terça-feira, 22 de maio de 2012

A SOPA DE FEIJÃO DE DALTON TREVISAN


 O conto do Dalton Trevisan que há anos dou nas aulas de guionismo, no intuito de tentar explicar aos alunos que a acção não resulta exactamente das corridas de carros, que podem ser a coisinha mais fastidiosa do mundo, mas da intensidade dramática, duma condensação. Por outro lado, ninguém é tão concreto, tão visual nas suas descrições, como o Dalton, o que é também uma escola para a escrita de guiões. Mas não se explica que um ovo é oval a quem não quiser acreditar, não é? Porque há uma diferença entre o que as coisas são e aquilo que nós queremos acreditar que sejam. E por isso eles continuam a preferir o tiroteio ou um arraial de pancadaria para ilustrar a acção. Pertence este conto ao livro Novelas Nada Exemplares. Diga-se ainda que o Dalton é inimitável, meus caros, é um osso que só dá para ele.

A SOPA
Subiu lentamente a escada, arrastando os pés. Estacou para respirar apenas uma vez, no meio dos trinta degraus: ainda era um homem. Entrou na cozinha e, sem olhar para a mulher, sem lavar as mãos, sentou-se à mesa. Ela encheu o prato de sopa, colocou-o diante do marido. Olho vermelho de dorminhoco, o filho saiu do quarto e atravessou a cozinha. O homem batia as pálpebras, embevecido com os vapores capitosos.
— Aonde é que vai?
O filho abriu a torneira do banheiro:
— Fazer a barba.
  Hora da janta.  Vem comer.
Demorava-se o rapaz, torneira fechada. Com a toalha no pescoço, não olhou o pai.
  Não quero jantar.  Sem fome.
O homem suspendeu a colher:
  Não quer jantar, mas vem para a mesa.
Todas as noites, esfomeado. Enchia a colher, aspirava o caldo de feijão e, fazendo bico nos lábios; grossos, tragava-o com delícia. O filho desenhava com o garfo na toalha de flores estampadas. A mulher, essa, contemplava o fogo, mão no queixo.
  Dar uma volta.
O homem sugava ruidosamente e, a cada chupão, o filho revolvia a ponta do garfo no coração das margaridas.
  Saiu agora do quarto, filho de barão!  Mas eu... Quando me deitar de dia na cama é  para morrer!
A mão do filho abandonou o garfo e não se mexeu.
  Volta cedo, não é?
A voz cansada da mãe, ainda de costas para a mesa. Não sabia ela que, ao defendê-lo, perdia a causa do filho? O homem esvaziou o prato e, descansando a colher, examinou as mãos enrugadas.
  Estas mãos — sacudidas de ligeiro tremor — de um velho!
A mulher apanhou o prato, encheu-o até a beirada. O marido retorceu as pontas úmidas do bigode:
— Você não come?
 O filho contornava com o garfo as pétalas na toalha.
  Não estou com vontade.
  Depois o senhor vai para o quarto.
Cheirava a colher e sorvia a sopa, estalando a língua.   O filho ergueu-se da mesa.
— O senhor fica sentado. Não tem pão nesta casa?
A mulher trouxe o pão. Ele não o cortava: agarrava-o inteiro na mão e mordia várias vezes; em seguida partia-o em pedaços, alinhado s diante do prato, atacando um por um, entre as colheradas.
  Volta cedo, não é, meu filho?
De novo a mãe, nunca aprenderia.
  Agora não vou mais.
O pai dizia a última palavra:
  Uma vergonha! O chefe tem de jantar sozinho. O filho preguiçoso... até para comer.  A mulher — com seus brados retiniam os talheres — tem o estômago delicado.
Não se mexeu, curvada sobre o fogão.
  Olhe para mim quando falo com a senhora!
Ela se virou, a enxugar as mãos na saia.
  Depois de velha, melindrosa.  Não pode comer com o rei da casa, que lhe sustenta o filho e lhe dá o dinheiro?
  Sabe por que não sento.
Os dois a olharam com espanto, nunca discutiu as ordens do marido.
  Sei não, dona princesa. Pois me conte.
Ele pedia, a colher no ar:
  Perdeu a coragem, que não fala?
Outra vez a mulher deu-lhe as costas.
  Só nojo de você.
Ele começou a soprar, manchava de borrifos a toalha.
  O quê?  O quê?  Repita, mulher.
A dona abriu o fogão, espertou as brasas, encheu-o de lenha:
  Nada espero da vida.  Mas não posso te ver comer. Sei que é triste para a mulher ter nojo do marido.   Você chupa a colher se fosse tua última sopa. Come o pão se eu fosse te roubar. Não sei o que fiz a Deus para esse castigo mais desgraçado.  Fui boa mulher, ainda que tenha nojo. Lavo tua roupa, deito na tua cama, cozinho tua sopa. Faço isso até morrer. Me peça o que quiser. Não que me sente a essa mesa com você e tua sopa mais negra.
O filho abandonou a cozinha e desceu a escada. Os dois ouviram bater a porta da rua.
O marido encarou primeira vez a mulher. Baixou os olhos, cabelos de gordura boiavam no caldo frio. Erguendo um lado do prato, acabou o resto de sopa e lambeu a colher.
 

 

ARDER COM AS FLORES, A SUL

                                                                      Nolde, red flowers

Os três poemas que abrem o meu livro Piripiri Suite, de 2006, e que explicam a razão do meu "inxílio" a sul.


O NÓ DO PROBLEMA

 Só de um estado se entra e se sai. Em ti, contigo, ouço

a batida do meu sangue. Julgo-te atrás de mim

e desfechas à minha frente um mar de assoalhadas,

és o pavão que abre o leque e recolhe a paisagem.

As formas encobriam a realidade. Antes de ti.
Antes de ti, antes da compreensão de que a pele é a ombreira
onde a que mira o horizonte trinca a maçã reineta.

A tua dentada na polpa que me adoça.


Não há memória nem passado. Há a forma como cantas
e o aceno de te escutar. Modos de evasão
que crescem para dentro.


Antes de ti, só nos objectos despertava. Na extensa respiração
dos talheres. No bocejo dos anéis. No jogging

dos ponteiros. Antes de ti, na ponta dos dedos

nascia uma ilha. Ataduras que isolam.


Dois cientistas trabalham num laboratório. Um deles toca
a mão do outro e faz uma descoberta: “este é o meu corpo”.
Transmite ao outro a equação, explica-lhe que combinações

realizou a fim de obter o resultado. O seu companheiro

deve ter confiança no que está a receber. Mas

recolhe uma informação em segunda mão.

Então toca na mão do outro e repete: “este

é o meu corpo”. Depois toca-lhe o braço.

Etapa a etapa trocam de lugar. Então despertam.


Distintos ecos mas só em ti a montanha se faz sopro

e a minha boca é presença a si mesmo.
 
