PSICODELIC SNAKE se chama a exposição que hoje inaugurará na Fortaleza, em Maputo, de Rafo Díaz, um peruano excelentíssimo que, quis a sorte e o destino, habita entre nós.
Rafo é um andino puro e um maravilhoso contador de histórias que palmilha todos os anos milhares de quilómetros para alegrar as crianças com fábulas e lendas locais ou amazónicas e que, num país decente, já tinha sido adoptado como cidadão honorário, mas que aqui faz o seu percurso apesar de.
Desta vez não nos vai contar histórias de embondeiros, como as que coleccionou no seu livro "O Coração Apaixonado do Embondeiro", mas desce (ou sobe) na vertical à sua alma xamânica para nos apresentar "a sua particular viagem" com cobras, que, inquietantemente, mistura com os padrões das capulanas.
Daqui, esta exposição seguirá para Nova Iorque, e por isso é aproveitá-la enquanto podemos, pois a seguir as peles das cobras serão largadas em terras do yanke.
Para o catálogo da exposição escrevi este pequeno texto:
ORAÇÃO
Ilimitadas e imortais,
as
cobras
são o princípio e o fim de todas as coisas da terra.
Músculos de
deus ou do diabo,
consoante se aninhem no coração ou na mente,
é
negro e bífido o seu relâmpago.
Ao seu coleante aceno o
vento
eriça-se.
Conhecia as
cobras de mel,
que no Peru vão dormir no oco das flautas,
mas
as que se dissimulam nas fibras,
nos padrões das
capulanas,
acordam um metal na voz.
E fica mudo
aquele que as vê deslizar
dos tecidos
para o meio das letras,
sentindo que lhe cosem
no olhar diamantes tão frios
que só
sobra uma pergunta:
quem escamou o sol?
É com estas cobras que
o Rafo Diaz nos encadeia,
e, se por duas vezes seguidas elas nos fixam,
como imagens mortas
se desprende a
nossa pele.
Só então os olhos do meu espírito
circundam na tua boca os
Seus favos de silêncio.
quarta-feira, 5 de setembro de 2012
CHOVE, ALVÍSSARAS
roberto matta
Chove. Não em gotas mas numa
espessa cortina translúcida, que se abate como se fosse um cristal mole.
Sinto-me em Londres. Há meses que não chovia em Maputo. Não desta maneira. É um
dia para ficar em casa, expressamente.
Acordei a pensar no belo bonsai da minha amiga Fátima.
Não se pensa num bonsai articuladamente mas em bloco,
é uma imagem que não se decompõe, indivisível. Já tive um bonsai, uma oliveira.
Tinha uma ventoinha perto dele que às vezes ligava para que a árvore conhecesse
o vento, se despenteasse um pouco.
Suspeito que o da Fátima está sempre de risca ao meio.
Faz-me lembrar o Kevin Kline, magnífico actor porque sabe despentear o que
nele existe de composto.
Gostava que me oferecessem um bonsai. Acho que na reforma,
que não terei, me dedicarei a cultivar bonsais. Será esse o meu negócio.
Estou a ler Jerusalém,
do Gonçalo. Foi o último livro que ele me mandou, antes de ter vindo para
Maputo. Na dedicatória tem a data, outubro de 2004. Em janeiro de 2005 debandei.
Só o recuperei passado dois anos.
Estou na página 63. Brilhante e perturbador porque é
uma escrita sem afecto, no oposto da minha – que está encharcada de pathos. A
abertura é soberba, a tese de Theodor sobre a História instigante, e a
narrativa evolui como uma máquina que nunca se dá folgas. Estou curioso para
ver onde conduz esta tensão. A corrida de Ernst tem claramente o dedo de Rilke.
Gosto, para já, deste reencontro.
Tomei uma nota, numa página em branco do livro, que
vou utilizar para a criação de uma personagem: “Bebia para ter medo, porque de natural lhe faltava essa reserva e tudo
lhe parecia obscenamente simples, mesmo matar. Bebia para descoordenar a plausibilidade
das suas tendências e ganhar uma fragilidade que o pusesse cauteloso… “
Hoje escreverei dois capítulos do romance e tentarei traduzir
dois ou três poemas da antologia que me comprometi a fazer da Luisa Futoransky,
uma poeta argentina de grande voltagem e de quem me tornei amigo por causa de
umas traduções avulsas que fiz de alguns dos seus poemas e que lhe agradaram. O
seu último livro Ortigas, tem uma
energia extraordinária, e numa antologia que ela me enviou há uma interessantíssima
“reportagem” poética sobre uma visita a Lisboa. Que a chuva continue e me anime
a ficar em casa “a conversar com as letras”.
Fiz uma nova versão para o poema Apostas de Cavalos,
dedicado ao Jorge Corvo, e aqui a deixo:
Ah, ser um
poeta didáctico,
dos que cifram
em alexandrinos
o preciso ponto
que desfaz a quitina
remoída nas
mandíbulas
das flores
carnívoras,
ou ser um deus
capaz de morrer
com o hálito
mais puro.
Um deus de
imenso pedigree,
tão subtil que
já não discerne
se é deus, se
o seu luto.
Mas calhou-me
este calhordas,
ser o inábil
alfaiate que com a boca
prenhe de
alfinetes se esqueceu
de matar as
cócegas
à viscondessa
do Xai-Xai.
Tão pobre que,
perdulário inconfesso,
fica incapaz
de desembainhar
por diante a
lâmina do pensamento.
Saciam-me as
orlas, delas faço bainha.
Jamais há dias
- apenas
noites
albinas.
