terça-feira, 8 de maio de 2012

O SAPATEIRO DE ULISSES E O PANGOLIM



No prólogo do Dicionário Etimológico da Língua Espanhola, de Corominas, diz este académico que em nenhuma outra língua são tantas as palavras fantasmas como na castelhana. E observa Octavio Paz, que nos dá esta informação: «Eu estremeço só de pensar que há palavras que perderam o seu corpo, palavras que flutuam e que não sabemos já o que querem dizer.»
Não é que o não soubesse, que as palavras têm um talo histórico que as alimenta e que depois perdem, secando ou fenecendo, ainda que, ao jeito das estrelas, durem com fantasmas. Sabia-o. Mas chocar com as evidências faz-nos abanar.
Em Moçambique é essa a impressão que tenho quanto ao uso do português: há um fantasma na grelha, que, ainda que viremos para não esturricar, se estiola à vista desarmada. Claro que há, paralelamente, um fluxo de recriação da língua, dado que um rio se faz de muitas correntes desencontradas que se vão compensando a montante e a jusante, porém, se as dinâmicas colectivas têm sempre um lado de sombra, escamoteá-lo parece-me desonesto. Tenho uma idêntica sensação ao assistir a alguns programas populares nos canais de tv brasileira: às vezes coincide o português com o linguajar que ali se exprime, mas, em fundo, esplende outra coisa. Não digo que seja bom ou mau, só constato que por vezes se burla a língua em nome da comunicação, e que nesta batota nem tudo me parece saudavelmente transgressivo. Que se transformem substantivos em verbos pode ser enriquecedor, mas que ao mesmo tempo só se saiba empregar os verbos no infinitivo soa-me a amputação. É natural que as línguas sofram recriações morfo-sintáticas, mas já me traz apreensão o laxismo que lhes avoluma os fantasmas.
De quantas palavras continua a letra no comboio, quando o espírito já saltou fora? Ou perdão, o corpo. Palavras que já só servem para ready-mades, esvaziadas de outro significado que não seja o rasto do seu travestimento, da deslocação. Em Moçambique, por exemplo, todo o estuário semântico associado à palavra democracia está moribundo, apesar das aparências. E num pântano, não só proliferam os miasmas e doenças do catano, nas suas águas insalubres ficam certos talos impossibilitados de se desenvolver, volvem impensáveis. Não sei se as palavras não se assemelharão às pessoas: a partir de determinado mau-estado mostra-se inútil a respiração boca-a-boca, qualquer tentativa de reanimação.
Não podemos baixar os braços, ainda hoje descobri no Rabelais uma expressão lindíssima, posta em desuso, morta para milhões de falantes do português, o termo lúzios: para significar a vista, o olhar - as mulheres esbugalhavam os lúzios e pasmavam, assim se lê no Pantagruel - e de facto pasmo: como se perdeu esta sugestiva tradução do olhar num cardume de peixes luminosos?
Como é que se abandonou um vocábulo com este brilho? Vou fundar um Clube do Amigo dos Lúzios. Se conseguir desenterrar uma palavra de tanta beleza, resgatá-la, devolvê-la ao convívio dos mortais, terei sido finalmente útil, como o sapateiro que remendou as sandálias de Ulisses, a caminho de casa.

 Ezra Pound: “ a merda empesta desde o princípio do mundo os guardadores do depois”.

Franze a testa como o egípcio apreensivo ao ver a nuvem de gafanhotos que se abeira da seara – mas não é um cultor de Ra, e à sua frente só passam chapas repletos de o
velhas da igreja universal. Ele afinal só urina contra a acácia e solta preocupado à passagem do branco: white, um brada quando não mija é o quê?  


Apesar de andar cansado de Benjamin e sobretudo dos seus intérpretes, que não se decidem a fazer o desmame, faço minhas algumas das  suas formulações, como a que o levava a exigir do marxista (eram outros os tempos) que escovasse a História, a contrapelo? Será o Hollande homem para isso?

REPORTAGEM NA BEIRA/ “Quando o pangolim aparece ao pé das casas das pessoas, diz-se por aqui, tem presságio: ou é bom ou é mau” – explica o repórter. Se o filho do edil, nesse dia entala o seu pangolim no zip é mau, mas se, pelo contrário, escapa de trucidar o seu dedo gordo no zip é um bom presságio. “Tem sempre presságio”, sabem porquê, conclui o jornalista: “presságio está sempre amarrado ao pangolim!”. Assim com três voltas e quatro nós.
Olhem, proponho uma fábula. Um dia um pangolim quis casar-se com a filha do régulo. A filha do régulo estava indecisa mas gostava de coisas com escamas. Quando a gente deseja muito as coisas com escama ou vai de jangada para a Ilha da Páscoa e passa a vida no mar ou casa com um pangolim. Pode não ser mau casar com pangolim, se não der diarreia. Se der diarreia é porque o nosso pangolim não era o das profecias.
Eu se vir um pangolim, não desdenho – escuso de comprar.

