sábado, 17 de março de 2012

CORAGEM: DIZES. TEORIAS

aqui
yves klein


 
Teorias, se chama o singular livro que o manuel a. domingos me enviou.
Já o li três ou quatro vezes, e tanto gosto muito como me incomoda. É um excelente sinal, que as Teorias me incomodem, o que me leva a dialogar com ele – livro e autor – sobre estes dois aspectos.
O livro abre com uma epígrafe do Manuel António Pina, que diz assim: «porquê a poesia/ e não outra coisa qualquer:/ a filosofia, o futebol, alguma mulher?».
É uma pergunta oportuna, e o próprio manuel a. domingos lhe responde, neste poema:
«A primeira amante
te ensinou a diferença
entre ode e epopeia
 enquanto te apertava
e recitava
Homero ao ouvido

E durante
o seu arfar
um ou outro
ai!
descobriste
que a poesia
também
é disso feita.»
Não creio que haja um poeta que seja sério que, a dado momento, não se coloque a questão da articulação da poesia com a vida e não queira achar noutras manifestações essa expansiva forma de inteligência/emocionalidade não circunscrita que a poesia desperta e que tanto nos atrai como nos inquieta, por causa da suspensão do nosso controle nela. Contudo, o Pina faz a pergunta, mas não abandonou a poesia, não a trocou por uma mulher, um lugar cativo de adepto no estádio, ou por três horas diárias de comentários em Kant. Portanto, há algo que a poesia tem que não desgruda e que é diferente do encontro com as outras coisas.
Agora, ele não podia deixar de colocar a questão na altura em que a formulou. Repare-se: o Pina, quando apareceu, escrevia contra uma corrente anti-discursiva, absolutamente ancorada na metáfora, e com laivos de orfismo na sombra poética que era então dominante, o Herberto. Ele tinha que achar o seu trilho numa floresta com uma vegetação adversa. Ainda me lembro de um poeta muito conceituado me ter dito sobre o Pina, «bem apanhado, mas muito racionalista…», como se a boa poesia só pudesse e devesse ser irracionalista. Ou pior: como se a “pulsão irracionalista” da poesia tivesse obrigatoriamente de ter apenas um sabor, consentido e mapeado.
E então o Pina, que soube cruzar os humores de Pessoa e de Cesariny, e tinha que impor a sua pertinência, fez o seu papel de pequeno dinamitador, de desconstrutor das inércias vigentes – sempre, com extrema delicadeza, como quem não quer a coisa, fazendo simplesmente perguntas a si mesmo. E engatilhando-as achou o seu caminho.
Não obstante manteve a crença – ainda que sob reserva -, por isso não abandonou a poesia. Porque se a poesia for unicamente jogo esgota-se rapidamente, é preciso chegar ao playing. E nesse transe não se volta a lançar os ossos na demanda de uma adivinhação se não se crê minimamente no ritual. Claro que para a saúde mental e para a renovação dos próprios processos convém inquiri-los. Contudo, retenha-se, que o paradoxo da crença é que não se dá sem a dúvida. Daí que seja um bom sistema acreditar piamente na plausibilidade taumatúrgica da palavra às terças, quartas e quintas e nos restantes dias da semana suspendermo-la, procedermos como o místico que conheceu Dada. Veja-se como o Pessoa é simultaneamente um poeta ocultista e um herético desconstrutor. Esta dimensão dialógica é a que nos faz romper a psicologia, partir da circunstância num poema para a transfigurar numa outra dimensão em que o incidente passa a Categoria. E, neste trespasse, suspeito que os melhores poemas “realistas” aspiram afinal à metáfora.