O tempo é uma
estela
de maravilhas
e desastres
diz o outro. Um
deles
que eu já não
possa
arrancar os
olhos àquela
de onde nunca
devia ter saído.
O senhor que se
vê de costas
nestes versos
não é feliz, foi sete vezes
à Ciocciara
mas não é feliz
e no rosto
escarificações
e tatuagens não
lhe trazem
qualquer
consolo à sensação
de que o
futuro é um reles
número de
conta bancária.
Revejo na alma
a casca
do caracol, a baba
do daimon,
e maldigo-me, preferia
ter nascido
girassol
de um escol
que segue o astro;
ao menos no
fragmento
450 digo como
é: professo
a
metempsicose,
ah, ter sido o
mosquito que quis aterrar
na alvíssima palma
da mão que no acto
imediato de
enxotar-me rodou
o tambor da
pistola oceânica
carregando-a com
a Ode Marítima
dá-me alento, é
a única coisa
que me força a
levantar
e a comprar um
garrafa de gim
e a carregá-la
no bolso
na mira dos
goles
com que
fixarei de frente
os coices que
receberei
nas
apostas de cavalos.
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diário
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
CONCHAS, PEDACINHOS DE OSSOS, O MAR EM FUNDO
Simpática a nota do José Mário Silva ao meu livro Ficas-me a Dever-me uma Noite de Arromba que saiu no sábado no Expresso,
mesmo quando discordo dele, sobretudo num momento em que estamos em total dessintonia de sensibilidade e de opinião, mas é normal que
isso aconteça.
Há uma coisa que o José Mário aponta
e onde acerta na mouche, quando fala da urgência da escrita.
O José Mário Silva não podia adivinhar
que estes cinco contos pertencem a um livro maior, que têm o seguinte
preâmbulo:
«Surgiu este livro de forma avulsa,
ao sabor dos dias. Desde que me exercito no espaldar da prosa que o conto foi o
meu território. Até há dois anos atrás, quando me iniciei no romance. Teve este
novo investimento como efeito que este livro de contos, ao contrário de outros
meus, foi sendo escrito sem ordem nem plano, à mercê de impulsos, vagares,
contingências e tempos mortos.
São intervalos fluidos no romance,
despojos de guerra.
Quando era miúdo fiquei muito
impressionado com uma entrevista de Ray Bradbury em que ele contava que
iniciara a sua carreira escrevendo um conto por semana. Ao fim de um ano são 52
contos. Dada a altíssima qualidade que em média se patenteia nos livros de
Bradbury, é espantoso. Secretamente, sempre alimentei esta rivalidade com ele,
onde, evidentemente levo cabazadas de 8 a 2.
Isto para explicar que estes são
contos rápidos, na sua grande maioria escritos de jacto, num dia, e com os
riscos disso.
Aderi pois neste livro à arte do fresco, onde, ao contrário da
pintura, não se pode retocar. Claro que sempre que lhes punha um olho lhes
mudava um adjectivo ou substituía uma forma verbal por outra, mas
estruturalmente foram fixados à primeira.
Com a excepção de a Fala do Hermafrodita, que me deu mais
trabalho.
São contos cuja acção se passa ora
em Moçambique, ora em Portugal, porque há seis anos que alterno entre os dois
territórios.
O resto é consigo meu caro leitor, meu hipócrita, meu irmão.»
O que não sei se o José Mário Silva
também pode adivinhar é que ao fim de uns anos em África a noção de «realismo
convencional» deixa de fazer qualquer sentido e por, isso quando parecemos atrevermo-nos
a todas as descolagens, às vezes estamos desesperadamente e unicamente a ver se
“fotografamos” um naco de uma realidade selvaticamente barroca - onde a erosão, a
fantasmagoria e um delírio quotidiano que tanto roça o maravilhoso como o
absurdo ou a demência se entrelaçam. As pessoas "de fora" não sabem exactamente o que dizem quando
falam, por exemplo, a propósito do romance sul-americano de “realismo mágico”,
pois os seus ingredientes eram afinal o material de que se compunha a mais chã
realidade. Constatei-o aqui.
Mas este
é um texto honesto, que me vai levar a uma futura e prazenteira discussão técnica com o seu autor, e disso também gosto, e aqui o deixo, com um abraço ao José Mário:
«António
Cabrita Companhia das Ilhas, 2012, 46 págs., ¤4,90
Contos
Um traficante transporta na mochila — entre a barra de
haxixe, a máquina fotográfica e latas de atum — dois frascos com fetos de
elefante. Um sagui trepa por Brad Pitt acima, depois de ter talvez roubado um
memorando que trama a existência, até então idílica, de uma fã da estrela
americana (alta dirigente cultural cuja única qualificação é ser amante de
ministro). Um homem “espanca” com um remo as águas do mar, vingando-se do
afogamento da mulher amada, para quem lê repetidamente o “Cântico dos Cânticos”
na frequência de um rádio submerso. Um filme de Visconti traz energia e
perturbação à vida amorosa de um casal. Certa piscina ladrilhada, semelhante a
um quadro de Vasarely, é o palco de uma tragédia absurda, em que a picareta
talvez leve a melhor sobre a “fusca” pronta a disparar. Além da atmosfera
moçambicana, estas cinco histórias de António Cabrita têm em comum uma espécie
de volúpia narrativa, um puro gozo de contar que faz com que os textos muitas
vezes levantem voo, libertos das amarras do realismo, mas também os entrega a
uma deriva que nalguns casos não leva a lado nenhum (‘Morte em Veneza,
Reprise’, por exemplo, cria uma tensão inusitada entre os amantes, sem ser
capaz de a resolver). O que empurra este livrinho é sobretudo a prosa de
Cabrita — ágil, envolvente, minuciosa, deslumbrada com a variedade das coisas
do mundo — e uma certa urgência de fixar as histórias no tempo certo. Se
escrito a posteriori, o texto arrisca-se a sair requentado, “como as respostas
ao fundo da escada”. Por isso, “a sede própria para o conto acontecer” é “esta
página dobrada pelo instante único em que uma pedra parte um vidro e uma
corrente de ar engolfa a casa”.» José Mário Silva
Há uma coisa que o José Mário aponta
e onde acerta na mouche, quando fala da urgência da escrita.
