terça-feira, 6 de setembro de 2011

ALUNOS E JOGOS AFRICANOS


Pedi há 15 dias aos meus alunos de Dramaturgia que esboçassem um texto de 6/10 linhas só para empregarem o verbo «desarvorar», que desconheciam. Nenhum deles (em 16) fez o exercício e só um deles teve a curiosidade de ir ao dicionário ver o que significava.
Hoje, escrevi no quadro um verso de O’Neill: «pesou a moeda na mão do cego» e pedi-lhes que a desenvolvessem numa story-line (uma micro-narrativa que condensa em 5 - até 8 linhas – o plot duma história, e que tem que conter apresentação do conflito, desenvolvimento e desfecho). Estou curioso em ver até que ponto vão cabular. Mas todos eles, de antemão, se acham à altura de passar de ano e de ser dispensados de exame.
Algo está a diluir a inteligência, o menor sentido de responsabilidade dos humanos, e a tornar menos fiável o futuro.
Deve ser do desaparecimento gradual das abelhas, perdemos os antigos modelos na própria natureza, e com eles a crença no poder anfetamínico do trabalho na produção de mel.
Assim, se puderem furtar-se a escrever, os alunos fazem-no.
Por outro lado houve um aluno que me deu uma alegria, pela sua facilidade em detectar o problema da transmissão televisiva, sobretudo na coreografia do bailado, na cerimónia da abertura dos Jogos Africanos. 
Por um lado - por aselhice, ou falta de meios? - não havia Planos Gerais de enquadramento do desenho da coreografia que, disseminada por vários núcleos, permitisse ir entendendo a coordenação das movimentações da mole humana no relvado. Em muito momentos a coisa parecia uma justaposição de planos parciais onde tudo corria da esquerda para a direita (ou vice-versa) sem ordem, na fé que Deus desse um sentido àquilo.
Por outro - para além da saturação que nasce de que invariavelmente se repitam as narrativas da escravatura e da luta pela independência (esta gente sem querer está presa, apegada ao passado, de imaginário ainda cativo pelo colonialismo), como se não houvesse projectos, um futuro a construir, outras narrativas do presente - só quem fosse moçambicano entenderia cabalmente o que ali se representava, razão pela qual os locutores estiveram tão afadigados em querer explicar verbalmente o que as imagens não contavam a quem não tivesse as referências.
Erro de monta.
Claro que, para a generalidade dos moçambicanos, a cerimónia foi um êxito de arromba, e ninguém viu estas deficiências técnicas. Por dois motivos, desconhecimento do que seja a linguagem televisiva e relaxe.
Depois, o inegável ajuste organizativo quanto ao resto, camuflou o desacerto.
Embora não tivesse ficado bem no boneco tantas bancadas vazias, com tanto povo que adoraria ter tido uma oportunidade para participar do evento.
Mas a realização televisiva é que foi muito deficiente. O meu aluno topou. Aquele realizador chumbaria em qualquer escola técnica audiovisual com critérios de rigor. Como é que, num acontecimento àquela escala, uma coreografia daquela dimensão e a realização televisiva não se articulam e parecem desirmanadas, uma combater contra a outra?
Os “mais simples” dirão, lá está ele a denegrir. É o oposto, aposto simplesmente o que não esteve bem para que na próxima se melhore. Eu quero que as minhas filhas moçambicanas cresçam num clima onde a capacitação e o engenho andem a par e não num território de corsários aventureiros. Portanto é necessário, construtivamente, ser pedagógico, ainda por cima numa das minhas áreas profissionais.
Outra coisa, como todos, é ficarmos felicíssimos com eventuais êxitos competitivos dos moçambicanos - não é disso que se trata aqui, mas do amadorismo do resultado televisivo.
Este relaxe é o que se verifica em todas as áreas. Esta semana, uma aluna apresentou-se chorosa na aula porque o irmão mais velho, com 38 anos, morreu de repente no Hospital Central, por negligência médica. Uma história que se repete demasiadas vezes.
Em nome de uma diferença dos costumes sacrificam-se critérios de rigor no trabalho e na cognição, responsabilidade, valores. Afirmar que todas os costumes – e a suas morais – são igualmente válidas só soa bem (lembra José António Marina), quando é dito por um etnólogo feliz por estudar povos distintos e distantes, que não afectam em nada a sua vida quotidiana.    
A mim afecta-me muito que os meus alunos não apostem mais na sua formação, que o esforço que faço em transmitir-lhes conteúdos e valores tenha pouco eco numa mudança mais rápida de atitude neles. Que percam mais tempo a ver como se safam do que a ler e a estudar para se tornarem mais dotados.
Começo a duvidar dos meus próprios métodos: se começo a aula citando Umberto Eco, que dizia que «a semiótica é a disciplina que estuda tudo o que pode usar-se para mentir», e se com leveza e, traduzindo-os para o quotidiano, vou engatilhando os conceitos, tenho que ter muito cuidado para não correr o risco de eles apreenderem só a anedota, já que o esforço de sugerir que leiam – mesmo dado – o Tratado de Semiótica Geral será vão.
Mas o que é grave é ver como este relaxe, e o paternalismo global que o sustenta, continua em alta.
O Presidente Armando Guebuza foi agraciado com medalhas de mérito da FIFA por se ter empenhado na consecução da Organização dos Jogos Africanos e a abertura dos mesmos terem decorrido com eficácia. O que me surpreendeu. Que um país em vias para o desenvolvimento se proponha organizar um evento que exija algum trabalho e que cumpra a contento, não é em si a melhor gratificação? Se o México se candidata a qualquer evento e não falha na sua organização, isso não é normal?
Claro que Moçambique é um país mais pobre mas os seus índices de riqueza crescerão exactamente na proporcionalidade em que crescer a sua capacidade organizativa, a sua capacidade de mobilização de competências e quadros. E deve ser considerado normal e não excepcional, no caminho do desenvolvimento, a capacidade para fazer aquilo que nos outros países decorre do simples facto de se ser responsável. É um item natural do critério do progresso.
Há um iniludível mérito na organização dos Jogos Africanos e Moçambique (o presidente Armando Guebuza) marcou pontos com a sua execução, mas o gesto (político?) da Fifa, em última análise, embarca num mau exemplo de paternalismo.
O mesmo que admite que um mau estudante de medicina seja valorizado porque é moçambicano, ou que um mau realizador (seja quem for o responsável ou a sua nacionalidade) seja louvado porque mostra o seu trabalho na televisão moçambicana, ou que leva um aluno a pensar que pode fazer Dramaturgia sem ler e escrever o triplo do que acontece com os alunos de outras áreas, porque ser moçambicano é pertencer a um convencionado estado de condescendência e excepção.
Cada vez que me lembro que os atletas moçambicanos da canoagem receberam os seus “vasos” de competição seis dias antes da abertura dos jogos porque os mesmos foram retidos meses na alfândega dá-me vontade de beber mais “um vaso” de vinho.
Deve ser por isso que ando com gota, o que aliás me dá mais afinco para estar em casa a assistir ao esforço dos atletas moçambicanos.       
        

