sábado, 21 de julho de 2012

10 SONETOS PARA O SÉCULO XXI/ 3

                                                                            matta


O mal é um esgar na face de deus
um tique esvaziado de sortilégio,
um lagarto que a si mesmo se esventra
na sede de encontrar um pouco de sol.
O mal cola-se à sola do sapato
como a vulgar pastilha elástica
e depois adere ao pé, ao pinçar dos dedos.
A minúscula larva que rói o cérebro
do rinoceronte faz correr o corno
atrás de um furo na carne.
Conheço o mal, é meu vizinho,
às vezes cativa-me ao espelho
e depois tenho de descolar da imagem
veia por veia, poro por poro. Grito.




sexta-feira, 20 de julho de 2012

LELOUP E OS OLHOS VENDADOS

                                                         peónias e canários, hokusai

Passei tarde a ler Jean-Ives Leloup, um sage que interpela sempre o meu ateísmo não sistemático. Um prazer que me transmitiu um poema, redigido na contracapa do livro:

 «Durante a vida é importante cativar o desconhecido. Como diz o Pequeno Príncipe, não se trata de domesticar a raposa, porque ela foge. Trata-se de cativá-la, porque ela virá e ficará».
Belo naco.

 «Na tradição zen diz-se que o momento de despertar está próximo quando, ao nos inclinarmos sobre um espelho não enxergamos a nossa própria imagem. É preciso ter cuidado porque essa ausência de imagem pode ser tanto um sinal de despertar quanto um sinal de esquizofrenia».
Graças a Deus (brinco) nunca experimentei tal desprendimento, mas atravessei uma fase recente na minha vida em que me sentia invisível em relação ao meu meio ambiente, como se estivesse fora dos eixos da realidade e não passasse de um fantasma em movimento. O espantoso é que isso não me causava o mínimo de angústia ou perturbação. Sentia-me simplesmente um astronauta apaixonado pelo mundo mas sem necessidade de contacto.

 «O perigo, para aqueles que têm um caminho espiritual, não é o apego às riquezas materiais mas o apego aos estados de consciência».
Neste erro tenho caído. Apego-me facilmente a uma liquidez medidativa, com calção de banho e tudo. Delicio-me num encontro íntimo com os meus estados de consciência, esquecido de que a consciência é um espaldar sem uma verdadeira parede que o sustente nas costas, erguido por si próprio numa sugestão hipnótica. E às vezes cai, comigo agarrado, entalando-me os dedos no chão.

 «A física lembra-nos que somos a poeira das estrelas».
A coca de Deus?

Diz o Qohelet, na Bíblia, que não há nada de novo sob o sol, e de facto em tal nome só vejo a omolete que sonha em ser ovo estrelado, com a gema ao meio e a clara circunvolução dos planetas em torno.


A morte de Gref Durckheim, que barafustou como um danado à ideia de morrer, e se mostrou «completamente humano, com toda a sua impaciência e cólera, libertando-nos assim da imagem que tínhamos da morte de um sábio, de uma morte sublime», diz Leloup, ameniza-me o choque que tive ao ler o testemunho de António Valdemar sobre os últimos dias de Vitorino Nemésio, que foram de paranoia e alucinação, temeroso dos fantasmas que o assaltavam. É muita pretensão querer que o outro aceite a morte que ainda não nos rondou.


Escrevia com os olhos vendados.
Habituou-se a não saber por onde ia,

A aceitar nas trevas a sua parte de perdão.


Nem se lembra já como chegou ao método.
Só sabe que tem a pele em ferida
Quando tira a venda e que esses tecidos só saram

Em contemplando o rosto da amada.


Escreve com os olhos vendados –
É a sombra do amor quem o guia.   

quarta-feira, 18 de julho de 2012

COLÓQUIOS COM A JADE 13

                                                                  éduoard boubat


O gato saiu do seu sobressalto líquido, depois do banho forçado para espalhar o shampoo das pulgas, foi parcamente embrulhado numa toalha, em pingo, e exclama a Jade:
- Parece um guarda-chuva…
Está no pleno domínio das metáforas.

