quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

TRADUZIR GAMBOZINOS

hokusai, o sonho da mulher do pescador
Nova fornada de haikus, com a habitual ilegitimidade de quem não sabe japonês e se pôs a catar gambozinos no tremendo escuro de outras línguas, de que resultaram os seguintes pirilampos:

Sobre o breu do mar
o grasnar dos patos,
talvez branco.



Upa, primavera –
a colina sem nome
tremula na neblina.



A toda a brida no campo
E, de repente, deténs o corcel:
                              o rouxinol.



Narciso e biombo
um ao outro se iluminam:
branco no branco.



Estendido flui
do mar bravo à ilha:
rio de estrelas.



Arde o sol, arde
sem piedade – mas o vento
é de Outono.



Que irrisão!
Debaixo do elmo do herói
desatou a cantar o grilo!



A este caminho
já ninguém o utiliza
salvo o crepúsculo.



Admirável
-não diz, diante do relâmpago,
que breve a vida!


Basho


Diante deste branco
crisântemo, mesmo
a tesoura duvida.


Árvore em flor.
Ela lê a carta
banhada pela lua.


Buson




Não trocam uma palavra
o anfitrião, o hóspede
e o crisântemo.


Cai o carvão,
cai no carvão:
anoitecer.


Regresso assaz  irritado
- mas logo, no jardim:
o jovem salgueiro…


Acossados
escondem-se os pirilampos
nos raios de lua.


Oshima Ryota



Para o mosquito
também a noite crepita,
longa e solitária.



Há qualquer coisa
nessa cara, há qualquer… deixa
cá ver  -  ah sim… a víbora!



Sobes no Fuji, fazes
render o peixe – mas sobes,
                       caracolito!



Maravilhoso:
palpar entre as frinchas
a Via Láctea.



O rapazito queria
conservar entre os seus dedos
as gotas de orvalho.



Com que ímpeto de inveja
segue com os olhos a borboleta
o pássaro na gaiola.

Kobayashi Issa

BILENE, AGAIN

No dia em que a Grécia anuncia, eh pá, vamos desmoronar, eu parto para quatro dias de desintoxicação no Bilene. Again. Adeus casas de cambio, adeus Vénus e Marte, adeus credulos pategos, adeus pátria minha desnavegada e retraída, adeus Guebas, adeus policia na estrada, adeus alunos & baldrocas, adeus incalcináveis turnos da opacidade do mundo...
Da ultima vez que ali desencalhei os nervos escrevi crónica, que publiquei no Savana. Aqui a boto:

CORRESPONDENTE NO BILENE
(uma lagoa paradisíaca à beira mar, a 200 km de Maputo, e em cujas margens a burguesia de Maputo ergue as suas mansões)
por António Cabrita