Por cima da amendoeira os cirros, debaixo a carne,

sobrenatural, que me restaura os dedos

como à água nas cegonhas o voo.



Contigo: seguindo-me a mim mesmo sem nunca
me preceder. Sem ti: os cães da noite

batem portas no meu espírito.
 


A tua ausência escarpa o ar, pesa ancestral

nos reposteiros, ilumina a sujidade

dos abat-jours, ressoa nos livros inertes

como palha, sorve o silêncio da casa, atento

inconfidente a si mesmo – pela primeira vez

imaterial. Aquietar o coração se nada na sensação é fixo?

Só o olho da rã acompanha a velocidade dos movimentos

em ziguezague, hipótese que Deus me sonegou.

A minha intimidade (a tua pedra

de toque) migra e arde a Oriente.



PARTIR, O FORMATO LÍRICO

Será possível que o meu corpo
tenha afinado a lupa
que a tua pele refractava?
É esta a condição do homem:
a sua fronde não esgota
o ciclone, a sua inclinação
para a morte não desabitua
a Primavera. A estação
dos outros, quando não estás.
Eis-me afeito a partir.
Já não receio ferir-me no cabo
em marfim do destino,
no vestígio vivo que alumia
o passo no gume da manhã.


RIR, COM OS NERVOS DA CHEGADA

 Reveja-se o zombie jubilado a sair do avião.
Reencontra-a após cinco meses
de lameiro como vegetal irregular,
e interroga-se: “amo esta mulher,
que frutos arborescemos juntos?”
Abraça-a, enguia miúda, e espanta-se
pela sua nova madeixa branca (o que só
lhe realça os olhos), enleado na doçura
do sorriso com que ela armou o laço
à sua alma apardalada. Imagina-se
fora de toda a distância, sobre a pele
das Índias, como alguém que é orfão
e ao amor pede desplante: o lúbrico
e paleolítico estoiro das fronteiras.

domingo, 20 de maio de 2012

SAI UNS SEIOS QUENTINHOS PELA MANHÃ


Clemente

Proliferam os que escrevem na mira de afogar o peixe. Começam a rarear os que levam o sangue à guelra do peixe.
Se alguém debita: “Adalberto viu Rita pela primeira vez na esplanada” e continua nessa toada, sei de imediato que estou diante de um burocrata do aparo com hábitos de voyeurismo. Porque nada está implicado naquela frase, nem o narrador, nem as personagens entre si; nada se desencadeia. Eis-nos em arabescos sobre a congelada pista dum mundo reificado.
Se, ao invés, o relato se inicia desta forma: ”Os seios dela olharam argutamente para mim”, o escritor cola-nos diante de uma relação, de algo que se pôs em movimento e envolve ambas as personagens, sem a intermediação distanciada do narrador. E a frase imprime, além disso, uma aceleração narrativa: a primeira hipótese exige mais dez linhas antes de se chegar ao ponto (o telos), nesta hipótese parte-se do ponto.
Não querer entender isto equivale à pretensão de ignorar três séculos de conquistas processuais no que à expressão escrita diz respeito. É muita arrogância para tão pouco sumo.
Mas que fazer se o leitor comum se satisfaz com o pequeno suborno da preguiça em detrimento do jogo lúdico que lhe exige activar a inteligência no acto da leitura? E que dizer se à primeira descrição se associa um registo «realista», tão prenhe da ilusão da objectividade (um mito positivista) que é uso manter-se em épocas de conformismo?
Contudo, ao inverso do que parece a frase acaba por nada comunicar e a sua famigerada mensagem é tão vaga como a abstenção do narrador, que aí não mete prego ou estopa. Encontraram-se na esplanada, e so what? Que se passa em seguida, quais as motivações das personagens, que as vai unir ou separar, etc? Foi tudo adiado, a mensagem patina no vazio, ou antes, processa uma procastinação.
Pelo contrário, a segunda hipótese labora um acto de economia narrativa: as motivações das personagens imbricam-se na forma da frase, tornam necessária essa expressão e não outra, e inclusive, de forma implícita, a frase até nos dá a informação metereológica, pois se fosse Inverno os escultóricos peitos da rapariga estariam tapados por sobretudos e cachecóis e não teriam o efeito devastador que aí se adivinham, provocando mudanças na vida das personagens. Adoptando uma sinédoque, tomando a parte (os seios) pelo todo (a Gisela, para lhe dar um nome), numa frase menos vulgar, comunicamos afinal muitíssimo mais, em intensidade, e de chofre.
Como se vê, que me desculpem os desatentos, não estávamos a falar de seios – ainda que seja exaltante a sugestão de Alexandre O´Neil de que pela manhã nos deveriam servir seios em vez de pãezinhos quentes – mas de procedimentos narrativos.

CONVERSAS COM A JADE 11

                                                            miró. isto é que é vida!


Oito da manhã. Como a Jade é muito senhora do seu nariz, saiu da banheira, direita ao nosso quarto e sentenciou:
- Mãe hoje quero ir ao cinema e depois ao parque aquático…
- Hoje não pode ser... - disse a mãe, e nada mais adiantou.
Ela desatou a rabiar zangada.
Eu tentei explicar:
- Não pode ser porque estamos no fim do mês, no fiozinho da areia antes do pai e a mãe receberem… não há mola, entendes miúda?
Não se deu por vencida. Foi ao quarto buscar o molho de desenhos que tinha feito para a mãe no Dia da Mãe e ameaçou:
- Se não me deixas ir, amachuco esta coisa toda, até ao fim do mundo…
- Pois… - desvalorizou a mãe…
- Ai é!? Então vais ver… - e desatou a amarrotar os desenhos um a um. Depois fez uma bola de cada um deles e atirou-os contra a porta do armário, resmungando para a mãe – Toma, espero que fiques com dor de cabeça…
- Isso não se faz… - digo eu…
- Ai é, e tu… vou-te rasgar as fotografias todas até ficares maluco…
- Como é, rosno eu?
- …depois de Deus morrer… é o que vou fazer…
- Emendaste-te, senão teria levado uma palmada nesse rabo que até vias estrelas…
- Está dia… - responde-me pronta, pondo-me a língua de fora…
 - Não vais ao cinema porque vais a casa da Amélia, ou esqueceste-te? – lembra-lhe a mãe.
A ira passou-lhe de imediato. Correu para o quarto para se vestir e estar pronta para ir com a Amélia, a nossa empregada, à sua casa nos subúrbios, onde iria brincar com os filhos dela, o Todinho e o Marcelino.
Batem à porta, é a Amélia.
Sete da noite. Regresso a casa. Conta a Amélia:
- Senhora, ela pôs-se a brincar na varanda com o Todinho e o Marcelino, ou a correr à volta da casa… e às vezes entrava na casa, olhava-nos e dizia, “isto é que é vida!”. O meu marido fartou-se de rir…
Foi ontem, sábado, mas conto hoje. Isto é que é a vida.


