segunda-feira, 17 de setembro de 2012

PALAVRAS SOB AMEAÇA



Roger Caillois estabelece uma diferença entre o maravilhoso e o fantástico que me agrada. Diz ele que o maravilhoso exclui o mistério, pois sendo tudo possível nesse regime narrativo o enigma não tem aí lugar. Pelo contrário o fantástico ocorre quando algo que não se deveria passar eclode, contra a plausibilidade.
Por um motivo semelhante sou bastante insensível à animação, que me enfastia de morte. O facto daí tudo ser possível mata o drama e, em mim, qualquer interesse. De igual modo permaneço indiferente à onda de filmes inspirada na Marvel ou em heróis da BD. O Spirit, por exemplo, foi das maiores chumbadas que vi na vida; espantosamente gráfico o filme desperta-me o mais acentuado bocejo. Dura cinco segundos a morte em Spirit, depois o corpo cospe-lhe as balas e sara-lhe as cicatrizes, e apanho-me a pensar no Sporting-Marítimo ou como sou (é de sempre) tacanhamente realista: sem conflito, sem obstáculos, sem risco, medo ou superação, enigma ou mistério, sou incapaz de retirar qualquer gosto de um filme. Por muito aparatosos e fantásticos que ache alguns dos filmes do Batman, por exemplo, só os olhos desfrutam, o coração fica-me seco, incapaz de despertar um grama de emoção, à parte de qualquer identificação. Se um drama bem arquitectado, com três, quatro personagens, arranca-me lágrimas, diante do Capitão América choro o dinheiro gasto em tamanha patetice. Nem o Spiderman, o meu favorito na adolescência, me escapa a este sentimento de ser póstumo ao cinema que amei.

 
Voltinha para esmoer o jantar pelas ruas arborizadas de Sommerschield, em cujas vivendas o poder económico da cidade campeia. É a Restelo da terra. É um regalo ver como metade dos guardas destas vivendonas, fardados, sentadinhos à porta de casa do patrão, cochilam. São personagens do Vale Fértil dos Mandriões, do Cossery, obedientes à ocupação de passar pelas brasas, no seu posto, até que o sol desponte. Paradoxos da Indústria da Segurança: instala, com a ajuda “desinteressada” da comunicação social, a paranóia numa cidade que, pelo menos no seu centro urbano, é relativamente tranquila, se comparada com as médias africanas, e depois dá rédea solta a um exército de sonâmbulos. E quem não se sente mais confortável com um donzel  adormecido a guardá-lo, um homem treinado, com cassetete, pistola e algemas, que só dos pesadelos tem medo?
No meu prédio, na Coop, bairro contíguo à Sommerschield, havia dois elevadores. Mas um foi roubado por inteiro: o motor, a caixa, os cabos. Desmontado por ladrões e levado peça a peça à vista dos cinco guardas do prédio. Garbosos guerreiros a quem a tsé-tsé diminuiu? Tivessem os académicos imaginação, e já de há muito os antropólogos teriam recolhido os sonhos destes guardiões timoratos.
Imagino o percurso: primeiro pastor, habituado a refugiar-se do leão em casa de caniço com porta de madeira; depois a cheia atira-o para a cidade onde um primo distante se apieda e lhe arranja uma cunha na firma de segurança onde a namorada é secretária. Seguem-se então os rudimentos de treino militar. Em poucos dias fica preparado para a sua vida na cidade. É-lhe confiada uma vivenda, são-lhe apresentados os seus distintos donos, que nunca lhe aprenderão o nome e lhe concedem um banco ou uma cadeira e plástico, de forma a que não fique toda a noite de pé. Ele agradece. Tendo já toda a gente da casa regressado, coloca-se de costas para a faustosa vivenda de que esporadicamente só conhecerá a copa, e sente a noite quente embeber-lhe as omoplatas enquanto lentamente uma côdea de sono lhe tira a barriga de misérias. 
Feliz a cidade a quem se pode chamar A Coleccionadora de Sonhos.
 

