quarta-feira, 7 de março de 2012

OITO PIQUENOS RETRATOS DESENHADOS POR WOODY ALLEN...

para o Paulo José Miranda, um amigo que reencontrei, à memória dos nossos almoços no Palmeira

OITO PIQUENOS RETRATOS DESENHADOS POR WOODY ALLEN NA TOALHA DO CAFÉ ROYAL
1
Desalmadamente redonda, estrábica melancia.
Acena para a empregada e tenta varrer com a língua
o creme da bola de Berlim que lhe esborrata o canto
da boca, antes de se fazer notar, e mimar
em silêncio: traazzz-me o miil-folhas! Depois
volta deliciada a passar com os pomos
dos dedos pelos membros em falta
numa reprodução da Vénus de Milo.
2
A mosca ronda-lhe, erradia, o apêndice
nasal, onde em vão procura rima.
Ali só vespa. Quiçá uma pena de avestruz
com duas bombas-relógios no cálamo,
uma por cada narina. Aspira e a memória
de todo o rapé do mundo treme, temendo
que lhe caiam dos olhos untuosos as meninas.
3
África inteira se admira do tamanho
da cachimónia que sustenta, num esfiapado
equilíbrio, no alto do cocuruto,
o pequeno cofió. Brandos suores.
É um café duplo, pede, a boca em ó,
enquanto a testa se lhe franze
em deliciosos vermes brancos.
4
Bolinhos com sementes de papoula,
cogumelos em salmoura…
o que eu não dava para amortecer
o frenesim da bela trintona
que tem um escorpião tatuado
no ombro, o qual pulsa quando ela ri.
5
Seguiu-lhe com o nariz telescópico
o corpo extensamente perfumado
como se em vagares de tarântula
abrisse todas as gavetas de uma escrevaninha.
 
6
Empina as bochechas no interior da boca
com a língua (lavorare stanca):
o caso é bicudo,
o Arsenal marcou um golo.
7
E quando levamos o telefone à orelha
para verificar que era o alarme a tocar?
Comigo é mato, recosto-me a ler
e disposto a uma sesta marco a hora
da espertina mas sou cavalgado
pelo entusiasmo e esqueço-me de Morfeu.
Quando o animal toca, atendo, ‘ alô!’
Mas no Royal conheço quem o faça
por método. Liga o alarme e a meio da bica
ele toca. Três, quatro vezes, atende, ‘alô!’.
Depois sorri para o desconhecido do lado
e comenta, ‘é engano!’. Fá-lo todos os dias
à mesma hora. Pitágoras tinha uma coxinha
de ouro que acordava um sururu
nos anfiteatros, este tem uma beiça de prata
que refulge um pouco antes de proferir
´é engano!’ e lhe ficar pendida no peso
da última sílaba a laje da solidão. 
8
É uma mesa lauta de anedotas picantes.
Elas fingem que bocejam.
Uma delas travejou nos soluços.
Uma miúda ao fundo da mesa,
nitidamente deslocada, d’olhos
esbugalhados, estica o pescoço de garça
para elevar as orelhas ao céu
mas de vez em quanto ondeia-lhe
uma ervilha na garganta, como se engolido
tivesse a piquena cabeça de um leão.

terça-feira, 6 de março de 2012

PROSA EM LINHA RECTA


                                                              o meu próximo adversário

                                                            para o meu amigo  Amadeu Baptista, que deseja tanto
 A preparar aulas, fazendo anotações sobre a noção de jogo em Nietzsche, Huizinga, e outros, dou conta de que sou um miserável santorrão.
Em miúdo movi uma guerra surda contra o meu pai que me queria um desportista ferrenho (Cristo nas argolas, chave de braços no tapete) e impiedoso. Competitivo, portanto. Eu, de propósito, apesar de um jeito danado, traía-lhe todas as esperanças. Cheguei a perder um combate de judo por sornice numa competição nacional por equipas, contra um cinto amarelo, eu que já passara no exame para azul, o que provocou a fúria do meu treinador e dos meus colegas. Mas tinha um encontro com uma miúda às 18h e queria era despachar o serviço, mesmo que para isso a equipa precisasse de perder um lugar no pódium. Nunca me galvanizaram os pódiuns. Foi a morte do artista, em casa o meu pai cortou-me o quimono às tesouradas e eu rejubilei.

Irrespondivelmente parasita.

