sábado, 17 de setembro de 2011

O FUTICOOL: JOGAR É PRECISO, VIVER NÃO É PRECISO



Só é parcialmente verdade que esteja tudo inventado. Do que decorre que seja falsa a proposição, a não ser que um gomo da laranja seja, por sinédoque, toda a laranja e prescinda, para acontecer, da totalidade que a inclui.
Mas veio isto a propósito de uma discussão que tive ontem sobre jogos, pois um dos meus interlocutores dizia que estava tudo inventado e não era possível inventar um jogo novo. E eu fiquei de esboçar para hoje um jogo novo em que, ainda por cima, se misturam duas modalidades históricas: o xadrez e o futebol. Chamei à coisa o futicool.
É uma modalidade que se pode jogar num recinto relvado ou num pavilhão, em meio campo de um campo de futebol, com nove jogadores por equipa (guardar-redes mais oito jogadores), uma só baliza, um homem e uma mulher nus (o Rei e a Rainha).
O jogo só pode ser jogado por antigos e verdadeiros craques de futebol, desses que como o Garrincha ou o Futre fintavam três jogadores dentro duma cabina telefónica.
O jogo dura 90 minutos, em duas partes de 45 minutos. Em cada parte ataca alternadamente uma das equipas.
Este é um jogo em que como no jujuts se aproveitam os desequilíbrios do adversário, num grau de intensidade muito superior ao que é comum no futebol, porque não é permitido meter golos.
Ou antes, neste jogo, só contam os auto-golos.
O objectivo é exercer uma pressão tão grande na equipa adversária que os auto-golos aconteçam, pelo que não se trata apenas de neutralizar a resistência da equipa adversária, como de conseguir prever as suas reacções e usá-las, tal como o seu cansaço, em benefício próprio contra a intenção primeira dos seus actores.
O ideal é conseguir que tenha lugar um caudal de ataques tão magnificamente desenhados e num tal ritmo que os adversários se baralhem e, atabalhoadamente, acabem por jogar contra si, atirando, sem querer, na sua própria baliza.
Na tangente dos dois vértices superiores do rectângulo da grande área, à esquerda e à direita, desenha-se um círculo com um perímetro de três metros. Aí se deitam o Rei e a Rainha, nus, trocando de círculo a meio do jogo. E, enquanto decorre o jogo, acariciam-se, nos preliminares de um acto amoroso. Os jogadores devem fazer o esforço de não deixarem que tais actos diminuam a sua concentração e no círculo onde estão o Rei e a Rainha, a bola não pode circular rente à relva – o que dificulta ainda mais a tarefa dos atacantes. Se os defesas fizerem com que a bola toque na Rainha, sofrerão penalty, marcado pela Rainha.  
À baliza, naturalmente, em homenagem ao cavalo no xadrez, deve estar um centauro.
A impulsiva coreografia do futebol, aliado ao auto-domínio e o raciocínio do xadrez, é tudo o que se pede no futicool, para o qual ainda delineio as regras do jogo.
Ou podem os meus amigos colaborar.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A PORTA/ MIROSLAV HOLUB

MIROSLAV HOLUB (1923-1998), foi um brilhante poeta checo e um imunologista de renome mundial. Dizia o Ted Hughes que ele seria um dos da meia-dúzia de poetas mais importantes a escreverem em qualquer parte do mundo - nesse momento em que o Hughes se lhe referiu – e, apesar do exagero que estas coisas têm sempre, se o viúvo da Sylvia Plath o disse, para mim é dogma. Estas cinco versões resultaram do cotejamento das traduções francesas e inglesas. 

1755

Neste ano, começou Diderot a empreitada
da Enciclopédia e em Londres foi aberto
o primeiro asilo para loucos. Assim se começou
a preceder à contagem dos sensatos, que se cobrem
de nomes, e dos insensatos, que depenam
incansavelmente o próprio corpo.
Os poetas devem aprender a arte dos funâmbulos.
E, para que não hajam dúvidas, palhaços sisudos
debitam instruções sobre a arte de tornar-se normal.


YOGA

Toda a poesia se resume
a quinhentos graus centígrados

Só os poetas julgam
ser diversamente inflamáveis.
Os que se maceram no álcool
são os primeiros a arder.

Que seriam eles sem a sua doença?
A doença é a sua saúde.

Ardem, os espantalhos de palha,
não se empanturram em Nietzsche,
o que não mata
engorda.

Fumam.
Chamuscam-se.
Mas agora só os maus iogues
queimam os seus pés
nos carvões em brasa.


A SÍNDROME DE JOB

O corpo não se reconhece mais.
De pequenos nichos na pele
ejectam-se os pequenos vampiros de olhos
fluorescentes, aos ziguezagues.

Enfermo como gastrópodes sem guelras.
Enfermo como o menir vertical
que inflama o olho da insónia.

Ao fundo mais negro do princípio,
debaixo de todas as crostas,
mesmo Job está, apesar de tudo,
agradado por estar vivo,

fora de tudo.


O ESPAÇO-TEMPO

Quando eu crescer muito, enorme, e tu
tão minguado
então -

(na teoria de Kaluz a quinta dimensão
representa-se por um círculo
conectado em cada ponto
do espaço-tempo)

          - então, depois de morrer, nunca mais voltarei?
                                              Nunca.
Nunca nunca?
                         Nunca nunca.
Bom. Mas nunca nunca jamais?
                         Não… jamais, jamais, nunca.
                         Estou a ver, nunca mais terei nuca.

E assim trazemos
a nossa contribuição familiar  
ao problema quântico da undécima dimensão
          super-gravitacional.



A PORTA

Abre a porta.
    Talvez haja lá fora
     uma acácia ou uma floresta
     ou um jardim,
     a magia duma cidade.

Abre a porta.
     Talvez um cão queira entrar.
     Talvez desponte um rosto
     um olho
     ou uma imagem
     e o seu detalhe.

Abre a porta.
      Em havendo nevoeiro
      há-de dissipar-se.

Abre o raio da porta.
      Mesmo que aí não haja
      senão a cintilante obscuridade,
      e que não haja para enxergar mais
      que um sopro roto,
      mesmo no meio
                do nada,
       abre a porta.

