quarta-feira, 9 de maio de 2012

A PAIXÃO DO TANGÍVEL: JOSÉ FORJAZ



Bolas, lembrei-me agora que nesta minha longa entrevista com o arquitecto José Forjaz não falamos nem de sexo, nem da crise portuguesa, nem da reforma ortográfica, nem da importância das redes sociais.
Uma desgraça, vai ser um insucesso.
Coitados dos meus fãs. Coitadas das fãs do José Forjaz.
Já me imagino no Céu, Siô Pedro, posso entrar?
Você, responde-me o façanhudo, nem pensar,
faltou-nos muito quando mais precisávamos. Até o seu amigo Francisco
Bélard está para ali um cangalho com o que você lhe fez…
O Francisco, meu deus, o Francisco já morreu? Não,
mas anda com a maçã-de-adão muito inchada por causa das vogais mudas
de que fez reserva e culpa-o de não lhe ter emprestado
no devido tempo as suas cordais vocais para o armazenamento de algumas,
e ainda por cima o António deixou-se de histórias picantes…
Um herético quando se reforma só faz dó! – E mete-me na rua.
Desço ao Purgatório e dou de caras com a minha mãe.
Está inconsolável. Pergunta-me de chofre, mas como filho, como é que pudeste
cair nessa armadilha? Uma entrevista de setenta páginas
só a falar de arte, arquitectura, de mutações sociais num país periférico,
onde é que tu andas com a cabeça?
Ó mãe dulcíssima, replico eu, 3 em cada 9 dos meus livros
já aludem ao sexo, não chega?
É que aqui no purgatório, explica-me ela, aderimos todos ao Tantrismo.
Como diziam os antigos, lá saio eu amofinado.
Só vejo uma saída, o meu próximo livro será sobre “a influência do Salô, de Pasolini, no pensamento político de Melo Antunes e do Gupo dos Nove”.
Glamour, voyeurismo, bastidores da geopolítica em 75, uma por outra linha de coca, e uma tarde tórrida de sexo entre Sá Carneiro e Snu Abecassis nos elevadores do Sheraton, momentaneamente paralisado, durante o 11 de Março.
Aí terá mais sucesso no Facebook que a biografia do Otelo.
Depois do Facebook virá a televisão, depois caso com a pivot do telejornal, e vou passar a minha lua de mel ao Brasil nas maisons do Paulo José Miranda e do Alexei Bueno e aproveito e faço um contrato com a Companhia das Letras e a minha sorte está lançada…
Mas, antegozando embora, esse meu próximo êxito, terei agora de falar deste livro, como dizer, um livro decente,
                                              muito bem tratado graficamente (parabéns, ó Luis Cardoso!),
                 com um homem
                              sério, inteligente, loquaz,
que é um mestre na sua arte e não receia falar nem dos afectos nem das feridas,
e que comigo percorre a sua estória e a história comum aos dois países (Moçambique e Portugal) nestes últimos 40 anos,
                         e que com uma verdadeira paixão crítica discute a arte e os sistemas de ensino, a arte antiga e a contemporânea,
as expectativas, ilusões e disforias do país que escolheu para si;
                       para além de relatar os encontros humanos que teve, com Samora, com António Quadros/Grabato Dias, Pancho Guedes,
e com inúmeros outros que não vou citar
       só para os senhores jornalistas não pensarem que já leram o livro…
criatura que, para além disso, defeito imperdoável, ama a poesia.
 Não chegará? Temo que não: falta o sexo, a crise portuguesa, a reforma ortográfica e a importância das redes sociais – tudo esquecimentos meus.
Bem fui avisado pela minha mulher, mas teimei na via abstrusa. Críptico, até na veia.
Ninguém me pode despedir, nesta terra?
Aqui vos deixo uns excertos.
O resto, o melhor, terá de ser descoberto a sós,
de livrinho na mão, no café, na escola, no sofá, na retrete...
Hoje podem adquiri-lo na Escola Portuguesa de Moçambique, em Maputo, onde terá lugar o lançamento às 18, e depois estará disponível nas livrarias.
Vai ser um lançamento de arromba, o João Paulo Borges Coelho é que o vai apresentar. Mais uma boa razão para aparecer.  



E aí vão os lamirés:
(…) em seu entender é preciso fazer
-se primeiro homem – no seu significado mais humanista - para se ser um bom arquitecto?

Acho que sim. Uma boa arquitectura só pode resultar duma atitude amadurecida, e depois cultural, o que pressupõe um sedimento que está para lá dos aspectos formais. Nessa conferência menciono um aspecto cada vez mais importante, para mim, que é a desaprendizagem  -  uma imagem com que procuro transmitir a necessidade de voltar a uma certa inocência na atitude criativa. Nós para nos superarmos temos de estudar muito, de assimilar e compreender certas coisas complexas que nos levarão a romper com algumas ideias adquiridas e uma delas é a da especialidade, pois temos de manejar uma grande panóplia de ferramentas, por um lado, e de realizações e de invenções, por outro. E esta habilitação técnica, de alguma maneira, conspurca, marca uma forma de expressão, ao carregá-la de influências que são extremamente importantes e indispensáveis mas que ao mesmo tempo não podem ser elas a cristalizar uma atitude criativa e genuína, que brote da ânsia poética que cada um de nós transporta. Embora isto aqui possa motivar uma grande confusão, e por isso nessa conferência também menciono que é indispensável considerar que não estamos a fazer arquitectura pela primeira vez, temos noventa mil anos atrás de nós a modificar o espaço, como espécie, e que, ainda por cima, de alguma maneira, aquilo que se foi aprendendo pode ser esquecido. Pelo que este legado precisa de ser estudado, revisto, projectado no futuro, compreendido no passado, etc., e tudo isto são dimensões que hoje me parecem fundamentais e onde a criatividade e a memória vão a par. Ora, é preciso fazer-se homem para compreender como estes dois movimentos, o da desaprendizagem e o do resguardo da memória, são complementares e não antagónicos…
(…)
(…) constato que considerará um bem que o Corbusier não tenha executado os seus planos urbanísticos para Paris, que mudariam absolutamente a face da cidade…

Ainda bem que não o deixaram, são planos absolutamente criminosos… mas que continuam a ser publicados com uma certa ausência de crítica, apesar de merecerem ser mostrados em qualquer escola de urbanismo como o exemplo do que não se deve fazer. Mesmo as definições do ponto de vista de arquitectura são frouxas, quase sempre as reduções com que o seu racionalismo exultava, herdadas do «less is more» e do Alfred Loos, não levam a nada, são apenas falta de alguma coisa… de imaginação, por exemplo. E a tendência panfletária dele acabou por levá-lo a abraçar algumas coisas perigosas, ele engraçava com o fascismo por que este tinha conseguido pôr os comboios em ordem, a andar segundo a tabela… Ora, merda para a tabela…Este levantar a saia para mostrar a perna ao duce dá-nos um pouco a medida do homem… Ele era um oportunista, de um ponto de vista material, agora com um capacidade espantosa, admirável, de persuasão, que acabava por ludibriar todos os incautos que se lhe colocavam em redor… e aproveitou-se do facto de Paris ser naquela altura um centro cultural para se afirmar de maneiras extremamente discutíveis. Mas sempre achei, eu era miúdo, desconfiava daquilo, estudei mais, li muito, estive em França, trabalhei lá… e sempre quis questionar as opções dele… porque para mim é muito fácil alienar dimensões da realidade para a caracterizar com chavões…
(…)
Isso leva-me a perguntar, se fosse o Dante, que tipo de inferno é que imaginaria para um arquitecto?