CONVERSAS COM A JADE 10

                                         Soutine. "A beleza será convulsiva ou não será", Breton

“Sete da manhã,/ Mais um dia de aranhões!” cantarola a Jade na banheira, penteando a sua boneca.
E fá-lo, sorrindo, sem lhe pesar nas costas o dever de ser feliz, iluminada pela luz mais improvável:“…mais um dia de arranhões!”, repete o refrão.
Para quê dispor de mais energias a tecer planos para a mecânica das coisas gloriosas, dignas, que tornam o futuro veemente? As crianças sabem: basta misturar o claro-escuro e deixar que a água arranhe o seu caminho:
“Que bom, que bom/ mais um dia de arranhões!”,  


quarta-feira, 16 de maio de 2012

EU LEVO O CHAMPANHE


Hoje, 16 de Maio de 2012
sentado sobre o meu velho osso de baleia
posso anunciar: ACABOU o pesadelo
de que padeci dois anos e meio.
Posso começar a cultivar as orquídeas.
Desemaranhado o coração do arame
a gruta saiu-me da pele.
Ó Lautréamont, que todo o figo
volte a comer o seu burro
- eu levo o champanhe!

terça-feira, 15 de maio de 2012

A LIBERDADE LIVRE: CESARINY

        
A poesia moderna continua a ser um grande mistério para muitos. Talvez devido a que, nela, o raciocínio sintáctico da língua se ressente com o contínuo cavalgamento das imagens poéticas, verificando-se aliás em muitos criadores uma ruptura definitiva com a ordem tanto sintáctica como semântica.
Mas há um poema de Mário Cesariny muito esclarecedor quanto ao que seja a «liberdade livre» dos poetas no último século. Começa o poema, que se lê no Manual de Prestidigitação, por falar respeitosamente das Obras (literárias), em letra grande e solene, e da sua majestade – di-lo o título – idêntica às catedrais. Façamos a paráfrase das primeiras duas estrofes do poema TAL COMO CATEDRAIS:

«Consumada a Obra fica o esqueleto da mesma
e as inerentes avarias centrais
entre céu e terra à espera do descanso
Consumada a Obra ficamos      tu e eu
pensando frases como:     como é possível
                                            o que foi que fizemos?
 ou esta, mais voraz que todas as anteriores:
                                  onde está a camisola?

Sim realmente
onde está a camisola?    Ola
palavra espanhola que quer dizer-nos: Onda
coitadas das palavras sempre a travessar fronteiras há tantos anos
não há aí quem possa dar descanso a estas senhoras?»

Os primeiros dois versos previnem-nos quanto ao desfasamento entre a idealidade traçada e o conseguimento, algo manco, da Obra; apesar do extremo devotamento à dita, inerentes avarias centrais impossibilitam de antemão a sua execução plena, não obstante se ter insistido, uma e outra vez no processo, ao ponto de diante de tal esforço ser legítimo esperar-se por descanso. Segue-se a perplexidade diante da obra falhada e a natural reflexão sobre a extensão das aporias.
E de repente uma pontada de ar frio introduz a única questão que importa: Onde está a camisola?, numa significação livre de si mesma - da ordem do poema.
Portanto, o real interceptou o poema, os seus cálculos, manobras e discursividade, desmontou com o seu acaso o seu encadeamento lógico, deu-lhe uma imediatez descontínua, estilhaçando em partículas a unidade de composição.
E o inesperado de Heráclito irrompe de tal forma, com a dita camisola, que a repetição da pergunta pressupõe já o decalque de um arrepio. E como se bate o dente e se dividem as sílabas no tiritante frio, a última naturalmente destaca-se e conforma a ola, cujo significado imerge do espanhol e duma insuspeita onda (a onda do arrepio, a onda do mar).
Eis esboroada numa associação livre a seriedade da intencionalidade primeira – a resolução alquímica da obra –, e o poeta lastima agora o infatigável, atoleimado, trânsito das palavras, essas senhoras que apostam pouco no vínculo duma relação contínua e antes fazem o trottoir entre fronteiras.
O poema que começara com um tema prévio ao seu acontecer (e todo o espírito de seriedade se revê em tal método), estilhaçou-se paródico, em significações parciais, auto-recriando-se primeiro a partir da deriva (o desvio) que o acontecimento da realidade (neste caso, o frio) sempre desponta no poeta que se mantém poroso às suas incidências, depois pela erupção de um fragmento da palavra, a ola, que, em deslocando-se, já está como o homem a distanciar-se (em pura perda?) da indivisa inocência/visão original.
Em doze versos de ritmo quebrado e irregular o poema informalizou-se e tomou as suas próprias rédeas, caminhando por si mesmo, dispensando-se de recapitular o tema, qualquer tentação mimética, e fazendo juz à conversa entre palavras, que é tanto mais livre quanto nele o poeta fez coincidir o pensamento com o que escondia a sua formulação escrita.
Como avança o poeta Alain Jouffroy, o homem é uma abertura inacabada, um «lontain intérieur» a experimentar, e quanto mais liberto de qualquer ideia de si mais se verifica a osmose entre o seu interior e aquilo que, no exterior, o descentra e desidentifica.
Quando Césariny escreve nas estrofes seguintes:

«O rato roeu a rolha da garrafa do Rei da ssia
- frase entre todas triste, a atentar na significação

Sim consumada a Obra sobram rimas
Pois ela é independente do obreiro
No deitar da língua de fora, no grande manguito aos Autores
é que se vê se uma obra está completa.»

entretém-se a desmantelar os mitos simbolistas com uma inexcedível força sarcástica. Com a lengalenga infantil do rato mima o la musique avant toutes les choses dos simbolistas e a tristeza que aponta à frase remonta à reminiscência do célebre verso de Mallarmé «a carne é triste, hélas, e li todos os livros!» que, de ter sido escrito, pôs Satã feliz por um dia.
Contudo, apesar de não ser possível tudo, ainda o poeta faz do poema criatura (ou uma Arca) autónoma, livre do seu propulsor, mesmo que, contraditoriamente (e a contradição aqui é tudo), não lhe retire a responsabilidade:

«Fiquemos tristes abraça-me nós fizemos tão pouco
E ela aí vai pelo mar fora cavando a sua avaria!»

A obra (a “Óobra”), como o Espírito e o Vento, sopram donde querem. Quanto muito, de vez em quando o poeta e o poema colaboram, ou antes, coincidem:

«(O mundo é redondo
Talvez a reencontremos…

- Esperança cínica e renovadora…)»

A mesma impossibilidade de uma apropriação mágica, órfica, pelo poema, se repete além disso no amor. Do mesmo modo que Orfeu foi ao Inferno buscar a sua Euridíce em vão, tendo caído como a malha na meia na armadilha da sua impaciência, também o Amor é uma contingência que sobraça o quase, o quase-acontecer, o quase-ser. Fecha assim o poema, numa distopia, onde às maiúsculas da promessa, sucedem as minúsculas do relativo amor:

«TU MEU ÚNICO AMOR MEU
    MÚLTIPLO AMOR MEU!

