sábado, 8 de outubro de 2011
PENETRADO PELA CHUVA
![]() | ||
| flor garduno |
EM JULHO DE 1990
De pé, num enterro
sentia que o morto
adivinhava os meus pensamentos
melhor que eu mesmo.
O órgão havia-se calado, e os pássaros pipilavam.
Acolá a cova, solarenga.
A voz do meu amigo mantinha-se
no reverso dos minutos.
Reentrei em casa penetrado
pelo estilhaço desse dia de verão
como são a chuva e o silêncio
penetrados pela chuva.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Tranströmer: pegadas na neve
Tomas Tranströmer. Não calculo o que seja ter nascido com o nome de a quem caiu o céu em cima da cabeça, mas desde que em 2004, em Lisboa, comprei uma tradução que reúne toda a sua obra, Baltiques (Gallimard), que é um dos meus poetas de cabeceira. Também o tinha na excelente tradução em espanhol da Hiperion, mas esse foi-se no bolso de um amigo que tem sempre os bolsos esburacados. Procurei várias vezes um sueco que quisesse fazer comigo uma tradução do poeta, e inclusive nesse intuito escrevi um email a Henning Mankel, que vive a maior parte do ano em Maputo, mas só obtive o silêncio. É pena porque adoraria fazê-lo. Se alguém conhecer um sueco amante de literatura e que fale português diga-me. E Tranströmer fascina-me ainda mais, sabendo-o em silêncio desde Novembro de 1990, quando foi vítima de um derrame cerebral que primeiro o atirou para uma afasia profunda e depois para o silêncio, que mata entregando-se à sua grande paixão: ouvir música.
Aqui vos deixo três pequenas versões e prometo voltar a tentar rapidamente novas versões, aliás como também de Adonis, o poeta sírio que, segundo as notícias, estava com ele na linha de partida para o Nobel, e de quem também gosto igualmente muito.
1
Farto dos que chegam atulhados
em palavras e nomes – uma algazarra
mas nada de linguagem –
parto para a ilha coberta de neve.
O indomável não tem nomes.
Brancas, as suas páginas
encadeiam em todos os sentidos.
Dou de caras com as pegadas
de um cervo na neve:
nada de palavras mas uma linguagem.
2
Em passo lépido, a árvore sob a chuva
passa ao nosso lado no escorrido da pintura.
Reserva-se uma missão: transborda a vida
na chuva como a um melro num pomar.
Assim que a chuva pára, imobiliza-se a árvore.
e brilha, serena e muito direita na noite estrelada,
esperando como nós pelo instante
em que os flocos de neve farão desabrochar o universo.
3
As orquídeas.
Os petroleiros passam furtivos ao longe.
Lua cheia.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
UM VISLUMBRE LÍMPIDO
Vou à despensa buscar um vídeo que tenho de rever. Mais desarrumada que a cabeleira de Deus, a minha despensa é um novelo de encontros improváveis. Entalado entre dois vídeos, ressalta um livro de Ramos Rosa de que me havia esquecido de todo: As Armas Imprecisas.
É um poeta caudaloso que às vezes sofre de desatenção. Acrescente-se: com a própria. Leio: «Escuta: o mar é um pulso e a sua mão está aberta», e constato que os restantes versos do poema, de menor incandescência, abafam esta imagem.
Peneiro de outro poema um vislumbre límpido, «um rodopio de aves interpõe-se entre a luz e o lugar», num oceano de algas ferruginosas.
Que inexplicável suspeita, em relação à sua própria intuição, leva o poeta a esquecer uma regra elementar na arquitectura de jardins: uma árvore frondosa deve ter espaço para respirar, fundo onde se recorte?
O que, por seu lado, nada tem de ver com a contenção mas com a volúpia da lucidez.
E, contudo, que saudades tenho de poetas como Ramos Rosa capazes de descentrarem-se!
!
terça-feira, 4 de outubro de 2011
TERRITÓRIOS DE UM CORPO
![]() |
| matta, o pintor que gostaria de ter sido |
A FÁBULA DO SANGUE RESTITUÍDO
Estou morta – grita a velha.
O pára-choques a leste de tudo.
Ela corria no meio da estrada, diz o homem ao volante.
