segunda-feira, 16 de abril de 2012

BAZAR DOS OFÍCIOS

idasse, a bicicleta


Deus, a quatro patas, muge.
  Esse, que se alimenta de sopa de pedra
e tamborila os dedos no diafragma
dos pobres, acertando sempre
na chave da lotaria
- é só apanhar o ritmo da chuva. 
Deus, uma obscuridade tão próxima
como o céu de ontem à tarde, após
a aparição dela ter
segado todo o trigo
e todo o pão do futuro e até ao tigre
da renúncia quase ofuscado.

Numa pizarria de Maputo
onde sob as mesas manobra
o tráfico de perfumes,
extraviados duma loja contígua,
e os clientes por cada três pizzas
Quatro Estações levam por bacela
um Chanel, acercou-se Deus
de headphones magenta
 e perguntou-me (ele há sorrisos
mais vorazes que a cauda
do pavão albino):
professor Cabrita?

A voz gaguejou-me, tivesse eu
alma e seria um fiapo de amêndoa
entre os seus dentes,
mas ciente de que ela abordava
um cota dei de barato,
conheço-a? Disse-me, Vi-o
na tv a falar sobre poesia
e gostei tanto que me interroguei
se o senhor não quereria
trabalhar na farmácia de meu pai?

E em que podiam os sonetos servir
o bicarbonato, inquiri lisonjeado.
Morreu-nos o contabilista - retorquiu.
Não fosse o seu pai hindu… – lastimei.
Que tem? Retorquiu. Gosto
de um Deus que muja, mas
não posso aceitar a oferta, continuei,
porque a menina tem uma beleza taliban
e eu casei o mês passado com uma cristã
que já me dá ambrósia
pela barba, arredondei.

E enquanto se retirava, (- ó estulto
repúdio, de boa vontade em contabilista
me tornaria, pois verdade seja dita
não se vive só de caganita),
pelos seus olhos de gazela
que me cronometraram a saudade,
nas suas costas de uma elegância
coralígena e final, no
enl                              s
ang                           o
escido                    e
rastro de dois glút
que descosiam a bainha ao sol,
prosternei-me como Krishna
ao mais leve aroma de Radha,
           e zzzzuumbi
- pelo menos em espírito!

 


 

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A PÁSCOA: O CONCEITO GREGO DE PONTO

eu, em adonis da páscoa

Oh lá lá, o conceito grego do ponto.
Um pingo delambido na uretra de Zeus,
O delicioso cateter de Hera.

Dracmas em barda: o fantasma na cama.


O conceito grego do ponto

Deixa-me em água pesada

Este meu bestunto piramidal.

É quase Páscoa e eu nisto - tonto


A pilotar um botão de madrepérola
Que tudo engole e nada regurgita
Maledetto poço sem fundo

Por onde se escorrega de Tebas


a Canberra. Se continuo nisto

acabo como mulher-a-dias do Coelho,

a comer as mitras do marau, misto

de esterco e dos anfíbios nós de Portas.


Quem me bate assim a esperteza em castelo?
É quase Páscoa e eis-me a calcular
Quantos zeros cabem à esquerda grega do ponto,

Esse imbróglio na minha conta – a defunta.












domingo, 1 de abril de 2012

DÁ-ME UMA TOSTA DE HEGEL, POR FAVOR?

