domingo, 22 de julho de 2012

FRANCISCO BRONZE: AS MÃOS E OS FRUTOS


Teve lugar este ano em Abril, na Casa da Cerca, em Almada, uma exposição de Francisco Bronze. Nessa ocasião, para o álbum que então saiu, com reproduções de pinturas e poemas escrevi então o prefácio que posto em baixo.
Só agora coloco o texto no blogue porque não havia até aqui arranjado as imagens que queria. Finalmente consegui algumas, chegando o momento de divulgar o trabalho deste imenso pintor que, por felicidade, foi das pessoas mais influentes na minha vida.
Encontra-se uma enorme galeria de trabalhos seus, dos anos 60 aos mais recentes, com centenas de quadros, em franciscobronze.net



à memória da Teresa Lajinha

1

Entre os meus quinze a dezoito anos, em Almada, o Chico era a figura a conhecer ou a rejeitar. Havia um terceiro termo: conhecê-lo para discordar dele. Toda a minha geração - enfim, aqueles que entre nós não haviam escolhido a hipótese de rejeitar, tendo o Chico como figura ilustrativa, qualquer pendor intelectual -, cresceu contra o Chico, a favor dele, ou, tomando-o como referência, adestrando a pose da equidistância.
Creio que, a haver uma pequena história intelectual da cidade de Almada, só houve uma segunda figura que concitou as mesmas raivas e paixões e moveu uma igual influência, o Joaquim Benite, com o Teatro de Almada. Para tudo o resto – a discussão política, os movimentos artísticos, o riso e os afectos - o Chico foi, para várias gerações, uma das âncoras da cidade. Pois discordar do Chico, por exemplo, era ainda ser um satélite na sua orbe.

Algo os separava, o Chico do Benite: o Joaquim queria ter a influência, exercê-la (o teatro exige meios e algum traquejo político), o Chico nunca quis ter influência, foi colocando de lado essa veleidade e rompendo com todo o tipo de dogmatismo.
Eram tempos de paixão, de emoções vividas a preto e branco. Não creio que as pessoas, nessa altura, enfronhadas ainda na enleada arena política que incandesceu o primeiro lustro após o 25 de Abril, estivessem preparadas para a súbita postura do Chico: uma leve ironia matizada de compreensão (o Chico procurou sempre rir mais com os outros que dos outros), uma racionalidade escorada na emoção, uma crença manifesta e vivida na superioridade da consciência individual sobre as deslocações de massas, uma certa atitude holística, um despojamento a roçar o ascetismo, uma abertura para o diálogo que sobretudo conseguisse levar os interlocutores a pensar contra si mesmo, e um labor continuado, tanto o artístico, como - o que na altura parecia suicidário – o de um aurático estado de «isolato».


Quem vai à Brasileiro do Chiado encontra aquele quadro do Nikias Spakinakos que reúne vários críticos em torno de uma mesa: o José-Augusto França, o Rui Mário Gonçalves, o Fernando Pernes, e o Francisco Bronze. E muita gente se interroga, mas quem será aquele tipo da barbicha?
Porque o Chico, depois de ter sido nos anos sessenta, princípios de setenta, um dos críticos mais temidos da praça, fez a seguir uma travessia no silêncio e no anonimato, realçado primeiro pela militância política, e, após a sua renúncia às lides revolucionárias, pela sua entrega à arte como única forma de contacto e de auto-conhecimento, mas numa obstinada disciplina que o afastou durante décadas do circo mediático – aliás, coisa que lhe é insuportável. Daí o seu relativo apagamento, isto é, a sua passagem intervalar, ao mesmo tempo que ia amontoando no seu atelier milhares de quadros, esculturas, colagens...

Eu conheci o Chico com dezassete anos, já então com veleidades de poeta e alguma curiosidade para a arte, e compreendi que o Chico era o amigo a reter. Tive a sorte de ter sido adoptado e de me tornar um frequentador da sua casa e da sua mesa de café. Com ele discutia livros, arte, a poesia, o vinco da beleza em todos os seus contextos, inclusive o feminino, as minhas diatribes e expectativas literárias, os projectos dele, numa partilha constante. E ainda hoje tenho o prazer de, sempre que arribo à cidade, ser a dele a primeira morada que visito.