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

TEATRO FANTASMA


É óptimo acordar de manhã e de olhos ainda piscos ter uma descoberta destas. Refiro-me ao blog do poeta Marcelo Ariel, um dos melhores poetas que o Brasil terá neste momento. Infelizmente não lhe conheço a obra toda, mas hei-de escrever sobre “Tratado dos Anjos Afogados”, que é o livro dele que tenho e que me impressionou muitíssimo.
Agora verifico que o Ariel acaba de lançar uma plaquete com o segundo canto de um longo poema intitulado “A Segunda Morte de Herberto Helder”.
Fartei-me de rir, o poema é com certeza magnífico mas o Ariel não sabe como o Herberto, com quem convivi de perto durante dez anos, é supersticioso.
A foto lindíssima que vai em cima é de Francesca Woodman, duma série que Ariel posta no seu Teatrofantasma, aqui.
Como em tempos, já em Moçambique, escrevi três curtos poemas para o Herberto, num impulso que me motivou a notícia por amigo comum de que estaria gravemente doente, aqui os deixo, dedicados ao Ariel:

DUAS ELEGIAS E UMA EXORTAÇÃO
1
O momento é de crispação e detalhe. O Herberto está doente.
E a dez mil quilómetros o meu sopro é um eunuco, incapaz de segredar-lhe: aguenta-te meu velho, a vaca de aço, para atravessar o vazio a vau, tem de transpirar - e, em ti, desatar nós nunca foi repertório.
Quem nos autoriza a dissentir neste esplendor unânime – quem nos atraiu ao ardil de imaginar que, só quando o poema é diáspora de si, se abrem as torneiras do infinito?
Os desertos crescem e eu, inepto para matar dragões, rezo.

2
Poucos planam à altura dele, em vida.
Resta-nos aprender a morrer, e já é um pau. Um pau que não serve toda a obra.
De marmeleiro e despido da saudade de ser árvore, folhagem, cuco, ciclone. Pau intacto entre os despojos da batalha. Um pau que a cobra salpica de sangue quando, nas mão de uma criança, zune.
Poucos transitam por onde ele anda, escuto, não é inabitável a sua noite, escuto, ondas de rádio engravidam fantasmas que conversam, imemoriais, como o girassol inclinado para o astro, escuto.
Sem solenidade, de coração entre as mãos, como todos nós.

3
Aprende a confiar no veneno que a vida te administra,
na benignidade da colher onde relampeja o cadafalso;
confia na visão dos que te amam, apesar de extraviados
como paus e copas nas mangas do batoteiro;
tens de confiar: nem todo o ovo choca a serpente
e há voos onde vingam as sílabas insepultas;
terás de confiar no Sem Pele, que apertará o teu laço
depois de destrunfar-te o acervo, as grainhas,
confia, não é póstuma a acácia, se as suas lâmpadas
vermelhas deixam de boiar nas chuvas de Março;
tens de confiar: só pela feição do vento sairás do labirinto,
só pelo esplendor nómada é o chaveiro de ouro;
confia na queimadura que sulca e impele as trevas
ao palor lacustre do mais breve lampejo; confia:
os teus olhos voltarão ao lustre da sala onde Deus
guarda as pautas da rebentação nas praias sem vivalma;
nunca te canse confiar no prodígio com que a memória
irisa a pena em sua asa – num hiato de ser manca;
e fia-te no gorjeio das manhãs, no contraponto
que, alheio à tua aptidão para línguas constela
os corações; confia e rediviva a amizade voltará
a pular sobre as buganvílias nos cem metros barreiras;
basta confiares no verdor da epifania;
na salva de arrepios que te lança na bruma dos rios;
ou na metade de fantasma que rói a desacordada
carne dos teus gestos. Terás de confiar, a trama é simples,
basta o cisne não estar rouco à hora do requiem
e é inigualável a vantagem em amar o corpo
de quem nos cilindra com um xeque-pastor.
Confia: a montanha voltará a ocupar o lugar
do poema, e o seu trilho entre as nuvens.

domingo, 4 de setembro de 2011

MEMO DE DOMINGO, CADERNO DE JULHO

os sonhos de sábado: Richard Avedon

A palavra ‘inteligência’ é uma das mais elásticas do nosso vocabulário: sim, ele tem a inteligência duma trufa, etc.


