terça-feira, 22 de maio de 2012

LEMINSKI, O ARRAÇADO DE GROUCHO COM BASHÔ

O ”Vampiro Silencioso”, Dalton Trevisan, não é a única glória de Curitiba, não. Vêde Leminski (1944-1989), Paulo de sua graça, filho de polaca e de negra, um arraçado de Groucho com Bashô, de quem fez uma biografia, e que fez canções com o Caetano, para a Cor do Som, para dezenas de outros músicos, publicista e prosador experimental, que tem em Catatau a sua coroa de glória (e é de ter, e é de ter), concretista & dissidente, tropicalista & tradutor (falava seis línguas, entre as quais latim); poeta das arábias e cinturão preto do judo. O mais quem quiser que descubra, eu só abri a porta.
Esta antologia é feita de três livros (o homem escreveu para aí 20): La vie en Close, Caprichos & Relaxos e de Distraídos Venceremos. Há uma biografia divertida, O Bandido que sabia Latim, que se encontra pela net. Ah, já me esquecia, morreu de porre. Boa aragem:

CURITIBAS

Conheço esta cidade

como a palma da minha pica.

Sei onde o palácio

sei onde a fonte fica,



Só não sei da saudade

a fina flor que fabrica.

Ser, eu sei. Quem sabe,

esta cidade me significa.



                               MINHAS 7 QUEDAS

minha primeira queda
                                 não abriu o pára-quedas
                                
                                 daí passei feito uma
                                 pedra pra minha segunda queda
                                
                                 da segunda à terceira queda
                                 foi um pulo que é uma seda
nisso uma quinta queda
pega a quarta e arremeda
                                 na sexta continuei caindo
                                 agora com licença
                                 mais um abismo vem vindo


                                  
                                 quem me dera um abutre
                                 pra devorar meu coração!
                                 naco de carne crua
                                 comida de pé no balcão!

 quem me dera um apache
pra colher meu escalpo!
                                 que desta vez não escape
                                 nenhum disfarce!

 tomara que um furacão
caia sobre meu navio!
                                 que nenhum deus nem dragão
                                 possa ser meu alívio!


um dia

a gente ia ser homero
                            a obra nada menos que uma ilíada

 depois
                              a barra pesando
                              dava pra ser aí um rimbaud
                              um ungaretti um fernando pessoa qualquer
                              um lorca um éluard um ginsberg

 por fim
                              acabamos o pequeno poeta de província
                              que sempre fomos
                               por trás de tantas máscaras
                               que o tempo tratou como a flores





                                      um poema
que não se entende
é digno de nota

a dignidade suprema
                                      de um navio
perdendo a rota


                            PAPAJOYCEATWORK



(Noite. Joyce começa a escrever)

Madmanam eye! Light gone out!

(Cai no papel)

Mustmakesomething! Reverythming!

(Morde os lábios e gargalha)

A poorirish is a writer mehrlichtsearching,

yesternighteternidades!

(Troveja. Relâmpagos iluminam o quarto. Joyce

prossegue)

Thomasmorrows? Horriver!

Nice and sweet — the speech of England,

damnyou! Dont?

Must destroy it, just like a destroyer would do it

yourself! Como um verme. Yes, I no.

Done to Ireland! What have they done? It will do.

Beforeblacksblanco, we are even, this very evening!

Think is so.

My vengeance will be as big as say a country as big

as say Brazil.

Someday my prince will come. Our prince:

Seabastião!

Arrise, Lewisrockandcarroll!

Waterrestrela, am I a dayer?

Just a wakewriter.



AVISO AOS NÁUFRAGOS

 Esta página, por exemplo, 

não nasceu para ser lida.

Nasceu para ser pálida, 

um mero plágio da Ilíada,

alguma coisa que cala, 

folha que volta pro galho,

muito depois de caída.



Nasceu para ser praia, 

quem sabe Andrômeda, Antártida,

Himalaia, sílaba sentida, 

nasceu para ser última

a que não nasceu ainda.



