quarta-feira, 25 de abril de 2012

25 de abril, uma festa

PEQUENA FÁBULA CONTADA ÀS MINHA FILHAS
                                                para o João Lucas
Não sei que vos diga sobre o 25 de Abril.
A vossa avó acordou-me e anunciou há uma revolução
Acorda. E eu continuei a dormir.
Sonhei que um rato se passeava sobre o muro
Do quintal, um roedor com um monóculo e um dente de ouro.
Lembro-me porque a avó me despertou de novo
Antes que eu conseguisse esmagar-lhe a cabeça
Com o martelo do vosso bisavô funileiro.
Toninho, a Revolução… Eu resmunguei.
Sabia lá eu o que era uma revolução, e que nela
Os planetas voltam afinal à posição de partida.
Ainda não tinha dado o primeiro beijo,
Ainda não tinha chegado o meu dia iniciático e final,
E o meu sonho era abandonar a ginástica
Por incapacidade de manter a promessa
Do Cristo nas argolas.
O monóculo reconheci-o depois no Spínola
E no Pinochet, duas nuvens negras
De muitos vóltios. Tantos
Que só de pensar nisso me dá vómitos.
O dente de ouro tenho-o visto mudar de boca
Como os dentes da Graia. Infelizmente
Nunca o consegui agarrar. Julgo,
Minhas filhas, que é disso de que padecem
Hoje os nossos patrícios:
Anda um rato com um dente de ouro à solta,                                                        
E rói, rói, rói mais que o do garrote
Do poema do Assis Pacheco.
Como ele rói e tudo converte em escória!
E sinto-me culpado de não ter feito o suficiente
para lhe esmagar o toutiço no devido tempo.
Da outra vez que houver um 25 de Abril,
Se eu vos quiser acordar, não acordem por favor.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

BUROCRACIAS

SERÁ?

1
Uma urgência inesperada impõe-me uma ida ao banco. Como é inesperada não tenho comigo nem cheques nem o cartão. Terei de ir ao balcão pedir o meu número de conta e um cheque avulso.
Fila. Lá chego transpirado ao balcão. Pedem-me o passaporte. Explico que se trata da minha conta e que eles têm fotocópia do meu passaporte no processo. A mão é inclemente. A mão que leva o documento à máquina de fotocópias e tira a décima milionésima cópia do meu passaporte. Preencho entretanto o impresso para o pedido de cheque avulso, pelo qual irei pagar a módica quantia de 7 euros.
O caixa chama-me dez minutos depois. Preencho o cheque avulso, passo-lho. Ele devolve-mo outra vez, não assinou por trás. Enquanto eu assino ele levanta-se e vai com o meu passaporte à máquina de fotocópias nas suas costas para tirar outra cópia do passaporte. O que não obsta a que, diligente, escreva os dados do meu passaporte no verso do cheque.
Mira outra vez o cheque, antes de começar a meter os dados no computador. Franze uma sobrancelha e passo-mo, de novo. Está em falta, diz. Com o quê, pergunto, olhando parvo para o cheque. Tem que escrever nesta linha o seu nome ou “ao próprio”. É a linha do endereço. Tento perceber, oiça, mas sou eu a levantar um cheque avulso da minha própria conta. Esclarece-me ele definitivo, precisamente, como é um cheque avulso e não é passado a outrem tem que escrever obrigatoriamente ao próprio. 
Os bancos em Moçambique dão os maiores lucros do mundo, acho que é o segundo ou terceiro país onde mais lucram. Não me perguntem porquê.