Ah, sentes
a brisa,
a passar?

  

terça-feira, 13 de setembro de 2011

CARTA A UM JOVEM ESCRITOR VII

cartier-bresson
Após uma hora de prospecção encontro, enfim, a frase de Peter Sloterdijk que procurava há dias: «Alma é aquilo que não se mediatiza» (in O Estranhamento do Mundo, Relógio d’Água, 2008, Lisboa).
Apetece-me escrever qualquer coisa a partir daqui, mas não já.
Agora, folheando à esquerda e à direita, constato que o Sloterdijk é um verdadeiro designer na filosofia.
Evidentemente que Peter Sloterdijk é um dos filósofos actuais mais excitantes, digamos assim. O primeiro livro que li dele foi um livro de entrevistas de título “Ensaio sobre a Intoxicação Voluntária” (Fenda, 2001, Lisboa). É uma conversa instigativa, fascinante, a muitos títulos.
Mas só à segunda leitura é que reparei numa frase, que aliás já estava sublinhada, e que me parecia um achado. Eis a formulação:
«Aí, onde termina a história das religiões começa a história do design.».
É uma tremenda frase de efeito e que faz de imediato eco em nós: é isso mesmo, eureka, como é que não fui capaz de me lembrar disto!
E que bela citação, resulta sempre.
E usei a ideia duas ou três vezes em artigos.
Foi só quando reli o livro pela terceira vez, num dia de descontracção absoluta que me permitia petiscar nas letras e ideias sem a pressão de procurar um apoio funcional para qualquer coisa a escrever que, ao dar de novo com a frase, me acudiu perguntar: mas afinal, as leis do design, o seu telos, o que motiva esta disciplina, não estava já claramente presente nas catedrais góticas? Não há até uma banda desenhada franco-belga onde as catedrais góticas são transformadas em naves espaciais exactamente por causa da sua sugestão aerodinâmica? E porque me lembrarão tanto as cadeiras do design ergonómico de Alvaar Alto, um arquitecto e designer organicista, as linhas da escultura que se encontra nas igrejas românicas? E então dei conta de que frase do Sloterdijk talvez não fosse tão fiável e merecesse um exame mais atento aos seus fundamentos.
Foi condição básica para eu me libertar do fascínio da frase, que me obliterava o raciocínio, não andar à procura de nada, estar entregue a uma leitura deambulatória, arredia a uma utilidade imediata. Só nesta leitura sem tensão, dir-se-ia imotivada, é que enfrentei o livro de forma activa. Ou seja, parece-me que as leituras excessivamente orientadas, dada a pressão e a ansiedade, correm o risco de nos alhearem do detalhe que faz toda a diferença no essencial.
No fundo é como andar à procura de uma palavra – só nos vem quando já não a procuramos.
Mas tome-se outro exemplo:
«É característico dos místicos inverterem a tendência básica do desenvolvimento do líquido em sólido (…) os ensinamentos místicos são passíveis de serem interpretados (…) como escolas de mergulho (…)», (in Estranhamento do Mundo)
A adesão é imediata.
Contudo, algo em mim – o ácido úrico? – resiste a esta solubilidade total.
O design na filosofia – tal como o encontramos também em Nietzsche, autor de fórmulas brilhantes – é tão fascinante como decapitador. Assemelha-se a um farol nos olhos, encadeia.
Vejamo-lo agora num exemplo da literatura e do cinema. Em Fanny Owen, de Agustina Bessa Luís/Manoel de Oliveira, encontramos um puro efeito de design na célebre definição  de Fanny Owen: «a (i)alma é um vício!». A personagem era duma zona ao norte de Portugal onde as pronúncias mais acentuadas acrescentam um «i» às palavras começadas por «a» - e a demasia fonética duplicava o vício da (i)alma, o que parecia genial.
Mas houve “um chato”, o cineasta António Pedro de Vasconcelos que reparou que a frase se podia inverter, o que ficaria: «um vício é uma (i)alma», o que ficaria igualmente bem. APV fez este exercício para mostrar como o ilusionismo de alguma escrita nos faz perder um mínimo de reserva reflexiva.
Eu penso que ele tem alguma razão. Por isso tomei sempre a atitude de ler os autores da moda depois do seu pico de unanimidade, pois só aí descortinamos o que exista para além da momentânea alucinação colectiva.
Poucos sobrevivem.
Peço-vos para relerem Dan Brown, sabida a trama. É absolutamente vazio, Experimentem agora reler Dickens, Melville, Le Clezio, o Em Nome da Terra, de Vergílio Ferreira: não se esgotam.
Talvez porque correspondam ao que Sloterdijk, noutra arrancada fulgurante, sublinha: «A literatura apenas floresce enquanto a mania (leia-se no sentido de entusiasmo) pressupõe (…) um clima no qual os sujeitos estão predispostos a aguentar um máximo de pressão» (in O Estranhamento do Mundo)
Pressão. O que tem faltado à literatura que, como em 90% dos filmes, a gente lê e esquece no dia seguinte – não é?
Porque a pressão não nasce de uma montagem rápida ou de um suspense tecnicamente agarrado na unha, mas de um conflito onde colidam expectativas emocionais ou valores morais traduzíveis em conduta.
Talvez por isso, um conto breve de discussão entre pai, mãe e filho de Dalton Trevisan – o conto A Sopa, do livro Histórias Nada Exemplares, que se pode baixar no 4shared.com – oferece mais conflito, intensidade e aceleração emocionais que muitas perseguições de carro em filmes medíocres. Leia e descubra porquê.

