sábado, 27 de abril de 2013

TERCETOS AO LUME

Acontece que por vezes quando passamos um livro nosso a alguém que apreciamos muito acabamos por reler o livro, na tentativa de adivinhar o olhar do outro, porque cada um de nós lerá o texto de forma diferente. Foi o que me aconteceu com o meu livro de sonetos. Bagagem não Reclamada (no prelo), do qual acabei por extrair estes tercetos, muitos remontados, mexidos em relação que está no livro. Aqui ficam:
 
 
               é extraordinário
como o mar neste poema
destelha o firmamento.
 
 
Os olhos crescem a pino
à medida que o farol se afoga,
numa muda expectativa.
 
 
As nuvens tangem violáceas o mar.
As gaivotas não perfilham estes tons.
Pelo menos, agora não.
 
 
Deixou de estar cingida a veia.
Esburacados pelas cápsulas vivas de Deus
sai-nos tão caro a asa como a obscuridade.
 
 
o silêncio entra e rouba primeiro os vínculos
e depois a prata. «Transforma-se o amador
na coisa amada?» Onde se lê coração ler errata.
 
 
Eu que não fui donzela, ave ou eucalipto,
sequer a surda sarda de Empédocles,
                            fui a Greta de Heraclito.
 
 
É inútil dizer que não: Deus soprou-me o sangue
pela casa. Mas não estou só. Desde Baudelaire
que os anjos  derramam vinho sobre a mesa.
 
 
                   No labirinto da pele
veia que se deite logo arrefece
se outro coração não lhe deita a mão.
 
 
Secreto condomínio, o de cada veia
no seu galho. E grave: com um nome
morto que assobia dentro em ti.
 
 
A vida a soldo bem nos delata e despeja
asco a asco no couto da manha, pois cego
que não apalpa é cego imaturo,
 
 
Há lá consolo. Mesmo Homero que criou
a telenovela e crivou de rosa as manhãs
e deu nome aos direitos de autor, tem frio.
 
 
Só a ti alarmava a visão do coxo
que atravessa gota a gota a ínsua
das horas?
 
 
em ti era normal, o outono quebrava-te as mãos
pelos pulsos e amareleciam, irreplicáveis.
Mas pela primeira vez não se segue o armistício.
 
 
Outras não rolarão fácilmente pelo parapeito
das manhãs: a tua cabeça cabe inteira numa mão
e pende do ramo tenro com que abraças um afligido silêncio.
 
 
Viste um adoloscente amolar a navalha na alma do amigo?
Crescer reclama uma tença ao nome. Deixa, o horror
não invalida os passaportes e a neve chegará, ou o pó.
 
 
Não confies na manhã. Não se pode confiar num garrote
que artéria a artéria nos estanca. Confia mais
no que castiga a noite, na sede refractária aos teus três goles.
 
 
Há trinta anos sem desforra. Adestrado, embrutecido
pelo trabalho de erguer andaimes em torno de um ciclone.
Sem desforra, o medo enverniza as paisagens.
 
 
Acordas enroscado de medo no sofá. Escuro: onde tens a cabeça?
Mantem-na à distância, que chega dos dias aziagos
onde a morte é a cauda do Leviatã rasgando o nevoeiro.
 
 
Palavra que te preexiste, passadiço do olhar de Deus
para os viços internos, e, antes de ti, cacilheiro
do Espírito. Palavra-só-látego do mundo que em ti se desatraca.
 
 
Não contrair ausências,
o espírito de geometria,
a culpa de Caim.
 
 
A criança-pigmento que de longe
te olha enluva
as  tuas  mãos  no nevoeiro.
 
                    
Virá o tempo da penúria, o tempo
que põe o TGV no lume, lapidará
corações e trará o rasgão às sombras.
 
                  
É um homem que se debate, mirrado
como o amendoim intocado. Há muito que nele o silêncio
não está síncrono – a alba restringe o âmbito.
 
 
o tipo que tem na ponta da língua
o instante em que o primeiro osso desata
a carne, supondo que é a sisa.
 
 
Esta branda humildade da despossessão
é o mais próximo da arte. Pena a melanina e ir o grão
ao olho afogar o mar em espasmos milimétricos.
 
 
Até onde enxergo: breu, e no gume
da palavra, persistente, o sangue,
que a vida não sai barata.
 
 
Na infância, a Noite era uma
senhora muito encarquilhada
que varria a luz até adormecer de cansaço.
 