Odiei sempre o espírito competitivo, o sacrifício de fazer três horas de treinos intensivos por dia para roubar duas décimas de segundo ao meu recorde pessoal. Odeio recordes, nunca me bateria à alcunha de seven up de que gozou um relevante poeta português por se gabar de “dar sete sem tirar”. Entrego-lhe já a medalha, do alto desta minha medida bonsai. Indesculpavelmente mole.

Nunca ganhei um jogo de xadrez. A minha mente dispara em anfractuosas divagações e esqueço-me sempre de proceder ao cálculo e de prever antecipadamente três jogadas do adversário.

Umas vezes aguentei 40 minutos à espera que o meu amigo Tinoco movesse a sua peça, até que, impaciente, sugeri, se quiseres levas o tabuleiro para a cama e amanhã prosseguimos. Retorque ele, sorvendo um enorme trago de s. domingos, “é a tua vez de jogar!”. Eu tinha um bispo, uma torre e dois peões de vantagem, mas fiquei tão envergonhado que perdi em três jogadas.

Nunca fui capaz de bater-me resolutamente por um texto, filme, ou livro, nas reuniões de redacções de jornais, a não ser que me tivesse previamente comprometido ou que fosse um caso de justiça a sanar. Os meus colegas, indómitos, trocavam encarniçados argumentos, eu apenas sorria. A partir de determinada altura eram eles que achavam que determinado espectro de obras ou de sensibilidade me era mais afim e eu acatava, descobrindo então com felicidade que podia deixar de ir às reuniões.

O jornal mandou-me para Berlim cobrir o Festival, fui incapaz de ver mais de dois filmes por dia, perto da sala principal do Festival ficava o zoo de Berlim onde podia ver os tigres a levitar na neve, o que me parecia muito mais estimulante; o resto do dia passeava, ia aos museus, comia nos turcos, uma semana depois descobri uma livraria hispânica onde comprei todo o Lezama Lima, todo o José  Emílio Pacheco, todo o Enrique Lhin, todo o José Donoso, e antologias, inúmeras. Passei a ir uma vez por dia ao cinema e passava os dias a ler no bar do Museu Erótico de Berlim, na mesma praça do Festival. Cheguei a Lisboa e fiz um trabalho igual aos outros, mas estava mais rico. E nunca percebi como se escolhe ir cinco vezes por dia ao cinema – acho que perderia a tusa por um mês. Apesar de não dar sete sem tirar seria um prejuízo.

Nunca consegui vestir a camisola de uma carreira, desejar uma subida hierárquica, nada – safar-me a tais desideratos e continuar com o meu dilatado tempo de ócio, constituía a minha cisma. Uma vez na rua fui incitado a fazer um teste de personalidade por um membro da Religião da Cientologia. O meu défice estava na responsabilidade, tinha um nível baixíssimo de sentido de responsabilidade. Ele explicou-me tintim por tintim como a Cientologia me podia melhorar esse item. Fugi imediatamente a sete pés, ainda hoje me meto debaixo da cama se vejo ao longe um apóstolo dessa raça.

Fui convidado várias vezes para o quadro de vários jornais e tratei sempre de falhar esse encontro com a História. No Expresso, em 18 anos, inviabilizei três convites.

A única coisa que me interessava verdadeiramente era abrir um livro de poesia, numa tasca perto do mar e petiscar umas enguias enquanto no livro achava um postigo novo para uma paisagem que me furtasse ao tempo, à morte, à inanidade das belezas imarcescíveis, porque do belo só me interessa o trânsito e a gratuidade das coisas esquecidas de si mesmo. Ou uma cena num filme que me transmita fugazmente o mesmo. Ou uma por outra erecção que me faça imaginar um fuste para uma garrida cotovia. Queijo, vinho, outro livro de poesia, alguma pintura, nada mais me interessa. E nem alguns enxovalhos me salvaram.

E assim ao contrário de todos os meus amigos da época, no começo da “carreira”, fui desbaratando o sucesso, tornando-me indiferente às suas sereias, ao meu lugar entre os iguais. E tantas vezes vil, literalmente vil, no mais mesquinho e infame da vileza. Eles fizeram bem, eu também fiz bem, à minha maneira.

Só lamento que isso fosse às vezes tomado por afectação e distância. Na verdade apenas nunca quis com força suficiente o mesmo que eles – eu só queria tempo, cheguei a reunir com três ou quatro criaturas parecidas comigo para fundarmos um Clube de Procastinadores. Para podermos fazer durar os intervalos. Esta foi a única chave que quis no bolso – e conto esta história no conto A Reunião de Condóminos, de Cegueira de Rios, publicado pela Relógio d’Água em 1995.