Era uma vez um ilhéu que gostava muito de uma mulher que vivia noutra ilha. Gostava tanto dela que lhe escrevia todos os dias. Ela acabou por casar com o carteiro. O carteiro era o meu avô.
Eis um tipo de narrativas que eu já não julgava possível desenvolver com credibilidade por causa do progresso. No princípio do século XX, o meu avô, um carteiro apessoado e cheio de lábia beneficiou da falta de mobilidade e de transportes entre as ilhas dos Açores para destapar o coração da minha avó fazendo de Cupido. Hoje o Msn dispensaria o seu papel na história, as carreiras entre as ilhas são bi-diárias - o tremendo charme do meu avô ficaria a ver navios.
Mas descobri um lugar onde a sua história ainda se encaixa: o Bilene. Passo a explicar. A primeira vez que cá vim foi em 95. E vi um lugar paradisíaco, com condições para um crescimento exponencial rapidíssimo… mas os tempos eram de vacas magras. Nessa altura fiz três amigos: o Chico, o Artur e o Momed, três miúdos que palmilhavam diariamente doze quilómetros pela praia para irem à vila comprar sal ou arroz, ou fósforos, coisas básicas.
Esta semana voltei, com a filharada. Foi uma reinação, a mais nova ficou encantada com o tamanho da banheira. E, em casa, alto incremento da sueca.
Nos breves momentos à solta que nos deixam três crias + a amiga,  observo o movimento dos pescadores, da população autóctone, das mulheres e crianças que circundam a lagoa pela praia para ir buscar farinha, arroz, ovos, material para o remendo das redes, sei lá. E penso nas duas horas que eles perdem nisto, para lá, e nas duas da volta, quatro horas extraviadas que só deixam tempo para uma vida fisiológica, de resposta às necessidades e estímulos mais primários. Estou a lamentá-los (por que, estão a ver, podiam ser horas dedicadas à formação) e não é que de repente nesse magote de figurinhas ambulantes descubro o Chico, o Artur e o Momed?
Doze anos depois, já com filhos, a vida dividida entre a pesca e a maratona de ir buscar fósforos, arroz, preservativos (idealizemos). O Chiquinho já sem dentes, o Momed analfabeto como antes e o Artur (que era o mais bonito) com uma cicatriz na testa que se escusou a explicar. Se calhar foi o carteiro das cartas de amor de alguém para uma cachopa que vivia em Macia e um dia quis fazer de padrinho à italiana (como o meu avô) e lixou-se.
O Chico vem com um filho, o Nelson, de cinco anos a quem ele inicia às longas estiradas (daqui a 10 anos, imagino, o garoto deixa a miúda em suspenso, lá para as bandas do Monte dos Noivos, diz-lhe ‘espera aí, que vou buscar a camisinha!’, e perfaz em corrida 10 km no fito de ser um homem prevenido). Interrogo-me se o rapazito depois das tarefas obrigatórias para a comunidade familiar (ó Nelson, pede a mãe, vai-me comprar fósforos, ou arroz…) terá tempo para ir à escola, duas horas para lá, duas na volta, mas ofereço-lhe uma cola, felicito o Chico por estar vivo e calo-me.
Olho em volta, certifico as condições ideais para um crescimento explosivo numa década e interrogo-me: que fizeram os responsáveis até agora, como é possível que doze anos depois as infra-estruturas sejam rigorosamente as mesmas e só os ricos tenham beneficiado das potencialidades do lugar? Encolho os ombros, peço um uísque no imemorial Estrela do Mar e sento-me diante da televisão a ver o meu primeiro telejornal após uma semana de jejum, e então pela nonagésima vez no ano ouço um Laurentino gabar-se: Nellspruit (a cidade sul-africana mais próxima, a 200km) cresceu à custa dos moçambicanos! Sou de imediato varado pelo enigma, inconveniente, pertinaz: mas porque não cresce Bilene à custa dos moçambicanos? E porque não cresce Moçambique a outra velocidade, apesar do labor com que os moçambicanos fizeram crescer Nellspruit? 
Talvez porque quando os moçambicanos começaram a ir largar o dinheiro a Nellspruit os sul-africanos tiveram «uma visão» em relação ao que fazer com essa mina. Não basta ter o dinheiro, é preciso ter uma estratégia. Começar por oferecer bicicletas àqueles milhares de jovens que fazem da praia um atalho para os libertar para a formação, por exemplo. Talvez esses moçambicanos possam fazer por si o que os outros não fazem por eles.
Interrompo a crónica. A mais nova acordou com uma birra exigindo leite, que acabou. A birra sobe de tom e pergunto-me (sem carro, nem bicicleta) se palmilho três quilómetros de ida e três de regresso para lhe ir comprar leite.
Convenço-a a comer batatas fritas.