Anteontem ao almoço atirei para a mesa a observação da Rainha de Copas à Alice, segundo a qual ela

imaginava cinco coisas impossíveis antes do pequeno-almoço, e entretivemo-nos a desfiar coisas

impossíveis. A dado momento, ele teve um brilho no olhar e atirou:

- Papi, já viste, se eu fosse uma coisa tão pequenina, tão pequenina, que enchia o mundo…

Já maneja toda a ciência das coincidentia oppositorum

O difícil vai ser não estragar.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O PÁSSARO LÁGRIMA DE KEROUAC

                                                                        noé sendas


O meu sogro era oftalmologista e um intelectual de Lourenço Marques, com algumas histórias a seu crédito. Veio a independência e ficaram, muito por pressão da esposa que se converteu ao novo espírito. A história que lhe prefiro é esta: estando um dia a meio de uma comezaina, na esplanada do Estoril, é interrompido por um popular que o vem abraçar efusivamente, dr. Cordato, Que prazer conhecê-lo, o dr, tem umas mãos santas… é o melhor curandeiro de que há memória nestas terras… O meu sogro aguentou “o assalto” como pôde, a esposa é que franziu o sobrolho quando ouviu dizer, Ainda hoje me espanta como o dr. tirou os olhos ao meu irmão, os lavou num copo de água fria e depois os enfiou outra vez já curados… o dr. faz milagres…Retirou-se a grata criatura e a dra. Helena, uma marxista-leninista de ocasião, não resistiu a censurar o marido, Como é possível alimentares esta credulidade? Ouves estas patranhas e não as desmanchas. Resposta rápida, num viés goês: …os mitos não se devem desmanchar.  


Leio:«…podem encontrar-se os mitos em pristina pureza», e vejo como o desusado adjectivo, pristina, acrescenta de facto pureza à pureza, um atributo que acorda na qualidade a sua condição vibrátil. É este gozo da língua que se tem vindo a perder com o furor da comunicação. Comunica-se mais com muito menos precisão, sem escutar o pulso interno da língua.


O drama de Sísifo é que teima em manter-se
de pé, ao lado do seu calhau, de pé
sobre a colina. Se Sísifo se deitasse
distrair-se-ia com as estrelas e esqueceria
que é o cão de cego daquela pedra.
E se por seu turno deitasse a pedra,
ao seu lado, em vez de a manter de pé
como um ovo ensimesmado,
ouvir-lhe-ia então ao fundo o coração
e compreenderia que convém comer
com as mãos e não as mãos - o engano
em que anda desde o princípio do mundo.

A saliva dos mortos é o som das palavras que tu julgarás ouvir pelo resto da tua vida – respigou intratável uma avó que não duvidava de nada e muito mal me reservava. Às gotas de veneno não se fica incólume.


Quando a ave o atravessa fica o vazio pleno, vivo?
É uma pálpebra que se fecha ou outra que se abre?
Empluma-se o espaço ou, ainda que domesticamente, algo o perfura?
Longe de toda a metafísica Luís XV limitou-se a disparar

Quando o gorrião interceptou a sua mira.

Fazes uma tosta mista, pede a minha mulher da cama,

Sonolenta, mais a pender para os frutos que para as asas.

A minha amante imaginária, pelo contrário, é ciumenta

Dos sonhos do seu prisioneiro.

O pássaro-lágrima do Kerouac bate à minha janela.

Tem mãos de croupier.


domingo, 8 de julho de 2012

AO BALCÃO DE UM BAR DESCONHECIDO



Rafael Argullol é um brilhante ensaísta, novelista, poeta e professor de estética, catalão, com mais de vinte livros publicados. Tive a sorte de, há cerca de 15 anos, me ter atraído um título, o seu «El fin del mundo como obra de arte». E nunca mais deixei de o frequentar. Sempre que um amigo vai a Barcelona cravo-lhe um Argullol, e até agora (vou no quinto) são todos diferentes, nunca sei exactamente o que vou encontrar quando abrir o livro. Foi o que de novo aconteceu com «El Cazador de Instantes/ Cuaderno de travesía (1900-1995)» que me mandou o Valério Romão. É um livro de aforismos. Aqui deixo alguns:


Não podemos prescindir da imortalidade. É a melhor droga contra o cansaço.