Do delicioso livro de Alberto Manguel, No Bosque do Espelho, comprado em saldo, em Maputo, por três euros, saco este trecho: “A mitologia pobre do nosso tempo parece ter medo de ir além da superfície. Desconfiamos da profundidade, rimos da reflexão dilatória. Imagens de horror passam rapidamente pelas nossas telas, grandes ou pequenas, contudo não queremos que a sua velocidade seja diminuida por comentários: queremos ver os olhos de Gloucester arrancados, mas sem ter de assistir ao resto de Rei Lear. Uma noite, há algum tempo, estava vendo televisão no quarto de um hotel, zapeando de canal em canal. Talvez por um acaso, cada imagem que ficava na tela por alguns segundos mostrava alguém sendo morto ou espancado, um rosto contorcido de agonia, um carro ou um prédio explodindo. De repente, dei-me conta de que uma das cenas pelas quais eu passara tão rapidamente não pertencia a uma série de ficção, e sim ao noticiário sobre a Bósnia. Entre outras imagens que diluíam cumulativamente o horror da violência, eu vira, sem me emocionar, uma pessoa de verdade sendo atingida por uma bala de verdade.”

 
Maputo, a de longas avenidas, como os dedos dela.
O Expresso pára próximo do Mimmos e de imediato retine em mim o apetite de um bife em sangue e uma caneca gelada.
Sento-me na cervejaria e o cansaço borbulha, começa a varar o corpo, a subir pelas pernas. Bebo a caneca em dois tragos e peço outra.
Na mesa da frente uma ruiva magra como um galgo, sofre a fustigação de uma negra, de grande envergadura, que lhe quer mostrar como fala bem a língua dela – o inglês – e lhe despeja à fraca figura frases sobre frases, sem tomar o fôlego. A outra equilibra-se na conversa como pode, visivelmente cilindrada pelo ímpeto da outra.  Conheceram-se pela Net e é a primeira vez que se encontram. A moçambicana está decidida a tomar a ruiva como cunhada e martela-a com o extenso rol das qualidades dos irmãos. Numa pressão que encolhe a esgalgada na cadeira. Ao fim de meia-hora a negra faz-lhe um reparo:
- Mas estamos aqui há uma hora e ainda não sei nada de ti.
A outra balbucia qualquer coisa, timidamente, e a negra retoma a palavra:
- Deixa lá, o melhor é irmos para casa que temos de preparar o teu quarto. Vamos, para conheceres os meus irmãos. Mas primeiro deixa-me fazer uma oração pela nossa amizade.
- Uma oração... - pergunta a pobre, desconcertada.
- Uma oração. Nós somos muito religiosos. Não te importas?
- Não... – gagueja a ruiva.
- Óptimo... – mete as mãos em prece e abre a torneira – Oh Lord, agradeço-te por nos teres trazido esta irmã, por nos brindares com a sua amizade como o maná no deserto, e que, oh Lord, ela encontre no nosso lar o seu refúgio e a inspiração para superar as provações que a vida lhe dará, mas, Oh Lord, sê suave e benevolente com ela, e com o meu irmão Jacques que alimenta muitas esperanças nesta amizade, e Oh Lord, não tragas tormentas onde os caminhos são de flores para colher...  
E a oração prossegue infindável, por dez, quinze minutos, num entusiasmo que lhe foi avolumando o tom da voz. A ruiva está um feixe de vergonha, encarquilhada num silêncio crescente, tubular, à medida que a amiga percute os seus «oh Lord» nos tímpanos da cidade, e as supostas palavras de gratificação e benignidade se espalham como lava quente sobre os demais murmúrios da cervejaria, no pé ante pé com que se arredonda o ziguezaguear dos empregados.
Quando acaba, salta da cadeira no mesmo lance e arrasta a amiga consigo.
Uma das empregadas está siderada. Uma miúda dos seus vinte anos, com tudo intacto. Uns dedos compridos, como as avenidas de Maputo. Entreolhamo-nos e ela ri-se. Aproxima-se:
- Que bom, ainda haver pessoas assim.
- Bom, isso teríamos de saber mais qualquer coisinha... pode ser muito boa na oração e ser uma grande, grande pecadora...
- Não... o senhor brinca, vê-se que é uma cristã...
- E isso tem uma grande importância?
- Para mim, sim.
- Então qual é a sua igreja...
- A Igreja Universal.
- Ah, uma vez assisti a uma missa das vossas...
- Onde...
- No Cinema África, está a ver ao tempo...
- Então está cá há muito tempo.
- Não, estive cá há dez anos, e agora voltei... para ficar.
- Não me diga que agora vou ver sempre esta cara-linda...
- A cara-linda é comigo? – insisto, surpreso.
- Claro.
- Mas vocês julga que não sei o que é uma ruína?
- Cada idade tem a sua beleza...
Já sabe tudo sobre o comércio de Deus. Hei-de voltar.