O seu sangue escorre, murmura o asfalto negro.
Sangue? Foi-se todo, diz o homem de branco.
Ela é minha, comenta a morte gris.
Este é o meu sangue, diz o homem junto aos raides.
Sou o seu filho, diz o sangue neste homem.
Estou um gelo, pergunta-se a mulher.
Onde está o céu e o inferno, e o bem bom do fogo?
Eis O Cirurgião e A seringa e A pele e A agulha e O Sangue
Se este tipo continua com isto
malbarata o meu trabalho, diz a morte ao tempo.
Eis-me, diz o sangue à mãe.
Eis-me, diz o sangue do filho à mãe,
ao sangue da mãe que já tirita.
Boa-tarde sangue, diz o sangue, esperava-te há um bom bocado.
Para te rever teria empenhado todo o meu ouro.
Vou visitar o teu coração, diz o sangue do filho.
Então entra jovem sangue, diz o sangue da mãe.
Espera a golfada e não tenhas medo.
Depois dos trópicos e das raparigas, ainda te mantens puro?
Tenho medo, diz o sangue do filho.
Tenho medo e frio nesta velha mansão.
Agarra-te a mim, diz o sangue da mãe.
Conheces o caminho? Conheço.
Ele atravessa a aurícula esquerda, que o reconhece.
E atravessa os pulmões, que o reconhecem.
E atravessa a aurícula direita, que o reconhece.
E atravessa a cabeça, que não o reconhece.
Tempo não me falta, desabafa a morte ao tempo.
Uma segunda vez pelo coração, os pulmões,
e de novo chega à cabeça
e não se faz rogado, atravessa-a.
Sinto-me melhor, diz o sangue do filho.
Eu aqueço-te, diz o sangue da mãe.
Ela vai falar, diz o médico ao filho,
debruçai-vos, depressa, é a sua vida que vos fala!
Então a boca da mãe tremeu
e só o filho pôde ouvi-la dizer:
sonhei que o meu filho tinha nascido...
Karel Jonckheere
GÉNESIS
Antes do canto e do perfume, antes das águas e da terra,
onde estava eu? Algum desígnio na sombra
precedeu os astros? Ali, onde tudo permanece incriado
- talvez naquele que é raiz de sentimentos,
essa vontade intangível que se fará matéria,
se tudo estava nele então também eu,
também eu um entre os inúmeros seres,
parecidos mas nunca semelhantes. Com que objectivos?
Para quê todo este circo? Desfrutar de um tremendo universo
só para criar os nossos pés e unhas?
Passar do eterno ao efémero por uma sede de espelho?
Parir um ponto, começo e fim, que invalida o infinito?
Ali fui, de uma maneira perfeita, mínimo, muito menos que um vislumbre
e no entanto absolutamente necessário
para o equilíbrio da impensável máquina.
Cada formiga carrega, apoiada na sua nuca, a totalidade do universo.
O peso de uma pena abandonada a si mesma
pode amassar um mundo. Exponho-me ao sol para espalhar a minha sombra,
na memória que, no centro do presente, espera agachada como um tigre.
Ainda que não possam conversar
o piolho e o mendigo entendem-se perfeitamente.
Alejandro Jodorowsky
OS JAPONESES
Os japoneses simulam colisões de galáxias
com o tempo sem dúvida que daí se extrairá qualquer coisa a vender.
Um idoso está plantado sob o semáforo, não ousa
atravessar a rua malgrado o sinal verde. Ó Céu
dá-me a força de ver e, tendo-o visto,
de suportar as coisas do real, se é que existem.
Tempos houve em que amei, e amo ainda.
Não sei renunciar. O sinal passou a vermelho.
Penti Holappa
Os olhos do meu espírito não têm
a boca do meu espírito,
As mãos do meu espírito não têm
o corpo do meu espírito.
Esquartejado flutuo no abismo.
Azamboado de morte como uma água inquinada.
Já não quer dizer que não foi nada?
Todo um jogo de luzes e espelhos,
Todo um retábulo de fumo tenebroso?
As veias do meu espírito não têm
o sangue do meu espírito.
Juan-Eduardo Cirlot
TERRITÓRIOS DE UM CORPO
(excerto)
i
Formosa, a desordem do meu pensamento.