O pensamento pode permitir-se um amplo leque de hipóteses. O sentimento só pode ser um príncipe ou um escravo.


Pode-se sempre abjurar facilmente de todas as verdades recebidas, face à presença de uma mentira plena de amor.


As nossas ideias acerca da humanidade informam-nos, na realidade, sobre nós mesmos. Primeiro, quando somos grandiloquentes, entusiasmamo-nos por ela; logo, convertidos em misantropos, odiamo-la; finalmente, já indiferentes, excluímo-la do vocabulário. Evoluímos, nós, e não a humanidade, que nunca foi senão uma palavra que só serve para denunciar a nossa idade espiritual.


Numa cidade estrangeira, ao balcão de um bar desconhecido, conversando com um estranho que dentro de minutos desaparecerá, sem vontade de voltar ao hotel e com toda a noite por diante: a liberdade é sempre inquietante, e assim tem que ser.


Não devemos evitar as feridas que nos produzem certos pensamentos cortantes como facas: um espírito curtido está inevitavelmente cheio de cicatrizes.


Os bárbaros nunca existiram. São unicamente sintomas do terror que uma civilização alberga no que respeita a si própria.


A ressaca é o preço que devemos pagar pela provocatória barriga cheia de certezas que manifestamos durante a bebedeira.


Tédio: sei que acontecem muitas coisas mas não sinto que nada esteja prestes a suceder.


Não creio em nenhum deus. No entanto, para esquecer-me completamente do divino teria que vir algum deus convencer-me.


Não há gente menos recomendável do que a que alardeia continuamente a sua identidade. Esses fanáticos não só creem que as suas choças são palácios  como também estão sempre dispostos a cavar uma tumba sob os pés dos incrédulos que os advertem sobre a sua confusão. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

10 SONETOS PARA O SÉCULO XXI, 2

                                                                   Walter Zandamela

10 SONETOS PARA O SÉCULO XXI, 2
                     (procuro um sofá)
Procuro um sofá de dois ou três lugares, preferencialmente
com cama de enrolar. Há quem procure uma alma,
ao rubro, incandescente, ligada à memória por uma liga

imaterial, algo clonado no trânsito do gato, da sexta


para a sétima vida. Há quem jogue no casino ou faça copy
and paste da segunda a domingo para se poupar e poder lastimar

que as borlas não lhe tenham calhado, ou jogue tudo na política.   

Eu procuro um sofá com cama acoplada e se possível



com gente dentro, um nauta. Num mundo pós-simbólico

e prenhe de natas um nauta talvez nascido no âmago

sob a pele do meu sofá há-de localizar


a duplicidade coruscante que me rompa o tédio
de não haver nada para além da linha do horizonte.
E faremos filhos, entre uma torrada e outra e pão com gila.