PROVA DE VIDA

maputo

Não preciso de inventar uma linha, neste quotidiano pasmo. O desassossego, ou o assombro, assaltam-nos, apesar de nós, desabridamente.
Vou ao notário. Sento-me na esplanada contígua às sete e meia e peço um café. O empregado esclarece-me, só daqui a 20 minutos, o patrão hoje chegou mais tarde e só agora ligou a máquina. Espero. Espreito as minhas anotações num livro e escrevo num caderno: «o zapping é o novo deserto, a afasia como comunidade…».
Chegou a hora de ir tirar as fotocópias do documento que pretendo reconhecer. Nas imediações do notário existem sete papelarias com fotocópias. Abrem todas às oito. Às oito e vinte ainda nenhuma delas está aberta. Desisto, pego no carro e vou a uma loja de chineses 4 quarteirões depois. Regresso ao notário e verifico que uma das papelarias já abriu. Compro uma bic e, como conheço a dona, comento com ela, risonhamente, a abstenção de horário. Sorriso de lua cheia da senhora: pois!
No perímetro, só uma loja abriu à hora marcada. Não adivinham? A funerária. Esses sabem que não há tempo a perder.
Chego ao consulado português para renovar o passaporte e o computador que tem o programa biométrico engasga-se ao tirar-me a foto, faz puf e vem abaixo. Com paciência, o funcionário reinicia o processo, novo preenchimento de dados, cinco seis vezes. Perdemos quase uma hora nisto. Chego à caixa para pagar e a senhora inspecciona-me os euros e rejeita-me duas notas de cinco euros, porque estão amassadas. O banco não vai aceitá-las por estarem velhas, repisa. Velhas destas queria-las aos molhos, refuto, mas perco no braço de ferro, vá a uma loja de câmbios trocá-las, ordena. Nem discuto mais.
Atravesso a avenida e entro na primeira casa de câmbios, nada. Na segunda, escusam-se. Palmilho mais de 500 metros no encalço da terceira, contando os tostões para o caso de ter de comprar mais 10 euros. Apanho uma aluna na caixa da loja de câmbios, ai professor não gostei nada da minha nota, mas rogo & suplico e ela lá me faz o favor. Volto ao consulado por uma sulco da transpiração que me escorre espinha abaixo, 36 graus sem sombras, que podaram as árvores da avenida. Dirijo-me à caixa, fechada, a senhora saiu para tomar um cafezinho. Espero mais meia-hora, amaldiçoando a sorte. Chega, estendo-lhe as notas, impaciente. Pelo olhar dela ao manusear as notas percebo que me enganei nas cédulas a trocar. Vocifera baixo, mas cede, de trombil. Prova de vida. 

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

4X3: FALA CORPO

celia
«A ausência da dor equivale à presença do mundo. A presença da dor equivale à ausência do mundo. Em virtude destas equações, a dor transforma-se em poder», escreveu Elaine Scarry.
É o que desejaria ter escrito à cabeça do texto que fiz para a exposição de Camila Sousa. Mas Elaine não sou.
Por acaso conheci a Camila de miúda, e suponho que nos vimos 4 ou 5 vezes, mas o que interessa é que me apareceu em casa já crescida e madura, com um projecto de “antropologia visual” que me cativou e me fez aderir.
Inaugurou ontem na Faculdade de Medicina, em Maputo.
A sua exposição integra-se num projecto de Arte Pública, que se chama “Ocupações Temporárias” e tem outros cinco pólos na cidade. Registarei o que me parecer conforme, à medida que o visite. Mas agora quero focar-me no trabalho da Camila de que gostei muito.
Escrevi para o catálogo:
«Normalmente o corpo é uma cicatriz que se volta para dentro. É o tempo quem a faz declinar, escondendo as comissuras, os grampos da ferida, enquanto deixa de fora as rugas, e desponta em ossatura sob a pele. Mas corpos há cuja cicatriz se voltou para fora para devorar, como uma criatura, o seu hospedeiro.
O que é uma mulher? O que é um cárcere? Para Platão o corpo era o túmulo da alma. Muitas confissões religiosas encaram o corpo como presídio, sendo o corpo da mulher enfiado numa cela de pano. Quanto à “voluntariedade” desse emparedamento, o Foucault explicaria.
E o pior é quando, para além de não se ter sido ouvida nessa escolha, uma violência daninha, insidiosa, brutal, nos escama o corpo e a alma até explodirmos, rasgando o céu.
Em Moçambique, 80 e muitos por cento das mulheres encarceradas na prisão foram empurradas a isso por terem sido vítimas de violência doméstica. Demasiados anos. Um dia explodiram como o fruto de uma doença chamada androcentrismo, que entende o corpo da mulher como clausura, como pasto, ou utilidade temporária.
Uma mulher na prisão é uma mulher que rasgou o céu. Que se encapsulou para se defender e a quem não se perdoa não ter morrido dos vexames e maus-tratos que a devastaram anos a fio antes de desvairar, num grito mortífero. 
Acontece explodirmos, depois de camadas e camadas de situações em que o nosso corpo foi olhado como a aba de uma chávena. Uma chávena de que o parceiro se serve e quebra, caprichosamente.
4x3 designa o diâmetro das celas a que ficaram confinadas. É o diâmetro do grito.