 
«O simples é sempre alguma coisa que difere por natureza»: já não me lembro de onde saquei este aforismo, que agora pesquei de um caderno, mas continuo a gostar disto.

 

domingo, 16 de setembro de 2012

CANÇÃO PARA UM BIFE MEU AMIGO

                         a Jade, ainda estupefacta, a meditar nas letras de canções que o pai fez

Entreguei algumas letras para canções ao músico moçambicano Chico António - vamos ver o que dará esta nossa colaboração.


O CORAÇÃO PISA UMA MINA

Não te deixes desaparecer.
Sempre que te vejo
o coração pisa uma mina
e não há como esquecer
 
que fui seixo e relampejo 
e fio de sangue na tua sina
que os frutos me deixam
louco, depois de te ver.
                                                                    
Mão que abandonaste
esbraseia o mar num calafrio
lábios no teu guindaste
ganharam mau-feitio.
 
Não te deixes desaparecer,
o coração se pisa a mina
não há como esquecer.

 

CANÇÃO PARA UM BIFE MEU AMIGO
 
Nunca o sol me ladrou
desde que nasci.
Importas-te? O preto fica pra ti,
eu sou da cor que deus me dou,
 
E tu és da cor que deus te deu.
Não eu, mas a luz
que nos põe bonitos,
dois valdevinos em Vera Cruz.
 
Vem, vem ter comigo,
essa dor que trazes contigo,
é a sede que nos comeu.
Vem, vem ter comigo.
a trilha que agora sigo
veio da ferida que nos fendeu.
 
Mas digo e sei que mariola
não tem cor, quem pisa o pé
escolhe com  quem não bebe capilé,
e como família só tem a mola -
 
E mais: nunca o sol me ladrou
desde que nasci.
Importas-te? O preto fica pra ti,
eu sou da cor que deus me dou!
 
Não esperes, vem, vem comigo cantar
esta canção que uma gaivota
trouxe do mar
onde quem tchova
 
é o vento, o salpico e a lua
e o gosto de estar junto
em trabalho e na gazua
entre amigos, sem o assunto

que antes fez tanta treva. Este
é um atalho sem má erva
e que nos livra da maldita
que só tem memória para a chita

a que de tanto ressentir à pressa salta,
à toa. Antes o leão,
molengo, até um pouco à balda,
que vai no seu ritmo e em compaixão
 
mata. Pois cínicos não somos,
nem tu és, meu irmão. Cínico
é quem de mariola
já só pensa na mola. Por isso,
  
te digo, nunca o sol me ladrou
Desde que nasci.
Importas-te, o preto fica pra ti,
eu sou da cor que deus me dou
 
Vem é comigo apanhar sol
à Costa do Sol, beber uma beer
e olhar a luz que deus nos deu
e que nos faz iguais ser.
 
Vem, vem ter comigo,
essa dor que trazes contigo,
é a sede que nos comeu.
Vem, vem ter comigo.
a trilha que agora sigo
veio da ferida que nos fendeu.



