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sábado, 30 de julho de 2016

O VENTO E A ESCOLTA, 29/08/2016

irving penn


Quando estou num período mais repousado, por questões de equilíbro e ecologia mental, tento traduzir ou fazer versões de pelo menos um poema por dia. Hoje descobri outra razão adicional para o fazer: a busca de uma expressão exacta, como quem esculpe na água.
Mais dois poemas de Milosz. No segundo habita um verso que é particularmente luminoso do ponto de vista da intuição que nos inculca: «Amo a matéria que é só um espelho que gira». Este é um verso que diríamos herbertiano, não fora ser-lhe três décadas anterior – dele ressalta o veio profundo que navega subterraneamente na diccção de alguns grandes poetas, uma espécie de vsão transpesoal interior/anterior ao expresso. E repare-se como este «espelho que gira» é já «o andado desandado» do segundo poema, escrito sessenta anos depois.

MANHÃ

Bela é a terra
belas são as nuvens
belo é o dia
e muito intenso é o amanhecer.


Assim cantava um homem olhando para baixo, a cidade,
de onde fumegava uma bateria de cem chaminés.

E o pão da mesa era um segredo,
de vê-lo palpitava a fronte
o homem levantou alto o braço
e entre risos dançava ao redor, desfraldado.

O sabor do pão recorda a luz do sol
ao comê-lo, do pão irradiam raios.
Depois, indo para o trabalho, o homem sentiu o amor
e mencionou-o às pedras da rua.

Amo a matéria que é só um espelho que gira.
Amo o movimento do sangue, única razão do mundo.
Creio na destrublidade de tudo o que existe.
Para não perder-me, tenho na mão um lívido mapa de veias.


ESTE MUNDO

Acontece que houve um mal entendido.
Tomou-se por literal o que não passava ainda de uma prova.
Os rios voltarão às suas origens,
o vento deixará de dar voltas.
As árvores não brotarão e voltarão às suas raízes.
Os velhos correrão atrás da bola,
Olhar-se-ão no espelho e serão outra vez meninos.
Os mortos despertarão sem compreender.
Até que todo o andado se desandará.
Que alívio! Respirai, vós que tanto haveis sofrido!


COMENTÁRIO A PASCAL

Pascal: «il n’aime plus cete personne qu’il aimait il ya dix ans. Je crois bien: elle n’ est plus la même, ni lui non plus. Il était jaune e elle aussi; elle est tout autre. Il l’aimerait peut-être, telle qu’elle étais alors.»
A asserção é heraclitiana e há algo de pueril neste juízo. Próprio de um homem que nunca teve mulher. É evidente que  tempo nos muda e, simultaneamente, muda também as circunstâncias e o pano de fundo em que amávamos. De facto as relações afectivas têm estações como a natureza e conhecem o inverno. Na nossa imaturidade não acreditamos que o inverno prepara a Primavera, dado associarmos, com nefanda estupidez, o amor à intensidade emocional dos instantes. O amor é uma lenta aprendizagem do tempo à sua feição natural, que é cíclica. Ou antes, é uma forma de incarnar sem atrito as transformações silenciosas que o tempo produz em si mesmo ao vivenciar as suas manifestações.
Crescemos sem darmos conta, como amadurecem os frutos e os cães mudam de temperamento – um dia olhamos a criança e notamos: está enorme! Nós não nos vemos envelhecer, de forma consciente – a não ser que tenhamos a doidice de Frida Khalo que tinha um espelho no dossel, suspeito que para espreitar duas coisas: o seu rosto lânguido quando gozava e, no inverso, os estragos que o sacho e a enxada do tempo faziam no seu corpo. Provavelmente, por fim, para surpreender a chegada da morte, embora seja impossível estarmos em vigília permanente; suspeito que a morte lhe terá chegado pelas traseiras. Na verdade, a vida é sem esperança e o amor – essa entronização do tempo em nós através da atenção e do corpo de outrém – é a aceitação disso sem tragédia, com sabor incluído e um ligeiro patetismo. Não convoco aqui, para já, outro elemento vital ao amor mas suplementar: a dignidade. É um suplemente desejável, mas à parte. Pode haver paixão sem dignidade, pode ser até iníqua. Faz parte do espectro da paixão desvelar nódoas no carácter, porque é sem moral. O amor pelo contrário, é a polpa que aprende a não corromper-se. É a isto que se chama fidelidade. Que não tem nada a ver com os acidentes na paisagem – a passagem de um ou outro aerolito momentâneo – mas antes com a constância de acreditar que o inverno prepara a primavera. Pelo que a proposição pascaliana  (ou heraclitiana) não passa de uma puerilidade coroada pelo sucesso da sua fórmula.