GRAMÁTICA E ANUNCIAÇÃO DO TANSO

eu, preparado para a próxima visita a uma casa de câmbios

Na sexta-feira à tarde, véspera de Natal, percorri Maputo, de loja de câmbio em loja de câmbio para conseguir comprar 800 dólares que hoje teria de depositar na conta do meu senhorio.
Depois de calcorrear inúmeras avenidas, de baixo para cima e vice-versa, lá encontrei uma agência aberta com um maduro paquistanês, barbudo e de ar desportivo (camisola de alças), ao balcão. Quando cheguei vi que ele trocara dinheiro com alguém e não pedira documentos, como seria obrigatório por lei. Mas como eu queria era safar aquela maçada rapidamente não quis eu fazer questão disso, de o obrigar a dar-me um recibo e um carimbo, contra a inclusão da minha identificação no impresso. Ele não pediu e eu colaborei.
Achei estranho que o senhor, antes da transacção, depois de lhe ter passado os meticais para a mão, e estando nós sozinhos na loja, me tenha pedido cinco minutos e saído para a rua, deixando-me ao balcão, sete, oito minutos, em que tudo, mas tudo me passou pela cabeça. Lá veio então, deu-me cinco notas de cem novas e três mais antigas, e eu com a ansiedade nem as examinei a detalhe. Aliás, saí tão aliviado por me de livrado da incumbência que até me esqueci de lhe pedir o troco, trezentos e vinte meticais; relaxe pelo qual só dei três horas depois. Enfim, o tanso.
Hoje fui ao banco depositar a renda na conta do senhorio. E diz-me a funcionária depois de ter observado as notas com um ar enfadado, «… estas três estão fora de prazo, esta aqui já há muitos anos que não está em circulação».
Lá vou eu voltar ao vigas, sem uma prova documental, a minha palavra contra a dele e tendo como única arma dissuadora o facto de poder espetar com uma crónica de denúncia em dois jornais da terra que lhe minarão a respeitabilidade da casa, questão que para ele deve ser absolutamente irrelevante a partir do instante em que voluntariamente, com a silente estridência com que olha para o patego, passa aos clientes notas de cem dólares que já não circulam há vários anos - facto que ele, como profissional dos câmbios não pode ignorar.
Quando horas depois (passada a hora de expediente) dei conta de que ele não tivera a educação de compensar a minha indesculpável distracção com um pingo de honestidade, chamando-me de imediato para me devolver o troco, fiquei bravo comigo, e comigo… e com ele, e prometi só voltar lá para lhe ir urinar na montra. Mas agora impõe-se lá voltar e discutir, muito provavelmente com outros sócios e empregados, os efeitos duma transacção ilegal e duma sodomia não consentida.
É esta a inescapabilidade do tanso – numa cidade onde os esquemas são diários e a vidinha tem de ser um estar a pau.
Portanto, meu querido candidato a emigras, antes de vir, meça primeiro o seu grau de “intangibilidade”, o ângulo da sua capacidade para de antemão não desconfiar das pessoas. Se for igual ao meu é inútil o passeio, eles devoram quatro tansos por segundo, oito patos, doze artolas. A todos depenam com caridosos murmúrios.
Tudo enquanto um paquistanês esfrega um olho e, na verdade, pensa em Meca, a devotada.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

NOVOS PORTOS: BLANCA VARELA

Blanca Varela, peruana (1926-2009). A poeta viveu em Paris, Florença e Washington, antes de se estabelecer mais uma vez na capital peruana. Estreou em 1959, com o livro Ese puerto existe, livro elogiadíssimo por Octavio Paz. Em 2007, a poeta recebeu o prémio Reina Sofia. As versões são minhas.

Ninguém te vai abrir a porta. Insiste,
             bate, bate com força.
No outro lado soa a música. Não. É o toque do telefone.
             Estás enganado.
É um aulido eléctrico, um arquejar mecânico, craques, chicotadas.
Não. Afinal é mesmo música. Sim.
Espera. Alguém chora esfarrapado por longos suspiros.
Ou não. Lembra um silvo agudo, uma enorme e bifurcada língua
             a lamber um céu pálido e vazio.
Alto. Claro... é um incêndio.

Todas as riquezas, todas as misérias, todos os homens
              - o ror de coisas que se precipita nessa melodia.
Tu estás só – do outro lado,
em combustão.
                        Deixarem-te entrar
é que é mentira.
Buscas, rebuscas, trepas, guinchas. É inútil.

Sê o vermezito transparente, enroscado, insignificante.
Com as tuas patitas mortais dá a volta à maçã,
          mede com o teu ventre turvo e tépido
          a sua inexpugnável redondez.
Tu, vermezito, tromba de insecto, bocarra de leão, dono da morte
e da vida.
Não podes entrar.
Juram.


O RAIO PERFUMOU SELVATICAMENTE A NOSSA CASA

II
O raio perfumou selvaticamente a nossa casa.
Temos sede, pressa e golpeamos
com o osso de uma flor na treva.
Há uma árvore podada nesta história.
Contemplamos o céu. Foram-se os sinais.
É de dia? É de noite?
Morreu a aranha que media o tempo,
confina-nos um muro carcomido
e uma nova família de sombras.