De antemão, devo esclarecer que não acredito nem no céu nem no inferno… ademais os arquitectos são uma classe extremamente heterogénea em termos da sua atitude, e na minha observação não os consigo classificar em termos de preto e branco, nem mesmo quero criar para eles um qualquer purgatório. Penso que é suficiente cada um deles arder no fogo brando da sua consciência, que com o tempo provocará os seus danos, caso haja alguma coisa a recriminar… mas, entrando no seu jogo, em relação aos arquitectos sem escrúpulos julgo que o inferno seria não ganharem dinheiro… para outros, os muito megalómanos, seria precisamente nunca conseguirem os meios para conseguirem pôr em pé os seus projectos, isto pela eternidade, a maldição de Tântalo… e chega.

Aqui, em Moçambique, os engenheiros podem assinar os projectos?

Podem, podem…

Talvez isso explique tanto kitsch à solta em muitas moradias das novas avenidas que se projectam nos bairros novos de Maputo…

O que explicará isso talvez seja o facto de em 1975, depois da independência, terem ficado 8 arquitectos para o país inteiro, e cinco anos depois, sermos 6… houve uma carência de formação que se reflecte ainda no tecido da cidade… mesmo depois da criação da Faculdade de Arquitectura. Mas para além disso não podemos esquecer que vivemos mergulhados num país novo, com uma classe dirigente e política com bastantes lacunas culturais e que chega ao poder desprovida de imagens de poder… Chega ao poder e tenta consolidar uma imagem própria e elaborar uma imagem física da expansão do seu poder… mas não podemos escapar ao facto de que nós somos também os reflexos dos nossos modelos, e o exemplo que eles têm em termos de imagem de poder na cidade é ainda o que vem de trás, do poder colonial… e então imitam… e é por isso que na maior parte dos países africanos a imagem que se tem preferido é a da arquitectura neo-clássica, com marcas greco-romanas, ou a de um ecletismo chino-asiático - por que não, quanto a mim tão válido como as referências à greco-romanidade -, quando tudo afinal desponta da ausência de uma atitude própria… porque nós importamos tudo, e não ousámos inventar imagens nossas com um vernáculo próprio, local, e articulado na dimensão duma profunda poesia espacial com o meio ambiente, e que tenha em conta as condições climatéricas… Portanto esse kitsch vem de quê? Vem dum completo desfasamento de referências, a não ser de referências que são irreprodutíveis, a maior parte delas saturadas de estilo, uma palavra que aprendi a rejeitar porque nos tem conduzido a coisas deploráveis e que agridem o contexto… Depois, neste aspecto e no marasmo actual, acredito que tem mais influência uma telenovela brasileira do que um cabaz de livros de arquitectura, nós continuamos a ter uma educação que é zero do ponto de vista estético…
(…)
Existem muitos mitos sobre o artista como criador. Há um pintor chinês que se chama Xi-Tao, que escreveu o seguinte: «Pintar é resultado da receptividade da tinta. A tinta abre-se ao papel, o papel abre-se à mão e a mão abre-se ao coração. E todos eles da mesma forma em que o céu engendra e a terra produz: tudo é o resultado da receptividade». Perguntava-lhe se para si o acto produtivo tem mais a ver com a noção romântica de criação ou com este conceito de receptividade?  

Se eu tivesse que escolher entre as suas hipóteses eu iria menos pela criatividade que pela receptividade. Julgo que essa formulação está mais próxima do pano de fundo da produção. A criatividade gerou outro vocábulo cheio de equívocos, a inspiração, que para mim continua a ser o acto de meter o ar nos pulmões. Mas o chinês está mais próximo do essencial do acto produtivo, e produzir é sempre uma forma de criação, seja produzir sapatos, milho, poemas ou arquitectura é sempre um acto criativo, isto é um acto de transformação de qualquer coisa num significado social. É evidente que a criatividade aqui também se utiliza no sentido de se fazer qualquer coisa que nunca se viu antes, e esta é uma dimensão válida, mas no fundo trata-se de nos conformarmos ao grande modelo que é a Natureza e aos seus processos de criação…

Lembrei-me disto porque ontem vi na tv uma entrevista com o Júlio Pomar, o pintor, que estava acompanhado do Jorge Palma, que é um músico de rock. E este pôs-se a falar dos “processos de criação” e o Pomar, que é trinta anos mais velho, às tantas interpelou o músico e disse-lhe: “Ó Jorge, olha que a gente não cria, a gente recebe…“, O músico ficou meio desconcertado. E eu achei graça. E ocorrem-me agora dois versos de um argentino, o Roberto Juarroz, que me parecem próximos do seu conceito de desaprendisagem. Diz ele: «desbaptizar as coisas para lhes devolver o seu estado de presença».

Desbaptisar parece-me interessante. Sobre a criação lembro-me sempre da ambiguidade da língua em português que nos permite, quando perguntamos “onde é que está a criação?”, estarmos na verdade a sondar o local onde fica o galinheiro. Acho que se adapta muito bem…

Esta gargalhada que me fez dar obriga-me a perguntar-lhe isto: há humor na arquitectura? Como é que se arma o humor na arquitectura, através da mistura dos materiais, dos ritmos, do jogo com o espaço?

Sim, sim, há exemplos de arquitectura com humor, olhe, ocorre-me…

(…)
O Louis Khan chega a falar em «essências» e o Jean-Luc Godard dizia que a cada momento e para cada situação só havia um lugar para pôr a câmara, que era inútil multiplicar os pontos de vista…O que talvez seja o mesmo por outras palavras…

Olhe, diria que talvez essas formulações sejam um “exagero necessário” pois estamos a tentar delinear em traços grosseiros, coisas que são complexas. Lembro-me do que, quando eu era estudante, me dizia o Barata-Feyo, um escultor que para mim foi a personalidade mais rica da minha formação… eu ia muitas vezes para o atelier dele e assistia-o, e uma vez estive presente em todos os passos da feitura de uma escultura, vi-o conceber uma escultura, desenvolvê-la, modificá-la, e ele dizia uma coisa interessante, que não estará distante da senda dessas formulações do Godard e do Khan, dizia ele, “olhe José, nós quando estamos a trabalhar a pedra, uma escultura… nós comandamos até determinado ponto, depois é a peça quem manda… a peça pede e nós vamos só fazendo…”. E no fundo é isto, criamos um jogo de lógicas internas àquela construção ou criação e estas reproduzem-se e passam a ser determinantes para as próximas decisões, e isto nem tem que ser um processo consciente, é uma mecânica natural… e um bocadinho em oposição àquela ideia de que se concebe tudo cristalinamente e que depois é só resolver os problemas. Na minha prática esta é a maneira de trabalhar, partir de um caroço de ideia consistente, e depois a polpa vai-se revestindo a si mesma…

No desenho do projecto, vai das parcelas para o todo ou só começa um projecto depois de intuir o todo?