Dizer o que lhe devo não caberia num prefácio, digamos que retenho, entre milhares, de coisas que ele me passou e me fizeram crescer, três descobertas essenciais: James Joyce, os metafísicos italianos, sobretudo, Carrá, e Cesare Pavese. Mas nada disto teria carburado sem o diálogo, perfurado de confidências e iluminações e isento de indulgências, pois o Chico não faz da amizade uma suspensão da crítica.
E aprendi com ele algumas coisas essenciais:
- a gratuidade da arte, no sentido que lhe deu Steiner: «a dignidade do homem consiste também na inutilidade, no facto de que não é rentável um grande pensamento», o que a torna algo que exige mais do que dá e cuja fidelidade é o verdadeiro ganho;
- a não ter receio do isolamento intelectual;
- a acreditar que a expressão artística tem um nível freático que nos liberta do condicionamento das modas e linhas epocais; sendo muitas vezes a contra-corrente do que a espuma da esfera da comunicação impõe;
- que muitas vezes é na duração que a verdade de uma expressão se revela. Como Rilke disse melhor do que ninguém: «Para escrever um só verso é preciso ter vivido muito, sentido, experimentado, é preciso ficar sentado ao pé dos mortos, etc.»

E talvez esta citação seja a melhor porta para a deriva que se segue. 
2
A pintura do Francisco Bronze tem vindo a ser digitalizada e colocada num site, nos últimos anos. Diga-se, previamente, que o que lá tem sido revelado ultrapassa em muito o que eu esperava e mostra quadros, linhas de trabalho, aspectos estilísticos, técnicas, suportes e pulsões, que desconhecia. O que me fascinou e entristeceu a um tempo, dado que a imagem que se tem do trabalho do Bronze é demasiado redutora face ao exposto e à diversidade que ali se denota. Diversidade que dificilmente será abarcada numa exposição antológica. Era preciso uma exposição só com os desenhos a tinta-da-china ou esferográfica, uma exposição das colagens, outra da escultura, etc. Vejam-se os resultados e processos de Eu vim do pó das Estrelas, Tacto descendente, No atelier, Desproporção Harmoniosa, Cruzes do Gólgota ou Nocturno – parecem pintores diferentes, apesar de, simultaneamente, haver uma extrema unidade na obra de Bronze.
Por isso, abaixo, vou tentar ater-me às imagens deste livro.
O abandono da prática da crítica pelo Bronze, em 1975, e o seu inesperado distanciamento da compulsão para estar à la page, e dialogar ou acomodar a sua expressão ao passo da novidade, acabou por desembocar nesta ironia: o tempo deu-lhe razão.
Quando o Francisco Bronze abandonou a crítica, se não me engano (escrevo este texto a 10 000 km, sem arquivos nem, momentaneamente, net comigo), em Portugal, a Pop Arte fenecia, e os Happenings e a Arte Conceptual começavam a ser falados.

                                                                Quarto Minguante
O Chico isolou-se, fechou-se no seu canto, e desatou a pintar, com disciplina e entusiasmo. O que conta não é o enunciado do vento, é o vento, avisara Bataille.
E o pasmo sucedeu-se: o feroz crítico abandonava as vanguardas e não só fazia fé no cavalete e na pintura – algo absolutamente a ficar fora de voga, naquele tempo – como pintava quadros que, a faltar outra definição, indiciavam o regresso ao “figurativo”, com reminiscências neo-clássicas eivadas de um «irrealismo» visionário”. O que devia parecer profundamente reaccionário aos olhos de então. Outros pecados se somavam:
- uma quantidade “anormal” de auto-retratos (num período em que a influência do estruturalismo ainda era dominante e a hipocrisia do decoro – tudo tinha de ser metáfora, transferência, impersonalidade, ausência de pathos - campeava no pensamento artístico da época),
- o uso da citação e da auto-referência artística: nele, a arte fala da arte: os renascentistas, a pintura espanhola muito El Greco, Goya, Frederich, os metafísicos italianos, mas também Matisse…  
- o que não invalidava a busca de um certo naturalismo dos sentidos, tão presente na corporalidade da representação dos objectos, na tangibilidade das cores, etc.;
- uma certa noção cenográfica da pintura,
- e, pecado complementar, a feição mais abstracta de que o Chico fazia uso nas colagens, nos “antípodas” da sua pintura – num país tão pobrezinho que não consegue conceber duas ideias sobre a mesma pessoa -, o que fazia incorrer no crime do ecletismo.

O que se passava é que o Francisco Bronze se tornara, uma década antes disso se começar a notar e discutir em Portugal, pós-modernista, movimento que recuperaria, precisamente, tudo o que lhe provavelmente lhe seria apontado como defeito. Só que no Bronze esses defeitos e qualidades eram interiores e não habilitação mimética, consoante a conveniência estética. Sem ele mesmo se dar conta, uma dobra no tempo tornara-o um pioneiro.
Este livro reúne quadros e poemas. O Bronze foi sempre um leitor apaixonado de poesia e em olhando as reproduções é nítido o que atraiu os poetas. Há em muitos quadros presentes neste livro uma melancolia, uma tristeza, uma nocturnidade, que se prendem com um pendor metafísico e mistérico, e emprestam a alguma desta pintura um halo poético vizinho de algum simbolismo (- mas tenha-se permanentemente que este é um aspecto do Chico, entre outros). Creio haver, neste particular, uma identidade subterrânea entre a pintura do Bronze e a poesia do Rilke - detecta-se em ambos uma semelhante presença de anjos, frutos, ruínas, a par de uma similar tangibilidade dos crepúsculos, da noite, e mesmo dos aspectos solares que apresentam a luz como uma experiência da matéria: em ambos o diáfano é um realce do real, ou uma janela para outro real.