 
Quando eu morri a minha alma foi devolvida,
como a maçã que liberta do pedúnculo
suspende naquele hiato ideia de terra ou de céu.
 
 
Só quando a linguagem flutua sobre o velcro da dúvida
– discreto coração albino – é que percebes a radiação fóssil
Deus que se afasta para que tu sejas luminescente vocação inacabada.
 
 
Um velho tanque, película de água e limos.
A rã salta – splaasch!
Depois, Deus é quem sabe!
 
 
assim pernoita a vida: o alvo crisântemo
acorda a neve. E depois, faz-se fundo
ou a escarpa sobe à boca e brilha – radioso paul.
 
 
Vi, numa fábrica de Seda
em Benares, rostos
que pareciam pétalas sem osso
 
 
o mistério da Seda é a imediata imersão
do tacto no nome de Deus – alastra,
como o leite no chá, de uma vez.
 
 
A Seda é uma chama fria que arranca as mãos
dos enganos. Envolve os cabelos como uma nova aurora
e lava nos  olhos os  quistos  da memória.
 
 
Atroz, a trepadeira da dor. Escava na fronte,
desinforma as precauções. Atroz, como o bico da narceja
que imprime na carne da ameixa certificado de qualidade.
 
 
É assim que vejo a chamada da morte:
uma Seda alumia num átimo as claraboias
interiores, selo lambido por um cego.
 
 
Reluta, a alma. Teme
como a uva ser pisada
em vão.
 
 
diviso a linha de costa e, como Ulisses,
atado ao mastro por uma nesga
de cobardia, renuncio.
 
 
Até onde consigo discernir sobrevém
nele uma torrente onde o tempo, esse furão
despeitoso, se dessedenta.
 
 
O gafanhoto que me devora a alma é mais temente
que o sangue que orvalha a morte – tão demente
e inciso que só uma escassez de pontos luminosos nele frutifica.
 
 
e ele sabia, criatura de escrúpulos,
que sem ela faria do coração
uma taberna de maus  vinhos.
 
 
Gosto da secura dos indigentes, a cismar
nas melhores beatas, do acinte janota com que enrolam as mortalhas,
num renovo: vejo aí as qualidades da terra.
 
 
As palavras usam-me os ossos do crânio como trem
de aterragem. Presas como o grasnar do pato,
da cloaca ao bico - pelo sopro.   
 
 
Porque tudo dá fruto. Sonhei com um país de gagos.
Era o meu. Os gagos nasciam das árvores
e amavam-se lambendo o intervalo das sílabas.
 
 
O mano a mano: eu ergo o poema e Deus fuma-o,
remexe a cinza no seu cinzeiro e sopra-a
sem que a nívea nuvem lhe garrote os olhos
 
 
Remo. Enlaçados ao meu bote, quatro jangadas com espectros.
É um espectáculo inigual. Adiante. O vento sussurra-me que o caminho
é invisível. Remo, na noite simultânea. Até quando? Adiante.
 
 
Um lugar que não desincorpora e que mesmo no colapso
se cola à pele do observador, faz dele o seu arpão:
eis, janelas de um cego, a lídima extensão do poema.
 
 
– quem não viu nunca poderá adivinhá-lo; que se acorda para dentro
na rota do milagre e a escarpa não tem meio, apesar dos fiéis
rogarem em círculo como os cães, apesar do jacente salto cabisbaixo.
 
 
Preocupa-me, sei lá! Em torno
ergue-se a torre aluída e, por lapso,
a língua comeu o gato.
 
 
O vento, afogado
na luz
até ao pescoço,
 
 
                            Por dentro e por fora:
o coração já não é penhor. Depois morre
de pura solidão entre os plagiadores.
 
 
Enruga a pele porque os ossos – como a glicínia
que é só haste ensarilhada em si mesma –
desirmanam em estalidos  vãos?
 
 
Dobra o seu nome na língua: limoeiro depredado
de ossos e vísceras. Doba o seu nome na ave:
gran secreto es el morir.
 
        
                              Ao longe, no relvado, debaixo
dos verdes cinzas das oliveiras, duas gaivotas despedaçavam
um pombo ainda vivo. Um dia de mortes nunca vem só.
 
 
Tens em conta que o suporte da palavra
é a avalancha, que te foi dado nasceres
a meio do aluvião?
 