olhando rothko, mais quente que hegel

Um tipo aos 53 anos começa a querer matar algumas lacunas no seu piqueno sistema, a tentar encaixar algumas peças numa abóbada que se apresenta desdentada. Ler Hegel, por exemplo. Devorei todos os anti-hegelianos mas nunca me bati a sério com o objecto da sanha, para além dumas páginas da Estética, por obrigações de trabalho. E então fui juntando dúzia e meia de livros dele e sobre ele para me decidir um dia, até um Dicionário Hegel arranjei.
Há muito que tenho este encontro adiado. Na verdade, é assustador enfrentar um pensador para quem a História da Filosofia é a manifestação progressiva de uma verdade que extingue todas as perguntas.
Esta pretensão só me lembra um “apanhado” que vi uma vez e me pôs a pensar. Os actores que conduziam a rábula passeavam-se pelo Centro Comercial das Amoreiras e aproveitavam as escadas rolantes para se meterem com as mulheres, exclamando “ai que olhos tão bonitos, nunca vi uns olhos azuis assim!”, apesar da vítima ter olhos castanhos. Insistiam e teimavam na cor azul dos olhos, contra a negação das pessoas. Então os actores chamavam outros passantes, evidentemente figurantes contratados, que confirmavam o azul dos olhos das vítimas. O espantoso é que em 80% dos casos, ao fim da terceira mentira, as pessoas abandonavam a certeza e desatavam a ter dúvidas. A permeabilidade das pessoas à persuasão da unanimidade, não obstante todas as evidências, era quase uma coisa obscena. 
Peguei então no primeiro, coisinha ligeira para me entronizar: 10 lições sobre Hegel, de Deyve Redyson, seguir-se-ão dois ou três comentários no agá (Hartmann, Heidegger, Hyppolite), coisas mais pesadas, e depois bater-me-ei aos seus escritos de juventude e ao volume da Estética em torno da poesia. É o meu programa para o mês de Abril.  
Mas, continuando, a leitura avançava porreirinha até que deparei com isto: «A Fenomenologia do Espírito foi terminada, segundo Hegel, na noite que precedeu a batalha de Jena, ‘um desses acontecimentos, escreveu, que só se produzem a cada cem ou mil anos’
Recuo, para ver melhor. Esfrego os olhos: retomo… terminada, segundo Hegel, na noite que precedeu a batalha de Jena, ‘um desses acontecimentos que só se produzem a cada cem ou mil anos’.
Que Hegel considerasse a Fenomenologia… um acontecimento da importância da batalha de Jena, não me causa qualquer prurido, não há nenhum grande filósofo que não tenha em si uma parcela de solisipsismo e não se considere póstumo e a coisinha mais importante que aconteceu ao mundo, depois do seu próprio (do filósofo) nascimento. Até aqui, tudo dentro da ordem das coisas. O que me pasma é a “hesitação” entre cem e mil anos, como se fosse um lapso menor. Portanto, o método científico de Hegel prevê uma deriva entre cem e mil anos nos seus cálculos probabilísticos para a eclosão de um acontecimento nuclear e não só o formula como, pela forma como o faz, considera essa diferença menor, irrelevante, invisível.
Porque é que não me espanta que a seguir, num mero jogo de simetrias, leia: «…o absoluto é espírito, isto é, o espírito absoluto. Dessa forma, Hegel enxerga no Absoluto a unidade e a diversidades simultâneas, pois, para ele, o absoluto é o que é a si mesmo
Não sei a que diversidade, ou antes, a que singularidades pode estar sensível alguém para quem se confundem e plasmam o cem e o mil, e temo que o cento e cinquenta e três ou o seiscentos e nove (um número que sempre me apaixonou) deixem de ser relevantes, na finalidade maior (o mil) em que se fundem. Porque, nesta lógica, os fins justificam todos os meios na condição da inscrição dos mesmos se apagar entretanto… E só me vem à cabeça a afirmação do Dada Georges Ribemont-Dessaignes que adoptei como lema para a vida: «Evidentemente. Também eu posso dizer: nove milhões setecentos e quatro mil e trezentos e vinte cinco. Mas… conheces o quatro?... conheces o seis?»
Por outro lado, Hegel ao sustentar que o absoluto é o que é a si mesmo parece-me embarcar numa desvantagem de base, na medida em que aquele que coincide totalmente consigo mesmo deixa de se ver, isto é, de capturar a consciência; e talvez aí se imponha recomeçar tudo de novo como o deus absconditus que busca a própria sombra, numa labuta que não se afasta da de Sísifo. E como evitar, como o sabia Husserl, que a visão seja "cegada" pelo visto?  Por outro lado, esta coincidência a si não me parece conforme à forma como Redyson define o Espírito Absoluto em Hegel: «…o espírito absoluto é infinito, uma vez que o espírito constitui um objecto para o seu próprio espírito e que necessariamente se reflecte em algo distinto dele mesmo.» Tenho a impressão que é melhor passar imediatamente para o Châtelet, para ver se ele me explica melhor este imbróglio.
Não começa bem, o meu mês. 

