sábado, 25 de fevereiro de 2012

ALGUNS POEMAS COM FIGURAS

david hockney: banhada
Em 2010, depois de ter visto duas provas de um livro, Bar La Fontaine, que seria editado pela Cosmorama, desloquei-me em Julho a Lisboa, entre outras coisas para o lançamento do livro e acabei por saber, por insistência minha, já em Lisboa, que o livro afinal não seria editado por insolvência da editora.

Foi triste, sobretudo, por ter sido tudo feito pela calada, pela omissão, sem a hombridade de uma conversa entre adultos, e eu ter feito uma viagem de 10 000 km absolutamente iludido.

Era um livro com 150 páginas e ficou irremediavelmente encalhado. Partes do livro seriam distribuídas pelo livro seguinte, Não se Emenda, a Chuva, e por um inédito, que em princípio sairá este ano. Mas uma série de poemas ficarão à deriva, sem chão. Como estes poemas com figuras:     



O CÉREBRO DE LENINE: O MAPA DAS ILUSÕES 


Somos ainda o resto de um mundo antigo, um dedo de criança

                     deixado para trás na fresta da porta.

No ano de 1927, namoriscava o meu avô

       – futuro falangista da Legião Estrangeira – uma flausina

empertigada que se furtava ao adestramento manual

nas matinés do Lethes em Faro,

               inaugurou-se em Berlim uma exposição sobre Lenine.

E aí se mostrava, em lâminas sabiamente documentadas,

o cérebro do político. Imensas ampliações

             fotográficas reproduziam as diferentes camadas do cérebro

e pela 8ªou 9ª camada, a marca do génio era anotada a vermelho.

Vivia-se claramente um momento em que o entusiasmo,

            mesmo estando a perder por sete a zero, comia a relva.

No século em que nasci, ainda um dedo de criança

latejava na abóbada estrelada, algures para Órion.




DA AMAZÓNIA 

1

«Eis os pássaros arremessados ao peito de Deus,   
                      cravados na sua aorta»: o último verso
não escrito por Mário Faustino, poeta de Belém do Pará,
sinistrado por desastre de avião, no único voo
que lhe foi impossível evitar
                desde que sonhara, anos antes,
que faleceria em desastre aéreo.

Há intuições tramadas, piores
                 que poemas concebidos sem pecado.
Há-de Deus ter olhos para quê?  


2 

Eis um rio que se intervala, a árvore.
                                  Julgava eu.

Na Amazónia é tudo um,
               ou a batida é em microtons:
verde e esmeralda.
Tudo o que aquele índio emudecido
na banqueta desejaria explicar ao cassetete
                da força de intervenção que lhe invadiu
o peito, a aldeia, a mando dos garimpeiros.

Eis um céu que se intervala:
            não são nuvens mas a ignomínia.
O deserto carece de sentido, basta-lhe não ser.



 O QUEIJO DE THOMAS MERTON 


Thomas Merton, trapista, foi dispensado

na inspecção militar por não ter os dentes suficientes,

o que o safou de dar com as fuças no Mar do Norte,

                   como o seu irmão Jean-Paul.

Mas Merton, a quem não faltavam os incisivos,

e era o tremendo de um «sensacionista místico»

                  (diria Paulo Leminsky),

levou um dia aos seus amigos um queijo do mosteiro.

Estes, sornas, maldizentes, chamaram o maitre-d’hotel

e mostraram-lhe o «queijo do monge».

O maitre, homem de improviso,

julgando-se picado por uma piada

de que não estava a ver o alcance,

                   carregou o sobrolho

e examinou detidamente o lacticínio.

O lance seguinte foi de sorriso rasgado,

pisando as sílabas: «Ah, eis-me

finalmente ciente de que um monge

                   é como uma cabra!».

O maitre-d´hotel tinha razão:

um trapista é intransigente como uma cabra

porque quando mastiga a erva não fala,

e se rumina não fala, e se dorme não fala,

e quando urina flúi, e quando contempla

                    fica lento como a lesma,

e se reza não faz sala, e quando côa

o soro do coalho no leite fermentado,

                     não raciocina, e,

havendo um grilo a tocar violino

                  no claustro, escuta e frui.

Os seus amigos riram de si próprios

rindo do cozinheiro – sem compreenderem

que o monge é tão verde como a cabra

e como ela não quebra os fluxos da erva,

da água, o mosteiro de silêncio

com que o vento

                   perdoa os lapsos do pastor. 






NÃO SE EMENDA A CHUVA 



«Reaprender tudo com a dor

que chameja nas costas,

acordar para a claridade

e encaixar: só em mim

não houve restauro…»,

calcetei, eu sílaba a sílaba,

numa derradeira página

de uma antologia de Gabriel

Ferrater, catalão nascido

ainda em liberdade, num «ro-

dado enredo de entrepierna»,



mas que depois do franquismo

escolheu não ficar entre línguas,

e lavrou com acinte na língua

de Salvador Espriu poemas

que conversam como os musgosos

molhes e dispensam o estilo

«porque não se emenda a chuva»

(- embora nas bebedeiras,

amiúde, se escudasse na farsa,

isto antes de quebrar as gafas).



Gabriel, que tinha uma erudição

aracnídea e aprendeu polaco

para ler Gombrowicz, não chegou

a conhecer a democracia

porque («lo diré del revés»)

arrancou a sua pedra angular ao Fado

(«Olha a torre: como se inclina»),

asfixiando-se com um saco

de plástico. Isto, uns mesitos

antes de fazer cinquenta,

oxidação que não aceitava para si.



Releio-o enviesadamente (as-

simetrias do álcool) na noite

em que perfaço meio século,

e sublinho de urgência:

«Consternado, um caracol a meio

de um muro seco». E de repente

paro… julgo ouvir a sua voz rouca

de ressaca.  Pigarreio. Já não temo,

o tipo que ouve vozes não está

doido: trabalha com outro tipo

de hipóteses. Beberico e retomo

a leitura de um poema

sobre a caducidade, intitulado

As Moscas de Outubro.