CENA FINAL

deixei a porta entreaberta
sou um animal que não se resigna a morrer

a eternidade é a obscura dobradiça que cede
ao mínimo estalido na noite da carne

sou a ilha que avança sustida pela morte
ou uma cidade ferozmente sitiada pela vida

ou talvez nada disto eu seja
senão a insónia e a glacial indiferença dos astros

deserto destino ombreiras
inexoráveis donde se levanta o sol dos vivos
reconheço essa porta
não há outra

geada primaveril
e um espinho de sangue
no olho da rosa.


NINGUÉM NOS DIZ COMO

Ninguém nos diz como
voltar a cara contra a parede
e
morrer simplesmente
assim como o fizeram o gato
ou o cachorro da casa
ou o elefante
que tomou o rumo
da sua agonia
no passo solto de quem sabe
a cerimónia improrrogável,
acenando as orelhas
ao compasso da sua tromba;
só no reino animal
se contam os exemplos de tal
comportamento,
mudar o passo
aproximar-se
farejar o já vivido
e virar as costas
simplesmente
virar as costas

domingo, 1 de janeiro de 2012

O PARTO

Dia 1 de Janeiro.
Estamos de esperanças.
A esperança, segundo Valéry, é a resistência do ser diante das previsões do seu espírito.
Seja. A borboleta que previu que seria tigre ainda não viu tudo.
 

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

CARTA A UM JOVEM CRIADOR 9

gravura do poeta Jorge de Lima

Tanto no texto que escrevi para a apresentação de Respiro, como no breve apontamento que li na apresentação de Conversas Com a Sombra, de Tânia Tomé, falo da solidão e da sua necessidade para a criação.
Bom, é difícil ser mais óbvio.
Suponhamos que nos encontramos às apalpadelas num quarto às escuras e que para nos orientarmos precisamos de encontrar uma estria. É mais fácil concentrarmo-nos nessa busca sozinhos do que no interior de uma algazarra que, pelo enxamear de opiniões, nos fissura.
Não há nada de “heróico” na minha concepção de solidão, de egolatria em carne viva. Aliás, que egolatria se apresenta sem máscara? 
Mas que tipo de solidão reivindico?
Mantenho que a gente mais inteligente é a que chega realmente a interessar-se pelos outros e pela singularidade ela-mesmo. Prado Coelho, Daney, Deleuze, Blanchot, eram esse tipo de gente generosa e inteligente que pensava com os outros, alargando por empatia o âmbito.
O que me parece é que o poeta ou o artista precisam de criar um espaço de isolamento, uma espécie de caixa negra onde cultivar o como se. Não me refiro a qualquer torre de marfim, mas ao espaço transicional de que falava D.W. Winnicott: um laboratório privado, no essencial vazio, onde cada um inventa uma distância a si e ao mundo através do playing. Este, mais que o jogo, é um espaço intermédio que, potenciado pelo devaneio, lhe permite engrenar mundos virtuais e gerir a sua autonomia nisso.
Pense-se no empty space de Peter Brook, que não é um pleno disfarçado. É antes preciso escavar mais no vazio para se encontrar algo. As crianças criam-no por instinto, ao fim de estarem uma semana sem televisão. Até aí sofrem como minhocas assombradas pelo fantasma do anzol porque o seu vazio está preenchido por uma polpa espectral. Depois desatam uma autonomia que lhes vai cimentando um imaginário.
Há um momento apropriado e uma incidência correcta para sermos um poro em relação ao exterior. Antes é perigoso, depois projectamos demais.
Daí que não sejam anódinos os efeitos dos primeiros contactos após a socialização do que escrevemos. Pela atracção dos afectos que todos os efeitos geram, nesse circuito, podemos deslocar-nos inteiramente para fora e ficarmos reféns dos actos relacionais.
Um extremo dessa dependência encontramo-lo nesta formulação de Bourriaud: «…não é obra em si mesma que importa mas antes o olhar do espectador sobre ela», fórmula que não passa de uma falácia que borbulha momentaneamente (com os seus 15 segundos de fama) na espuma da era do mercado, pois o que move o criador não se reduz à esfera da reciprocidade.
Winnicott fazia uma distinção essencial entre game e playing. O game é o jogo que obedece a regras precisas, e no playing as regras descobrem-se e inventam-se à medida do desenrolar do jogo.  Nesta brecha, onde as regras se criam autonomamente à medida do jogo, a solidão é uma reserva indelegável, o nosso banco de coral.
Mas é preciso amar a solidão, que seja intrínseca e interior ao feixe de vozes que nos é anterior, é preciso desejá-la; de contrário, o primeiro contacto fere a membrana que nos separa e singulariza.
Quando dois bancos de corais coincidem no espaço dá-se uma afinidade electiva; pelo contrário, se um agregado coincide numa plataforma de interesses comuns sucede-se a promiscuidade das opiniões. São coisas opostas e a segunda arrasta consigo a perda da solidão: a derrapagem para o game.
Pai, quando eras pequenino conseguias fazer a aranha à frente… – pergunta-me a minha filha Luna, obrigando-me a largar a teia.
Eis-me numa solidão habitada, mas isto é reflexão para outro dia.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