Nelson Goodman: “a realidade de um mundo, tal como acontece com o realismo de uma pintura, é em grande medida uma questão de hábitos, de costumes”.


Lá me entrego a mais um forçado trabalho alimentar e às malditas revisões de livros. Tanto aqui, como no Brasil, a avaliar pelo que vejo escrito, perdeu-se o menor sentido do que seja uma pontuação. Concomitantemente, assistimos ao fim de certos tempos gramaticais. Onde se evaporou o futuro anterior? E o passado simples e o imperfeito do substantivo? Que significa esta simplificação? Os tempos gramaticais não são uma tentativa minuciosa de precisarmos todas as formas possíveis, todas as relações que entretemos com o tempo - no interior mesmo da nossa acção, do nosso pensamento? Que é uma conjugação verbal? Uma tentativa de pensar e de expressar a gama da diversidade das situações no tempo. Quando dizemos «…na aula, não ligámos nenhuma ao professor…», estamos no passado, remetidos para uma acção já acontecida, se escrevemos, «na aula, não ligamos nenhuma ao professor», estamos no presente, e a diferença é tão brutal como a que Camilo Jose Cela descortinava entre «estar fodendo» e «estar fodido». Não entender isto não é apenas grave, como nos descapacita para a conceptualização dos labirintos, desafio onde a imaginação se renova.


“Eu creio, honestamente, que é desonesto o poeta que escreve só para que o entendam os demais: escreve para entender-se a si mesmo” (José Hierro) 

O que surpreende em Vermelho e Negro, de Stendhal, e o torna actual, é ver como a literatura antecipou em muito a teoria do ego e do super-ego de Freud, como de resto em D. Quixote já isso tinha sido objecto de paródia. Como Julian Sorel, a personagem de Vermelho e Negro, nós alimentamos o nosso imaginário de modelos e da disputa entre as expectativas que a promessa de um modelo inaugura e as realidades - vivemos no fogo cruzado entre estas e as respostas-prontas que o modelo escolhido nos forneceu. Ou seja, os homens precisam da segurança das fórmulas que tatuem mapas virtuais na pele da realidade e reservam uma energia mínima para a escuta e o entrosamento com a matéria do presente.



SONETO ENCONTRADO EM QUEVEDO

Um dia vou para a rua, sento-me sobre cartão
esfarrapado e peço, a mão estendida ao salpique
de palavra encardida que já ninguém queira e use.
Porque, palavra, já não se sabe para que sirva
senão para ignaro, pobre, ou poeta ingénuo
que acredite valer a dita mais do que um volvo
ou pelo menos que console tanto como a vulva
ou que ossos de santo do tempo em que o gentios
como Francisco de Assis falavam pombo.
Um dia vou para a rua e no meio da algaravia
distraída, inaparente, chegará, como gosma
a palavra que o diabo não amassou,
a que consentiu ao peixe desramar o mar.
Enquanto não chega, dá-me para a sopa. 


Como é raro, a um adjectivo, conseguir empernar com proveito. A ostra, a lua, a noite - eis miúdas que não lhe dão abébias.


É humilde, a urtiga? A urtiga é o diadema da duna e pica com soberba e luxúria. É humilde aquele que se vangloria de ser simples? A esse, devora-o o orgulho de ser simples.
Conheci vários poetas que se arrogavam de simples para justificarem a sua tremenda falta de imaginação. A condição de ser humilde é outra coisa: é obedecer ao que cada texto pede: se concisão concisão, se uma aparência barroca, uma expressão múltipla, metafórica, carnal.
Verdadeiramente humildes são os dramaturgos que são obrigados a aceitar em cada personagem o seu carácter, sem que ninguém acuse Hamlet de ser prolixo. Aliás a prolixidade em Hamlet é o seu ethos. Estranho pois é que se peça a um poeta para ser isto ou aquilo, e isto e isto. Uma vez, numa entrevista ao espanhol ABC, se não me engano, Joaquim Manuel de Magalhães dizia que não traduzia Pere Gimferrer porque tinha metáforas a mais.
Não entendo isto. De facto, Gimferrer não é o Ungaretti, mas a pergunta é: e tinha que o ser? Gimferrer (um dos grandes poetas do século em Espanha) é o que é com as suas metáforas e não apesar delas. O mesmo vale para a intrínseca concisão do italiano – não é uma expressão por defeito, mas a que melhor defende o tipo de energia que Ungaretti desencadeava no verso.
Eu, de cada vez que evoco a humildade sinto-me a caminhar sobre brasas.


Ouço-os, cometas ébrios. Dizem de um terceiro: o man está grosso. E não sabem que podem dizer: está alegrete, ébrio, bêbado, com um pifo, com uma buba… Sendo que a cada um destes termos, embora sendo sinónimos, talvez corresponda a um grau diferente no longo itinerário daquela narsa.
Não têm vocabulário, e por isso só têm uma resposta para o estímulo.
E pensando nisto levanto-me para ir aos lavabos e de caminho tropeço numa perna de cadeira e estatelo-me ao comprido. Ouço-os comentar, atrás de mim: o man está grosso. Assenta como uma luva.
        

sábado, 3 de setembro de 2011

CIDADE SITIADA



Texto lido na apresentacao do livro em Maputo, pelo academico "Joao" Cabrita, tal como saiu reportado na maior parte dos jornais:

Desde que em pequeno não me chamaram Ernesto e me retiraram assim importância ao nome, pois não acredito que um senhor com o ferro, o espírito, com os fluidos do Oscar Wilde chamasse a um livro Da importância de se chamar Ernesto, se isso não fosse vital para o entendimento do mundo e para a própria elucidação de cada pessoa no mundo, desde que me fizeram essa desfeita, repito, que me obceco em saber a razão de ser do nome dado às coisas.
Quando o João Paulo me deu este livro fiquei logo alarmado com o título: Cidade dos Espelhos remontava-me à agonia que eu sentia em miúdo no barbeiro, entalado entre o espelho da frente e o das costas e reproduzido a infinito. Ora eu, como Jorge Luis Borges, peço a Deus que me poupe de imagens ao espelho.
Fui então examinar quantas vezes aparece a palavra «espelho» neste livro e porquê.
Fiquei arrepiado, esta cidade deve ter uma dívida soberana estratosférica pois teve de hipotecar todos os seus espelhos. Pelo menos os inteiros. Na página trinta, o maldito aparece pela primeira vez designado, lê-se assim: «um espelho partido que nos devolve a imagem multiplicada em muitas possibilidades (um espelho que multiplica o céu carregado e o medo)». O primeiro espelho, esta partido e apascenta entre outros cacos.
Na segunda vez, na página 41, fala-se de soldaditos a fazer uma rusga, os quais são assim definidos: «não querem ser cegos e contudo temem ver», e adiante continua-se falando do receio dos magalas a ficarem sós nas veredas dos subúrbios e refere-se o susto «de um soldado que se vê solitário, e mesmo, para lá dele, quando nas superfícies lisas dos espelhos cada um vier a descobrir a miríade de reflexos que tem dentro!». Eu próprio sinto um tremor, ao dar conta que mesmo dentro de si o soldadito nunca se verá inteiro, ou de um relance, mas dividido, esquartejado por milhentos reflexos. Portanto, o primeiro espelho estava partido, no segundo é o sujeito que à partida está embutido por reflexos exteriores, que é o mesmo que dizer: é alguém sem imagem de si.
O terceiro espelho, na página 61, afunda-me na mais profunda angústia. Neste momento da narração é bom que se saiba que a polícia apanhou o cabecilha do atentado terrorista com que começa a novela e o tortura, e que os torturadores estão satisfeitos. Leia-se: «convencem-se de que ouvindo o prisioneiro estarão defronte de um espelho que reflecte tudo aquilo que verdadeiramente importa». E este espelho, neste caso, um eco, parece-me que repete não aquilo que é mas somente o que se quer ouvir.      
O choque torna-se simétrico, se nos lembrarmos que o acto terrorista do primeiro capítulo foi perpetrado com bolas de sabão que continham um caldo bacteriológico mortífero. O que é que mais atrai nas bolas de sabão? A dança dos reflexos, à sua superfície, e a sua doce, alegre, difusa indefinição.
O quarto e o quinto espelho pertencem ao general, e já se sabe da importância dos generais na vida das cidades africanas. Um general é uma figura majestática, enredada na sua importância histórica, que antes de ser Ernesto já o era, e que todos os dias meditabundo treina para estátua.
Este general, está dividido entre a acção de ter de despir o seu robe cor de latão com riscas de açafrão – por causa das cortesãs que lhe inundam “a caserna” -, e a acção de mostrar à empregada que lhe lava o chão quem verdadeiramente manda ali, no três por quatro do chão que ela lava, e tem um tipo de espelho preferido: «um que não lhe dê o reflexo mas antes um vincado contraste». O contraste que se instala entre amo e senhor, entre uma sociedade que o serve e o seu olhar de milhafre.
O sexto, sétimo e oitavo espelhos menciona-os o narrador no capítulo final para num laivo conceptual explicar,
a) naquela cidade «ficam os objectos como espelhos dispersos em diálogos mudos»,
b) concluindo - e é neste golpe de ironia que o livro acaba -, que «a cidade dos espelhos ficará em suspenso, perdida neste jogo de reflexos».  
Ora, o que é um jogo de reflexos, se não o sustenta um vínculo, uma mútua corrente emocional, uma reciprocidade? Uma bola de sabão à beira de estalar.
Portanto, dada a volta ao livro em oito espelhos, verifica-se que nenhum dos espelhos cumpriu a sua função, porque nenhum devolve qualquer face, uma réstia de rosto humano, um diálogo, e constatamos estar a cidade do livro destituída de algum tipo de vínculo que una objectos – dispersos -, pessoas e projectos.
Para além dos espelhos, há vários efeitos miméticos que perpassam pelo livro. Cito dois, logo no primeiro capítulo:
«’Onde diabo descobres estas coisas?’, pergunta Jeremias (o chefe dos terroristas) em voz baixa, como se fizesse a pergunta a si próprio.
‘Onde diabo descobres estas coisas’, imita Caia com a careta de sempre”. (ublinhado meu, pág. 13);
Depois das bolas de sabão atingirem o Templo, realizando em pleno a sua acção mortífera:
«E assim se propaga outra desgraça paralela à desgraça principal, aquela que faz com que os desgraçados a quem nada ainda aconteceu sofram a dobrar, pois enquanto os outros partem em grande enlevo – confundindo até os primeiros sintomas, na fracção de segundos em que os sentiram, com o clímax do prazer e da euforia – estes têm tempo de saber que é a morte que chega, e de intuir que depois dos companheiros chegará forçosamente a sua vez».
Os últimos a morrer sabem pela careta dos primeiros a morrer qual vai ser a sua máscara de morte e antecipam-na no seu íntimo, reproduzindo-a. Mas este cruel efeito mimético, tal como o de cima é mais uma marca de redundância na comunicação que um verdadeiro sinal de comunicação efectiva. 
Julgo que j'a estamos entendidos quanto ao que se retrata nesta cidade futurista, sem nome, e já veremos por quê, do qual só se conhece a toponímia de uma Avenida, Louise, assim mesmo em estrangeiro colonês, cujo origem ou rasto se perdeu no tempo, e que brota dos escombros de um apogeu em si mesmo desmemoriado, como a identificação das estátuas que salpicam a Avenida.
O boulevar Louise, a Luizinha numa tradução à letra, é uma unha encravada no  projecto marcial da cidade, um projecto de cidade-macho que prescinde de qualquer outro sentido de unidade para além do medo, do constrangimento, dos mansos arbítrios autoritários.
Uma cidade-macho é uma cidade onde se extraviou o rasto da solidariedade e da comunicação. Nesta cidade-macho onde os espelhos não devolvem qualquer imagem e as pessoas vivem no estranhamento mútuo que se sucede ao terem-se quebrado os fios do afecto e da reciprocidade, sem aquela memória trémula e ulcerada do feminino – a boulevard Luizinha – a cidade, diz-se, «não passaria de um arquipélago de aldeias desavindas, entretidas em ódios mútuos».
Olha, a Sommerchield e Xipamanine – felizmente que tudo isto se passa no futuro!
João Paulo, na Crónica da Rua 513.2, dera-nos em farsa os dramas do homem novo do socialismo, agora escreveu com esta novela “futurista”, absolutamente disfórica, uma purga para as utopias. Cidade dos Espelhos é uma novela da linhagem de «451 graus Fahrenheit», de Ray Bradbury, ou de «A Laranja Mecânica», ou que às vezes me lembra o genial Ismail Kadare, o albanês que desfez por dentro as falácias do regime de Enver Hoxa e a crueldade das tradições albanesas, e nela João Paulo ergue a sua visão do inferno.
Para Tolstoi o inferno é a sociedade na qual os ricos, ou os generais, esmagam os pobres. Os meios de evasão são os de sempre: álcool, ópio, jogo, droga e suicídio. Para Tolstoi o além não existe e o inferno está na organização social… Para Georges Bernanos, outro católico, o inferno é o de não se amar. Para Sartre, já se sabe, o inferno é os outros. Estes três infernos confluem como afluentes na Avenida Louise, e temperam a liga de um outro inferno que João Paulo propõe.