2
Definitivamente, dar aulas neste período pós-simbólico, de soberania do relativismo, onde tudo tem de ser regido pelo modelo da eficácia e os entusiasmos se medem em termos de funcionalidade e dos valores da venalidade, é uma coisa triste.
Hoje estava a explicar aos alunos os três mecanismos do trabalho do sonho, segundo Freud: condensação, deslocação, identificação. Ilustrei a explanação com vários exemplos do quotidiano deles, de forma a agarrá-los. E eles pareciam ter aderido, riam, intervinham, faziam perguntas e fui deixando que eles assim experimentassem a informação que lhes estava a ser transmitida. E os sonhos é sempre uma matéria que naturalmente suscita interesse.
Chegamos à deslocação e eu, antes de irmos buscar equivalentes ao quotidiano deles, dou o exemplo clássico de Freud, do senhor que não conseguia nomear o seu problema e que sonhava com guindastes. Ao fim de umas sessões a ouvir falar dos omnipresentes guindastes do sonho do paciente, Freud decidiu decompor a palavra e deu-se conta de que esta se compunha de outras duas: do verbo guindar (erguer) e do substantivo haste. E então, por simples associação de ideias, percebeu que o paciente sofria de impotência crónica.
Foi uma festa, e eles acrescentaram três ou quatro exemplos que ali foram gizados e a participação da aula foi total.
O clima da aula estava quente, quase eufórico, à entrada do terceiro mecanismo, a identificação. E, de repente, num estalar de dedos, sinto-os frios, irrequietos, pouco receptivos. E pergunto, está na hora? E eles confirmam. Proponho, são cinco minutos, deixem-me acabar isto em cinco minutos, mas mostraram-se absolutamente arredios, indiferentes ao que há dois minutos atrás os estava a entusiasmar. E saímos da aula, com aquela pequena parte da matéria pendurada, coxa, exactamente às 12h – nem mais um segundo.
Se o problema tivesse a ver com o meu latinório eles não me classificariam normalmente como um dos melhores professores do curso. Não, o problema é geral – eles já não acreditam, eles já não se entusiasmam, ou só com a moderação que baste, eles estão lá para o canudo, ponto.
Sim, Max Weber, a burocracia venceu, o mundo está desencantado.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

A RESPOSTA PARADOXAL


A fotografia que a minha amiga Josefina Correia pôs no Facebook chocou-me tremendamente: o mobiliário, material, livros e computadores da Escola da Fontinha, vandalizados pela carga policial e expostos como entulho ao sol, à chuva e às moscas. Esta violência simbólica é tão brutal como a física e as duas sobrepostas esclarecem em que momento estamos: é segunda vez que, em mês e meio, dois, uma carga policial faz danos e feridos e que as “autoridades” se retiram satisfeitas com o dever cumprido.
Com que inconsciência larvar se destroem bens como livros e computadores e as instâncias de poder não vêm emendar a mão? Isto exige a violência duma resposta paradoxal.
Peço a cada portuense que vá depositar um livro ou na câmara municipal, um livro dedicado aos filhos do dr. Rui Rio, ou aos das chefias da polícia.
Dedicado aos filhos porque, sendo os pais macacos velhos que já não aprendem, nos filhos podemos ainda depositar a esperança de que aprendam as regras da urbanidade e o respeito pelas condições de possibilidade que proporcionamos aos outros.
Não creio que uma boa pirâmide de livros os faça corar de vergonha - aos pais, pois só é capaz de iniquidade quem destruiu em si os últimos resíduos de qualquer reserva mental – mas aos filhos sim.
Talvez os filhos despertem para o nojo e façam sentir aos pais como são abjectos.
É tudo o que peço…

quinta-feira, 19 de abril de 2012

E A MINHA MAPUTO É

foto de ricardo rangel

E a minha Maputo é… chama-se o livro colectivo de que participo e que será lançado no próximo sábado, na Minerva – que aliás o edita.
A minha Maputo é uma ilha flutuante, rigorosamente inapreensível, porque nada é certo ou está cristalizado, tudo dança, como o uso dos verbos que já mudaram todos os modos e significados – onde era levo passa a trago e quem ia vem. Nas aulas, sou rigorosamente contra, fora das aulas sou a favor das danças de salão e todas as fugas à lei me divertem.