Palavras trazidas de longe 

pelas águas do Nilo,

um dia, esta página, papiro, 

vai ter que ser traduzida,

para o símbolo, para o sânscrito, 

para todos os dialetos da Índia,

vai ter que dizer bom-dia 

ao que só se diz ao pé do ouvido,

vai ter que ser a brusca pedra 

onde alguém deixou cair o vidro.

Mão é assim que é a vida?



ICEBERG


Uma poesia ártica, 

claro, é isso que desejo.

Uma prática pálida, 

três versos de gelo.

Uma frase-superfície 

onde vida-frase alguma

não seja mais possível. 

Frase, não. Nenhuma,

Uma lira nula, 

reduzida ao puro mínimo,

um piscar do espírito, 

a única coisa única.

Mas falo. E, ao falar, provoco 

nuvens de equívocos

(ou enxame de monólogos?). 

Sim, inverno, estamos vivos.



 ANCH'IO SON PITTORE

 fra angélico 
quando pintava
uma madona col bambino 
se ajoelhava e rezava
como se fosse um menino

 orava diante da obra 
como se fosse pecado
pintar aquela senhora 
sem estar ajoelhado


 orava como se a obra 
fosse de deus não do homem



sossegue coração

ainda não é agora

a confusão prossegue

sonhos a fora



calma calma

logo mais a gente goza

perto do osso

a carne é mais gostosa





lá fora e no alto

o céu fazia

todas as estrelas que podia



na cozinha

debaixo da lâmpada

minha mãe escolhia

feijão e arroz

andrômeda para cá

altair para lá

sirius para cá

estrela dalva para lá






TEXTOS TEXTOS TEXTOS

malditas placas fenícias

cobertas de riscos rabiscos

como me deixastes os olhos piscos

a mente torta de malícias

ciscos



                           BLADE RUNNER WALTZ 



Em mil novecentos e oitenta e sempre,

ah, que tempos aqueles,

dançamos ao luar, ao som da valsa

A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia,

nome, confesso, um pouco longo,

mas os tempos, aquele tempo,

ah, não se faz mais tempo

como antigamente.

Aquilo sim é que eram horas,

dias enormes, semanas anos, minutos milênios,

e toda aquela fortuna em tempo

a gente gastava em bobagens,

amar, sonhar, dançar ao som da valsa,

aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento

que a gente dançava em algum setembro

daqueles mil novecentos e oitenta e sempre.



                            O QUE PASSOU, PASSOU


Antigamente, se morria.

1907, digamos, aquilo sim

é que era morrer.

Morria gente todo dia,

e morria com muito prazer,

já que todo mundo sabia

que o Juízo, afinal, viria,

e todo mundo ia renascer.

Morria-se praticamente de tudo.

De doença, de parto, de tosse.

E ainda se morria de amor,

como se amar morte fosse.

Pra morrer, bastava um susto,

um lenço no vento, um suspiro e pronto,

lá se ia nosso defunto

para a terra dos pés juntos.

Dia de anos, casamento, batizado,

morrer era um tipo de festa,

uma das coisas da vida,

como ser ou não ser convidado.

O escândalo era de praxe.

Mas os danos eram pequenos.

Descansou. Partiu. Deus o tenha.

Sempre alguém tinha uma frase

que deixava aquilo mais ou menos,

Tinha coisas que matavam na certa.

Pepino com leite, vento encanado,

praga de velha e amor mal curado.

Tinha coisas que tem que morrer,

tinha coisas que tem que matar.

A honra, a terra e o sangue

mandou muita gente praquele lugar.

Que mais podia um velho fazer,

nos idos de 1916,

a não ser pegar pneumonia,

deixar tudo para os filhos

e virar fotografia?

Ninguém vivia pra sempre.

Afinal, a vida é um upa.

Não deu pra ir mais além.

Mas ninguém tem culpa.

Quem mandou não ser devoto

de Santo Inácio de Acapulco,

Menino Jesus de Praga?

O diabo anda solto.

Aqui se faz, aqui se paga.

Almoçou e fez a barba,

tomou banho e foi no vento.

Não tem o que reclamar.