INFORME SOBRE A SITUAÇÃO NA TURQUIA

Formigam os homens endiabrados
À procura da pata de Deus.  

sábado, 6 de junho de 2015

UM DIÁRIO AFRICANO / 3

                                                                  Soutter, Souplesse

06/ 06/ 2015 

Curiosa esta passagem de Arthur C. Danto, no seu livro Andy Warhol (Cosacnaify): «O primeiro filme de Andy, Sleep, foi um presente, por assim dizer, ao seu namorado da época, o poeta John Giorno. A ideia era que o filme transformasse Giorno num astro do cinema. Assim, desde o começo, fazer filmes teve para Warhol o sentido de um ato de amor.
O historiador de arte Leo Steinberg teceu certa vez interessantes observaçóes sobre um gênero peculiar de trabalho artístico de Picasso, que consistia numa figura, geralmente um homem, a observar uma mulher dormindo. Steinberg refere-se a essas figuras como sleepwatchers, ou seja, um tipo especial de voyeur. “O artista deve ter sabido desde o começo que o tema era antigo”, escreveu Steinberg. “Cenas de ninfas dormindo observadas por machos em vigília – relacionadas à visão e ao desejo – são parte da grande tradição da arte, na Antiguidade e, novamente, a partir do Renascimento.”
Não sei se fizeram gravuras underground mostrando um amante gay a observar o sono do outro. Giorno fez questão de dormir numa época em que a maioria das pessoas, especialmente os usuários de anfetaminas, tentava sobreviver com o mínimo de sono possível.»
Sinto-me um Sleepwatcher, a Teresa na maior parte dos dias vai para a cama às oito (acorda às cinco) e fico a vegetar pela casa, pelo quarto, na cama, vendo filmes, lendo, ao seu lado, esperando que acorde e me conte: “Estava a sonhar contigo. Tinha morrido a tua amante, e tu estavas numa longa, longa, fila para dar os pêsames, velhinho, tinhas de ser amparado...”, antes de desatar a rir, de vontade. Conseguirei alguma vez acordar em mim o Picasso?



Ouvido no café, na mesa ao lado:
- Eh pá, Não percebo... por que é que escolhes enganar a tua dama sempre que ela está grávida? Eu cá até gramo duma grávida...
- Ya, aos dois, três meses, até me excita... Depois ela faz barrigas big, volumosas...
- Isso, todas!
- Desculpa, a minha faz bacias onde cabem o bebé e o trono de chanfuta com embutidos de marfim...
- ...eh, que cena!
- Juro! A partir dos quatro meses sinto-me a dormir com um molhe donde partem grandes paquetes para a Austrália...
- E então, arranjas outras?
- Não é isso, mano... quero saber o que se passa em Sidney!



Uma boa abertura para um conto, encontrada num caderno: «Um garfo, em eternos gatafunhos na esparguete, mostra os dentes, rindo da sofreguidão com que X se atira ao prato...»



Acho em Bataille, criatura com quem costumo concordar, uma passagem de que discordo totalmente. Assegura ele: «a linguagem poética deve ser o comentário da sua ausência de sentido». Começo por rejeitar a sentença, o “dever ser”. A feliz indeterminação da poesia não autoriza estas balizas programáticas, creio mesmo, com Lezama Lima, que tentar definir a poesia é um intento diabólico. Depois o carácter gaguejante e metalinguístico a que esta proposição sujeita a poesia, como se fosse um instante de trégua de uma impotência, é apenas uma das suas vertentes, havendo no seu oposto poetas “saturados” de sentido e de uma fecundidade fora de suspeita. Terá sido essa a “aporia” de Bataille, mas só a ele lhe cabe.  