Quando a gente chama Livraria a uma loja e só vende motorizadas e artigos de serralharia; ou combina almoço na segunda e aparece na quarta ao jantar, ou chega alegremente a uma universidade com a bagagem da quarta classe e nos conduzimos convictamente como cábulas, não há que esperar nenhum tipo de realidade fixa: tudo é dunar, é apenas uma questão de oportunidade e sintonia com o trânsito do momento.
Por isso, acrescentando o que ficou por dizer no meu texto, a minha Maputo é:

     o “vigarista do aeroporto”. O homem que ao longo dos anos me abordou 30 vezes na rua para me perguntar se eu não me lembrava dele, da alfândega do aeroporto, e me cravar cem ou duzentos meticais como garantia de que “passará tudo na terça-feira”; dia em que me insiste em despachar para fora do país, impreterivelmente. Ao fim de 30 abordagens recomendei-lhe uns comprimidos para a amnésia e obriguei-o a pagar-me uma cerveja por tanto incómodo causado. E então levei-o a dizer-me o nome verdadeiro: Evaristo. Evaristo, o vigarista, é um anagrama e uma aliteração de si mesmo, como Maputo em muitas outras dimensões;    

       o puto que no Xipamanine fez correr o zip (o fecho éclair) para mostrar à francesa a sua ponte de brooklin;

     o Museu de História Natural, onde já foi empalhado o leão do Jardim Zoológico, que de tão magro dava flor;

      os bares do Museu onde o Emílio Manhique faz gargarejos com gemadas e o Eduardo White faz de cada xirico uma corda na ensanguentada lira do Bocage;

       os gala-gala, que quando se viram do avesso são os guarda-chuvas de deus;

       a biblioteca do Franco-Moçambicano, a única biblioteca de jeito numa cidade onde toda a gente finge que lê em inglês;

       o Piripiri, com a sua montra em acordeão, e que só toca quando o vento vira as saias das boers;

       a agressividade com que os jornais parem rato sobre rato, sem lograrem arranhar a montanha;

        a promessa de um dia vir a conhecer pessoalmente a Andorinha;

        o Zambézia, onde gosto de assistir a partidas de futebol, porque nessas horas se alastra uma hilariedade que não se compadece;

      a Garaginha, onde o Zé Cabral, o Tuxa e o Zé Tomás fazem blocagem aos espíritos daninhos, com um humor rigorosamente homeopático;

       o Jardim dos Professores, onde invariavelmente me imagino proprietário do Hotel Cardoso;

       o bar dos CFM, uma gema que não frequento porque servem um inflacionado uísque marado;

       um honesto caranguejo envenenado pela minha gula, num fim de tarde no Mercado do Peixe;

       o zunzum dos taradinhos da vela, no terraço do Marítimo, enquanto as crianças brincam aos bombeiros na piscina;

        as vociferações do José Flávio contra a alarvidade, a ignorância, de um quadro do Partidão, que se identifica no Facebook com um retrato do Hitler e chama a tamanho disparate «o nosso sentimento»;

        os cafés com o João Paulo e o Khosa, placidamente adiados;

        tempo, tempo para ler, tempo para escrever, e voltar atrás e amassar numa nova versão, até ao dislate;

        o amor que tenho à minha mulher e que nesta cidade sangra;

       esta história que me contou o José Forjaz: um dia, à beira da independência, o António Quadros/Grabato Dias e Ricardo Rangel, normalmente dois folgazões, apresentaram-se na esplanada do costume com cara de poucos amigos. E assim continuaram, lacónicos, numa tristeza que contagiava quem se sentava. Até que alguém estranhou tanto rigor mortis neles e lhes invectivou o trombil. Resposta solene do Quadros: «estamos a ver passar as últimas mulatas!».

       Não se cumpriu a profecia e a própria cultura da cidade continua mestiça, ainda que o poder não goste. Também é isso a moçambicanidade… e a minha Maputo.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

5x5 CEREJAS SALTEADAS

o cesto das cerejas, soutine

Cinco poetas maiúsculos. As traduções, como sempre minúsculas, são minhas

 

CULMINAÇÃO DA DOR


ouço inclusive como riem
as montanhas,
no abaixo e acima
das ladeiras azuis.
e em baixo na água
choram os peixes
e toda a água
é as suas lágrimas.

oiço-a, corre
como as garrafas na polpa
da noite
enquanto a tristeza se enovela
e lateja
no meu relógio
e dispõe
os ramalhetes
na cómoda
ou torna-se papel

sobre o chão
calçadeira ticket
da lavandaria
ou fumo de cigarro
escalando
um templo de obscuras

trepadeiras...
que importa
pouco amor
ou coisa pouca
a vida a coisa
passa,
o que conta
é observar as paredes
eu nasci para isso -

nasci para roubar
rosas
das avenidas da morte.
Charles Bukovski




NOTAS DE UM HOMEM ESPANTADO

Nascido debaixo de grandes nuvens
e tu também,
debaixo das nuvens,
eis-nos

*

ela muitas vezes está aqui,
tal como vos vejo
O instante depois dela é mais além
ouço-a cantar numa rua vizinha
É a vastidão, Senhor, a vastidão

*
Ao meio-dia no momento em que não morre
mais de uma folha
à sua sombra sobrepõe-se
Eu de todo disperso nesta larga paisagem
nascida da luz dos meus olhos.