Agora, vamos ao testamento.

Hoje, a morte está difícil.

Tem recursos, tem asilos, tem remédios.

Agora, a morte tem limites.

E, em caso de necessidade,

a ciência da eternidade

Inventou a criônica.

Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.



esse vôo

ao vento que mais dói

eu dôo



                                     
                                              saber é pouco



como é que a água do mar

entra dentro do coco?




o dia é um escombro

o vôo das pombas

sobre as próprias sombras






a noite — enorme

tudo dorme

menos teu nome




o corvo nada em ouro

nem o céu estraga o vôo

nem o vôo dana o céu




chove no orvalho

a chave na porta

como uma flor no galho




A LUA NO CINEMA

 A lua foi ao cinema,
passava um filme muito engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.

 Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

 A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor!



A palmeira estremece
palmas pra ela
que ela merece


 Amar é um elo
entre o azul
e o amarelo



DESENCONTRÁRIOS

 Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.

Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
fazer poesias, eu sinto, apenas isso

Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.



nu como um grego
ouço um músico negro
e me desagrego


soprando esse bambu
só tiro
o que lhe deu o vento




Foi em 1963, na “Semana Nacional de Poesia de Vanguarda”, em Belo Horizonte, que o Paulo Leminski nos apareceu, 18 ou 19 anos, Rimbaud curitibano com físico de judoca, escandindo versos homéricos, como se fosse um discípulo zen de Bashô, o Senhor Bananeira, recém-egresso do Templo Neopitagórico do simbolista filelênico Dario Veloso.
            Noigandres, com faro poundiano, o acolheu na plataforma de lançamento de Invenção, lampiro-mais-que-vampiro de Curitiba, faiscante de poesia e de vida. Aí começou tudo. Caipira cabotino (como diz afetuosamente o Julinho Bressane) ou polilingüe paroquiano cósmico, como eu preferiria sintetizar numa fórmula ideogrâmica de contrastes, esse caboclo polaco-paranaense soube, muito precocemente, deglutir o pau-brasil oswaldiano e educar-se na pedra filosofal da poesia concreta (até hoje no caminho da poesia brasileira), pedra de fundação e de toque, magneto de poetas-poetas.
            Das primeiras invencionices ao Catatau, da poesia destabocada e lírica (mas sempre construída, sabida, de fabbro, de fazedor) ao verso verde-verdura da canção trovadoresco-popular, o Leminski vem chovendo no endomingado piquenique sobre a erva em que se converteu a neoacadêmica poesia brasileira de hoje, dividida entre institucionalizadas marginalidades plácidas e escoteiros orfeônicos, de medalhinha e braçadeira. E é bom que chova mesmo, com pedra e pau-a-pique. Evoé Leminski!

Haroldo de Campos


A SOPA DE FEIJÃO DE DALTON TREVISAN


 O conto do Dalton Trevisan que há anos dou nas aulas de guionismo, no intuito de tentar explicar aos alunos que a acção não resulta exactamente das corridas de carros, que podem ser a coisinha mais fastidiosa do mundo, mas da intensidade dramática, duma condensação. Por outro lado, ninguém é tão concreto, tão visual nas suas descrições, como o Dalton, o que é também uma escola para a escrita de guiões. Mas não se explica que um ovo é oval a quem não quiser acreditar, não é? Porque há uma diferença entre o que as coisas são e aquilo que nós queremos acreditar que sejam. E por isso eles continuam a preferir o tiroteio ou um arraial de pancadaria para ilustrar a acção. Pertence este conto ao livro Novelas Nada Exemplares. Diga-se ainda que o Dalton é inimitável, meus caros, é um osso que só dá para ele.