Da belíssima antologia de Jerome Rothenberg, «Technician of the Sacred», vertida em francês pelo igualmente poeta Yves di Manno (José Corti, 2007), estas

SOMBRAS E ESPECTROS

Os espectros nesta floresta, as sombras 
repelidas pela noite 
Ou urdidos em pleno dia 
como morcegos que se des-
              sedentam nas nossas veias 
e se suspendem nas paredes húmidas 
              das mais esconsas cavernas  
E atrás deste musgo verde, aquelas terríveis pedras brancas 
Oramos para deslindar quem as viu 
a essas sombras repelidas pela noite 
oramos para deslindar quem os viu

(Pigmeus do Gabão)

sábado, 16 de fevereiro de 2013

GLADÍOLOS E LUCÍOLOS


                                                           um gladíolo e um lucíolo?

Escrevo:
«Não me cansarei de me lamentar por este triste limite: leio, “as noites de verão que inflamam os lucíolos, entre o rio e a Via Láctea” e veem-me à cabeça, vagamente a forma dos lucíolos, mais a sua cor, mas fico rapidamente turvo, sem a certeza se não os confundo com os lanceolados gladíolos, por exemplo, e esta indefinição (que digo: ignorância) desgosta-me porque simplesmente sinaliza que me fui afastando da natureza, um dos males do século, segundo Camus, que regista nos Carnets: «Voltei a ler todos estes cadernos, desde o primeiro. O que me saltou à vista: as paisagens desaparecem pouco a pouco. O cancro moderno corrói-me a mim também».
Depois olho bem para a frase, e desconfio. Vou ver o que significa exactamente lucíole em francês e dou conta que é vaga-lume pirilampo, o que dá outro propriedade à frase: “as noites de verão que inflamam os pirilampos, entre o rio e a Via Láctea”…e pior, que nunca houve qualquer flor chamada lucíolo. C’est fini, c’est Capri.

 
Todos os dias espreito A Bola on line. Espanta-me uma tendência dos últimos tempos que é a de apresentar raparigas supostamente em poses eróticas, com a inscrição em baixo, A DIVA DA PORNOGRAFIA X. Portanto, é esta a noção que hoje os responsáveis de A Bola fazem da sexualidade dos seus leitores: uma força que os impele para os bordéis. Ou isso reflecte apenas o estereótipo do que se associa aos jogadores de futebol: putas e vinho verde?
Há qualquer coisa de doentio no critério editorial desses senhores e que mostra a pobreza mental, a venalidade sem remédio, em que se acantonou o país, onde uma ida ao Elefante Branco já passa pelo melhor que os media são capazes de oferecer à imaginação das pessoas.
Estranho, que a Leonor Pinhão nunca tenha feito uma crónica sobre esta nova tendência do jornal.
Gosto sempre de ver uma mulher nua, ou semi-nua, mas… acho que a nudez pode provir de formas mais saudáveis de relacionamento e não me parece que esta “atitude de proxeneta” dignifique nem o leitor nem o jornal.

 
Leio um dos livros mais bonitos que me passou pelo estreito desde há uns meses a esta parte, o ensaio do sino-francês François Cheng, Cinq méditations sur la beauté (Albin Michel, 2006), para quem a dicotomia, inusitadamente, não é a do Bem e do Mal, mas a da Beleza e do Mal.
E encontro aí uma sugestão deliciosa sobre as rosas. A de que o perfume nasce do ritmo da rosa, emanado como uma melodia que uma onda rítmica desencadeou.

 
Num velho caderno encontro esta citação de Kafka: «Há possibilidades para mim, de certeza; mas por baixo de que pedra é que elas se encontram?». Ainda hoje sinto vibrar aqui as afinidades, e debaixo dela, depus esta outra observação:
19 de Setembro de 1912, Kafka nos Diários escreve assim: «Esta história, O Processo, escrevia-a eu de um jacto durante a noite de 22 para 23, das dez da noite às seis da manhã».
Eis aqui a mesma bazófia olímpica que usou Pessoa para se gabar que escrevera na noite de 8 de Março de 1914, de pé, encostado a uma cómoda alta, todo o ciclo do Guardador de Rebanhos, mais a Chuva Oblíqua e a Ode Triunfal, como refere em carta para Casais Monteiro. Claro que esta mistificação é-lhe merecida, mas mais tarde encontraram-se, desde 1912, se não me falha a memória, vários rascunhos datados do que viria a ser o poema chave de Alberto Caeiro.
Não há dúvida, dois favorecidas pelas Musas. A proeza de Kakfa equivaleria à facecia de Tolstoi jurar a pés juntos que havia escrito A Guerra e Paz, numa semana.
Bom, se Deus criou o mundo em seis dias e o colapso do sétimo ainda não acabou!