Há um vai e vem nesse processo, às vezes chegamos ao fim e recomeça tudo no princípio, o que às tantas implica uma economia do tempo muito grande…

O José Forjaz nos seus últimos textos teóricos pretende restituir à «emoção» um lugar fulcral, mas esta parece-me ser em si um lugar de passagem ou a porta para uma recondução a uma certa ordem prévia ao metabolismo da expressão, como os arquéticos em Jung. Acredita numa memória transpessoal?

Acredito profundamente e acredito que isso pode ser traduzido para o que mais correntemente chamamos de cultura. Nós herdamos uma gramática do olhar e os vínculos a determinadas práticas que estão muito para além das nossas determinações subjectivas. E por isso convém estarmos bastante conscientes sobre o que herdámos… até para darmos o passo decisivo para a desaprendizagem. Mas estamos condenados a certos patterns, quer queiramos quer não, nem acredito que seja possível escapar a eles, o que fazemos muitas vezes é evitar a coisa pela negação, adoptando o oposto, mas mesmo aí, sem querermos estamos sob influência…
(…)
Acha que hoje a arquitectura ainda conserva alguma coisa das guildas, dos ateliers renascentistas, onde os discípulos cresciam como seres humanos ao mesmo tempo que se apoderavam das técnicas da disciplina?

Acho que sim, bastante até… Não da mesma maneira, está claro, mas algo se mantém… embora cada vez mais, equivocamente, os arquitectos pensem que podem arrancar por si próprios sem o contacto com a experiência, mas o exercício projectual e depois, não esqueçamos, a outra parte igualmente importante que é o exercício construtivo, são das actividades mais complexas que se podem ter, em termos humanos, as relações entre as pessoas não são fáceis de gerir, com o cliente, o empreiteiro, entre os técnicos, ou tratar a legalidade dos processos…

Tudo isso é preciso aprender, estando enquadrado num escritório…

 É preciso aprender e isto não se aprende na faculdade. O aluno, na faculdade, para começar a aprender alguma coisa séria de arquitectura, da construção, destes aspectos todos, teria de andar para aí dez anos na faculdade. Por isso a estupidez do Tratado de Bolonha não tem qualificação. Em Itália as faculdades já rejeitaram a patetice; ou seja, no momento em que Moçambique cegamente embarca nas imposições de Bolonha, os que inventaram a coisa romperam com ela e reconheceram o erro. E é gravíssimo…
(…)
E (Samora) era um homem que escutava?

Quando queria sim, sabia escutar. E fazia-se anunciar: agora escuto. Não era um homem para ser interpelado, tínhamos que o conhecer para na altura certa sugerirmos, e se isto ou aqueloutro, então ele escutava. E nunca o ouvi recusar razão quando esta era arguta e bem firmada… Em termos pessoais eu tenho um grande afecto por ele, porque ele na altura parecia-me uma pessoa dedicada aos ideais, mais que um político era um ideólogo… ele foi o inventor deste país, e tinha um espírito independentíssimo em relação aos marxismos-leninismos mais básicos, sabia também ter o pragmatismo da política mas privilegiava uma sintonia com as características étnicas e culturais do país, isso não tenho dúvidas nenhumas. Tinha também umas fraquezas um pouco indefensáveis, a amizade com o Kim Il Sung era uma coisa difícil de perceber. Uma vez deixou-me em embaraços na Coreia do Norte porque o ditadorzeco quis-nos mostrar o palácio dele, que era uma merda, uma coisa arquitectonicamente atroz, do mais monhé e dubai que se possa imaginar, com o mármore a imitar plástico, que é uma coisa inconcebível, e o cabedal a imitar napa, tudo ao contrário, e o Kim Il Sung durante a visita pergunta a opinião ao Samora que me endereça a pergunta, e eu tive de sussurrar, depois falo consigo. E mais tarde o Samora ria-se muito e comentava, não me digas que era assim tão medonho!? Não era fácil nas circunstância encontrar um homem com uma personalidade semelhante e uma tão grande capacidade de agregar e de inventar o país…

Conte-nos um pouco da sua experiência como Secretário de Estado do Planeamento e Território…Quanto tempo exerceu?

Três anos.

Depois demitiu-se, disseram-me que com um manifesto.

Não. Há sobre essa história muita confusão, não foi assim… Trabalhava comigo uma das pessoas mais inteligentes que conheci e uma das pessoas fundamentais da minha vida, o Patrice Rauszer, levaram-no ao meu gabinete, tive com ele uma conversa inicial de meia hora e ficámos amigos para a vida toda. Ele era arquitecto, refractário ao exército francês, tinha lutado contra a guerra colonial, tinha um mestrado em urbanismo, era muito interessante, muito culto, e uma pessoa excepcional. Trabalhou comigo desde o princípio na concepção duma filosofia do planeamento, pois ele havia trabalhado na Argélia, depois da independência, como conselheiro de Estado Argelino para a mesma área, e era um homem de esquerda, não marxista, nem PCF, duma esquerda independente e sadia… e ajudou-me muito. E houve um momento em que era inevitável uma reacção à asfixia a que o planeamento económico de linha pró-soviético (aquela gente tinha metido a cartilha soviética na cabeça e não se apercebia da desadequação dos modelos ao lugar e às condições humanas) nos conduzia. Era absolutamente extraordinário o que se estava a passar. E nós lá na Assembleia Popular tínhamos de intervir e tentávamos introduzir alguma racionalidade e algumas regras no planeamento que ordenava o país, em termos espaciais, e o Patrice apresentou um documento. O documento tinha sido gizado comigo mas ele fora a cabeça, e o Documento chamava-se, se não me engano, Plano e Projecto de Planeamento Físico, e eu como Secretário do Estado imprimi e mandei circular pela Assembleia da Popular. Houve pessoas que me deram os parabéns e outras que reagiram “você está a brincar!”. E claro que os «apparachiqui», os homens mais alinhados com um marxismo tacanhamente ortodoxo, reagiram, porque aquilo era um ataque frontal à situação. Nós na altura atravessávamos um período complicado, marcado pelo PPI, Plano de Perspectiva  Indicativo, que era uma construção teórica e impossível… que os pequenos tecnocratas (a maioria deles está hoje no Banco Mundial) procuravam executar sem discussão, e que se regia não por procurar activar uma dinâmica que tivesse em conta os potenciais existentes mas os objectivos, por exemplo, agora é preciso fazer uma fábrica de têxteis na Zambézia, e não importava se em tal província havia matéria-prima, mão de-obra-qualificada, técnicos, etc. A experiência redundou em alguns disparatados elefantes brancos e numa sangria de meios e fundos. Partia-se do princípio de que definidos os objectivos tudo se conformaria à sua mágica materialização… o que talvez fosse possível onde houvesse dinheiro, recursos e saber, o que não era o caso de Moçambique. O nosso documento atacava este processo e fomos duramente criticados, e ainda hoje, infelizmente, é um documento que mantém a sua actualidade…
E saí. Mas nunca fui atingido directamente. Pouco depois solicitaram-me para dirigir o processo da construção duma ideia para a Faculdade de Arquitectura e eventualmente tomar conta dela como director, ao que aderi com gosto. Paralelamente a isto, desenhava-se no ar, na Assembleia da República, a hipótese de se levar a cabo uma segunda Operação Produção, sem sequer corrigir os erros da primeira. E quando no nosso grupo de trabalho quiseram silenciar os meus protestos contra um tal disparate, e me mandaram calar, então isso foi a machadada final e retirei-me, resignei como deputado, pois não me mandam calar duas vezes se eu tenho razão. Entretanto, o projecto da Faculdade ia germinando e os italianos lançaram-me o convite, Vem para Itália, a gente quer-te lá a ensinar Planeamento no Terceiro Mundo, e acabei por lá passar uns anos, distanciado já da nata política, a estudar e a trabalhar no aprimorar o projecto da Faculdade de Arquitectura…