A SOPA
Subiu lentamente a escada, arrastando os pés. Estacou para respirar apenas uma vez, no meio dos trinta degraus: ainda era um homem. Entrou na cozinha e, sem olhar para a mulher, sem lavar as mãos, sentou-se à mesa. Ela encheu o prato de sopa, colocou-o diante do marido. Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.
— Aonde é que vai?
O filho abriu a torneira do banheiro:
— Fazer a barba.
  Hora da janta.  Vem comer.
Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.
  Não quero jantar.  Sem fome.
O homem suspendeu a colher:
  Não quer jantar, mas vem para a mesa.
Todas as noites, esfomeado. Enchia a colher, aspirava o caldo de feijão e, fazendo bico nos lábios; grossos, tragava-o com delícia. O filho desenhava com o garfo na toalha de flores estampadas. A mulher, essa, contemplava o fogo, mão no queixo.
  Dar uma volta.
O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.
  Saiu agora do quarto, filho de barão!  Mas eu... Quando me deitar de dia na cama é  para morrer!
A mão do filho abandonou o garfo e não se mexeu.
  Volta cedo, não é?
A voz cansada da mãe, ainda de costas para a mesa. Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho? O homem esvaziou o prato e, descansando a colher, examinou as mãos enrugadas.
  Estas mãos — sacudidas de ligeiro tremor — de um velho!
A mulher apanhou o prato, encheu-o até a beirada. O marido retorceu as pontas úmidas do bigode:
— Você não come?
 O filho contornava com o garfo as pétalas na toalha.
  Não estou com vontade.
  Depois o senhor vai para o quarto.
Cheirava a colher e sorvia a sopa, estalando a língua.   O filho ergueu-se da mesa.
— O senhor fica sentado. Não tem pão nesta casa?
A mulher trouxe o pão. Ele não o cortava: agarrava-o inteiro na mão e mordia várias vezes; em seguida partia-o em pedaços, alinhado s diante do prato, atacando um por um, entre as colheradas.
  Volta cedo, não é, meu filho?
De novo a mãe, nunca aprenderia.
  Agora não vou mais.
O pai dizia a última palavra:
  Uma vergonha! O chefe tem de jantar sozinho. O filho preguiçoso... até para comer.  A mulher — com seus brados retiniam os talheres — tem o estômago delicado.
Não se mexeu, curvada sobre o fogão.
  Olhe para mim quando falo com a senhora!
Ela se virou, a enxugar as mãos na saia.
  Depois de velha, melindrosa.  Não pode comer com o rei da casa, que lhe sustenta o filho e lhe dá o dinheiro?
  Sabe por que não sento.
Os dois a olharam com espanto, nunca discutiu as ordens do marido.
  Sei não, dona princesa. Pois me conte.
Ele pedia, a colher no ar:
  Perdeu a coragem, que não fala?
Outra vez a mulher deu-lhe as costas.
  Só nojo de você.
Ele começou a soprar, manchava de borrifos a toalha.
  O quê?  O quê?  Repita, mulher.
A dona abriu o fogão, espertou as brasas, encheu-o de lenha:
  Nada espero da vida.  Mas não posso te ver comer. Sei que é triste para a mulher ter nojo do marido.   Você chupa a colher se fosse tua última sopa. Come o pão se eu fosse te roubar. Não sei o que fiz a Deus para esse castigo mais desgraçado.  Fui boa mulher, ainda que tenha nojo. Lavo tua roupa, deito na tua cama, cozinho tua sopa. Faço isso até morrer. Me peça o que quiser. Não que me sente a essa mesa com você e tua sopa mais negra.
O filho abandonou a cozinha e desceu a escada. Os dois ouviram bater a porta da rua.
O marido encarou primeira vez a mulher. Baixou os olhos, cabelos de gordura boiavam no caldo frio. Erguendo um lado do prato, acabou o resto de sopa e lambeu a colher.
 

 

ARDER COM AS FLORES, A SUL

                                                                      Nolde, red flowers

Os três poemas que abrem o meu livro Piripiri Suite, de 2006, e que explicam a razão do meu "inxílio" a sul.


O NÓ DO PROBLEMA

 Só de um estado se entra e se sai. Em ti, contigo, ouço

a batida do meu sangue. Julgo-te atrás de mim

e desfechas à minha frente um mar de assoalhadas,

és o pavão que abre o leque e recolhe a paisagem.