Mas agora fiquei chateado ao verificar que sou um santorrão. Porque descobri-me destituído de qualquer apetência para o jogo (às cartas já eu sabia, sou o pior parceiro do king, daqueles que nunca decora os naipes que saíram e não se importa de perder para ver a felicidade no rosto dos outros). Tive um sogro que foi jogador, viciado. Era um drama na família, eu nunca o julguei, e troquei vários cravanços por algumas histórias, nunca me fizeram espécie os desvios. Um dia já eu estava em África fui a Lisboa e fomos jantar. Ele insistiu em pagar, puxou duma nota de 500 euros, botou faladura de doutor, e deixou o dono do restaurante à nora, sem saber como arranjar troco àquela hora. Rimos como perdidos com o semblante do dito. Apeteceu-me dar-lhe um beijo pela rábula.

Ele jogava pelo jogo, absolutamente, para ficar encalhado nessa esfera extemporânea do tempo, se lhe calhava ter a sorte de ganhar derretia imediatamente o carcanhol numa nova aposta, só para voltar ao fluxo do jogo. Sempre o invejei, mas nunca fui com ele. E nos bingos e slots machines nunca gastei um tostão mais do que havia determinado. Amigos meus perdiam o ordenado numa noite, apesar dos esforços vãos para os arrancar dali. A mim nunca tal apelo me arrebatou, apesar dessa febre ser genialmente descrita em Dostoievsky ou em O Tufão, de Conrad. A aposta é-me um desígnio estranho.

O que faço é por aluvião, as coisas vão-se acumulando e às tantas sucede a enxurrada. Por inércia natural, purga, ou porque a realidade dos estratos me mudou.

A ambição nunca me excitou. O riso sim. Mas a “vontade de poder” não. Nem as suas marcas de reconhecimento me aquecem, antes me arrefecem num desleixo profundo. Devo ser o único mortal que fez uma viagem de quase 3 meses por algum oriente – Etiópia, Yémen (o que eu gostei da Arábia Feliz), Índia e Paquistão – e que não tem uma fotografia que o ateste. Não levei máquina nem comprei descartável. Na sequência, escrevi uma série para televisão – Os Mares da Índia, com o inefável e roufenho Miguel Portas como pivot - mas não tenho qualquer exemplar da série. Dei, para me esquecer. Uma década depois, em Madagáscar, onde passei três semanas a dar um Curso de Guionismo sim, comprei uma descartável – mas já perdi as fotografias. E como eu gostei da ilha, se pudesse mudava amanhã. 

Nunca aspirei a ter carro, uma aparelhagem de estalo, uma viagem a Nova Iorque. Fui uma vez a Paris, a minha mulher insistia em passear comigo no Jardim do Luxemburgo. Mas meti-me nas livrarias, gastei três mil e quinhentos euros em livros, e a minha mulher hesita em levar-me again à cidade luz. Só no avião de regresso dei conta de que não tinha visto a Torre Eifel.

Deve ser uma mola que tenho avariada.

Se acaso me despedem a minha primeira reação é prazenteira, secretamente felicito-me porque irei ter uma semana de dolce fare niente. Só depois, por obrigação familiar, me faço à vidinha. Sem grande convicção. Se vivesse sozinho não me custava admitir o destino de uma personagem de Beckett, despojado e contente, apesar de vagamente enredado na inquietação de saber quem fala no que falo.

Mas agora fiquei chateado com o que li sobre o jogo porque segundo a dicotomia nietzschiana, faltando-me o impulso para essa embriaguez dionisíaca, só me resta ser um moralista. Ora merda, haverá forma de me perdoar esta pessegada? E a minha mulher gostaria que eu fosse um bocadinho mais ambicioso. As minhas filhas gostariam que eu fosse um bocadinho mais ambicioso. Só eu me sinto um ensonado barbaramente ridículo por me deitar a dormir sempre que me apanho uma boa cama à mão – e aqui não há enguias, merda. Não haverá por aí quem me empreste umas anfetaminas? É que se não for isso, mesmo santarrão, mesmo moralista, temo que vá encolher os ombros, bocejar, e esquecer-me de dar a sentença.

