segunda-feira, 14 de novembro de 2011

MAT'ERIA CONCENTRADA

o patracas, quando bebemos o primeiro copo


Chego a casa a cavalo num só olho,
desdobrado, o espírito tomado
pelas frautas de pan.
Passei a tarde com o patraquim,
há vinte cinco anos que passo as tardes
com o poeta e ainda não acabámos
o primeiro copo, depois da libação.
A tarde encanece, só a nossa palavra
está intacta como o gume na desrazão.
Rimos, há 25 anos que rimos,
mansamente descalibrados
pelas ironias da sorte, sem
termos acabado ainda
o primeiro copo, depois da libação.
Chego a casa a cavalo num só olho,
abro o livro que ele me deu e vejo a brisa:
«Se no deserto um grão esporear o vento
(…)
Eu vi a noite rasgando
a palavra anterior
desocultando-lhe a pele
o espesso leite

um lago por onde os animais corriam
temerosos das inumeráveis sombras
perguntando-se em degola
(…)
o que a melancolia percebe dos plátanos
(…)
Depois descemos pela poeira
Hospedados os deuses em suas casas
(…)
Um nome disse: é um dorso
Arqueado ao meio por um rio

Alguém desesperou do rosto
E as casas abriram-se
E eram os teus seios
(…)
Alta noite
O infinito
Deitado
Dormia»  
Alta noite sei: amanhece. O dia ainda
amanhece em nós, vícios antigos.
E a cavalo num olho, pela fímbria
onde alastra um esplendoroso incêndio
vejo que, ondulantes, respiramos
medindo o laço com que desapontamos
a morte. Matéria concentrada, amigo.

sábado, 12 de novembro de 2011

O NÓ DO PROBLEMA: A SÓS

o beijo, robert doisneau

`As vezes perguntam-me, porque foste tu para Moçambique? Eis a resposta:

1
Só de um estado se entra
e se sai. Em ti,
contigo, ouço
a batida do meu sangue.

Julgo-te atrás de mim
e desfechas à minha frente
um mar de assoalhadas,
és o pavão que abre

o leque e recolhe
a paisagem.
As formas

encobriam
a realidade.
Antes de ti.

2
Antes de ti
tentava mudar a vida
e o mar era a viseira
que resguardava o rosto.

Antes da compreensão
de que a pele
é a ombreira

onde se recosta
a que mira o horizonte
e trinca a maçã

reineta. A tua
dentada
na polpa
que me adoça.

3
Não há memória
nem passado.
Há a forma
como cantas

e o aceno
de te escutar.
Modos de evasão
que crescem

para dentro.

4
Antes de ti,
só nos objectos
despertava.

Na extensa respiração
dos talheres.
No bocejo dos anéis.
No jogging dos ponteiros.

Antes de ti,
na ponta dos dedos
nascia uma ilha.

Ataduras que isolam.


5
Dois cientistas trabalham num laboratório
Um deles toca a mão do outro
e faz uma descoberta: “este
é o meu corpo”. Transmite

ao outro a equação, explica-lhe
que combinações realizou a fim
de obter o resultado. O seu companheiro
deve ter confiança no que está a receber.

Mas recolhe uma informação em segunda
mão. Então toca na mão do outro
e repete: “este é o meu corpo”.

Depois toca-lhe o braço.
Etapa a etapa trocam
de lugar. Então desperta

6
Distintos ecos
mas só em ti
a montanha se faz sopro

e a minha boca é
presença a si mesmo


7
Por cima da amendoeira
os cirros,
debaixo
a carne,
sobrenatural,
que me restaura
os dedos
como à água nas cegonhas
o voo.

8
Contigo: seguindo-me
a mim mesmo
sem nunca me preceder.
Sem ti: os cães da noite
batem portas
no meu espírito.

9
A tua ausência
escarpa
o ar,
pesa ancestral
nos reposteiros,
ilumina a sujidade
dos abat-jours,
ressoa nos livros inertes
como palha,
sorve o silêncio
da casa, atento
inconfidente
a si mesmo –
pela primeira vez
imaterial.