quinta-feira, 29 de março de 2012

MAPUTO’S BLUE

mucavele

- Isto costuma ser apito… só que este não toca… - Explica o vendedor à cliente, que sopra, sopra, em vão, no instrumento.
O vendedor pega então no apito e sopra-o por sua vez, confirmando que ele não produz qualquer som. E num impulso pega em vários outros do seu estendal e sopra-os. Nenhum apita. Repete, então, sem se desconcertar, aduzindo aí mais um bom motivo para a compra:
- Isto costuma ser apito…
Nenhum toca.
Mas ele “vende” apitos.
Vejo esta cena hilariante numa sequência de um documentário sobre uma banda moçambicana que, naquele momento, descrevia a ida da cantora/bailarina da banda ao mercado de artesanato, em Maputo.
A cena seguinte, passa-se noutro lado do mesmo mercado. Um vendedor da batata africana (que segundo a crença popular cura tudo) explica o procedimento:
- Esta batata cura tudo, por exemplo, gonorreia… descasca, põe em água a ferver e toma… se ainda não tiver desenvolvido cura…
Portanto, a acção é preventiva, se a crise não se tiver manifestado e não se manifestar a seguir é porque o doente está curado. Como será uma gonorreia que não se manifesta?
A cantora fez uma expressão de incredulidade, e ele reforça:
- Você, sabe como é que é. Você também faz parte…
Ah bom… crer e jurar em cima do que se crê que se crê na jura é o primeiro passo para o milagre.
Estou-me a rir com a situação e entretanto a empregada do café, do outro lado do balcão, pergunta-me o que quero.
- Peço um café… - peço.
- Não tenho.
- Mas tem uma máquina nas suas costas…
- Está avariada há mais de um mês… patrão não leva.
- Isso, é um estrago… há um mês que o seu patrão perde muito dinheiro…
Ela encolhe os ombros e aconselha:
- Olhe, quer um bom cafezinho, vá ao café novo, ali na esquina, tem só coisas boas, e os bolos não é como aqui…
E vai comigo à porta apontar o caminho para a concorrência.
Apanho um chapa até próximo de casa. São 11h45 e como só tenho elevador às 12h resolvo beber uma cervejinha na Águia Real, um espaço muito amplo mas absolutamente degradado. Bebo o que é comum, uma «média» como aqui se chama: meia litrada. 
Leio e escrevo durante meia-hora, o computador entalado entre a perna e a parede da montra. Pago e saio. Estou a entrar no prédio, duzentos metros abaixo, e dou por uma leveza inusitada no ombro. Corro aflito para a cervejaria, pensando nas centenas de páginas inéditas em diversos documentos, nas aulas dos próximos meses, nas milhentas imagens que uso nas aulas, nos milhares de livros digitalizados que irão à viola. E chego ofegante à cervejaria. Um tipo de ar simpático repimpa-se com um bitoque na mesa que foi minha. E entre a perna laroca dela e a parede, hélas, o computador.
Saio em júbilo e comentam os vendedores do costume – gravatas, sapatos e calças – que vendem em frente à Águia Real:
- Xiii, patrão, tinham guardado?
- Não, estava não-visto
- Ya, patrão… - riem eles -… agora, tem que pagar refresco… - diz o mais afoito.
- Refresco? – pergunto, intrigado.
- Para poder contar… - responde, o esperto. 
 Reclame.
Faço o manguito e desço para casa, assarapantado com a sorte e a vida e atravesso a rua fora da passadeira, coisa vulgaríssima em Maputo, mas sarnar a cabeça de um white é sempre uma tentação e ouço o apito do polícia nas costas.
Ergo a mão em deferência e desculpas. Responde-me ele, ameaçador:
- Multo-te a cabeça.
Apanho o elevador, com o computador ao ombro, entre a mona e o espelho, um sorriso estampado na triste figura, etc., etc.

terça-feira, 27 de março de 2012

NOTAS DE UM DIÁRIO NAIF: A VACA E O VITELO


Não se trata de ver mas de dar a ver. No poema. São coisas nos antípodas. Mostrar o que o quotidiano nos dissimula, o que nos é escondido pela inanidade da nossa vida, como no espantoso verso de Robert Juarroz: «como uma árvore que tombasse do fruto». Quem o lê, diz imediatamente, que coisa estapafúrdia, mas se repararmos que a bactéria que a adoece entra na árvore pelo fruto, que a mais nobre árvore genealógica tomba quando fica nas mãos de um filho toxico-depente que tudo estorrou, percebemos como a metáfora tem um quilate científico, e que nós é que a rejeitámos porque pensamos quadrado.