terça-feira, 3 de julho de 2012

REMINISCÊNCIA E SONETO

Nove da manhã. Compro numa banca de rua o III volume da obra «As Maravilhas Artísticas do Mundo», de Ferreira de Castro, e corro para um café na ânsia de banquetear-me toda a manhã (- esquecido já do livro que levava comigo).
Abro-o ao acaso nas primeiras gravuras, umas péssimas reproduções a preto e branco. Deliciam-me o carácter escultórico dos rostos em “A descida da Cruz”, de Fra Angelico, e a insinuação estrábica do cónego Van der Paele, em Van Eick, e pasmo com a aparição de Delaunay ao fundo da “História de Santa Cruz”; depois volto a página e dou de chofre com a Estátua de Lourenço de Medicis, de Miguel Ângelo, conhecida por O Pensativo. É aí que vejo, pela primeira vez visto… aquele dedo encaixado em arco no lábio superior, que encosta o nó ao septo nasal, antes de pender, absorto, e ilumina-se-me num flash: mas este é o gesto preferido do poeta João Miguel Fernandes Jorges, o sinal de que ouve os outros ou congemina um verso supersónico que lhe sulca de algodão o ecrã azul da mente.
Foi este gesto que desatei a imitar, anos depois de deixarmos de privar (em homenagem…), até que me dei conta e passei a cultivar os meus tiques, etc., etc.
Não sei se o João Miguel terá consciência deste decalque (ou da coincidência), ou talvez, sim, que nunca deu nó sem se inteirar previamente do nome do enredo.  E interrogo-me sobre qual será o justo peso, voluntário ou inconsciente, do que imitamos na construção da nossa identidade. E terá importância o modelo que escolhemos…
Eu, por exemplo, verto o bule com a mesma inépcia com que o fazia o Eduardo Prado Coelho, o mesmo pasmo repetido e insolúvel ao ver como o chá entorna e alastra. Inclino o bule no mesmo ângulo, espetando um impotente mindinho que sublinha os estragos, e só introduzi de meu um látego nas narinas face ao irremediável.
Hei-de escrever um manifesto em defesa de tudo o que imitei, antes que venha um chato lembrar-me o que eu aludia ou o que omitia com o vocabulário ou até com a anatomia dos meus gestos.
10 SONETOS PARA O SÉCULO XXI, 1

(operação stop)

Perícia venatória: gosta de selos
E de minete o polícia
Com crachá que me incita,
Num desalmado princípio realista,

A comprar-lhe a minha multa.
Tal como países terceiros resgatam
(Com que clemência?) as Soberanas
De primeiros e segundos, capacito-me

Que de pátria para pária
A diferença está na dívida
E no tipo de pomo corrompido

Que aceitamos na taça de fruta,
A meio caminho da emaranhada
Luxuriante queda abrupta.



domingo, 1 de julho de 2012

CODORNIZES E OUTROS DESPOJOS BUCÓLICOS

                                                                   


 Jindrich Sreit

                                                                                          Da infância, lendo Hugo Claus
   
1
O chapinhar das ondas, o lamiré perfeito.
Beijá-la? Galvanizar o ninho a ser roubado.


2
O cabide de plástico – para uma camisa? – rasga a relva, é a mais insólita das dedadas.
O viçoso tapete verde, de um extremo a outro, tem para cima de dois campos
de futebol.  Pela alba, o orvalho reanima o luzeiro.
De súbito, a sola humedecida pisa o cabide, laranja como um argueiro. E sobre ele, periclitante, indecisa, a joaninha.


3
O oblongo dorso de quitina acomodou-se ao solo. Sobre a pança do escaravelho – uma membrana onde encaixam cinco patas que espanejam o ar – assentaram estendais as formigas, indóceis topógrafos de mandíbulas que tudo aplainam.


4
O recreio da escola: galinhas e as verdoengas caganitas. Confinados a tão pouco, ao perímetro de cimento que as galinhas ainda não haviam colonizado,
aprendíamos que nada nos era destinado; mínimos e fugazes pingos de sangue
na neve. Às vezes alguém levava castanhas e as mãos estalavam, «quentes e boas».


5
O moinho velho, já sem pás. Aí se escondia o contrabando. Dizia-se. Nós untávamos de visco as moitas, a amoreira e, receosos, espreitávamos na fechadura da empolada porta azul, antes de, de riso preso, urinarmos no centro
da mó enterrada no chão.
Até que - já não lembro quem – um de nós jurou que a mó lhe lembrava o olho de Deus. 


6
Soubesse eu o nome daqueles caules felpudos que nos chegavam ao peito, um prado imenso de flores roxas e incógnitas, apartadas de nós pelo desbaste das varas com que atalhávamos o caminho para o canavial.
O entrecortado marulhar do ribeiro distraía-nos e não raro estrelejavam sapos sob as nossas solas, em barda naquele rincão.
Cinquenta metros depois a conduta do esgoto cortava as águas e marcava o início da cidade.