 

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

16 DE JANEIRO


Hoje faço anos. Não é coisa que me anime particularmente. Podia ser um sucesso se me dedicasse a fazer um Guia das Perdas Mais e Menos Aparentes para Pessoas Inteligentes (presumindo que o conceito dentes seja do primeiro tipo, o conceito filhas do segundo e o conceito ornamento seja do terceiro, etc., como li algures) mas sinto-me sempre o prato de farófias que desejava ser o gato branco, o tal que ágil se evade do seu exíguo horizonte. Por isso só tenho uma coisa a dizer: bardamerda - que mau passo! Ou talvez duas: e, agora, venham os dissabores – os do costume!

 
Está na hora de retomar o Raposas, de as vestir de alguma roupagem, até pelo motivo que apontava Oscar Wilde: só uma pessoa muito fútil não julga pelas aparências.



Li o livrinho O Mendigo e Outros Contos, de Fernando Pessoa, que colige algumas das suas short stories, quase todas inacabadas.
Numa das que mais gostei – Empresa Fornecedora de Mitos, Lda.- o narrador pega no bilhete que a criada lhe passara, e lê-se: «o bilhete dizia assim, predominantemente: / Empresa Fornecedora de Mitos, Lda».  A escolha do advérbio é fenomenal, por eufemístico: o bilhete é a única informação que contém. A que se lhe segue é reiterativa, respeita a quem representa a empresa.A escolha do vocábulo é fenomenal por ser tão inesperadamente correcta. Suponhamos que lá estava: peremptoriamente. Era enfático mas não era instigante. É disto que se faz a escrita e não do que se diz.

 
Entro no café em que costumo espairecer depois de dar aulas e vejo que lhe falta o balcão do fundo (com três metros de largura), substituído por uma caduca secretária de porteiro.
Perplexo, pergunto, na brincadeira, Perderam o balcão?
Resposta plácida da senhora, Me roubaram.
Roubaram, inquiro, incrédulo.
Me matracaram, prof., e me deixaram bilhete… - abre a caixa registadora e mostra-me o bilhete, que tem escrito:
«Como não lhe dão uso, lhes dou um help!», assinado X.Não sei como consolar a senhora, mas o ladrão tem razão. Nunca vi um donuts, uma azeitona, um sumo, uma coca, uma caixa de chuingas ou de rebuçados, um palmier e um queque coxo, nada decorava as prateleiras do balcão, nem sequer uma mosquinha morta, era balcão só para mostrar que o era, autárquico e orgulhosamente só.
Sento-me, imbuído de uma sensação agridoce, e peço café e um copo de água. Quando o empregado traz o meu pedido vejo que a chávena tremelica e que o creme do café é atravessado por tsunamis quase inexplicáveis: sou servido por alguém com delirius tremens.
Saio do café para voltar à universidade e cem metros abaixo dou conta de que O Forno (outro café) reabriu após um ano de encerramento. Salivo e vou espreitar. Está pela metade, de uma parte fizeram padaria e na outra arrumaram cinco mesas e um balcão pesado e claramente disfuncional. Atrás do balcão está o dono e dois empregados, que conversam, compenetrados.
Sento-me, sou o único cliente do estabelecimento.
Ninguém me viu entrar e nos dez minutos seguintes espero em vão que olhem para mim, que me acenem ou sirvam. Resolvo escapulir-me, tão silenciosa e invisivelmente como entrei naquela catedral de seis por cinco metros. Como perturbar tantas tarefas construtivas?
Que têm de comum estes estabelecimentos?
Os patrões são portugueses – duas feras para o negócio.