E radica, às vezes, nesta atracção fatal pela poesia um dos riscos que rondou a sua pintura: vejamos o quadro Cruzes de Gólgota, de que gosto bastante. Neste quadro, como noutros com motivo (Gadanha, por exemplo), há uma tentação alegórica que noutros pintores, a meu ver, desembocou numa esterilização artística. Falo especificamente de Lima de Freitas e Noronha da Costa. Na minha opinião, o que fez o Bronze ultrapassar de forma pujante esse risco foi a compulsão material da sua pintura. Verifica-se nela uma tensão entre o que não é pictórico – o tema, o poético, a procura de imagens cristalizadores de arquétipos/mitos – e o diálogo da cor consigo mesmo, com as texturas e ritmos, que rompe os “esquemas”, a obediência ao que o quadro queira dizer. Acontece-lhe o mesmo que a Carrá: o cromatismo, as formas totalmente imanentes que emergem no quadro sobrepõem-se à razão, ao ditado do título. E assim esquece-se o quadro de decorar o tema e vê-se a pintura devolvida à pintura.
Quarto Minguante, por exemplo, é o exemplo de um quadro que se fez a si mesmo, feliz porque totalmente imanente.
O Bronze é um dos pintores que conheço que com mais felicidade assimilou a famosa formulação do Baudelaire (que tem dado azo a tantos comentários), segunda qual a arte deve ser metade nova e metade eterna. Desiludam-se, entretanto, os farejadores do esoterismo, a meu ver a frase de Baudelaire corresponde àquilo que Deleuze preconizava quando defendia que começamos sempre a meio: isto é, fazemos parte de um fluxo.
Termos consciência disto conecta-nos com o que nos precedeu e o que se nos segue, de que somos o elo vibrátil: o presente do Incondicionado. Realismo quântico.
Portanto, no Bronze a arte enfeixa, enxerta o acontecimento (o inesperado, o novo, o estranho, o que desencadeia o movimento do olhar) na variação face ao fluxo (à tradição) - ou simplesmente ondula. Do que provém a importância da memória como chave para a sua pintura (e a memória pessoal e a da arte fazem corpo no corpo do pintor: o que legitima os auto-retratos) e leva Bronze à prática da citação, que incorpora como matéria elementar, estando esta tão presente como as imagens emocionais em que o pintor recria as células da memória. Evoquemos aqui três quadros presentes neste livro: Miragem (onde se adivinha a figura de Velásquez, ao fundo na porta), Leda e Mona Lisa.
Vejamos agora outro trabalho reproduzido neste livro: As Nuvens. Inscreve-se nele o aspecto cenográfico de que falo atrás: uma simultaneidade de tempos, como se a imagem nos quisesse mostrar, isolando as partes, a sucessão na duração. Em muitos quadros do Bronze, desde os anos 70, o enquadramento é invadido por “janelas” que abrem outros planos no plano, sendo o quadro um palimpsesto cujas margens não coincidem. Atrevo-me a interrogar se a esta abertura de janelas no plano, que às vezes tanto introduzem “outros lugares” como rompem sintaxes, não a encontrou Bronze na observação de El Greco, embora naturalmente a prática e a técnica da colagem também tivessem sido determinantes. Com esta técnica quis o Bronze introduzir o tempo no plano, dado que a pintura não contempla a sucessão temporal, e, no seu efeito desconstrutor, a colagem tende mais a desfazer as fronteiras: entre o real e o sonho, as imagens e a memória, o figurativo e a mancha cromática.

Extraordinário despaisamento que nos restitui de novo à poesia.  
3
Como já referi, o Bronze tem mantido ao longo de toda a sua vida um diálogo com a poesia e sempre se interrogou sobre a elucidação do poético. Para este livro encontrou a cumplicidade de três poetas, Manuel Correia Fernandes, Sónia Grave e Maria Inácia Reis.
Cada um dos poetas escolheu o seu painel de imagens e trabalhou a partir delas. Como escreve Sónia Grave: «Esta tela tem uma voz que se ouve no silêncio» - e estes poemas entregam-se na generalidade com felicidade a essa escuta.
O resultado tem muitas zonas de equilíbrio, embora, como seja normal num livro desta extensão e com três vozes de densidades, estilos e dicções muito diferentes, haja poemas mais conseguidos que outros e, mesmo no espaço de cada poeta, desiguais níveis de encontro da palavra com a imagem.
Porém, se nem sempre se desencadeia o engate, manifesta-se continuamente nestes poemas um labor digno, honesto, bem ilustrado nestes versos luminosos de Sandra Grave:

«Medos certos
Erros correctos»,
que transforma este álbum numa morada apetecível.