Aquietar
o coração se nada
na sensação é fixo?
Só o olho da rã
acompanha a velocidade
dos movimentos
em ziguezague,
hipótese
que Deus
me sonegou.

A minha intimidade
(a tua pedra de toque )
migra
e ar-
-de
a Oriente.


PARTIR, O FORMATO LÍRICO

Será possível que o meu corpo
tenha afinado a lupa
que a tua pele refractava?
É esta a condição do homem:

a sua fronde não esgota
o ciclone, a sua inclinação
para a morte não desabitua
a Primavera. A estação

dos outros, quando não estás.
Eis-me afeito a partir.
Já não receio ferir-me no cabo

em marfim do destino,
no vestígio vivo que alumia
o passo no gume da manhã.


RIR, COM OS NERVOS DA CHEGADA

Reveja-se o zombie jubilado a sair do avião.
Reencontra-a após cinco meses
de lameiro como vegetal irregular,
e interroga-se: “amo esta mulher,

que frutos arborescemos juntos?”
Abraça-a, enguia miúda, e espanta-se
pela sua nova madeixa branca (o que só
lhe realça os olhos), enleado na doçura

do sorriso com que ela armou o laço
à sua alma apardalada. Imagina-se
fora de toda a distância, sobre a pele

das Índias, como alguém que é orfão
e ao amor pede desplante: o lúbrico
e paleolítico estoiro das fronteiras.

 