Ele está quite. Que bela expressão. Já não me lembrava dela: estar quite, ficar quite. Dar uma boa canelada por baixo da mesa, e ficar quite. Apontar a fisga ao olho azarado do árbitro e ficar quite. Ir para a cama com a mulher, depois de verificar que a conta no banco continua a negativos e ficar quite. Comer marmeladas e os dentes reagirem em guinadas: ficam quites. O Quintino é um amigo querido que não vejo há algum tempo – estará quite?


 
O cabelo berrantemente loiro sobre uma tez de bronze, assenta-lhe como um legume. Mas lá fez negócio, o carro parou, a janela baixou, negociaram, e ocupou o lugar do morto.
O curioso é que aquilo que o atraiu, a espampanante cabeleira, vai ser tirada, assim que cheguem ao quarto: será uma foda com a cabeleira mole (como os relógios moles de Dali) a escorrer para fora da mesa-de-cabeceira.
Embora  por um instante tenha lucilado na pradaria, como a labareda no genérico do Bonanza.


Leio Rilke: «Uma obra de arte é boa desde que nasça duma necessidade. É a natureza da sua origem que a julga». E o primeiro impulso é dizer ámen, a gente concorda com tudo o que um génio diga, n´est-ce pas? Reespreito a frase com um olho, depois junto a outra pupila, já num gesto de impertinência, e não só hesito diante do juízo como agora me parece de um maniqueísmo gratuito, eivado de um snobismo absolutamente terrorista. Há centenas de obras fantásticas que resultaram de uma encomenda mas cujo ADN mudou a meio do processo, porque o autor acabou por se entusiasmar e insuflar de um suplemento de alma a matéria da criação. Já nem falo do cinema, mas metade da obra do Camilo saiu de encomenda, em folhetins, como tanta coisa em Dostoievski, ou no argentino Roberto Arlt. Darei sempre Graças a Deus (que, como eu, é ateu) por Dias Gomes ter tido a encomenda da telenovela O Bem Amado. E creio que Neruda ou Aragon ou Maiskovski trabalhavam sob encomenda do seu daimon pessoal, ou do seu alter ego, como quiserem - e nem sempre saiu mal, a coisa; às vezes acertam mesmo no alvo.
A segunda parte da frase: «É a natureza da sua origem que a julga» ainda me choca mais, pela venalidade que atribui a todas as obras que não tenham saído da necessidade. Nenhuma necessidade impeliu Queneau a escrever Exercícios de Estilo, unicamente o gozo, uma gratuidade destituída de qualquer determinismo – nem sequer o da necessidade. A grande arte de Chaplin não era alimentada muitas vezes pela necessidade mas pelo constrangimento, como aliás acontecia com muitos autores de Oulipo: Calvino, Pérec, Roubaud. Magnífica literatura com uma origem suspeita, por projecto, e não por necessidade.
Ora, bardamerda para o Rilke. Amanhã reconciliamo-nos. Hoje estamos assim de costas voltadas, como duas vacas sentadas sobre os quadris. Quero dizer, uma vaca e um vitelo.  


segunda-feira, 26 de março de 2012

OLHA O PASSARINHO: OS ANOS DO PATRACAS

OLHA O PASSARINHO!

Meu caro Patraquim,
em homenagem, por seres a criatura que conheço com o nome mais próximo da «linguagem dos pássaros» tinha apalavrado três elefantes amestrados para hoje, para o teu aniversário. Dois que me lambuzariam de espuma de barbear a cara, enquanto o terceiro me acariciaria com a navalha; acto que eu queria filmar para te enviar. Mas sabes como é por aqui, o empresário pirou-se com os rands, dois dos elefantes aproveitaram e cavaram para o Brasil porque são transexuais; o terceiro já me enfiou o pincel cheio de creme glote dentro. O que interessa é que fiquei sem prenda para ti.
Olha, vai um abraço, ao som de bandolins, timbilas e dois apitos de polícia de trânsito, que gamei ao meu vizinho de baixo.
Espera, tenho de ir lá dentro ocorrer a um alarme, parece que uma das miúdas meteu um amendoim no nariz. Espero que não seja o amendoim do Gualter... Beijos à Paula, etc., etc.

domingo, 25 de março de 2012

PIERRE REVERDY: LEGÍTIMA DEFESA

pierre reverdy

O poeta Pierre Reverdy escreveu em 1919 um livrinho de 40 páginas, Self Defense, onde numa série de aforismos, estabeleceu uma poética que ainda hoje tem alguma ressonância. Noventa e três anos depois, aqui traduzo algumas dessas gemas:  

Certos artistas criam obras despojadas; resultam estas de um trabalho austero, associado ao talhe de um espírito estóico, dado a muitos sacrifícios e restrições. Outros artistas esfolam as suas próprias obras e então não lhes resta grande coisa no final.