Há seis meses que Camila de Sousa decidiu devolver uma voz e um rosto a algumas dessas mulheres que encontrou na Cadeia de Ndlavela. O seu trabalho é uma das coisas mais autênticas, dignas e bem conseguidas que vi nos últimos anos em Moçambique.  
A sua instalação comporta vários registos:
- temos as fotos em que o corpo das presidiárias é o documento da violência, e onde, ironicamente, se joga com o registo da fotografia-de-cadastro;
- temos as séries de fotos onde se configura a sua condição de presidiárias, expondo a tensão entre aqueles corpos e o espaço, entre os gestos do quotidiano e a clausura, e até as similitudes plásticas entre as marcas no corpo e as marcas nas paredes da cadeia - «rimas» terríveis, no sentido em que toda a vida elas se sentiram mulheres-objecto, sombras na parede;
- temos «os objectos» feitos a partir das suas memórias-âncora;
- temos o vídeo da figura de Mariamo, a interpelação do seu silêncio e a força da sua presença diante da câmara; o qual nos desnuda e obriga à reflexão, e, sobretudo, nos desafia a mostrarmos face à câmara a mesma serenidade, a mesma intensidade que a daquela presidiária – será um quase insuportável exercício de recolhimento;
- temos as fotos em que Camila as convidou a posar, esquecidas da sua condição de presidiárias; de modo a que cada uma restituísse a si mesmo a sua imagem de mulher, despertando para a sensualidade de que, como mulheres, têm o direito de não abdicarem – e esta belíssima série de imagens não apenas se sucede como se a dimensão do onírico, ou a do desejo, invadisse a impraticabilidade a que aquelas mulheres estão votadas, como é a prova da dimensão ética do projecto: Camila não “saca” delas as imagens, num gesto de reciprocidade, dá-lhes também o devaneio, a prontidão duma dignidade que se actualiza na beleza do corpo magnificado como corpo.
Há no projecto uma adequação total entre o conceito e a sua linguagem estética, tudo é orgânico nele, e por isso não é chocante dizermos que aquelas imagens são belas: Camila não está a estetizar o espaço que agride diariamente aquelas mulheres, mas antes as recoloca lá fora, nas imagens mentais onde elas projectam o melhor de si, o mais feliz conceito da sua feminilidade, e que Camila se limita a reproduzir.
Além disso, aquelas belas imagens entrosam-se no conceito amplo do projecto, onde perpassa igualmente um enorme desconforto: olhemos, por exemplo, a fotografia de Célia, acima reproduzida – uma das que prefiro. A desproporção entre a cama e o corpo de Célia tem algo de reticência lilliputiana, como se a vida lhe estivesse a retrair o corpo. Ressalta uma extrema violência nesta foto: é manifesto que o corpo de Célia está enquadrado num espaço artificial, que nunca será o seu espaço natural, a sua medida.
Até quando aquele espaço devorará o corpo de Célia, sem que esta perca a sua própria noção de corpo, é a questão irrespondida. Uma das mulheres fotografadas, quando entrou na prisão esqueceu a linguagem, teve de reaprender a falar.
A inteligência de escolher a Faculdade de Medicina para palco da sua instalação só reforça a sua natureza interpelativa:
os corpos femininos têm de deixar de ser considerados como expressões meramente anatómicas,
suportes para a taxinomia da dor, a mímica da asfixia, as cifras do hematoma, para palco da vigília de coágulos ou de crises ciáticas, o pus, as enxaquecas, como úteros úteis; ou, ainda, como superfície para as tatuagens sociais e a urdidura venosa com que se amansa, anestesia, o desejo e se reprime a liberdade e os direitos das mulheres; para lhes ser enfim devolvidos uma dimensão identitária, autónoma e singular, e um novo espaço de relação: ar e amor, por exemplo, sem amos de permeio. E, se possível, sem prisões para o corpo que só no diálogo com outro corpo amado ganha luz, o silêncio saciado que se segue à plenitude da palavra.
Por isso estas imagens de Camila de Sousa (em vez de “pornográficas”, como vilmente as qualificou um responsável de um Banco que lhe recuou apoio para o projecto) são absolutamente necessárias: para libertar as presidiárias, e a nós, que ainda não fizemos o suficiente para estancar a violência social sobre as mulheres e mudar as mentalidades. » 

   

domingo, 11 de setembro de 2011

A BOA VIZINHANÇA

serão gémeos? são as fotografias do relatório final
A colheita de sábado, um contito:


A linguagem é tramada mas permite-nos recortar o inexprimível e contar como o Zibelina deu com os ossos no céu. Embutidos na transparência do azul. Bastou um tiro com uma carabina para caça grossa.
A arma deu um coice no ombro do guarda-fronteiriço, que se aproximou do morto a massajar a omoplata. Antes de o virar com um pé, cuspiu.
A arma era potente, a cratera sanguinolenta devorava-lhe metade do peito. Mirou os canos da carabina, à cata de fumo. Nada.
Feio como as cobras, aquele morto. Tinha um cabelo à rasta, cãs que se afundavam na cara chupada, duas verrugas, uma em cada aleta (nunca tinha visto igual simetria), e um colete de fotógrafo que lhe ficava a boiar.
Da mochila, esventrada pelo tiro, saía, destruída, uma lente de máquina fotográfica. Nem se deu ao trabalho de desapertar os atilhos da mochila; com a faca do mato alargou o buraco, tirou o carrego e dispôs os objectos pelo chão.
Era uma carga estranha: uma barra de haxixe (aquilo valia para cima de mil dólares, havia de escondê-la no buraco da mafurreira no quintal da casa); duas t-shirts, duas cuecas, três latas de atum, umas linguiças plastificadas, ovos, pão, uma frigideira, dois isqueiros, três maços Palmar, dois frascos grandes com fetos lá dentro, conservados num líquido, como se fossem picles. E a máquina fotográfica destruída (uma pena). Num bolso do colete havia trezentos dólares em notas de cinquenta dobrados sobre mil e trezentos meticais (- sorte, estar sozinho…).
Olhou de novo a cara do morto. Nunca o tinha visto.
O que o intrigava era os dois fetos. Resolveu telefonar para o primo, que trabalhava como guarda no Museu de História Natural, em Maputo:
- Mbate, sou eu, o Artur… ya brada, tudo bem… e a cunhada como vai?... como? Mulher é fogo… Mano, lhe telefono porque limpei o sebo a um traficas, o man tem na mochila dois fetos de elefante… não é tanga… juro, iguaizinhos a esses… nem eu, pá, mandei-o parar três vezes e o man nada, antes que levasse o tiro dei eu… E o gajo tinha dois fetos na mochila… não são daí? Não houve roubo? Então kilharam alguma elefanta, na reserva… Ouviste falar de quem faça bizzniss com os fetos? Como é que é? Colecções na África-do-Sul? É o costume… E isso deve dar uma grana… Cinco mil? Por aquela gelatina? Ya… foda é o relatório… Tem people maningue crazy… Eh, pega leve… Tenho de ir, depois faço-te a ocorrência… ya, estamos juntos… 
Voltou a examinar os bolsos do colete. Num deles achou um papelinho enrolado com dois números de telefone.
Ligou para o primeiro. Enquanto conversava viu que os corvos se aproximavam do cadáver. Encolheu os ombros, virou as costas. A conversa não correu mal.
Curioso, soergueu o morto pelos colarinhos e deu-lhe duas galhetas só para lhe sentir os ossos. Este cabrão levou a vidinha a comer galinha, pensou. Virou-o de novo e perscrutou-lhe os bolsos de trás. Tinha o bilhete de identidade moçambicano. Leu: Zibelina Capristano Guente, casado. Quem se deitaria com tão fraco descaminho?