Cidade dos Espelhos novela faz-se de poucas personagens, um general, a sua mulher-a-dias, três terroristas, um deles cientista, uma avô, que é também mulher-a-dias, a procissão dos pobres, coadjuvantes e figurantes… (- engraçado como nas cidades-macho as mulheres ou são jovens punk ou, depois de reformadas, mulheres a dias).
O general auto-investe-se de importância porque é a única personagem a estar sempre no primeiro andar, a olhar a cidade de cima, da janela ou da varanda, como se estivesse no palanque do poder. Vantagem psicológica…
E a dado momento sai da varanda e entra em casa, e lemos: «O general vira as costas à paisagem. Na sua frente tem gelosias de ripa grossa para domesticar a luz que vem de fora; em seguida, leves batentes de rede que aprisionem os insecto curiosos; atrás dos batentes, portas de vidro martelado para dar cabo das imagens que ainda assim subsistirem; e, finalmente, um forro de tule, um ante-forro de gaze e um pesado reposteiro de brocado com o escudo e armas da república. Atravessa todas estas barreiras aconchegando a abas do roupão ao peito, de regresso à sua fortaleza privada».(pág. 79)
Esta extraordinária descrição de um homem que atravessa os vários mantos do real, quiçá a gelatina do tempo porque no caso de um herói - como é sempre um general nesta África que em vez de olhar e projectar o futuro se agarra aos feitos dos seus heróis na guerras de independência - se trata já de um nado-estátua, esta descrição em zoom, digo, realiza um movimento que na gíria literária se chama myse en âbime.
É um movimento especular – lá está -, que começou por designar, na heráldica, uma peça, no centro do escudo, que reproduz, em escala reduzida os contornos do próprio escudo. E, dizem os tratados, que na narrativa, a myse en âbime é a função dum episódio narrativo destinado a reflectir de uma forma reduzida, num ponto estratégico, e por homologia, o conjunto das estruturas da obra em que se insere.
A myse en abime mais famosa da literatura e a primeira é a que descreve o escudo de Aquiles onde vemos em zoom suceder-se um mundo onde nem faltam duas cidades.  
É a este artifício narrativo nobre que tem direito o general, um verdadeiro Aquiles entre os seus.
E este efeito especular talvez nos explique a razão de não ter a cidade nome, porque o zoom, a myse-en-âbime deste livro só pára nos olhos do leitor.
Num dos raros momentos em que se assiste neste livro a uma orla de ternura, a avó vê o neto a dormir. O neto, o Caia, é um dos três terroristas que no início da novela abalaram a cidade com um crime hediondo, mas a avô vê como ele ressona levemente, e para ela, ele, diz-se, é «um pequeno anjo reflectido na íris da avó».
Batem à porta os soldados, à procura dele, mas a avó, contra a sua habitual passividade, age, e rapidamente tece em volta do neto um casulo com os fios da sua ternura, tornando-o invisível aos olhos de quem lhe procurava o paradeiro. A avó descobriu de repente que não lhe era possível manter-se indiferente e agiu.
A mise-en-âbime deste livro só pára na íris do leitor e a cidade futurista que ele convoca é provavelmente a cidade em que pachorrentemente o leitor atravessa o seus dias, a cidade descarnada, indiferente, atormentada, deste, lê-se no livro, «futuro que não deu em nada».
Este livro incómodo, onde nos reconhecemos como no espelho que lhe falta, convida-nos a deixarmos a passividade, o medo, para intentarmos ao menos o plinto da reciprocidade, de modo a que cidade (a cidade do seu leitor, Maputo ou outras) volte a ser uma teia credível de relações humanas e não apenas o boulevard onde, por entre buzinas, se exibem os heróis, os velhos e novos senhores da cidade.
«O inverno dos vivos não é coisa que esteja para chegar; e existe um inferno, é aquele que já temos, que habitamos todos os dias e nele estamos juntos. Existem duas formas de não sofrer. A primeira é facilmente conseguida pela maioria: aceitar o inferno, tornar-se ponto dele a ponto de não o ver. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: procurar e saber reconhecer quem e o quê, no meio do inferno, não é o inferno, e fazê-lo durar e oferecer o seu lugar», escreveu Calvino, a fechar as suas Cidades Invisíveis.
Cidades sem Espelho, como esta de João Paulo, como todas as cidades do mundo onde prevalece o poder dos ricos e a materialidade mais cínica substituiu a ética.
É um livro incómodo mas, com a humanidade de que o João Paulo – que é um tchekoviano a dar uns passos para o Gogol – é capaz, é um livro que aponta sem acusar e muitas vezes faz-nos sorrir. Vou dar dois breves exemplos:
«O general vem à varanda. Enverga um roupão de seda cor de latão com eflúvio de açafrão. O seu corpo é o resultado do grotesto cânone de um médico louco: tronco maciço subjugando umas perninhas finas, duas sobras de corpos diferentes num corpo só. A sua alma é seca como a raiz de uma macieira; o nariz, uma explosão de substâncias moles que o tempo foi endurecendo.
Mas o olhar, ah o olhar!» (página 24, sublinhado meu).
«É certo que as sentinelas gostariam de atrair algumas mulheres assim como a luz atrai os insectos. Pensam nisso e empurram os elmos para a nuca, deixam descair as armas até as coronhas ficarem assentes no chão, esticam o peito para deixar refulgir o botões.
Todavia, o subúrbio continua a ser uma esquiva amêijoa fechada».
No capítulo 13, numa engenhosa montagem paralela (um recurso cinematografico que escapou a João Miguel Tavares), a narrativa põem em contraste o enterro de um pobre e o de um aviador, outro herói com direito a discursos e salvas, e até a um pato atingido pelas salvas. Pena que a promessa duma tal refeição fosse tardia, porque afinal o herói, como o pobre, já está embrulhado na enxuta «mortalha de linho alvo» com que a morte democratiza o que parecia irreconciliável. Este jogo de montagem funciona, again, como um efeito especular, só que invertido: a dessimetria do tratamento social face aos dois homens que convergem no ponto verdadeiro que os une. Simultaneamente assistimos à impaciência do coveiro (“há mais a quem enterrar…”) e à sua psicologia de pobre alienado aos seus: «Nada pior para um pobre que a lentidão de outro pobre.» (pág., 88), terrível formulação do egoísmo colectivo.
Por fim, um aviso e um reconhecimento. Este era o livro mais improvável de se lançar depois da efusividade de O Olho de Herzog. Foi preciso uma grande coragem do autor para escolher esta fábula sombria para suceder a um êxito. Eu julgo que isto dá a medida da honestidade do projecto do João Paulo: escolheu o mais difícil. O fácil era repetir-se.
Cidade dos Espelhos não é um livro fácil, é um livro que se pode estranhar à primeira, mas que galvaniza depois quando se começam a descortinar os nexos. Não é um livro com chave mas não é uma porta escancarada; da mesma forma que nos desafia a tirar a mordaça da indiferença exige que demos um passo para ele, exige que o leitor não se exima do seu papel de intérprete, e que active a sua inteligência, a sua energia de quando ainda acreditava que as coisas podiam mudar. O livro exige ao leitor o repto da mesma disciplina que foi necessária para o escrever.
Neste sentido é um livro que interpela, e como todos os livros que interpelam ficam. Pelo menos os livros doidos onde as árvores são todas sintéticas e choram quando passa o cortejo fúnebre dos generais. Funguemos com elas, porque senão virá perseguir-nos o espelho de Oscar Wilde, o inferno de Dorian Gray, e sugar-nos a alma.   