Nem todos os sonhadores são poetas mas há poetas que são sonhadores. O sonho é estéril naqueles que não são poetas.

O sonho do poeta é fecundo. E exerce-se neste, enxertado no que nos outros se chama o pensamento. O sonho é então uma forma especial de pensamento. No pensamento é o espírito quem penetra, no sonho é o espírito quem se deixa penetrar.

Talvez seja bom que o espírito do poeta se deixe penetrar, mais do que afadigar-se para penetrar.

É no momento em que as palavras se desembaraçam da sua significação literal que tomam no espírito um valor poético. É nesse momento que as podemos semear livremente na realidade poética.

Criamos graças aos meios – e imita-se graças aos processos. Estes são a decadência e a imitação daqueles.

Para aqueles que a servem, a arte é um fim; para aqueles que dela se servem, a arte não passa de um meio.

Conhecer a sua arte e ser erudito são duas maneiras de saber que é preciso distinguir. A erudição consiste sobretudo em conhecer a arte dos outros.

Temos mais o hábito da vida que da arte, donde o sucesso das obras que dão uma aparência de vida. Apresentar uma obra que se eleve acima desta aparência é exigir uma formidável mudança de hábitos.

Uma janela desenhada numa fachada e o buraco de um muro degradado - coisas diferentes; e sobretudo que não seja uma questão de elipse.

Em arte, o primeiro cuidado de um filho é o de renegar o pai.

Que obra é essa, qual é ela, de que possamos retirar a ideia ou a anedota - as quais, isoladas, nada valem -, e à qual, após essa subtracção, nada resta?

O belo não sai das mãos do artista, mas isso que sai das mãos do artista torna-se o belo.

A duração do interesse duma obra está talvez na relação directa do inexplicável que ela comporta. Inexplicável não é sinónimo de incompreensível.

Os primeiros são muitas vezes os últimos. A mediocridade reconhece sempre os seus.

Não creio que o génio seja uma longa paciência… Mas é preciso ter muita paciência, mesmo quando se tem génio.

Para o pintor há o recuo da distância. Para o escritor não há senão o recuo que lhe dá o tempo.

Acontece muitas vezes que uma obra agrade por causa da sua intenção: é raro que uma obra agrade malgrado a sua intenção.

A crítica de uma obra assenta sobre as ideias ou sentimentos que aí são exprimidas, mais do que sobre a sua estrutura, a sua forma, a arte pessoal do autor, e nunca sobre os meios próprios a este autor.

O que o público não quer compreender é que lhe querem mostrar outra coisa, para além do que ele admite procurar.

Nós queremos com tal intensidade compreender que nós desaprendemos de amar.

A realidade não motiva a obra de arte. Fala-se de outra vida para atingir uma outra realidade.

Um elemento não se torna puro senão desligado do sentimento que entroniza a sua situação na vida. É necessário despojar-se desse sentimento para que na obra ele jogue um papel sem detrimento para o seu conjunto.

Há justas correspondências entre os elementos livres numa obra mas a harmonia não passa de um embelezamento.

Muitas camaradagens artísticas não passam de contratos de publicidade.

O cogumelo desponta num ápice, sobre o tronco; ele não faz parte da árvore. Se queremos chegar à arte algumas vezes é preciso começar pelo homem.
A cabeça de um homem atrai o piolho. Se este último escolhe a cabeça é porque ele aí vê, sem dúvida, uma vantagem pessoal, demasiado pessoal. De outro modo não se explica que o piolho não adquira, com o tempo, a estima pessoal desses homens que ele tanto adora.
A pulga crê-se certamente digna do homem. Resta ao homem o cuidado de provar que o piolho é indigno dele. Mas quando ele se coça, o seu gesto tem muitas vezes o ar de uma carícia.


terça-feira, 20 de março de 2012

DIA MUNDIAL DA POESIA: UMA BÚSSOLA PARA A DESORIENTAÇÃO GERAL

MÁRIO VIEGAS, um vero amante da poesia

Acordei com uma avidez incrível por um prato de sopa de letras, como quando tudo era ainda um caldo fervente e as sombras e os dias não tinham recortes nem insónias. E então um anjo bom lembrou-me uma parábola que explicam nos mosteiros budistas aos seus neófitos.
Era uma vez um monge tão santo e tão sábio – dizem – que depois de toda uma vida de estudo e meditação não havia dito nunca nem uma só palavra. Todos os noviços do mosteiro respeitavam e veneravam a sua sabedoria, mas ao cumprir os oitenta e cinco anos, estando periclitante a sua saúde, decidiram rogar-lhe que falasse, por fim.