Duas horas depois chegou a casa com a mochila e uma gazela, que entretanto caçara.
A mulher tinha o banho preparado.
Acendia uma cigarrilha, deitado na banheira de água tépida, quando a mulher lhe veio perguntar:
- Marido, aquele coração que trouxeste num saco é de quem?
Fitou-a numa reprimenda, antes de lhe sair:
- Coração de gazela…
- Gazela não tem dois coração… - retorquiu ela, inquieta.
- E homem não tem espírito? Se homem tem duas sombra porque não tem gazela dois coração? – e imperativo - Esta tem… corta em fatia e faz como de costume, que mister Blacktie vem jantar connosco…
- Não sei que vês tu nesse mulungo*…
- Emprestou-me a arma. É treinador do meu clube. E já viste preto chamado Mulungo? Mamã, faz como te digo…

Blacktie, na varanda, afastou um bocadinho para o lado o painel solar, acomodou a cadeira de plástico e sentou-se. O seu rosto esplendia ansiedade:
- Então Ntundo, apanhaste gazela?
- Of course! Um maconde não perdoa…
- Gostaste da arma?
- É fêmea, dá coice mas no fim, crazy, anicha à mão…
- Yes… - respondeu o outro, sorrindo – quando se é home habilidoso…
- Of course…
Ntundo levantou-se, atravessou a penumbra e entrou dentro de casa, donde saiu dez segundos depois com a carabina na mão:
- Tome, it’s yourse… É boa para caçador de elefantes e não de gazela. Desfez a cara do bicho…
- Te disse…
- E quis ver, já vi…
Voltou a estender-lhe a arma, que o outro aceitou.
- And now?
- Gazela apanha-se à mão… se assobia e diz come in… e corta-se o pescoço na cama…
Blacktie anui, galhofeiro:
- Ntundo é home habilidoso e sábio de mulheres…
- Yes, i’m a beatiful…
Riem com gosto.
- Fizeste o coraçon?
- Of course… -Ntundo corta, sacana, sabendo como picar o outro - A equipa do mister é que voltou a perder este domingo… Como é que Ferroviário perde com a Liga Muçulmana, depois de estar a ganhar dois zero?
Blacktie puxa dos seus brios de treinador experimentado – que já levara três equipas da Liga B da África-do-Sul a subir de divisão – e tenta justificar o desnorte da sua equipa.
Um morcego ziguezagueia no violeta do lusco-fusco quando Lisa traz para a mesa, atrás deles, a tijela com o mutchuchu, um prato com o coração fatiado, uma travessa com nacos assados de gazela, e outro prato com linguiças.
Blacktie levantava-se e vai ao fô by fô** buscar o vinho, uma pomada chilena de arromba, garante.
- Frontera… - sussurra Ntundo, entre dentes, com a presciência dum maconde que já viu tudo sobre a generosidade dum bóer.
Blacktie, com olhos gulosos, atirou-se ao coração.
- Melhor que esse, só de cobra… - avisa Ntuno, que corta a linguiça.
Há linguiças do diabo, mas daquela ressumava o inexprimível e contava como o Zibelina bateu com os ossos no céu.

* branco, em schangana
** jipe 

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

PORQUE SÃO AS DECADÊNCIAS TÃO PROLONGADAS

Alain Badiou
Quando vivemos fora da Europa estamos sempre a ouvir falar da decadência da Europa. As pessoas secretamente desejam a queda da Europa, para compensar séculos de frustração, de poder e arrogância colonial. É a lei das simetrias. E é verdade que a Europa está em crise, sobretudo essa Europa cínica, financeira, que se instalou com a chegada ao poder de líderes medíocres e autistas. Mas quando me chegam às mãos exemplos como o desta conferência, Le fini et l’infinit, de Alain Badiou, que o filósofo dirigiu a uma plateia de miúdos – dos 10 a 14 –, em Montreuil, e vejo o nível das intervenções finais dos miúdos, transcritas no livro, e constato, além disso, que a conferência faz parte de um ciclo de outras que já foram editadas nesta mesma colecção, dirigida aos mesmos miúdos, não consigo deixar de considerar que a Europa, afinal, para lá das contingências e das crises momentâneas, está a preparar muito bem o futuro. E que talvez o ideal fosse, em vez de desejar a decadência do velho continente, elevar o nível dos alunos, globalmente, ao nível destes, capazes não só de ouvir matérias com este teor como de discuti-las no fim com argúcia e raciocínio lógico à altura dos argumentos apresentados. Aqui vos deixo um excerto desta delícia, a tradução é da Teresa Noronha, minha mulher, que a meu pedido traduziu a conferência:


O FINITO E O INFINITO

(…)
Quando uma coisa é finita, nós sabemos que isto significa que existem coisas que são mais pequenas do que elas. De uma coisa finita como a rolha, podemos dizer que é mais pequena que a garrafa porque os seus limites estão incluídos nos limites da garrafa. Consequentemente, uma coisa finita tem partes mais pequenas do que ela. Estas coisas podem ser cada vez mais pequenas porque eu posso tomar como exemplo a parte superior da rolha que é mais pequena que a rolha, que por sua vez é mais pequena do que a garrafa. E todas as três coisas são finitas. Como podem ver aquilo que é finito pode ser medido, porque senão como poderia eu dizer que existe uma coisa mais pequena, se não dispusesse de uma medida? Se considerarmos um centímetro, posso aperceber-me que a garrafa tem mais centímetros do que a rolha. Existe portanto uma relação entre o finito e o número, porque quando alguma coisa é finita, um número pode dar a sua medida e permite dizer que a coisa é mais pequena ou maior do que outra. Tudo isto se situa no espaço. A garrafa tem os seus limites no espaço da sala e a sala por sua vez tem limites no espaço de Montreuil, e Montreuil no espaço da França e a França por sua vez no espaço do mundo e o mundo no espaço do universo e o universo ainda os seus limites num outro espaço qualquer. Finalmente existe um limite em qualquer caso.
Isto é verdade para o espaço, mas igualmente para o tempo. No tempo também, as coisas têm limites. A vida humana na terra é finita, desgraçadamente. Entre o meu nascimento e a minha morte, existem um determinado número de anos. Voltamos a encontrar o número: a idade que pode atingir raramente mais de cento e vinte anos, o que é já uma boa esperança de vida. Mas depois de cento e vinte anos, a vida é infelizmente finita. É uma das razões pelas quais se diz que o ser humano é finito.
Os filósofos, que dão nomes bárbaros a tudo, chamam a isto a finitude.