 
O coração
faz trapézio
no meu corpo.
 
 
ir de cana, pintar o sete, erguer em palafita sobre delgadas patas de aranha
o tabuleiro do medo ou ir-lhe à rata abocanhar o queijo grié
– propósitos que esculpem uma vida na sua jaula.
 
 
O sombrio semeador de escadas sonhava ouvir O Escuro
bramar-lhe ao ouvido. Estava tão alto O Escuro.
Feridas que se coçam até ficarem perfeitas.
 
 
Mas abrir um livro ao acaso e capturar um látego:
uma papoila, uma patada na nuca, os lábios
que respiram contra o muro sem rancor.
 
 
Na lágrima da viúva via-se um velho cisne que tossicava
muito. Ela escamava à bancada, enganchando a unha na guelra. Lembranças
de miúdo,  ainda a alegria trotava no seu pequeno porte exangue.
 
 
estive sempre cego, embutido
na massa da noite como uma passa
nos  restos  de bolo-rei que Deus dá aos corvos.
 
 
      – quem nos atraiu ao ardil de imaginar
que, só quando o poema é diáspora de si, se abrem as  torneiras  do infinito?
Os  desertos crescem e eu, inepto para matar dragões, rezo.
 
 
…………………………Por serem
As  águas  sonâmbulas  voam águias
……………  o vento afasta o ar. 
 
 
Eis um rio que goteja
e se precipita para o alto,
em hastes tenras…
 
 
É que me imagino morto para o mundo, dizia Ponge,
em quem o trânsito de ser cravo sabão, ostra, se tornou natural,
como em mim a atrapalhação de buscar em cada palavra o silêncio do faroleiro.
 
            
Fala-se do Tempo, um crânio que se locomove a vapor
contra a evidência galopante das imagens.
O abismo alça-se, dentro, anterior à carne. Fuck!
 
 
                      cada vez que mata
a Morte reencontra a sua infância,
cada vez que te trespassa alguém tu perdes a tua.
 
 
Há vezes em que só compreendo as palavras e noutras só os pensamentos.
Quando coincidem como dois carris casados pelo ritmo
não sei se sou o tronco do carvalho se a copa se a cotovia que deles se afasta.
 
 
Tabuinhas de ossos e remoinhos profundos fazem cair a carne
nas frinchas. O caos já foi uma região com mapa
quando me assobiou o teu nome.
 
 
Palavras que conversam entre si
como as nuvens e os rios:
o fogo preso com que me laçaste.
 
 
                       este jeito descuidado, algo banana,
que temos de amar no outro a ferida
que o preserva.
 
 
Uma luz caindo como cal sobre os ombros em fuga
– porque só o ovo existe, a galinha é o seu sonho –
conduz-me ao muro dos teus olhos.
 
                                               
Não a poupes, gasta o mais possível a tua morte. Palpa-a,
deixa que radie, e que esbraseie como tudo o que envolve
a pedra: o ar, o pavio da pele, o sangue cujo frémito arboresce a noite;
 
 
Enquanto a luz escavar um túnel na direcção dos crisântemos
que bebem a tua sombra, enquanto acordar ao teu lado
esquecido do alarido na boca do Leviatã, outro fim de mundo não haverá.
 
 
Sem dar azo a mais destrinças,
posta a alma ao lume (bem ou mal passada?),
a treva encarvoa-se de silêncio.
 
 
Esgarça-se a nuvem, é uma questão de sintaxe - sem esta
há lá emoção duradoura!, nem seria a cerejeira reminiscência
nas  costas  da cama que te ouve em blandícias .
 
 
Olá, pai, a coisa está preta e morde e hoje nem toda a beleza
do mundo escapa ao descontentamento. Saudades.
Já viste por aí algum monte de laranjas coberto pela neve?
 
 
Tal como países terceiros resgatam (com que clemência?)
as Soberanas de primeiros e segundos, capacito-me
que de pátria para pária a diferença está na dívida.
 
 
Conheço o mal, é meu vizinho, às  vezes cativa-me
ao espelho e depois  tenho de descolar da imagem
veia por veia, poro por poro, daninho.
 
 
O que não mata engorda, dizia-se na minha meninice
de letra vadia, na infinita batalha entre paisagem e caligrafia.
É de espantar que Mercúrio, tão mais perto do sol, tenha gelo?
 
 
Procura-se leitor que salpique a sua actuação com crisântemos,
em vez de desairoso tropeçar na própria sombra. Procura-se
leitor, que aguente mais que água tónica ou a acédia que atomiza.
 