- Explique-nos, antes de morrer, o que em todos estes anos aprendeu e contemplou. Pedimos-lhe que não definhe sem nos deixar algo… como uma pista que nos ajude no nosso estudo e nos oriente na contemplação.
O ancião respondeu-lhes com um sorriso, mas continuou calado. À medida que a sua saúde se debilitava, a impaciência espicaçava os noviços. E cresceu ao ponto de, já no seu leito de morte, começarem a gritar-lhe, a ameaçá-lo inclusive, para que soltasse nem que fosse uma breve chispa do seu tesouro espiritual.
- Para quê ser egoísta e cruel? – zurziam – Para quê levar consigo tudo aquilo que acumulou e que pode servir-nos como luz e guia?

Mas o ancião continuava mudo, imperturbável, entre os jovens que desataram a maltratá-lo. E foi só no momento de exalar o último suspiro que soltou uma palavra, a sua única palavra:
- Fogo!
E o mosteiro começou a arder.

É esta a eficácia que teria a palavra, qualquer palavra, em que puséssemos toda a energia que durante toda a vida delapidámos em mil e umas tontices que dizemos e repetimos sem parar, sem pensar. Dizer «frio» e congelar o mundo inteiro. Abrir a torneira, ordenar “corre”, e ver nascer o Nilo. Ouvir alguém pronunciar “Poesia” e mijarem-se, para sempre, de vergonha, os Ministros da Cóltura deste mundo. Isto sim, seria um dia em grande.
Mas como entretanto, nada disto se passa, temo, como dizia Joubert, que «as palavras sejam como cristais que obscurecem tudo o que não ajudam a ver melhor», e, «um sacramento de muito delicada administração».

Hoje a Poesia devia assaltar todas as filiais do Banco onde o querido Gaspar tem depositadas as sua poupanças. E deixar no lugar dos euros, fotocópias com o poema do Grilo do O´Neill.
Receio que nos iremos ficar pelos brandos costumes. E, como inevitavelmente, vai ser assim, e só ouviremos os carrilhões do Clube dos Poetas Mortos, conseguirá alguém desencantar o registo do Mário Viegas a recitar a lengalenga do “tranglomano”? Talvez isso nos ajude a resgatar a algazarra deste dia…