DEFESA DO MANIFESTO

que espelho lhe deu?
Sobre o livro Cidade dos Espelhos, lê-se na Time Out:
«Contava Richard Brooks que a melhor lição de cinema que recebeu na vida foi-lhe dada por John Ford, que certo dia o fechou numa sala a ver um filme porno. Quando o ambiente já estava a ficar um pouco embaraçante, Ford parou o filme, acendeu as luzes, dirigiu-se a Brooks, e disse apenas: “get to the fucking point”.
João Paulo Borges Coelho, escritor moçambicano de 55 anos nascido no Porto, que deu nas vistas quando em 2009 venceu o chorudo prémio Leya (100 mil euros) graças ao romance O Olho de Hertzog, precisava de ter escutado o sábio conselho de Ford antes de se ter lançado na escrita de Cidade dos Espelhos. O livro é apresentado como uma “novela futurista”, e de facto tudo se passa num tempo de árvores de plástico e bactérias mortíferas, numa época não esclarecida e numa cidade pouco definida, o que é geralmente um código para “parábola pessimista sobre um futuro tramado”. Confirma-se: há três assaltantes/ terroristas/ revolucionários, um regime autoritário que os persegue, uma velha, um general, mastins, uma clausura opressiva.
Borges Coelho sabe escrever, e não faltam formulações felizes (“os espelhos não se cansam nem se enchem, porque nada guardam”), mas o engenho da linguagem esgota-se em si mesmo, porque falta sempre história. Cidade dos Espelhos é como um casaco vistoso que se tenta arrumar num armário sem cabides: estamos sempre à espera que apareça uma estrutura de apoio, um assomo de sentido narrativo que impeça as palavras de desaparecerem no ar. Em vão. »
João Miguel Tavares
terça-feira, 22 de Fevereiro de 2011