A função de Secretário de Estado, tecnicamente, deu-lhe ensinamentos para a sua actividade futura?

Aquilo que aprendi foi que as decisões sobre o espaço são essencialmente de carácter político. O controle do espaço, da sua exploração ou da organização, acontece acima duma lógica tecnológica e rege-se por interesses – sejam legítimos, como eram naquela altura, sejam ilegítimos como acontece amiúde hoje – económico-financeiros, às vezes ao serviço da consolidação de poderes e interesses pessoais privados.
(…)
Eu não sei como é na Arquitectura, mas nas Ciências Humanas, onde dou aulas, os alunos chegam absolutamente desprovidos…Os meus alunos chegam muitas vezes como se tivessem a quarta-classe.

Pois digo-lhe, tenho desenhos de acesso à Faculdade de Arquitectura que a minha neta com 5 anos faria melhor. Digo-o com mágoa. Não estão providos de qualquer instrumento…

E preocupam-se depois em melhorar?

Quem? Eles, ou os professores… (risos) Esse é que é o problema. Estamos a fazer uma Faculdade de Arquitectura com docentes que acabaram de sair da Faculdade. Quando digo acabaram, pode ser há cinco anos, uma pessoa com cinco anos de não-prática profissional, e estamos a falar de um país onde há pouquíssimos centros de formação pós-escolar e na maioria dos casos são 100 por centos comerciais… Isto é uma condicionante histórica, nem estou a fazer uma crítica, estou apenas a constatar: é assim e vai continuar assim durante muitos anos. Repare, na actividade projectual, 50 por cento da sua afinação é feita por erro, por tentativa e erro, e os erros fazem-se no tempo, no espaço e no tempo, e não se podem fazer os erros suficientes para se começar a perceber alguma coisa de arquitectura em menos de 10 ou 15 anos. Faz-se o exercício mas levá-lo todo até ao fim e levá-lo bem é extremamente complexo, é uma das profissões mais ingratas, porque nós somos responsáveis por tudo na obra, quer sejamos ou não, legalmente, somos responsáveis por tudo na obra, sobretudo em Moçambique, onde não há consultoria técnica, ou a que é há é tão insignificante e… não quero dizer atrasada, mas ineficaz… pois o arquitecto está sozinho; desde o projecto à obra. 

Vou-lhe ler uma frase terrorista do Undertweizer, diz ele: «Só quando o arquitecto, pedreiro e ocupante são uma unidade, uma e a mesma pessoa, é que podemos falar de arquitectura. O resto não é a arquitectura, mas sim a encarnação física de um acto criminoso…»

Bom, a frase vale o que vale… mas no nosso caso o problema estende-se a qualquer universidade… mas eu nunca acreditei muito na universidade como local de formação das pessoas, acho mais que as pessoas são formadas umas pelas outras, através de encontros… e é isso que a universidade deve ser, e ainda é, e esses encontros devem ser estimulados, não para discutir as pernas da prima mas para discutir os problemas sociais e as novas emergências intelectivas da sociedade em que se vive. Da minha observação de vinte e tal anos, quase trinta de contacto com a nossa universidade, eu não vi esse estímulo, até na maneira como os espaços entre as salas de aula são tratados, cheiram a urina, não têm luz, são abandonados, não têm bebedouros, não têm sanitários para o estudante… Para além do ambiente que se está a criar, pidesco, de controlo de tudo o que faz, dos passos que se dá, muito mascarado mas que existe, e que também não autoriza que o estudante desenvolva e teça opiniões com desassombro… Mas também não há uma intelectualidade neste momento em Moçambique, foi rasurada…

(…)
A muito nos levaria esta senda mas é melhor retomarmos a arquitectura. No seu “texto de reflexão dos 70 anos”, escreve: “temos de voltar a uma arquitectura que não seja uma performing-art”, o que implicaria uma atitude que hoje se encontra pouco entre os jovens estudantes que se prende com a humildade… Não existe mais, a humildade?

Não, não existe.

Donde lhes chega uma tão desproporcionada confiança nas suas aptidões?

É uma consequência directa da falta de cultura.

Quando eu era um jovem jornalista, em Lisboa, entrar no «Expresso» era como ser ejectado para o Olimpo. E havia um itinerário quase iniciático para lá chegar que passava por provas de qualidade. Quando eu já lá estava comecei a dar conta que chegavam muitos jovens estagiários que davam a coisa como adquirida, como se tivessem nascido para aquilo… A qualidade do trabalho era o menos relevante, na questão. O respeito pelo mérito e pelo saber foi-se dissipando…

Completamente. E estamos a falar a duas escalas, à escala universal e à escala local. À escala local o respeito pelo saber dissipou-se por uma razão simples: não há saber. O que é um problema, para só falar do caso da arquitectura. Portanto, eles também não têm a quem respeitar. É dramático, mas é verdadeiro…

Mas, no caso da arquitectura, Moçambique a dado momento funcionou quase como uma escola, com o Mesquita, o Pancho, etc.,

Não é o anódino, não é o excepcional, não é o fora de comum que cria uma cultura. O que cria uma cultura é a consistência e a constância de uma prática ao nível geral que cria referências que os mais jovens podem tomar como padrões e que, os melhores entre eles, devem pretender ultrapassar. Isso não existe aqui, há uma falta de modelos. Por isso quando surge alguém de qualidade ficam logo endeusados de imediato, um Malangatana, um Mia Couto, etc., e estupidamente, quer-se imediatamente fazer cópias, porque se procura o sucesso a qualquer custo, e sobretudo sem o trabalho que este implica… alguém aponta um caminho e vamos copiar, é mais fácil.
Não é ser melhor que eles, é ser como eles, e como não têm a noção do percurso, o primeiro boneco que põem no papel é genial, até porque a sociedade os empurra para isso, muitas vezes só pela sua origem étnica já é genial… a mentalidade é: temos de ter gente rapidamente, não temos tempo para estar à espera deles… isto é muito grave. Embora também pense que é natural, é uma fase, a História vai apagar muitas destas coisas… e ficará, na essência, muito mais rarefeita, e penso que intelectualmente se vão acumulando experiências, realidades e realizações que irão depois servir de referência. Agora, eu lembro-me de que quando saí da Faculdade tinha a noção clara de que tinha muito que aprender, apesar de que inclusive, já antes de ter entrado para a faculdade ter tido a tarimba de participar no desenho de projectos e continuei a fazê-lo, e só um bom bocado depois é que comecei a assiná-los, cheio de dúvidas e medos de errar e de desiludir os meus mestres e, mais tarde, tive de me aventurar…

Quer dizer, só se aventurou a ter opinião depois de alguns anos de prática?

