E ontem havia o boxe, nos Jogos Olímpicos.
Na TVM anunciaram que iríamos assistir ao combate entre um atleta moçambicano, Júnior, “A Máquina”, e um atleta búlgaro de nome impronunciável. Esperei meia-hora, salpicando os olhos no livro de Catherine Clément sobre o Lévi-Strauss e o seu «inventário dos campos mentais», enquanto o meu corpo, em vigilância súbita, espera o combate. Sinto-me um galo, de crista e músculos retesados, prestes a lançar a fúria dos meus excrementos à face da humanidade. Respingo com o tempo que não passa, bebo um copo de vinho para me acalmar.
A Máquina entra no corredor para o ringue. É um alfinete que ginga da esquerda para a direita, à procura do lugar onde lhe esconderam os ombros. Nunca havia visto uma alma tracejada em osso, o crânio seco, as pernas como duas penas de pato. Não quero acreditar que tenham atirado às feras um xamã raquítico, com braços mais frágeis que os cabides de arame onde penduro as camisas.
Entra o búlgaro, um físico habituado a derrubar uma pedreira à marretada antes do pequeno-almoço, os músculos bem torneados, pura música temperada em aço, as pernas são duas camadas geológicas que sustentam em cima uma paisagem de robles centenários.
Começa o combate. A Máquina atira os seus palpos para o ar, são pequenos palpos de aranha e não braços pois estão sempre dobrados ou nunca atingem o seu adversário - socam, socam, socam, socam o ar… e por detrás deste o búlgaro limita-se a controlar as distâncias e a disparar um jab ocasional que invariavelmente acerta e faz estremecer o capacete da Máquina.
Ouço o comentador especializado dizer que a Máquina é um talento natural, bruto, mas que só treina, treina, treina no ginásio, que a federação ou o manager não lhe arranjaram qualquer combate, antes. Interrogo-me se este não será o seu primeiro combate e não lhe faltará aprender que os braços se esticam e nos uppercuts desfazem os ângulos. Debate-se como um cego, esmurrando, perfurando o ar… em torno, entre, acima… magrinho como o cão que se esquece de comer só de pensar na sua cadela.
O búlgaro bate, amassa, com a gravidade de quem embeleza um morto.
No final, tentando justificar a fatalidade, ouço o comentador contar que nos recentes Jogos Africanos também tudo tinha corrido mal aos boxeurs moçambicanos porque a federação só distribuíra as luvas oficiais aos atletas na véspera dos combates e que estas pesavam o dobro daquelas com que costumavam treinar.
Percebo então o drama do Máquina-de-murros-a-meia-haste: ele não podia com as luvas. Vou à varanda fumar sorrir com as desgraças dum desporto entregues a Federações mais tesas que a minha conta bancária. E no ínterim nocturno vejo passar os cadillacs.