1
Achei graça que depois de ter lido o livro três vezes e de julgar que tinha recenseado todas as vezes que a palavra espelho aparece no texto, João Miguel Tavares na sua leitura imensamente distraída do livro tenha captado uma que me escapou, “os espelhos não se cansam nem se enchem, porque nada guardam”.
2
João Miguel Tavares, de quem publiquei uns poemas numa antologia, é um bom tipo que escreve sobre cinema e livros, e sofre excessivamente da influência do cinema.
Acontece que contar esta anedota do cinema (gira) a pretexto deste livro é um erro. John Ford é um dos grandes expoentes da expressão condutivista do cinema enquanto a literatura – esta literatura - é o contrário, uma margem para as zonas intersticiais. Por isso, sente João Miguel Tavares que em Cidade dos Espelhos “falta sempre história”, quando ela está lá concentradíssima, nas dobras. O problema é que ela só é captada imediatamente para quem vive em África ou para quem, daqui a 20, 30 anos, na Europa, viver nos escombros das cidades ulceradas pela sua crescente periferização. Neste sentido é um livro futurista: o seu futuro é póstumo.
Este livro terá de facto, neste momento, alguma dificuldade de penetração numa geração de leitores condicionada pelo anzol da eficácia que o cinema e a influência dominante da literatura americana reputam como único valor. Para esta geração, pós-simbólica, um livro como este, mais indiciário que narrativo será de difícil compreensão. Da mesma forma que Caos, de Gombrowicz, ou que os romances de Ernesto Sabato, lhes devem parecer livros extraordinariamente bem escritos mas chatos, “onde falta sempre alguma história”. Ah, como Nabokov lhes parecerá saturado de metáforas! Por outro lado, Murakami, que me enfada de morte porque não deixa absolutamente nada para o leitor imaginar, é um ícone.
É ao que o cinema conduziu os leitores: formou uma geração de ejaculadores prematuros.
Mas depois desta geração saturada pela trivialidade do relativismo hodierno, pela lei do eterno refluxo, virá outra que voltará a preferir Lautréamont à eficácia de Dan Brown.   
Escreve João Miguel Tavares, depreciativamente: «tudo se passa num tempo de árvores de plástico e bactérias mortíferas, numa época não esclarecida e numa cidade pouco definida, o que é geralmente um código para “parábola pessimista sobre um futuro tramado”. Confirma-se: há três assaltantes/ terroristas/ revolucionários, um regime autoritário que os persegue, uma velha, um general, mastins, uma clausura opressiva.», esquecendo-se  de uma regra de ouro ditada por outro cineasta, Hichtcock: na criatividade, mais vale partir de lugares-comuns do que chegar a eles. É o caso, e o que interessa nesta novela é o que está no meio, nos interstícios.
3
«Escrevi este livro como um manifesto pela autonomia da literatura…» disse o João Paulo, no lançamento do livro, em Maputo. Autonomia em relação ao real, e às grelhas e fórmulas do sistema narrativo a que um autor se vê sujeito, depois de um certo êxito. Autonomia em relação a um estilo, que seja uma marca de autor.
João Paulo que já demonstrou várias vezes que sabe escrever uma história e muito bem, conduzindo o leitor nos meandros da peripécia – e bastariam As Visitas do Sr. Valdez, Meridião e Setentrião ou O Olho de Herzog, quis desta vez fazer um livro liberto das fórmulas da eficácia, onde a palavra valesse por si e a expressão literária não estivesse subjugada pela diegese. Em tempos em que Paradiso, de Lezama Lima, ou Nadja, de Breton, eram exaltados, este intento não pareceria estranho. Mas em época de frívolo consumo, onde tudo são conteúdos, a tarefa é ingrata e dá azo a equívocos.
Sobretudo para quem acha que se pode ler um livro do autor sem ler os precedentes, enquadrando-o num itinerário e num projecto que é neste momento um dos mais fecundos da literatura em língua portuguesa.
Mas para isso é preciso tempo, a coragem de arranjar tempo, e de não nos deixarmos arrastar pela voragem da actualidade. Estou certo de que João Miguel Tavares, depois de fazer uma leitura extensa da obra de João Paulo perceberá como o livro lhe passou absolutamente ao lado.   
E para quê regressar ao puro prazer do texto, desregulando-lhe as funcionalidades? Para que a língua não se torne «um molusco moribundo contorcendo-se entre os dentes», que são «lápides de palavras enterradas».(pág. 66)

 

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O SUJEITO É O HOMEM QUE INVERTE O BOATO EM CARNE

matta, o nascimento do homem

Textos achados em cadernos e que não terão outro chão alem da tábua de salvação do Raposas:

CANTATA SOMBRIA
\
A figura que faz o António nesta foto
de 16 de Janeiro, nascido a chupar um talo
de azeda, reminiscência expedida
pela mãe à terceira contracção.
É nítido o seu desapontamento de pássaro,
à ordem de não nomear os sentidos,
nesta outra fotografia onde os dedos se ema-
ranham, íntimos, no decote da vizinha,
por sinal uma viúva cabo-verdiana
que como Josephine Baker todos os dias
esfregava um limão na pele na promessa de a aclarar.
Tinha cinco anos, era Carnaval e o riso
propagou-se à medida do apetite da fera.
Aqui (reparem na pelintrice) está próximo
da altiva surdez que faz dos primeiros anos
de poeta um caso bicudo de desfaçatez.
Ora a figurinha, inteiriçada no seu fato
de casamento, afluente de que fugiu
antes da degola (sacrifício imaginado, só
para heroificar a estulta arte de saltar fora).
O desfoque desta foto corresponde aos anos
de narça e reptação: palavra, como a boémia,
que tira mais do que promete. Nesta,
prepara aulas, ou anota o que roubou
de um teste: «o sujeito é o homem
que inverte o boato em carne».
Ei-lo aos cinquenta, de novo
irascível, retraído peixe balão.