 

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

FALA DO BENITE

                                             JOSE HERNANDÉZ, DESPRENDIMENTO

Morreu o Joaquim Benite
     nunca fomos unha com carne e tivemos até pequenas picardias, mas era um homem que eu respeitava.
As pessoas não calculam que pacóvia era a cidade de Almada, antes dele lá se ter instalado com o grupo de Campolide, e furado, furado, até à construção do Teatro Azul e a edificação de um dos maiores festivais de teatro europeu. Em trinta e tal anos mudou tudo. A ele se deve.
Nunca consegui trabalhar com ele. Tentámos uma revista cultural, que ele produziria e eu editaria, mas apesar das suas promessas, ele não conseguiu evadir-se da tentação de meter-se nas minhas decisões e rompi, antes que o caldo entornasse.
Depois, quis que eu editasse peças de teatro mas nunca chegámos a concretizar nada; ainda ficou entusiasmado com o espectáculo que escrevi com a Maria Velho da Costa sobre o Camilo Castelo Branco, Inferno, mas na tropelia do tempo também se gorou esse projecto. E eu pus-me a colaborar com o S. João e o Ricardo Pais e depois fiz duas peças em Almada com dissidentes dele, e fomo-nos “distanciando”.
Mas sempre colaborei com o Teatro quando me foi solicitado, escrevi textos, assisti a ensaios gerais e fiz reportagens sobre vários espectáculos do grupo, mantive-me disponível quando me era pedido, porque, apesar de alguma incompatibilidade de carácter nos separar, sempre admirei a capacidade dele para puxar a carroça, mesmo quando parecia impossível, e o que ele realizou em três décadas - a muitos títulos excelente.
Em Almada, a terceira cidade do teatro em Portugal (em muitos períodos a segunda, e claramente a primeira durante o Festival anual), como em todos os lugares de alguma efervescência política as coisas extremavam-se: ou se estava com o Benite ou contra ele. Gerações inteiras de actores e agentes culturais cresceram neste braço de ferro. Levou muito tempo até que apareceu uma terceira postura: nim.  Era o meu caso, e de outra gente.
Mas o que importa realçar é que a estratégia do Benite obrigou ao diálogo, a posicionamentos, fez subir exponencialmente as intensidades do debate intelectual na cidade e habituou várias gerações a uma qualidade estética no trabalho teatral que mudou claramente a paisagem intelectual de toda a zona sul.
Temo que as coisas não sejam mais as mesmas.
À Teresa Gafeiro e ao Vitor Gonçalves o meu abraço.

 
Ψ

Ulisses talhou o seu leito matrimonial.
Aí está uma informação que dá mais sentido à fidelidade de Penélope. Nenhum dos pretendentes se propôs ao mesmo e, pelo contrário, nem se importaria de dormir no leito montado e gravado pelo rei de Ítaca. Erro fatal.
Substituir a cama seria o primeiro passo para o substituir na cama. Antes disso estariam sempre sob influência gramatical – como explicaria Nietzsche.       

 
Ψ

Tinha um rabo de elefante para vender.


Ψ

FALA DO BENITE
                                                   para o Vitor
A veia impura: o mais certo
penhor. Não esqueci

os deuses, no plural,

nem as mulheres, no singular.


Dois tumultos sem lisonjas,
que não raro se entrechocam
na via rápida. Graças

à extrema mobilidade com que


se entremeiam. Ah, regada
a Quinta da Bacalhoa! 

Tudo devemos ao que o mundo

nos empresta, devemos ao duplo

 
o que ele em nós divaga;
devemos  à música,

que nos dissolve nas veias

o caricato do ódio. Devemos

 
ao rio o fanatismo da foz.
Não esqueças, à las cinco

en punto! Que a farra

da solidão nos delapide!
                  