segunda-feira, 5 de março de 2012

UM HERÓI PARA O NOSSO TEMPO

richard wilhelm

Tenho poucos heróis, gente com quem trocaria a sombra assim num estalar de dedos. O alemão Richard Wilhelm (1873-1930) é decididamente um deles. O tradutor do I Ching para o Ocidente é um homem duma grandeza moral só igual à perfídia de Rasputin, pois unicamente por absoluto contraste descortino um modo de lhe apresentar a dimensão.  Richard Wilhelm foi teólogo, missionário, e sinólogo, tendo vivido cerca de 30 anos na China e feito inúmeras e excelentes traduções de clássicos chineses. Mas o que suscita a minha incondicional admiração, ao ponto de o erigir como modelo de inexcedível urbanidade prende-se com o que dele conta Carl Gustav Jung: «... confessou-me uma vez: Dá-me uma grande satisfação nunca ter baptizado um chinês!». Ora aí está um espírito religioso para quem o múltiplo e o resguardo do outro é lei e que me merece o meu mais infindo respeito. 

domingo, 4 de março de 2012

MY PERSONAL ILUSIONIST



 Foucault aludia à sua ignorância socrática, essencial, com este dito airoso:"Eu não sei nada de mim: se nem sei a data da minha morte".
É uma facécia e simultaneamente uma palavra avisada, uma espécie de desarme para a arrogância. O desconhecimento sobre a hora da nossa morte é um dos nossos mais evidentes nós cegos. O outro é o termos as costas desguarnecidas. Um paranóico é um periscópio a rodar permanentemente em 360º, sem uma folga na vigilância – um homem que não admite não ter olhos nas costas, nem nas largas nem nas estreitas.
Eu, se pudesse ver simultaneamente, a 360º, sentia-me perdido… Não apenas por tal romper com um implícito estado de suspensão que nos protege – bem definido nesta formulação de Blanchot que me é lema: “Todos os dias há uma coisa para não ver!” – como porque isso destruiria a menor possibilidade de hierarquizar a informação colhida no horizonte visual. É sabido pelo mais distraído dos “montadores” de cinema (que pelo audiovisual foi promovido a “editor”) que não existe “tratamento da informação” sem uma priorização da narratividade; seria o caos, e sentir-me-ia a meio de uma piscina de cinco metros de profundidade, incapaz de decidir sobre o estilo de natação a adaptar para alcançar as bordas.
O que não vemos ordena naturalmente os critérios, e, como ateu, é caso para dizer, Graças a Deus.
A impossibilidade de conhecermos a nossa hora mais grave é o que nos permite surfar na vida sem excessivo drama, o que, se não nos impede de termos uma consciência trágica, nos alivia de sermos congelados por ela.
Claro que as lotarias nem sempre nos agradam e às vezes, secretamente, engendramos os nossos esquemas, damos chaves às nossas superstições, como modo de anestesiar o perigo. Uma vez, num cemitério, no funeral de um tio, tive o vislumbre que converti num poema:
«Uma aritmética danada. Ocorreu-me: a hora /de cada um soa no momento em que a sua soma /de sepultos ultrapassa a dos seus existentes, /simples regulação entrópica. (Ramalhava /um amieiro nas minhas costas.)»
Bem sei que é um esquema fantasiado, que não passa de uma falsificação probabilística, mas o certo é que, desde então, sempre que um amigo ou parente está a finar-se contrato um ilusionista para tornar invisível o corpo moribundo aos olhos do Contabilista Cósmico.
Ao ilusionista, my personal ilusionist, – não digam a ninguém - já arranquei a língua, prevenindo o caso de ser indiscreto, e, claro que, apesar de ser eficientíssimo, não passo o seu contacto a ninguém.
E enquanto me aguento, o felino incrustado em mim lambe um verso de Cesariny que, de forma cabal, me restitui as intensidades da vida: «belo rio sem lágrimas» etc., etc.  