TEATRO E ZOOLOGIA 



Graciosos unicórnios, nos semáforos de Nova Iorque?

Desde que aquela fera da Broadway quis encenar O Rinoceronte.

Uma alvorada de cotovias cadenciou a chamada intercontinental.

Ionesco, o dos Cárpatos, tartamudeou a tudo que sim:

«oh yes… oui…oui…je comprend… yes…j’accepte!»



Mês e meio depois, voltou o romeno a erguer o auscultador.

O americano estava interdito. ‘Desembuche, homem!’,

encorajou o dramaturgo, a pulsos com o terceiro vin rouge. 

A eminência parda detectara uma metástase sombria

entre o segundo e o terceiro acto. Mas um ‘negro’,

sossegava, desatara o nó. Que foi que acrescentaram,

trovejou o autor de A Cantora Careca.



Lembra-se, Béranger vai a casa do amigo averiguar

o seu silêncio… (pausa) pusemo-lo ao telefone,

a tentar avisá-lo da visita. Ionesco,

(a vida é quando não é sentida na pessoa de outro,

explicou mais tarde) teve uma quebra de tensão.



À fera da Broadway não metia espécie a insânia.

Mudava a sua mãe em rinoceronte? Ça va!

As coxas da amada sabiam a corato?

É a ordem das coisas. O luminotécnico,

ao terceiro dia de ensaios, exibia um corno

a meio da fronte? Não era esse o tema da peça:

‘faça-você-mesmo, mostre o rinoceronte que há em si!’?

Minudências que armavam a congruência da fábula

ou, quando muito (se, afinal, até o Messian

se converteu à passarinhagem), elucidavam

a aparatosa tropelia com que o tempo maneja os cordéis.



Inadmissível, isso sim, um homem bater à porta

dum amigo sem avisar. Não há modo de escamotear,

pensou o romeno com os seus botões (e ao refugiar-se

em casa de seus botões, Ionesco entronizava a solidão

das personagens), a inteligência vive no buraco de golfe

onde o coelho parte o ilíaco e o homem é o único costume

alheio a si mesmo. Olhou-se ao espelho, sobre

a mesinha do telefone: estava um caco,

seria patético insistir na porta lúbrica

duma ou outra palavra ainda virgem.



Não é mau, este rouge da Sardenha,

sublinhou, estalando na língua um certo travo

a derrota. Serviu-se de um penalty

e esperou que uma plateia de tartarugas ovacionasse.




DA POESIA  



1 

Fora acusado de plágio

      pelas sombras chinesas.

                  Nunca mais foi o mesmo.

Uma vez contou: ‘Num sonho, sobrevoo Veneza

de helicóptero com Mastroianni a meu lado,

         que comenta, É uma bela cidade sem pés,

de varandas pelos joelhos!’,

para rematar: ‘achas que devo contar

               este sonho como meu?’

Repliquei: ‘Como neva!

Olha, não me levaram os deuses cedo

e já só o branco me embriaga.

Partilho contigo a decepção,

                 ou aceito como só meu

o pólen derramado no chão?’





2 (morte do jovem poeta) 



Observa: estão tapadas as linhas de passe.

No futebol e na poesia a mais pequena estaca

está pela hora da morte. Isto



não enredaria em varejeiras o jovem

literato se a letra tumefacta do seu corpo

não esbarrasse na seca exasperação do dela.



O melindre é este: o alcance do poema

é curto e resvala nos olhos do leitor que, 

embora de comum magnifique as estátuas,



nem sempre lhe cede as pupilas. Pior,

se inabordável parece ao intérprete,

ou duma polpa amassada que há sete gerações



ninguém empolga.‘Compreende as pessoas,

mas não os sonhos!’, lastimou o suicida,

que ao almoço papava Frank O´Hara



e se imaginava um desvelado lavador de janelas

em Nova Iorque. No velório, resignada,

comentava a mãe: ‘Ia ser um adulto



tão indeciso!’. Venha o diabo

ao horto e espalhe o adubo - ele

que escolha as linhas de passe!




O QUE DESIGNA UM ICEBERG


Por vontade própria e alheia tem andado o Raposas ancorado. Retomemos a navegação:

Como sempre, na primeira aula, bato na tecla duma necessidade de mergulhar na escuta, de um despertar na palavra, e reforço a necessidade de nos aventurarmos no dicionário como num safari de luxuriantes colibris. Pelo menos cinco ou seis vezes ao dia, acentuo, mentindo com o meu exemplo, que se não descubro cinco palavrinhas novas por dia me sinto um abajur depreciado pela virilidade da sua pera, etc., etc. E insisto que me interrompam, caso nas minhas deambulações ocorra alguma palavra que eles desconheçam. Não se inibam, não se inibam… E entrego-me ao fluxo, desopiladamente, alternando a gaguez com blocos de alguma fluidez e duma impensada pertinência, desemperrando a língua… e uma aluna levanta o dedo. Diz, convido, e ela pergunta, dr., O que quer dizer iceberg, O que designa um iceberg, repisa, num orgulhoso assomo de erudição. O que designa um iceberg, ecoa no meu crânio, ao ralenti. Não sei o que é, conclui. Não viste o Titanic, pergunto, angustiado. Ela não se deixa esmorecer, Vi até metade. Viu precisamente até ao momento em que aparece o iceberg, o que é o mesmo que não ter visto. Sinto uma gota de suor frio a sulcar-me as fontes. Ressalvo, é natural que desconheças o que seja um iceberg, és uma rapariga dos trópicos. Mas por dentro estou gelado com o esforço de não deixar transparecer que talvez não seja admissível no século XXI que um estudante universitário, em qualquer parte do globo, não saiba o que é um iceberg.