(…)
Como já vos disse, o finito está ligado com o número porque este último mede-o. Eu morro a determinada idade, oitenta anos por exemplo, e esta idade é um número. Reparem que dizemos sempre a idade de alguém que morre: ele morreu de um cancro grave com a idade de cento e vinte anos. O finito é portanto um número. O infinito, por sua vez, é um pouco ao contrário da morte, ao contrário deste número que fixamos, a idade onde nós somos realmente finitos. Se nós pensarmos que Deus existe, diremos forçosamente que ele é infinito, porque de outra maneira teríamos de pensar que ele morre. Mas que Deus pode ser este que morre? Não pode ser um verdadeiro Deus se morrer, porque desta forma seria próximo de nós. Se Deus morresse com sessenta e cinco anos, não valeria a pena ir rezar diante dele e ainda menos pedir-lhe que nos faça viver até aos cento e vinte anos. Se acreditarmos verdadeiramente em Deus, ele só pode ser infinito. Talvez o universo também seja infinito.
O universo é tudo o que existe, eu que sou finito, a terra que é uma boa finita, o sistema solar que é finito, a galáxia e os seus milhões de estrelas que é também finita, mesmo se é muito grande. A galáxia está num ajuntamento galáctico ainda maior que por sua vez está num super amontoamento galáctico que fica numa região do universo. Não sabemos muito bem onde isto termina. Se isto não terminar, então definitivamente é infinito. É possível que não haja limite no universo e que possamos pensar que ele é infinito. Os humanos são minúsculas formigas finitas de um universo enorme e infinito. Esta ideia não é lá muito agradável, mas nós tiramos a nossa vantagem dela. O ser humano é finito, ele não é com certeza infinito, mas ele sabe o que é o infinito, e a prova disso é que está sempre a falar dele. Nós podemos ser finitos mas não ignoramos completamente o infinito. Nós podemos falar dele (…) E isto faz a sua força. Pascal, um filósofo, escreveu: “O homem é um caniço, o mais frágil da natureza, mas um caniço pensante”. Existem muitas coisas finitas como nós, mas não é certo que eles pensem o infinito como nós. Eu não sou infinito, mas não sou incapaz de saber o que é o infinito.
O finito mete-se portanto no espaço e no tempo através de um número que eu posso pensar. Eu posso pensar que essa coisa finita tem determinado tamanho e, a partir daí, tentar pensar no infinito. Passemos aos números. Partamos do zero o que é formidável. Foram os árabes que inventaram o zero, o número do nada. Se eu vos disser “Vocês são todos uns zeros”, não é lá muito simpático. Depois do zero vem o um, e isto continua sem parar, sem limites. Existe uma infinidade de números. Para ser mais preciso, se considerarem um número enorme, existe ainda uma infinidade de números maiores do que ele. É impossível afirmar: “o número tal é o limite de todos os números”, porque basta acrescentar um para ter um número ainda maior. (…) podemos sempre continuar. Basta por exemplo acrescentarmos um zero na escrita. Por exemplo se escrevermos “um” e se colocarmos um zero ao lado, faz dez, se colocarmos dois zeros faz 100. Podemos construir números enormes só acrescentando zeros. Isto mostra bem que acrescentando um pequeno símbolo, continuamos sem encontrar o limite.
Vou ler-vos o início de uma pequena peça de teatro para crianças que eu escrevi a propósito disto, desta história dos números que crescem sem cessar. Esta peça chama-se Ahmed filósofo. Este explica toda a espécie de coisas entre as quais o infinito.
«Quantos são vocês aí a olhar para o que se passa neste sobrado? Digamos, trezentos? Eu só gosto dos valores redondos, gosto que os cálculos dêem certo. Um número como 1787,3902 parece-se com o quê? Com um cuscuz (arroz) mal cozido. Um número redondo, é lindo, é claro, parece-se com uma bela mulher, compreendem o que eu quero dizer? Com isto não quero dizer que vocês, os trezentos, se parecem com uma bela mulher. É preciso um pouco de tudo, não há apenas belas mulheres no mundo, no paraíso parece que só há disso, mas talvez isso seja um exagero. Um milhão de mulheres lindas é demasiado para um homem só, percebem onde eu quero chegar? Bom, já chega de paraíso. Digamos que entra aqui na sala um zero. Não é fácil de imaginar a entrada de um zero na sala, mas o teatro serve para isso, para imaginar o inimaginável. Então, concentrem-se, um magnífico zero acaba de entrar na sala, um zero perfeitamente redondo. Conseguem vê-lo? Então, imaginem-nos por um momento. Que se passa então? O zero instala-se no fundo dos trezentos e, subitamente, já não são trezentos mas três mil. Um zero no fim dos trezentos faz três mil, não há erro possível. Por causa de um lindo zero, agora vocês são três mil, até estou com medo… Representar diante de três mil pessoas dá um frio na barriga, um pânico insuportável. E que vejo eu. Um outro zero a entrar. Um pouco mais magrinho este zero, mas não muito mal, ele ainda é gorducho, comeu bastantes uns, dois e três. Ele comeu até um setenta e oito. Porque para fazer um zero é preciso comer muito do que não é zero, senão não teríamos zero, teríamos o um ou o setenta e oito. Os zeros comeram tudo o que não é zero, é por isso que são redondos, bem nutridos, eles comem números todo o dia para se tornarem zeros. Eles têm estofo, são magros e comem imenso. Dito isto, eu não vejo porque é que estes zeros chegam atrasados. Digam-me vocês, o zero, começou desde o princípio dos tempos, e já temos três mil. Ponham-se ao fundo e não conversem com o cinco. Estou em pânico, porque um zero ao lado do três mil, faz trinta mil. É o circo romano, é um concerto de um grupo rock Majestuous Brown Egg, já não é o pacato teatro que temos aqui. Atenção, vem aí um outro zero, ele comeu um setecentos e quarenta e dois este aqui. E mais um e ainda mais um, parem-nos, o que é feito da polícia? A polícia faria melhor em fazer parar os zeros em vez de mandar parar todos os árabes e os jovens negros, parem todos os zeros e especialmente os que têm muitos zeros, os milionários por exemplo que têm muitos zeros. Ah, eles estão a chegar, eles continuam a chegar, milhões, biliões, triliões, quadriliões, quintiliões, biliões de quintiliões, massa inumerável de zeros juntando-se uns aos outros sem parar. Todos os vivos ali estão, mais os mortos, os que ainda não nasceram, público total totalizado pela infinita rotundidade de todos os zeros que vêm, a humanidade inteira está no meu teatro, a humanidade presente, passada e futura.»
Como podem ver o infinito colocado em cena no teatro é aquele que não tem limites, ao passo que cada número por si só, permanece finito. A sequência dos números não tem limites, mas cada número tem o seu. Quando nós dizemos cinco, não dizemos seis ou sete. “Infinito” significa que é sempre possível encontrar um número finito maior que um outro número finito. Alguns filósofos objectaram que desta forma nunca encontramos verdadeiramente alguma coisa infinita, como Deus ou o universo. Efectivamente, nós não procuramos um Deus ou um universo maior que o Deus ou o universo de que falamos, porque Deus ou o universo são infinitos em si. Com os números, não tenho uma coisa que não tem limites, mas simplesmente que a desloca. No fundo, eu estou sempre na minha garrafa, com as suas partes finitas.
Nós ficamos um pouco sem saída com esta questão do infinito. Não estamos na direcção do infinito, porque podemos sempre avançar mais, mas nós nunca lá chegamos, porque permanecemos sempre finitos. No século XIX, um homem chamado Cantor descobriu os números infinitos. Não somente os números finitos que continuavam, mas números realmente infinitos. Ele mudou não só as matemáticas e as aritméticas, mas também a nossa visão das coisas e a filosofia inteira. A ideia de Cantor é bastante simples. Ele tomou de uma só vez todos os números, em vez de acrescentar um número ao outro, mas pensando em todos os números ao mesmo tempo e deus-lhe o nome de conjunto.
