. Não sei porque no cinema aceitam tudo e face à literatura reagem como puritanas galinholas. O livro, sim, convida-nos a enfrentar temas duros mas a sua integridade, o seu ritmo, a ressurreição narrativa com que a sua leitura nos cavalga, são banhados por uma luz que cura.
Por outro lado, esta ficção, o que ainda não vi referido, polvilha-se aqui e ali de algum humor que matiza o trágico. Vou dar três breves exemplos:
Pág., 52: «pondo à mostra a barriga que parece um daqueles pães-de-ló extraordinários, que mirram imediatamente assim que apanham uma corrente de ar»;
Pág. 97: «…a miúda suspende as lágrimas por um instante, o tempo de indagar, pelo olhar, as intenções de Joana, detém-se nela, ciclicamente, como se auscultasse a frescura de uma alface…»;
E diz-lhe o tecto, na pág 91: «…tu devias estar no controle da situação, ser dona do teu tempo, o filho é teu, por mais poder que esta gente detenha sobre a maneira de o teres, tu tens o poder da identidade e da maternidade, e pareces indefesa até ao tutano, até um tecto te dá lições de moral, Joana…»
E podiam-se ir buscar mais uma dezena de bons exemplos.
Enfim, dizia o Godard, uma bofetada só é bofetada à segunda, à primeira é unicamente espanto. No caso do Valério, a bofetada repete-se e confirma-o como um dos melhores novos valores da narrativa portuguesa… mas no caso de O da Joana também se repete o espanto, pois creio ser este de novo um dos melhores romances do ano. Basta pensar-se que o facto de podermos conhecer, sinopticamente, o seu assunto, a sua trama, ao contrário de tantos romances de hoje, não lhe invalida o interesse, pelo contrário, pois o seu desafio, para além da qualidade humana da história e das suas soluções, está no «como» – qualidade que é para poucos. Como o Bradbury… ou o Valério.



domingo, 12 de outubro de 2014

O PLANO PARA A SEMANA

b.kasper

O texto que “celebra” o fim de umas semanas de violenta clausura a vomitar um odioso relatório que me congelou, entristeceu, e absorveu todas as forças, paciência e ânimo , roendo até as rotinas. Estou na porta de saída e por isso celebro com um plano para a semana. Isto, enquanto, para lembrar Quintana, preparo o chá para os fantasmas.



Coração pelado, algoritmo
de um gato que cruza
o enquadramento em patins de gelo
- num lago em Montana.

De que vale imaginarmos
que ficamos sem pé
a meio de um lago que degela
a norte de Montana?

Parecem esculturas os tubos
de escape fundidos que anunciam
mecânico em Maputo
- fica-te pelo que vês,

e mija dentro do penico.
Ao domingo. À segunda
agarra-te ao teu coração pelado
em Kobani. Arrasta essa dor

até terça. Na quarta lembra-te
que até as matilhas de lobos
sonham. E por essa frincha
de néon deixa que o amor

te indemnize, mesmo em torvelinho.
Recomeça. Algoritmo de um gato
que sob a exsudação dos coqueiros
e um fedor a gasolina martelada

ensina a ler Eurípedes
em papel bíblia
sem que nenhum muezim
consiga calar o seu canto.

Eis um bom plano para a semana.
Tenta agora manter-te no encalço
do domingo, no sereno travo
que os centauros apreciavam no bacalhau.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

CONSTRUÇÕES PORTUÁRIAS 2/ Traduzido da Noite, de Jean-Joseph Rabearivelo

                                                                jean-joseph rabearivelo
E o dia nasceu aziago e o computador não despertou com ele, avariado, lixando-me os planos para a semana, entre os quais postar os diversos materiais que vinha a preparar para uma simulação de um segundo número da minha revista Construções Portuárias.


Tinha traduzido Gonzalo Rojas e Charles Olson, além de Rabearivelo, que felizmente vertera noutro computador. Teremos de ter paciência e aguardar um dias.

Jean-Joseph Rabearivelo, nascido Joseph-Casimir (1991- 1937, Tananarive), foi um poeta malgaxe, considerado o primeiro poeta africano moderno. Teve de tudo na vida: cinco filhos, dívidas, a prisão, a paixão do jogo e o vício do ópio. Leitor voraz e autodidacta, as suas ambições foram sempre torpedeadas pela canalha de secretaria do estado colonial. Acabou por suicidar-se.
As versões são minhas, a partir de Traduit de la nuit, recolha de poemas escolhidos  e apresentados por Gonzague Raynaud na colecção Orphée , de La Différence





I

Gira uma estrela púrpura
na profundidade do céu
- que flor de sangue
desponta na várzea nocturna

e gira, gira
como o escaravelho que a mão de um menino
adormecido soltou?

parece aproximar-se e afastar-se, alterna,

e perdida a sua cor como a flor que já definha,
torna-se translúcida nuvem, reduz-se:

flébil ponta do diamante
que estria o espelho azul do zénite,
donde já se aprecia o proveitoso
engodo da mais núbil manhã.