Lembro-me de um choque semelhante em Quelimane quando um aluno, que teve de ler uma palestra de Merleau-Ponty, me trouxe uma lista de palavras-mistério para eu lhe desvendar, havendo, no meio de alguns conceitos, um aguaceiro de palavras corriqueiras, que culminava num cirro cinzento e pesado, a única palavra que ele se havia esquecido de apontar e que agora pronunciava de viva voz: professor, o que é “espontaneidade”? O mesmo aluno que, num jantar de convívio que tivemos depois, já alegrete com um copito, me falava do mar vertical, metáfora que eu aproveitei para definir a poesia.

Mas a mais mortal talvez tenha ocorrido seis ou sete meses depois de ter chegado a Maputo. Fui apresentar um livro de contos de Albino Muianga, e conto uma história com o Picasso.

Um soldadito vem de fim-de-semana a casa e passa por uma galeria onde se inaugurava uma exposição do basco. E fica logo de cabelos em pé com as mulheres do quadro que está exposto na montra, com os rostos de frente e de perfil ao mesmo tempo.  E resolve ir dar uma lição ao pintor. Entra abruptamente pela galeria, acotovelando à esquerda e direita, e pergunta estentóreo, onde está o bardamerda do pintor? O Picasso acolhe-o sorridente, com a sua boina basca e uma taça de vinho. Escuta o arrazoado do soldado sobre os distorcidos corpos daquelas mulheres e a sua falta de realismo e então pergunta brandamente: O amigo tem namorada? A pergunta desconcerta o soldado, que anui, tenho. E tem uma fotografia consigo, pede o pintor, amavelmente, num tom que não admite recuo. Tenho aqui, e o soldado tira a carteira do bolso, abre-a e mostra a fotografia da namorada, que passa imediatamente para as mãos atentas do pintor. É muito bonita, observa o pintor depois de uns segundos de silêncio, muito bonita mesmo… pena é ser tão pequenina.

Isto para explicar que aceitar a arte implica aceitar as suas convenções, de igual modo que se aceita que aquela imagem da fotografia “seja” a pessoa que retrata.

Contei esta história, que é no mínimo risonha, e fiquei siderado pelo silêncio gélido que se seguiu na plateia, que reunia umas dezenas largas de pessoas, quadros, intelectuais e médicos - a profissão do Aldino.
No beberete que se seguiu houve uma cirurgiã que se apiedou da solidão do apresentador e se aproximou calorosa para me perguntar: o Picasso é aquele artista que pintou aquele menino das lágrimas, não é? Falava-me de um poster absolutamente foleiro e kitsch que forrou as paredes da pequeno-burguesia urbana dos anos 70. E então fez-se-me luz, a maioria da gente ali reunida não sabia quem era o Picasso.
Para espanto meu, descobria um sítio no mundo – muitos, verifiquei depois – onde não se sabe quem é o Picasso. E não sei se tem mal, embora os intelectuais na Europa saibam quem é o Malangatana. Um lugar onde um jovem universitário desconhece o que seja um iceberg. Nunca estaremos suficientemente advertidos para as nossas diferenças.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

CRAVEIRINHA: O POLÍGAMO DA NOSTALGIA

José Craveirinha faria 85 anos este ano e o Movimento Literário Kuphaluxa resolveu homenageá-lo, no Centro Cultural Brasileiro, onde, sob a batuta de Calane da Silva, tem a sede. A sessão foi no passado dia 6, tendo eu sido convidado para moderar uma mesa com vários escritores num debate de evocação do poeta. Embora seja um poeta que admiro mas não amo, reconheço que de cada vez que o tenho de reler com mais atenção descubro sempre coisas novas, o que é a marca de um grande poeta.
Por isso deixo estas notas, sacadas ao documento que preparei para essa sessão:

1
Dou um exemplo de como grande parte da literatura é desencadeada por empréstimo, por uma troca, extraindo-o do livro mais improvável, precisamente o Poemas da Prisão. Na página 117 lê-se «Estou só/ mas viajo no pensamento./E à minha cabeceira/ a voz que escuto/ é Fernando Pessoa que responde», e este poema esclarece uma estrofe do primeiro poema do mesmo livro, onde se lê: «A vida/ órfã de sempre/ dá-me em cada verso/ uma veia esticada em mim/ a retinir poesia.//Deus deu-me/ esta arte mínima/ de confessar as coisas/ dizendo tudo a fingir.// E desta dádiva me sirvo/ polígamo de nostalgia.»
A estrofe a que me refiro é a segunda: «Deus deu-me/ esta arte mínima/ de confessar as coisas/ dizendo tudo a fingir», e que corresponde à famosa quadra de Pessoa ortónimo que abre o poema Autopsicografia: «O poeta é um fingidor./ Finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ A dor que deveres sente
Portanto não existe o génio espontâneo, mas sim as janelas que alguns abrem para além da clausura do condicionamento e que são mais ricas se o poeta estiver tão encharcado de cultura como de vivido.