Sinto-me um bocado idiota depois de ter revisto o filme sobre o Cole Porter, com Kevin Kline no papel do compositor, e de ter ficado estarrecido com a qualidade daquelas letras, absolutamente estonteantes. Mas enfim, foram as primeiras... há-de a coisa melhorar.

sábado, 15 de setembro de 2012

CEGOS À FORÇA

                                                                            matta

Há um certo ar do tempo que aparentemente actualiza algumas premissas do Existencialismo e que leva a que neste momento se “recupere” Camus, por exemplo. Está de novo na moda.
O século XX desenvolveu um tipo de pensamento e de concepção moral que prescindiam do recurso a uma instância superior, a Deus, ou a outras abstrações ideológicas. Durante algum tempo funcionou, embora isso significasse que o homem estava face a face com aquilo a que Camus e Sartre apelidavam de “a medonha liberdade”.
“Não há mais homens culpados, escreveu Camus, mas apenas homens responsáveis”. Esta asserção pareceu uma coisa prometedora quando foi pronunciada.
Setenta anos depois estamos na ressaca da liberdade e o tema dominante é “a segurança”. Mesmo o debate em torno da “segurança social” e da salvaguarda das “reformas” prende-se no fundo a uma necessidade de manter uma certa margem de previsibilidade na projecção do (meu) futuro. É evidente que a questão dos “direitos sociais adquiridos” deve ser considerada mas ao fundo de tudo, no ADN, digamos, existe o medo a ser sem rede. 
E hoje volta o que, afinal, nunca foi superado mas esteve apenas recalcado: incapaz de suportar a incerteza ou a responsabilidade diante da incerteza o homem – cansado dos horrores e da falta de grandeza de que tem sido capaz sem Deus (exactamente do mesmo quilate das vilezas cometidas com Deus) – quer de novo recair nos padrões pré-estabelecidos, abandonando-se ao desfrutre dos estereótipos postos à sua mão de semear – religiosos, políticos, filosóficos, e assim por diante.
Qual o melhor instrumento para este retorno à “segurança”?
O airbaig que “a cultura de massas” nos oferece, com a ilusão de que somos todos semelhantes e temos acesso a um igual repertório de estereótipos e a as redes sociais, onde reagimos sincronizadamente, em interacção, como os cardumes. O sentimento de pertença a um padrão de gosto universalizado ou “especializado”, são as duas faces de uma mesma ilusão, a que nos vai valendo na aflição de nos queremos cegos à força. “Cultura de massas” e Facebooks vivem num «imaginário de aliança» (e é brutal constatar que um imaginário de aliança se difunde num momento em que os desequilíbrios económico-sociais se institucionalizam com o triunfo neo-liberal) e por isso uma das palavras que o representa é o verbo “Partilhar”.
Partilhar gostos, preferências, com manifesta bondade, criar comunidades é uma espécie de comunitarismo licorizado que nos apraz.
A esta busca de unanimidade chamava Camus «o suicídio filosófico».

 

Bion, o psicanalista, descartando-se da ideia de funcionar como “guia” para a orientação dos seus pacientes: “… não acredito que eu saiba conduzir nem mesmo a minha própria vida. Muitos anos de experiência me indicam que continuo existindo mais por sorte do que por julgamento – esta é a única forma que posso colocar…”
Espantosa honestidade de um dos grandes psicanalistas do século XX, o britânico Bion, mas imagino o susto do paciente ao enfrentar tais convicções do seu terapeuta.
E o meu ao constatar que continuo a existir mais por azar que por julgamento.

 

«Com muita frequência, acaba sendo danosa a persistência e sobrevivência de atitudes morais que em alguma época podem ter sido valiosas. Por exemplo, posso ver que o patriotismo poderia ter sido uma característica valiosa; foi com certeza importante, nalguma época do desenvolvimento da pessoa, que ela aprendesse a ser leal para com os seus contemporâneos.Só que também penso que você pode chegar a uma época na qual esta formulação, possivelmente valiosa no seu momento, se torna inapropriada caso persista além do período durante o qual a formulação e o seu contexto se equiparavam. A persistência de tal moralidade pode ser perigosa...», diz Bion.
Que falta faz isto ser percebido por uma certa elite africana que faz da «tradição» um finca-pé- boto.
 