 
Operamos no mesmo circuito, eu e o leitor,
mas cabe-me o carro sem travões. A frio, imparcialmente,
o leitor exige programa de protecção às testemunhas.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

LEOPOLDO MARIA PANERO: TEORIA DO MEDO

Leopoldo Maria Panero é um dos mais surpreendentes poetas do século XX em Espanha, um homem sempre no limite da loucura e na borda do pensamento. Este conjunto de poemas cuja versão fiz é extraído do livro Teoria del medo, publicado pela Igutir/Poesia, em 2000:
 
Escuto com os meus olhos aos mortos, dizia Quevedo, referindo-se ao cruel acto da leitura. Agora bem, sendo toda a linguagem um sistema de citações, como dizia Borges, todo o poema é um poema sobre um morto.E chama-nos a morte, desde o poema, como a sua única, possível, realidade. Disse Malraux: «só a morte transforma a vida do homem em destino». Nós diremos: só a morte transforma o poema em poema.
Como dizia Derrida, todo o poema corre o risco de carecer de sentido e não seria nada sem esse risco. E mais do que a morte o que nos produz medo é, nas palavras de Eliot, o terrível momento de não ter nada em que pensar. Nada em que pensar, nada em que falar, nem nada que sentir: só um terrível e belo pesa-nervos.
Dado que a beleza é um absurdo e não responde a nenhuma lógica. E isso, não apenas a beleza do poema como também a beleza física do homem, tão absurda e inexplicável como o poema. Tão absurda e inexplicável como o espírito, ainda que certamente a inspiração exista. E a inspiração é um dado que contradiz o real, que burla o real, que ri do espírito e ri para destruir a realidade. Posto a realidade não ser pura e atender como um criado ou chamar-se Epicélia.
Assim, o matraquear de mandíbulas do chamado esquizofrénico e a sua risada inexplicável é um acto canibal como o poema quereria ser: um acto canibal, um intervalo no desespero, como o pirete que suspende a vida.
 
 
Sou um ninho de cinza
a que afluem os pássaros
procurando o maná da sombra
a flecha cravada no poema
o beijo do insecto.
 
 
 
 Ah o firmamento azul da saliva
e o soldado azul que luta contra a vida
com a culatra de sua baba
com o fio do seu cu
que ao defecar desfecha uma anaconda.
 
 
 
 Quanto ouro há na ruína
e quanta dor
para medir o verso
e esquecer a chama
que cresce aos meus pés:
porque o único homem supremo
é aquele que está morto, e já não é.
 
 
 
 «com os teus lábios
mas sem o dizer»
          Mallarmé
 
Amemo-nos sem o dizer
porque o amor não se diz
estando aí, não se diz
porque a palavra não é amor,
mas sim um assassino
às portas do palácio e o brilho
de tuas costas:
oh destruição a minha Beatriz segura
o esquecimento como os esporos
poliniza os versos.
 
 
 
 TEORIA DO MEDO
 
Não sei se tartaruga ou tumba
morto ou vivo, morto ou vivo
não sei se anjo ou desastre
morto ou vivo, morto ou vivo
não sei se espírito ou lagarta
morto ou vivo, morto ou vivo
não sei se alucinação no escuro
o prémio para o desastre
a vida é um mau pensamento
este poema que ainda supura.
 
 
 
 Ah o triste leão que se busca no bosque
o ouro
sobre o qual cai a chuva
de dezembro
estação das chuvas
e do pranto.
 
 
 
 O ANTICRISTO
 
Vi no metro um homem imensamente belo
a olhar os homens como se cheirasse um peido
e levava na testa a marca da justiça
o 5, o branco do 5
que foi dividir os céus
do canto mais no negrume
de um bar onde alguns
criam que existiam
e que entre eles havia já um desperto
que olhava a cena como se existisse.
 
 
 
 BÚFALO BULL IS DEFUNCT
 
Puseram nos lábios de Nosso Senhor
um verme
e o verme galgou a página
temeroso do porco, do lírio,
e da página
e da lágrima do diabo nas comissuras de
Nosso Senhor
 
 
 
 O QUE SHAKESPEARE ME DISSE AO OUVIDO
 
O horror é tão-somente um sussurro
que só ouvem as caveiras
e na minha mão, como se fosse o poema
coxo o crânio de Yorick.
 
 
 
 CAVALCANTI
 
Homem sou e pareço um homem
num ninho de ratazanas
que correm e correm ao redor do poema
cujo único medronho é a morte
a morte que corre como uma ratazana
sobre a tumba do poema.
 