2
José Craveirinha, muitas vezes, é embaciado como poeta, ou antes, engravatado como um estrito poeta social, quando as dimensões da sua obra não suportam grelhas de leitura tão redutoras.
E, de novo, para começar, a confusão entre tema e poesia é-lhe claramente prejudicial – e servirá mais aos interesses políticos que à memória plectórica da sua obra, que transcende os ferrolhos da sociologia.
Vamos aos exemplos. Um poema como Aldeia Queimada: “Mais/ nas noites/ desparasitadas de estrelas/ é que as hienas/ actuam. // É/ de cinzas/ o vestígio das palhotas”. O que faz deste feixe de versos um poema não é a denúncia do acto (embora console saber que como homem, Craveirinha não perdoava as canalhices) mas a translação que sofre o insólito adjectivo «desparasitadas», que primeiro alude às estrelas para depois - “deslocado” pela ausência das mesmas - adquirir um novo sentido que desqualifica (o que é realçado pelo ineditismo do adjectivo) os que estão presentes: os parasitas das hienas (leia-se: os guerrilheiros da Renamo, que fomentaram uma guerra civil durante uma década, em Moçambique). É quando a noite se desnaturaliza que atacam as hienas.
Cá está: a poesia  não é apenas uma representação das coisas do mundo, mas sim, essencialmente, um processo da linguagem e neste caso estamos diante de um engenhoso mecanismo de economia verbal.
Fosse o poema escrito, exactamente com o mesmo conteúdo, mas com sinónimos e sem recorrer àquele insólito adjectivo, exemplifiquemos: «Pela calada/ da noite/ é que as hienas/ actuam/ etc.», não passaria de uma informação, pertinente face à contingência mas que só sobreviveria como imitação de poema. É o que nos ensina Manoel de Barros, um poeta brasileiro contemporâneo: «um passarinho desapareceu de cantar», é um verso de Guimarães Rosa, enquanto «um passarinho deixou de cantar» não passa de uma informação, digna de figurar nos fait-divers de um jornal.
Num outro poema de testemunho ao seu comprometimento político, Vila Algarve, o poema não seria o mesmo sem o modo verbal com que fecha este terceto: «No entanto um típico tremor/ quando olho os clássicos azulejos/ são os meus joelhos a recordar». A abrupta a passagem do verbo para o presente do conjuntivo dá conta da inscrição do medo no corpo e dilata (porque a actualiza) a brutalidade do vivido, pois na foi na Vila Algarve que o poeta foi torturado pela polícia política portuguesa; e apesar da sua consciência e da sua rejeição moral e política quanto à sua provação no passado (o poema acontece dez anos depois do poeta ter estado preso pela Pide) o corpo treme-lhe involuntariamente, quando o poeta se aproxima da casa onde foi torturado. A denúncia não seria tão forte sem esta subtil intensificação emocional pela alteração do verbo.
Mas temo que Craveirinha esteja a ser lido apenas pelos conteúdos (leia-se: políticos). Temo que um poema antologiável como O Trilo:
«Da
ave o trilo.

Pássaro
canoro trilando
possesso.

Trilando num galho
exéquias.

Recolho
e transcrevo o timbre
que é um canto de luto notável – o poema insinua: se a Maria estivesse viva o poeta estaria distraído a não ouvir o pássaro, a ponto do seu canto não lhe parecer uma exéquia, pois a sua presença ofuscaria o sentido do canto – este poema nunca o vi valorizado porque não é explícito, declarativo, aqui não se grita contra o colono, sendo apenas um poema de luto subtilíssimo que eleva a qualidade expressiva à perfeição, inclusive num recorte quase concretista (repare-se, como o desenho que forma na página o terceto central do poema: «Pássaro/ canoro trilando/ possesso.» lembra o bico de um pássaro).

3
Os poetas não são santos, nem comissários políticos («Sabotagem é despromover um verdadeiro poeta em funcionário», escreveu o poeta em Saborosas Tanjarinas d’Inhambane, talvez prevendo a sua sorte póstuma), e a sua obra é para ser dessolenizada. Só assim o poeta desce do pedestal das efemérides para conviver com os homens. E para isso é preciso não o dar por perfeito, como figura ideal, como único. Ele próprio não se dá como único, e para mim, o que dá densidade humana à obra de Craveirinha, mais do que a retórica nacionalista em que ele tão necessariamente investiu a seu devido tempo, ou a aura de herói que isso depois lhe deu, e que ele nunca quis vestir, o que para mim lhe dá um carácter que como poeta coloco acima das evidentes virtudes, é antes a sua declarada fragilidade, os inúmeros, porque são inúmeros versos em que o poeta fala do seu desamparo, da sua solidão, da sua vulnerabilidade e mágoa diante do passado e do presente, da falta, das rasteiras do tempo, o seu face a face com a distopia e as suas dúvidas de homem que sem nunca ter faltado ao seu compromisso com a história e com o seu povo nunca deixou de ser o Zé particular, o Zé ninguém, aquém do estatuto, imerso no seu quotidiano anónimo e ao rés dos seus, tantas vezes traídos nas suas expectativas. É este Zé Craveirinha, pouco espectaculoso, que me faz lembrar um grande poeta checo Vladimir Holan, é este homem disposto ao amor do ínfimo e às contradições que para mim trazem a grande complexidade do poeta, como no conhecido poema Interrogatório: «Era não!/ mas o tabaco/ é um vício.// E o vício/ fumado nas omoplatas/ põe-nos sobre a língua a nicotina// descerra os lábios para o sim». Repare-se na complexidade que aqui se joga: este não ou este sim são a inocente afirmativa ou negação de aceitar um cigarro oferecido pelo inimigo, ou trata-se, o que é mais grave, de vender uma informação por um cigarro? E o Craveirinha pode bem não ser o sujeito do enunciado e este ser antes o nós impessoal que é a soma dos presos políticos, portanto desiludam-se os que lêem aqui uma confissão, o Craveirinha está a encenar, a colocar o actor deste poema diante da miríade das pequenas armadilhas pessoais que podem minar naquela situação extrema a vontade e a coragem do preso; e então assistimos ao modo como um problema pessoal se eleva a categoria, tornando-se universal - é o que faz a força do poema.