De alguns bons anos, e com uma atitude que eu não vejo hoje e que reclamo para mim próprio que é a de uma profunda dedicação ao estudo. A estudar técnica, a estudar a filosofia da arquitectura e os processos da arquitectura… Eu estava muito isolado, eu estive sempre muito isolado. Antes de vir para Moçambique estava na Suazilândia, que era um isolamento ainda maior. Com uma diferença, por ser um país de língua inglesa estava mais ligado à África do Sul, que era mais central no mundo, que por vez estava ligada a outros canais maiores como a Grã-Bretanha e os EUA, de que eu beneficiei, mas no trabalho profissional de todos os dias eu estava sozinho…e portanto só através do estudo contínuo eu podia tirar as minhas dúvidas.
(…)
Mas ó Arquitecto, será por isso que a ideia duma harmonização da realidade urbana me parece bastante abandonada por estas bandas?  

Nesse aspecto o que é mais grave é que as cidades africanas exacerbam os conflitos de classe, os conflitos políticos e continuam a desprezar oitenta por cento da sua população, ou seja, as cidades africanas continuam a ser projectadas como se fossem exclusivamente para uma classe média baixa, ou alta – deixando de fora toda a gente que não tem dinheiro para pagar água, luz, telefone… Depois, como já aconteceu aqui, encomendam-se planos urbanísticos a quem não está no terreno e que apresentam depois projectos abstractos sem a menor estrutura ou inserção espacial e sem soluções que respondam às necessidades de 80% dos habitantes que já vivem no local. E isto passa-se em Luanda, em Nairobi, em Maputo, em Joanesburgo… Só se fazem planos para alguns…
(…)
Quem vem a Maputo durante pouco tempo não notará mas quem fica durante algum tempo começa a notar que se mantém uma estrutura social absolutamente estratificada na cidade. Não só se verifica que coexistem muitos tempos históricos diferentes, e estamos a falar das mentalidades das pessoas, como se torna claro que há duas ou três cidades que coexistem mas sem que sejam muitos os convívios francos entre pessoas de raças diferentes… ao fim de cinco anos, de quatrocentos alunos, de me ter integrado na cidade, tenho dois amigos negros. Você desculpe-me, considero isto um escândalo…

Isto é uma coisa que só o tempo curará. É estritamente uma herança cultural, não é por qualquer rejeição ideológica ou biológica, mas vai mudando. O meu filho já foi casado duas vezes com duas negras – só tenho netos mistos. E realmente as barreiras caíram todas, não há aqui quaisquer impedimentos legais para um convívio são, como diz. E esse é meio caminho andado. Claro que há 30 anos atrás, pensávamos todos que ia ser mais rápido, mas tenho esperanças. Mas há outro aspecto com que temos de lidar sem complexos: ser racista é mais natural que não o ser. Ser anti-racista é uma atitude voluntária: eu quero ser amigo de toda a gente… em todos os lugares começam por haver cliques territoriais, que começam a desaparecer conforme as circunstâncias… mas que na origem são contraditórias consigo mesmo e que incluem elementos mais racistas ou não… mas as barreiras vão-se diluindo e vejo nas camadas mais jovens na Universidade que entre eles é muito mais fácil ultrapassarem essas coisas e já respiram de outra maneira. Tudo tem o seu tempo. E ainda há desequilíbrios que só o tempo sanará. Muitos dos alunos mais brilhantes da universidade neste momento são negros, no entanto a média geral dos alunos brancos é melhor, porquê? Porque têm mais apoio em casa. Há PCA’s ou mesmo ministros que metem os filhos nas melhores escolas mas eles não obtém aproveitamento. E não podiam porque em casa não há um único livro e como tal eles não têm o exemplo em casa. O grande problema do ensino em Moçambique não começa na escola mas em casa… e isso não se resolve em dois tempos, não é com mais escolas e mais professores mal preparados mas com a subida da cultura média em casa…Melhorando este quadro geral as pessoas também tenderão a conviver mais entre todas e a abater as últimas barreiras raciais…

terça-feira, 8 de maio de 2012

O SAPATEIRO DE ULISSES E O PANGOLIM



No prólogo do Dicionário Etimológico da Língua Espanhola, de Corominas, diz este académico que em nenhuma outra língua são tantas as palavras fantasmas como na castelhana. E observa Octavio Paz, que nos dá esta informação: «Eu estremeço só de pensar que há palavras que perderam o seu corpo, palavras que flutuam e que não sabemos já o que querem dizer.»
Não é que o não soubesse, que as palavras têm um talo histórico que as alimenta e que depois perdem, secando ou fenecendo, ainda que, ao jeito das estrelas, durem com fantasmas. Sabia-o. Mas chocar com as evidências faz-nos abanar.
Em Moçambique é essa a impressão que tenho quanto ao uso do português: há um fantasma na grelha, que, ainda que viremos para não esturricar, se estiola à vista desarmada. Claro que há, paralelamente, um fluxo de recriação da língua, dado que um rio se faz de muitas correntes desencontradas que se vão compensando a montante e a jusante, porém, se as dinâmicas colectivas têm sempre um lado de sombra, escamoteá-lo parece-me desonesto. Tenho uma idêntica sensação ao assistir a alguns programas populares nos canais de tv brasileira: às vezes coincide o português com o linguajar que ali se exprime, mas, em fundo, esplende outra coisa. Não digo que seja bom ou mau, só constato que por vezes se burla a língua em nome da comunicação, e que nesta batota nem tudo me parece saudavelmente transgressivo. Que se transformem substantivos em verbos pode ser enriquecedor, mas que ao mesmo tempo só se saiba empregar os verbos no infinitivo soa-me a amputação. É natural que as línguas sofram recriações morfo-sintáticas, mas já me traz apreensão o laxismo que lhes avoluma os fantasmas.
De quantas palavras continua a letra no comboio, quando o espírito já saltou fora? Ou perdão, o corpo. Palavras que já só servem para ready-mades, esvaziadas de outro significado que não seja o rasto do seu travestimento, da deslocação. Em Moçambique, por exemplo, todo o estuário semântico associado à palavra democracia está moribundo, apesar das aparências. E num pântano, não só proliferam os miasmas e doenças do catano, nas suas águas insalubres ficam certos talos impossibilitados de se desenvolver, volvem impensáveis. Não sei se as palavras não se assemelharão às pessoas: a partir de determinado mau-estado mostra-se inútil a respiração boca-a-boca, qualquer tentativa de reanimação.
Não podemos baixar os braços, ainda hoje descobri no Rabelais uma expressão lindíssima, posta em desuso, morta para milhões de falantes do português, o termo lúzios: para significar a vista, o olhar - as mulheres esbugalhavam os lúzios e pasmavam, assim se lê no Pantagruel - e de facto pasmo: como se perdeu esta sugestiva tradução do olhar num cardume de peixes luminosos?
Como é que se abandonou um vocábulo com este brilho? Vou fundar um Clube do Amigo dos Lúzios. Se conseguir desenterrar uma palavra de tanta beleza, resgatá-la, devolvê-la ao convívio dos mortais, terei sido finalmente útil, como o sapateiro que remendou as sandálias de Ulisses, a caminho de casa.

