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quinta-feira, 16 de junho de 2011

A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS


Em 2008, como treino e preparação para o romance, que tem um fôlego e especificidades muito diferentes do conto, que tem sido a minha área, escrevi uma novela pícara e com laivos de pantagruelismo.
Como personagem escolhi o João de Deus, o alter-ego de João César Monteiro ou vice-versa, com o atrevimento que me apraz.
Era um exercício para me exercitar na extensão e no detalhe que o romance subentende, mas no qual me diverti como um bruto. 
Passei depois a novela a três amigos, todos escritores. Com a generosidade dos amigos, eles vaticinaram-me um êxito estonteante.
O que evidentemente foi desmentido pelos editores, 4, para quem enviei o livro. Ou silenciaram absolutamente, ou ternamente responderam numa linha dizendo que eu estava doido. Não tive nenhuma reacção séria, técnica, ao livro.
Por isso, como eu próprio não o levo muito a sério, decidi publicá-lo no blogue, um capítulo por semana. O próximo capítulo será postado no próximo domingo.
Como justificação para os editores escrevi então:

«Numa contabilidade rápida, o cinema novo português deu poucas personagens. Talvez o Belarmino; Vanda, a eterna viúva de O Passado e o Presente, Kilas, o inspector interpretado pelo Nicolau Breyner, em Os Imortais… e, definitivamente, João de Deus, esse alter-ego de João César Monteiro.
Agradava-me em João de Deus uma liberdade objectiva: é a última personagem portuguesa desempoeirada e liberta das suas circunstâncias, ou antes, aquém e além delas, simultaneamente, um desses raros que são sempre maiores que a situação, como Charlot e os pícaros do século XVII ibérico; criaturas desataviadas de psicologia. Suspeito que - na entorpecida condição in between que se tornou a de Portugal - João de Deus terá sido o último dos portugueses livres.
Cansava-me, em João de Deus, o mesmo que, nele, me exultava. A mais brutal obscenidade antecedia uma cosmologia, o chiste inconsequente, no desfrute de um sorvete, iluminava o fulcro onde os segredos do mundo se articulavam e expunham.
Era um místico infiltrado a fundo por Dada.
E agradava-me, sobretudo, que a locução de João de Deus juntasse Camões e Pound, Antero e Pessoa, Mozart e os surrealistas, a derrisão e o riso, os jograis e Piero de La Francesca, num mesmo novelo. De igual modo, nele (João de Deus/César Monteiro), o sagrado e o profano, o riso e o sério, o sexo e a morte, o erotismo e a pornografia, o vernáculo e o ornato da linguagem, a vida e a literatura eram indiscerníveis: o desafio, nesta tarefa, era mimetizar semelhante “orquestra barroca” em andamento, tendo sempre o humor como filtro.   
Que esta biografia paródica de João de Deus, antes de começar a filmar com o César Monteiro e depois (o resto é público), divirta é tudo o que se pretende. E por força maior, homenagear o seu criador: um cineasta que escrevia como poucos escritores e ciente de que a arte rompe conveniências (sejam quais forem) e exige atrevimento. »

Quem viu a trilogia em torno do João de Deus sabe que para além de um aparatoso des-metafísico, o sacrista é um obsessivo coleccionador de pêlos púbicos. Que admira pois que seja por aí que tudo comece?



A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS

AS REALIDADES
Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
e as ovelhas baliam que linda ai que linda está
a re a re a realidade
Era uma vez noite de breu
e uma realidade que sofria de insónia
então chegava a fada madrinha
e placidamente levava-a pela mão
a re a re a realidade
No trono estava uma vez
um velho rei que muito se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade
CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.

Aragon

Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos nada mais têm para nos dizer, desculpável é que nos viremos para a garrulice fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros.

M.Yourcenar
Memórias de Adriano

1
Átrio

Numa amolecida manhã de domingo de 2004, de malas já aviadas para o Báltico, flanava pela Baixa. Despedia-me dos lugares e murmúrios de meia vida; esquecido de ser lince, diluído no branco imponderável do Verão; sonâmbulo, sem pressa ou rumo.
Desperta-me, algures, a repetida ladainha dum realejo. O anacronismo arrastou-me até à esquina da Rua da Prata com a dos Retroseiros. Aí, um homem magro, meio encurvado, narigudo, de óculos escuros e face escalavrada, dava à manivela num realejo velho poisado sobre uma caixa de electricidade, ao mesmo tempo que, quase em surdina, recitava algo. Apurei o ouvido: era A Tabacaria, de Pessoa. Aos pés, no forro do boné, rebrilhavam moedas. Não abalei, senão à terceira reprise do poema, declamado em sessões contínuas. Algo me incomodava na figura.
No dia seguinte, volto à Baixa para visitar o meu amigo Stephan, cujo atelier fica num quinto andar da Rua do Carmo, e ao entrar no átrio do prédio cumprimento o porteiro, sentado na secretária que se dispõe para lá da caixa dos elevadores. As duas metades da porta do ascensor convergem lentamente para o centro, e, na nesga final, sou atravessado por um raio: o porteiro era, em lavado, o homem que vira no dia anterior com o realejo.
À descida, de propósito, pedi-lhe lume: era ele. Não somente o homem do realejo como a alma gémea de João de Deus. Saio apardalado.
No domingo seguinte (o meu último domingo em Lisboa) voltei à esquina da Rua da Prata com a dos Retroseiros. Lá estava ele, em realejo. Ouço o poema e deixo duas moedas no boné.
Volto na segunda ao átrio do prédio, na Rua do Carmo, e aí não estou com meias medidas, estendo uma fotografia de João de Deus ao porteiro, pedindo-lhe um autógrafo.
Ele fica encabulado e sussurra:
Como me descobriu?
Basta olhar para si… - afianço eu, espantado – Pensava-o morto.
Cita-me Pessoa:
Morrer é não ser visto…
Insisto com ele durante quatro dias para me deixar entrevistá-lo, explicando-lhe que, de abalada, não posso adiar as premências. Por fim cede. Passamos em claro as noites de quarta, quinta e sexta, eu, ele, as suas baforadas e fantasmas, e o gravador. Na madrugada de sexta desentendemo-nos, gravemente. No sábado apanhei o avião para Vilnius, capital da Lituânia..
Este é o relato circunspecto que resultou dessa entrevista.
Duas semanas depois de ter partido, contou-me o Stephan, o porteiro deixou de aparecer ao serviço e nunca mais foi visto. 
    