Foi preciso que ele desenvolvesse as ideias sobre esse conjunto, mas eu tenho a esse respeito uma ideia intuitiva: pegam-se de uma só vez em todos em vez de se ir acrescentando um de cada vez, e aí damos a esse monte de números um nome: conjunto ómega. Cantor disse: “Vou chamar ómega ao conjunto de todos os números”. Ómega é uma letra grega. Qualquer número, por maior que seja está contido no conjunto ómega. O problema que surge daí pode ser formulado assim: O que significa estar dentro de qualquer coisa? Como é que nós podemos dizer que qualquer número, por maior que seja esteja dentro de qualquer coisa? Será da mesma forma que a rolha, ou qualquer outra parte está dentro da garrafa? Todos os números formam o conjunto ómega, um verdadeiro conjunto infinito, porque dentro do ómega existem todos os números e não simplesmente o caminho que permite passar de um número a um outro.
Vamos tentar resumir. No fundo, no pensamento humano, houve duas ideias diferentes de infinito. Uma primeira ideia entende o infinito como aquilo que se pode sempre continuar sem encontrar um limite. É o infinito que podemos chamar pelo seu nome erudito mas muito simples, virtual. Porquê virtual? Eu posso caminhar para o infinito avançando para ele, mas eu não posso alcançar a totalidade infinita. É um infinito de caminho que não encontra limites, é sempre novo, maior, outra coisa, mas é sempre finito.
Existe um outro infinito, o que Cantor introduziu, mas que era já o de Deus ou do universo: um infinito actual, realmente infinito, compreendendo todos os números infinitos. Este infinito actual é como que o limite, o horizonte, do infinito virtual. No infinito virtual, eu passo de um número ao seguinte que é sempre maior, sem chegar nunca ao fim, enquanto no infinito actual, eu encerro tudo numa espécie de envelope e atinjo o fim. Se eu fosse um caminhante que vivesse indefinidamente, eu poderia caminhar até ter todos os números, e teria então atingido o infinito actual.
Dispomos de vários símbolos para representar o infinito actual, ómega, como um oito deitado. Vou ler-vos a segunda parte da peça de teatro relativa ao infinito actual e já não ao virtual.
«O que estou a ver lá ao fundo? Tem um ar muito engraçado, parece um duplo zero, dois zeros gémeos. Ou antes dois irmãos siameses, dois zeros colados um ao outro. Parece um oito deitado, estão a ver o que eu quero dizer, um zero em cima do outro mas não deitado, um oito deitado. Ó preguiçoso do oito, não se dorme no teatro. Levanta-te, ó oito. Mas não, não é exactamente um oito, o que é que pode ser? Oh, cabeça de alho chocho, é o infinito. O infinito que vem depois de uma infinidade de zeros redondinhos. Já não há mais zeros, estão todos dentro da rede. Zero para os zeros quando se atinge o infinito, foi isso que se passou. Chegaram tantos zeros que foi necessário ir procurar mais longe, mais longe do que todos os quintiliões de triliões de milhões. Chegámos a um número que já não conseguimos contar. E o infinito chegou, tranquilo, à sua hora, e ele disse. “Senhores zeros, comigo vocês bem podem juntar-se, pôr-se em fila, é como se nada se passasse, porque o infinito mais zero continua a ser infinito”. Desgostosos, os zeros saíram rebolando. Muito honrado Senhor Infinito, obrigado infinitamente. Para selar a sala, para expulsar os zeros, só podia contar convosco, posso começar, obrigada. Quantos estão aqui a olhar para este, que se passeia neste sobrado? São trezentos mais o infinito, naturalmente. Mas trezentos mais infinito é infinito, porque trezentos ao lado do infinito é como zero. Vocês são portanto infinitamente numerosos. Agradeço-vos Senhoras e Senhores por terem vindo assim tão numerosos. Tão numerosos que mesmo se um montão de zeros aqui vier nada mudará, absolutamente nada. Que paz, a paz do infinito. Silêncio, estou a ver que o infinito dorme ali no fundo da sala. O infinito dorme muitas vezes. Cuidado para ele não acordar. Quando o infinito dorme, o finito cala-se. Chiu!!!»
“O infinito dorme muitas vezes” diz a peça. No fundo, nós não pensamos muitas vezes no infinito, porque o pensamento do infinito lembra-nos a nossa finitude e a morte. O que é aterrorizador no infinito, é que ele nos lembra aquilo que nós não somos. Pascal, de quem já vos falei há pouco, escreveu: “O silêncio eterno dos espaços infinitos aterroriza-me”. Há uma espécie de medo, um terror face ao infinito, porque ele contem a ideia terrível da morte que nos leva à finitude. Mas lembremo-nos que o ser humano vivo pode calcular o infinito. Ele criou os números infinitos, ele escreveu o que é o infinito e, assim, através do pensamento, ele é o senhor do infinito. É esta razão por que estudar e particularmente estudar o infinito e o finito, as matemáticas, esta coisa terrível, difícil e obscura, é tão importante - porque isso introduz um verdadeiro pensamento sobre o infinito. Nós podemos dizer que as matemáticas são mais fortes do que a morte, e é por isso que é necessário aprendê-las.
Evidentemente, a vida no finito, no nosso finito, pode ser bela e alegre, a vida das viagens, dos jogos electrónicos, das conversas com os amigos e amigas, a vida do amor, tudo isso é magnífico. Não estou com isto a querer dizer que é necessário abandonar tudo isto para nos dedicarmos às matemáticas. Tudo isto, nós podemos chamar-lhe a nossa bela finitude, a vida feliz que nós podemos ter.
Muitos poetas cantaram que o finito em si pode ser belo, feliz, forte. Peguemos, assim ao acaso, neste poema de Victor Hugo que Georges Brassens musicou há algumas décadas atrás e do qual vos vou ler um curto extracto. “Um dia de verão em que tudo era luz, vida e doçura, ela veio brincar para a beira do lago com a sua irmã. Eu vi o pé da sua jovem companheira e o seu joelho, o vento que atravessou a montanha, enlouqueceu-me.” É a bela loucura do finito. Tendes aqui a beleza do nosso mundo finito: o verão, a luz, as raparigas, o vento.
Mas nós podemos também virar-nos para a grandeza do infinito, que não é contraditória e seguir o exemplo dos filósofos, na via que leva ao infinito, nós podemos escutar o aviso dos filósofos como podemos escutar o dos cantores e dos poetas sobre a beleza do mundo finito. Que nos dizem os filósofos? É através de um certo trabalho do pensamento que o ser humano é mais forte do que a morte. Se nós formos capazes de ser mais fortes do que a morte, não é na festa da vida, mas no domínio do infinito em si mesmo através do pensamento. Kant, o grande filósofo alemão, afirma que o primeiro homem que inventou a geometria teve uma iluminação e que, graças a ele, “o caminho seguro de uma ciência foi aberto e traçado para todos os tempos e para distâncias infinitas”. Aquele que inventou a geometria abriu qualquer coisa que existia em distâncias infinitas. Ele permitiu-nos, a nós, pobres seres finitos, caminhar na direcção do infinito. Espinosa, um outro grande filósofo, escreveu: “a verdade seria para sempre desconhecida do ser humano se a matemática não tivesse mostrado aos homens a verdadeira regra da verdade”. Espinosa explica que, graças às matemáticas,o homem ultrapassou o seu limite. Ele foi condenado a não conhecer grande coisa, e graças às matemáticas, ele encontrou uma regra para a verdade.
Gostaria de concluir por aqui. É preciso escutar os poetas e os músicos, é preciso viver bem a beleza da nossa finitude, com o vento, o mar, os jogos, os risos, as festas, as danças, mas é preciso escutar também os filósofos e os matemáticos de vez em quando, e estender o seu pensamento como um arco para atingir o infinito. Porque, este infinito, nós chegamos a ele pelo pensamento como se atinge um alvo, exactamente como Cantor disse: “existe o ómega, um conjunto infinito, um número infinito”. Se nós possuirmos os dois, a alegria do finito e a força do infinito, eu creio que podemos tocar na felicidade. A felicidade é sempre qualquer coisa que é finita e também infinita.       