7
Não havia figueira como aquela, oblíqua, enclavinhada no rebordo dum socalco
- do seu tronco dependurava-se um cabo, a nossa liana de Tarzan.
Miúdas, futebóis, ofensas mortais e o planeamento do desforro, sob o seu pálio
governava-se o mundo, fumavam-se as primeiras beatas.
Ainda as auroras não tinham rugas.

8
Reguadas e ponteiradas: eis a prévia condição para tornarmos ao cói,
isolado pelo canavial do desconcerto do mundo.
Já deitávamos as beatas na caixa das esmolas.


9
Era uma bola de fogo donde emergia uma cauda de avião. A trajectória
não deixava dúvidas: caíria na Mata dos Medos.
Revezámo-nos toda a semana, aos pares, e a batida
foi extensa e supervisionada pelo fragor do mar.
Mas a mata conservou fechados a sete chaves os seus segredos.
Na busca, recolhemos o Tripé, um cachorro a quem a maldade
humana havia decepado uma pata e que em nós achou
um centavo de ternura.
Até que alguém lhe chegou o isqueiro.


                                                                           Bert Hardy
10
Entre outras proibições, era-lhes vedado comer vagem ou coração, ser o primei-ro a cortar o pão ou autorizar que andorinhas fizessem ninhos nos seus tectos. Pitágoras não transigia.
Eu, todas as Primaveras aguardava com excitação que as andorinhas fizessem ninho na nossa varanda. Virá daí a minha enferma antipatia pelos números.


11
Valores como saber manter fresca a manteiga sem frigoríficos, medir os brilhos numa tina de azeitonas, ou ter um cão treinado para ir ao lugar roubar o torresmo, o toucinho, confiava o lenhador reformado enquanto amolava o machado e lhe apreciava o fio de luz – tudo o que de uma vida para outra não se repete. Um dia, contou, moendo vagarosamente o pão com requeijão, a meio dum tronco, a meio do lanho, amoiteceu-me o futuro. A lâmina ainda lá está presa à embravecida, desimpedida, manhã.


12
Tão pobre o vocabulário do cuco. E contudo, em casa alheia, faz fortuna.


13
À primeira, o bom quinhão de favos de ouro na caixa de sapatos foi esfacelado pelo gato.
À segunda, o meu falho aproveitamento escolar encolerizou o meu pai, que mandou a caixa de sapatos e os seus oito favos pela janela, lapidados de imediato por uma chuva a rodos.
Não tentei mais, parecia-me a natureza tão frágil! 

14
Gosto da tatuagem da luz nos instrumentos de cobre.


15
Salgueiros. Quando os vejo do rio aceno-lhes em memória daquele dia, quando no rasto de castanha da índia nos quedámos sob os salgueiros, num irreflectido corpo a corpo.
Há anos que não lhes aceno, há décadas que morreu aquele dia.
Só o rio permanece insolúvel.

16
O que é um poço? Desdenhávamos, até o primeiro cair no seu negrume.
Batia o dente quando o tirámos a cavalo num balde de zinco puxado por dois homens.
De lá de baixo, jurava, as cabeças tinham auréola.

17
À noite pareciam-te plátanos e de dia recortaram-se: eucaliptos.
Também a luz que te devasta o rosto o sulca de enganos.

18
Repentinamente, o vento alivia o garrote às acácias.

19
Surpreendido e só, na capela, ouvi primeiro o ecoar invisível e depois, verde, a locusta triunfante de banco para banco.

20
Na ânsia de irisar a sua noite, a ostra cria a lua.

22
Quando vier o granizo vergastar os pomares, partilharei desta vez um aquecido silêncio de castanhas no bolso da gabardina, uma camisola de lã grossa, com moinhos, e uma surpresa que acene e resguarde o riso e os gestos dos mistérios da chuva?
Ou será, again, a brasa que se apaga, o pavio de uma solidão antecipada, tomar
café, fixando nas borras uns olhos pretos tristes, e na vidraça o tear fúnebre da paisagem liquefeita; bater, perdidamente bater no teclado para que não gelem as mãos?