Sucede, ademais, que se multiplicam pelo livro os momentos plenos de apuro poético:
«(…)

Torno-me translúcida.
Pura de mim.
Desejo que o cinza da vida,
não se infiltre.
E o meu ponto de luz
me recorde.»
(Sónia Grave, Sou);

«(…)
Cai a paz,
Doce, sedutora,
Acorda a aurora
E em bicos de pés
Vai-se a lua embora.»
(Manuel Correia Fernandes, Madrugada de Esplendor)

 «(…)
esculpi um rosto
que a chuva desfez
o nome que inventei
gravei-o no pó
posso até dançar nos salões do rei
mas por entre as multidões
caminho só.»
(Maria Inácia Reis, Rosto Precário)
e que são inúmeros os poemas plenamente realizados, o que o leitor descobrirá com prazer.
Os três poetas são, como disse, vozes de distintas dicções, tonalidade, e temperamentos: Sónia Grave evoca-me a Irene Lisboa, Maria Inácia Reis tem um sabor rilkeano, e Manuel Correia Fernandes explora um veio mais tradicional a que não escapa a rima:
«Na doca de meus dedos
Estaleiro de ossos, carne e pele
Meu barco adernado expele
Opróbrio de morrer à beira d´água
De cavername dorido
Porão vazio, cheio de mágoa
Por decreto preterido
(…)», Na doca de meus dedos

 O que interessa ressalvar é a generosidade do projecto e a qualidade do resultado final, que me deixa enciumado por não ter colaborado também nele a outro nível. Talvez outra oportunidade nos junte a todos, seria um diálogo muito produtivo, cheio de pontos de luz:
«Solidifiquei a ponte.
A vida sem pressa»
                            Sónia Grave, Ponte.
«(…)
e surgirá intacto o osso da palavra
lambido pelo fogo
limpo de toda a ganga»
                             Maria Inácia Reis, Poemas Mortos

«Há uma luz misteriosa que me sustenta
Talvez farol procurando o seu lugar»,
                                      Manuel Correia Fernandes, Alucinação.
4
Quando eu conheci o Bronze, eu teria dezassete e ele quarenta. A nossa diferença era manifesta. Agora continuam-nos a separar os mesmos anos mas nos meus cinquenta e três anos descubro-me espantosamente parecido com o pintor no auto-retrato com um travo de auto-paródia (porque destituído dos óculos de massa que fazem parte da identidade Bronze, da sua própria visão artística?) a que o Chico chamou Exausto (- até na falta de cabelo).
Afinal, sei agora porque uma empatia nos tornou amigos: aquele retrato é já o meu - vou enviá-lo para todo o lado como meu. Não lhe digam, é um segredo nosso.





sábado, 21 de julho de 2012

10 SONETOS PARA O SÉCULO XXI/ 3

                                                                            matta


O mal é um esgar na face de deus
um tique esvaziado de sortilégio,
um lagarto que a si mesmo se esventra
na sede de encontrar um pouco de sol.
O mal cola-se à sola do sapato
como a vulgar pastilha elástica
e depois adere ao pé, ao pinçar dos dedos.
A minúscula larva que rói o cérebro
do rinoceronte faz correr o corno
atrás de um furo na carne.
Conheço o mal, é meu vizinho,
às vezes cativa-me ao espelho
e depois tenho de descolar da imagem
veia por veia, poro por poro. Grito.




sexta-feira, 20 de julho de 2012

LELOUP E OS OLHOS VENDADOS

                                                         peónias e canários, hokusai

Passei tarde a ler Jean-Ives Leloup, um sage que interpela sempre o meu ateísmo não sistemático. Um prazer que me transmitiu um poema, redigido na contracapa do livro:

 «Durante a vida é importante cativar o desconhecido. Como diz o Pequeno Príncipe, não se trata de domesticar a raposa, porque ela foge. Trata-se de cativá-la, porque ela virá e ficará».
Belo naco.