Montreuil, 22 de Maio de 2010


FUGIDO DO SEU FRACASSO

helen mirren como prospera, na ultima adaptacao de A Tempestade
“Vem fugido do seu fracasso!”, eis a fórmula encantadora com que se designa na Índia aquele que voltou a cair na atracção de Samsara, o ciclo infernal dos nascimentos. Assim estou eu com a poesia, sempre a querer rejeitá-la e ela a soprar-me no pipo. Desta vez foi a releitura do primeiro Acto de A Tempestade, de Shakespeare, que me entornou neste derrame:


TORNAR À TEMPESTADE
                            para a Maria Joao Cantinho, que continua com cara de castor

O meu pai era tipógrafo,
a sua carranca nascia da máscara
que lhe punham as letras de chumbo.

Mas a sua alma flectida em mim
não me trouxe aos rins
as mais leves golfadas de ouro.

Temo que sob o naufrágio
duma fadiga há tanto anunciada
esplenda a pirite, a matéria amorfa,

a dúbia fracção do que também nele
não achou um atanor alquímico.
Para lá das sombras fixas,

estaleiro donde já não partem
as aves, eis-me como Prospero
retirado de sua arte e,

condoída mudez
aos primeiros relances
de Milão, resignado

a consagrar um de cada três
pensamentos à brasa,
à fundura da tumba.