Sim, sim de facto
Efectivamente
Mas o dia arrefece
E pálidos pálidos estamos.»

Porque afinal de que é que ambos precisam mais do que tudo, em primeiríssimo lugar? Duma camisola de lã, mais voraz que o frio - que por sua vez fora mais voraz que o poema, um frágil vislumbre da Obra... 
Embora no fim se constate que o poema, não obstante ter apenas aludido ao tema (a impossibilidade da construção da Obra face à inconstância do homem) fez obra a partir do acaso (da aragem da associação livre), manifestando inclusive uma arquitectura (daí a presença da palavra esqueleto no princípio), ainda que numa sequência aparentemente dispersa.
Ou seja, o poema, sigilosamente, trabalhando a partir da sua desordem/irracionalidade interna, impôs uma ordem ao caos e modelou-o num outro nível de relação, onde, em liberdade livre, se fez, como diria Valéry, da inteligência uma festa. 

quarta-feira, 9 de maio de 2012

A PAIXÃO DO TANGÍVEL: JOSÉ FORJAZ



Bolas, lembrei-me agora que nesta minha longa entrevista com o arquitecto José Forjaz não falamos nem de sexo, nem da crise portuguesa, nem da reforma ortográfica, nem da importância das redes sociais.
Uma desgraça, vai ser um insucesso.
Coitados dos meus fãs. Coitadas das fãs do José Forjaz.
Já me imagino no Céu, Siô Pedro, posso entrar?
Você, responde-me o façanhudo, nem pensar,
faltou-nos muito quando mais precisávamos. Até o seu amigo Francisco
Bélard está para ali um cangalho com o que você lhe fez…
O Francisco, meu deus, o Francisco já morreu? Não,
mas anda com a maçã-de-adão muito inchada por causa das vogais mudas
de que fez reserva e culpa-o de não lhe ter emprestado
no devido tempo as suas cordais vocais para o armazenamento de algumas,
e ainda por cima o António deixou-se de histórias picantes…
Um herético quando se reforma só faz dó! – E mete-me na rua.
Desço ao Purgatório e dou de caras com a minha mãe.
Está inconsolável. Pergunta-me de chofre, mas como filho, como é que pudeste
cair nessa armadilha? Uma entrevista de setenta páginas
só a falar de arte, arquitectura, de mutações sociais num país periférico,
onde é que tu andas com a cabeça?
Ó mãe dulcíssima, replico eu, 3 em cada 9 dos meus livros
já aludem ao sexo, não chega?
É que aqui no purgatório, explica-me ela, aderimos todos ao Tantrismo.
Como diziam os antigos, lá saio eu amofinado.
Só vejo uma saída, o meu próximo livro será sobre “a influência do Salô, de Pasolini, no pensamento político de Melo Antunes e do Gupo dos Nove”.
Glamour, voyeurismo, bastidores da geopolítica em 75, uma por outra linha de coca, e uma tarde tórrida de sexo entre Sá Carneiro e Snu Abecassis nos elevadores do Sheraton, momentaneamente paralisado, durante o 11 de Março.
Aí terá mais sucesso no Facebook que a biografia do Otelo.
Depois do Facebook virá a televisão, depois caso com a pivot do telejornal, e vou passar a minha lua de mel ao Brasil nas maisons do Paulo José Miranda e do Alexei Bueno e aproveito e faço um contrato com a Companhia das Letras e a minha sorte está lançada…
Mas, antegozando embora, esse meu próximo êxito, terei agora de falar deste livro, como dizer, um livro decente,
                                              muito bem tratado graficamente (parabéns, ó Luis Cardoso!),
                 com um homem
                              sério, inteligente, loquaz,
que é um mestre na sua arte e não receia falar nem dos afectos nem das feridas,
e que comigo percorre a sua estória e a história comum aos dois países (Moçambique e Portugal) nestes últimos 40 anos,
                         e que com uma verdadeira paixão crítica discute a arte e os sistemas de ensino, a arte antiga e a contemporânea,
as expectativas, ilusões e disforias do país que escolheu para si;
                       para além de relatar os encontros humanos que teve, com Samora, com António Quadros/Grabato Dias, Pancho Guedes,
e com inúmeros outros que não vou citar
       só para os senhores jornalistas não pensarem que já leram o livro…
criatura que, para além disso, defeito imperdoável, ama a poesia.
 Não chegará? Temo que não: falta o sexo, a crise portuguesa, a reforma ortográfica e a importância das redes sociais – tudo esquecimentos meus.
Bem fui avisado pela minha mulher, mas teimei na via abstrusa. Críptico, até na veia.
Ninguém me pode despedir, nesta terra?
Aqui vos deixo uns excertos.
O resto, o melhor, terá de ser descoberto a sós,
de livrinho na mão, no café, na escola, no sofá, na retrete...
Hoje podem adquiri-lo na Escola Portuguesa de Moçambique, em Maputo, onde terá lugar o lançamento às 18, e depois estará disponível nas livrarias.
Vai ser um lançamento de arromba, o João Paulo Borges Coelho é que o vai apresentar. Mais uma boa razão para aparecer.  



E aí vão os lamirés:
(…) em seu entender é preciso fazer
-se primeiro homem – no seu significado mais humanista - para se ser um bom arquitecto?

Acho que sim. Uma boa arquitectura só pode resultar duma atitude amadurecida, e depois cultural, o que pressupõe um sedimento que está para lá dos aspectos formais. Nessa conferência menciono um aspecto cada vez mais importante, para mim, que é a desaprendizagem  -  uma imagem com que procuro transmitir a necessidade de voltar a uma certa inocência na atitude criativa. Nós para nos superarmos temos de estudar muito, de assimilar e compreender certas coisas complexas que nos levarão a romper com algumas ideias adquiridas e uma delas é a da especialidade, pois temos de manejar uma grande panóplia de ferramentas, por um lado, e de realizações e de invenções, por outro. E esta habilitação técnica, de alguma maneira, conspurca, marca uma forma de expressão, ao carregá-la de influências que são extremamente importantes e indispensáveis mas que ao mesmo tempo não podem ser elas a cristalizar uma atitude criativa e genuína, que brote da ânsia poética que cada um de nós transporta. Embora isto aqui possa motivar uma grande confusão, e por isso nessa conferência também menciono que é indispensável considerar que não estamos a fazer arquitectura pela primeira vez, temos noventa mil anos atrás de nós a modificar o espaço, como espécie, e que, ainda por cima, de alguma maneira, aquilo que se foi aprendendo pode ser esquecido. Pelo que este legado precisa de ser estudado, revisto, projectado no futuro, compreendido no passado, etc., e tudo isto são dimensões que hoje me parecem fundamentais e onde a criatividade e a memória vão a par. Ora, é preciso fazer-se homem para compreender como estes dois movimentos, o da desaprendizagem e o do resguardo da memória, são complementares e não antagónicos…
(…)
(…) constato que considerará um bem que o Corbusier não tenha executado os seus planos urbanísticos para Paris, que mudariam absolutamente a face da cidade…