*

Esta manhã o pleno de plantas
bichos e homens
saiu de uma só casa
repartida pelos caminhos,
nada respira acima deles
além da luz

*

Aquele que atravessou o mar
e aquele que se contenta com pouco
e todos os outros,
movemo-nos como os dedos duma mão.

*

Os móveis estalam
O patamar berra
Quem é que se evade daquela coisa?

*

A sombra cresce como os mortos
Entre o dia
e a noite
hesito

*

Tremer como varas verdes? As portas
uma após outra
estão fechadas:
ele vai chegar.

*

Mas não nem o sofrimento é certo
Não passará de um instante
De resto estaremos perto

*

Se bem que eu não acompanhe o ritmo
o melhor é saber antes de expulsar-me.
Mais que uma palavra
uma só palavra
e raspo-me.

Jean Tardieu





CALEIDOSCÓPIO

Sacode com toda a força,
como um caleidoscópio,
o teu próprio crânio.
E a seguir espreita
nos buracos dos teus olhos,
vê o que se engendrou.
Se nada aconteceu, aleluia…
sacode-a firmemente
três vezes, sete, nove vezes.
Nada? É um sinal de alguma coisa
e sacode, meu velho, sacode
e volta a espreitar no cerne.
Sacode de maneira a que a casa seja abalada
que o caminho se recurve
e as montanhas tombem de joelhos;
que pestanejem céleres, convulsas, as estrelas
e que o homem sopese na sua mão o coração.
Mas se esbarrares com a fealdade
agarra o teu crâneo como um pote rachado
e atira-o!
Ou nem isso.
Enche-o de terra,
de bom adubo,
e planta lá dentro
um gerânio vermelho.

Mihai Beniuc


 

Os olhos do meu espírito não têm
a boca do meu espírito,
As mãos do meu espírito não têm
o corpo do meu espírito.

Esquartejado flutuo no abismo.
Azamboado de morte como uma água inquinada.

Já não quer dizer que não foi nada?
Todo um jogo de luzes e espelhos,
Todo um retábulo de fumo tenebroso?

As veias do meu espírito não têm
o sangue do meu espírito.

Juan-Eduardo Cirlot




O ÚLTIMO ENCONTRO

O último encontro foi tristonho.
Eu esperava uma resolução impossível:
que me seguisses a uma cidade ignota
unicamente ligada ao afundamento
de um submarino alemão
e tu esperavas que eu não to propusesse.
Com a vertigem dos suicidas
disse-te: «Vem comigo», adivinhando-o improvável,
e tu – sabendo-o impossível – respondeste:
«É lugar a que nada me prende » e deste a conversa
por arrumada. Pus-me de pé
como quem fecha um livro
ainda que soubesse – as cicatrizes reconhecem-se –
que agora começava outro capítulo.
Ia sonhar contigo – numa cidade ignota –
onde apenas um velho submarino alemão
se deu por perdido.
Ia escrever-te cartas que não te enviaria.
E tu, ias esperar o meu regresso
- Penélope infiel – com ambiguidade,
sabendo que os meus curtos regressos
não seriam definitivos. Não sou Ulisses. Não
conheci Ítaca. Tudo o que perdi
perdi-o muito ciente
e o que não ganhei
foi por desleixo. O último encontro
foi, sim, um pouco triste.

Cristina Peri Rossi





segunda-feira, 16 de abril de 2012

BAZAR DOS OFÍCIOS

idasse, a bicicleta


Deus, a quatro patas, muge.
  Esse, que se alimenta de sopa de pedra
e tamborila os dedos no diafragma
dos pobres, acertando sempre
na chave da lotaria
- é só apanhar o ritmo da chuva. 
Deus, uma obscuridade tão próxima
como o céu de ontem à tarde, após
a aparição dela ter
segado todo o trigo
e todo o pão do futuro e até ao tigre
da renúncia quase ofuscado.