sábado, 3 de março de 2012

CARTA DE LYGIA CLARK PARA O SEU FILHO

Carta de Lygia Clark para o seu filho – de 1970 -

Meu filho,
Você é um ser.
Existe na medida do mundo.
É pouco.
O mundo é a constatação da realidade exterior que te cerca.
É a tua medida inicial.
É o teu começo mas não o teu fim.
É o chão da tua expressividade pois você é um ser vertical.
Para cima do chão há o “invisível”.
Você pode olhar os seus pés mas não a sua própria imagem.
Esta você a percebe.
Na verticalidade está a medida da sua procura.
Quando você aceitar a simples constatação da vida, aí sim, será o seu começo.
O primeiro sentimento será de perda pois tudo que cai na constatação é vivido como ganho.
Tudo adquirido como perda até a integração absoluta do “o percebido” no seu interior.
É a própria dinâmica da vida: perde-ganha.
Quando você se sentir no mais absoluto desespero você está sendo salvo.
Solte e aceite a tua intuição que te levará a uma aparente solução – solução esta sempre provisória.
Aceite o provisório pois jamais o processo pode parar.
A vida pode vir a ser uma realidade extraordinária desde que você esteja voltado para sua procura interior.
Não há realidade independente do “interior de si”.
Desconfie das coisas claras, a pureza é descoberta dentro da maior conturbação de uma crise. É o ponto luminoso dentro da maior escuridão.
O teu corpo meu filho, é o veículo da tua vivência.
Não o impeça de florir por nada. Cuide dele como você cuida do teu carro.
Toda a tua riqueza interior vai suá-lo, sujá-lo, e até sangrá-lo.
Quando ele estiver gasto externamente você mesmo estará mais inteiriço e completo interiormente.
Você o despirá um dia como a crisálida deixa o casulo.
Ai de você se neste momento você é ainda o início não elaborado pois aí você vai saber que esteve permanentemente morto em vida.
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Escultura da série Bichos

três sequências do projecto "Baba Antrpofágica":

 

quinta-feira, 1 de março de 2012

O FRAGOR DO SILÊNCIO


Um belo rosto é talvez o único lugar onde há verdadeiramente silêncio, escreveu Agamben.
Uma pedra espantada pelos ventos desencontrados que a eriçam, eis, talvez o único golfo onde verdadeiramente há silêncio.
Os olhos de uma mãe que olha pela escotilha a laje líquida que lhe sequestrou o filho: aí se recorta e cristaliza, o silêncio.
O eco que, ao fim de milénios, encontrou uma pequena borracha na praia: o impreterível lugar onde se despe verdadeiramente o silêncio.
Uma bela cicatriz - o fiel panejamento duma ferida inicial -, será, seguramente, a dobra onde o silêncio se banqueteia.
A última pulsação de uma vulva saciada, antes de cair no sono: refúgio do único lugar onde vinga o silêncio.
O breve descomprometimento da gota de orvalho que se precipitou do algeroz, naquele compasso de espera: talvez nesse trânsito se observe realmente o silêncio.
Naquele que extrai a sua alegria da pobreza manifesta-se o espaço público de quem não teme no silêncio um destino.
Na rosa que floresce contra o muro de cal e vira as costas à afectação, talvez, talvez, se encontre o derradeiro lugar onde pulsa verdadeiramente o silêncio.
A tua língua que acolhe a película adstringente do porto seco enquanto os teus olhos humidificam os meus será com certeza o lugar principal onde o silêncio reconhece o seu perímetro.
O búzio que te trouxe do Zimbabwe e que não encostas ao ouvido, temerosa de que o fragor das cataratas Vitória te ensurdeça às minhas palavras vãs, é certamente o único lugar onde se adensa o silêncio.
Numa fotografia de uvas bicada por um tentilhão mora talvez o último lugar onde o silêncio achou o seu talhe.
Mas nenhum belo estratagema revela ao sigilo a face do silêncio.
E o morto, que recua até ao infinito e me empurra para diante, talvez seja o primeiro intervalo onde começa a esvanecer-se o rigor do silêncio.
Quem salva agora as aparências ao mutismo?
E se chover, quem lhe empresta a gabardina?




quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

COMO SAIR DO ALGUIDAR?