 
 

quarta-feira, 17 de abril de 2013

O SOFÁ OU TRÊS RAZÕES PARA SER, DE UM HERMÉTICO


                                                desfazendo mentes confusas> moi e Trindade


                                                                                  para o Capão e o Trindade, dois bonitoes
1

O meu telefone inventou
de tomar banho!”, lastima-se
uma rouca voz feminina atrás de mim
(“à minha atrás”, se diria

em escorreito moçambicanês),
na tasca onde sou um mero adereço
da Laurentina (- uma hospedeira
de bordo que conheci ontem!).

Melhor, só se alguém entrasse
para anunciar, foda-se, numas
escavações do Peloponeso, achou-se

a gravata do Aristóteles! Dada
a improbabilidade - até por uma questão
de sanidade - traz-me outra!


2

O MEU SOFÁ

O meu sofá, de tão coçado,
(- e tanta flor, para quê?)
é como um alfabeto inepto
que nunca reclamou
uma ideia justa
e antes se afadigou
a trocar uma ideia
pelo que as letras compram.

O meu sofá, tela
para nádegas tão ocas
como nozes que a paciência
de deus esgotou,
recorta, em tudo
o que está ‘scrito,
a imagem dos ventos
que desenham os lóbulos
do que tanto fede no Inferno!

Já foi o meu sofá, em novo,
terra de assobio & assalto
a ninfas e ondinas, era
‘inda o coração um sobrescrito.
E até amores teve,
por solene endereço.
Agora é uma bandalheira,
qualquer Trindade,
qualquer cabrito,
lhe acumulam o pesar.

3
E se Pessoa, na ocorrência, tivesse fingido ser Fernando Pessoa, perguntava Tabucchi no livro que lia há cinco minutos atrás.
Não creio que de outra forma tivesse sido Pessoa, o próprio, digo eu, no momento em que leio que um elefante achou que o abuso de dois chineses no Kruger Park devia acabar e, depois de tantas fotos - como Alberto Caeiro -, lhes cagou em cima.

terça-feira, 16 de abril de 2013

EINSTEIN E O DIÓXIDO DE CARBONO

Procurando “anedotas” de e sobre o Einstein para a minha filha Luna, de nove anos, que está a ler uma biografia do físico (daquelas para crianças, não se assustem) encontrei esta, deliciosa:

Um dia, perguntou-lhe um jornalista: O senhor pode explicar-me a Lei da Relatividade?
Einstein respondeu: E você, pode explicar-me como se frita um ovo? Um ovo?...- redargue atrapalhado o jornalista - Bom, sim... claro que poderia explicar...
Bem – tornou Einstein - então faça favor... mas imaginando que eu não sei o que é um ovo, nem uma frigideira, nem o óleo, nem o fogo.
 Eis a anedota que passarei a contar sempre que:
a)      alguém à minha frente justificar o seu péssimo gosto literário com a sentença gostos não se discutem…
b)      que alguém, inspirado pelo último best seller que leu, me perguntar mas afinal, que dificuldade tem a literatura?
 
Também achei graça a este episódio:
Conta-se que, nos anos 20, quando Albert Einstein começava a ser conhecido pela sua Teoria da Relatividade, ele era frequentemente solicitado pelas Universidades para dar conferências.
Dado que ele não gostava de conduzir, ele contratou os serviços de um motorista. Depois de vários dias de viagens, Einstein comentou ao motorista que já estava farto de dizer sempre a mesma coisa em cada Universidade que visitava.
- Se quiser, disse o motorista, posso substituí-lo por uma noite.
Já ouvi tanta vez o seu discurso que já o decorei palavra por palavra.
Einstein aceitou e, antes de chegarem ao local, trocaram as roupas e Einstein colocou-se ao volante.
Chegaram a uma sala cheia de pessoas, e como nenhum dos académicos presentes conhecia Einstein, ninguém descobriu o engano.
O motorista fez o discurso que já tinha ouvido Einstein fazer tantas vezes. No final, um professor fez-lhe uma pergunta.
O motorista não sabia a resposta e, teve um golpe de inspiração fantástico e disse:
- A pergunta que me fez é tão simples que até vou deixar que o meu motorista lhe responda.
 