NOVA POESIA MOÇAMBICANA 1/Tânia Tomé


Texto lido no dia 16 de Dezembro, no lançamento do livro de poesia de Tânia Tomé, Conversas com a Sombra:

Eu estou aqui para ocupar pouco espaço e pouco tempo, pois como já fiz o prefácio, entendo que o papel de dar chaves sobre o livro deve recair agora sobre o Nataniel Ngomane, aqui ao meu lado na mesa.
E se aqui estou é só para legitimar com a minha presença o que adianto no prefácio e afirmarei a seguir. Mas antes farei um pequeno preâmbulo a explicar, porque as pessoas que não são do ofício não o sabem, que o segundo livro é o mais difícil de qualquer autor.
O primeiro livro emerge do seu próprio ímpeto. Há um fulcro empurrado pelo entusiasmo que o nutre. Conseguir transmitir a corrente do entusiasmo e traduzi-lo num bom ritmo, num acervo de metáforas pertinentes, refrescantes, e bem arrumadas numa estrutura funcional, é já por si um valor, sobretudo se o resultado funda uma voz original.
Mas o entusiasmo, por si só não chega. É preciso encontrar uma densidade humana e reflexiva que compense as precipitações do entusiasmo e culmine num cais seguro e profundo.
É raro um primeiro livro ser entusiasmante e profundo ao mesmo tempo e o desafio do autor é dar esse passo no segundo. A grande dificuldade decorre, a meu ver, do facto de que do primeiro para o segundo livro o autor ter muitas vezes perdido a solidão. Quando o poeta escreve o segundo livro já está sob influência da imagem que o primeiro livro instalou. Já sente que tem de provar ou que confirmar, e aí o poeta já não está a sós com o seu combate, e interferem no seu trabalho as sombras do efeito que causou. O reconhecimento social do poeta é sempre um pau de dois bicos e pode transformar-se numa companhia impertinente e inibidora. Autores há que por causa disso do primeiro para o segundo livro perdem o gás da espontaneidade. Quando se consegue manter, ao mesmo tempo, a espontaneidade e renovar os motivos e os modos discursivos, ou dilatá-los, então o poeta acosta a um cais profundo, dado que ao contrário do que muita gente julgará, a um bom cais convém ser profundo.
Este arrazoado para declarar que a expressão poética da Tânia Tomé se renovou e cresceu, sendo agora não já apenas uma promessa como uma certeza, diante da qual podemos até sermos peremptórios: quando se reúne o melhor da Noémia de Sousa – na sua construção de uma identidade nacional e de uma voz colectiva –, o melhor da Glória de S’Antanna – na subtileza dos processos e da linguagem –, com a invenção sintáctica e vocabular de Craveirinha, a liga que daí resulta só pode ser excelente. É o caso.
Diria até desde a velha geração de Luis Carlos Patraquim e Eduardo White talvez não se encontrasse na poesia moçambicana uma expressão poética com o mesmo fulgor. Tânia será certamente a voz poética mais interessante da nova geração, e julgo que neste momento a poesia moçambicana, com Guita Júnior, Mbate Pedro, Rogério Manjate, Florêncio Edender e a voz mais recente e plena de cromatismos de Tânia Tomé, começa lentamente a renovar-se.
Por último faço votos para que a gravidez adiantadíssima que a poeta exibe não tenha hoje, que é um dia de emoções para a autora, o seu desenlace, mas que já agora espere pelo 25 de Dezembro, dia mais propício à presença de anhos, burros, bovinos, anjos e Reis Magos, que com o seu sopro cálido quente tornarão o parto mais risonho.  
Alguns poemas do livro:    