 IV

Que se passa debaixo da terra,
no nadir longínquo?
Se te inclinares rés à fonte
na margem de um rio
ou de uma nascente:
surpreenderás  a lua
a desaguar num ralo
e ver-te-ás a ti mesmo,
luminoso e calado,
entre as árvores sem raízes,
donde surdem os pássaros mudos.


V

Dormes, minha bem-amada;
dormes nos seus braços, tu, a última a ter nascido.
Estão-me vedados os teus olhos carregados de noite
que por hábito se irisam como autênticas pérolas
ou uvas maduras.

Uma rabanada de vento entreabre a nossa porta
enfuna a tua túnica
e agita o teu cabelo, depois revolteia um papel
sobre a mesa, quando o agarro
já roça a batente da porta.

Levanto a cabeça,
o poema começado na mão:
nos teus olhos pestaneja o azul
e eu chamo-lhes “estrelas”.



da edição inglesa



VI

Um pássaro sem cor e sem nome
despenteou as asas
e feriu o único olho do céu

Agora pousou numa árvore sem ramos,
cravejada de folhas,
que nenhum vento estremece,
e cujos frutos, olhos abertos, ninguém colhe.

Que incumba o pássaro?
Quando ele retomar o seu voo,
não sairão dos seus ovos senão galos:
galos de todas as aldeias
que terão vencido e dispersado
os outros que cantavam nos sonhos
e se alimentavam dos astros.




XI

Quantos gémeos são, os ventos?
São todos acostumados diabretes
que se perseguem logo que saem da erva
rasa e galgam os muros que se imaginavam
duplos, saltando por cima dos telhados
onde recolherá o orvalho,
para se curvarem sobre as colinas
e aí sacudirem as mais colossais e inextricáveis árvores,
das quais, num estampido, debandam pássaros
com olhos de vidro
e que em sítio nenhum fazem ninho,
ou as bagas oblongas como gemas de quartzo
que, à falta de se reproduzirem em terra,
se fundem nas estrelas cadentes.



XIX

E o dia chegará, em que um jovem poeta
realiza o teu voto impossível,
por ter somente conhecido os teus livros
raros como as flores subterrâneas,
os teus livros escritos para cem amigos,
e não para um, e não para mil.

Sobre o golfo de sombra onde ele te lerá,
à única luz do seu coração
onde o teu voltou a latir,
ele não te imaginará pastor
de uma pacífica ondulação
que continua a adensar os ignotos
abismos submarinos,
onde o sol não chega,
como não chega à areia, nem à terra vermelha,
nem abaixo dos penhascos devorados por líquenes,
que se estenderão até ele
até ao país dos vivos
cegos e surdos desde o Génesis.

E levantará a cabeça
pensando que é ali, no céu,
entre as estrelas e os ventos,
que se ergue a tua tumba.



manuscrito de rabearivelo


XXV

Películas  de água, cristais reluzentes
- óculos para míope ou para cura? –
veludos da pupila
lisa como o cútis branco das açucenas
e mais frágil do que a unha de um recém-nascido.

Os ventos nascem para lá das montanhas
e deslizam até aqui onde dormem as plantas
cujo reino saqueiam e logo abandonam.

Ímpeto de luz que os persegue
até ao deserto sideral
coberto de películas de água, de cristais,
e dos veludos da pupila
que resplandecem silenciosamente
e indicam uma senda por desmatar
e entrecortada por um rio de seixos,
até essa lua vesga
que nele ondula
e que alucinaria o menor movimento dos seus cílios.




XXIX

Existe uma água-viva
que mana do desconhecido
mas que também encharca o vento
que bebes,
e tu aspiras à sua descoberta
por detrás desse penedo maciço
desgarrado de qualquer astro sem nome.

Inclinas-te
e os teus dedos acariciam a areia.
De súbito rememoras a tua infância
e as imagens que a enfeitiçaram – sobretudo
a que encimava estas palavras ingénuas mas intrigantes:
“A Virgem dos sete Dólares.”

Eis outra água-viva,
como flui, intérmina, sob os teus olhos
como atiça a tua sede:
agora que a tua sombra
- a sombra dos teus sonhos –
se cinde em sete partes
e, emergindo de ti,
agrava a noite já densa.



XXX

Vãs, todas estas antecipações
que nos querem dar asas
e nos prometem
que um dia seduziremos marciana?

Vã também a quimera
que perdeu a Ícaro
mais que ao sol
que bebeu a esplêndida cera?

Mas que triunfo seguro
me anunciam já todos estes signos
que terra e céu se enviam
na orla do sono:

nas nossas cidades de vivos
até as mais humildes choças
respondem aos apelos do fogo,
que jorram das estrelas nascentes.