Na mesma busca, a minha filha chamou-me a atenção para a que se segue. Sacrista da miúda, já reconhece o humor:
 
«Tentei rir-me pouco para não emitir muito dióxido de carbono, Al Gore

SEIS PÉROLAS PESCADAS EM BADIOU

                                                                   Flor Garduño

Pela terceira vez numa semana foi-me aplicado um castigo no Facebook, três dias de jejum, por postar imagens atentórias à moral. A última foi a que se vê em cima, uma belíssima foto da mexicana Flor Garduño. Enfim, esqueçamos o despudor dos censores e falemos do que é importante:


Seis pérolas encontradas no leito do livro de Alain Badiou, Para uma nova Teoria do Sujeito:
- Uma verdade é uma espécie de buraco no saber. Pode-se pensá-la mas não conhecê-la.
- O Mal é a vontade de nomear a qualquer preço.

- (…) uma verdade trabalha na retroacção de um quase-nada e na antecipação de um quase-tudo.
(aqui eu trocaria o termo «verdade» pelo de «poema»)

- Existe um pensamento do poema, um pensamento-poema?
   Eu digo um “pensamento”, e não um “conhecimento”. Porquê?
   É preciso reservar a palavra “conhecimento” para aquilo que está em relação com um objecto, o objecto do conhecimento. Há conhecimento quando o real vem à experiência sob a forma de objecto.

- Rimbaud: “Ah! A beleza dos salgueiros que uma asa sacode!”

- Mallarmé: “Ali, onde quer que seja, negar o indizível, que mente!”.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

EM DEFESA DA OPACIDADE

Magritte

Os que escrevem com claridade têm leitores: os que escrevem obscuramente têm comentaristas”, escreveu Camus, e é uma daquelas fórmulas de boca cheia que se condena a si mesma ao ser repetida até diluir-se todo o sal que lhe cabia, a pouca razão que lhe assistia.
Camus é um escritor de quem sempre gostei, sempre que o releio não lhe encontro rugas, e adoro os seus cadernos, mas às vezes foge-lhe a mão para o design e escreve umas frases-efeito que condensam, como os slogans, a vontade que temos de não pensar, a nossa propensão a quedarmo-nos tão tranquilos como os mais sonhadores pântanos.
Eu não quero leitores, só quero comentadores. Por vários motivos e até ecológicos.
Faltava a Camus conhecer aquilo que Bruner, um dos renovadores da psicologia da percepção veio confirmar: somos incapazes de nos contentarmos em ver sem inventar, entre outras razões, porque sem inventar não vemos nada. Não existe uma boa leitura e compreensão das coisas sem inventarmos um pouco, i. é, sem acrescentarmos algo ao texto com que lidamos. O verbo da tauromaquia, lidar, parece-me o mais exacto para definir a nossa relação frutuosa com um texto, dado implicar-nos: não é possível face ao touro ficarmos sem reacção.
Mesmo para compreender algo, dizem-nos os estudos da psicologia cognitiva, temos de inventar, temos de integrar a informação recebida num mapa mais geral que é o da nossa interpretação do mundo, ou seja, temos de improvisar como no teatro ou face ao paquiderme na arena e nos redesenharmos nisso, a fim de percebermos intrinsecamente algo.
Decorre daqui que não existe leitura sem a inscrição do leitor, a sua imersão no texto que, afinal, “completa”. A identificação não é, por conseguinte, apenas plasmarmo-nos numa personagem ou num enunciado que nos é modelar mas também a sensação de que colaborámos para a construção do texto.
Só é passiva a nossa leitura quando o texto se encerrou em si, estabeleceu os seus limites e se apresenta como túmulo e até como póstumo.
Vou buscar dois exemplos que já coloquei num texto mas que, por servirem exemplarmente o que quero dizer, não me cansarei de repetir:

«Já dos versos do poeta renascentista espanhol Garcilaso de la Vega se dizia serem tão obscuros que havia que entrar neles com archotes, para entendê-los.
Na verdade, a poesia aponta o seu binóculo a um conteúdo comum para pesquisar uma nova escala e falar do desconhecido. Tentar dar uma forma inteligível ao desconhecido não terá naturalmente tradução simultânea para a linguagem coloquial. Aliás, apenas a comunicação publicitária é que faz uso de uma linguagem já testada. O que é que nos dá a comunicação publicitária? Flamengo, com embrulhos extraordinários, mas Flamengo.
Outra dificuldade se apresenta. A poesia do século XX, realiza uma segunda operação que cansa o leitor: o poema auto-reflecte sobre os seus processos criativos e a linguagem. No entanto, repare-se: o prédio do 33 não se ergueu sem andaimes. De igual modo, o poema não comunica sem montar os seus andaimes, a estratégia de como comunicar: daí que todos os poemas, apesar de veicularem um conteúdo, só respirem pela relação que estabelecem connosco, tentativamente.
Poemas que nos comuniquem a emoção causada pela morte de um filho, a beleza da namorada ou o desgaste do tempo são aos milhares, raros são os que nos transmitem também essa nova que é a experiência do poema e nos projectam como leitores para um outro lugar onde pressentimos, pela palpitação do verbo, uma superação do tempo e da contingência que provocou o poema.
A arte nasce da contingência (das coisas que acontecem à nossa volta, das alegrias, sarilhos, dramas e situações em que a vida nos atola) mas opera uma sublimação e não uma mera transcrição. O poeta surrealista Paul Eluard revela-nos o que é a sublimiçao ao definir o mecanismo do poeta deste modo: «o poeta quer falar da mulher que ama e fala de pássaros, quer falar da guerra: fala de amor, tão pouco conhece o poeta o título do seu poema senão após tê-lo escrito...».
Deduz-se obrigatoriamente daqui que não se fazem poemas sobre o sentimento, a guerra, a paz, a liberdade, as escolhas sexuais, mas com o sentimento, a guerra, a paz, a liberdade, o amor ou o ódio. Esses fluxos emocionais desembocam no poema como um feixe de energias e não como conteúdos em moldes pré-formatados. Aliás, o poeta distingue-se – diz o filósofo Rafael Argullol, e nós concordamos - por ser, não exactamente o homem mais sensível, mas antes aquele que atraído pela voragem do acontecimento consegue distanciar-se até poder articular em palavras que lhe sejam próprias.
Voltemos agora ao problema sobre a dificuldade de leitura dos poemas, ao seu hermetismo e ininteligibilidade. Talvez o problema radique noutro lado. Esperimentemos ler um trecho de um poema sofrível de José Miguel Silva, poeta de quem habitualmente até gosto. O poema chama-se Feios, Porcos e Maus, e diz assim:” Compram aos catorze a primeira gravata/ com as cores do partido que melhor os veste./ Aos quinte fazem por dar nas vistas no congresso/ das juventudes, seguem na caravana das bases,/ aclamam ou apupam segundo o mandato das chefias (...) Aos trinta e dois e bem o momento de começar/ a integrar as listas, de preferencia em lugar elegivel,/ pondo sempre a vileza em primeiro lugar. A partir/ do parlamento tudo pode acontecer: director/ da impresa municipal, coordenador, assessor de (….) No final, para os mais afortunados, pode haver nome de rua,/ com ou sem estátua, e flores, fanfarras de formol». Assim que acabamos a leitura, podemos voltar a cabeça no travesseiro e adormecer, absolutamente indiferentes à sorte do poema, que verteu o seu conteúdo sem estabelecer connosco uma relação. O poema deu-nos a sua mensagem, mas como num comunicado, no momento seguinte está esquecido. O poema não passa de uma “coisidade” exaltada.
Se, pelo contrário, lemos este trecho de Herberto Helder (que também tem poemas menos conseguidos): «Minha cabeça estremece com todo o esquecimento./ Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. / Falo, penso./ Sonho sobre os tremendos ossos dos pés./ É sempre outra coisa, uma/ só coisa coberta de nomes./ E a morte passa de boca em boca/ com a leve saliva,/ com o terror que há sempre/ no fundo informulado de uma vida.» somos sensibilizados por uma significação radiosa, mas dupla, que nos escapa à primeira e obriga a reflectir e a passear com o poema nos escaninhos mais arejados do cérebro até conseguirmos que o tempo nos dê a resposta a cada uma das metáforas que nos intrigam no poema.
A inapreensão ou a incompletude da nossa leitura vai perfazendo um trajecto, onde nós e o poema fazemos «um», no perpétuo vaivém de uma relação. E como a nossa inteligência sofre da ilusão entranhada de que temos de ver «tudo claro» voltamos ao poema que nos intriga várias vezes, dando conta de que em cada leitura obtemos uma resposta diferente para o mesmo. E então subimos várias vezes as escadas do 33 só com este poema a jogar xadrez conosco no nosso íntimo, e de cada vez que tornamos a descer as escadas a configuração fisica das escadas está diferente porque o poema, com as inúmeras perguntas que nos colocou, nos transformou, provocando uma mutação, a tal conversão semiótica.
O poema absorve-nos, transforma-nos, vai incubando em nós que tudo é outra coisa para lá das aparências e em cada limiar abriu novas janelas. A mesma janela que se abre quando dançamos e não somos mais nós que dançamos, e a dança que dança em nós, ou a mesma janela que se abre quando tocamos piano, e damos conta de que não somos mais nós ou as nossas mãos que tocam, mas é a música que se serve das nossas mãos para acontecer. Por muito que nos custe, tanto a beleza como a arte ou o amor acontecem mais quando o “eu” está ausente. Agora para isso precisamos de estarmos desnudos, e e necessário estarmos implicados na relação – na que, por exemplo, o poema estabelece connosco. Temos de participar.
Julgo ser nesta diferença que tudo se joga, não no facto do poema ser acessível ou não, simples ou complicado. Um poema que não altere a nossa percepção do mundo, do corpo, do tempo e dos outros, que não incuba em nós, serve para quê – para além de servir a vaidade do seu autor? O que é complexo não pode deixar de ser complexo – e para visitarmos esses “novos mundos” apenas precisamos decidir se queremos ser leitores exigentes, que admitem a longa duração, ou voláteis frequentadores do shooping, se queremos ser velhos de espírito vivo e gaiteiro ou jovens que o tempo gastou como as borrachas.»