Numa pizarria de Maputo
onde sob as mesas manobra
o tráfico de perfumes,
extraviados duma loja contígua,
e os clientes por cada três pizzas
Quatro Estações levam por bacela
um Chanel, acercou-se Deus
de headphones magenta
 e perguntou-me (ele há sorrisos
mais vorazes que a cauda
do pavão albino):
professor Cabrita?

A voz gaguejou-me, tivesse eu
alma e seria um fiapo de amêndoa
entre os seus dentes,
mas ciente de que ela abordava
um cota dei de barato,
conheço-a? Disse-me, Vi-o
na tv a falar sobre poesia
e gostei tanto que me interroguei
se o senhor não quereria
trabalhar na farmácia de meu pai?

E em que podiam os sonetos servir
o bicarbonato, inquiri lisonjeado.
Morreu-nos o contabilista - retorquiu.
Não fosse o seu pai hindu… – lastimei.
Que tem? Retorquiu. Gosto
de um Deus que muja, mas
não posso aceitar a oferta, continuei,
porque a menina tem uma beleza taliban
e eu casei o mês passado com uma cristã
que já me dá ambrósia
pela barba, arredondei.

E enquanto se retirava, (- ó estulto
repúdio, de boa vontade em contabilista
me tornaria, pois verdade seja dita
não se vive só de caganita),
pelos seus olhos de gazela
que me cronometraram a saudade,
nas suas costas de uma elegância
coralígena e final, no
enl                              s
ang                           o
escido                    e
rastro de dois glút
que descosiam a bainha ao sol,
prosternei-me como Krishna
ao mais leve aroma de Radha,
           e zzzzuumbi
- pelo menos em espírito!

 


 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A PÁSCOA: O CONCEITO GREGO DE PONTO

eu, em adonis da páscoa

Oh lá lá, o conceito grego do ponto.
Um pingo delambido na uretra de Zeus,
O delicioso cateter de Hera.

Dracmas em barda: o fantasma na cama.


O conceito grego do ponto

Deixa-me em água pesada

Este meu bestunto piramidal.

É quase Páscoa e eu nisto - tonto


A pilotar um botão de madrepérola
Que tudo engole e nada regurgita
Maledetto poço sem fundo

Por onde se escorrega de Tebas


a Canberra. Se continuo nisto

acabo como mulher-a-dias do Coelho,

a comer as mitras do marau, misto

de esterco e dos anfíbios nós de Portas.


Quem me bate assim a esperteza em castelo?
É quase Páscoa e eis-me a calcular
Quantos zeros cabem à esquerda grega do ponto,

Esse imbróglio na minha conta – a defunta.












domingo, 1 de abril de 2012

DÁ-ME UMA TOSTA DE HEGEL, POR FAVOR?