O José Mário Silva não podia adivinhar
que estes cinco contos pertencem a um livro maior, que têm o seguinte
preâmbulo:
«Surgiu este livro de forma avulsa,
ao sabor dos dias. Desde que me exercito no espaldar da prosa que o conto foi o
meu território. Até há dois anos atrás, quando me iniciei no romance. Teve este
novo investimento como efeito que este livro de contos, ao contrário de outros
meus, foi sendo escrito sem ordem nem plano, à mercê de impulsos, vagares,
contingências e tempos mortos.
São intervalos fluidos no romance,
despojos de guerra.
Quando era miúdo fiquei muito
impressionado com uma entrevista de Ray Bradbury em que ele contava que
iniciara a sua carreira escrevendo um conto por semana. Ao fim de um ano são 52
contos. Dada a altíssima qualidade que em média se patenteia nos livros de
Bradbury, é espantoso. Secretamente, sempre alimentei esta rivalidade com ele,
onde, evidentemente levo cabazadas de 8 a 2.
Isto para explicar que estes são
contos rápidos, na sua grande maioria escritos de jacto, num dia, e com os
riscos disso.
Aderi pois neste livro à arte do fresco, onde, ao contrário da
pintura, não se pode retocar. Claro que sempre que lhes punha um olho lhes
mudava um adjectivo ou substituía uma forma verbal por outra, mas
estruturalmente foram fixados à primeira.
Com a excepção de a Fala do Hermafrodita, que me deu mais
trabalho.
São contos cuja acção se passa ora
em Moçambique, ora em Portugal, porque há seis anos que alterno entre os dois
territórios.
O resto é consigo meu caro leitor, meu hipócrita, meu irmão.»
O que não sei se o José Mário Silva
também pode adivinhar é que ao fim de uns anos em África a noção de «realismo
convencional» deixa de fazer qualquer sentido e por, isso quando parecemos atrevermo-nos
a todas as descolagens, às vezes estamos desesperadamente e unicamente a ver se
“fotografamos” um naco de uma realidade selvaticamente barroca - onde a erosão, a
fantasmagoria e um delírio quotidiano que tanto roça o maravilhoso como o
absurdo ou a demência se entrelaçam. As pessoas "de fora" não sabem exactamente o que dizem quando
falam, por exemplo, a propósito do romance sul-americano de “realismo mágico”,
pois os seus ingredientes eram afinal o material de que se compunha a mais chã
realidade. Constatei-o aqui.
Mas este
é um texto honesto, que me vai levar a uma futura e prazenteira discussão técnica com o seu autor, e disso também gosto, e aqui o deixo, com um abraço ao José Mário:
«António
Cabrita Companhia das Ilhas, 2012, 46 págs., ¤4,90
Contos
Contos
Um traficante transporta na mochila — entre a barra de
haxixe, a máquina fotográfica e latas de atum — dois frascos com fetos de
elefante. Um sagui trepa por Brad Pitt acima, depois de ter talvez roubado um
memorando que trama a existência, até então idílica, de uma fã da estrela
americana (alta dirigente cultural cuja única qualificação é ser amante de
ministro). Um homem “espanca” com um remo as águas do mar, vingando-se do
afogamento da mulher amada, para quem lê repetidamente o “Cântico dos Cânticos”
na frequência de um rádio submerso. Um filme de Visconti traz energia e
perturbação à vida amorosa de um casal. Certa piscina ladrilhada, semelhante a
um quadro de Vasarely, é o palco de uma tragédia absurda, em que a picareta
talvez leve a melhor sobre a “fusca” pronta a disparar. Além da atmosfera
moçambicana, estas cinco histórias de António Cabrita têm em comum uma espécie
de volúpia narrativa, um puro gozo de contar que faz com que os textos muitas
vezes levantem voo, libertos das amarras do realismo, mas também os entrega a
uma deriva que nalguns casos não leva a lado nenhum (‘Morte em Veneza,
Reprise’, por exemplo, cria uma tensão inusitada entre os amantes, sem ser
capaz de a resolver). O que empurra este livrinho é sobretudo a prosa de
Cabrita — ágil, envolvente, minuciosa, deslumbrada com a variedade das coisas
do mundo — e uma certa urgência de fixar as histórias no tempo certo. Se
escrito a posteriori, o texto arrisca-se a sair requentado, “como as respostas
ao fundo da escada”. Por isso, “a sede própria para o conto acontecer” é “esta
página dobrada pelo instante único em que uma pedra parte um vidro e uma
corrente de ar engolfa a casa”.» José Mário Silva
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CRÍTICA A FICAS A DEVER-ME,
JOSÉ MÁRIO SILVA
domingo, 2 de setembro de 2012
PALIMPSESTOS DA LUZ/ LOURDES SENDAS
Inaugura-se amanhã, na Casa da Cultura de Alfândega da Fé uma exposição de desenhos e pinturas da LOURDES SENDAS, uma pintura de quem sou amigo há trinta anos. A exposição é muito bonita e escrevi para o catálogo este pequeno texto que posto em baixo:
«É surpreendente quando se chega a uma
simplicidade tão manifesta como a destes desenhos e aguarelas de Lourdes Sendas
e se constata que afinal nada se perdeu.