Dizia o designer Robert Edmund Jones, defendendo o expressionismo contra o realismo: «O realismo é uma coisa que praticamos quando não nos estamos a sentir muito bem. Quando não estamos com vontade de fazer um esforço extra». Em muitos dos poemas de Bukovski – que o entusiasmo do manuel a. domingues me levou a reler – estamos literalmente sob influência da ressaca, isto é, sai-lhe o que a menor tonicidade do momento deixa. É como jogar bilhar para passar o tempo, é porreiro, mas um campeão de bilhar necessita de um treino de outro tipo.  
Claro que o Bukovski tem excelentes poemas, é indiscutível, mas no seu melhor acontece-lhe como neste poema de Brecht:
 «UM FILME DO CÓMICO CHAPLIN
A um café do Boulevard Saint Michel
Chegou um senhor pintor numa chuvosa tarde de Outubro.
Bebeu quatro ou cinco cálices de um licor esverdeado
E pôs-se a contar aos ociosos jogadores de bilhar o encontro comovido
Com uma amada de outrora, meiga mulher
No momento casada com um rico carniceiro.
Meus senhores, suplicou, dêem-me depressa, por favor,
O giz que colocam na ponta dos tacos. Depois, de joelhos,
Tentou com mão trémula fazer o retrato
Da amada dos dias idos. Mas logo desesperado
Apagou o que já fizera, começou de novo,
E de novo parou, e outros traços traçou
Enquanto repetia: Ainda ontem o sabia.
Clientes tropeçaram, resmungando, nele. O gerente furioso,
Pegou-o pela gola do casaco e pô-lo na rua. Já no passeio,
Ele abanava a cabeça e ainda perseguia com o giz
Os traços fugitivos.» (trad. de Arnaldo Saraiva)
A textura é realista, a anedota é magnífica, mas afinal ambas ilustram o que não está lá dito explicitamente: a metáfora de que a beleza é fugidia e o nosso “domínio” concreto sobre ela fugaz; nem um pintor experimentado a fixa.
Na verdade, como escreveu uma vez o Herberto, os poetas andam com vagares de galinholas, e ainda hoje é difícil escapar à dicotomia de nos queremos Rimbaud ou Jarry. Com o Rimbaud, trata-se de magnetizar o verbo para mudar a vida, no afã soterológico de salvar a vida, com o Jarry de pulverizar o verbo para mudar a vida em jogo, até à derrisão final.
Não há nada mais provocador do que a admirável resposta de Jarry à sua senhoria. Jarry adorava por-se aos tiros e um dia a senhoria aflita lembra-lhe: «Cuidado, há crianças! Pode matá-las», ao que ele responde de imediato: «Minha senhora, não há motivo para cuidado, nós far-vos-íamos outras». É uma boutade fantástica, como boutade – dita por alguém que tinha uma capacidade de criação tão grande como a sua energia destrutiva. O Picasso também dizia: “para criar é preciso primeiro destruir”, mas eis-nos diante de dois casos onde a paródia se desdobra no novo, em formas e vocabulários fecundissimamente renovados.
Hoje, ao contrário do tempo em que apareceu o Pina (era quase proibido rir naquela altura e mesmo o O’Neil, por isso, era tolerado pelos seus pares), verifica-se em alguma poesia portuguesa uma atracção fatal pelo pendor paródico, que às vezes cai, por tique, no beco do cinismo. Escreve-se para se demonstrar a vanidade do acto, sendo um tropo instalado a anemia poética e a sua impossibilidade de resgate. A sua impotência.
Dou um exemplo no Teorias (falamos do que menos gosto no livro):
«Soneto 3
Gosto de fazer
a barba enquanto
no duche cantas
um qualquer samba
 que sabes de cor
Eu de cor só sei
um ou outro verso
que aprendi na escola
 mas confesso
que isso agora pouco
ou nada importa
Cortei-me e não há
verso capaz
de estancar o sangue.»
De facto nunca houve verso capaz de estancar o sangue. Mas antes de ser feita era impensável uma auto-estrada em pleno Amazonas. E a chave do soneto torna-se fácil, previsível.
Do mesmo modo, para esgotar o que me incomoda, não creio que este livro, que na generalidade me agrada bastante, comece bem; há uma certa batota no uso de um efeito nonchalance que agradará talvez à nossa época frívola, aos nossos parceiros de disforia:
«Ainda um dia
escrevo
 