As formas encobriam a realidade. Antes de ti.
Antes de ti, antes da compreensão de que a pele é a ombreira
onde a que mira o horizonte trinca a maçã reineta.

A tua dentada na polpa que me adoça.


Não há memória nem passado. Há a forma como cantas
e o aceno de te escutar. Modos de evasão
que crescem para dentro.


Antes de ti, só nos objectos despertava. Na extensa respiração
dos talheres. No bocejo dos anéis. No jogging

dos ponteiros. Antes de ti, na ponta dos dedos

nascia uma ilha. Ataduras que isolam.


Dois cientistas trabalham num laboratório. Um deles toca
a mão do outro e faz uma descoberta: “este é o meu corpo”.
Transmite ao outro a equação, explica-lhe que combinações

realizou a fim de obter o resultado. O seu companheiro

deve ter confiança no que está a receber. Mas

recolhe uma informação em segunda mão.

Então toca na mão do outro e repete: “este

é o meu corpo”. Depois toca-lhe o braço.

Etapa a etapa trocam de lugar. Então despertam.


Distintos ecos mas só em ti a montanha se faz sopro

e a minha boca é presença a si mesmo.
 
Por cima da amendoeira os cirros, debaixo a carne,

sobrenatural, que me restaura os dedos

como à água nas cegonhas o voo.



Contigo: seguindo-me a mim mesmo sem nunca
me preceder. Sem ti: os cães da noite

batem portas no meu espírito.
 


A tua ausência escarpa o ar, pesa ancestral

nos reposteiros, ilumina a sujidade

dos abat-jours, ressoa nos livros inertes

como palha, sorve o silêncio da casa, atento

inconfidente a si mesmo – pela primeira vez

imaterial. Aquietar o coração se nada na sensação é fixo?

Só o olho da rã acompanha a velocidade dos movimentos

em ziguezague, hipótese que Deus me sonegou.

A minha intimidade (a tua pedra

de toque) migra e arde a Oriente.



PARTIR, O FORMATO LÍRICO

Será possível que o meu corpo
tenha afinado a lupa
que a tua pele refractava?
É esta a condição do homem:
a sua fronde não esgota
o ciclone, a sua inclinação
para a morte não desabitua
a Primavera. A estação
dos outros, quando não estás.
Eis-me afeito a partir.
Já não receio ferir-me no cabo
em marfim do destino,
no vestígio vivo que alumia
o passo no gume da manhã.


RIR, COM OS NERVOS DA CHEGADA

 Reveja-se o zombie jubilado a sair do avião.
Reencontra-a após cinco meses
de lameiro como vegetal irregular,
e interroga-se: “amo esta mulher,
que frutos arborescemos juntos?”
Abraça-a, enguia miúda, e espanta-se
pela sua nova madeixa branca (o que só
lhe realça os olhos), enleado na doçura
do sorriso com que ela armou o laço
à sua alma apardalada. Imagina-se
fora de toda a distância, sobre a pele
das Índias, como alguém que é orfão
e ao amor pede desplante: o lúbrico
e paleolítico estoiro das fronteiras.