domingo, 2 de dezembro de 2012

A NOITE É-LHE PROPÍCIA

pierre soulages
 
«O físico Szilard anuncia um dia ao seu amigo Hans Bethe que havia decidido ter um diário.
- Eu não tenho a intenção de o publicar; vou simplesmente catalogar os factos para que Deus seja informado sobre eles.
- Tu não crês que Deus conhece os factos? – pergunta-lhe Bethe.
- Sim – diz Szilard. Ele conhece os factos, mas ele não conhece esta versão dos factos.»
É Pierre Jacob quem conta, no seu livro L’Empirisme Logique. E é notável este diálogo porque nos dá uma dimensão de Deus a quem se concede respeito e fidelidade mas a quem o homem enriquece acrescentando-lhe algo, uma pequena tecla para que ele possa pensar, ouvir e ver mais; sendo essa a tarefa do homem: ser um dispositivo complementar.
Esta anedota nem nega Deus nem o coloca numa esfera transcendente, intangível, e absconsa.
O olhar de Deus enriquece-se no encontro com o homem.
E isto lembra-me uma das exigências apontadas pelo pedagogo López Quintás para que se efectue um encontro.
Um encontro, diz aquele, não é uma mera proximidade, um encontro exige a compartilha de valores elevados:
«Vejam só, quando você e eu nos dirigimos rumo a algo valioso, unimo-nos entre nós. Para unir-se, o mais importante é fazer o bem em comum, compartilhar algo. Dizia Saint-Exupéry, o autor d’O Pequeno Príncipe, numa outra obra, Terra dos Homens: amar-se não é olhar um para o outro; é olhar juntos na mesma direcção. E eu comento, amar não é tanto um olhar para o outro – pelo prazer de olhar a pessoa amada – mas sim consagrar-se a algo valioso. Quando uma pessoa e outra realizam em comum algo valioso, isto é o que cimenta a união». 
O que vale para o amor, julgo similar ao encontro com Deus: nesse encaixe, Deus e o homem olham juntos em que direcção, compartilham o quê? Qual é o terceiro da relação?
Ψ
Quatro poemas de Jose Agustin Goytisolo, que traduzi em tempos:

A NOITE É-LHE PROPÍCIA

Foi tudo muito simples:
aconteceu que as mãos
                                     que ela amava
tomaram de surpresa
a sua pele e os seus cabelos;
                                     que a língua
descobriu o seu deleite.
Ah, deter o tempo!
                               Ainda que a história      
vá no seu início
e ela saiba que a noite
                                    lhe é propícia
teme que com a alba
venha uma sede
                          igual à de sempre.
Agora, o amor invade-a
uma vez mais. Ó tu,
                                 que bebes!
Apieda-te dela
vê como tem seca a garganta
                                   nem falar pode.
 E escuta a sua condoída
respiração; a agonia
                              de um êxtase
e o rogo: não te vás
não te vás. Façamos pois
                              uma saúde!
 
 
 
Quando a água debaixo do chuveiro
a resgatou ao aturdimento
de olhos fechados crio ver
milhares de gotas apressadas
a salpicar-lhe o manto da infância
como se fosse uma tempestade
de algum longínquo veraneio.
Na estância que os conduz
pelos caminhos da noite
pede “seca-me os cabelos”
como lhe faziam em menina.
Depois vai à janela e encara
de frente o céu assombrado:
estas horas passarão num ápice
chegará o dia e o adeus
e só ficará a ausência.
O frio roça a sua pele húmida.
 
 

O SONO VENCEU-A POR UNS MINUTOS

 
Quem seria por Deus quem era
aquele homem meio abstraído
que olhava a lua cúmplice
o copo sempre atestado
um cigarro caído entre os lábios
e nu como o demónio?
O sono venceu-a por uns minutos
mas ele não se moveu. Observa
o amante, o conhecido de poucas horas,
se bem que ele sim parecia sabê-la de cor
apesar de se terem acabado de encontrar.
Olha o relógio. Pensa na sua casa:
na quietude que a mantém
enquanto ela... patetices!
Com assombro constata agora
que não sente pena ou sobressalto.
Levanta-se para beber:
ele vai ouvi-la e virá ao seu lado
para voltar a estremecê-la.
 

NÃO HÁ RETORNO

 Já terminou o domínio
                                da noite
e um ar macilento
                            surde
detrás dos cristais.
                               Vestiu-se:
recolhidas as suas coisas
                               enrola agora
o último cigarro.
                              Depois, em pontas
dirige-se para a porta:
                                não se vira
ela dormita e contemplá-la
                                           dói.
O seu corpo de luz é
                              desfechado na luz,
e ele esgueira-se tenso:
                                não há retorno,
adivinha que a morte
                                 lhe é propícia,
que há de fundir-se na sombra
                                 mais profunda
e vária. E que nada lhe aliviará
                                a derrota.
 