 Ezra Pound: “ a merda empesta desde o princípio do mundo os guardadores do depois”.

Franze a testa como o egípcio apreensivo ao ver a nuvem de gafanhotos que se abeira da seara – mas não é um cultor de Ra, e à sua frente só passam chapas repletos de o
velhas da igreja universal. Ele afinal só urina contra a acácia e solta preocupado à passagem do branco: white, um brada quando não mija é o quê?  


Apesar de andar cansado de Benjamin e sobretudo dos seus intérpretes, que não se decidem a fazer o desmame, faço minhas algumas das  suas formulações, como a que o levava a exigir do marxista (eram outros os tempos) que escovasse a História, a contrapelo? Será o Hollande homem para isso?

REPORTAGEM NA BEIRA/ “Quando o pangolim aparece ao pé das casas das pessoas, diz-se por aqui, tem presságio: ou é bom ou é mau” – explica o repórter. Se o filho do edil, nesse dia entala o seu pangolim no zip é mau, mas se, pelo contrário, escapa de trucidar o seu dedo gordo no zip é um bom presságio. “Tem sempre presságio”, sabem porquê, conclui o jornalista: “presságio está sempre amarrado ao pangolim!”. Assim com três voltas e quatro nós.
Olhem, proponho uma fábula. Um dia um pangolim quis casar-se com a filha do régulo. A filha do régulo estava indecisa mas gostava de coisas com escamas. Quando a gente deseja muito as coisas com escama ou vai de jangada para a Ilha da Páscoa e passa a vida no mar ou casa com um pangolim. Pode não ser mau casar com pangolim, se não der diarreia. Se der diarreia é porque o nosso pangolim não era o das profecias.
Eu se vir um pangolim, não desdenho – escuso de comprar.

 “E os miolos dos velhos desmontam-se tal como os dos novos!” – donde é que eu tirei isto?

 Eliot ao defender a supremacia da tradição sobre o talento individual, verdadeira barra de chocolate onde vão mamar todos os posteriores defensores de um retorno ao canónico na poesia e a uma certa ordem racional insuflada por uma prévia modelagem das formas, está a regressar ao paradigma das musas, ao poeta como “homem içado ao seu verdadeiro ser“ (Aristóteles) – e de igual modo a depreciar a inteligência do poeta, naquilo que importa e a magnifica. Para Eliot, a agenda do poeta é-lhe exterior, como diriam em África, e Platão defendia, e a sua impersonalidade lírica idem.
Depois dele, Jacques Maritain empenhou-se em tornar sinónima a “possessão” do oeta do “habitus” escolástico, e trilha no passo de Eliot. Não por coincidência eram ambos católicos.
Primeiro esta concepção reinstaura a maldição do dualismo que é preciso rebater, depois uma lebre se me levanta: esta aposta de Eliot no banco de coral da tradição não é uma derradeira e afligida defesa contra o escândalo do incontinente inconsciente freudiano? A pensar.


“Quando tu mentes a mentira não fica na tua cabeça. A mentira sempre não prevalece!” - ouvido na tasca. Será? Os oxímoros têm quase sempre razão.


No excerto do Manifesto do Surrealismo, de Breton, que Mário Cesariny traduziu para os seus Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial há uma deliciosa gralha, que transcrevo: «… quando ia dormir, Saint-Paul-Roux mandava sempre pôr sobre a porta do seu solar de Camaret o seguinte letreiro:”O POETA TABALHA” (pág. 67). Mais correcto não há: o sonho tabalha sem parar.






domingo, 6 de maio de 2012

COMO PÔR OS OLHOS NO CORAÇÃO?

Autismo seria sempre, fosse qual fosse o ano, um dos melhores livros da sua safra.  