um livro
de poesia
e será
muito apreciado
no meu grupo
de amigos»
mas cujo retórico jogo defensivo me parece desnecessário, pois, felizmente a poesia do manuel a. domingos tem inúmeros momentos em que com sua extrema concisão – a simplicidade, a eficácia da corrida de uma chita - se abre a um pleno valor expressivo, merecedor de passar largamente a fronteira autárquica dos seus amigos:
«Uma mulher
grita
contra um gafanhoto
Uma criança
mostra
um desenho ao avô
Uma andorinha
faz
o reconhecimento
dos telhados»
;
«Saneada a questão
de despertar
enfrentas o espelho
na tentativa
de espantar
a ramela dos dias
 e descobres
que a noite
não te trouxe
cara nova
 outra vida
Coragem: dizes»;
ou:
«É sábado de manhã
e eu estou
para aqui   
em vez de ler
um livro
ou frequentar
uma esplanada
sobre o rio
deliciando-me
com pernas
femininas
 que o tardio

sol de outubro
ainda traz
despidas».
 Como se vê, o livro não precisava de se justificar, nem de forçar a piada nesse acto.
Umas das coisas curiosas no manuel é que – não sei se ele sabe – indo beber, e bem, em Bukovski (no modo de partir o verso, numa certa respiração do poema, no despojamento frásico, nalguns temas afins) acabou por se aproximar da dicção e do recorte de um excelente poeta português que está todo por reeditar: António Reis, o cineasta.
A poesia, à medida que avançamos nela, de comum, desata a ser pensada em nós como fluxo e não como algo que começa e acaba nos nossos limites. Confundir as duas coisas leva-nos a ceder à tentação escatológica, mas acontece que a poesia não começou connosco e vai continuar para além de nós e em muitos veios. Daí que convenha que o pedal da paródia seja pressionado em doses homeopáticas que nos enriqueçam, mas não se transformem num vício senão galgamos alegremente a sebe do cinismo sem darmos conta de que do outro lado só existe um abismo. Contudo, o manuel a. domingos também anda pelo teatro e isso é magnífico para uma multiplicação das “vozes”.
Outra coisa que me inquieta na poesia do manuel a. domingos vem-me paradoxalmente do que nele é conseguido: a sua contenção ao osso. Normalmente chega-se aí, o manuel começa daí: da pincelada branca sobre fundo branco. Estou curioso em saber se vai caminhar para o silêncio ou que gordura orgânica irá resgatar no seu ossário. Ou pode ser que este Teorias seja pura matéria dramática e que agora nos brinde com um livro inesperadamente barroco. Porque há um olho "sabiamente dramatúrgico" nesta poesia.
O melhor é não pensar nisso, como ele próprio sabe e disse, num dos poemas do livro de que mais gostei:
«Não adianta
pensar nas coisas
na sua mecânica
por menos caiu
Tróia e Jericó
viu as suas muralhas
no chão

Abre a janela
respira o ar
antes que seja tarde
ou o dia passe
ao largo
dos sentidos
Sai à rua
Podes nem
acreditar
há vida
para lá de tudo
isto».
 Teorias vale a pena uma, várias visitas, pelo que poderá pedi-lo para o blogue do manuel, aqui, que já agora também merece ser divulgado. E dedico ao manuel um poema, escrito na contracapa de um livro de Bukovski, portanto, em contágio:   
FUMO DE CIGARRO
                                               para o manuel a. domingos
Ter um corpo e não lhe sentir
o cansaço: uma pretensão que avilta;
Igual só a literatura armada
em piscina de condomínio privado.
O cristal cala o calafrio ou afia-o,
dúvidas de neófito à entrada
do Museu Gongora. Contudo, é im-
provável morrer-se na fonte onde
se nasce. O “em-si” atrai muito pó,
já viste crica empoeirada?
Num sonho a sombra de Cristo
incitava-me a um último desejo.
Dá-me algo que nunca terás,
pedi ao Peixe: fumo de cigarro.
 