Há uma qualidade muito oriental nestes trabalhos,
e não a sei explicar de outro modo: quando se compreende a linguagem dos
pássaros não é porque os pássaros aprenderam a falar, mas sim porque os homens
aprenderam a linguagem do silêncio e captam a emoção interior do pássaro
expressada no seu cantar.
Quando vejo estes desenhos e aguarelas vejo que a
Lourdes chegou a essa via do silêncio, a essa qualidade de seguir a linha de
menor esforço e de esperar que a linha de retorno leve à tendência desejada. É
um caminho de não resistência, quando a mente do pintor fica quieta como um
espelho e os materiais, as cores, os traços, os ritmos e os espaços em branco
ordenam numa conversa entre si o seu caminho próprio.
Garantia o Leonardo da Vinci que a «mão pensa»:
nunca, no trabalho de Lourdes Sendas, havia sentido como aqui que essa
evidência tivesse tanta propriedade.
A mão da pintora está absolutamente livre nestas
aguarelas, tão livre que pode de novo conjurar a memória, sem nenhum peso
exterior ao do ritmo vital da sua expressão.
Quando já não há nada a provar fica-se assim:
maravilhado diante das paisagens do silêncio. Coisas simples, as mais férteis. »
Espero que a exposição tenha o sucesso que ela merece:
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EXPOSIÇÃO LOURDES SENDAS
sexta-feira, 31 de agosto de 2012
ESTACA ZERO
a onda, de Victor Hugo
À procura de um texto encontro um documento que julgava perdido, onde havia compilado uma boa tarde das entradas de um diário irregularíssimo que comecei a escrever em 2005, desde que cheguei a Moçambique. Este documento, que se chama Estaca Zero, reune apontamentos até Janeiro de 2008. Não tenho a certeza se as datas conferem, teria de confirmar nos cadernos. Aqui deixo as últimas páginas desse documento, com 110 páginas.
1 de Julho de 2007
Será hoje publicado no Expresso o texto polémico sobre recepção de poesia que enviei há umas três semanas:
« SOMBRAS DA MERIDIANA CLAREZA»
Depois não me admito como poeta “a quem se consente”. Só a minha solidão e a sua zona de laminação me guiam: não porque entenda a arte e a poesia como espaço sacrificial mas porque no limite há uma longitude de destino que me desobstrui – dom que é gratuito mas exige um preço a que não quero nem posso furtar-me. Sob risco de tudo se tornar decoro e venalidade.
14 de Julho
Claro que ninguém responde ao meu texto endereçado ao Pitta. Nem o próprio.
“J´habite l’exterieur d’un anneau”, Paul Claudel: tão próximo de âne.
15 de Julho
Extraído da Autobiografia, de Zao Wou-Ki, grande pintor chino-francês, presença determinante da Escola de Paris, dos anos 50 e 60, e amigo de Michaux: «(sobre a sua infância)
...os generais decapitavam e colocavam as cabeças à entrada da cidade – cabeças que pintavam metade em verde,a outra em vermelho. Como todas as crianças qua saíam da escola, empurradas pela multidão ao primeiro tumulto, eu assisti a uma execução. Não se podia recuar, era-se obrigado a olhar. Adormeci durante muito tempo, aterrorizado pela visão dessa cabeça rolando sobre o solo, cujo sangue espirrava de todos os lados.
Esta época foi terível. Havia suicídios entre os mais pobres, que não conseguiam sobreviver e vendiam os seus filhos no caminho da escola. Não eram incomuns os enforcados...»
Depois disto nunca se fará uma pintura realista. Seria absolutamente desumano.
16 de Julho
Quiasma: a acrescentar ao meu catálogo de palavras que usarei invariavelmente a contrapêlo. Tão próximo quiasma de quiabo.
Concluindo, Sócrates que na distorção da dialéctica – Sócrates, em todos os diálogos, é quem determina as regras da discussão, vantagem que não se deve menorizar – invariavelmente comandava a luminotecnia foi “comido” pelas sombras chinesas.
Leio de Paz: «O presente é perpétuo/ Os montes são de osso e são de neve/ estão aqui desde o princípio/ O vento acaba de nascer/ sem idade/ como a luz e como o pó (...)». Mas será assim? Nascerá o vento a cada instante, sem antecedência nem sombra platónica? Nietzsche gostaria.
Variante de Paz:
na tua cama/ éramos três:/ eu tu e o vento.
Pode ser este o artigo que me faltava para fechar o livro de ensaios?
19 de Setembro
Afinal, reza a última moda entre os paleontólogos, os dinossauros não buliam com os refreados nervos dos mamíferos (os placentários, segundo o artigo). Ninguém empatava ninguém naqueles tempos coruscantes, de pavio tão curto. Há hoje indícios, asseguram, de que o que aprenderamos sobre a incompatibilidade entre dinos e mamíferos é falso. Os chineses apresentam inclusive fósseis de um mamífero do Cretáceo que se alimentava de dinossauros, o Repenomanus. Convenhamos que é nome que o desvelo de uma vovó dinossaúrica pode apontar como Papão aos netos. E sei finalmente de onde extraiu Shakespeare o espírito peçonhento de Iago, o qual, segundo as novas correntes paleontológicas podia perfeitamente cuidar da higiene dentária dos T.Rex, seus irmãos na floração do sangue.