Enquanto editor publiquei várias antologias dos concursos de literatura promovidos pelo Clube Português de Artes e Ideias. Vária gente hoje famosa começou aí, como o Ondjaki ou o José Mário Silva ou o Luis Peixoto (que já havia editado a plaquete Morreste-me), nessas antologias que eu editei, e têm felizmente confirmado o talento que nós (elementos do júri) neles detectámos. Mas desse grupo de 3 dezenas de autores haviam dois que a, mim, pessoalmente, e em anos sucessivos, me enchiam mais as medidas, o Vasco Pereira Marques, que coloquei no Expresso, e de cujo labor literário não soube mais nada, e o Valério Romão, talvez o mais original de todos. Ao Valério ainda consegui publicar-lhe, no único exemplar da minha revista Construções Portuárias, um capítulo de um livro experimental que ensaiava várias formas diferentes de um humano se transformar em faca. O Eduardo Prado Coelho reconheceu imediatamente a qualidade da prosa de Valério e apelidou-a de magnífica, numa longa recensão que fez à revista.
Depois eu vim-me embora de Portugal e perdi-lhe o rasto, só dei conta de que nesses dez anos de interregno o Valério não havia publicado qualquer livro, o que me fazia espécie, pois era de facto aquele em que acreditava mais. Um dia, acidentalmente, deparo com o blogue dele e fico siderado com o que leio: era um diário de um pai debatendo-se com o drama de um filho autista. Afinal, fora essa a estrela negra que se atravessara no caminho do imenso talento de Valério.  
Autismo é, pois, por um lado um romance-catarse com a autoridade de quem está por dentro do abismo e por outro nele se anuncia, com o gosto das séries que caracteriza o Valério (o primeiro livro que publicou são seis variações em torno do medo) o começo de uma trilogia a que deu o nome de Paternidades Falhadas, de que este constitui o primeiro volume (já escreveu o segundo); e se o romance me parece magnífico (para repegar no adjectivo de Prado Coelho) é porque, para além de estruturalmente perfeito, nele se instaura uma espécie de neutro elocutório que o resguarda do excesso de pathos que seria o risco de uma narrativa deste tipo.
Ou seja, Autismo é um grande romance porque além de uma história que agarra e que expõe pela primeira vez em Portugal, que eu conheça, os bastidores de um drama excruciante, exibe uma gestão das emoções absolutamente ímpar e não faz da violência do seu caso um gancho ou um modo de manipulação das emoções do leitor, estando, pelo contrário, o seu tema ao serviço de uma máquina narrativa de uma eficácia soberana e que se movimenta como um thriller, não obstante a sua expressão coral.
Valério enfrenta o problema de frente mas não explora o sensacionalismo que se podia associar ao tema e nem intenta penetrar no mistério do autismo (a sua personagem masculina não borda em torno da questão e rebela-se como um anti-Job), antes minucia os meandros da devastação que, como um efeito colateral, vai minando a relação familiar, inervando-a com a “afasia” antí-rítmica duma desconexão que se converte numa opacidade metafísica.
Diz Agamben que «onde acaba a linguagem começa, não o indizível, mas a matéria da palavra (…) a substância lenhosa da língua» (Ideia da Prosa: 29), virtualidade que se não nos imuniza do enigma abre ainda uma janela nas trevas. Mas o autismo é a erupção de um muro que desponta no seio da própria ilusão de comunicação entre os seres, dado que lhe esboroa o porvir da relação: o eixo da reciprocidade. E o combate aí torna-se equivalente ao adquirir uma fé face à alteridade absoluta: é-se capaz ou não. Autismo é um huis-clos para cinco personagens: Rogério e Marta, Henrique (a criança), Abílio e Amélia (os avós maternos) e diversos figurantes, dado que no jogo das espectativas-limite em que actuam as personagens o mundo inevitavelmente introprojecta-se, anula-se ou fantasmeia-se.
Das 4 ilustrações de Alex Gozblau que antecedem a narrativa e que inteligentemente mostram quatro brinquedos isolados (porque a criança não os conecta), carentes de relação, há uma que prefiro: a da bola amolgada a que o ar já falta. Nada podia ser mais elucidativo quanto ao drama que atinge o casal: aquela bola morre sozinha, como aqueles pais diante do que não ousam sequer formular, implorando por um toque que lhe restabeleça um vínculo, o jogo, o sentimento de partilha; morre de anorexia.
O Valério joga as suas cartas como se fossem lâminas, sem concessões, aliás o livro começa por nos tornar antipático a primeira personagem apresentada (o avô), e nos levar a suspeitar de que estamos diante de um pedófilo, para depois verificarmos que tal era um McGuffin, e que a verdadeira história começa quando a funcionária da escola o informa de que o Henrique (o neto) fora atropelado. A partir daí o enredo evolui para o incrível relato do casal a tentar obter informações no bloco de urgências do hospital, sem conseguir sequer lá penetrar, situação kafkiana, o que vai desencadear uma série de flash-backs e flash-forwards que perfazem o itinerário sobre brasas para que a diferença do filho os atirou.
Autismo é um livro duro, porém cheio de densidade humana, as personagens aqui não são de papel, caricaturais; lê-se facilmente, apesar de sustentar vários níveis de leitura (por exemplo, até a paródia política nele tem lugar: o primeiro dos médicos-fazedores-de promessas que tece um longo formulário de respostas-prontas para a resolução de tal caso bicudo chama-se Miguel Relvas e a sua retórica é-nos familiar); sendo um livro que dá lebre por lebre e cuja leitura constitui uma experiência que não se esquece.
Bastaria o bloco do hospital, cento e tal páginas delirantes, para nos demonstrar a capacidade romanesca de Valério, simultaneamente cirúrgica no detalhe e hábil no modo como articula a acção e a reflexão das personagens no mesmo parágrafo, habilidade proustiana e de que poucos são capazes em Portugal. E o livro arrasta-nos (autenticamente) com a força da sua narração de surpresa em surpresa até ao achado final, que não se pode revelar aqui, mas que deixa o leitor sem fôlego.
Refira-se ainda a qualidade da escrita do Valério, dotada de um bom espectro lexical e muito inventiva, rápida mas não condutivista, o que faz dele um narrador fluido mas com uma agilidade polifónica; ao que acresce o seu invejável domínio técnico sobre as estruturas do romance. É preciso dizer mais para se perceber que estamos diante de um caso de futuro? Veja-se o modo como Rogério descreve a educadora de infância:
«(Uma desavergonhada completa, incapaz de fazer um trabalho decente, incapaz de ver um palmo para além da burocracia que lhe entope as sinapses num desaguar de esgoto, uma mulher ressequida de homem e de hormonas, um atafulho de base esborratada de um batom que lhe rasga a cara de lado a lado.)» pág 46;
ou este naco com que o narrador define uma geração:
«Eles eram os escolhidos, a fruta da época, o reduto e o enclave derradeiros no qual uma longa linhagem chamada civilização ocidental acabava o seu demorado processo de decantação. Ao mesmo orgulho de pertencer ao justo meio intelectual, sobre o qual se agigantavam em discussões sem fim acerca de baudelaire ou de nietzsche, contrapunha-se a incómoda sensação de serem, de algum modo tão trágico quanto injusto, as borras da história, aqueles que ninguém coroaria, por para eles o plano do gosto funcionar de modo inversamente proporcional ao plano do poder. Se algum deles se lembrasse de uma definição adequada para a geração a que pertencia, perdida entre o trabalho, a filosofia, a literatura, a paternidade e o vinho, seria, porventura, a escória que brilha. Talvez o mais ousado daquele  grupo, um dia, entre duas ressacas e a espera de um voo low-cost em sempiterno atraso, vertesse num poema aquele amargo de boca que não advém do estômago ou da vesícula, ou da deficiente condição do fígado ou mesmo de um tumor pancreático tão inesperado como fatal. Aquele travo de derrota nascia por debaixo das meninges, lá onde Freud encontrara, num monte indistinto, tomates, pila e vagina, um território vasto e árido onde se intersectavam Pasolini e Alice no País das Maravilhas, alumiado de quando em vez por uma bebedeira de afinamento solene ou uma pedrada que fugisse ao controlo.» pág. 72:
ou um de vários flashes de Rogério que incidem na difícil relação com o filho:
«Ontem dei por mim a chorar à frente do H., sem ter por onde me esconder, porque a mãe dele estava a passar a ferro no quarto e eu estava com ele a ver desenhos, e preferi que fosse ele a ver-me do que a mãe dele, até porque eu e ela estamos desaguisados.
Enquanto eu chorava com uma mão à frente dos olhos, enchouriçado, a soluçar baixinho, o miúdo pulava alegremente em cima do sofá, ora porque a girafa fazia umas tropelias com o leão mais o hipopótamo ora porque os animais todos se metiam dentro de barcos e de naves, e de fora aquilo parecia uma montanha-russa em constante rodopio. Eu chorei uma hora.
Depois de alguns minutos perdi a vergonha e chorei como um homem, mãos nos joelhos, lágrimas a correrem pela cara abaixo, para cima do tapete de lã. o H. não deu por nada. Quando acabou o filme, ele pegou-me na mão para levar-me à cozinha, queria água. Enquanto lhe dava um copo de água, eu soluçava e assoava-me.
Eu podia ter ficado assim para o resto do tempo, que ele continuaria a portar-se comigo da mesma forma.» Pag.263
Este livro ainda tem a enfrentar outro problema: o da sua divulgação. Num sistema suicida em que os livros duram duas semanas nos expositores das livrarias esta é uma questão vital. E temo que fique prejudicado pelas ínvias razões de ter sido publicado numa pequena editora que faz de cada objecto um caso de estima e de qualidade gráfica inexcedível, o que se por um lado é aplaudido por colecionadores e por um nicho de mercado mais exigente, por outro levanta ciúmes num país mesquinho, que não acarinha quem faz bem o seu trabalho. O prémio de editora revelação que foi atribuído à Abysmo talvez tenha sido prematuro – era quase impossível não lhes dar o prémio pois fazem os livros mais bonitos no mercado, mas… - e leve os jornalistas a desligar a sua atenção sobre a editora no momento em que ela descola para uma aventura comercial continuada e precisa de ser apoiada. Convinha que este livro, precisamente este, com a qualidade bruta que oferece não fosse o primeiro a pagar as favas da perversidade do niquinho país que temos.
Autismo seria sempre, fosse qual fosse o ano, um dos melhores livros da sua safra.   