Ψ
 
À PORTA DOS CORREIOS
À porta dos correios recebi o telegrama de Cupido.
O que senti assim que a vi com uma ninhada de filhos
a arrematar os bordos da saia e que a consciência
me bolçou: pertence sempre a outro, a mulher da nossa vida.
Limitámo-nos a trocar aqueles beijos molhados
que o Kafka enviava por carta a Milena,
carícias inexistentes para quem desconhece
ser o desejo uma locomotiva
adejando em piloto automático.
 
 
 
 
 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

CRÓNICA DA RUA DO BAGAMOIO, EX-RUA ARAÚJO

CRÓNICA DA RUA DO BAGAMOIO, EX-RUA ARAÚJO
 
A preta perneta tinha uma boceta
mais rapace que o canal de Madagáscar
e era a imodéstia em pessoa, pintava
o carioca, uma cabra pespeneta
 
ou pior, jurava, uma pseudo-freira
mais inflamável que um fogareiro.
Bastava o mais pequeno cometa
acercar-se do seu lascivo salão
 
de varandas serpenteantes, a despeito
do matinal esconjuro da missa
e do péssimo jeito com que a meio
a imagem da madre superior a desligava
 
do furor da piça. Fora-lhe a vida
conduzida por Deus, lá em Manica,
até que uma mina fabricada por ateus
lhe roubou a perna. Deu então a preta
 
perneta um biqueiro na fé e nos Maristas
para abraçar a culpa eterna.
Felizmente que Deus, amenizava o carioca,
não liga a cadelas perfeccionistas.   
 
 

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

O VENTO É O MEU SEGURO DE VIDA

                                                                         titos pelembe
"Eu sou inteligente porque venho de África e não porque sou africano "
Bento Carlos Mukesswane
Apanhei esta citação no site da Muvarte e há horas que olho para ela sem saber como a traduzir. Puro embasbaque.
Num português cá à maneira seria “Eu sou inteligente porque venho de África e não porque seja africano”, mas não é isso que me chateia. Aliás, não me chateia, apenas me intriga.
Que quer dizer esta coisa ?
Faz-me lembrar uma conversa que tive uma vez com uma amigo de quem gosto muito mas que tem um tracinho de racista e que estava excitado naquele dia porque, dizia, os gajos que estudam o ADN descobriram (o que era falso, mas ele ainda não sabia) que a raça negra tem em média menos cinco por cento do QI. E então saiu-me: ah, mas isso parece-me muito pouco, estou farto de conhecer pessoas com mais vinte e cinco, trinta por cento, de inteligência que eu… tu não?  
O que é que a inteligência tem a ver com as raças ou os continentes?
Existem naturalmente sistemas sociais mais favoráveis a que ela se desenvolva espontaneamente do que outros, mas sempre haverá quem (ir)rompa, em toda a parte.
Merda para as raças e os sentimentos nacionais.


Entro hoje oficialmente de férias. Ainda tenho de dar notas e suportarei ainda uma por outra reunião mas o que interessa é que psicologicamente fecho hoje a cortina.
Finalmente, dois meses a ler e a escrever apenas o que Deus (que é ateu) manda.
E a traduzir a Luisa Futoranski, uma argentina que tem poemas de truz!
E a dar de beber às Raposas, que andam mancas.
E a arear as orelhas nos ditos das minhas filhas - com elas é sempre o Dia Mundial da Serpentina.
E a preparar coisinhas que nem digo, nuvens de aveludar o olho.
E o melhor de tudo: dois meses em que volto a sentir que sou mortal, que posso morrer amanhã, sem planos analíticos  a cumprir, apesar da minha preclara fragilidade.
Primeira tarefa escolhida: reler o Liberalismo – antigo e moderno, do Merquior. Today.
Tomorrow, fazer notas à margem dos ensaios sobre literatura de Orhan Pamuk; no intervalo proceder a escavações nas tripas dos caranguejos que já mandei comprar.
Isto é que é uma feliz vida de pobre desabonado de reforma, da simples ideia.
E não posso esquecer-me de explicar à minha filha adolescente que nunca se deve deixar convencer de que tenha de negociar com a “pureza” de alguma coisa.

“mar bom de dólar” : há expressões do catano.

Conheci uma pessoa estimável que me disse odiar a sensação do vento no cabelo, de sentir que à sua volta se emaranha o ar. Comigo é ao contrário, não quero outra coisa. O vento é um dos meus fascínios, uma das poucas coisas que me deixa absolutamente seguro.