4
«O choque entre o vocábulo comum e a reinvenção dele para uma rítmica esquematização; um estruturamento quase alucinado e alucinante das imagens e um sentido hedonístico da semântica como um espasmo heliocrómico, dá-nos, comunica-nos, faz-nos amiúde sentir as mais inconfessadas tensões…» E adiante: «fazer poesia não é oprimir calculisticamente conhecimentos e juntá-los ao bel-prazer de quem quer; porém sim, a partir da desopressão de cada vocábulo em si erguer a torre significativa em que o momento se intemporaliza (…) O homem atento às coisas do mundo está no poeta para exercer a ironia, o sarcasmo, um onanismo enfático também. Mas sempre nas formas de um poeta sensualmente ia além de se condoer, de co-doer-se.» 
Chamei estes excertos, duma crónica de Craveirinha sobre Grabato Dias, à liça posto que me parecem funcionar como um espelho diante de um espelho, isto é, podia ser o que alguém poderia escrever sobre muitos recursos estilísticos do próprio José Craveirinha, que realizou, - sobretudo com Xigubo e Karangana wa Karangana - uma verdadeira operação de translação na língua portuguesa.
Visto que não se trata unicamente de ter embutido termos rongas nos poemas, ou da introdução de neologismos onde o português convive com o ronga, o inglês e até o afrikans; não é isso, a meu ver, que “nativiza” os poemas, e vê-se como a inserção de termos autóctones noutros poetas é meramente decorativo. Aliás, Calane da Silva mostra na sua tese como Craveirinha pega em verbos ronga e os declina segundo a gramática portuguesa e neste caso estaria a “aportuguesar” o ronga. A sua intervenção é mais profunda, o que difere em Craveirinha é que ele empurra o português para fora das suas fronteiras forçando a língua nos seus mecanismos sintácticos e morfológicos. A coisa é simples: o poeta expõe os limites da língua portuguesa em relação às suas aspirações universais e então expande-a (, ainda que seja preciso dizer que, na época, em Moçambique, Grabato Dias também fez “contorções” linguísticas notáveis) com enxertos de uma sonoridade local que lhe abre as lentes. O sistema arterial da língua passa a correr num duplo sentido.
Escreve Craveirinha no poema A Fraternidade das Palavras:
  ()
  E eis que num espasmo
  de harmonia como todas as coisas
   palavras rongas e algarvias ganguissam
   neste satanhoco papel
   e recombinam o poema.”
               ( Karingana wa Karingana : 151)
Este namoro, propósito a que o sujeito empírico do poeta nunca se furtou, é visado em muitos poemas que realizam uma verdadeira cópula entre as línguas, numa plasticidade crioula. Há um mês atrás, numa entrevista que dei para o Brasil por causa do meu romance que lá saiu escrevi eu sobre a lusofonia:
«O imaginário lusófono é como o sentimento da queda no Paraíso bíblico: há um misto de culpa, de rejeição e de tremenda atracção pela Eva. O aparente decoro da Eva não nos deve deixar impotentes, e convém voltar a fecundá-la, com a diferença de que agora pode ser ela a tomar as rédeas do jogo, tendo o papel activo na função. É preciso aceitar a troca das posições no leito para que a coisa volte a animar. Enquanto não se entender esta coisa primária, a lusofonia não passa da simulação das erecções de um anão ao espelho. O Eduardo Lourenço já disse tudo sobre esta matéria no seu devido tempo, mas como os políticos portugueses não têm mais nada a oferecer senão retórica agarram-se à miragem.»
Trouxe isto à baila por causa do que acima sublinhei, pois quando o Craveirinha coloca o português e o ronga ao mesmo nível e destrói qualquer sentido da hierarquia entre elas, naquele tempo em que o moçambicano não tinha cidadania, já está a realizar esta troca de posições na cama. Mas é mais extensivo, ou antes, mais subversivo. A linguagem é uma espécie de mobiliário que nos reveste por dentro. Quando o Craveirinha muda a sintaxe está a alterar absolutamente a posição dos móveis na casa e com isso descalcifica alguns ossos e altera a arrumação dos órgãos internos. Corolariamente, não concordo com a ideia de que o Craveirinha tenha nativizado o português, eu acho que é mais fundo e que ele encetou uma crioulagem que “ já não tem remédio” e que é de uma enorme riqueza plástica.
Como ele mesmo insinuava numa crónica de Contacto: «Trata-se muito simplesmente de não abdicar de uma cultura indígena, nem renegar uma corrente europeia, quando de tal enxerto pode surgir uma beneficiação integral na riqueza do ritmo expressional duma forma literária.
Deste princípio surgiu o grito do poeta Senghor, do Senegal: «Porque não unir as nossas duas claridades a fim de suprimir todas as sombras…».
Daí que, a meu ver, quando, a pretexto de Bertina Lopes, Craveirinha afirma que “precisamos de cultuar a reminiscência ancestral como forma de reabilitação integral”, o integral aqui seja total, ambitransitivo, e preveja a abertura a todas as experiências da memória e não o fechamento, a restrição, a identidade autárquica; sendo que as claridades evocadas em cima devem ser lidas não cromaticamente mas como sinónimo de «clareira do bosque», lugares onde o discernimento e a sensibilidade afins de cada senda se encontram, dialogam e conectam numa síntese sem peias nem complexos.

5
No primeiro poema de Poemas da Prisão, o poeta define-se como um polígamo da nostalgia, o que lhe assenta magnificamente porque o amor que re-liga era nele maior que o dissentimento da fractura. Como em Mandela, em quem o perdão foi maior que o ressentimento.
E com a mesma lucidez com que declarou: o homem é uma raça, nunca embarcou em quaisquer jogos de poder, mantendo sempre a sua reserva crítica sempre à mão. Inclusive declinou uma oferta choruda de Samora Machel, dizendo-lhe que preferia não a aceitar para resguardar a sua independência. Esta dimensão cívica é ainda hoje um exemplo, num país tão causticado pela obediência e o deletério comércio do favorecimento.

6
Li esta semana que o ministro da cultura, o Armando Artur, teria dito sobre o Acordo Ortográfico que este era ainda muito confuso e que não se entendia bem em que é que Moçambique lucraria em gastar tanto. Depende. De facto Moçambiqu1e ainda não se meteu na discussão do Acordo, que agora promete ter voltes-faces devido à acção e influência de Graça Moura, mas acho que Moçambique devia ter uma palavra a dizer neste aspecto. Uma das razões principais é que um é um país de não-passivos utentes da língua. O espectro do legado de Craveirinha devia estar no centro das propostas que Moçambique teria a dar para o Acordo. E por esta sugestão me fico.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