 «Na tradição zen diz-se que o momento de despertar está próximo quando, ao nos inclinarmos sobre um espelho não enxergamos a nossa própria imagem. É preciso ter cuidado porque essa ausência de imagem pode ser tanto um sinal de despertar quanto um sinal de esquizofrenia».
Graças a Deus (brinco) nunca experimentei tal desprendimento, mas atravessei uma fase recente na minha vida em que me sentia invisível em relação ao meu meio ambiente, como se estivesse fora dos eixos da realidade e não passasse de um fantasma em movimento. O espantoso é que isso não me causava o mínimo de angústia ou perturbação. Sentia-me simplesmente um astronauta apaixonado pelo mundo mas sem necessidade de contacto.

 «O perigo, para aqueles que têm um caminho espiritual, não é o apego às riquezas materiais mas o apego aos estados de consciência».
Neste erro tenho caído. Apego-me facilmente a uma liquidez medidativa, com calção de banho e tudo. Delicio-me num encontro íntimo com os meus estados de consciência, esquecido de que a consciência é um espaldar sem uma verdadeira parede que o sustente nas costas, erguido por si próprio numa sugestão hipnótica. E às vezes cai, comigo agarrado, entalando-me os dedos no chão.

 «A física lembra-nos que somos a poeira das estrelas».
A coca de Deus?

Diz o Qohelet, na Bíblia, que não há nada de novo sob o sol, e de facto em tal nome só vejo a omolete que sonha em ser ovo estrelado, com a gema ao meio e a clara circunvolução dos planetas em torno.


A morte de Gref Durckheim, que barafustou como um danado à ideia de morrer, e se mostrou «completamente humano, com toda a sua impaciência e cólera, libertando-nos assim da imagem que tínhamos da morte de um sábio, de uma morte sublime», diz Leloup, ameniza-me o choque que tive ao ler o testemunho de António Valdemar sobre os últimos dias de Vitorino Nemésio, que foram de paranoia e alucinação, temeroso dos fantasmas que o assaltavam. É muita pretensão querer que o outro aceite a morte que ainda não nos rondou.


Escrevia com os olhos vendados.
Habituou-se a não saber por onde ia,

A aceitar nas trevas a sua parte de perdão.


Nem se lembra já como chegou ao método.
Só sabe que tem a pele em ferida
Quando tira a venda e que esses tecidos só saram

Em contemplando o rosto da amada.


Escreve com os olhos vendados –
É a sombra do amor quem o guia.   

quarta-feira, 18 de julho de 2012

COLÓQUIOS COM A JADE 13

                                                                  éduoard boubat


O gato saiu do seu sobressalto líquido, depois do banho forçado para espalhar o shampoo das pulgas, foi parcamente embrulhado numa toalha, em pingo, e exclama a Jade:
- Parece um guarda-chuva…
Está no pleno domínio das metáforas.

Anteontem ao almoço atirei para a mesa a observação da Rainha de Copas à Alice, segundo a qual ela

imaginava cinco coisas impossíveis antes do pequeno-almoço, e entretivemo-nos a desfiar coisas

impossíveis. A dado momento, ele teve um brilho no olhar e atirou:

- Papi, já viste, se eu fosse uma coisa tão pequenina, tão pequenina, que enchia o mundo…

Já maneja toda a ciência das coincidentia oppositorum …

O difícil vai ser não estragar.

terça-feira, 10 de julho de 2012

O PÁSSARO LÁGRIMA DE KEROUAC

                                                                        noé sendas


O meu sogro era oftalmologista e um intelectual de Lourenço Marques, com algumas histórias a seu crédito. Veio a independência e ficaram, muito por pressão da esposa que se converteu ao novo espírito. A história que lhe prefiro é esta: estando um dia a meio de uma comezaina, na esplanada do Estoril, é interrompido por um popular que o vem abraçar efusivamente, dr. Cordato, Que prazer conhecê-lo, o dr, tem umas mãos santas… é o melhor curandeiro de que há memória nestas terras… O meu sogro aguentou “o assalto” como pôde, a esposa é que franziu o sobrolho quando ouviu dizer, Ainda hoje me espanta como o dr. tirou os olhos ao meu irmão, os lavou num copo de água fria e depois os enfiou outra vez já curados… o dr. faz milagres…Retirou-se a grata criatura e a dra. Helena, uma marxista-leninista de ocasião, não resistiu a censurar o marido, Como é possível alimentares esta credulidade? Ouves estas patranhas e não as desmanchas. Resposta rápida, num viés goês: …os mitos não se devem desmanchar.  


Leio:«…podem encontrar-se os mitos em pristina pureza», e vejo como o desusado adjectivo, pristina, acrescenta de facto pureza à pureza, um atributo que acorda na qualidade a sua condição vibrátil. É este gozo da língua que se tem vindo a perder com o furor da comunicação. Comunica-se mais com muito menos precisão, sem escutar o pulso interno da língua.