PS. - o blogger lixou o entrelinhamento dos poemas. ao fim de meia-hora de luta vã, desisto.




sexta-feira, 16 de março de 2012

ESCREVER É FÁCIL? OS CÉUS CERÚLEOS, ETC., ETC.

monsieur pollock

Há palavras que nos atraem e que não sabemos porquê, do mesmo modo que outras existem que por mais que repetidamente consultemos o dicionário não se infiltram na memória. Fiz destas uma Tábua das Palavras Que Nunca Saberei Usar, mas perdi a coisa no extravio dum computador, depois de 30 páginas de inventário e devaneio. Mas outras nos compensam com a sua solicitação contínua – ia escrevendo perene – , e, mesmo se ligeiramente anacronizantes, não perdemos uma oportunidade para as tentar aplicar com o devido sabor.
Ao ler hoje um poema de Khlénnikov, na magnífica versão de Haroldo de Campos, apanhei este mimo, que adoraria ter escrito:
«Neste dia de ursos cerúleos
A correr sobre cílios tranquilos…»
O adjectivo cerúleos – a minha palavra mágica nesta equação – dá uma magnífica ambiguidade ao verso para além do perfeito ajuste fonético aos simpáticos ursos.
Céruleos significa «da cor do céu», o que torna estes ursos levemente invisíveis e omnipresentes; ameaça que emprestará tudo aos cílios tudo menos tranquilidade. Portanto, diverte-me muito o dissimulado curto-circuito na abertura deste poema.
Há um outro aspecto que me atrai a este adjectivo desusado, que, digamos, há muito veste calças à anhuca: a sua extrema ambiguidade.
Porque nunca cheguei à conclusão se a designada cor do céu compreende nuvens ou não. Há poemas do século XX que com cerúleo descrevem um céu constelado, ou seja estrelado. Ora de que porra de cor é um céu estrelado? Portanto, cerúleo dá qualidades a uma cor que ora corresponde ao azul celeste, ora nos assalta com a visão do firmamento. Portanto com que direito lhe vedamos a hipótese de ser também pertinente o seu uso num céu enovoado, borrascoso?
Por isso, só uma vez, depois de 35 anos enfrascado em tão lancinantes dúvidas – as garrafas de Borba que entornei no cálculo e na dilucidação impossíveis deste quiproquo linguístico -  consegui resgatar o adjectivo para mim. Foi há dois anos, durante a escrita de A Maldição de Ondina que achei uma clarabóia onde podia finalmente fazer incidir, em luz paródica, a expressão homérica que tanto me apaixonara:
«A denúncia partiu da vizinha, incomodada pelo cheiro. A visão daquele batoque de ceroulas, com dois tiros no bucho, não correspondia exatamente à visão dos céus cerúleos. André-Ruivo “Realizas” encontrara o seu filme: fazia de morto e não era o narrador.»
Ainda há quem diga que escrever é fácil. Eu levei trinta e cinco anos para chegar aqui.
Será que o sr. Lopes ainda terá a vaga livre lá na sapataria?
 


quinta-feira, 15 de março de 2012

VAMOS BRINCAR À CARIDADEZINHA, QUERIDO EMIGRAS!