Que eu não sigo o exemplo dos mais antigos:
busco o mesmo que buscavam.
Por isso, nesta diáspora de ti,
sei que o silêncio que nos cobre é isto,
dois vultos que se dobram e enredam
para serem restituídos à sua solidão.
Comprovo: é Abril, o inverno termina,
que inclusive as flores são felizes.
Sou como elas, não pergunto nada;
e limito-me a estar sobre o teu corpo
como quem olha, sem temor, de frente
um eclipse
de sol.
ii
Deixa-me ser o hóspede da tua boca,
o vagar com que o calor te retine, nua.
Sou como o frio de uma noite deserta,
pronto a buscar afago nos despenhadeiros
onde faz ninho a melancolia.
Há um tal resplendor, a lua é tanta
que me deslumbras com o ardor
do teu silêncio, e submerjo em ti.
Impensável, uma eternidade tão à mão.
iii
Cada novo clima
é, em suma, um costume a que sou estrangeiro.
Expirou o dia
e, palpável, a obscuridade avança.
Deixa que me esconda junto a ti
no frondoso bosque de uns olhos
onde não deixa de chover.
Agachado entre os seus matagais,
aguardarei que a tua paixão me assinale o caminho.
Sei que o ar é mais doce onde cresce a luz.
iv
Eis-me arqueado na orla da tua claridade,
na sumptuosidade de uma batalha
onde ninguém é vencedor,
e até o odor do quarto,
onde rugem, insones, o teu apetite e a minha sede,
floresce sem sabê-lo, como um musgo nascido
da minha humidade tão tua, de uma senda
que nos conduz até esse mar sem ondas,
a terra azul onde tudo se desordena,
o centro mesmo do prazer, a espuma
que é o âmbito de toda esta explosão, e, ao fundo,
a chuva que golpeia as janelas,
a chuva sempre outra, insubornável,
com as suas lentas espinhas.
vi
Descobrir os motivos da aurora
é outra forma de pensar-te,
debruçada no corrimão do anoitecer.
Quanto a mim não sei
que mais possa dizer-te.
Só que por tua causa
quase tive o projecto de durar.
vii
Por trás do meu silêncio ouviste «não»,
quando quis dizer-te que não há ondas sem
a traça do tempo, o seu ardor,
ou a dormência de um calafrio.
Da minha antiga ambição não resta nada,
talvez apenas um torpe balbucio
queimado no rescaldo da tua boca.
Deixa-me a sós com a morte.
Para impregnar-me da tua luz
foi necessária tanta treva.
Logo, ao quebrar da alba,
com um desassossego
que tende a fundir-se na obscuridade
procuro os teus olhos nos meus
para que me confirmem que vivi? Entendes-me?
Também eu, como o sol, me porei um dia.
escreverei um poema, sem mulher nem nada,
e ao ler as palavras que dão forma ao meu rosto
talvez não advirtas que não estou. Abraça-me.
Peço a vez para apagar o sol.
Jenaro Talens
sábado, 1 de outubro de 2011
A AMIZADE: ESTAR A PAU
| Adicionar legenda |
Um gajo sabe que tem um amigo quando ele está a pau e simpaticamente, numa ironia fina, inteligente, nos faz reparar que cedemos à colherada diária de cabotinismo a que nos cabe resistir. Aí só resta rir – de nós, da nossa pompa, está claro.
Falo da infeliz legendagem da foto do post anterior e do comentário subtil com que o Fernando Santos, com o direito que lhe assiste de sermos amigos há trinta anos, me depena as plumas das peneiras.
Por isso lhe desejo as melhores férias no Brasil – parte segunda-feira – e que compre boa música, ele que é um percussionista de mão cheia e que sempre riu a bom rir das minhas ridículas pretensões nos batuques.
Para ele, Fernando, deixo um retrato:
Sísifo no espelho nº 8
o menino de meias ¾
há muito se envergonha dessa foto.
a mulher que foi bonita
o senhor de pincenê
talvez o viúvo
todos se envergonham dessa foto.
eu mesmo
certo dia tencionei rasgá-la.
não rasguei.
no silêncio e na impossibilidade
o retrato sorri.
Iacyr Anderson Freitas
Subscrever:
Mensagens (Atom)