O drama de Sísifo é que teima em manter-se
de pé, ao lado do seu calhau, de pé
sobre a colina. Se Sísifo se deitasse
distrair-se-ia com as estrelas e esqueceria
que é o cão de cego daquela pedra.
E se por seu turno deitasse a pedra,
ao seu lado, em vez de a manter de pé
como um ovo ensimesmado,
ouvir-lhe-ia então ao fundo o coração
e compreenderia que convém comer
com as mãos e não as mãos - o engano
em que anda desde o princípio do mundo.

A saliva dos mortos é o som das palavras que tu julgarás ouvir pelo resto da tua vida – respigou intratável uma avó que não duvidava de nada e muito mal me reservava. Às gotas de veneno não se fica incólume.


Quando a ave o atravessa fica o vazio pleno, vivo?
É uma pálpebra que se fecha ou outra que se abre?
Empluma-se o espaço ou, ainda que domesticamente, algo o perfura?
Longe de toda a metafísica Luís XV limitou-se a disparar

Quando o gorrião interceptou a sua mira.

Fazes uma tosta mista, pede a minha mulher da cama,

Sonolenta, mais a pender para os frutos que para as asas.

A minha amante imaginária, pelo contrário, é ciumenta

Dos sonhos do seu prisioneiro.

O pássaro-lágrima do Kerouac bate à minha janela.

Tem mãos de croupier.


domingo, 8 de julho de 2012

AO BALCÃO DE UM BAR DESCONHECIDO



Rafael Argullol é um brilhante ensaísta, novelista, poeta e professor de estética, catalão, com mais de vinte livros publicados. Tive a sorte de, há cerca de 15 anos, me ter atraído um título, o seu «El fin del mundo como obra de arte». E nunca mais deixei de o frequentar. Sempre que um amigo vai a Barcelona cravo-lhe um Argullol, e até agora (vou no quinto) são todos diferentes, nunca sei exactamente o que vou encontrar quando abrir o livro. Foi o que de novo aconteceu com «El Cazador de Instantes/ Cuaderno de travesía (1900-1995)» que me mandou o Valério Romão. É um livro de aforismos. Aqui deixo alguns:


Não podemos prescindir da imortalidade. É a melhor droga contra o cansaço.


O pensamento pode permitir-se um amplo leque de hipóteses. O sentimento só pode ser um príncipe ou um escravo.


Pode-se sempre abjurar facilmente de todas as verdades recebidas, face à presença de uma mentira plena de amor.


As nossas ideias acerca da humanidade informam-nos, na realidade, sobre nós mesmos. Primeiro, quando somos grandiloquentes, entusiasmamo-nos por ela; logo, convertidos em misantropos, odiamo-la; finalmente, já indiferentes, excluímo-la do vocabulário. Evoluímos, nós, e não a humanidade, que nunca foi senão uma palavra que só serve para denunciar a nossa idade espiritual.


Numa cidade estrangeira, ao balcão de um bar desconhecido, conversando com um estranho que dentro de minutos desaparecerá, sem vontade de voltar ao hotel e com toda a noite por diante: a liberdade é sempre inquietante, e assim tem que ser.


Não devemos evitar as feridas que nos produzem certos pensamentos cortantes como facas: um espírito curtido está inevitavelmente cheio de cicatrizes.


Os bárbaros nunca existiram. São unicamente sintomas do terror que uma civilização alberga no que respeita a si própria.


A ressaca é o preço que devemos pagar pela provocatória barriga cheia de certezas que manifestamos durante a bebedeira.


Tédio: sei que acontecem muitas coisas mas não sinto que nada esteja prestes a suceder.


Não creio em nenhum deus. No entanto, para esquecer-me completamente do divino teria que vir algum deus convencer-me.


Não há gente menos recomendável do que a que alardeia continuamente a sua identidade. Esses fanáticos não só creem que as suas choças são palácios  como também estão sempre dispostos a cavar uma tumba sob os pés dos incrédulos que os advertem sobre a sua confusão. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

10 SONETOS PARA O SÉCULO XXI, 2

                                                                   Walter Zandamela

10 SONETOS PARA O SÉCULO XXI, 2
                     (procuro um sofá)
Procuro um sofá de dois ou três lugares, preferencialmente
com cama de enrolar. Há quem procure uma alma,
ao rubro, incandescente, ligada à memória por uma liga

imaterial, algo clonado no trânsito do gato, da sexta


para a sétima vida. Há quem jogue no casino ou faça copy
and paste da segunda a domingo para se poupar e poder lastimar

que as borlas não lhe tenham calhado, ou jogue tudo na política.   