No mesmo jornal, leio:
O silêncio que enfrentará um pequeno submarino sob as calotes de gelo é inimaginável, capaz de remover as coordenadas de uma mente, o seu precário equilíbrio. Nesses limites, os monstros da interioridade abissal galgam facilmente os picos da consciência mais moderada, da mesma forma que a ausência de gravidade leva a que os astronautas percam massa óssea.
Trabalhos danados a que os poetas hoje se furtam, pobres antenas de uma civilização encaramelizada que, dizia Michaux, inventou jogos e desportos onde não se arrisca nada.
26 de Dezembro
Voltei a fazer merda e a não telefonar às minhas filhas no Natal. Elas ficam sempre tão magoadas com isto. E eu não consigo deixar de ser miseravelmente egoísta e a não querer superar (por elas) o pânico de me encontrar convulso ao telefone quando lhes ouvisse a voz e soubesse que há pouco a dizer porque a distância, iniludível, vai roendo os códigos da intimidade.
Que cobardia, somos sempre indignos para alguém.
27 de Dezembro
Diziam os chineses, escreve Kenneth White, que para “agarrar” a verdadeira poesia é preciso encontrar-se face a face com um homem vivendo a três mil quilómetros de nós.
Eu meti-me a dez mil. E se reencontrei a poesia, temo, por vezes perder a memória, atolar-me no desprendimento que convoquei.
29 de Dezembro
Na esplanada da Colmeia, a tasca onde sempre abanco depois de umas horas de aulas, ouço uma discussão de jovens sobre filosofia – coisa raríssima nestes lugares – e um deles avança com um argumento devastador para firmar a (palavras dele) ‘superioridade dos filósofos’: «nunca vi num jornal o anúncio de um filósofo a auto-publicitar-se».
O que gostaria de ter à mão o Banquete, de Platão, para lhe ler esta passagem: «Aristodemo escutou-me que encontrara Sócrates quando este saíra do banho, calçando umas sandálias, o que não era seu costume, e perguntou-lhe onde ia, assim tão bem arranjado».
O que gostaria de ter à mão o Steiner para lhe ler a sua sugestão de que tudo o que importa na vida não se traduz em valores cambiáveis.
Ainda bem que não tinha o arsenal comigo senão teria tido a tentação de me meter na conversa e de dar gasolina à combustão daquele pobre rapaz. Devemos ser muito prudentes de modo a não induzir ninguém a abraçar a nossa escolha: a de um perdulário que desbarata a sua inteligência na pobreza.
À procura de um texto encontro um documento que julgava perdido, onde havia compilado uma boa tarde das entradas de um diário irregularíssimo que comecei a escrever em 2005, desde que cheguei a Moçambique. Este documento, que se chama Estaca Zero, reune apontamentos até Janeiro de 2008. Não tenho a certeza se as datas conferem, teria de confirmar nos cadernos. Aqui deixo as últimas páginas desse documento, com 110 páginas.
1 de Julho de 2007
Será hoje publicado no Expresso o texto polémico sobre recepção de poesia que enviei há umas três semanas:
Um poeta faz 25 anos de edição e realiza uma
antologia pessoal. Profusa, como de resto a sua obra, expõe linhas de força,
núcleos temáticos, plasmados com vitalidade, fôlego e um ecletismo de processos
descoroçoante. São 25 anos de trabalho, de uma dedicação exclusiva. Não importa
aqui situar o poeta em qualquer ranking – trata-se aliás de um poeta que
se exprime compulsivamente, por necessidade interior. O que interessa é a
probidade, o fazer operário, a incansável entrega a um labor. Chega um crítico
(que ainda por cima é poeta) e sob a pressão do espaço e do tempo faz um fresco
ligeirinho.
O crítico parece dizer bem, mas
manifesta várias desatenções e algum desconforto, ilustrado em pequenas farpas
cirúrgicas, aqui e ali, que fazem pensar se o crítico não escreveu apesar de si próprio, arreliado pela
persistência do autor, um moscardo flamejante que zumbe e desassossega.
Falo de Amadeu Baptista, que saiu
com uma antologia pessoal de 260 páginas, Antecedentes Criminais /
Quasi, 2007, e da crítica que lhe fez Eduardo Pitta no Público, no dia
8.
Vamos aos factos. Escreve Pitta: «escrevendo
sobre Negrume, de 2006 – livro que esta antologia recupera na íntegra -,
um ensaísta exigente como Luís Adriano Carlos
sublinhou a “dilaceração tumultuoso da consciência face à contradição
quotidiana de quem habita níveis existenciais não comunicantes”». Não sei o
que pensará a exigência de Luís Adriano Carlos face ao deslocamento que o seu
excerto sofreu do prefácio de Poesia Digital para uma suposta recensão a
Negrume que nunca escreveu, mas os 25 anos do poeta pediam um bocadinho
mais de rigor e não este artifício de escriba pressionado pelo tempo, pelo
espaço, pelo seu imago.
Adiante, escreve Pitta: «Nenhuma
ambiguidade perturba o discurso do poeta, que aconselho com proveito aos
arautos do “real absoluto”. Por falar em real convém lembrar que uma das formas
de que Amadeu Baptista se serve para o pôr em pauta tem que ver com enunciados
de natureza sexual explícita, embora a parcimónia da actual recolha pareça desmentir
a asserção. Do meu ponto de vista, livros como a Noite Ismaelita (2000)
e A Construção de Nínive (2001) estão insuficientemente representados,
por oposição a Arte do Regresso (1999) e Paixão (2003) mas uma
antologia pessoal é o lugar por excelência da idiossincrasia, e seria fútil
insistir na perspectiva do crítico». E seria fútil exactamente por
reveladora das idiossincrasias do crítico, pois que acrescentar se A
Construção de Nínive é publicado em Antecedentes Criminais na
íntegra? Sentiu o Pitta falta de algum coito? Por outro lado, o texto dá a
impressão de que A Noite Ismaelita é outro texto recheado de kamasutra.