Voltemos então ao convívio dos mortais (…brinco, meus espantalhões, epítote carinhoso que me dá uma velha amiga e que estendo aos meus queridos emigras) para vos falar das cólicas de viver em terra alheia. A saga, do casal (português) meu amigo para arranjar nova casa, continua. Como vos contei a senhoria havia-lhes pedido um aumento de 50% durante seis meses, de 1000 para 1500 – enquanto ela fazia obras lá dentro com eles acampados no coração do inferno – para depois os voltar a aumentar upa, upa. Pois se já havia feito obras à conta deles, do aumentinho de 50%! Mas o melhor vem a seguir: o meu amigo resolveu ir falar com a senhora e averiguar o que autenticamente queria a dita. E explica-se a madame: depois das obras quer 3000 dólares. Como eles são cumpridores ela promete um preço especial, 2500. O meu amigo fica atordoado com tanto descaramento e então ela dá-lhe a estocada fatal: “se o sr. fosse gentil nós fazíamos já um contrato de 2500 a começar imediatamente, e nestes 6 meses das obras só pagavam 1500, era só para eu ter um contrato com esse valor e poder pedir um empréstimo ao banco para pagar a casa”. Touché! Mas dito com souplesse e boa consciência, como se a senhora a tivesse, apesar da enormidade que pedia! Veludo por fora, aço por dentro. Vamos brincar à caridadezinha…
Este oportunismo malsão não é exclusivo desta dama tão fina, é geral, entre outras razões porque há milhares de pessoas nesta cidade que “herdaram” as casas, receberam-nas de borla (vantagens de ter um cartãozinho do partido), e não sabe quanto custa o que custa. Agora há que sugar o papalvo da ONG ou o emigra. Falamos duma terra onde o ordenado mínimo se cifra em 100 dólares e um professor universitário, um médico, um engenheiro, ganham de 500 a 1000. Falamos duma cidade até catita, mas onde assim que chegamos temos de comprar carro porque não há transportes…

Os meus amigos contactaram então com duas agências imobiliárias para lhes procurarem casa. Ao cabo de uma semana sem eco, ela resolveu telefonar para uma das agências e perguntar pelas diligências. Resposta pronta do menino (que ganha 200 dólares e vive nos subúrbios), “minha senhora, com o plafond que nos indicaram (até 1800 dólares, máximo), não se arranja nada de jeito nesta cidade! Falamos de uma cidade onde até há 2 anos e meio era vulgar arranjar um t3 a 500 dólares. Vamos brincar à caridadezinha?
Esta inflação, danosa e imoral, surge de um conluio entre agências, senhorios sem um pinto de vergonha e que todos os meses querem abrir uma nova fábrica da Regina, uma política que apoia o informal e não regula coisa nenhuma, e de um não-dito xenófobo que se manifesta pelo cínico, “se temos que os aturar, paguem…”. É este o clima, topam? E daqui a dois meses acaba o meu contrato de arrendamento. As pernas, já depilei! Depois é só cortar o bigode, meter saltos altos e fazer o trottoir!  Vamos brincar à caridadezinha… O felatio é gracioso!