CARLO CARRÀ

Giorgio Agamben transcreve este belo e breve poema de Sandro Penna:
Vou a caminho do rio num cavalo
Que quando eu penso um pouco logo estaca
que associo àquela história zen da centopeia (a maria-café moçambicana) que paralisa no mesmo instante em que se põe a matutar na resposta a dar à criança que lhe perguntou, “eh pá, gente maluca, qual é a perna que mexes primeiro?”;
história que por sua vez me reporta a uma das frases-bordão de minha mãe que, dos meus 5 anos aos 20 e muitos, me repetia com uma regularidade exasperante, “não se pode, meu filho, fazer duas coisas ao mesmo Tempo”
– o que talvez signifique que, como defende a filosofia perene, haja uma sabedoria que nunca se suspende e se articula como uma espécie de ADN que só aguarda por uma oportunidade para aflorar…
Mas conto isto porque no mesmo texto do Agamben – Ideia da Cesura, do livro Ideia da Prosa, Cotovia – surge outro apontamento que me leva a um encaixe inesperado.
Refere o filósofo italiano: “(n)o Apocalipse 19.11, onde se descreve o logos como um cavaleiro fiel e feraz que monta um cavalo branco”. 
O que me atira para o expansivo e delirante reino das coincidências: a que existe entre o cavaleiro branco dos Evangelhos e a imagem com que a Ana Ulisses quis retratar o tio no comentário que fez ao texto que escrevi sobe a morte de João Ulisses, no postal que pus há uns dias.
Escreveu ela, julgo que para simbolizar como o verbo do tio lhe preencheu a infância e a fez acreditar em intangíveis nesta vida:
«Era um cavalo branco a galopar. Obrigado pelo gesto…»;
e toma-me o assombro porque tenho a certeza de que a artista plástica Ana Ulisses não anda com o Apocalipse na mochila.
Somos mesmo dominados por um acervo de imagens-matrizes e padrões  - como queriam o Jung e o Northrop Frye – que regem as nossas condições de possibilidade, isto é, de liberdade criativa?
Como sair do alguidar?

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

TÀPIES: A SECRETA VIDA INAPARENTE


O que áfono repetia naquela tarde debaixo dos ulmeiros, só a pedra onde se sentou, quebrado pelos rins, reteve.

Exortação, lamúria, maldição – quem sabe. Só na pedra se inculcou o conforme peso do rogo, que dor ou lapso nele o vento desarmou.

E a pedra obstina-se, silente.

Talvez o lodo se pronuncie quando a chuva lhe empapa as sílabas roídas pelo ror do medo, encarniçado o trovão.

O que áfono, fora de si, em círculos, naquele chiqueiro arvorado, repetia, nenhum clamor resgatou de sob o musgo seco.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

COTÃO NO UMBIGO DE ZEUS

meu deus, como sou feinha!


As cigarras não se calam, é um coro que extenua o mais pintado. Que goelas são estas que valem por um vitral?

Estou sentado na esplanada duma das avenidas de maior tráfego de Maputo, e sobrepõe-se este canto ao dos carros, engoma-lhe os colarinhos. A péssima canção que os ecrãs de plasma emitem, sobre as cabeças, é também cilindrada pela ladainha dos insectos, tão antiga como os extintos dinossauros.

Se eu quisesse enlouquecer deus enfiava-lhe à nascença uma cigarra no ouvido até os tímpanos vomitarem aquelas sílabas de bronze.

Um dos mitos gregos mais terríveis – enfim cada um tem o estômago que pode – é o de Titono, o marido de Aurora, que pediu a Zeus que lhe desse a imortalidade. Mas esqueceu-se de pedir também a eterna juventude. Assim Titono foi envelhecendo até que o encarquilhamento do corpinho se lhe tornou insuportável. Aí, por compaixão, a Aurora transformou-o numa cigarra.

O desfraldar da cigarra equivale então a uma estrela negra onde se concentram a massa, as vivências, espectativas e desilusões, do imprudente Titono. Cotão no umbigo de Zeus.

Ou não teria umbigo, Zeus?
As cigarras não respondem e acabo por comprar uma cautela.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

A DUPLA FACE DO ESCRITOR

janus, o meu carro de sonho, entrava por uma porta e saía por outra automaticamente, o que no meu entender até dispensa o trajecto