 “E os miolos dos velhos desmontam-se tal como os dos novos!” – donde é que eu tirei isto?

 Eliot ao defender a supremacia da tradição sobre o talento individual, verdadeira barra de chocolate onde vão mamar todos os posteriores defensores de um retorno ao canónico na poesia e a uma certa ordem racional insuflada por uma prévia modelagem das formas, está a regressar ao paradigma das musas, ao poeta como “homem içado ao seu verdadeiro ser“ (Aristóteles) – e de igual modo a depreciar a inteligência do poeta, naquilo que importa e a magnifica. Para Eliot, a agenda do poeta é-lhe exterior, como diriam em África, e Platão defendia, e a sua impersonalidade lírica idem.
Depois dele, Jacques Maritain empenhou-se em tornar sinónima a “possessão” do oeta do “habitus” escolástico, e trilha no passo de Eliot. Não por coincidência eram ambos católicos.
Primeiro esta concepção reinstaura a maldição do dualismo que é preciso rebater, depois uma lebre se me levanta: esta aposta de Eliot no banco de coral da tradição não é uma derradeira e afligida defesa contra o escândalo do incontinente inconsciente freudiano? A pensar.


“Quando tu mentes a mentira não fica na tua cabeça. A mentira sempre não prevalece!” - ouvido na tasca. Será? Os oxímoros têm quase sempre razão.


No excerto do Manifesto do Surrealismo, de Breton, que Mário Cesariny traduziu para os seus Textos de Afirmação e de Combate do Movimento Surrealista Mundial há uma deliciosa gralha, que transcrevo: «… quando ia dormir, Saint-Paul-Roux mandava sempre pôr sobre a porta do seu solar de Camaret o seguinte letreiro:”O POETA TABALHA” (pág. 67). Mais correcto não há: o sonho tabalha sem parar.






domingo, 6 de maio de 2012

COMO PÔR OS OLHOS NO CORAÇÃO?

Autismo seria sempre, fosse qual fosse o ano, um dos melhores livros da sua safra.  