Vemos então como a frase de Camus é não apenas terrorista como, em nome da clareza, premeia a facilidade e todos os equívocos.
Cada texto conduz a uma “clareza” natural, dentro da sua constelação. A clareza de Camus não é a mesma de Blanchot, a obscuridade em Herberto não é a mesma que em Gôngora. E obviamente que não desejamos a clareza de Dan Brown porque a esta – como a toda literatura montada em fórmulas e estereótipos – lhe faltam as sombras.
Por isso, contra o meu querido Camus, nesta frase tão acarinhada pelos burocratas da língua, sempre que vejo algo que não percebo fico todo contente, engancha-se aí um porvir, um novo relacionamento. Não entender algo faz dilatar o meu horizonte, desoprime-o dos meus parcos limites e até da vaidade destes. Evidentemente que se trata de não entender algo que, não obstante, irradie uma inteligibilidade que me escapa ainda, como uma luz entre frinchas – e não de um texto que à partida seja uma burla, uma coisa que a prática detecta facilmente.
Por exemplo, durante anos, o enfrentamento da erosão africana levou-me a um afastamento em relação a dois autores que em Portugal gostava muito, Char e Gamoneda. Aquela mescla metafórica parecia-me de repente artificiosa face à realidade que se me opunha (percebi aí que os lugares e as contingências acabam por ter muita importância em relação às leituras que escolhemos). Tive de ler uma biografia de Char e de me comover com a particular dignidade daquele percurso de vida para sopesar cada metáfora na sua poesia, grave e necessária, e não um mero jogo ornamental – tendo redescoberto o poeta com outro gosto e até outro proveito.
O Char, tão obscuro, e de que até o Camus, ironicamente, foi um dos primeiros comentadores, abriu-se-me então em matizes de uma claridade que não prescindia das suas sombras para ser.
Por isso, ao arrepio de Camus, eu confio mais na interpelação de um comentarista do que na passividade de um leitor, embora, neste universo pós-simbólico, a literatura tenda a uma literalidade que ofusca e afinal nos faça não ver por nos aproximar do amorfo.  

 

domingo, 14 de abril de 2013

COLÓQUIOS COM A JADE 17


Mãe, o omo… o omo… o omo… o omo? – repete ansiosa, a jade.
Para que é que queres o omo, pergunto eu intrigado…
Quero lavar roupa?
Tu, filha? A um domingo?
É a minha cueca favorita…
Mostra?
Passa-me a cueca para que eu a examine…
Tem buraquinho… - verifico.
… achas que se a lavar bem lavo também o buraco?
Não sei… mas se ela for só buraco fica limpa…
E as minhas cerejas?
As tuas cerejas…
Não vês, pai maluco?
Ah, estas duas cerejinhas estampadas… e já um bocadinho debotadas… que têm?
Se ficarem rasgadas parece que já foram comidas…
O melhor é comprarmos outras calcinhas…
Não pode, pai… em Maputo não há cerejas…
Pintamos…
As cerejas não se pintam, crescem…
Então estas, nas tuas calcinhas, cresceram?
Achas? Mas quando era pequena pensava que sim, e isso é que interessa…