quarta-feira, 2 de maio de 2012

CÂMARA ARDENTE

                                            fernando lopes por jorge simão (um abraço jorge)

                                                                                                         para a Maria João Seixas

Morreu o Fernando Lopes. Há muito que se tinha ido
O Belarmino, e sempre ao morto sucede o mirto.
O filme de ambos era feito da energia dos murros

no ar do segundo. Com a massa de ar

Que deslocavam moviam-se os charriots.

O Belarmino era um clown a quem tinham roubado

O riso. O Lopes é que o topou, mais àquele seu passo

Desconchavado, no avesso do swing. Se avançava

Para o adversário é porque lhe estavam os calções

A cair, e havia que disfarçar isso com umas piruetas

E alguns lapsos, às vezes com a dor. Morreu o Fernando

Lopes que montava os filmes como uma aula de sapateado

ou a nadar, em câmara lenta. Morreu,

o contrário de um marialva. Veio o vento

E o morrão voou, mas o seu espírito fica.

Foi-se o Lopes, nem sempre nos demos bem, mas ele

tinha aqueles olhos piscos,  dois pirilampos

nas trevas de Deus, e no fim soubemos ser justos.

Quem agora acende o fogo para aquecer a abelha na chuva?

terça-feira, 1 de maio de 2012

PRIMEIRO DE MAIO: AS LARANJAS E A NEVE



1º de Maio.
Já viste alguma vez um monte
de laranjas coberto pela neve?



Novela com cocaína,

como no inferno,

onde a paixão crítica

ergue um pavilhão de ouro.



1º de Maio:

a ferida do pianista

por dentro das notas

quando o trabalho o absorve

inteiramente.



Olá, pai,

a coisa está preta,

e morde,

e hoje nem toda a beleza do mundo

escapa

ao descontentamento.


Saudades.
Já viste por aí algum monte
de laranjas coberto pela neve?



segunda-feira, 30 de abril de 2012

VLADIMÍR HOLAN: O CHECO VOADOR


Vladimír Holan (1905-1980) é um poeta checo, considerado por muitos o expoente da poesia checoslovaca do século XX. Homem solitário e intransigente foi proscrito durante muito tempo pelo poder pró-soviético que governava o país mas nunca desfaleceu como «homem da sombra e da meditação metafísica», e nem a famosa Primavera de Praga o recuperou, apesar do Prémio Nacional que lhe concedeu, sendo lendárias na cidade a sua associabilidade e a luz acesa na sua janela, devido ao seu incessante labor nocturno.
Claro que o poder é que quis quebrar o ostracismo a que o tinha votado, depois da ressonância internacional que lhe deu o longo poema Uma Noite com Hamlet, mas ele continuou a estar absolutamente nas tintas para prémios e reconhecimentos e, inabalável na sua pobreza orgulhosa, em pleno coração da sua cidade, manteve-se recluso até à sua morte.
Os portugueses conhecem um pouco esta “ocultação incurável” com o caso de Herberto Helder.
Neste meu “exílio” uma das boas ideias que tive foi trazer quatro antologias de Holan, um mestre nas “harmonias atonais”, que repetidamente revisito. Estes poemas, de que apresento versões, colhi-os num dos seus principais livros, Dor, que tenho na excelente tradução de Clara Jánes para espanhol e na francesa, da Gallimard, de Dominique Grandmont.


POESIA

Em sentindo-se o homem perdido,
está perdido para tudo o que acontece aos demais
e ao que a si mesmo acontecerá.
E assim, danado, escreve uma carta e no envelope,

sela-a e sublinha: Abrir depois da minha morte!


Mas estar perdido e resistir
e ter a lua sobre o livro e a noite banhada pela leitura,
não saber de onde nem como,

e não estar só mas estar perdido, perdidamente,

como se a própria dor em conúbio com o alheio

engendrasse um terceiro coração…



SEM TÍTULO II

 Diz-se serem as pedras dos druidas movediças.
Mas a beleza das mulheres, só de ser fugaz, é muito mais cruel.

Com o coração quebrado, o poeta escreve sobre isso neste mundo,

neste mundo que só por desídia escuta histórias

de aventura e distância

que, cínico, desconsidera, depreciando até o assombro…


O espírito soberbo repele a tragédia…



 A QUEDA

 Em cada livro há um lugar onde se acha uma mulher
a quem queríamos beijar,

até que lhe nascesse ao canto dos olhos um eclipse da lua

e nós ficássemos como se antes da execução

ela nos tivesse vendado os olhos…


Em cada livro há também um lugar
onde adoramos pecar. Não é sempre um amor desgraçado.

Sim, sei que até do sangue sai fumo…

Sexo do livro… Mas os sonhos não se explicam…



 ENCONTRO NO ELEVADOR

 Entrámos na cabina e estávamos ali só os dois.
Entreolhámo-nos; e que mais haveria para fazer?

Duas vidas, um instante, a plenitude, a felicidade…

No quinto andar ela saiu e eu, que continuava,

compreendi que nunca mais a veria,

que aquele encontro fora de uma vez para sempre,

e que ainda que a tivesse seguido o faria como um morto,

e que se ela se tivesse voltado para mim

já só o poderia fazer desde o outro mundo.


SUFÔCO

 Maduro, corre o mijo. Os pássaros bebem-no.
O ar escalda nas cabeças, cativas.

Na encruzilhada põe-se uma mão a tremer.

Também a morte tem os olhos maiores que o estômago.

Na única sombra, que lembra o golfo

de uma boca afundada num seio feminino,

há uma víbora bem preparada,

como uma mecha de dinamite

nas rochas calcárias de Beroun…


AMANHECER II

O canto dos galos… A alba abre a cancela…
Por elas se deixa ver a melancolia que nunca nos abandona

E oferece com uma mão a paixão,

Com a outra o sofrimento…

E pensaste tu que te tinham esquecido!


ENCONTRO

Chuva sem árvores… O feno húmido …
Abertura do gás… Nuvem frita na frigideira da lua…

Piscadelas… Intermitências… Desaparição das formas…

Espantoso que não tenham tropeçado no carrinho de mão

    do cemitério…

- “Agrado-te?” – Sim, sim...

- “Amas-me?” – Não.


NÃO ÉS

 Não é indiferente o lugar onde estamos.
Algumas estrelas aproximam-se entre si, perigosamente.

Também aqui em baixo há separações violentas de amantes

só para que o tempo se acelere

com o latido dos corações.


As gentes simples são as únicas que não buscam a felicidade…