olhando rothko, mais quente que hegel

Um tipo aos 53 anos começa a querer matar algumas lacunas no seu piqueno sistema, a tentar encaixar algumas peças numa abóbada que se apresenta desdentada. Ler Hegel, por exemplo. Devorei todos os anti-hegelianos mas nunca me bati a sério com o objecto da sanha, para além dumas páginas da Estética, por obrigações de trabalho. E então fui juntando dúzia e meia de livros dele e sobre ele para me decidir um dia, até um Dicionário Hegel arranjei.
Há muito que tenho este encontro adiado. Na verdade, é assustador enfrentar um pensador para quem a História da Filosofia é a manifestação progressiva de uma verdade que extingue todas as perguntas.
Esta pretensão só me lembra um “apanhado” que vi uma vez e me pôs a pensar. Os actores que conduziam a rábula passeavam-se pelo Centro Comercial das Amoreiras e aproveitavam as escadas rolantes para se meterem com as mulheres, exclamando “ai que olhos tão bonitos, nunca vi uns olhos azuis assim!”, apesar da vítima ter olhos castanhos. Insistiam e teimavam na cor azul dos olhos, contra a negação das pessoas. Então os actores chamavam outros passantes, evidentemente figurantes contratados, que confirmavam o azul dos olhos das vítimas. O espantoso é que em 80% dos casos, ao fim da terceira mentira, as pessoas abandonavam a certeza e desatavam a ter dúvidas. A permeabilidade das pessoas à persuasão da unanimidade, não obstante todas as evidências, era quase uma coisa obscena. 
Peguei então no primeiro, coisinha ligeira para me entronizar: 10 lições sobre Hegel, de Deyve Redyson, seguir-se-ão dois ou três comentários no agá (Hartmann, Heidegger, Hyppolite), coisas mais pesadas, e depois bater-me-ei aos seus escritos de juventude e ao volume da Estética em torno da poesia. É o meu programa para o mês de Abril.  
Mas, continuando, a leitura avançava porreirinha até que deparei com isto: «A Fenomenologia do Espírito foi terminada, segundo Hegel, na noite que precedeu a batalha de Jena, ‘um desses acontecimentos, escreveu, que só se produzem a cada cem ou mil anos’
Recuo, para ver melhor. Esfrego os olhos: retomo… terminada, segundo Hegel, na noite que precedeu a batalha de Jena, ‘um desses acontecimentos que só se produzem a cada cem ou mil anos’.
Que Hegel considerasse a Fenomenologia… um acontecimento da importância da batalha de Jena, não me causa qualquer prurido, não há nenhum grande filósofo que não tenha em si uma parcela de solisipsismo e não se considere póstumo e a coisinha mais importante que aconteceu ao mundo, depois do seu próprio (do filósofo) nascimento. Até aqui, tudo dentro da ordem das coisas. O que me pasma é a “hesitação” entre cem e mil anos, como se fosse um lapso menor. Portanto, o método científico de Hegel prevê uma deriva entre cem e mil anos nos seus cálculos probabilísticos para a eclosão de um acontecimento nuclear e não só o formula como, pela forma como o faz, considera essa diferença menor, irrelevante, invisível.
Porque é que não me espanta que a seguir, num mero jogo de simetrias, leia: «…o absoluto é espírito, isto é, o espírito absoluto. Dessa forma, Hegel enxerga no Absoluto a unidade e a diversidades simultâneas, pois, para ele, o absoluto é o que é a si mesmo
Não sei a que diversidade, ou antes, a que singularidades pode estar sensível alguém para quem se confundem e plasmam o cem e o mil, e temo que o cento e cinquenta e três ou o seiscentos e nove (um número que sempre me apaixonou) deixem de ser relevantes, na finalidade maior (o mil) em que se fundem. Porque, nesta lógica, os fins justificam todos os meios na condição da inscrição dos mesmos se apagar entretanto… E só me vem à cabeça a afirmação do Dada Georges Ribemont-Dessaignes que adoptei como lema para a vida: «Evidentemente. Também eu posso dizer: nove milhões setecentos e quatro mil e trezentos e vinte cinco. Mas… conheces o quatro?... conheces o seis?»
Por outro lado, Hegel ao sustentar que o absoluto é o que é a si mesmo parece-me embarcar numa desvantagem de base, na medida em que aquele que coincide totalmente consigo mesmo deixa de se ver, isto é, de capturar a consciência; e talvez aí se imponha recomeçar tudo de novo como o deus absconditus que busca a própria sombra, numa labuta que não se afasta da de Sísifo. E como evitar, como o sabia Husserl, que a visão seja "cegada" pelo visto?  Por outro lado, esta coincidência a si não me parece conforme à forma como Redyson define o Espírito Absoluto em Hegel: «…o espírito absoluto é infinito, uma vez que o espírito constitui um objecto para o seu próprio espírito e que necessariamente se reflecte em algo distinto dele mesmo.» Tenho a impressão que é melhor passar imediatamente para o Châtelet, para ver se ele me explica melhor este imbróglio.
Não começa bem, o meu mês. 