23
Dedaleiras sim, vi-as, cheirei-as, toquei-as, às dezenas na Arrábida, num acam-pamento em que me fartei de namorar.
De resto, tive sorte, nunca me seguiu o brilho estridente dos milhafres.




quinta-feira, 28 de junho de 2012

AS MÃOS E O ROBOT: DELÍCIAS

              robert doisneau: antes das mãos serem robotizadas, o belo trabalho que tinham

... DA INVESTIGAÇÃO CIENTÍFICA
                                                         para o Rui Trindade, meu velho colega no Expresso
                                                         e meu novo companheiro de aventuras em Maputo

As mãos são equipadas de sensores de toque.
Eram todas. As novas, robóticas, atingem níveis de sensibilidade superlativa,
níveis de oh la la - no surf sucede-se a uma primeira uma segunda
linha de ondas, oh la la....  Os dedos robóticos têm o mesmo tamanho
de um dedo humano, mas na vagina, oh la la, da Gertrudes
surpreendem os diques da Rainha de Sabá e o aveludado extremo
que enlouqueceu até à impotência Giacomo Casanova.  Nunca houve
senão peles e nervos flexíveis, condutores de fluxos, 
mas os cientistas desconheciam e resolveram ajudar os materiais
a tomar consciências das texturas alheias e próprias,
afim de poderem monitorizar e interpretar o que, acaso,
detectam, uns dedos mecânicos. Quando o dedo
deslisa sobre uma textura, oh la la, vibra de diferentes maneiras.
Essas vibrações, captadas por um transmissor de som
localizado dentro dos dedos de metal, inervam-se. Detecta

assim a mão robótica o tipo de textura, oh la la, a forma e as propriedades

térmicas do objecto, com mais precisão do que o dedo humano.

Dizem os especialistas, que esta mão robótica detecta 117 materiais

comuns com uma precisão de 95%. A de uma inteira banana de liamba

fumada de uma vez só. Um pequeno ribeiro torna-se um dos aquedutos

da Rainha de Sabá. Eu vi, estive no Iémen e sei, oh la la,

de que escala se fala. E a ser verdade, a mão robótica

vai ser a primeira a masturbar os seus próprios (e gulosos) dedos,

já vejo o mindinho a esgalhar o polegar, e o dedo médio

a excitar a glande do indicador, em prova técnica, oh la la,

que equivalará em esforço a 5000 m mariposa,

enquanto a mão natural, enfim liberta, intentará sublimar na arte

o arrombo de tanta sensação não nomeada e libertar

(oh la la) tais cargas de imaginário que o robot

(a mão de sensores incomuns) descobrirá em pânico…

as delícias do erotismo - totalmente escravizado

pelo desfrute das sua novas sensibilidades. Problema dele.


quinta-feira, 21 de junho de 2012

REVISÃO DA MATÉRIA DADA

                                                                           Gigli


REVISÃO DA MATÉRIA DADA 

 1 Piétá 


Morto,

ao colo
da Palavra. 

 

2  Releitura de Paul Valéry

  “As mentes limitadas

imaginam que o extremo
                                        do gosto
                não combina com a energia”:
                responde Valéry
aos que nele apenas farejam
                cordura e delicadeza
e não aduzem na sua racionalidade
                a recaptura
        alucinada
de Pompeia
sob uma indigitalizável lava
vulcânica.

 

3 Psicologia de Massas 
 
Desejava saber
                         Kafka
em que momento e quantas vezes,
estando oito pessoas a conversar,
                 convém tomar a palava
para não passar por calado.
E estando trinta pessoas
                  a conversar?
Ou oitocentas na palheta?
E estando um tigre e um galo? 

 

4   Descartes, um desdizer 

“De cada vez que uma coisa (uma porta  fechada?)

surge clara, distinta, no meu espírito (uma porta aberta?),
é possível que me engane!”,

desoprimiu o inodoro Descartes. Mas tactear por gosto
os gonzos enferrujados da evidência
é pior que sujar as mãos num fruto lampo
para depois limpá-las às calças.
Escavar no fundo seco de um poço,            
até que uma sede nos ice à luz?
 