segunda-feira, 12 de março de 2012

MÁ RAÇA


E, selenita, cai assim de pára-quedas um livro, sem peias nem poias por peso, e sem resguardo prosódico, estratégicas ou tácticas estilísticas. Porque sim – no transe da beleza convulsa de que falava o Breton. E em contra-mão, em contra-mão.
Má Raça.
Eis um livro de que o Cesariny gostaria, um daqueles que toma por tábua de engomar o refinado lirismo dominante, disposto a não ser vítima de nenhum tipo de unanimidade  - ou se agarra ou se odeia. Má Raça. Só por isso, em tempos tão ulcerados, merecia a taça – interpela, grama-se, irrita, adora-se. E, veja-se o desplante, tudo servido em lençóis de seda que se conspurcam com o mênstruo, o esperma, gotículas de vinho e urina. Lugares de devassidão e paródia, como se anuncia neste poema:
«soutien que sustenta
brutas melancolias a dias
morre tu em Tebas
se preferires os clássicos
e deixa-me seguir-te
no descer em piano das colinas
em direcção ao alto mamilo erecto de
são joão»
que se dá a ler numa galvanizada ironia, que funde o popular e o erudito, na secreta respiração boca-a-boca que é a da arte que não se distrai da vida.
Em primeiro lugar é fascinante a atitude do escritor, vermos como o Cotrim, depois de um ror de publicações, se atira ao bofe com o ímpeto suicida, a espontaneidade de um puto de 20 anos; e se vaza num fluxo verbal que escangalha normas e mandamentos epocais quando ao que deve ser a poesia e nas tintas para o que se considera suportável num poema, em matéria ou forma. Ele quer é cuspir o verbo, acção que amiúde se repete nestas páginas que agem sobre nós, leitores, como o gume, lucilante e afiado, a que queremos emprestar uma bainha. 
22 Canções, onde as palavras dialogam no plinto das imagens de Alex Gozblau, enérgicas, alucinadas, cruas e agoirentas, como a música de Adolfo Luxúria Canibal, que assina o posfácio.
A capa (o curto-circuito entre a imagem e o título) dá o mote: como voltar a restituir o sangue, a pulsação, o êxtase, a um corpo morto?
É da vida (ou da ausência dela) que se fala, da poesia (ou da pasteurização dela, a que se reage), do furor que se tornou contrito. Os académicos vão odiar, os leitores de «bom gosto» vão ficar divididos, setenta por cento dos poetas vai estranhar, adivinho que vá ser um livro comentadíssimo, até no silêncio.
O seu aparecimento é como um rasgão na cultura poética actual, mergulhada no caldo homeopático de que falava Schoenberg quando lastimava: «Desde que os músicos são gente cultivada, não existe mais ninguém para ‘falar música’». Olhem, como Arp, que ‘falava pombo’, e ressuscitaria o cadáver da capa.
Má Raça rejeita, portanto, os princípios tonais da poesia que está na crista e, ao contrário desta, não investe na dialéctica espectacular de crise e ultraje que faz o pleno do cinismo contemporâneo. Prefere o grotesco, o desarme da alegria, o grito, a associação livre, ao raciocínio claro o ludismo desconstrutor, o humor («o soneto dos palcos de bolso/ saia e casaco/ saiam», 34) e mesmo ciente de que tudo são máscaras:
«agora que o labirinto pede em casamento a mão
da cortina de embustes na mais real simulação
supremo ziguezague dançante
das próteses»,
como se lê em Obsessão, a canção de Abertura, Cotrim não desfalece na busca de contacto, da abertura ao outro, dessa energia trasladada em, ainda que não permeada de sossego:
«falas do mundo
ao ouvido leitoso da braguilha
oiço
eis o que sussuras:
(seio seixo seiva)
nenhum oceano pode ser pacífico».
Esta crença de um contacto, mesmo que num oceano nada pacífico, é o que leva também a confiar na inteligência do leitor e à aposta de uma poesia de «liberdade livre» intempestivamente inactual:
«Nunca antes
da melanoite
esmaga o trocadilho pelo riso
erguendo copo que não aviva a
chama
por mim saxofone amachucado
reza
a noite
tu o descobriste
faz-se fundo de camisas enxovalhadas» (pág. 46)
Aparentemente nenhum sentido absoluto conduz estes versos/partículas para um plano/mensagem comum ou agregadora. Por esta razão, o poema oferece-se à colaboração associativa do leitor. E claro que, se o poema surde da contaminação expansiva da imagem de Alex, só se completa no espírito do leitor.
É preciso aceitar o jogo. E num tabuleiro destes, é um gozo.
Alto. Uma galinha sai debaixo do Pajero estacionado a três metros da esplanada em que me sento. Vem uma tia de capulana, agarra-a com a facilidade de quem a hipnotizou de nascença e, à falta de melhor instrumento, dá-lhe com o tijolo em que se sentava na cabeça. Lá vai a ave, trespassada a alma, sob o sovaco do comprador, a gotejar sangue. Ao meu lado, uma criança, impassível, boceja e depois exige à mãe, quero uma tosta mista. O Alex e o Cotrim adorariam esta simultaneidade trágica-cómica. Terrível como aquela passagem onde Zaratrusta lembra que «para ser a criança que volta a nascer, para ser isso, o criador tem mesmo de querer ser também a parturiente e as dores da parturiente».
É o que me lembra este livro: a experiência da parturiente, e as suas visões na dor que são o trânsito para a mais excelsa alegria.
Peço outro café, reabro Má Raça. Leio:
«As nuvens foram coladas com fita
palco de teatro suspenso no terror
e nisto de ventos não anunciados
soltas o cabelo polvo
de modo a encher a noite de cata-ventos
puxando pelo peso o gesto pluma
a pisar sem esforço o horto inútil
escalando o amanhecer dos mapas reunidos e
amarrotados do sorriso
ofensa e desafio.
Os nimbostratos deixaram-se ficar quedos.» 
Tão forte e tão simples, culto e despojado como é predicado de poucos, desarticulador ao ponto de lembrar uma colagem, mas com um particular sentido cénico que nos devolve às emoções.
Má Raça. Eu quero este livro para mim.
Má Raça, que raiva não o ter escrito.
Que bom ser do Cotrim, este livro inesperado, em que os instintos não estão clivados.