Ainda bem que não o deixaram, são planos absolutamente criminosos… mas que continuam a ser publicados com uma certa ausência de crítica, apesar de merecerem ser mostrados em qualquer escola de urbanismo como o exemplo do que não se deve fazer. Mesmo as definições do ponto de vista de arquitectura são frouxas, quase sempre as reduções com que o seu racionalismo exultava, herdadas do «less is more» e do Alfred Loos, não levam a nada, são apenas falta de alguma coisa… de imaginação, por exemplo. E a tendência panfletária dele acabou por levá-lo a abraçar algumas coisas perigosas, ele engraçava com o fascismo por que este tinha conseguido pôr os comboios em ordem, a andar segundo a tabela… Ora, merda para a tabela…Este levantar a saia para mostrar a perna ao duce dá-nos um pouco a medida do homem… Ele era um oportunista, de um ponto de vista material, agora com um capacidade espantosa, admirável, de persuasão, que acabava por ludibriar todos os incautos que se lhe colocavam em redor… e aproveitou-se do facto de Paris ser naquela altura um centro cultural para se afirmar de maneiras extremamente discutíveis. Mas sempre achei, eu era miúdo, desconfiava daquilo, estudei mais, li muito, estive em França, trabalhei lá… e sempre quis questionar as opções dele… porque para mim é muito fácil alienar dimensões da realidade para a caracterizar com chavões…
(…)
Isso leva-me a perguntar, se fosse o Dante, que tipo de inferno é que imaginaria para um arquitecto?

De antemão, devo esclarecer que não acredito nem no céu nem no inferno… ademais os arquitectos são uma classe extremamente heterogénea em termos da sua atitude, e na minha observação não os consigo classificar em termos de preto e branco, nem mesmo quero criar para eles um qualquer purgatório. Penso que é suficiente cada um deles arder no fogo brando da sua consciência, que com o tempo provocará os seus danos, caso haja alguma coisa a recriminar… mas, entrando no seu jogo, em relação aos arquitectos sem escrúpulos julgo que o inferno seria não ganharem dinheiro… para outros, os muito megalómanos, seria precisamente nunca conseguirem os meios para conseguirem pôr em pé os seus projectos, isto pela eternidade, a maldição de Tântalo… e chega.

Aqui, em Moçambique, os engenheiros podem assinar os projectos?

Podem, podem…

Talvez isso explique tanto kitsch à solta em muitas moradias das novas avenidas que se projectam nos bairros novos de Maputo…

O que explicará isso talvez seja o facto de em 1975, depois da independência, terem ficado 8 arquitectos para o país inteiro, e cinco anos depois, sermos 6… houve uma carência de formação que se reflecte ainda no tecido da cidade… mesmo depois da criação da Faculdade de Arquitectura. Mas para além disso não podemos esquecer que vivemos mergulhados num país novo, com uma classe dirigente e política com bastantes lacunas culturais e que chega ao poder desprovida de imagens de poder… Chega ao poder e tenta consolidar uma imagem própria e elaborar uma imagem física da expansão do seu poder… mas não podemos escapar ao facto de que nós somos também os reflexos dos nossos modelos, e o exemplo que eles têm em termos de imagem de poder na cidade é ainda o que vem de trás, do poder colonial… e então imitam… e é por isso que na maior parte dos países africanos a imagem que se tem preferido é a da arquitectura neo-clássica, com marcas greco-romanas, ou a de um ecletismo chino-asiático - por que não, quanto a mim tão válido como as referências à greco-romanidade -, quando tudo afinal desponta da ausência de uma atitude própria… porque nós importamos tudo, e não ousámos inventar imagens nossas com um vernáculo próprio, local, e articulado na dimensão duma profunda poesia espacial com o meio ambiente, e que tenha em conta as condições climatéricas… Portanto esse kitsch vem de quê? Vem dum completo desfasamento de referências, a não ser de referências que são irreprodutíveis, a maior parte delas saturadas de estilo, uma palavra que aprendi a rejeitar porque nos tem conduzido a coisas deploráveis e que agridem o contexto… Depois, neste aspecto e no marasmo actual, acredito que tem mais influência uma telenovela brasileira do que um cabaz de livros de arquitectura, nós continuamos a ter uma educação que é zero do ponto de vista estético…
(…)
Existem muitos mitos sobre o artista como criador. Há um pintor chinês que se chama Xi-Tao, que escreveu o seguinte: «Pintar é resultado da receptividade da tinta. A tinta abre-se ao papel, o papel abre-se à mão e a mão abre-se ao coração. E todos eles da mesma forma em que o céu engendra e a terra produz: tudo é o resultado da receptividade». Perguntava-lhe se para si o acto produtivo tem mais a ver com a noção romântica de criação ou com este conceito de receptividade?  

Se eu tivesse que escolher entre as suas hipóteses eu iria menos pela criatividade que pela receptividade. Julgo que essa formulação está mais próxima do pano de fundo da produção. A criatividade gerou outro vocábulo cheio de equívocos, a inspiração, que para mim continua a ser o acto de meter o ar nos pulmões. Mas o chinês está mais próximo do essencial do acto produtivo, e produzir é sempre uma forma de criação, seja produzir sapatos, milho, poemas ou arquitectura é sempre um acto criativo, isto é um acto de transformação de qualquer coisa num significado social. É evidente que a criatividade aqui também se utiliza no sentido de se fazer qualquer coisa que nunca se viu antes, e esta é uma dimensão válida, mas no fundo trata-se de nos conformarmos ao grande modelo que é a Natureza e aos seus processos de criação…

Lembrei-me disto porque ontem vi na tv uma entrevista com o Júlio Pomar, o pintor, que estava acompanhado do Jorge Palma, que é um músico de rock. E este pôs-se a falar dos “processos de criação” e o Pomar, que é trinta anos mais velho, às tantas interpelou o músico e disse-lhe: “Ó Jorge, olha que a gente não cria, a gente recebe…“, O músico ficou meio desconcertado. E eu achei graça. E ocorrem-me agora dois versos de um argentino, o Roberto Juarroz, que me parecem próximos do seu conceito de desaprendisagem. Diz ele: «desbaptizar as coisas para lhes devolver o seu estado de presença».