Ora, nos antípodas, é um livro quase místico de inspiração sufi e onde ao
contrário do anterior não há alusão ao golpe e contra-golpe do sexo.
Ademais, será legítimo fixar para
um poeta tão plural uma imagem redutora e distorcida? O poeta adora sexo (e
quem não?) e declara-o com à vontade e persuasão retórica. Usando a mesma
veemência com que navega na infância, numa escrita contemplativa, na
religiosidade, na pintura, na música: experiência estética de que dá amplo
testemunho. A sexualidade explícita - já que estamos a falar em medidas - é uma
parte ínfima da sua obra, dominada isso sim pelo erotismo, por uma sensualidade
a que não se furta nem o seu (irregular) pendor místico. As coisas (o sagrado e
o profano) estão nele tão interligadas que inclusive o poema que dá título a A
Construção de Nínive (o tal da sexualidade “desenfreada”) é colocado (nesta
antologia sem separadores, cortinas ou títulos de livros, como assinala Pitta)
a anteceder os poemas de Paixão, um livro de inspiração bíblica, de modo
a que possamos sentir a sua ressonância salomónica. Amadeu Baptista dá as
chaves. O que não é habitual é um poeta manifestar-se num espectro tão amplo e
isso, admite Pitta, chateia à «poesia de sabor único» (Pessoa) que hoje agrega
tantos militantes.
Voltando a Pitta, lê-se: «Se tivermos de
escolher uma palavra para caracterizar a obra de Amadeu Baptista, essa palavra
seria catarse. Isso explicará o desacerto da recepção crítica, por oposição ao
sucesso de obras “lisas”, isto é, não problemáticas. Antecedentes Criminais prova que o
ónus é equivalente à aspereza do discurso». Apesar do acerto de contrapor
ao sucesso momentâneo da lisura de alguns a injustiça do relativo silêncio
(comparativamente) a que a obra de Amadeu Baptista tem estado sujeita, pois dá
muito mais trabalho a perspectivar, este parágrafo enferma de equívocos e
lugares-comuns.
Primeiro, a catarse. Não se deve menosprezar a inteligência
dos autores. Amadeu Baptista compreendeu cedo que a catarse é impossível ou é
de um inacabamento que enquistou na
aporia. A sua é, sim, uma poesia pejada de pathos, mas não esqueçamos o
papel de uma poderosa estratégia de fingimento que neste poeta propende a uma
nunca referida pulsão dramatúrgica. Com outra propriedade escreveu
Baptista-Bastos (um não poeta) sobre a antologia, quando a apresentou na Fnac:
«O poeta fala de si para se aproximar das emoções do outro (...) Não é porém
uma poética do testemunho, mas sim, a definição, muito singular, da nossa
posição existencial (...) no seu bojo, contém-se uma subtil convocação da
experiência – e da experiência tornada consciência.» O que se amplifica na
seguinte advertência de Deleuze «Escrever
não é contar as lembranças, as viagens, os amores, os lutos, sonhos e
fantasmas. Ninguém escreve com as suas neuroses. (...) A literatura só se
afirma se descobre sob as aparentes pessoas a potência de um impessoal.» Daí que Amadeu consiga ser
blasfemo e perseguir o sublime, consiga ser metafórico e descritivo, ser subtil
e ser directo, capaz de moldar-se ao soneto e de expandir-se no poema longo: a
sua experiência de escrita trasladou o vivido para a orbe de um impessoal, e
agora joga com os géneros. Quanto à sua ‘neurose’ é a mesma que demanda Bernardo Soares quando
aspira a “ver o polícia como Deus o vê” – lugar onde a catarse é de há muito
uma categoria abandonada. Pode ser sido até pretexto mas já não é de todo o seu
telos.
Segundo,
não há em Amadeu Baptista aspereza de discurso, há é temas que exigem uma
linguagem menos pura, menos poética – ainda que pareça paradoxal, às vezes o
não-poético é o mais poético.
Por fim, uma afirmação com ar de
ditame, sobre a propensão de Amadeu para o poema longo: «Rosto Soberano
(...) dá a medida da especial apetência do autor pelo discurso torrencial, com
os riscos correlatos da metaforização, da acumulação de materiais e do eco
retórico que uma e outra produzem. Prefiro o registo vigiado dos sonetos, mais
conformes a uma prosódia segura». Não interessava antes saber se, corridos
os riscos correlatos, o autor leva a tarefa a bom porto, em vez da preferência
do crítico? Os textos longos funcionam e resultam, são desenvoltos, arejados,
mantêm a tensão da escrita, ou não? O que é uma prosódia segura? Mede-se tal
pelo menor quociente de riscos? Se Amadeu demonstra ser capaz de pequenas
escaramuças (a prosódia segura), que pode impedi-lo de empreender grandes
batalhas? O sentido de medida do crítico? Segura no mesmo sentido em que uma
mãe galinha diz ao seu filho que não deve sair à rua? Será um crime, adquirida
a técnica, preferir os riscos ao capitoné da prosódia? A poesia deve ser
analisada a partir do que é e expõe ou a partir de um suposto dever ser e de
moldes pré-formatados? Tenho de aceitar Ungaretti contra Pere Gimferrer?