É flagrante o contraste entre a forma como me veem os outros e me veem em casa, onde sou duplamente catarrento e raramente desmancho a catadura. As minhas filhas sabem que “quando quero” sou animado e bem-disposto e isso traduz-se em ansiedade e torna mais inexplicável o meu resmoneio, a minha “distância”. E sou acusado de egoísmo – eu que por amor abandonei posições bem mais vantajosas – e de indiferença. No fundo, todos temos razão. Que sentido faria ter abandonado tudo, se a isso não se seguisse uma devoção obsessiva à escrita (o perímetro da minha estulta vocação) e, por outro lado, como manter os fluidos domésticos amenos sem um mínimo de dedicação? Equilíbrio instável.
O que me liga à Teresa, sem muito custo (não sendo embora isento de discussões), para além do óbvio das filhas e das afinidades, foi ela ter aceitado implicitamente que vivemos em adultério e que a minha “legítima” é o isolamento que penhoro na escrita. Houve uma altura em que a isso se somava o alcoolismo, fantasma dominado.
Mas a escrita exige esta dimensão da exclusividade, nada saudável, e não admite rival, ou só a espaços quando, por cansaço, nos alheamos mutuamente. Não tem nada de humano o desapego a que nos confina – é o contrário das tretas que ensino em Comunicação Interpessoal, ó meu querido Bateson perdoa-me lá – e lamento reconhecer que troco um contacto humano de terceiro grau pela escrita de um conto que me satisfaça ( - embora se dissesse o contrário também seria verdadeiro).
Se a disciplina da escrita me trouxe um aparente apaziguamento dos instintos – sou fiel ao “amor único” – é porque na verdade apenas sublimo (e constato como o D.H. Lawrence que está por estudar a força da sublimação), não há em mim o menor acatamento dos meus “penchements” selváticos, aprendi apenas a dizer não e a regatear o tempo, sendo certo que se fosse católico estaria frito por pecados de pensamento e omissão.
Na verdade estou, pelo meu lado, absolutamente encurralado pelo egoísmo da escrita que me acua e trepana e devora a pouca inteligência às colheradas, como faz Hannibal aos seus incautos. Se houver um escritor que diga que se quisesse dispensava esta crueldade é porque ainda não é um adicto, e vive em pura bazófia como um artesão de best-sellers que está carimbado da medula às sinapses pelas fórmulas.
Há um bocadinho de forçado (de balela romântica) na afirmação de Aragon de que nunca terá escrito uma história de que conhecesse o desenvolvimento e que terá sido sempre, ao escrever, como um leitor que faz o conhecimento de uma paisagem ou dos personagens (o seu carácter, biografia, e destino) à medida que os lê. Mas digamos que a coisa se fica pela metade e que o mais importante está de facto no que desconhecíamos antes de ter acontecido a escrita.  
Esta ignorância é como uma lapa que simbioticamente se confunde com a pele, que faz desejar a insegurança de um pensamento em estado nascente.
Quem conviveu comigo nos jornais durante vinte anos sabe que eu nunca estive “integrado”, sempre um bocado à margem, o que me tornava suspeito, pois quem é que este gajo se julga, pensavam. Nunca me julguei assado ou cozido, sentia-me apenas em liberdade condicional e um tipo entre comas porta-se de outra maneira e não dá muita importância ao que está a fazer. Por isso seria incapaz de fazer como tantos jornalistas que reúnem os artiguelhos e as suas suspicazes opiniões em livro. E bons artigos fiz. Mas as opiniões para mim pouco contam. Há antes algo de que padeço, está para além da minha inteligência ou do aparato, e o que faço agora é unicamente um meio, uma travessia.
O melhor está para vir, nas costas fica o rasto dos meus fracassos. A todos os poemas que publiquei até hoje carece o ímpeto do arpão do capitão Ahab.
Porque o escritor almeja, como lembrava o Proust, embora isso esteja esquecido, inventar dentro da língua uma língua nova, e para que tal enxurrada suceda não são permitidas folgas. Enfim, mais ao menos. Na verdade, só se entra no “paraíso” pela porta dos fundos, tirem o cavalinho da chuva os que ambicionam lá penetrar pelo portão da frente – só a quem se distrai do seu propósito lhe acontece penetrar. Permitir esta distração é o que visam as correntes alternas da vigília. Afinal (como no amor) só lá penetra quem já é transparente.
A muitos títulos preferia viver em Paris do que em Maputo (uma absoluto erro de cálculo quando decidimos partir), mas a vantagem de estar em Maputo é que somos irrecuperavelmente o outro e ficamos extensivamente sujeitos à pressão do olhar “nativo” – como irredimíveis estrangeiros. Esta condição mantém no ponto uma tensão que nos situa e não autoriza que alguma vez sejam amorfos os lugares. Ficamos então adequadamente desconfortáveis, gerando-se um clima propício à criação.
É claríssimo para mim que o meu isolamento em Maputo me fez crescer como escritor, que o meu anonimato me desencadeou uma energia nova, que a distância me recuperou o humor e o pleno sentido das proporções (ainda que a distância na comunicação gere tantos equívocos e provoque silêncios e mal-entendidos, por exemplo: quem não me conhece como pessoa e não vê os meus gestos, o meu sorriso, toma às vezes por literal o que é irónico, pura paródia, e confunde o que diz o meu personagem momentâneo comigo) e que mesmo em termos humanos – apesar do que digo atrás – ganhei um lastro que não tinha. No fundo, saí da esfera da literatice para a do vivido.
O que visto de fora me parece acrescentar uma pele áspera e insensível, como a do Rinoceronte de Ionesco. Sócios iméritos da vida.
Bom, há duas horas que me mantenho na esplanada, garatujando e lendo, enquanto a Teresa se ocupa das crianças na piscina. Há que ir substitui-la durante um pedaço, dar umas braçadas com as miúdas, ver como a Jade simula o mecanismo das ondas com o chouriço ou sonhar que um dia ouvirei a Luna tocar violino debaixo de água, rirmos com algumas partidas durante cinco minutos, até que o chapão de uma bóer na água me lembre uma freira a mergulhar num charco de rãs e isso me arranque ao recinto para ir anotar num caderno encardido e já de língua de fora mais um cabotino canteiro de flores.     
  