quinta-feira, 29 de março de 2012

MAPUTO’S BLUE

mucavele

- Isto costuma ser apito… só que este não toca… - Explica o vendedor à cliente, que sopra, sopra, em vão, no instrumento.
O vendedor pega então no apito e sopra-o por sua vez, confirmando que ele não produz qualquer som. E num impulso pega em vários outros do seu estendal e sopra-os. Nenhum apita. Repete, então, sem se desconcertar, aduzindo aí mais um bom motivo para a compra:
- Isto costuma ser apito…
Nenhum toca.
Mas ele “vende” apitos.
Vejo esta cena hilariante numa sequência de um documentário sobre uma banda moçambicana que, naquele momento, descrevia a ida da cantora/bailarina da banda ao mercado de artesanato, em Maputo.
A cena seguinte, passa-se noutro lado do mesmo mercado. Um vendedor da batata africana (que segundo a crença popular cura tudo) explica o procedimento:
- Esta batata cura tudo, por exemplo, gonorreia… descasca, põe em água a ferver e toma… se ainda não tiver desenvolvido cura…
Portanto, a acção é preventiva, se a crise não se tiver manifestado e não se manifestar a seguir é porque o doente está curado. Como será uma gonorreia que não se manifesta?
A cantora fez uma expressão de incredulidade, e ele reforça:
- Você, sabe como é que é. Você também faz parte…
Ah bom… crer e jurar em cima do que se crê que se crê na jura é o primeiro passo para o milagre.
Estou-me a rir com a situação e entretanto a empregada do café, do outro lado do balcão, pergunta-me o que quero.
- Peço um café… - peço.
- Não tenho.
- Mas tem uma máquina nas suas costas…
- Está avariada há mais de um mês… patrão não leva.
- Isso, é um estrago… há um mês que o seu patrão perde muito dinheiro…
Ela encolhe os ombros e aconselha:
- Olhe, quer um bom cafezinho, vá ao café novo, ali na esquina, tem só coisas boas, e os bolos não é como aqui…
E vai comigo à porta apontar o caminho para a concorrência.
Apanho um chapa até próximo de casa. São 11h45 e como só tenho elevador às 12h resolvo beber uma cervejinha na Águia Real, um espaço muito amplo mas absolutamente degradado. Bebo o que é comum, uma «média» como aqui se chama: meia litrada. 
Leio e escrevo durante meia-hora, o computador entalado entre a perna e a parede da montra. Pago e saio. Estou a entrar no prédio, duzentos metros abaixo, e dou por uma leveza inusitada no ombro. Corro aflito para a cervejaria, pensando nas centenas de páginas inéditas em diversos documentos, nas aulas dos próximos meses, nas milhentas imagens que uso nas aulas, nos milhares de livros digitalizados que irão à viola. E chego ofegante à cervejaria. Um tipo de ar simpático repimpa-se com um bitoque na mesa que foi minha. E entre a perna laroca dela e a parede, hélas, o computador.
Saio em júbilo e comentam os vendedores do costume – gravatas, sapatos e calças – que vendem em frente à Águia Real:
- Xiii, patrão, tinham guardado?
- Não, estava não-visto
- Ya, patrão… - riem eles -… agora, tem que pagar refresco… - diz o mais afoito.
- Refresco? – pergunto, intrigado.
- Para poder contar… - responde, o esperto. 
 Reclame.
Faço o manguito e desço para casa, assarapantado com a sorte e a vida e atravesso a rua fora da passadeira, coisa vulgaríssima em Maputo, mas sarnar a cabeça de um white é sempre uma tentação e ouço o apito do polícia nas costas.
Ergo a mão em deferência e desculpas. Responde-me ele, ameaçador:
- Multo-te a cabeça.
Apanho o elevador, com o computador ao ombro, entre a mona e o espelho, um sorriso estampado na triste figura, etc., etc.

terça-feira, 27 de março de 2012

NOTAS DE UM DIÁRIO NAIF: A VACA E O VITELO


Não se trata de ver mas de dar a ver. No poema. São coisas nos antípodas. Mostrar o que o quotidiano nos dissimula, o que nos é escondido pela inanidade da nossa vida, como no espantoso verso de Robert Juarroz: «como uma árvore que tombasse do fruto». Quem o lê, diz imediatamente, que coisa estapafúrdia, mas se repararmos que a bactéria que a adoece entra na árvore pelo fruto, que a mais nobre árvore genealógica tomba quando fica nas mãos de um filho toxico-depente que tudo estorrou, percebemos como a metáfora tem um quilate científico, e que nós é que a rejeitámos porque pensamos quadrado.