CARANGUEJOS APLAUDEM NAGASAKI


Marcelo Ariel é escritor, performer e proprietário de um “sebo” (um alfarrábio) itinerante num subúrbio de Santos, sendo, neste momento, um dos mais interessantes poetas brasileiros. Mas o melhor é citar Adelto Gonçalves: «A exemplo de Paulo Lins (1958), autor do romance Cidade de Deus, oriundo de espaços periféricos e conflagrados em que o poder do Estado há muito foi substituído pelo poder de facções armadas pelo dinheiro do tráfico de drogas, Marcelo Ariel vem de uma “perigosa” linhagem de escritores», o que é corroborado por Manuel da Costa Pinto, da revista Cult, uma das melhores revistas literárias do Brasil, quando escreve: «…tantas antologias de poetas da periferia valem apenas por trazerem poetas da periferia...  E, também por isso, um poeta como Marcelo Ariel, autor de “Tratado dos Anjos Afogados”, deve ser saudado como acontecimento sem precedentes.
 Não há qualquer condescendência em dizer que esse escritor negro, de 40 anos, mora em Cubatão, na baixada santista, onde vive de um ‘sebo itinerante’. Pois se o livro reúne bom número de poemas sobre chacinas e presídios, o teor testemunhal se conecta a outros martírios e nos restitui ao coração de um fracasso maior, que funda a experiência poética moderna.
Na série “Vila Socó: Libertada”, os poemas partem de uma tragédia real – o incêndio provocado na favela de Cubatão por um oleoduto, em 1984 –, mas se transformam em urna funerária na qual os corpos em combustão se juntam às cinzas deixadas na história e na literatura.
Assim, em “Caranguejos Aplaudem Nagasaki”, uma Beatriz saída dos círculos infernais de Dante vaga por essas ruínas em chamas, essa Pompéia tropical que é também símile do genocídio nuclear e outros holocaustos.
A narrativa de Ariel é ora cinematográfica, ora espasmódica – e sempre saturada de uma erudição selvagem, citando lado a lado Kafka, Cy Twombly, Paul Celan, Cronenberg e Nuno Ramos.»
É este poema que reproduzimos em baixo, mais a outros dois que também pertencem ao livro Tratado dos Anjos Afogados.
E tive a felicidade de ser convidado pelo autor para escrever o prefácio do próximo livro dele, a sair este ano. Obrigado Marcelo.

CARANGUEJOS APLAUDEM NAGASAKI

para Gilberto Mendes & Mano Brown


                        (Vila Socó)

Corpos em chamas se atiram na lama
mulheres e crianças primeiro
caranguejos aplaudem Nagasaki
bebê de oito meses é defumado
enquanto Beatriz
agora entende o poema derradeiro
Beatriz mãe solteira antes de morrer deu um inútil pontapé na porta

No ar
gritos mudos
a noite branca da fumaça envolve tudo
alguém no bar da esquina
pensa em Hiroxima
nas vozes
horror e curiosidade acordaram a cidade
se misturando
dentro do inferno olhos clamam
por telefone
o ministro é informado
– O fogo os consome...
A sirene das fábricas não
silencia
Dois serafins passando pelo local
sussurram no ouvido
do Criador
“Vila Socó: meu amor”
Uma velha permaneceu deitada
em volta da cabeça na auréola
o último pensamento passa
o coro das sirenes
no meio do breu iluminado
uma garça voa assustada
com os humanos e seu inferno criado
no mangue o vento move as folhas

Um bombeiro grita:
– KSL! O fogo está contra o vento! Câmbio...

Foi Deus quem quis
diz o mendigo
que sobreviveu porque estava dormindo no bueiro da avenida.
Um orgasmo é cortado ao meio
quando o casal percebe o fogo
queimando o espelho.
Voltando no tempo
lamentamos
o movimento do gás
levíssimo iceberg
que converteu fogo em fogo, horror em horror

Vila Socó
estacionou na História
ao lado de Pompéia, Joelma e Andrea Doria
Pensando nisso
ergo neste poema um memorial
para nós mesmos
vítimas vivas
do tempo
onde se movimenta a morte se espalhando na paisagem
como o gás
que também incendeia o sol
(bomba de extensão infinita)

Beatriz sentou perto da porta e ficou olhando o fogo.
Até que invade a cena a luz suave de um outro sol frio
Fim de jogo.

(O que não queima)

Beatriz agora é outra coisa e contempla:
raios negros num céu negro
depois brancos num céu branco
suavemente penetrei num jardim
onde uma única árvore existe.

(O incêndio acaba e a garça pousa no mangue, onde os anjos sonham)

Naquela noite um acordou
andou no meio das chamas
e as chamas
o queimaram.



Cubatão

                                                                 POETA EM CUBATÃO

   
num céu que não nos protege

contemplando a procissão dos falsos replicantes

sendo sugada pela interzona industrial

cercada de favelas

pétalas dessa flor do mal

ouvindo o sino de fogo de Rimbaud

(que aqui seria só mais um desempregado carregando o

pólen da morte

flor enorme e cósmica

desse jardim das trevas

onde os nomes das cidades ou dos Poetas

serão nada)

Um sol negro irradia esse silêncio atômico

Voltando  ao poema

ponto final do ser,

a besta pára

na Praça Euclides Figueiredo, desço

entro na Rua Camões e sigo pela

Machado de Assis.

Amém.