sábado, 25 de fevereiro de 2012

4x1: O ABYSMO DAS CARREIRAS DO AMOR


Dedico estas traduções, minhas, ao João Paulo Cotrim que foi agraciado (é assim que se diz, não é?) com um Prémio Revelação para a Abysmo. Como ele no fundo é um santo devassado pelas hóstias feitas com farinha alucinógenica que invadiram o Brasil, aqui lhe administro o veneno:

FAZER, DESPERTAR

Aí, quem
te respira
às cinco da manhã, na luz mortiça?
Verão.
Farejo-te,     quentes
os lugares onde os nossos corpos se tocam, soa
uma suave  melodia nos teus pulmões,
não há palavras, a minha cabeça
                 e ombros movem-se na madrugada absorvem
                               os diferentes ângulos de uma carne e de um
rosto adormecidos
onde o ar se enovela,
junto a mim.
Inspiro, cola-se
a mim
o teu cheiro
na bruxuleante amarelecida luz, obtenho 
diversos ângulos do teu rosto, dos teus seios, as
tuas ancas encaixam-se sob o liso doce ventre, um
rosto diferente de cada vez
que me mexo, perspectiva das ancas, um seio

arredonda-se. Em Guadalajara, a 55
quilómetros de Madrid
                         gritam-no todos os placardes,
soerguo-me sobre um cotovelo, repouso
enfim a minha cabeça entre as tuas pernas,
tomo o teu gosto, a
única coisa
que resta.                                                                              

Paul Blackburn

COSMOGONIA

Desdobrava ligeiramente a coxa
encaixando-a entre as pernas,
e por cima colocava
a sua perna esquerda, pelo exterior
da minha coxa direita.

Joan Brossa

NO AR QUENTE DE ABRIL


Nus no ar quente de Abril,
estendidos sob os pinheiros
na ensolarada reentrância de uma falésia.
Tu ajoelhas-te sobre mim e noto
pequenas incisões vermelhas nas tuas espáduas,
como mordeduras, no sítio
onde as pinhas calcavam a carne.
Encontramos as mesmas marcas,
turvando as linhas dos estratos, na falésia,
por cima das nossas cabeças. Sequoia
Langdorfii antes do período glacial,
e sempervirens nos nossos dias,
entre elas a diferença é mínima
comparada com o desfilar dos anos.

Aqui, no doce e moribundo odor
das flores primaveris, rejeitados,
dois destroços em comunhão -
os nossos corpos frescos e nus
que a sombra desta árvore uniu.
Pelo espaço de um instante,
escapámos à rudeza do amor,
do amor perdido, do amor
traído. E o que poderia ter sido
e o que era, afeiçoaram as suas linhas
àquilo que é – para unicamente
deixar estes ideogramas
impressos sobre os imortais
hidrocarbonatos de carne e de pedra.

Kenneth Rexroth

O SONO VENCEU-A POR UNS MINUTOS


Quem seria por Deus quem era
aquele homem meio abstraído
que olhava a lua cúmplice
o copo sempre atestado
um cigarro caído entre os lábios
e nu como o demónio?
O sono venceu-a por uns minutos
mas ele não se moveu. Observa
o amante, o conhecido de poucas horas,
se bem que ele sim parecia sabê-la de cor
apesar de se terem acabado de encontrar.
Olha o relógio. Pensa na sua casa:
na quietude que a mantém
enquanto ela... patetices!
Com assombro constata agora
que não sente pena ou sobressalto.
Levanta-se para beber:
ele vai ouvi-la e virá ao seu lado
para voltar a estremecê-la.

Juan Agustin Goytisolo