A facilidade com que ouço dizer que as crianças de hoje estão mais atentas, estão mais conectadas, aprendem mais rapidamente e sobretudo manejam as tecnologias com uma habilidade inigualável. Tudo isto é verdade e não é, simultaneamente. “Cresceu” de facto a inteligência, se a tomarmos no seu sentido pejorativo, como a nossa capacidade para “aprender truques”.
Mas para além da assustadora redução no espectro do vocabulário que encontro na maior parte deles, em raros jovens muito informados e especializados em determinada área encontro eu uma poética que filtre e traduza uma expressão para a sua leitura da realidade. 
São tremendamente informados e tremendamente passivos.  

 
A resposta é o infortúnio da pergunta, Maurice Blanchot

 
Para Agostinho o mundo inteiro saiu das mãos de Deus e por isso é «belo» no conjunto. Agora há que poder conhecê-lo e experimentá-lo, e isto somente se consegue quando o homem se “converte” em Deus, a partir do seu próprio interior. Só despertando esta empatia aflora nele a capacidade para descortinar também a beleza na ordem exterior – e a arte teria esta faculdade.
As belezas da arte seriam então a correspondente resposta à beleza da criação.
Sigo o que escreve Safranski no seu livro sobre O Mal. Onde também aponta que este enlace não se daria sem dificuldades e terrenos pantanosos, segundo Agostinho.
Uma das ambiguidades derrapantes associa-se ao problema do desejo, pois se nos aproximamos das coisas pelo ângulo do desejo, a beleza escapa-se-nos. Simplesmente, para o desejo o mundo transforma-se num obscuro objecto e o obscuro objecto do desejo não nos permite uma atitude estética – a reserva de nos distanciarmos. O desejo devora, aquele que deseja é devorado pelo objecto que deseja.
É este o tema de Esse Obscuro Objecto do Desejo, de Buñuel, afinal uma fita agostiniana, com as suas duas actrizes a representarem o mesmo papel – Carole Bouquet e Angela Molina.
O filme adapta um livro do herético e pornógrafo Pierre Louys o que torna a associação mais picante.
E o relevante é o que conta o próprio cineasta, quanto à forma como o filme foi recebido: «Ao princípio eu dizia, Vão pensar que são duas pessoas diferentes. Mas não, o público percebeu-as como não fazendo senão uma. O que prova bem que há no cinema qualquer coisa da ordem do hipnotismo». Foram também os espectadores devorados pela instigante e perturbadora flutuação de carácter que aquela mulher parecia ter e que a tornava tão irresistível? O desejo devorou-lhes o discernimento, o recuo para a gravitação estética.
Mas há uma outra característica referente à arte que Agostinho e refere e onde desta vez sou eu que me sinto em consonância. A arte, para Agostinho, conserva a dignidade do mundo e faz com que as coisas sejam: “A obra de arte não pesca no turvo, antes atravessa o formigueiro do mundo para deixar que se faça transparente a ordem fundamental ali subjacente”.

 
Roberto Matta, o meu pintor favorito, conta a sua visita a Mondrian, em Nova Iorque.
Ao chegar ao atelier, cruzou com uma senhora que ia a sair.
Mondrian recebeu-o e preparou-lhe um chá. Era um homem taciturno e solitário, de óculos. Matta pelo seu lado – alegre e expansivo – deu-se conta de alguma perturbação no mais velho e pediu-lhe que lhe explicasse as razões.
- É por causa da mulher que acabou de sair – disse-lhe Mondrian – pôs-se a dizer, por que há tantas linhas rectas nos seus quadros?
Matta não disse nada. Então perguntou-lhe Mondrian:
- Onde vês tu, essas linhas rectas nos meus quadros?
É Jean-Claude Carrière quem conta esta belíssima história. Para concluir:
«Trata-se de uma história exemplar que podemos aplicar perfeitamente ao cinema. Que é que Fellini não vê nos seus filmes que outros, sim, veem? E Kurosawa? E Bresson? E Kubrick?»
Eu acho que se aplica a todos os campos. O que é que é cego para si mesmo em todos os criadores? Não será essa a parte mais autêntica neles? A que aflora e insiste, como um nó, apesar de invisível para o autor?
A mim sempre me chamaram hermético. Desde que escrevia artigos para os jornais. Nunca entendi porquê. Mas como deixar de ser cego sobre nós mesmos? Como deixar de ser invisíveis ao nosso próprio olhar? 


sexta-feira, 14 de setembro de 2012

E QUE BATA UMA ARAGEM...