Enquanto editor publiquei várias antologias dos concursos de literatura promovidos pelo Clube Português de Artes e Ideias. Vária gente hoje famosa começou aí, como o Ondjaki ou o José Mário Silva ou o Luis Peixoto (que já havia editado a plaquete Morreste-me), nessas antologias que eu editei, e têm felizmente confirmado o talento que nós (elementos do júri) neles detectámos. Mas desse grupo de 3 dezenas de autores haviam dois que a, mim, pessoalmente, e em anos sucessivos, me enchiam mais as medidas, o Vasco Pereira Marques, que coloquei no Expresso, e de cujo labor literário não soube mais nada, e o Valério Romão, talvez o mais original de todos. Ao Valério ainda consegui publicar-lhe, no único exemplar da minha revista Construções Portuárias, um capítulo de um livro experimental que ensaiava várias formas diferentes de um humano se transformar em faca. O Eduardo Prado Coelho reconheceu imediatamente a qualidade da prosa de Valério e apelidou-a de magnífica, numa longa recensão que fez à revista.
Depois eu vim-me embora de Portugal e perdi-lhe o rasto, só dei conta de que nesses dez anos de interregno o Valério não havia publicado qualquer livro, o que me fazia espécie, pois era de facto aquele em que acreditava mais. Um dia, acidentalmente, deparo com o blogue dele e fico siderado com o que leio: era um diário de um pai debatendo-se com o drama de um filho autista. Afinal, fora essa a estrela negra que se atravessara no caminho do imenso talento de Valério.  
Autismo é, pois, por um lado um romance-catarse com a autoridade de quem está por dentro do abismo e por outro nele se anuncia, com o gosto das séries que caracteriza o Valério (o primeiro livro que publicou são seis variações em torno do medo) o começo de uma trilogia a que deu o nome de Paternidades Falhadas, de que este constitui o primeiro volume (já escreveu o segundo); e se o romance me parece magnífico (para repegar no adjectivo de Prado Coelho) é porque, para além de estruturalmente perfeito, nele se instaura uma espécie de neutro elocutório que o resguarda do excesso de pathos que seria o risco de uma narrativa deste tipo.
Ou seja, Autismo é um grande romance porque além de uma história que agarra e que expõe pela primeira vez em Portugal, que eu conheça, os bastidores de um drama excruciante, exibe uma gestão das emoções absolutamente ímpar e não faz da violência do seu caso um gancho ou um modo de manipulação das emoções do leitor, estando, pelo contrário, o seu tema ao serviço de uma máquina narrativa de uma eficácia soberana e que se movimenta como um thriller, não obstante a sua expressão coral.
Valério enfrenta o problema de frente mas não explora o sensacionalismo que se podia associar ao tema e nem intenta penetrar no mistério do autismo (a sua personagem masculina não borda em torno da questão e rebela-se como um anti-Job), antes minucia os meandros da devastação que, como um efeito colateral, vai minando a relação familiar, inervando-a com a “afasia” antí-rítmica duma desconexão que se converte numa opacidade metafísica.
Diz Agamben que «onde acaba a linguagem começa, não o indizível, mas a matéria da palavra (…) a substância lenhosa da língua» (Ideia da Prosa: 29), virtualidade que se não nos imuniza do enigma abre ainda uma janela nas trevas. Mas o autismo é a erupção de um muro que desponta no seio da própria ilusão de comunicação entre os seres, dado que lhe esboroa o porvir da relação: o eixo da reciprocidade. E o combate aí torna-se equivalente ao adquirir uma fé face à alteridade absoluta: é-se capaz ou não. Autismo é um huis-clos para cinco personagens: Rogério e Marta, Henrique (a criança), Abílio e Amélia (os avós maternos) e diversos figurantes, dado que no jogo das espectativas-limite em que actuam as personagens o mundo inevitavelmente introprojecta-se, anula-se ou fantasmeia-se.
Das 4 ilustrações de Alex Gozblau que antecedem a narrativa e que inteligentemente mostram quatro brinquedos isolados (porque a criança não os conecta), carentes de relação, há uma que prefiro: a da bola amolgada a que o ar já falta. Nada podia ser mais elucidativo quanto ao drama que atinge o casal: aquela bola morre sozinha, como aqueles pais diante do que não ousam sequer formular, implorando por um toque que lhe restabeleça um vínculo, o jogo, o sentimento de partilha; morre de anorexia.
O Valério joga as suas cartas como se fossem lâminas, sem concessões, aliás o livro começa por nos tornar antipático a primeira personagem apresentada (o avô), e nos levar a suspeitar de que estamos diante de um pedófilo, para depois verificarmos que tal era um McGuffin, e que a verdadeira história começa quando a funcionária da escola o informa de que o Henrique (o neto) fora atropelado. A partir daí o enredo evolui para o incrível relato do casal a tentar obter informações no bloco de urgências do hospital, sem conseguir sequer lá penetrar, situação kafkiana, o que vai desencadear uma série de flash-backs e flash-forwards que perfazem o itinerário sobre brasas para que a diferença do filho os atirou.