A PALAVRA QUE CURA

Lia: “foi o poder de curar com palavras reconhecido oficialmente por um alvará de João IV de 13 de Outubro de 1654, o qual concede ao soldado António Rodrigues (ah, vertiginosos os Antónios!) 40 mil reis por ano, pelas curas que tem feito com palavras, e para assistir ao exército, a fim ‘de se poderem valer dele.”, quando cantou o galo, gola da madrugada, e a sombra, finalmente, o atravessou a vau.
Desabafou, sonolento, ‘que tristeza as palavras afluírem hoje ao poema carregadas de impermeáveis, guarda-chuvas e sprays anti-alérgicos, e até nos cotovelos, apresentarem, os tinteiros da nação, airbag!’, e depois adormeceu como uma múmia anã no verso das pálpebras!


O EXACTO VALOR DAS COISAS

E quanto vale o cérebro do arganaz em lúcia-limas? E o sémen do cachalote? Que valemos nós antes de, esparsos, decairmos, inquire Holub, o imunologista de maior fama entre os poetas.
Quanto custa a língua sob a cama do morto? Que vale o impalpável país onde, à falta de crianças, se amontoam os espaços de penumbra? Que câmbio para a poesia, o céu submerso em vimes, o tempo que adoça às cegas?
Não escrever nenhuma palavra de desânimo, tomada de caruncho. Ou, de fazê-lo, cinco anos de cadeia.


AUTO-RETRATO NO CHAPA PARA O XAI-XAI

Que homem tão original, pensava a menina que me enchia de macacos o cabelo, mucos tenros tirados expressamente das narinas que a obstipavam (palavra tão bonita!).
A mãe não via, a mãe era um caso de cegueira e paciência, o contrário da petiz que, para regozijo dos poetas, compensava em mucos tenros a friagem do mundo.
Ai o cobrador!, corou a ceguinha que tinha muito cotão ao fundo da carteira e aventais de seda na lembrança de ter sido empregada da Régula do Xai-Xai.
A menina, ao colo, não desarmava, e o muquinho tenro floria um desfiladeiro sem passarinhos.


O PETISCO PITAGÓRICO

Adoro o número quatro. Para mim, são águas sagradas.
Casei no dia quatro (floresceram antes de tempo as giestas e confundi as chaves).
E apesar de ter corrido mal (ainda corre) não me apanharão fora de casa antes
de ébria (direito às tramas, ao circo perverso) fazer o quatro sobre o corpo mole,
urinado e desfalcado do consorte. Quatro são as cordas da Harpa
e do Bandolim, nomes que dei aos nossos filhos, para desgosto dele
que os deplora e preferia desenvaidecidos  Ivos, Pedros, Artures
- sem perceber que indescartável só o Merlim.
E que é o amor senão quatro nádegas encantadas em torno de caduceu,
quatro cobras entrançando línguas numa rosca salteada?
Não obstante, com contrição e êxtase, recordo
o orgasmo em que vi distinto o carácter do cinco.


VARIAÇÃO DE UM MOTIVO DE CORTAZAR

No centro da hóstia, uma pestana. Como isso afecta o sacerdote! Nunca entendi porquê. Quem ainda consegue mungir a flecha de ontem? Nem lhe atinjo a dúvida, se a pestana é da Virgem!
Ou então, na verdade aturdem-no os meus peitos, abundantes, fulmíneos - o que eles cresceram de um ano para outro! – e fixa, arredonda o olhar num limiar de neve. E pretexta a pestana enxertada na hóstia.
Nem dei conta, nem Cristo, que se alça atrás do sacerdote, revirou os olhos.
A súcia tem sustida a respiração na vacilação do padre e, palpitando-me no decote um vocábulo eriçado, sinto-me pela primeira vez nua como se vez d’hóstia ou ultraje fosse Bocage.


CABEÇA PARA A DIALÉCTICA

Ai, o que ele gostava de perdiz! Isso a cigana não lhe leu na mão,
nem como à noite se enroscava nas sombras e roubava gasolina aos vizinhos
com um chupão na mangueira. A presumida sorte e o seu descaso
detectou ela, e o irreflectido que é no amor, tão leitoso cesto de figos
que me desposou sem averiguar que não possuo umbigo e de natural
debico junto às gralhas as bagas dissonantes, ossos de borboleta.
’A Filosofia ela própria!’, assim me apresentava o néscio a amigos
e professores, isto antes de lhe ter implantado duas penas no crânio
e de o ter posto a cacarejar Platão na cancela da casa.
Pegar a perdiz pelos cornos perdeu o valor de metáfora.


MÉTODO DE CALIGRAFIA PARA A MÃO ESQUERDA

Não a poupes, gasta o mais possível
a tua morte. Sê um perdulário, se a idade
for um fogo que não pudeste extinguir
não te demova a dor. Palpa-a,
deixa que radie, e que esbraseie
como tudo o que envolve a pedra: o ar,
o pavio da pele, o sangue cujo frémito
arboresce a noite; deixa que no interior
da íris, se isole e canse, a recuperar
a simpatia que já foi sua, o apego
de uma cunha à mesa da noite.
Mantê-la debruçada no parapeito
da preguiça é o teu ofício, e nunca
te arrepiem as unhas roídas de sono.