Num almoço agradável com vários convivas ouço uma amiga, que se assume como Espírita, a explanar sobre as particularidades da sua crença, de uma forma serena e equilibrada, diria até, sem ponta de “irracionalismo”. Discorreu longamente e de uma forma isenta, destituída de qualquer presunção fanática. Inclusive pensei, “aqui está um caso de alguém a quem a crença trouxe ponderação!”. E esta é, infelizmente, uma aliança difícil de detectar, quando devia ser natural.

Só a dado momento lhe sai uma frase que me horroriza. Diz, “não existe acaso, nada acontece por acaso!”, e entrevejo ali as fauces vorazes do holismo, a teia que oprime. Porque o holismo tem uma vertente patológica como todas as coisas boas, um lado de sombra.

Vou dar dois exemplos: no hinduísmo há uma menor sensibilidade aos problemas sociais porque se aquela criança sofre nesta vida isso é apenas a expressão da rigorosa simetria kármica, sendo um efeito dos actos cometidos pela criança na vida anterior.

Em África não se aceita que a morte possa ter sido acidental, e muitas mulheres são acusadas pela família do morto de terem causado a morte do marido, num acto de manifesta demência, e, na flagrante maioria dos casos, com uma enorme injustiça para a esposa – loucura que se dissemina e
infiltra no tecido social.

O Budismo introduziu a Compaixão e o Cristianismo a Caritas para tentarem romper com esta lógica, mas em muitas outras crenças e religiões a gaiola das causalidades prevalece sobre a sensibilidade à experiência, à necessidade de responder ao agora.

É uma lógica tremenda que transforma o mundo num palco platónico, onde não passamos das sombras de algo – uma lei inextricável, entidades, do nosso próprio destino -, num determinismo que calcina todas as singularidades mas que estranhamente fascina.

A conquista da modernidade ancorou na conquista do acaso e do aleatório, subtraindo as incidências de uma vida a esse determinismo feroz que encerrava o mundo numa teia. Quando a Renascença libertou o corpo da influência dos astros esse foi um momento em que a sexualidade se aliviou das culpas e em que o individualismo e a sua volição puderam emergir.

Há uma inequívoca implicação moral na frase “não existe acaso, nada acontece por acaso!”, que devia funcionar como chave para o auto-conhecimento e o auto-juízo, o problema é que, de comum, essa frase é manejada para se buscar uma razão para as coisas no exterior a nós, no outro. É um álibi.

Corre hoje no mundo uma tentação holística, como na Idade Média houve uma tentação satânica, sem grande reflexão sobre as suas consequências. Porque não basta queremos ligar tudo numa corrente de afecto. Até pelo mais inesperado: o próprio afecto pode matar.

Mas dou conta graças aquela mulher culta, equilibrada, inteligente, que “o combate” se deslocou no início deste século.

Um dos grandes equívocos do século XX foi a falsa dicotomia entre «racionalismo e irracionalismo», debate que se estendeu a todos os campos, inclusive à arte. Primeiro, confundia-se racionalidade (o lado positivo da razão) com racionalismo (a feição patológica da razão), e articulada nesta falta de discernimento confundia-se irracionalismo com liberdade. Quase toda a arte do século XX, com o Surrealismo à cabeça, laborou neste erro.
A falácia ainda existe apesar de se ter consolidado por toda a parte a emergência do «Irracionalismo» e as consequentes correntes relativistas que se lhe seguiram.
Mas no essencial muito do que se passou no século XX girou em torno desse choque entre dois
paradigmas: Racionalismo versus Irracionalismo.