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

REESCREVER A MEMÓRIA, CONSOANTE O VENTO

a virgem, de max ersnt
Anuncia-se nos jornais, neste caso o Escorpião:
«o Movimento Literário Kuphaluxa move um projecto que consistirá em levar a poesia ao povo. Esse projecto tem o nome de “Poesia nas Acácias” e será a partir de quinta-feira, dia 10 de Novembro até sábado dia 12 do mesmo mês em Maputo.
Constituem objectivos desta iniciativa única, incentivar o gosto pela leitura, dar a ler ao povo e descobrir novos autores da poesia moçambicana, estes que ainda estão por se descobrir» (sic).
Espantosa esta declinação da partícula, que faz com que os novos autores se descubram como uma epifania, por antecipação ou desmasme, mesmo antes dos próprios se reconhecerem poetas.
Mas prossigamos a transcrição: “«Kuphaluxa que quando traduzido para português significa disseminar…”(…)” De acordo com esta agremiação, procura-se levar a poesia às massas, estas, que são as fazedoras da poesia.»
Nenhumas massas são fazedoras de poesia. As massas são fazedoras de motins, de linchamentos, de manifestações, de ritos, num fluxo ou num élan que às vezes pode dar uma extrema sensação de gratificação, mas a poesia e as massas são coisas disjuntas, lamento. Só a muita ignorância e a muita demagogia pode levar a tal ideia descabelada. Mas meta-se a massa num passe-vite: não sairá num verso. Fuzilamentos sim, ou um novo ditador, ou até às vezes uma certa sensação de liberdade, mas versos nem um.
Continuemos:
«Vamos invadir as acácias da cidade Maputo para expor a poesia. Serão cerca de 200 poemas expostos, sendo de jovens iniciantes no mundo da escrita e de escritores profissionais.»
Esta misturada é tudo o que não se deve fazer. Colocar um balbucio ao lado de um poema de Craveirinha ou de Knopfly é obedecer à malsã lógica televisiva que tudo nivela e destrói. Ou só jovens que mostram as suas feridas e exaltações (e não há jovem candidato a poeta que, pateticamente, não julgue que a poesia seja uma choraminguisse ou uma declaração, de revolta ou de amor à amada – mas que fazer para se chegar à poesia tem de se atravessar este mar de equívocos), ou só os poetas de referência, para se oferecerem modelos. Misturar aos olhos “das massas” as duas vertentes só fará com que as “massas” não distingam o bom e o mau, um efeito que contradiz os objectivos.
Mas segue a notícia: “Queremos levar a poesia para o povo e por isso os temas abordados nos poemas são de carácter social”. 
Meus Deus, que tem a poesia a ver com os temas? Cito Michaux: “Em poesia, vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento, do que expor o melhor programa de entreajuda social”.
Continuemos: «esta nossa exposição terá lugar naquele que já fora (já fora? Já fora, já!) o Jardim botânico de Maputo, um pulmão para a respiração da cidade – Jardim Tunduro. Por outro lado, esta iniciativa servirá de apelo para a salvação daquele jardim.
Entretanto, a nossa fonte refere que a iniciativa será ao mais alto nível, sendo que este tipo de iniciativa será uma surpresa para o público nacional, uma vez que é a primeira vez que isto se realiza em Moçambique».
Uma surpresa não será, e localiza-se aqui a irritação que me move contra esta iniciativa.
Em 2009, no posfácio de uma antologia de Virgílio de Lemos que eu organizei e que se encontra à venda nas livrarias de Maputo, posfácio escrito em diálogo, digo eu:
«Vou propor uma intervenção urbanística. Que o Jardim Tunduru fosse transformado no Jardim dos Poetas e ao lado das árvores houvesse tabuletas com excertos de poemas, como se fossem garrafas com mensagem, em que as pessoas meditavam enquanto passeavam. Até já escolhi alguns do Virgílio… (cito então vários excertos de poemas do Virgílio e continuo) Que tal estes canteiros? Catei-os de poemas que não estão em antologia. Já imaginaste uma geração a crescer, lendo estes versos, enquanto brinca no Jardim; estes e outros, do Craveirinha, do Knopfli, do Patraquim…», etc., etc.
Topam, donde veio a espantosa coincidência?
Claro que as boas ideias são para circular. Mas gostaria que pelo menos o Movimento Literário Kuphaluxa – que afinal só dissemina a boa ideia que eu tive – tivesse ao menos a simpatia de me convidar, nem que fosse para borrar uma acácia com um sonetilho queixoso.
E o que é alarmante é que jovens poetas não percebam que ao poeta, uma criatura que se entrega como um funâmbulo à arte do fingimento, está-lhe interdita a mentira.
Começará aqui uma boa carreira política… mas a poesia, cadê?

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

A GARRAFA VAZIA DE MANUEL MARIA

eduardo gageiro

A GARRAFA VAZIA DE MANUEL MARIA
                                      para o Zé e a Fátima

Inconcebível, nos trópicos, o deslizamento
dos glaciares, mas é nesse transe que me sinto,
sob uma humidade canina, sem ponta de energia
para o mais pálido relincho. Nem mesmo o sonho
de uma voz feminina embalando um fim de tarde,
me salva de dobar no vento as esquinas da saudade.
Sabendo embora que ninguém atende ‘a chamada,
que aqui ou lá o cortejo é fúnebre, e ajusta
os mananciais ‘a garganta do insone, arrefecendo
nos olhos as brasas de quem lembra. O pendão
da distancia congela numa severa moderação
de gestos. Filhas por abraçar, amigos com quem
esboçar um destino já prescrito, rebentas desalojado
de astúcias como a espuma na falésia. Tanto
que viajas, mais que o nome, represa a hélice
num banco de algas, tanto que divaga
a tua quilha, a margem do silencio
com que passo a passo se sela a sombra.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ADDIO LUGANO BELLA/ VITTORIO SERENI

Vittorio Sereni (1913-1983) foi um excelente poeta e tradutor italiano. Fiz estas versões a partir da edição bilingue da obra Stella variabile/ Étoile variable:

Estes poemas já os havia publicado na Revista Magma, de Carlos Alberto Machado e Sara Santos.