Autismo é um livro duro, porém cheio de densidade humana, as personagens aqui não são de papel, caricaturais; lê-se facilmente, apesar de sustentar vários níveis de leitura (por exemplo, até a paródia política nele tem lugar: o primeiro dos médicos-fazedores-de promessas que tece um longo formulário de respostas-prontas para a resolução de tal caso bicudo chama-se Miguel Relvas e a sua retórica é-nos familiar); sendo um livro que dá lebre por lebre e cuja leitura constitui uma experiência que não se esquece.
Bastaria o bloco do hospital, cento e tal páginas delirantes, para nos demonstrar a capacidade romanesca de Valério, simultaneamente cirúrgica no detalhe e hábil no modo como articula a acção e a reflexão das personagens no mesmo parágrafo, habilidade proustiana e de que poucos são capazes em Portugal. E o livro arrasta-nos (autenticamente) com a força da sua narração de surpresa em surpresa até ao achado final, que não se pode revelar aqui, mas que deixa o leitor sem fôlego.
Refira-se ainda a qualidade da escrita do Valério, dotada de um bom espectro lexical e muito inventiva, rápida mas não condutivista, o que faz dele um narrador fluido mas com uma agilidade polifónica; ao que acresce o seu invejável domínio técnico sobre as estruturas do romance. É preciso dizer mais para se perceber que estamos diante de um caso de futuro? Veja-se o modo como Rogério descreve a educadora de infância:
«(Uma desavergonhada completa, incapaz de fazer um trabalho decente, incapaz de ver um palmo para além da burocracia que lhe entope as sinapses num desaguar de esgoto, uma mulher ressequida de homem e de hormonas, um atafulho de base esborratada de um batom que lhe rasga a cara de lado a lado.)» pág 46;
ou este naco com que o narrador define uma geração:
«Eles eram os escolhidos, a fruta da época, o reduto e o enclave derradeiros no qual uma longa linhagem chamada civilização ocidental acabava o seu demorado processo de decantação. Ao mesmo orgulho de pertencer ao justo meio intelectual, sobre o qual se agigantavam em discussões sem fim acerca de baudelaire ou de nietzsche, contrapunha-se a incómoda sensação de serem, de algum modo tão trágico quanto injusto, as borras da história, aqueles que ninguém coroaria, por para eles o plano do gosto funcionar de modo inversamente proporcional ao plano do poder. Se algum deles se lembrasse de uma definição adequada para a geração a que pertencia, perdida entre o trabalho, a filosofia, a literatura, a paternidade e o vinho, seria, porventura, a escória que brilha. Talvez o mais ousado daquele  grupo, um dia, entre duas ressacas e a espera de um voo low-cost em sempiterno atraso, vertesse num poema aquele amargo de boca que não advém do estômago ou da vesícula, ou da deficiente condição do fígado ou mesmo de um tumor pancreático tão inesperado como fatal. Aquele travo de derrota nascia por debaixo das meninges, lá onde Freud encontrara, num monte indistinto, tomates, pila e vagina, um território vasto e árido onde se intersectavam Pasolini e Alice no País das Maravilhas, alumiado de quando em vez por uma bebedeira de afinamento solene ou uma pedrada que fugisse ao controlo.» pág. 72:
ou um de vários flashes de Rogério que incidem na difícil relação com o filho:
«Ontem dei por mim a chorar à frente do H., sem ter por onde me esconder, porque a mãe dele estava a passar a ferro no quarto e eu estava com ele a ver desenhos, e preferi que fosse ele a ver-me do que a mãe dele, até porque eu e ela estamos desaguisados.
Enquanto eu chorava com uma mão à frente dos olhos, enchouriçado, a soluçar baixinho, o miúdo pulava alegremente em cima do sofá, ora porque a girafa fazia umas tropelias com o leão mais o hipopótamo ora porque os animais todos se metiam dentro de barcos e de naves, e de fora aquilo parecia uma montanha-russa em constante rodopio. Eu chorei uma hora.
Depois de alguns minutos perdi a vergonha e chorei como um homem, mãos nos joelhos, lágrimas a correrem pela cara abaixo, para cima do tapete de lã. o H. não deu por nada. Quando acabou o filme, ele pegou-me na mão para levar-me à cozinha, queria água. Enquanto lhe dava um copo de água, eu soluçava e assoava-me.
Eu podia ter ficado assim para o resto do tempo, que ele continuaria a portar-se comigo da mesma forma.» Pag.263
Este livro ainda tem a enfrentar outro problema: o da sua divulgação. Num sistema suicida em que os livros duram duas semanas nos expositores das livrarias esta é uma questão vital. E temo que fique prejudicado pelas ínvias razões de ter sido publicado numa pequena editora que faz de cada objecto um caso de estima e de qualidade gráfica inexcedível, o que se por um lado é aplaudido por colecionadores e por um nicho de mercado mais exigente, por outro levanta ciúmes num país mesquinho, que não acarinha quem faz bem o seu trabalho. O prémio de editora revelação que foi atribuído à Abysmo talvez tenha sido prematuro – era quase impossível não lhes dar o prémio pois fazem os livros mais bonitos no mercado, mas… - e leve os jornalistas a desligar a sua atenção sobre a editora no momento em que ela descola para uma aventura comercial continuada e precisa de ser apoiada. Convinha que este livro, precisamente este, com a qualidade bruta que oferece não fosse o primeiro a pagar as favas da perversidade do niquinho país que temos.
Autismo seria sempre, fosse qual fosse o ano, um dos melhores livros da sua safra.   