Eu procuro um sofá com cama acoplada e se possível



com gente dentro, um nauta. Num mundo pós-simbólico

e prenhe de natas um nauta talvez nascido no âmago

sob a pele do meu sofá há-de localizar


a duplicidade coruscante que me rompa o tédio
de não haver nada para além da linha do horizonte.
E faremos filhos, entre uma torrada e outra e pão com gila.

terça-feira, 3 de julho de 2012

REMINISCÊNCIA E SONETO

Nove da manhã. Compro numa banca de rua o III volume da obra «As Maravilhas Artísticas do Mundo», de Ferreira de Castro, e corro para um café na ânsia de banquetear-me toda a manhã (- esquecido já do livro que levava comigo).
Abro-o ao acaso nas primeiras gravuras, umas péssimas reproduções a preto e branco. Deliciam-me o carácter escultórico dos rostos em “A descida da Cruz”, de Fra Angelico, e a insinuação estrábica do cónego Van der Paele, em Van Eick, e pasmo com a aparição de Delaunay ao fundo da “História de Santa Cruz”; depois volto a página e dou de chofre com a Estátua de Lourenço de Medicis, de Miguel Ângelo, conhecida por O Pensativo. É aí que vejo, pela primeira vez visto… aquele dedo encaixado em arco no lábio superior, que encosta o nó ao septo nasal, antes de pender, absorto, e ilumina-se-me num flash: mas este é o gesto preferido do poeta João Miguel Fernandes Jorges, o sinal de que ouve os outros ou congemina um verso supersónico que lhe sulca de algodão o ecrã azul da mente.
Foi este gesto que desatei a imitar, anos depois de deixarmos de privar (em homenagem…), até que me dei conta e passei a cultivar os meus tiques, etc., etc.
Não sei se o João Miguel terá consciência deste decalque (ou da coincidência), ou talvez, sim, que nunca deu nó sem se inteirar previamente do nome do enredo.  E interrogo-me sobre qual será o justo peso, voluntário ou inconsciente, do que imitamos na construção da nossa identidade. E terá importância o modelo que escolhemos…
Eu, por exemplo, verto o bule com a mesma inépcia com que o fazia o Eduardo Prado Coelho, o mesmo pasmo repetido e insolúvel ao ver como o chá entorna e alastra. Inclino o bule no mesmo ângulo, espetando um impotente mindinho que sublinha os estragos, e só introduzi de meu um látego nas narinas face ao irremediável.
Hei-de escrever um manifesto em defesa de tudo o que imitei, antes que venha um chato lembrar-me o que eu aludia ou o que omitia com o vocabulário ou até com a anatomia dos meus gestos.
10 SONETOS PARA O SÉCULO XXI, 1

(operação stop)

Perícia venatória: gosta de selos
E de minete o polícia
Com crachá que me incita,
Num desalmado princípio realista,

A comprar-lhe a minha multa.
Tal como países terceiros resgatam
(Com que clemência?) as Soberanas
De primeiros e segundos, capacito-me

Que de pátria para pária
A diferença está na dívida
E no tipo de pomo corrompido

Que aceitamos na taça de fruta,
A meio caminho da emaranhada
Luxuriante queda abrupta.



domingo, 1 de julho de 2012

CODORNIZES E OUTROS DESPOJOS BUCÓLICOS

                                                                   


 Jindrich Sreit

                                                                                          Da infância, lendo Hugo Claus
   
1
O chapinhar das ondas, o lamiré perfeito.
Beijá-la? Galvanizar o ninho a ser roubado.


2
O cabide de plástico – para uma camisa? – rasga a relva, é a mais insólita das dedadas.
O viçoso tapete verde, de um extremo a outro, tem para cima de dois campos
de futebol.  Pela alba, o orvalho reanima o luzeiro.
De súbito, a sola humedecida pisa o cabide, laranja como um argueiro. E sobre ele, periclitante, indecisa, a joaninha.


3
O oblongo dorso de quitina acomodou-se ao solo. Sobre a pança do escaravelho – uma membrana onde encaixam cinco patas que espanejam o ar – assentaram estendais as formigas, indóceis topógrafos de mandíbulas que tudo aplainam.


4
O recreio da escola: galinhas e as verdoengas caganitas. Confinados a tão pouco, ao perímetro de cimento que as galinhas ainda não haviam colonizado,
aprendíamos que nada nos era destinado; mínimos e fugazes pingos de sangue
na neve. Às vezes alguém levava castanhas e as mãos estalavam, «quentes e boas».


5
O moinho velho, já sem pás. Aí se escondia o contrabando. Dizia-se. Nós untávamos de visco as moitas, a amoreira e, receosos, espreitávamos na fechadura da empolada porta azul, antes de, de riso preso, urinarmos no centro
da mó enterrada no chão.
Até que - já não lembro quem – um de nós jurou que a mó lhe lembrava o olho de Deus. 