Agora, verifico, há que salvar a indeterminação, o acaso, o aleatório da terrível tentação da gaiola das causalidades. O holismo, na sua feição patológica, pode ser o  reducionismo que se põe a jeito como uma nova «narrativa escatológica».

Será «por acaso» que o holismo emerge no momento em que o neo-liberalismo e o seu cínico desprezo pela pessoa humana sitia tudo, todas as liberdades, todos os direitos adquiridos?

A consciência holística trouxe de positivo uma maior consciência ecológica mas seguido com rigor escolástico abafa a realidade sob a manta de um determinismo que é muito mais do que incómodo: todas as grandes ideologias autoritárias são holísticas.

A minha amiga saberá conjugar a sua crença holística e transpessoal com a liberdade e a responsabilidade que cada momento nos pede – mas quantos farão a destrinça, ao abrigo de uma Lei que tudo explica e abarca?
Quantos não se abandonarão ao que é?

A consciência do indeterminado traz a consciência trágica, como o sabiam os gregos, mas traz também o arbítrio e a coragem da decisão.
E disto não poderemos abdicar.

Para além disso, como mostra Drummond no poema "Quadrilha", de Carlos Drummond de Andrade:

 João amava Teresa que amava Raimundo
       que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
       que não amava ninguém.
       João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
       Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
       Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
       que não tinha entrado na história.
a Realidade corre sempre por fora da pista, na plena exterioridade aos nossos conceitos. É o que nos vale – há sempre um J. Pinto Fernandes a despontar no exacto momento em que julgávamos ter as coisas sob controle.  

 

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

CABRAL E MACBETH: VASOS COMUNICANTES



O poema chama-se Uma Faca Só Lâmina, e sempre me fascinou.
São 87 quadras, divididas em 7 secções.
Vou transcrever algumas, o começo e outras quadras:

«Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;
(…)
qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto
 
de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra os seus próprios ossos.

A
(…)

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados

é a lâmina cruel

(melhor se de Pasmado):

(…)
nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega

que a imagem de uma faca

reduzida à sua boca
 
que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B
(…)
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e vive a se parir

em outras, como fonte.

C
(…)
O importante é que a faca

e o seu ardor não perca

e tampouco a corrompa

o cabo de madeira.

(Veja-se a felicidade destes versos que sublinho:)
D

Pois essa faca às vezes

por si mesma se apaga.

É a isso que se chama

maré-baixa da faca.

(…)
 
I

Essa lâmina adversa
como o relógio ou a bala,

se torna mais alerta

todo aquele que a guarda,
 
sabe acordar também

os objectos em torno

e até os próprios líquidos

podem adquirir ossos.
 

E tudo o que era vago,
toda frouxa matéria,
para quem sofre a faca
ganha nervos, arestas.
 

Em volta tudo ganha

a vida mais intensa,

com nitidez de agulha

e presença de vespa.
 
(…)
De volta dessa faca,

amiga ou inimiga,

que mais condensa o homem

quanto mais o mastiga;

 
de volta dessa faca
de porte tão secreto
que deve ser levada
como o oculto esqueleto;

(…)»
Já adivinharam. O poema é do pernambucano João Cabral de Melo Neto.

O que não era adivinhável era o pulo que eu dei quando ao preparar uma aula sobre o Macbeth deparo com o monólogo do Macbeth, que antecede o assassinato que perpetrará sobre Duncan, o rei. No segundo Acto, cena 1.
Na penumbra do seu quarto de castelão, Macbeth, contíguo ao do rei, seu convidado, é varado pela premonição das bruxas, e vê de repente o punhal que no escuro brilha para ele - «com o cabo dirigido para mim», acentua.
São trinta e duas linhas em que assistimos à convulsa metamorfose de Macbeth em homem-faca, ou em faca-só-lâmina: o oculto esqueleto.
Só Cabral poderia responder se o seu poema irradiou do contacto com este monólogo de Macbeth, ou se é apenas uma coincidência, mas existem sinais de engarrafamento na auto-estrada que os une.
Talvez Macbeth, que não dormia, o tivesse soprado a Cabral num sonho.
Batam sinos.