quarta-feira, 2 de maio de 2012

CÂMARA ARDENTE

                                            fernando lopes por jorge simão (um abraço jorge)

                                                                                                         para a Maria João Seixas

Morreu o Fernando Lopes. Há muito que se tinha ido
O Belarmino, e sempre ao morto sucede o mirto.
O filme de ambos era feito da energia dos murros

no ar do segundo. Com a massa de ar

Que deslocavam moviam-se os charriots.

O Belarmino era um clown a quem tinham roubado

O riso. O Lopes é que o topou, mais àquele seu passo

Desconchavado, no avesso do swing. Se avançava

Para o adversário é porque lhe estavam os calções

A cair, e havia que disfarçar isso com umas piruetas

E alguns lapsos, às vezes com a dor. Morreu o Fernando

Lopes que montava os filmes como uma aula de sapateado

ou a nadar, em câmara lenta. Morreu,

o contrário de um marialva. Veio o vento

E o morrão voou, mas o seu espírito fica.

Foi-se o Lopes, nem sempre nos demos bem, mas ele

tinha aqueles olhos piscos,  dois pirilampos

nas trevas de Deus, e no fim soubemos ser justos.

Quem agora acende o fogo para aquecer a abelha na chuva?

terça-feira, 1 de maio de 2012

PRIMEIRO DE MAIO: AS LARANJAS E A NEVE



1º de Maio.
Já viste alguma vez um monte
de laranjas coberto pela neve?



Novela com cocaína,

como no inferno,

onde a paixão crítica

ergue um pavilhão de ouro.



1º de Maio:

a ferida do pianista

por dentro das notas

quando o trabalho o absorve

inteiramente.



Olá, pai,

a coisa está preta,

e morde,

e hoje nem toda a beleza do mundo

escapa

ao descontentamento.


Saudades.
Já viste por aí algum monte
de laranjas coberto pela neve?



segunda-feira, 30 de abril de 2012

VLADIMÍR HOLAN: O CHECO VOADOR


Vladimír Holan (1905-1980) é um poeta checo, considerado por muitos o expoente da poesia checoslovaca do século XX. Homem solitário e intransigente foi proscrito durante muito tempo pelo poder pró-soviético que governava o país mas nunca desfaleceu como «homem da sombra e da meditação metafísica», e nem a famosa Primavera de Praga o recuperou, apesar do Prémio Nacional que lhe concedeu, sendo lendárias na cidade a sua associabilidade e a luz acesa na sua janela, devido ao seu incessante labor nocturno.
Claro que o poder é que quis quebrar o ostracismo a que o tinha votado, depois da ressonância internacional que lhe deu o longo poema Uma Noite com Hamlet, mas ele continuou a estar absolutamente nas tintas para prémios e reconhecimentos e, inabalável na sua pobreza orgulhosa, em pleno coração da sua cidade, manteve-se recluso até à sua morte.
Os portugueses conhecem um pouco esta “ocultação incurável” com o caso de Herberto Helder.
Neste meu “exílio” uma das boas ideias que tive foi trazer quatro antologias de Holan, um mestre nas “harmonias atonais”, que repetidamente revisito. Estes poemas, de que apresento versões, colhi-os num dos seus principais livros, Dor, que tenho na excelente tradução de Clara Jánes para espanhol e na francesa, da Gallimard, de Dominique Grandmont.


POESIA

Em sentindo-se o homem perdido,
está perdido para tudo o que acontece aos demais
e ao que a si mesmo acontecerá.
E assim, danado, escreve uma carta e no envelope,

sela-a e sublinha: Abrir depois da minha morte!


Mas estar perdido e resistir
e ter a lua sobre o livro e a noite banhada pela leitura,
não saber de onde nem como,

e não estar só mas estar perdido, perdidamente,

como se a própria dor em conúbio com o alheio

engendrasse um terceiro coração…



SEM TÍTULO II

 Diz-se serem as pedras dos druidas movediças.
Mas a beleza das mulheres, só de ser fugaz, é muito mais cruel.

Com o coração quebrado, o poeta escreve sobre isso neste mundo,

neste mundo que só por desídia escuta histórias

de aventura e distância

que, cínico, desconsidera, depreciando até o assombro…


O espírito soberbo repele a tragédia…



 A QUEDA

 Em cada livro há um lugar onde se acha uma mulher
a quem queríamos beijar,

até que lhe nascesse ao canto dos olhos um eclipse da lua

e nós ficássemos como se antes da execução

ela nos tivesse vendado os olhos…


Em cada livro há também um lugar
onde adoramos pecar. Não é sempre um amor desgraçado.

Sim, sei que até do sangue sai fumo…

Sexo do livro… Mas os sonhos não se explicam…



 ENCONTRO NO ELEVADOR

 Entrámos na cabina e estávamos ali só os dois.
Entreolhámo-nos; e que mais haveria para fazer?

Duas vidas, um instante, a plenitude, a felicidade…

No quinto andar ela saiu e eu, que continuava,

compreendi que nunca mais a veria,

que aquele encontro fora de uma vez para sempre,

e que ainda que a tivesse seguido o faria como um morto,

e que se ela se tivesse voltado para mim

já só o poderia fazer desde o outro mundo.