2
INCIPIT



1

Como lastima o Steiner, será sobrinho do renomado fabricante de ascensores que fez fortuna em Viena de Áustria?, incipit, a orgulhosa e florescente palavra latina que designava o Início, degenerou em Incipiente, desprimor contra a qual travarei combate, à dentada se tanto me for exigido. E que, com sanha e esmero, se grife a voz na retina do leitor, percuciente, verdadeira, pinchada de sangue – está dito, adoro cabidela -, ainda que se lhe misturem duas gotas de groselha. Está a gravar?
No início, as verdades são simples, ou podem não sê-lo: quem pisa a flor da abóbora não lhe provará a sopa. Do que decorre não ser verdade que só a inocência ou a ignorância sejam felizes. Espreitemos the dark side of the moon. Os indícios, são a pontapé na Cabala: Deus conhece de cor o número de pêlos e cabelos de cada um. Na origem, a observação do dano posterior já é incipiente. Mas, na origem, é como nos distingue, é o código de barras que nos coube em lotaria. Picuinhas, l’emmerdeur. Quando se rumina a cifra do infinito, para quê voltar a contar pelos dedos? Que vantagem se tira em entrar e sair de casa pela janela das traseiras? Daí que os Yoruba, que não dormem em serviço, abominem esse deus do inconsciente que habita os sonhos e a quem atribuem a demoníaca capacidade de contar. O maior desejo deles é não serem contados, não fazer parte da renda púbica. Eis donde me vem o impulso de roubar às criaturas que momentaneamente actuam na minha arena amorosa a mais irrelevante prova do recôndito: fanando-lhes um pêlo púbico danifico-Lhe o código de barras. E o meu nome não é obra do acaso – eu sou a sombra que poupa muitos ao juízo patriarcal, pois, eis a fraqueza do Altíssimo, só se aplica a saber de cor aquele que não tem tempo para a averiguação final.
Continuando, sem mais delongas ou centavos freudianos, foi ao balcão do quiosque dos jornais, no Príncipe Real, que encetei a minha colecção de pentelhos.
Ao tempo, que remonta ao lá vai alho, repontava naquele balcão uma jovem oxigenada de olhos cor de oliva, lábios violeta e peitos fluorescentes. Diariamente, eu ensaiava com ela alguns ditos brejeiros, aos quais escoiceava antes de se pôr a grazinar, suspirando como uma porta entornada. Adoro esta imagem, que catei no poeta Ángel Crespo, e que prazenteiramente escolheria para epitáfio: João de Deus, a porta entornada.
Abreviando, um dia, vesti uma camisinha branca com um Miró estampado no bolso, reforcei de borsalino, e subi a Rua do Século encrespando a voz num havana.
Em vendo-me chegar a sonsa fez-se de fingida, para eu a mimar com um piropo:
De mais nenhuma senhora estou queixoso, que de sua genitália; umbral que só ao círio apagado de Deus está reservado…
Ai, sr. João de Deus, é tão maroto…
Aí está uma palavra em desuso, como andrajos…
O que vai ser hoje?
O olhar dela, de lúbrico, acenderia toda as velas da igreja de S. Roque. Num impulso, passei-lhe o chocolate que trazia no bolso e, imperativo, no timbre que o Mason me roubou, pedi:
Esfrega-o.
Nem hesitou. Rebrilharam-lhe os dentes (confirmei-o depois: estrelavam assim que a rata dela virava paul, aí está uma metamorfose que o Ovidio não previu), subiu a saia plissada, meteu-o na cuequinha, como fazem hoje muitas com os telemóveis, e esfregou-o na crica. Bom, primeiro tirou-lhe a prata.
O chocolate, reservado para uma mousse, tinha uma semana de frigo, e estava rijo. Ela esfregou-o com ganas no tépido rincão; nem quando chegou um sexagenário distraído e gaguejou «O Co-co-mércio do Porto, faz-z favô…» ela abandonou a manobra. Dissimulou, um olho na tablete, outro no imprevisto, aviou o cliente (profissionalismo deste já não há!) e continuou o ruge-ruge.
Ia desfalecendo quando as narinas aspiraram o cheiro que se exalava da esfrega, imagine uma essência galante com um assobio de chocolate e outro de marisco. Ela revirava os olhos e cruza a rua o Agostinho da Silva. Cumprimentei-o de longe, apontando-a:
«Mestre, uma portuguesa desatada…».
O meu enlevo, ao inspirar a fragrância da tablete amolecida, antes de a voltar a encamisar na prata, não vem ao caso porque aquele era aroma edénico que remontava ao primeiro homem. Nem lhe agradeci, o que é genésico não é para agradecer.
Está ali, naquela moldura. Entre as 11h30 e as 11h35, incidindo-lhe o sol em 68 grados, vê-se a mancha do chocolate.