Desbaptisar parece-me interessante. Sobre a criação lembro-me sempre da ambiguidade da língua em português que nos permite, quando perguntamos “onde é que está a criação?”, estarmos na verdade a sondar o local onde fica o galinheiro. Acho que se adapta muito bem…

Esta gargalhada que me fez dar obriga-me a perguntar-lhe isto: há humor na arquitectura? Como é que se arma o humor na arquitectura, através da mistura dos materiais, dos ritmos, do jogo com o espaço?

Sim, sim, há exemplos de arquitectura com humor, olhe, ocorre-me…

(…)
O Louis Khan chega a falar em «essências» e o Jean-Luc Godard dizia que a cada momento e para cada situação só havia um lugar para pôr a câmara, que era inútil multiplicar os pontos de vista…O que talvez seja o mesmo por outras palavras…

Olhe, diria que talvez essas formulações sejam um “exagero necessário” pois estamos a tentar delinear em traços grosseiros, coisas que são complexas. Lembro-me do que, quando eu era estudante, me dizia o Barata-Feyo, um escultor que para mim foi a personalidade mais rica da minha formação… eu ia muitas vezes para o atelier dele e assistia-o, e uma vez estive presente em todos os passos da feitura de uma escultura, vi-o conceber uma escultura, desenvolvê-la, modificá-la, e ele dizia uma coisa interessante, que não estará distante da senda dessas formulações do Godard e do Khan, dizia ele, “olhe José, nós quando estamos a trabalhar a pedra, uma escultura… nós comandamos até determinado ponto, depois é a peça quem manda… a peça pede e nós vamos só fazendo…”. E no fundo é isto, criamos um jogo de lógicas internas àquela construção ou criação e estas reproduzem-se e passam a ser determinantes para as próximas decisões, e isto nem tem que ser um processo consciente, é uma mecânica natural… e um bocadinho em oposição àquela ideia de que se concebe tudo cristalinamente e que depois é só resolver os problemas. Na minha prática esta é a maneira de trabalhar, partir de um caroço de ideia consistente, e depois a polpa vai-se revestindo a si mesma…

No desenho do projecto, vai das parcelas para o todo ou só começa um projecto depois de intuir o todo?

Há um vai e vem nesse processo, às vezes chegamos ao fim e recomeça tudo no princípio, o que às tantas implica uma economia do tempo muito grande…

O José Forjaz nos seus últimos textos teóricos pretende restituir à «emoção» um lugar fulcral, mas esta parece-me ser em si um lugar de passagem ou a porta para uma recondução a uma certa ordem prévia ao metabolismo da expressão, como os arquéticos em Jung. Acredita numa memória transpessoal?

Acredito profundamente e acredito que isso pode ser traduzido para o que mais correntemente chamamos de cultura. Nós herdamos uma gramática do olhar e os vínculos a determinadas práticas que estão muito para além das nossas determinações subjectivas. E por isso convém estarmos bastante conscientes sobre o que herdámos… até para darmos o passo decisivo para a desaprendizagem. Mas estamos condenados a certos patterns, quer queiramos quer não, nem acredito que seja possível escapar a eles, o que fazemos muitas vezes é evitar a coisa pela negação, adoptando o oposto, mas mesmo aí, sem querermos estamos sob influência…
(…)
Acha que hoje a arquitectura ainda conserva alguma coisa das guildas, dos ateliers renascentistas, onde os discípulos cresciam como seres humanos ao mesmo tempo que se apoderavam das técnicas da disciplina?

Acho que sim, bastante até… Não da mesma maneira, está claro, mas algo se mantém… embora cada vez mais, equivocamente, os arquitectos pensem que podem arrancar por si próprios sem o contacto com a experiência, mas o exercício projectual e depois, não esqueçamos, a outra parte igualmente importante que é o exercício construtivo, são das actividades mais complexas que se podem ter, em termos humanos, as relações entre as pessoas não são fáceis de gerir, com o cliente, o empreiteiro, entre os técnicos, ou tratar a legalidade dos processos…

Tudo isso é preciso aprender, estando enquadrado num escritório…

 É preciso aprender e isto não se aprende na faculdade. O aluno, na faculdade, para começar a aprender alguma coisa séria de arquitectura, da construção, destes aspectos todos, teria de andar para aí dez anos na faculdade. Por isso a estupidez do Tratado de Bolonha não tem qualificação. Em Itália as faculdades já rejeitaram a patetice; ou seja, no momento em que Moçambique cegamente embarca nas imposições de Bolonha, os que inventaram a coisa romperam com ela e reconheceram o erro. E é gravíssimo…
(…)
E (Samora) era um homem que escutava?

Quando queria sim, sabia escutar. E fazia-se anunciar: agora escuto. Não era um homem para ser interpelado, tínhamos que o conhecer para na altura certa sugerirmos, e se isto ou aqueloutro, então ele escutava. E nunca o ouvi recusar razão quando esta era arguta e bem firmada… Em termos pessoais eu tenho um grande afecto por ele, porque ele na altura parecia-me uma pessoa dedicada aos ideais, mais que um político era um ideólogo… ele foi o inventor deste país, e tinha um espírito independentíssimo em relação aos marxismos-leninismos mais básicos, sabia também ter o pragmatismo da política mas privilegiava uma sintonia com as características étnicas e culturais do país, isso não tenho dúvidas nenhumas. Tinha também umas fraquezas um pouco indefensáveis, a amizade com o Kim Il Sung era uma coisa difícil de perceber. Uma vez deixou-me em embaraços na Coreia do Norte porque o ditadorzeco quis-nos mostrar o palácio dele, que era uma merda, uma coisa arquitectonicamente atroz, do mais monhé e dubai que se possa imaginar, com o mármore a imitar plástico, que é uma coisa inconcebível, e o cabedal a imitar napa, tudo ao contrário, e o Kim Il Sung durante a visita pergunta a opinião ao Samora que me endereça a pergunta, e eu tive de sussurrar, depois falo consigo. E mais tarde o Samora ria-se muito e comentava, não me digas que era assim tão medonho!? Não era fácil nas circunstância encontrar um homem com uma personalidade semelhante e uma tão grande capacidade de agregar e de inventar o país…

Conte-nos um pouco da sua experiência como Secretário de Estado do Planeamento e Território…Quanto tempo exerceu?

Três anos.

Depois demitiu-se, disseram-me que com um manifesto.