SUFÔCO

 Maduro, corre o mijo. Os pássaros bebem-no.
O ar escalda nas cabeças, cativas.

Na encruzilhada põe-se uma mão a tremer.

Também a morte tem os olhos maiores que o estômago.

Na única sombra, que lembra o golfo

de uma boca afundada num seio feminino,

há uma víbora bem preparada,

como uma mecha de dinamite

nas rochas calcárias de Beroun…


AMANHECER II

O canto dos galos… A alba abre a cancela…
Por elas se deixa ver a melancolia que nunca nos abandona

E oferece com uma mão a paixão,

Com a outra o sofrimento…

E pensaste tu que te tinham esquecido!


ENCONTRO

Chuva sem árvores… O feno húmido …
Abertura do gás… Nuvem frita na frigideira da lua…

Piscadelas… Intermitências… Desaparição das formas…

Espantoso que não tenham tropeçado no carrinho de mão

    do cemitério…

- “Agrado-te?” – Sim, sim...

- “Amas-me?” – Não.


NÃO ÉS

 Não é indiferente o lugar onde estamos.
Algumas estrelas aproximam-se entre si, perigosamente.

Também aqui em baixo há separações violentas de amantes

só para que o tempo se acelere

com o latido dos corações.


As gentes simples são as únicas que não buscam a felicidade…



domingo, 29 de abril de 2012

A ALMA CONTA OS PASSOS

                                                           matta, integral do silêncio

E de súbito apareceu em Lisboa com um urgência, um frenesim, uma energia fantástica. Durou três anos a nossa amizade, intensa; nesse período ele editou seis números da revista ibérica Canal, foi para o México e voltou, e passava a vida errante, entre Portugal e Espanha. De repente, numa véspera de natal teve uma morte macaca. Não há outra expressão, para morrer afogado dentro do próprio carro, capotado como uma peça do lego numa conduta de esgoto, na noite da maior chuvada da década.
Chamava-se Augusto Oliveira Mendes.
Fui agora buscar uma coisa à despensa e caiu-me aos pés o único livro que editou, já póstumo. Hei-de postar coisas deles, agora presto-lhe homenagem com o poema que escrevi sobre o choque da morte dele.


A ALMA CONTA OS PASSOS




                                                                      À memória de Augusto Oliveira Mendes



«La destinée de chaque homme ne lui est personnelle

que dans la mesure où il arrive de ressembler

à ce que sa mémoire contenait déjà»,

Edouard Mallea                                                   

A surpresa é total: nunca tinha regado este meu morto.

Jura Caballero Bonald, poeta que partilhávamos:

«o futuro dura tão pouco que é já presente.»

Adivinho-o nas tintas para a matéria volátil:



a apalpar ainda, na extensão da pele, as junções.

Nele, nenhuma compreensão ulterior forçava

as fontes, as mãos - o silêncio que as rói.

Como dormir entre dois tornados? Em miúdo



laçava lagartixas com a destreza do felino

que s' esgueira ao pensamento. Mas

despertar entre dois tornados? Finou-se

escaqueirado pela água que temia, dentro de uma 4-L:



alcião mijote porque vidente. A morte, uma fraude

mais infalível que o Papa, despenhou-o nas suas capelas

imperfeitas. E mentiu-lhe: essas abóbadas não são

as da Sílvia Kristel da nossa adolescência,



nem é sedosa a unha que lhe greta a pele: o crapuloso anjo

que nele catava deus cata agora fungos. Como dizer

que este mundo sem excessos, com contas a prazo

e a expensas de Alardo e Vitalis não era o seu?



Que esta gente de uma glamorosa gelatina

não era a sua? Mesmo nos frutos abertos à pressão

dos polegares algo indeslindável resiste. Nenhum

morto é passivo: levou uma hora dentro de água



a debater-se, pois nem sempre é o genoma humano

Passport. Tinha três cães cor de absinto.

O Trovoada (minto de memória) tremia como um canavial,

quando farejava homens com o entorse das perdizes na venta.



Sexos com bigode e ostras com limão: indispensáveis,

uns e outras – é uma questão de género!, afiançou-me

na tasca do Turco, em Alcântara Terra,

aguardávamos pelo reboque dos seguros.



Os búlgaros e sérvios clandestinos tomavam-nos

por panascas ou bufos. É quase sempre

com razão que se enganam sobre nós.

Só que eu não percebi. Nem foi por mal.



Não lhe faltava ferocidade no sorriso. Melhor:

disponível como certas veias ao clamor de uma irrestrita

pândega, tinha o sorriso do frade

que sonha episcopal com a madre superior.