Larking contra Ted Hughes? O fito é reduzir, em vez da abertura? Ora, um
poeta conciso e breve como Eduardo Pitta devia saber que só tem fôlego quem
pode.
Pitta saberá que eu sei que
escrever para os jornais leva a precipitações (e nos jornais pensa-se que se
explica a física quântica nos mesmos caracteres com que se anuncia um
estrangulamento por ciúmes na Rua do Norte), a confiar-se demasiado na opinião
(primeiro passo para a idiotia, pecado que foi também o meu tantas vezes), mas
como poeta compreenderá que uma obra que levou 25 anos a erguer não devia ser
observada com olhos de sono.»
Valerá a pena, a 10 000 km de distância, abrir o
debate no seio da teia instalada para a recepção e o condicionamento da poesia
portuguesa actual?
Provavelmente é um gesto suicidário, sobretudo
quando se acabou de lançar um livro que espera por leitores, mas, neste exílio,
percebo que não posso consentir que me coarctem os direitos. E estes passam
pelas virtualidades de uma prática poética e de uma leitura das suas
respectivas densidades algo arredias ao que se tornou dominante em Portugal.
Instalou-se uma preguiça mental e uma estreiteza de horizontes que
paulatinamente afeiçoam o leitor a formatos pré-definidos de pensar e de
acomodar a expressão. O fascismo, diria até. A grande questão está contida
nesta formulação de Salah Stétié: «O testemunho na circunstância, digo: na
poesia, não é feito senão de palavras e é esta mesma a sua principal
fragilidade, aos olhos daqueles, os mais numerosos, para quem a palavra é uma
forma melhorada do nada. Para os outros, entre os quais alguns poetas que nós
colocamos no topo da nossa estima, a palavra é uma forma, penosamente
diminuída, da totalidade pressentida». (L’interdit, 93, José Corti)
Para quem considera a palavra «uma forma melhorada
do nada» a poesia aparenta-se à decoração ou, nos casos mais ‘sérios’, a uma ourivesaria
com um ofício expresso em medidas mensuráveis. Daí que tão facilmente se caia
na tentação de definir parâmetros. Tudo em nome de um retorno ao “realismo”.Depois não me admito como poeta “a quem se consente”. Só a minha solidão e a sua zona de laminação me guiam: não porque entenda a arte e a poesia como espaço sacrificial mas porque no limite há uma longitude de destino que me desobstrui – dom que é gratuito mas exige um preço a que não quero nem posso furtar-me. Sob risco de tudo se tornar decoro e venalidade.
Claro que ninguém responde ao meu texto endereçado ao Pitta. Nem o próprio.
“J´habite l’exterieur d’un anneau”, Paul Claudel: tão próximo de âne.
Extraído da Autobiografia, de Zao Wou-Ki, grande pintor chino-francês, presença determinante da Escola de Paris, dos anos 50 e 60, e amigo de Michaux: «(sobre a sua infância)
...os generais decapitavam e colocavam as cabeças à entrada da cidade – cabeças que pintavam metade em verde,a outra em vermelho. Como todas as crianças qua saíam da escola, empurradas pela multidão ao primeiro tumulto, eu assisti a uma execução. Não se podia recuar, era-se obrigado a olhar. Adormeci durante muito tempo, aterrorizado pela visão dessa cabeça rolando sobre o solo, cujo sangue espirrava de todos os lados.
Esta época foi terível. Havia suicídios entre os mais pobres, que não conseguiam sobreviver e vendiam os seus filhos no caminho da escola. Não eram incomuns os enforcados...»
Depois disto nunca se fará uma pintura realista. Seria absolutamente desumano.
Quiasma: a acrescentar ao meu catálogo de palavras que usarei invariavelmente a contrapêlo. Tão próximo quiasma de quiabo.
17 de Julho
A falta de electricidade é que
cumpliciou afinal a vontade dos medíocres à inveja de alguns, no caso da
condenção de Sócrates. A deliberação ocorreu em duas sessões. Na primeira,
segundo Xenofante – citado por Luciano Canfora no notável Um Ofício
Perigoso/ A Vida Quotidiana dos Flósofos Gregos – “parecera prevalecer o
bom senso; mas o grupo que batalhava pela condenação soube evitar uma decisão
imediata, dizendo que naquela noite não se podia votar porque não havia luz
suficiente para que se distinguissem as mãos erguidas dos votantes. Entretanto
trabalharam da melhor maneira que puderam para influenciar a sessão seguinte
com alguns lances de teatro”. Concluindo, Sócrates que na distorção da dialéctica – Sócrates, em todos os diálogos, é quem determina as regras da discussão, vantagem que não se deve menorizar – invariavelmente comandava a luminotecnia foi “comido” pelas sombras chinesas.
18 de Julho.
Pessoa morreu aos 47 anos, roído como
as borrachas que a minha filha entrega desleixadamente ao consolo do cachorro,
e eu sinto que renasço aos 48, como se pela primeira vez na vida reunisse as
cartas necessárias a um poke de ases. Quanto tempo me deixará a vida progredir
neste estado de exaltação nupcial? Algumas doenças perseguem-me e os alicates do
inexorável nunca se fecham. Mas talvez seja possível diferir, o intervalo
necessário à decantação deste meu novo estado numa visão. Não muito,
apenas o tempo necessário – se me é permitido pedir.