domingo, 18 de março de 2012

ALEGRIAS DA DIALÉCTICA. TEORIAS

pollock
Com a limpeza, a inteligência de sempre, o Henrique Fialho fez um belo texto sobre Teorias, do manuel a. domingos.
As dúvidas, ou os incómodos, que o livro – de que gostei de facto - me levanta são também as minhas e acho que o texto do Henrique me responde a algumas e recomendo-o vivamente.
Gosto particularmente deste trecho:
«Não sendo contemplativa, a poesia de manuel a. domingos é quase narcisista. Ilude-nos com a sua auto-ironia, rasteira-nos com um cinismo natural, deixando-nos caídos e desarmados perante uma essencialidade que a vida nos obriga a negar sob pena de parecermos superficiais. Mas a verdade é que somos, não podemos fugir a isso como da morte foge um ser vivo. As teorias tocam na ferida com a sua voz silenciosa, depurada, objectiva, directa, crucial. Arrumadas em jeito de tratado, com direito a bibliografia e tudo, as teorias aqui apresentadas resumem uma atitude, um modo de estar e uma perspectiva que enjeitam o lirismo expressivo de muita da poesia portuguesa actual, fugindo de conotações e de rótulos tanto à esquerda de um confessionalismo urbano-depressivo como à direita de uma metaforização académica do mundo. Falar de simplicidade não é suficiente, pois a simplicidade carrega demasiada complexidade no imo do corpo.»
Só não concordo com três coisas no texto, a referência ao Fernando Guerreiro, a partir do título, exactamente pelas razões que o próprio Henrique aponta de uma disparidade absoluta entre as pulsões poéticas de ambos, penso que a coincidência do título o não justifica (pelo menos à partida, teria de reler o Fernando); quando o Henrique falando de minimalismo (ele é evidente) chama o Carver à liça, porque simplesmente gosto mais da poesia do manuel a. domingos que da do Carver, que, na minha opinião, se realizou plenamente como poeta nos contos, mais do que na escrita de poesia; por último, quando sente necessidade de afastar o fantasma da suposta «simplicidade» como se esta lhe tivesse sido apontada como um estigma, enfatizando «pois a simplicidade carrega demasiada complexidade no imo do corpo».
Claro que sim, e por isso chamei a atenção para o olho dramatúrgico que existe na poesia do manuel, o que afasta qualquer facilidade (esta sim, grave), querendo com isso insinuar que cada palabra ali estava tomada pelo seu devido peso na economia do poema e não meramento por jorro, o que subtilmente abre/orquestra vários níveis de leitura em alguns poemas, o que aliás é bem anunciado pela simultaneidade que o manuel ensaia no poema que abre o capítulo «Teoria dos Dias Comuns», e que o Henrique e eu citamos e que volto a lembrar: Uma mulher/ grita/ contra um gafanhoto//Uma criança/ mostra/ um desenho ao avô//Uma andorinha/ faz/ o reconhecimento//dos telhados.
Depois do texto do Henrique, quero precisar duas coisas e dirijo-me ao manuel mais directamente:
todos os textos que faço sobre a poesia de outros são leituras com, reflexões que me ajudam a pensar ou a tactear porque nem sempre vejo claro, e não pretendem ser nem críticas nem juízos definitivos - sou veemente a cada momento, mas não cristalizo nisso. E costumo auto-definir-me como um «pateta em aberto» e daí que nada me custe voltar atrás, ou muito simplesmente me alegrar quando uma leitura mais justa de algo se sobrepõe à minha. É o caso da leitura do Henrique, em alguns aspectos, o que só me deixa contente pois gabo-lhe há muito a inteligência.  
Em segundo lugar, e quanto ao cinismo - («rasteira-nos com um cinismo natural, deixando-nos caídos e desarmados perante uma essencialidade que a vida nos obriga a negar sob pena de parecermos superficiais», escreveu o Henrique e muito bem), que no teu livro tem um grau de potabilidade e um tenso equilíbrio porque ainda se situa no plano da ironia  (duma saborosa auto-derrisão), e em Teorias predomina um patente gosto pela vida -, confesso que me espanta que de repente esteja toda a gente no inferno e que só o cinismo torne a vida suportável. Por mal que esta merda esteja em muitos quadrantes, e garanto-te que eu vivo literalmente num meio infernal…. E falo também por mim, pois em muitos textos sou de uma auto-derrisão (e dez anos já o António Guerreiro chamava a atenção para isso nos meus poemas) que roça uma auto-complacência invertida. Compreendes a minha questão? Acho que às vezes este tique é o mais fácil, mas nem sempre o mais certo, e que apostar no contraste, como acontece no jogo do teatro, pode iluminar melhor a objectividade “directa e crucial”. Por deslocação, como nos sonhos. E julgo que nos ajudaria muito voltar ao Nietzsche e interiorizarmos a sabedoria trágica, que nos faz “aceitar” as trevas e o riso da vida, a alegria e a dor, e todas as intensidades num balanço homeopático, sem que estas tenham de ser dicotómicas ao ponto de nos deixarem um travo amargo que nos faça “escolher” uma perspectiva “cínica” da vida, que é apenas e afinal apenas um lado do jogo.
É isto em que acredito, não me passa pela cabeça que tu não possas diferir de mim – cada um rema consoante as suas circunstâncias e experiência de vida (falo da experiência em si e não da idade).
Foi deste risco - repito, também me calha a ironia e o cinismo - que quis falar e se calhar não soube explicar-me. Guardo sempre esta hipótese como segura. 
E se não ainda conheces volto a aconselhar-te a poesia do António Reis, um minimal antes de tempo. Um abraço.       