Dele dificilmente diriam: uma vida de estudo

e tão cediço movimento! Não há aqui nada de sincero,

as mil faces do plátano dão ouvidos ao vento

e o mais é o mudo desassossego de quem olha



– grafou num livro que lhe emprestei. Não são

as suas palavras que porventura faltam mas a malícia,

a mostarda que as impedia de exangues

quedarem-se ao primeiro assento. Enfadava-me



de morte o seu William Clift (engates de segunda

nos cinemas de subúrbio) e eu metralhava-o com o Hugo

Claus (engates de morte às estrelas de subúrbio).

A chuva lá fora continua a soletrar-lhe o nome –



e já não sei por que ledo desengano s’extraviaram

o valão e o flamengo. Às vezes encafuava nas palavras

mas dilucido nitidamente como profético o que, depois

de virarmos uma garrafa de Jameson, repetia:



nunca vi um naufrago tremer de ansiedade! E eu retorquia,

imbecil: Khrisna estigmatiza a ilusão de não-agir.

Espalha-brasas, sempre que eu procurava ligar isto

à ilusão da poesia pura, da sua despersonalização, anuía



solene «hum, hum»  e voltava a encher-me o copo.

Ele, que até na morte agiu demais. Grandeza

de homem: falhar o encontro e não perder o humor.

Grandeza de pássaro: estudar a migração das tartarugas.



Grandeza de poeta: serenar, quando no cockpit da morte

o telemóvel nos falha. Tinhas razão, inadvertido amigo,

a rádio devia servir os alpinistas e assombrá-los

com o mar, e aos lavadores de janelas com os chilreios tropicais



– perdoa-lhes, passam Mozart! Algo que não calque

uma madrugada de risos e giestas – tudo o que pedias.

A rosa transparente que se desfaz no gelo

sustém nos espinhos um livro de horas: segredou-me



o tordo de Eliot. Tão inútil, o tordo de Eliot.

Olha, meu caro, um peixe é um reflexo que não conheceu

retorno - e a vida te guarde de voltares. Lázaro

nem sempre ri. Via-se: tinhas a teimosia do temerário



que se lança ao fogo antes de aceitar que queima.

Deixa agora que as veias corram como mato.

É perdulária a memória, como o vinho desarrolhado?

Deixa, o corpo precisa de imagens e a terra de chuva.



Por isso, nunca o desejo cerra as cancelas.

Bebo: não me esqueça Dante, em revisão pé-de-galo.

Bebo: o silêncio atrai os assédios e é ainda cedo para honrar

os dissabores. Bebo: gosto de ver as barrigas a rir,



sacolejadas pelo medo. Bebo, um olho indómito

escava do topo à bainha, onde o rasgão que atou o teu olhar

à palavra descortinou um fundo impróprio.

Não provinha de Delfos - hélas! – a palavra deste poeta-



-agricultor: ele há sempre o estorvo e o estorninho!

Um sonho sem margens, querido Augusto, chamava Pascal

à infância. Mas quando se depara um futuro sem leito, é o quê?

Choca, a exuberância com que deus quis subir



pela escada rolante que desemboca na cave. Sentes

ainda as agulhas da dormência, a estrela polar

que te lucila o sangue? Acertaste Vladimir Holan:

os mortos são invejosos. É esse o visco irrevogável,



o drama: a pretérita inveja dos mortos. O único invejoso

que conheci puro foi o meu amigo Augusto,

que deglutia sem gelo, do sangue até à alba.

Nas condutas, a água contrai-se ao contacto do betão.



O mesmo protocolo não se aplica à carne.

Está para saber se foi a sua reprimida gaguez

ou o decoro mas deu um morto exemplar e, fora

uma unha ou outra, manteve as cores. O nevoeiro



que por ora o decanta e as pegadas que imprimia

nas areias do México são uma, a mesma coisa?

Às vezes parecia querer fugir. Fugir, apenas. De Lisboa

para Sevilha, e dos bares de flamenco para Tampico,



fugia das mulheres. Aflige-me vê-las lânguidas

e de repente lívidas! - essa imagem transtornava o amor

que lhes tinha, e de mulher em mulher fugia da morte

que nele habitava como o crocitar nocturno da madeira.



O sangue coalhado nos lábios e o clac das tesouras

no silêncio comprovam, a morte nunca nos é familiar:

há que purificá-la noutras sombras e noutros medos,

como o dos vimes contra o vento, como o da plaina



contra os nós, o das urzes à beira do açude, ou no medo

do sexo quando rompe a disformidade do xisto.

