«o Movimento Literário Kuphaluxa move um projecto que consistirá em levar a poesia ao povo. Esse projecto tem o nome de “Poesia nas Acácias” e será a partir de quinta-feira, dia 10 de Novembro até sábado dia 12 do mesmo mês em Maputo.
Constituem objectivos desta iniciativa única, incentivar o gosto pela leitura, dar a ler ao povo e descobrir novos autores da poesia moçambicana, estes que ainda estão por se descobrir» (sic).
Espantosa esta declinação da partícula, que faz com que os novos autores se descubram como uma epifania, por antecipação ou desmasme, mesmo antes dos próprios se reconhecerem poetas.
Mas prossigamos a transcrição: “«Kuphaluxa que quando traduzido para português significa disseminar…”(…)” De acordo com esta agremiação, procura-se levar a poesia às massas, estas, que são as fazedoras da poesia.»
Nenhumas massas são fazedoras de poesia. As massas são fazedoras de motins, de linchamentos, de manifestações, de ritos, num fluxo ou num élan que às vezes pode dar uma extrema sensação de gratificação, mas a poesia e as massas são coisas disjuntas, lamento. Só a muita ignorância e a muita demagogia pode levar a tal ideia descabelada. Mas meta-se a massa num passe-vite: não sairá num verso. Fuzilamentos sim, ou um novo ditador, ou até às vezes uma certa sensação de liberdade, mas versos nem um.
Continuemos:
«Vamos invadir as acácias da cidade Maputo para expor a poesia. Serão cerca de 200 poemas expostos, sendo de jovens iniciantes no mundo da escrita e de escritores profissionais.»
Esta misturada é tudo o que não se deve fazer. Colocar um balbucio ao lado de um poema de Craveirinha ou de Knopfly é obedecer à malsã lógica televisiva que tudo nivela e destrói. Ou só jovens que mostram as suas feridas e exaltações (e não há jovem candidato a poeta que, pateticamente, não julgue que a poesia seja uma choraminguisse ou uma declaração, de revolta ou de amor à amada – mas que fazer para se chegar à poesia tem de se atravessar este mar de equívocos), ou só os poetas de referência, para se oferecerem modelos. Misturar aos olhos “das massas” as duas vertentes só fará com que as “massas” não distingam o bom e o mau, um efeito que contradiz os objectivos.
Mas segue a notícia: “Queremos levar a poesia para o povo e por isso os temas abordados nos poemas são de carácter social”.
Meus Deus, que tem a poesia a ver com os temas? Cito Michaux: “Em poesia, vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento, do que expor o melhor programa de entreajuda social”.
Continuemos: «esta nossa exposição terá lugar naquele que já fora (já fora? Já fora, já!) o Jardim botânico de Maputo, um pulmão para a respiração da cidade – Jardim Tunduro. Por outro lado, esta iniciativa servirá de apelo para a salvação daquele jardim.
Entretanto, a nossa fonte refere que a iniciativa será ao mais alto nível, sendo que este tipo de iniciativa será uma surpresa para o público nacional, uma vez que é a primeira vez que isto se realiza em Moçambique».
Uma surpresa não será, e localiza-se aqui a irritação que me move contra esta iniciativa.
Em 2009, no posfácio de uma antologia de Virgílio de Lemos que eu organizei e que se encontra à venda nas livrarias de Maputo, posfácio escrito em diálogo, digo eu:
«Vou propor uma intervenção urbanística. Que o Jardim Tunduru fosse transformado no Jardim dos Poetas e ao lado das árvores houvesse tabuletas com excertos de poemas, como se fossem garrafas com mensagem, em que as pessoas meditavam enquanto passeavam. Até já escolhi alguns do Virgílio… (cito então vários excertos de poemas do Virgílio e continuo) Que tal estes canteiros? Catei-os de poemas que não estão em antologia. Já imaginaste uma geração a crescer, lendo estes versos, enquanto brinca no Jardim; estes e outros, do Craveirinha, do Knopfli, do Patraquim…», etc., etc.
Topam, donde veio a espantosa coincidência?
Claro que as boas ideias são para circular. Mas gostaria que pelo menos o Movimento Literário Kuphaluxa – que afinal só dissemina a boa ideia que eu tive – tivesse ao menos a simpatia de me convidar, nem que fosse para borrar uma acácia com um sonetilho queixoso.
E o que é alarmante é que jovens poetas não percebam que ao poeta, uma criatura que se entrega como um funâmbulo à arte do fingimento, está-lhe interdita a mentira.
Começará aqui uma boa carreira política… mas a poesia, cadê?
Vittorio Sereni (1913-1983) foi um excelente poeta e tradutor italiano. Fiz estas versões a partir da edição bilingue da obra Stella variabile/ Étoile variable:
Estes poemas já os havia publicado na Revista Magma, de Carlos Alberto Machado e Sara Santos.
TRABALHOS EM CURSO
1
Será que existem vidas como folhas mortas –
a casa entre as águas
evidentemente em ruína
nessa lepra que tudo carcome e só o aço rechaça
ou as teias de aranha, tangendo ainda os rumores domésticos da véspera
(e vazios os leitos húmidos desertos os divãs os panelões);
deixemo-la no clarão do seu enigma
na sua retracção pelo tráfego que flui incessante nas rotundas de Riverside Drive
não te inquiete saber como possam ter eles acabado
não digas que a vida é carbonização ou divórcio
(estranho que só isto fique duma metrópole inteira)
ou antes ninharias de uma viagem de inverno pela imensidão –
o pestanejar do repuxo no seu orgasmo de mutante
quando é ainda e já não é mais
um número de néon a emergir nos letreiros de Nova Iorque
ou ainda esses sinais, arabescos no vestíbulo dos formigueiros
farfalhosas epidemias sobre muros ladrilhos cartazes pintados
cruzes canhoto: que fazem estas suásticas aqui na Bronx,
ele havia-as tantas – dizem – disseminadas por pombos e falcões,
mas também as podemos supor velhos símbolos ou motivos indianos,
seja como for tão ambivalentes nesta meia sonolência:
pendões e estandartes pisados pela Europa
ou a desesperançada sombra do índio entre arranha-céus?
Outras estão a caminho, na agonia ou no êxtase,
novas e inquietantes sombras que adivinho sem as ver.
2
A alguns eu sei que não basta
querer-me morto. Assim me esperam:
morto, e com infâmia. Eles não sabem
que fiz pior e que há muito
os diminui na retentiva.
Já estes daqui são folhas
de ponto garatujas que trabalham em grande
não como os congelados em miniatura aqueles não-qualificados
bocas ínfimas que barafustam sob o vidro
- e teriam razão se simplesmente enxergassem –
desmentidos para sempre na corrente
fósseis no cimento vivo.
ADDIO LUGANO BELLA
Eu deveria mudar geografias e topografias.
Ela nas tintas para isso,
renega-me em efígie, recusa-se
à imagem - de mim (de nós) - que lhe estendo.
Mas que posso eu fazer se a estrada
se desenrola aos meus pés
como uma mulher (como ela?)
de um justo e vibrante descaramento.
E além do mais
sou feito de poços profundos o bastante
para aí caber também (n)isso.
E eis que de repente neva...
Eu, minha cara, não apelo ao candor da neve
à sua paz de floresta
definitiva
ao tépido conforto do arminho
a lenha lareiras e velas onde brilhem virtudes
de resto laceradas até ao absurdo
ainda que aqui desbotadas, por pouco que as vise,
como bandeiras murchas.
Estou por esta – devaneio nocturno – neve de março
profusão
de pétalas ou dilúvio de rebentos entre as montanhas