Não. Há sobre essa história muita confusão, não foi assim… Trabalhava comigo uma das pessoas mais inteligentes que conheci e uma das pessoas fundamentais da minha vida, o Patrice Rauszer, levaram-no ao meu gabinete, tive com ele uma conversa inicial de meia hora e ficámos amigos para a vida toda. Ele era arquitecto, refractário ao exército francês, tinha lutado contra a guerra colonial, tinha um mestrado em urbanismo, era muito interessante, muito culto, e uma pessoa excepcional. Trabalhou comigo desde o princípio na concepção duma filosofia do planeamento, pois ele havia trabalhado na Argélia, depois da independência, como conselheiro de Estado Argelino para a mesma área, e era um homem de esquerda, não marxista, nem PCF, duma esquerda independente e sadia… e ajudou-me muito. E houve um momento em que era inevitável uma reacção à asfixia a que o planeamento económico de linha pró-soviético (aquela gente tinha metido a cartilha soviética na cabeça e não se apercebia da desadequação dos modelos ao lugar e às condições humanas) nos conduzia. Era absolutamente extraordinário o que se estava a passar. E nós lá na Assembleia Popular tínhamos de intervir e tentávamos introduzir alguma racionalidade e algumas regras no planeamento que ordenava o país, em termos espaciais, e o Patrice apresentou um documento. O documento tinha sido gizado comigo mas ele fora a cabeça, e o Documento chamava-se, se não me engano, Plano e Projecto de Planeamento Físico, e eu como Secretário do Estado imprimi e mandei circular pela Assembleia da Popular. Houve pessoas que me deram os parabéns e outras que reagiram “você está a brincar!”. E claro que os «apparachiqui», os homens mais alinhados com um marxismo tacanhamente ortodoxo, reagiram, porque aquilo era um ataque frontal à situação. Nós na altura atravessávamos um período complicado, marcado pelo PPI, Plano de Perspectiva  Indicativo, que era uma construção teórica e impossível… que os pequenos tecnocratas (a maioria deles está hoje no Banco Mundial) procuravam executar sem discussão, e que se regia não por procurar activar uma dinâmica que tivesse em conta os potenciais existentes mas os objectivos, por exemplo, agora é preciso fazer uma fábrica de têxteis na Zambézia, e não importava se em tal província havia matéria-prima, mão de-obra-qualificada, técnicos, etc. A experiência redundou em alguns disparatados elefantes brancos e numa sangria de meios e fundos. Partia-se do princípio de que definidos os objectivos tudo se conformaria à sua mágica materialização… o que talvez fosse possível onde houvesse dinheiro, recursos e saber, o que não era o caso de Moçambique. O nosso documento atacava este processo e fomos duramente criticados, e ainda hoje, infelizmente, é um documento que mantém a sua actualidade…
E saí. Mas nunca fui atingido directamente. Pouco depois solicitaram-me para dirigir o processo da construção duma ideia para a Faculdade de Arquitectura e eventualmente tomar conta dela como director, ao que aderi com gosto. Paralelamente a isto, desenhava-se no ar, na Assembleia da República, a hipótese de se levar a cabo uma segunda Operação Produção, sem sequer corrigir os erros da primeira. E quando no nosso grupo de trabalho quiseram silenciar os meus protestos contra um tal disparate, e me mandaram calar, então isso foi a machadada final e retirei-me, resignei como deputado, pois não me mandam calar duas vezes se eu tenho razão. Entretanto, o projecto da Faculdade ia germinando e os italianos lançaram-me o convite, Vem para Itália, a gente quer-te lá a ensinar Planeamento no Terceiro Mundo, e acabei por lá passar uns anos, distanciado já da nata política, a estudar e a trabalhar no aprimorar o projecto da Faculdade de Arquitectura…

A função de Secretário de Estado, tecnicamente, deu-lhe ensinamentos para a sua actividade futura?

Aquilo que aprendi foi que as decisões sobre o espaço são essencialmente de carácter político. O controle do espaço, da sua exploração ou da organização, acontece acima duma lógica tecnológica e rege-se por interesses – sejam legítimos, como eram naquela altura, sejam ilegítimos como acontece amiúde hoje – económico-financeiros, às vezes ao serviço da consolidação de poderes e interesses pessoais privados.
(…)
Eu não sei como é na Arquitectura, mas nas Ciências Humanas, onde dou aulas, os alunos chegam absolutamente desprovidos…Os meus alunos chegam muitas vezes como se tivessem a quarta-classe.

Pois digo-lhe, tenho desenhos de acesso à Faculdade de Arquitectura que a minha neta com 5 anos faria melhor. Digo-o com mágoa. Não estão providos de qualquer instrumento…

E preocupam-se depois em melhorar?

Quem? Eles, ou os professores… (risos) Esse é que é o problema. Estamos a fazer uma Faculdade de Arquitectura com docentes que acabaram de sair da Faculdade. Quando digo acabaram, pode ser há cinco anos, uma pessoa com cinco anos de não-prática profissional, e estamos a falar de um país onde há pouquíssimos centros de formação pós-escolar e na maioria dos casos são 100 por centos comerciais… Isto é uma condicionante histórica, nem estou a fazer uma crítica, estou apenas a constatar: é assim e vai continuar assim durante muitos anos. Repare, na actividade projectual, 50 por cento da sua afinação é feita por erro, por tentativa e erro, e os erros fazem-se no tempo, no espaço e no tempo, e não se podem fazer os erros suficientes para se começar a perceber alguma coisa de arquitectura em menos de 10 ou 15 anos. Faz-se o exercício mas levá-lo todo até ao fim e levá-lo bem é extremamente complexo, é uma das profissões mais ingratas, porque nós somos responsáveis por tudo na obra, quer sejamos ou não, legalmente, somos responsáveis por tudo na obra, sobretudo em Moçambique, onde não há consultoria técnica, ou a que é há é tão insignificante e… não quero dizer atrasada, mas ineficaz… pois o arquitecto está sozinho; desde o projecto à obra. 

Vou-lhe ler uma frase terrorista do Undertweizer, diz ele: «Só quando o arquitecto, pedreiro e ocupante são uma unidade, uma e a mesma pessoa, é que podemos falar de arquitectura. O resto não é a arquitectura, mas sim a encarnação física de um acto criminoso…»

Bom, a frase vale o que vale… mas no nosso caso o problema estende-se a qualquer universidade… mas eu nunca acreditei muito na universidade como local de formação das pessoas, acho mais que as pessoas são formadas umas pelas outras, através de encontros… e é isso que a universidade deve ser, e ainda é, e esses encontros devem ser estimulados, não para discutir as pernas da prima mas para discutir os problemas sociais e as novas emergências intelectivas da sociedade em que se vive. Da minha observação de vinte e tal anos, quase trinta de contacto com a nossa universidade, eu não vi esse estímulo, até na maneira como os espaços entre as salas de aula são tratados, cheiram a urina, não têm luz, são abandonados, não têm bebedouros, não têm sanitários para o estudante… Para além do ambiente que se está a criar, pidesco, de controlo de tudo o que faz, dos passos que se dá, muito mascarado mas que existe, e que também não autoriza que o estudante desenvolva e teça opiniões com desassombro… Mas também não há uma intelectualidade neste momento em Moçambique, foi rasurada…

(…)
A muito nos levaria esta senda mas é melhor retomarmos a arquitectura. No seu “texto de reflexão dos 70 anos”, escreve: “temos de voltar a uma arquitectura que não seja uma performing-art”, o que implicaria uma atitude que hoje se encontra pouco entre os jovens estudantes que se prende com a humildade… Não existe mais, a humildade?