Ele está quite. Que bela expressão. Já não me lembrava dela: estar quite, ficar quite. Dar uma boa canelada por baixo da mesa, e ficar quite. Apontar a fisga ao olho azarado do árbitro e ficar quite. Ir para a cama com a mulher, depois de verificar que a conta no banco continua a negativos e ficar quite. Comer marmeladas e os dentes reagirem em guinadas: ficam quites. O Quintino é um amigo querido que não vejo há algum tempo – estará quite?


 
O cabelo berrantemente loiro sobre uma tez de bronze, assenta-lhe como um legume. Mas lá fez negócio, o carro parou, a janela baixou, negociaram, e ocupou o lugar do morto.
O curioso é que aquilo que o atraiu, a espampanante cabeleira, vai ser tirada, assim que cheguem ao quarto: será uma foda com a cabeleira mole (como os relógios moles de Dali) a escorrer para fora da mesa-de-cabeceira.
Embora  por um instante tenha lucilado na pradaria, como a labareda no genérico do Bonanza.


Leio Rilke: «Uma obra de arte é boa desde que nasça duma necessidade. É a natureza da sua origem que a julga». E o primeiro impulso é dizer ámen, a gente concorda com tudo o que um génio diga, n´est-ce pas? Reespreito a frase com um olho, depois junto a outra pupila, já num gesto de impertinência, e não só hesito diante do juízo como agora me parece de um maniqueísmo gratuito, eivado de um snobismo absolutamente terrorista. Há centenas de obras fantásticas que resultaram de uma encomenda mas cujo ADN mudou a meio do processo, porque o autor acabou por se entusiasmar e insuflar de um suplemento de alma a matéria da criação. Já nem falo do cinema, mas metade da obra do Camilo saiu de encomenda, em folhetins, como tanta coisa em Dostoievski, ou no argentino Roberto Arlt. Darei sempre Graças a Deus (que, como eu, é ateu) por Dias Gomes ter tido a encomenda da telenovela O Bem Amado. E creio que Neruda ou Aragon ou Maiskovski trabalhavam sob encomenda do seu daimon pessoal, ou do seu alter ego, como quiserem - e nem sempre saiu mal, a coisa; às vezes acertam mesmo no alvo.
A segunda parte da frase: «É a natureza da sua origem que a julga» ainda me choca mais, pela venalidade que atribui a todas as obras que não tenham saído da necessidade. Nenhuma necessidade impeliu Queneau a escrever Exercícios de Estilo, unicamente o gozo, uma gratuidade destituída de qualquer determinismo – nem sequer o da necessidade. A grande arte de Chaplin não era alimentada muitas vezes pela necessidade mas pelo constrangimento, como aliás acontecia com muitos autores de Oulipo: Calvino, Pérec, Roubaud. Magnífica literatura com uma origem suspeita, por projecto, e não por necessidade.
Ora, bardamerda para o Rilke. Amanhã reconciliamo-nos. Hoje estamos assim de costas voltadas, como duas vacas sentadas sobre os quadris. Quero dizer, uma vaca e um vitelo.  


segunda-feira, 26 de março de 2012

OLHA O PASSARINHO: OS ANOS DO PATRACAS

OLHA O PASSARINHO!

Meu caro Patraquim,
em homenagem, por seres a criatura que conheço com o nome mais próximo da «linguagem dos pássaros» tinha apalavrado três elefantes amestrados para hoje, para o teu aniversário. Dois que me lambuzariam de espuma de barbear a cara, enquanto o terceiro me acariciaria com a navalha; acto que eu queria filmar para te enviar. Mas sabes como é por aqui, o empresário pirou-se com os rands, dois dos elefantes aproveitaram e cavaram para o Brasil porque são transexuais; o terceiro já me enfiou o pincel cheio de creme glote dentro. O que interessa é que fiquei sem prenda para ti.
Olha, vai um abraço, ao som de bandolins, timbilas e dois apitos de polícia de trânsito, que gamei ao meu vizinho de baixo.
Espera, tenho de ir lá dentro ocorrer a um alarme, parece que uma das miúdas meteu um amendoim no nariz. Espero que não seja o amendoim do Gualter... Beijos à Paula, etc., etc.