TRABALHOS EM CURSO

1

Será que existem vidas como folhas mortas –
a casa entre as águas
                                 evidentemente em ruína
nessa lepra que tudo carcome e só o aço rechaça
ou as teias de aranha, tangendo ainda os rumores domésticos da véspera
(e vazios os leitos húmidos desertos os divãs os panelões);
deixemo-la no clarão do seu enigma
na sua retracção pelo tráfego que flui incessante nas rotundas de Riverside Drive

não te inquiete saber como possam ter eles acabado
não digas que a vida é carbonização ou divórcio
(estranho que só isto fique duma metrópole inteira)

ou antes ninharias de uma viagem de inverno pela imensidão –
o pestanejar do repuxo no seu orgasmo de mutante
quando é ainda e já não é mais
um número de néon a emergir nos letreiros de Nova Iorque

ou ainda esses sinais, arabescos no vestíbulo dos formigueiros
farfalhosas epidemias sobre muros ladrilhos cartazes pintados
cruzes canhoto: que fazem estas suásticas aqui na Bronx,
ele havia-as tantas – dizem – disseminadas por pombos e falcões,
mas também as podemos supor velhos símbolos ou motivos indianos,
seja como for tão ambivalentes nesta meia sonolência:
pendões e estandartes pisados pela Europa
ou a desesperançada sombra do índio entre arranha-céus?
Outras estão a caminho, na agonia ou no êxtase,
novas e inquietantes sombras que adivinho sem as ver.


2

A alguns eu sei que não basta
querer-me morto. Assim me esperam:
morto, e com infâmia. Eles não sabem
que fiz pior e que há muito
os diminui na retentiva.

Já estes daqui são folhas
de ponto garatujas que trabalham em grande
não como os congelados em miniatura aqueles não-qualificados
bocas ínfimas que barafustam sob o vidro
- e teriam razão se simplesmente enxergassem –
desmentidos para sempre na corrente
fósseis no cimento vivo.




ADDIO LUGANO BELLA

Eu deveria mudar geografias e topografias.
Ela nas tintas para isso,
renega-me em efígie, recusa-se
à imagem - de mim (de nós) - que lhe estendo.
Mas que posso eu fazer se a estrada
se desenrola aos meus pés
como uma mulher (como ela?)
de um justo e vibrante descaramento.
                                E além do mais
sou feito de poços profundos o bastante                     
para aí caber também (n)isso.
E eis que de repente neva...
Eu, minha cara, não apelo ao candor da neve
à sua paz de floresta
                                 definitiva
ao tépido conforto do arminho
a lenha lareiras e velas onde brilhem virtudes
de resto laceradas até ao absurdo
ainda que aqui desbotadas, por pouco que as vise,
como bandeiras murchas.
Estou por esta – devaneio nocturno – neve de março
                              profusão
de pétalas ou dilúvio de rebentos entre as montanhas
incertos lagos transitórios (como eu,
uivando de êxtase nas colinas em flores?
Falso-desabrochar, sim, uma hora
de sol há-de delir a geada),
que pelo seu turbilhão e tumulto
decompõem a noite e recompõem-na
em laminadas caudas de aço levemente prateadas.
À confiança os cavalheiros sonâmbulos
descem comigo a estrada
                                        dum quadro
visto noutro tempo e perdido
de vista, reencontrado na memória de outros
ou simplesmente sonhado.
                                             



OUTRO POSTO DE TRABALHO

Não vais dizer-me que tu
és tu e que eu sou eu.
Somos passado na cascata dos anos.
De nós, aqui, não cabe mais do que o espécime
e seguramente um imago que se perpetua
no vazio –
as águas que nos espelham, as montras,
fazem-nos já no futuro: despenhados no depois,
glosas que o uso empalidece
múltiplas vagas de nós como um dia fomos.