Não, não existe.

Donde lhes chega uma tão desproporcionada confiança nas suas aptidões?

É uma consequência directa da falta de cultura.

Quando eu era um jovem jornalista, em Lisboa, entrar no «Expresso» era como ser ejectado para o Olimpo. E havia um itinerário quase iniciático para lá chegar que passava por provas de qualidade. Quando eu já lá estava comecei a dar conta que chegavam muitos jovens estagiários que davam a coisa como adquirida, como se tivessem nascido para aquilo… A qualidade do trabalho era o menos relevante, na questão. O respeito pelo mérito e pelo saber foi-se dissipando…

Completamente. E estamos a falar a duas escalas, à escala universal e à escala local. À escala local o respeito pelo saber dissipou-se por uma razão simples: não há saber. O que é um problema, para só falar do caso da arquitectura. Portanto, eles também não têm a quem respeitar. É dramático, mas é verdadeiro…

Mas, no caso da arquitectura, Moçambique a dado momento funcionou quase como uma escola, com o Mesquita, o Pancho, etc.,

Não é o anódino, não é o excepcional, não é o fora de comum que cria uma cultura. O que cria uma cultura é a consistência e a constância de uma prática ao nível geral que cria referências que os mais jovens podem tomar como padrões e que, os melhores entre eles, devem pretender ultrapassar. Isso não existe aqui, há uma falta de modelos. Por isso quando surge alguém de qualidade ficam logo endeusados de imediato, um Malangatana, um Mia Couto, etc., e estupidamente, quer-se imediatamente fazer cópias, porque se procura o sucesso a qualquer custo, e sobretudo sem o trabalho que este implica… alguém aponta um caminho e vamos copiar, é mais fácil.
Não é ser melhor que eles, é ser como eles, e como não têm a noção do percurso, o primeiro boneco que põem no papel é genial, até porque a sociedade os empurra para isso, muitas vezes só pela sua origem étnica já é genial… a mentalidade é: temos de ter gente rapidamente, não temos tempo para estar à espera deles… isto é muito grave. Embora também pense que é natural, é uma fase, a História vai apagar muitas destas coisas… e ficará, na essência, muito mais rarefeita, e penso que intelectualmente se vão acumulando experiências, realidades e realizações que irão depois servir de referência. Agora, eu lembro-me de que quando saí da Faculdade tinha a noção clara de que tinha muito que aprender, apesar de que inclusive, já antes de ter entrado para a faculdade ter tido a tarimba de participar no desenho de projectos e continuei a fazê-lo, e só um bom bocado depois é que comecei a assiná-los, cheio de dúvidas e medos de errar e de desiludir os meus mestres e, mais tarde, tive de me aventurar…

Quer dizer, só se aventurou a ter opinião depois de alguns anos de prática?

De alguns bons anos, e com uma atitude que eu não vejo hoje e que reclamo para mim próprio que é a de uma profunda dedicação ao estudo. A estudar técnica, a estudar a filosofia da arquitectura e os processos da arquitectura… Eu estava muito isolado, eu estive sempre muito isolado. Antes de vir para Moçambique estava na Suazilândia, que era um isolamento ainda maior. Com uma diferença, por ser um país de língua inglesa estava mais ligado à África do Sul, que era mais central no mundo, que por vez estava ligada a outros canais maiores como a Grã-Bretanha e os EUA, de que eu beneficiei, mas no trabalho profissional de todos os dias eu estava sozinho…e portanto só através do estudo contínuo eu podia tirar as minhas dúvidas.
(…)
Mas ó Arquitecto, será por isso que a ideia duma harmonização da realidade urbana me parece bastante abandonada por estas bandas?  

Nesse aspecto o que é mais grave é que as cidades africanas exacerbam os conflitos de classe, os conflitos políticos e continuam a desprezar oitenta por cento da sua população, ou seja, as cidades africanas continuam a ser projectadas como se fossem exclusivamente para uma classe média baixa, ou alta – deixando de fora toda a gente que não tem dinheiro para pagar água, luz, telefone… Depois, como já aconteceu aqui, encomendam-se planos urbanísticos a quem não está no terreno e que apresentam depois projectos abstractos sem a menor estrutura ou inserção espacial e sem soluções que respondam às necessidades de 80% dos habitantes que já vivem no local. E isto passa-se em Luanda, em Nairobi, em Maputo, em Joanesburgo… Só se fazem planos para alguns…
(…)
Quem vem a Maputo durante pouco tempo não notará mas quem fica durante algum tempo começa a notar que se mantém uma estrutura social absolutamente estratificada na cidade. Não só se verifica que coexistem muitos tempos históricos diferentes, e estamos a falar das mentalidades das pessoas, como se torna claro que há duas ou três cidades que coexistem mas sem que sejam muitos os convívios francos entre pessoas de raças diferentes… ao fim de cinco anos, de quatrocentos alunos, de me ter integrado na cidade, tenho dois amigos negros. Você desculpe-me, considero isto um escândalo…

Isto é uma coisa que só o tempo curará. É estritamente uma herança cultural, não é por qualquer rejeição ideológica ou biológica, mas vai mudando. O meu filho já foi casado duas vezes com duas negras – só tenho netos mistos. E realmente as barreiras caíram todas, não há aqui quaisquer impedimentos legais para um convívio são, como diz. E esse é meio caminho andado. Claro que há 30 anos atrás, pensávamos todos que ia ser mais rápido, mas tenho esperanças. Mas há outro aspecto com que temos de lidar sem complexos: ser racista é mais natural que não o ser. Ser anti-racista é uma atitude voluntária: eu quero ser amigo de toda a gente… em todos os lugares começam por haver cliques territoriais, que começam a desaparecer conforme as circunstâncias… mas que na origem são contraditórias consigo mesmo e que incluem elementos mais racistas ou não… mas as barreiras vão-se diluindo e vejo nas camadas mais jovens na Universidade que entre eles é muito mais fácil ultrapassarem essas coisas e já respiram de outra maneira. Tudo tem o seu tempo. E ainda há desequilíbrios que só o tempo sanará. Muitos dos alunos mais brilhantes da universidade neste momento são negros, no entanto a média geral dos alunos brancos é melhor, porquê? Porque têm mais apoio em casa. Há PCA’s ou mesmo ministros que metem os filhos nas melhores escolas mas eles não obtém aproveitamento. E não podiam porque em casa não há um único livro e como tal eles não têm o exemplo em casa. O grande problema do ensino em Moçambique não começa na escola mas em casa… e isso não se resolve em dois tempos, não é com mais escolas e mais professores mal preparados mas com a subida da cultura média em casa…Melhorando este quadro geral as pessoas também tenderão a conviver mais entre todas e a abater as últimas barreiras raciais…