6
Soubesse eu o nome daqueles caules felpudos que nos chegavam ao peito, um prado imenso de flores roxas e incógnitas, apartadas de nós pelo desbaste das varas com que atalhávamos o caminho para o canavial.
O entrecortado marulhar do ribeiro distraía-nos e não raro estrelejavam sapos sob as nossas solas, em barda naquele rincão.
Cinquenta metros depois a conduta do esgoto cortava as águas e marcava o início da cidade.

7
Não havia figueira como aquela, oblíqua, enclavinhada no rebordo dum socalco
- do seu tronco dependurava-se um cabo, a nossa liana de Tarzan.
Miúdas, futebóis, ofensas mortais e o planeamento do desforro, sob o seu pálio
governava-se o mundo, fumavam-se as primeiras beatas.
Ainda as auroras não tinham rugas.

8
Reguadas e ponteiradas: eis a prévia condição para tornarmos ao cói,
isolado pelo canavial do desconcerto do mundo.
Já deitávamos as beatas na caixa das esmolas.


9
Era uma bola de fogo donde emergia uma cauda de avião. A trajectória
não deixava dúvidas: caíria na Mata dos Medos.
Revezámo-nos toda a semana, aos pares, e a batida
foi extensa e supervisionada pelo fragor do mar.
Mas a mata conservou fechados a sete chaves os seus segredos.
Na busca, recolhemos o Tripé, um cachorro a quem a maldade
humana havia decepado uma pata e que em nós achou
um centavo de ternura.
Até que alguém lhe chegou o isqueiro.


                                                                           Bert Hardy
10
Entre outras proibições, era-lhes vedado comer vagem ou coração, ser o primei-ro a cortar o pão ou autorizar que andorinhas fizessem ninhos nos seus tectos. Pitágoras não transigia.
Eu, todas as Primaveras aguardava com excitação que as andorinhas fizessem ninho na nossa varanda. Virá daí a minha enferma antipatia pelos números.


11
Valores como saber manter fresca a manteiga sem frigoríficos, medir os brilhos numa tina de azeitonas, ou ter um cão treinado para ir ao lugar roubar o torresmo, o toucinho, confiava o lenhador reformado enquanto amolava o machado e lhe apreciava o fio de luz – tudo o que de uma vida para outra não se repete. Um dia, contou, moendo vagarosamente o pão com requeijão, a meio dum tronco, a meio do lanho, amoiteceu-me o futuro. A lâmina ainda lá está presa à embravecida, desimpedida, manhã.


12
Tão pobre o vocabulário do cuco. E contudo, em casa alheia, faz fortuna.


13
À primeira, o bom quinhão de favos de ouro na caixa de sapatos foi esfacelado pelo gato.
À segunda, o meu falho aproveitamento escolar encolerizou o meu pai, que mandou a caixa de sapatos e os seus oito favos pela janela, lapidados de imediato por uma chuva a rodos.
Não tentei mais, parecia-me a natureza tão frágil! 

14
Gosto da tatuagem da luz nos instrumentos de cobre.


15
Salgueiros. Quando os vejo do rio aceno-lhes em memória daquele dia, quando no rasto de castanha da índia nos quedámos sob os salgueiros, num irreflectido corpo a corpo.
Há anos que não lhes aceno, há décadas que morreu aquele dia.
Só o rio permanece insolúvel.

16
O que é um poço? Desdenhávamos, até o primeiro cair no seu negrume.
Batia o dente quando o tirámos a cavalo num balde de zinco puxado por dois homens.
De lá de baixo, jurava, as cabeças tinham auréola.

17
À noite pareciam-te plátanos e de dia recortaram-se: eucaliptos.
Também a luz que te devasta o rosto o sulca de enganos.

18
Repentinamente, o vento alivia o garrote às acácias.

19
Surpreendido e só, na capela, ouvi primeiro o ecoar invisível e depois, verde, a locusta triunfante de banco para banco.

20
Na ânsia de irisar a sua noite, a ostra cria a lua.

22
Quando vier o granizo vergastar os pomares, partilharei desta vez um aquecido silêncio de castanhas no bolso da gabardina, uma camisola de lã grossa, com moinhos, e uma surpresa que acene e resguarde o riso e os gestos dos mistérios da chuva?
Ou será, again, a brasa que se apaga, o pavio de uma solidão antecipada, tomar
café, fixando nas borras uns olhos pretos tristes, e na vidraça o tear fúnebre da paisagem liquefeita; bater, perdidamente bater no teclado para que não gelem as mãos?

23
Dedaleiras sim, vi-as, cheirei-as, toquei-as, às dezenas na Arrábida, num acam-pamento em que me fartei de namorar.
De resto, tive sorte, nunca me seguiu o brilho estridente dos milhafres.