20 de Julho de 2007
Bilene, um espaço paradisíaco para
ler, escrever, acabar um livro. Belo jardim à Simenon, que se espraia pelos
fundos da casa em que me coube passar uma semana de repouso, depois da violência
de ter tido de escrever uma série de ficção para televisão de sete episódios em
15 dias (enfim, só metade, o que convulsionei do argumento já existente, mas a
mudança foi absolutamente geológica o
que exigiu uma reescrita total).Leio de Paz: «O presente é perpétuo/ Os montes são de osso e são de neve/ estão aqui desde o princípio/ O vento acaba de nascer/ sem idade/ como a luz e como o pó (...)». Mas será assim? Nascerá o vento a cada instante, sem antecedência nem sombra platónica? Nietzsche gostaria.
Variante de Paz:
na tua cama/ éramos três:/ eu tu e o vento.
25 de Agosto de 2007
Simpático convite para botar faladura
num congresso internacional sobre a Zambrano. Será que isso permitirá um salto
a Lisboa? Pensando meia-hora sobre o título da comunicação e o tema da mesma, a
minha intuição chega a estas prerrogativas: título, Zambrano: as imaginações
do oráculo; tema: «Na coincidência entre ser e linguagem entre acção e
devir, receptáculo e reminiscência, nesse para-além da linguagem que suplanta
as representações, e que tem nos «sonhos monoeidéticos» o seu operador,
Zambrano desenha uma trajectória que a aproxima da imaginação criadora de
Ibn´Arabi – à luz da exegse de Henry Corbin – e da “não-dualidade” do Advanta. Esboçar estes paralelos com algum
rigor e deixar entrevistas as suas consequências é o movimento que nos motiva.»Pode ser este o artigo que me faltava para fechar o livro de ensaios?
29 de Agosto
Conferência de Fotocópias: lê-se num
letreiro num notário de Maputo. Afinal, reza a última moda entre os paleontólogos, os dinossauros não buliam com os refreados nervos dos mamíferos (os placentários, segundo o artigo). Ninguém empatava ninguém naqueles tempos coruscantes, de pavio tão curto. Há hoje indícios, asseguram, de que o que aprenderamos sobre a incompatibilidade entre dinos e mamíferos é falso. Os chineses apresentam inclusive fósseis de um mamífero do Cretáceo que se alimentava de dinossauros, o Repenomanus. Convenhamos que é nome que o desvelo de uma vovó dinossaúrica pode apontar como Papão aos netos. E sei finalmente de onde extraiu Shakespeare o espírito peçonhento de Iago, o qual, segundo as novas correntes paleontológicas podia perfeitamente cuidar da higiene dentária dos T.Rex, seus irmãos na floração do sangue.
No mesmo jornal, leio:
«Dois minisubmarinos russos fizeram
domingo último uma jornada inédita, ao mergulhar até uma profundidade de 1,3
quilómetros sob o gelo do Oceano Galacial Ártico, como preparativo para uma
expedição rumo ao leito do mar, nunca antes visitado pelo Homem.
‘Esta foi a primeira vez que um
submersível foi usado por baixo da camada de gelo do Ártico e (o aparelho)
provou ser capaz de fazer isso’, disse Anatoly Segalevich, piloto de um dos
minisubmarinos que levam apenas um tripulamte cada um.»O silêncio que enfrentará um pequeno submarino sob as calotes de gelo é inimaginável, capaz de remover as coordenadas de uma mente, o seu precário equilíbrio. Nesses limites, os monstros da interioridade abissal galgam facilmente os picos da consciência mais moderada, da mesma forma que a ausência de gravidade leva a que os astronautas percam massa óssea.
Trabalhos danados a que os poetas hoje se furtam, pobres antenas de uma civilização encaramelizada que, dizia Michaux, inventou jogos e desportos onde não se arrisca nada.
Voltei a fazer merda e a não telefonar às minhas filhas no Natal. Elas ficam sempre tão magoadas com isto. E eu não consigo deixar de ser miseravelmente egoísta e a não querer superar (por elas) o pânico de me encontrar convulso ao telefone quando lhes ouvisse a voz e soubesse que há pouco a dizer porque a distância, iniludível, vai roendo os códigos da intimidade.
Que cobardia, somos sempre indignos para alguém.
27 de Dezembro
Diziam os chineses, escreve Kenneth White, que para “agarrar” a verdadeira poesia é preciso encontrar-se face a face com um homem vivendo a três mil quilómetros de nós.
Eu meti-me a dez mil. E se reencontrei a poesia, temo, por vezes perder a memória, atolar-me no desprendimento que convoquei.
Na esplanada da Colmeia, a tasca onde sempre abanco depois de umas horas de aulas, ouço uma discussão de jovens sobre filosofia – coisa raríssima nestes lugares – e um deles avança com um argumento devastador para firmar a (palavras dele) ‘superioridade dos filósofos’: «nunca vi num jornal o anúncio de um filósofo a auto-publicitar-se».
O que gostaria de ter à mão o Banquete, de Platão, para lhe ler esta passagem: «Aristodemo escutou-me que encontrara Sócrates quando este saíra do banho, calçando umas sandálias, o que não era seu costume, e perguntou-lhe onde ia, assim tão bem arranjado».
O que gostaria de ter à mão o Steiner para lhe ler a sua sugestão de que tudo o que importa na vida não se traduz em valores cambiáveis.
Ainda bem que não tinha o arsenal comigo senão teria tido a tentação de me meter na conversa e de dar gasolina à combustão daquele pobre rapaz. Devemos ser muito prudentes de modo a não induzir ninguém a abraçar a nossa escolha: a de um perdulário que desbarata a sua inteligência na pobreza.
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