 

quarta-feira, 7 de março de 2012

OITO PIQUENOS RETRATOS DESENHADOS POR WOODY ALLEN...

para o Paulo José Miranda, um amigo que reencontrei, à memória dos nossos almoços no Palmeira

OITO PIQUENOS RETRATOS DESENHADOS POR WOODY ALLEN NA TOALHA DO CAFÉ ROYAL
1
Desalmadamente redonda, estrábica melancia.
Acena para a empregada e tenta varrer com a língua
o creme da bola de Berlim que lhe esborrata o canto
da boca, antes de se fazer notar, e mimar
em silêncio: traazzz-me o miil-folhas! Depois
volta deliciada a passar com os pomos
dos dedos pelos membros em falta
numa reprodução da Vénus de Milo.
2
A mosca ronda-lhe, erradia, o apêndice
nasal, onde em vão procura rima.
Ali só vespa. Quiçá uma pena de avestruz
com duas bombas-relógios no cálamo,
uma por cada narina. Aspira e a memória
de todo o rapé do mundo treme, temendo
que lhe caiam dos olhos untuosos as meninas.
3
África inteira se admira do tamanho
da cachimónia que sustenta, num esfiapado
equilíbrio, no alto do cocuruto,
o pequeno cofió. Brandos suores.
É um café duplo, pede, a boca em ó,
enquanto a testa se lhe franze
em deliciosos vermes brancos.
4
Bolinhos com sementes de papoula,
cogumelos em salmoura…
o que eu não dava para amortecer
o frenesim da bela trintona
que tem um escorpião tatuado
no ombro, o qual pulsa quando ela ri.
5
Seguiu-lhe com o nariz telescópico
o corpo extensamente perfumado
como se em vagares de tarântula
abrisse todas as gavetas de uma escrevaninha.
 
6
Empina as bochechas no interior da boca
com a língua (lavorare stanca):
o caso é bicudo,
o Arsenal marcou um golo.
7
E quando levamos o telefone à orelha
para verificar que era o alarme a tocar?
Comigo é mato, recosto-me a ler
e disposto a uma sesta marco a hora
da espertina mas sou cavalgado
pelo entusiasmo e esqueço-me de Morfeu.
Quando o animal toca, atendo, ‘ alô!’
Mas no Royal conheço quem o faça
por método. Liga o alarme e a meio da bica
ele toca. Três, quatro vezes, atende, ‘alô!’.
Depois sorri para o desconhecido do lado
e comenta, ‘é engano!’. Fá-lo todos os dias
à mesma hora. Pitágoras tinha uma coxinha
de ouro que acordava um sururu
nos anfiteatros, este tem uma beiça de prata
que refulge um pouco antes de proferir
´é engano!’ e lhe ficar pendida no peso
da última sílaba a laje da solidão. 
8
É uma mesa lauta de anedotas picantes.
Elas fingem que bocejam.
Uma delas travejou nos soluços.
Uma miúda ao fundo da mesa,
nitidamente deslocada, d’olhos
esbugalhados, estica o pescoço de garça
para elevar as orelhas ao céu
mas de vez em quanto ondeia-lhe
uma ervilha na garganta, como se engolido
tivesse a piquena cabeça de um leão.