Habituado a que me aparecesses sem avisar (o último

dessa estirpe), desprega-se agora um silêncio



novo, sem rugas, igual ao do lençol estendido

por mãos acostumadas. O nome é o caule onde deus

sustém a sua queda? Desconfia -  à mínima

distracção, rio que desças é a fonte que perdes.

 

sábado, 28 de abril de 2012

MEUS ANJOS, É DOMINGO

                                                                        mapplethorpe



Chegar a esta provecta idade e não conseguir estar duas horas seguidas sem um lápis, caderno, um livro, é absolutamente doentio.
Fui esta semana à África do Sul, uma incursão rápida, não mais que um dia, e levei a maleta do laptop com 2 cadernos e 5 livros, e em chegando ao primeiro shopping de Nelspruit salivei por livrarias. Há três, naquele shopping, todas com um magnífico espaço físico. Mas nenhuma delas tinha um livrinho de poesia recente, para além de clássicos – shakespeare, byron, blake – da Pinguim. E ensaios, para além da auto-ajuda e de livros sobre religiões, rien de rien. Saí zangado, apesar de ter cinco fatias de nutrientes a tiracolo.
E então esta semana apanhei-me a sós, nu, diante de uma árvore. Dez minutos, vinte. Nada nos bolsos, nada nas mãos. Eu e a árvore. Meia hora depois estava exausto, entediado - seria de não haver vento que lhe desse as entrelinhas? Fui buscar uma cerveja preta a uma barraquinha a 50 metros, e pus-me a olhar a árvore e a pensar como o Camilo detestava as paisagens e só gostava de pessoas, da urbe, da comédia dos enganos.
E à rasca sem uma lapiseira, uma agenda, um livro que me terraplanasse a besta. Duas vespas rondam-me a mão que segura a garrafa, e parecem-me sílabas truncadas.
Não me sinto muito orgulhoso.
Não admira que um dos meus medos mais idiotas seja morrer depois de, adormecido na cama a ler um livro, ter engolido um lápis. Daqueles com borracha na ponta, que depois apaga o meu nome.
Quer dizer, apaga a doença.


Tenho uma colega nova na escola de teatro, uma Professora de Voz, finlandesa, uma actriz muito simpática, viva, inteligente e bonita. Ontem tivémos uma conversa agradabilíssima, durante mais de duas horas. Mas chama-se Heidi. E sobreveio-me várias vezes a tentação de me pôs às gargalhadas enquanto ela divagava por territórios teóricos pouco condizentes com o seu nome. Coitada, não faz a menor ideia de que a simples menção do seu nome me faz cócegas na garganta. Talvez bochechando com cloro, passe.

Saio do café onde conversava com a Heidi, despedimo-nos, e sou imediatamente abordado por um sexagenário sentado num caixote que me mostra o trambolho da perna, chagada, gangrenada, sei lá, é um rombo de que desvio os olhos rapidamente. E diz, os senhores do hospital querem me cortar a perna, mas preciso de ir avisar a casa e não tenho dinheiro para o chapa, se o patrão me pudesse ajudar, nem consigo andar… Fico indeciso com o dinheiro a dar, tenho comigo umas moedas, que dão para o chapa, e duas notas que dão exactamente para duas cervejas que tencionava deglutir com uma pacatez meridiana.  Dou-lhe os trocos e subo ao bar. Abro o livro e peço a loirinha. Mas a visão da perna daquele homem, o seu drama inquinou-me a cerveja, e sinto-me mal, um egoísta insensível, um burguês de merda, culpado por não ter dado o dinheiro da cerveja ao pobre diabo. Acabo de a beber e desço à esquina onde ele se encontrava. Já lá não está. Interrogo o ardina. Se foi, diz. Se foi como, pergunto, se não andava. Esse, patrão, é de enganar, é job… É job. Subo ao bar e peço outra cerveja. Africa encortiça os corações.

Na mesma semana adio um segundo teste a turmas universitárias porque, apesar de lhes ter passado com um mês de antecedência o livro sobre o qual iriam incidir as questões, verifico na hora da verdade que ou os alunos não leram de todo o livro ou não perceberam patavina, mas patavina mesmo, do que leram. Na mesma semana, numa turma do terceiro ano e noutra do terceiro, um idêntico desnorte e preguiça – que digo, a famosa resistência passiva africana em esplendor. E confesso-me um mole incapaz de não me importar se eles têm dois ou três no teste. Ou talvez seja ainda, o cabrão do paternalismo que impede esta gente de crescer, não sei.
É com esta inapetência, impreparação, este medo a reflectir que se quer construir um país autónomo? É possível, desde que seja o primeiro país assumidamente anoréxico do mundo.