5         Baudelaire e o carpir de Deus 

Balofo à vista desarmada,
o meu gato por dentro veleja
sobre o molho de rijos ponteiros
de um relógio que nunca transigiu.

 Pelo exterior do gato, recende
a balbuciação de Jeanne,
a mulata que me aqua
a atmosfera e onde demolhar
as vírgulas acorda o carpir de Deus.

Na intersecção de ambos,
o grau de toxidade
em que, benévolo –enrolas-me
um charro? -, inebrio os anjos.


6  Leitura de Nicanor Parra 

 Gostaria que o leitor, como na fábula
de Eurípedes, me arrancasse da cabeça

 as penas de pavão. Mas temo que diversos
sejam a porfia e o juízo, e nada emende

à perfurada esponja o hábito da isenção:
a vida, prezado leitor a quem lanço adubo,

espapaça-nos, sanguinolenta.
É uma inadiável questão de tempo

e não de espaço, que ademais
arranca o chão à aragem.

7    Frequência de Lévinas 

            O Mesmo visto como exílio
- o que me agrada em Lévinas.

 O Rosto a quem se oferece a outra face,
de antemão perfurada,
                                     é a estufa fria
onde enlouquecemos os sentidos.


8   Perguntas de Virgílio a Eneias  

Temes as trevas
– o que entendo.
Mas também os nomes?

Quem se domicilia nessa raça
que estanca o que flúi?

Estiolada, a carne dos Deuses,
na linha de parentesco
que os ligava aos homens,
o que se segue?


9        A Explicação de Filosofia 

Wittgenstein entendia o pensamento
como a gaguez de Deus.

 Deleuze, por seu turno,
enxergava na gaguez
o que permite fugir ao delimite
– como a racha que antecede
no voo o ovo.

Em que parte de Husserl
descruzou ela as pernas?

Coincidência da unidade:
não acabo de me vazar,
centrípeto dervixe, na sarça
lúbrica que incandesce o pneuma.


10   Lição do Não 

Dizia John Cage: não
precisamos de destruir o passado –
já se foi!

 Eis a prova:
                   Cage deixou a gaiola!


11   Orientália  

 A mente é o teu macaco de estimação: o tal
que cabriola por um amendoim.

Enquanto puderes evita-o,
depois não te dá folga,
como o azul no céu
que o outono coalhou.

12   Leitura de Ibn Arabi 

 Empolga-te o anelo deste firmamento
estampado na água?
Adivinhas: é uma questão de caligrafia.

 Mas também o tanto que o mundo
te transtorna ou mortifica
tem origem na Sua letra de médico.


13   Silvia Plath

 Todo o decoro que sustém o turbilhão,
escreveu Sílvia Plath - e mais nenhuma
ramagem precisaria de assombrar
para adivinharmos a sua silhueta,
invisível, no meio dos patos
que grasnam, brancos,
contra a púrpura do poente.


14   Releitura de Yeats 

 E de rajada deu conta:
há quantos meses não via um cisne,
o seu imiscuído nó de marinheiro,
quando, langue, esfrega a cabeça
no arco de outro pescoço;
o brilho húmido das suas penas
a espanejar por dentro
as gotículas do seu olhar?


15   Palestras de Merleau-Ponti   

 O mel é um certo comportamento do mundo
para com o meu corpo e visão.
O teu mel, implantado em mim,
como o urso na sua garra.

Uma abelha. Ronda os aros azuis
(que tipo de flores lhe lembrarão os meus óculos?).
Faz rappel no copo de cerveja,
fareja a capa do livro, suspende-me
nas ogivas que desenha em torno da mão.

Longos segundos, os suficientes
para hesitar entre uma palmada
e a aprendizagem de ser estátua.


Suponho que acontece o mesmo
entre eu e Deus. Só que Ele,
mesmo distraído, se decide.


16    Píndaro

 Aí está uma coisa que nos convém:
A raça dos deuses e dos homens
                não fazem senão uma.
Por isso se urde
        a rosa,
                  não nasce.