domingo, 20 de maio de 2012

SAI UNS SEIOS QUENTINHOS PELA MANHÃ


Clemente

Proliferam os que escrevem na mira de afogar o peixe. Começam a rarear os que levam o sangue à guelra do peixe.
Se alguém debita: “Adalberto viu Rita pela primeira vez na esplanada” e continua nessa toada, sei de imediato que estou diante de um burocrata do aparo com hábitos de voyeurismo. Porque nada está implicado naquela frase, nem o narrador, nem as personagens entre si; nada se desencadeia. Eis-nos em arabescos sobre a congelada pista dum mundo reificado.
Se, ao invés, o relato se inicia desta forma: ”Os seios dela olharam argutamente para mim”, o escritor cola-nos diante de uma relação, de algo que se pôs em movimento e envolve ambas as personagens, sem a intermediação distanciada do narrador. E a frase imprime, além disso, uma aceleração narrativa: a primeira hipótese exige mais dez linhas antes de se chegar ao ponto (o telos), nesta hipótese parte-se do ponto.
Não querer entender isto equivale à pretensão de ignorar três séculos de conquistas processuais no que à expressão escrita diz respeito. É muita arrogância para tão pouco sumo.
Mas que fazer se o leitor comum se satisfaz com o pequeno suborno da preguiça em detrimento do jogo lúdico que lhe exige activar a inteligência no acto da leitura? E que dizer se à primeira descrição se associa um registo «realista», tão prenhe da ilusão da objectividade (um mito positivista) que é uso manter-se em épocas de conformismo?
Contudo, ao inverso do que parece a frase acaba por nada comunicar e a sua famigerada mensagem é tão vaga como a abstenção do narrador, que aí não mete prego ou estopa. Encontraram-se na esplanada, e so what? Que se passa em seguida, quais as motivações das personagens, que as vai unir ou separar, etc? Foi tudo adiado, a mensagem patina no vazio, ou antes, processa uma procastinação.
Pelo contrário, a segunda hipótese labora um acto de economia narrativa: as motivações das personagens imbricam-se na forma da frase, tornam necessária essa expressão e não outra, e inclusive, de forma implícita, a frase até nos dá a informação metereológica, pois se fosse Inverno os escultóricos peitos da rapariga estariam tapados por sobretudos e cachecóis e não teriam o efeito devastador que aí se adivinham, provocando mudanças na vida das personagens. Adoptando uma sinédoque, tomando a parte (os seios) pelo todo (a Gisela, para lhe dar um nome), numa frase menos vulgar, comunicamos afinal muitíssimo mais, em intensidade, e de chofre.
Como se vê, que me desculpem os desatentos, não estávamos a falar de seios – ainda que seja exaltante a sugestão de Alexandre O´Neil de que pela manhã nos deveriam servir seios em vez de pãezinhos quentes – mas de procedimentos narrativos.

CONVERSAS COM A JADE 11

                                                            miró. isto é que é vida!


Oito da manhã. Como a Jade é muito senhora do seu nariz, saiu da banheira, direita ao nosso quarto e sentenciou:
- Mãe hoje quero ir ao cinema e depois ao parque aquático…
- Hoje não pode ser... - disse a mãe, e nada mais adiantou.
Ela desatou a rabiar zangada.
Eu tentei explicar:
- Não pode ser porque estamos no fim do mês, no fiozinho da areia antes do pai e a mãe receberem… não há mola, entendes miúda?
Não se deu por vencida. Foi ao quarto buscar o molho de desenhos que tinha feito para a mãe no Dia da Mãe e ameaçou:
- Se não me deixas ir, amachuco esta coisa toda, até ao fim do mundo…
- Pois… - desvalorizou a mãe…
- Ai é!? Então vais ver… - e desatou a amarrotar os desenhos um a um. Depois fez uma bola de cada um deles e atirou-os contra a porta do armário, resmungando para a mãe – Toma, espero que fiques com dor de cabeça…
- Isso não se faz… - digo eu…
- Ai é, e tu… vou-te rasgar as fotografias todas até ficares maluco…
- Como é, rosno eu?
- …depois de Deus morrer… é o que vou fazer…
- Emendaste-te, senão teria levado uma palmada nesse rabo que até vias estrelas…
- Está dia… - responde-me pronta, pondo-me a língua de fora…
 - Não vais ao cinema porque vais a casa da Amélia, ou esqueceste-te? – lembra-lhe a mãe.
A ira passou-lhe de imediato. Correu para o quarto para se vestir e estar pronta para ir com a Amélia, a nossa empregada, à sua casa nos subúrbios, onde iria brincar com os filhos dela, o Todinho e o Marcelino.
Batem à porta, é a Amélia.
Sete da noite. Regresso a casa. Conta a Amélia:
- Senhora, ela pôs-se a brincar na varanda com o Todinho e o Marcelino, ou a correr à volta da casa… e às vezes entrava na casa, olhava-nos e dizia, “isto é que é vida!”. O meu marido fartou-se de rir…
Foi ontem, sábado, mas conto hoje. Isto é que é a vida.