O AMOR


No ultra-sonho

estar sendo é ter sido

onde um polvo

epiléptico feito de dois corpos

procura em vão

a luz entre carcaças

depois se transforma

num transparente e maravilhoso

pássaro cego.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

EXPIRAÇÃO E INSPIRAÇÃO DE JOÃO ULISSES


                                                                 para a Ana Ulisses

Morreu o João Ulisses. Vou ficar na cama
a coçar a cabeça e a cismar na pequenez
da minha clausura. Talvez fume um maço
de olhos fixos no morrão incandescente
em que patinou a minha torre de Babel.
De facto, hoje não tinha nada para fazer,
e daqui para diante será inútil esperar
por anjos caídos no esconso lúgubre,

morreu o João, o meu Ulisses à moda
do Porto. Não era o ULISSES de Homero,
não tinha a estampa do ULySSES de JoYce,
era o que foi dado num encontro alucinado
no antigo Luso do Porto que depois verti
num conto, de fortuna e colarinho incertos.
Homero e Joyce criaram arquétipos, alianças
que não casam com os dedos da morte,

neles as provações são menores que a gana
com que as unhas, o cabelo, o coração
atribulado dos seus heróis, vence o olvido.
Ainda hoje deambulam, iridescentes,
nas circunvoluções do leitor. Reparo agora:
não me ocorre herói que seja calvo.
O meu Ulisses tinha uma bela cabeleira de índio
peruano, até nisso era dotado, mas finou-se,

e o meu cabelo desfalece às pazadas
na fronha encardida. Olho paralisado
o meu corpo, exangue, a deslassar
sob a ventoinha no tecto, o gim acabou,
apocalipse now  forever, e desejo
que o artefacto caia e me decepe:
morreu morreu morreu o Ulisses
de olhos e costas voltados contra o mar.

Triste a condição dos poetas menores,
ver – de Tristia, da estultícia do seu exílio –
morrer as suas personagens, e acordar
a meio da insónia, aturdidos, na mesma cela
em que se esfumam as miragens.
Pudesse eu ainda salvar-me socorrendo-me
de um artifício à Borges: filmando um encontro,
num fumarento bar do basfond de Esmirna,

entre o meu Ulisses e o João, o Ulisses
que eu não conheci. Discordam de tudo
menos da temperatura da luz que havia
no Luso, numa ínvia noite de chuva,
em que uma personagem se senta ao balcão
e pede uma Francesinha.  Para o que se segue
contradizem-se, no mais ínfimo lampejo
da memória. Só eu assisto e anuo com tudo,

como um nó que se descobre marinheiro.
Somos três homens perdidos na bruma,
dois Ulisses e o seu narrador – qual deles
afastará o frio começando a assobiar?
Morreu o Ulisses. Quem me salva a personagem?
Baixem as persianas – o seguro morreu de velho
e eu também não. Um morro de cinza abate-se
sobre a minha sombra. Trabalha ventoinha!



Excerto do conto Ulisses à Moda do Porto, publicado em Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo, Teorema, 2008:

«Como é que o conheceste?
Num FantasPorto. Era o quinto filme que via nesse dia, no Carlos Alberto, e sai-me aquele enredo de uma brasa aperaltada que seduzia os homens e a meio da trancada se transformava numa enorme aranha que lhes devorava as entranhas... não aguentei mais e saí para a rua, como diria o Fortes, com uma aranha no penteado. Eram para aí dez da noite, e o Luso estava apinhado. Conheces o Luso, na Praça Carlos Alberto, de vitrinas corridas de alto a abaixo, um café antigo? Só arranjo lugar ao balcão. E não sei porquê, deve ter sido do bucolismo que o filme transmitia, peço uma francesinha.
Consegues comer aquela bodega até ao fim?
Nunca, não tenho o estômago de um búfalo. Nem cheguei a meio.
Pouso a coisa e, foi automático, ouço uma voz com sotaque atrás de mim, importas-te que acabe? E eu, força. Era ele. Ficou de pé, ao meu lado. E disse-me, nem em Bruxelas, esqueci esta merda... e ri-se. Referia-se à francesinha. E eu fiquei logo antenado. Houve uma altura em que todos os amigos que me rodeavam tinham estado em Bruxelas... Entretanto, o gajo do meu  lado saiu,  era um escocês que estava à espera da mulher, que tinha ido ver o filme da aranha, e ela chegou com um ar enjoadíssimo e para nunca mais... e o Ulisses abancou. Queres uma imperial, convidei. Só se pagares. Para mim, ele já era amigo dos meus amigos, tinha estado em Bruxelas... Vê lá se conheceste algum destes gajos, perguntei-lhe, o Al Berto, o poeta, o Guilherme, o Dodo, ou o Tinoco, um tipo que estava ligado à Luar? E ele acenava-me, com a boca cheia. E contou-me a história do salto dele: conheceu no Cais do Sodré o cozinheiro de um barco turco, que o metia dentro do navio, a troco de uns dólares. Pediu dinheiro emprestado e passado dois dias o turco escondeu-o no porão de açúcar. O barco partiu nesse tarde, só que os vapores do açúcar começaram a embebedá-lo e apareceram os ratos, às pazadas demasiados para um homem já meio grogue. E então desatou aos berros. O navio já estava em águas internacionais, saía caro voltar ao porto, e então o cozinheiro disse que precisava de um ajudante... Mais tarde, percebi que não era só isso, o cozinheiro era panasca e marcou-o... Atravessou o Mediterrâneo, parou em várias ilhas gregas, e acompanhou o navio até Esmirna. Aqui saiu, e com a jorna que lhe pagaram, fez toda a costa da Turquia até Istambul, onde arranjou boleia num camião de congelados para Berlim. Um mês depois chegava a Bruxelas, onde permaneceu um ano, antes de se mudar para Amsterdão...
Porquê, a mudança?
Ele nunca me explicou. Na Bélgica o grupo de exilados português era mais politizado e na Holanda era mais janado, era a hipótese que eu punha... Mas um dia perguntei ao Tinoco, que estava ligado à Luar, se ele o conhecia. Ele pôs uma cara de caso, cofiou a barba e perguntou-me apreensivo, Tu és amigo desse gajo? Esse gajo assaltava tabacarias de velhinhas em nome da Luar e tivemos de convidá-lo a mudar-se para Amsterdão.
Olha o figurão... Mas afinal, o que é que te ligava ao gajo?... Então, ficaste mudo?
Lá no Luso, estava a meio da narração prodigiosa da sua vida e diz-me a frase mágica: deixei a minha caixa de poemas com o Al Berto. Nessa altura eu dava uma importância excessiva aos versos, para mim um poeta era um ser de altíssima prioridade.
Ingenuidades...
Cada um tem as que pode... E perguntei: e o Al Berto devolteu-tos? Não, perdeu-os num incêndio. Bolsei a pergunta fatal: tens continuado a escrever? Sim, tenho tudo na pensão... E aqui o sacana foi expedito, disse-me, trabalhei nas alfândegas até à abolição das fronteiras, depois, separei-me, e nunca mais me enquadrei... Nessa altura reparei que atrás de nós fez-se silêncio, mas ele pediu logo outro copo e continuámos, Tens escrito sobre isso, perguntei-lhe, cabotino, e o latoso: é o que me resta, o despojamento das personagens de Beckett é a que estou reduzido. Tens esses poemas contigo, salivei eu. Na pensão.
Espera lá, e como é que ele foi de Amsterdão para o Brasil?
Voltou depois do 25 de Abril. Meteu-se no meio teatral, fez uma peça no Trindade, e depois foi para o Porto, viver com uma actriz, entretanto chamam-no de novo do Trindade para participar num elenco com artistas brasileiros... e ele conheceu a brasileira e pirou-se com ela. Por isso é que ele tinha voltado ao Porto, soube que a antiga namorada estava desamparada e foi tentar a sua sorte...
Continua lá, no Luso...
Disse ao gajo, trazes os poemas amanhã, conheço vários editores. E ele, talvez, estou com um problema... O sacana tem um ar inteligente, matreiro, e é perito em pôr um ar sofrido. Passados dez minutos apanhei-me a pensar, que se foda, o jornal é quem paga, e ofereci-me para lhe pagar os dez contos que ele devia na pensão.
Não te rias, o gajo tinha estado em Bruxelas, o viveiro de todos os meus amigos... Pagas a pensão e amanhã encontramo-nos aqui às três da tarde para me mostrares os poemas...
E leste-lhe os versos?
Noutra ocasião. Mauzotes, muito auto-complacentes. Era um repentista com graça, mas depois não trabalhava o verso, e ficava-se pelo poema-piada, à tropicalista...  E na prosa era pior, mostrou-me um romance e eu dissuadi-o... ou antes, como as editoras lhe deram para trás, ele então resolveu ouvir-me...
E no dia seguinte, o gajo népia...
Cheguei cinco minutos antes, a antegozar os poemas. O Luso estava quase vazio. Eu tinha comprado na Leitura uma antologia de poesia árabe e comecei a degluti-la. E li-a inteira, sem sombra dele. Às 16 horas comecei a ficar inquieto,  dei por mim a observar os desenhos no estuque, uvas e sátiros e ninfas e sobreveio-me a hipótese: criaturas tão dignas a serem observadas por um otário! Quinze minutos depois inquiri o empregado que estava ao balcão e nos havia servido na noite anterior: você não viu o tipo com quem estive aqui, ontem? Ele olha-me compungidamente, lava dois pratos, e depois sussurra, sem levantar os olhos: eu só lhe digo isto uma vez, meu amigo, e se quiser que eu repita, eu nego. O senhor ontem movimentou nesta casa 300 contos em apostas, sobre quanto é que o Ulisses lhe ia apanhar...
Não posso!
Podes com pouco. Foi assim mesmo.
E tu.
Comi e calei. O gajo tinha-me dado um conto. Eram trezentos contra um, mas o meu não era mau...
É verdade.
É essa a minha questão central: eu devia ter-me indignado. Devia tê-lo perseguido e crivá-lo de bofetadas... mas achei que ele me tinha dado um conto, ainda que à custa da minha ingenuidade. Até o título me veio ali, na ponta da língua: Ulisses à moda do Porto. Ainda voltei ao Luso duas noites, se calhar para pôr a hipótese de lhe dar uma galheta, mas o tipo sumiu-se.
Quando é que o voltaste a ver?
Seis meses depois, aqui mesmo. Entro e vejo o marmanjo sentado à mesa com o Zetho, o Patraquim e o Herberto. E adianta-se o tipo, antes que eu pudesse reagir, devo-te dinheiro, toma já cinco mil, e passa-me a nota, o resto depende de o mereceres...»

Advertência: este é um personagem que inventei, a partir do nosso encontro. Eu não conhecia o João Ulisses, estive com ele apenas duas horas, nem nunca lhe li os poemas

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

DA IMPORTÂNCIA DE SABER NADAR


1
«Joyce e a família estavam vivendo na Suíça, e Jung, que escrevera um texto sobre o Ulysses e portanto sabia muito bem quem era Joyce, tinha ali sua clínica. Joyce então foi vê-lo, para lhe expor o dilema da filha, e disse a Jung: "Aqui estão os textos que ela escreve, e o que ela escreve é o mesmo que eu escrevo", porque ele estava escrevendo o Finnegans Wake,  um texto totalmente psicótico, se o olharmos dessa perspectiva: inteiramente fragmentado, onírico,  atravessado pela impossibilidade de construir com a linguagem outra coisa que não seja a dispersão. Assim, Joyce disse a Jung que sua filha escrevia a mesma coisa que ele, e Jung lhe respondeu: "Mas onde você nada, ela se afoga". É a melhor definição que conheço da distinção entre um artista e... outra coisa, que não vou chamar de outro modo que não esse.»

in Ricardo Piglia., Formas Breves, Companhia das Letras

2
O HOMEM JUNTO AO MAR

Há um homem derrubado junto ao mar.
Não julgues agora que vou descrevê-lo como a um afogado.
É um pobre homem que agoniza na margem,
mas ainda que o tenham arrastado as ondas
e mais não seja que uma frágil trama que respira
uns olhos
as mãos que às apalpadelas
      buscam
             certezas -
ainda que já não lhe sirva de nada
gritar ou ficar mudo
e a onda mais débil
o possa destruir e fundir no seu elemento -,
eu sei que ele está vivo
a todo e comprimento e largura do seu corpo.

Heberto Padilla (tradução minha)

3

«(…)
Sinto que nado adormecido dentro de um tonel de vinho.
Nado com as duas mãos amarradas.»

José Lezama Lima (tradução minha, epígrafe do meu romance, A Maldição de Ondina)