sábado, 14 de maio de 2011

CARTA A IZABEL LISBOA

janela de casa desenhada por pancho guedes
Debate comigo Izabel Lisboa no seu blog, aqui, a propósito do meu post sobre a morte do Bin Laden, e fá-lo com veemência e paixão. O regime da paixão merece-me sempre respeito e o diálogo é necessário, para mais num mundo que alguns reputam já de pós simbólico.
Eu, de facto, nunca nutri qualquer simpatia pelo falecido Bin Laden, repudio os seus métodos, duvido até da justiça da sua causa e nunca o tomei por David.
Aliás, mais de uma década depois de 2001, as sociedades islâmicas não estão mais fortes no debate interno, nem mais justas nas políticas sociais, o que valida as revoltas que se têm sucedido em efeito dominó, e avolumam-se as sombras sobre o que se vai seguir, por exemplo, no Egipto, que está sob ameaça de cair nas malhas dum governo islâmico autoritário, tão tenebroso como o de Barak. Não vejo que a cruzada de Bin Laden tenha trazido um ganho, para além da Al Jazira (mas que ele dinamitaria, se ela o criticasse).
O que não me empurra em nada para posições pró-americanas, ou pró-ocidentais. É evidente que é uma prepotência Obama declarar que com a morte do Bin Laden se cumpriu a justiça, tal como nenhuma reparação de justiça esteve por trás daqueles aviões que embateram nas Twin Towers. Num caso estamos diante da retórica do dominador, noutra estamos face ao ressentimento do dominado. Nenhum tipo de ressentimento pode lograr a justiça: tudo aí se reduz à aposta vã do lobo que quer mostrar ao leão que também sabe caçar. Não se sai do círculo do jogo predatório.
Aliás, por exemplo, sempre achei a esperança que se depositou em Barak Obama uma ilusão, porque nenhum homem pode colocar-se acima daquele sistema, num país onde a maior indústria é a das armas - como veio a ser demonstrado.
Agora, ter de aceitar que Bin Laden (ou similares) sejam a resposta contra o Império Americano, ou que os meus alunos não leiam Derek Walcott ou Aimé Césaire (dois expoentes fundamentais da cultura negra) em nome do seu direito de se abandonarem à «possessão» na Iurd, parece-me apenas uma armadilha que não nos deixa pensar o que é necessário; é uma chantagem ideológica, em que uma esquerda lúcida já não pode embarcar, porque já basta que em todo o século XX o maior inimigo da esquerda se tenha situado nas suas próprias práticas no exercício do poder.
O mundo hoje é mais complexo e exige um esforço redobrado para superarmos a bipolarização. Temos de conseguir pensar em arquipélago e muitas vezes contra nós mesmos, contra as primeiras impressões. Como o Groucho Marx que era mais sério do que se supõe quando dizia que nunca aceitaria entrar num clube que o admitisse como sócio.
Por exemplo, a avançada cínica e brutal do neo-liberalismo em todo o mundo tem conhecido como contraponto a re-tribalização do mundo e o assomo das «identidades culturais».
Ora, este facto, paradoxalmente, paralelamente a constituir-se como uma reserva ecológica das culturas tem-se revelado também algumas vezes um ninho de ratos legitimador de coisas terríveis, e carece de um exercício de distanciamento crítico, de forma a conseguirmos distinguir o trigo do joio.
Estamos numa encruzilhada, sob a derrocada dos Mitos do Progresso e a Tentação das Origens. E esta é uma nova armadilha.
O Amin Maalouf explica-o muito bem num livro extraordinário «As Identidades Assassinas», onde demonstra o abismo e a intolerância a que nos conduz o ardil das identidades quando estas se tomam por essências – pois estas nunca suportam o aroma da alteridade, o outro e a sua deriva.
E podemos preferir o cosmopolitismo à autarquia das identidades, tendo uma saudável atitude de diálogo e reserva, sem sermos movidos pela adesão a qualquer tipo de Centralismo, estando pelo contrário de antenas viradas para as minorias e as expressões “periféricas”. Por exemplo, contra a opinião de jornalistas e escritores amigos de S.Paulo e do Rio de Janeiro – que chamavam a si todo o destaque do que se passaria no Brasil, o resto seria paisagem segundo eles – eu publiquei uma antologia de literatura amazónica. E orgulho-me de ter editado o Vicente Franz Cecim, um visionário, a que a intelectualidade do rio ou de S. Paulo continua surda, porque ele insiste em manter-se em Belém.
Vim para Moçambique por opção, a ganhar o mesmo que os moçambicanos, não aterrei como cooperante (nada me move contra os cooperantes, eu simplesmente aterrei de forma mais “inconsciente”), nem como representante de coisa nenhuma, nem da Civilização Ocidental, além da vã esperança de ser útil e de, entretanto, ler e escrever.
Agora, ninguém larga o conforto europeu e vem de pára-quedas para um dos países mais pobres do mundo por ser a favor da cultura do fast-food e do “pensamento único”.
E sou pelas sínteses, pela coragem da mestiçagem, por uma racionalidade que englobe a emoção contra o racionalismo (porque são coisas muito distintas, a racionalidade e o racionalismo), e ponho toda a minha imaginação nesse combate. Embora não sufrague o retorno ao espírito do lugar por mera alucinação rousseauneana. Até pelo motivo mais simples: há coisas boas e admiráveis nas outras culturas e nas sociedades tradicionais, mas o que tenho aprendido neste meu mergulho no terreno (em África, e em viagens ao Iémen, à Índia e ao Paquistão) leva-me a considerar que a Sociedade Ocidental não tem o exclusivo do Mal – e que uma lucidez se impõe se não queremos naufragar na demência.      
Por exemplo, a medicina tradicional africana tem práticas funcionais e alguns resultados inegáveis em certas áreas mas é uma desgraça que, em nome da Tradição, se continue a sancionar o comportamento dos milhares de homens que face à infertilidade da mulher se recusam a fazer exames clínicos e que, influenciados pelos curandeiros, acusam as mulheres de feiticeiras, com toda a violência social que daí decorre. Eis uma superstição que deve ser combatida, tout court.
Esta é uma realidade verificável todos os dias no Hospital Central de Maputo. E a minha opinião não decorre de nenhum sentimento de superioridade de Europeu sobre esse «saber» africano, mas sim de uma sensibilidade atordoada com o sofrimento inidulível do(a)s outro(a)s.   
E pronto, Izabel, resta-me dizer-lhe que gosto muito da sua foto nova no blogue. Beijinho

2 comentários:

  1. Muito temos aprendido neste Blog do Cabra Cabrita. Abraço

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  2. Gentil de sua parte responder ao meu apaixonado texto, António! Em meu blog postei também uma cartinha.
    Bjs
    Izabel

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