DIA DO PAI: DYLAN THOMAS E PASOLINI

dylan thomas e caitlin, sua mulher, e uma bela caneca cintilante
Desde que acordei que a Jade me impele a procurar adivinhar o que ela fez para o dia do pai. Já lhe atirei 50 hipóteses e foi puro barro atirado à parede. Mas isso inspirou-me a antecipar o dito, que é amanhã, e a lembrar dois verdadeiros pais para mim, Dylan Thomas e Pasolini, em dois poemas que farão parte do livro que editarei na Abysmo, Harpo Marx na Cova dos Leões. Aqui os deixo:

 LEMBRAR DYLAN THOMAS

No miolo
da sua cabeça reclinada,
os inimigos,
             encontraram o seu leito
sob a pálpebra obstruída,
lavrou Dylan Thomas
uns anos antes daquela tarde
nova-iorquina em que a mostarda
do seu rosto,
                   em 18 uísques duplos,
distraído batimento de remos,
fez navegar prego dentro um coração
                galês.
“Um insulto cerebral”, grafou
o atónito médico
          na autópsia, depois de lhe sondar
no hálito a oxidação das pontes.
Ficou o poeta totalmente da boca para fora,
como despontam begónias
                  e os dias,
        gotejantes e cegos,
e o fogo procura o seu bombeiro.
Da boca para fora, fluido verde
que estoira cismático nas pétalas.
Ao miolo da sua cabeça reclinada
             foram os inimigos
esticar os lençóis
                     e a cama ficou um brinco,
mas só nele, sobrevindo da boca arrefecida,
o silêncio bolsou:
        como o azul
                que se deixa sangrar pelo bote.




CARTA EM MESA PÉ-DE-GALO
                                                                                   para o José Colaço Barreiros

Fiquei enfim, querido Pasolini, saturado
      daquele mundo antigo, das balelas
         de espíritos caducos como as rameiras
  do Império Romano. Foi do que me salvei
  dum expediente que me amolava o espírito
        e o declinava em pára-raios,
             repetindo sem dúvidas velhos
  formalidades, predominações (sabes como
      é proibitivo falar em classes) que sobrepunham
         razões e deuses alheios ao meu ânimo
  secreto, intempestivo. Voltei ao barro,
      ao descompasso clandestino, a uma respiração
           atreita aos ziguezagues de cada dia,
  o que me alarga os horizontes e me não confina
     em moldes. E às vezes uma força eruptiva
         salta aos olhos, provinda do plinto do inesperado
  onde, di-lo Heraclito, conflui a espera.


Ainda ontem tentava explicar a dois esquálidos suíços,
           amedrontados pela pobreza em África
  - this is the middle age, the middle age…-
     que a vida deles sem esse testemunho
           seria um mero palanque declamatório
  e que o martelar nas íris das lancinantes gaiolas
       da miséria, os melhoraria como seres humanos
             implodindo-lhes os belos corais da letargia.
  Mas arrancar suíços à previsão dos mecanismos,
     à sua comedida, meridiana torpeza? Mostrei-lhe
           o matutino, onde se lia: «Em Neuchatel, suíço
  rapta crianças de dois anos para as devorar».
      The real return of the middle age, repliquei.
           Não acreditaram, e coléricos pretendiam
                ter sido a notícia inventada por um jornalista de mal
  escarificado na alma. Peut-être. No circo romano,
       a barbaridade espirra pedras pelos olhos.
            Porém, crer que o Bem é simétrico ao progresso
           das nações é uma ingenuidade que decapita mitos.

E voltaram ao hotel, de olhos fixos no viés amarelo,
     temendo encontrar pelo caminho uma trupe de canibais.
  Como explicar a espíritos tão arreigados
    ao decoro, aos impostos, que há uma poética do sujo,
         que a vizinha circunvalação do trágico levanta
  dos escombros as magnólias, o prazer que unge
      numa pequena conquista, e que o urbanismo,
             o vero, é cosa mentale? Necessitariam
                   os filhos do conforto, escoltados
  pela gadanha da História, de ter nascido nas faldas
      de Friul, como tu ou de escorpiões pontapeados
  por pastores, como eu, para descortinarem
  que por detrás dum sobressaltado
      e férreo desajuste do destino cada vida impõe
           uma feraz alegria que a resgata,
  aos alicates da estatística. Tinha comprado um honesto
  vinhito sul-africano para partilhar com eles –
        mais fica. Deixemos os juízos aos janotas,
  tique-taque, tique-taque, tique-taque, e
  sozinho deglutirei as lágrimas de riso de Lázaro.