CONVERSAS COM A JADE 10

                                         Soutine. "A beleza será convulsiva ou não será", Breton

“Sete da manhã,/ Mais um dia de aranhões!” cantarola a Jade na banheira, penteando a sua boneca.
E fá-lo, sorrindo, sem lhe pesar nas costas o dever de ser feliz, iluminada pela luz mais improvável:“…mais um dia de arranhões!”, repete o refrão.
Para quê dispor de mais energias a tecer planos para a mecânica das coisas gloriosas, dignas, que tornam o futuro veemente? As crianças sabem: basta misturar o claro-escuro e deixar que a água arranhe o seu caminho:
“Que bom, que bom/ mais um dia de arranhões!”,  


quarta-feira, 16 de maio de 2012

EU LEVO O CHAMPANHE


Hoje, 16 de Maio de 2012
sentado sobre o meu velho osso de baleia
posso anunciar: ACABOU o pesadelo
de que padeci dois anos e meio.
Posso começar a cultivar as orquídeas.
Desemaranhado o coração do arame
a gruta saiu-me da pele.
Ó Lautréamont, que todo o figo
volte a comer o seu burro
- eu levo o champanhe!

terça-feira, 15 de maio de 2012

A LIBERDADE LIVRE: CESARINY

        
A poesia moderna continua a ser um grande mistério para muitos. Talvez devido a que, nela, o raciocínio sintáctico da língua se ressente com o contínuo cavalgamento das imagens poéticas, verificando-se aliás em muitos criadores uma ruptura definitiva com a ordem tanto sintáctica como semântica.
Mas há um poema de Mário Cesariny muito esclarecedor quanto ao que seja a «liberdade livre» dos poetas no último século. Começa o poema, que se lê no Manual de Prestidigitação, por falar respeitosamente das Obras (literárias), em letra grande e solene, e da sua majestade – di-lo o título – idêntica às catedrais. Façamos a paráfrase das primeiras duas estrofes do poema TAL COMO CATEDRAIS:

«Consumada a Obra fica o esqueleto da mesma
e as inerentes avarias centrais
entre céu e terra à espera do descanso
Consumada a Obra ficamos      tu e eu
pensando frases como:     como é possível
                                            o que foi que fizemos?
 ou esta, mais voraz que todas as anteriores:
                                  onde está a camisola?

Sim realmente
onde está a camisola?    Ola
palavra espanhola que quer dizer-nos: Onda
coitadas das palavras sempre a travessar fronteiras há tantos anos
não há aí quem possa dar descanso a estas senhoras?»

Os primeiros dois versos previnem-nos quanto ao desfasamento entre a idealidade traçada e o conseguimento, algo manco, da Obra; apesar do extremo devotamento à dita, inerentes avarias centrais impossibilitam de antemão a sua execução plena, não obstante se ter insistido, uma e outra vez no processo, ao ponto de diante de tal esforço ser legítimo esperar-se por descanso. Segue-se a perplexidade diante da obra falhada e a natural reflexão sobre a extensão das aporias.
E de repente uma pontada de ar frio introduz a única questão que importa: Onde está a camisola?, numa significação livre de si mesma - da ordem do poema.
Portanto, o real interceptou o poema, os seus cálculos, manobras e discursividade, desmontou com o seu acaso o seu encadeamento lógico, deu-lhe uma imediatez descontínua, estilhaçando em partículas a unidade de composição.
E o inesperado de Heráclito irrompe de tal forma, com a dita camisola, que a repetição da pergunta pressupõe já o decalque de um arrepio. E como se bate o dente e se dividem as sílabas no tiritante frio, a última naturalmente destaca-se e conforma a ola, cujo significado imerge do espanhol e duma insuspeita onda (a onda do arrepio, a onda do mar).
Eis esboroada numa associação livre a seriedade da intencionalidade primeira – a resolução alquímica da obra –, e o poeta lastima agora o infatigável, atoleimado, trânsito das palavras, essas senhoras que apostam pouco no vínculo duma relação contínua e antes fazem o trottoir entre fronteiras.
O poema que começara com um tema prévio ao seu acontecer (e todo o espírito de seriedade se revê em tal método), estilhaçou-se paródico, em significações parciais, auto-recriando-se primeiro a partir da deriva (o desvio) que o acontecimento da realidade (neste caso, o frio) sempre desponta no poeta que se mantém poroso às suas incidências, depois pela erupção de um fragmento da palavra, a ola, que, em deslocando-se, já está como o homem a distanciar-se (em pura perda?) da indivisa inocência/visão original.
Em doze versos de ritmo quebrado e irregular o poema informalizou-se e tomou as suas próprias rédeas, caminhando por si mesmo, dispensando-se de recapitular o tema, qualquer tentação mimética, e fazendo juz à conversa entre palavras, que é tanto mais livre quanto nele o poeta fez coincidir o pensamento com o que escondia a sua formulação escrita.
Como avança o poeta Alain Jouffroy, o homem é uma abertura inacabada, um «lontain intérieur» a experimentar, e quanto mais liberto de qualquer ideia de si mais se verifica a osmose entre o seu interior e aquilo que, no exterior, o descentra e desidentifica.
Quando Césariny escreve nas estrofes seguintes:

«O rato roeu a rolha da garrafa do Rei da ssia
- frase entre todas triste, a atentar na significação

Sim consumada a Obra sobram rimas
Pois ela é independente do obreiro
No deitar da língua de fora, no grande manguito aos Autores
é que se vê se uma obra está completa.»

entretém-se a desmantelar os mitos simbolistas com uma inexcedível força sarcástica. Com a lengalenga infantil do rato mima o la musique avant toutes les choses dos simbolistas e a tristeza que aponta à frase remonta à reminiscência do célebre verso de Mallarmé «a carne é triste, hélas, e li todos os livros!» que, de ter sido escrito, pôs Satã feliz por um dia.
Contudo, apesar de não ser possível tudo, ainda o poeta faz do poema criatura (ou uma Arca) autónoma, livre do seu propulsor, mesmo que, contraditoriamente (e a contradição aqui é tudo), não lhe retire a responsabilidade:

«Fiquemos tristes abraça-me nós fizemos tão pouco
E ela aí vai pelo mar fora cavando a sua avaria!»

A obra (a “Óobra”), como o Espírito e o Vento, sopram donde querem. Quanto muito, de vez em quando o poeta e o poema colaboram, ou antes, coincidem:

«(O mundo é redondo
Talvez a reencontremos…

- Esperança cínica e renovadora…)»

A mesma impossibilidade de uma apropriação mágica, órfica, pelo poema, se repete além disso no amor. Do mesmo modo que Orfeu foi ao Inferno buscar a sua Euridíce em vão, tendo caído como a malha na meia na armadilha da sua impaciência, também o Amor é uma contingência que sobraça o quase, o quase-acontecer, o quase-ser. Fecha assim o poema, numa distopia, onde às maiúsculas da promessa, sucedem as minúsculas do relativo amor:

«TU MEU ÚNICO AMOR MEU
    MÚLTIPLO AMOR MEU!

Sim, sim de facto
Efectivamente
Mas o dia arrefece
E pálidos pálidos estamos.»

Porque afinal de que é que ambos precisam mais do que tudo, em primeiríssimo lugar? Duma camisola de lã, mais voraz que o frio - que por sua vez fora mais voraz que o poema, um frágil vislumbre da Obra... 
Embora no fim se constate que o poema, não obstante ter apenas aludido ao tema (a impossibilidade da construção da Obra face à inconstância do homem) fez obra a partir do acaso (da aragem da associação livre), manifestando inclusive uma arquitectura (daí a presença da palavra esqueleto no princípio), ainda que numa sequência aparentemente dispersa.
Ou seja, o poema, sigilosamente, trabalhando a partir da sua desordem/irracionalidade interna, impôs uma ordem ao caos e modelou-o num outro nível de relação, onde, em liberdade livre, se fez, como diria Valéry, da inteligência uma festa.