1
Quem serei do que fui? Olhava à volta. E o algodão 
crescia-me na carne, depressa como água 
na areia, como o sol esquenta na palhota 
da minha vida. Onde eu me exilei, eu 
com mais meu futuro por vir. Às vezes 
a M’bique atravessa-me nesse pensamento sorrindo 
de amendoim nos olhos, nasce 
comigo nessa angústia de esperança. Ela 
gargalha cheia de sementes nos olhos. 
Brilham como diamantes negros correndo 
a vapor no seu corpo doce. Eu e eu 
nascemos um para o outro. Digo, eu 
e ela, ela e eu, somos dois: dois em um. Entendes? 
Nem eu próprio sei do que digo, mas meu coração dói 
quando lhe vê, quando o corpo dela sorri para mim. 
 
2
M’bique? Sim é a Moça da minha vida.
Sabor de cacana. Sabor amargo, mas que faz bem à alma, 
cura-me de mim, aquela dor de ser. 
Sim com ela sou. Sou?
Mais do que um nome, 
mais do que uma palavra nascida da carne. 
Sou mais com o corpo dela sorrindo para mim. 
Através dos olhos dela, ah M’bique eu encontrava outros lugares,
milhares deles, gotejando a chuva que perdi de ter. 
Precisamente agora que o algodão também me é.
Atravessou-me outro pensamento enquanto M’bique 
me acaricia com as palavras da terra, 
sim aquelas que eu queria. Liberdade.
Liberdade é? É o que perguntas-me? É.
O meu gosto em falar uma língua que não existe. 
Gosto do violeta, que atropela meus olhos. 
Confundiste-te agora? Deixa, desperta aí 
o florir agudo do conhecimento. 
Percebe-se tudo, não entendendo nada. 

6
Enquanto te falo cresce uma lua redonda 
luminosa no ar. E outra lua sai-me pela boca. 
E outra lua pelos meus dedos. E 
morre para eu nascer. Minha mãe sou eu. 
É tudo o que eu queria ser. 
Montanha e mar na mesma cabaça 
por onde bebo o mundo.  
Ah mãe como te agradeço por me existires. 
Já viste como está agora o tempo lá fora? 
O céu está terrivelmente belo, vermelho redondo, as casas estão 
viradas do avesso. Serão casas? Ou serão palhotas? 
Serão palhotas as casas? O que terá vindo primeiro? 
Sei que já estás a movimentar a tua cabeça, 
e os teus olhos encolheram de tanta estupefacção. 
Mas é que o mundo é lá fora, 
a forma como vejo o mundo, profundamente dentro. 
E se te dissessem que o tempo não existe? 
E que nós estamos parados e estáticos.
 
8
Eu tenho uma ilha dentro de mim, navegando-me inteiro o todo, o tudo.
Oi ilha, dentro de mim!
A resina reside ali, inteira sobre a minha cabeça de zinco nos corpos tatuados de
madrugadas 
longas 
e violentas
Houve tempo em que andávamos todos de rastos eu mais meus cinco irmãos. 
Magros, tristes, violentos. Não existíamos. 
Os nervos esticados à procura de pão. E lutámos muito 
até nascermos, para existirmos. Lutámos 
com tudo que podíamos, bocas, mãos, pés, olhos, unhas, cabelos. 
O impossível e o impossível. Queríamos sair do ventre da mãe. 
E sofremos afundados na bolsa, erguíamos 
as mãos e pés em contracções violentas. 
O canal era estreito, apertado não era possível perman
muito mais tempo. Crescíamos e 
e precisávamos de espaço, de ar de ar de ar de ar…
Oi,  irmão dentro de mim!
Estás assim como eu, trancado dentro de uma gaiola
mais redonda que o mundo?

15
Desculpa, não sei se estarias preparado para receber 
o que sou. Mas eu sou precisamente essa barata 
que encontras vezes sem conta, na cozinha da tua casa 
bebendo o escuro. Ah essa sou eu, essa barata de pau preto, 
que te fala: Meu nome é Carol. Sou irmã dos irmãos 
do mesmo sangue, nasci contigo e comigo, estamos juntos, 
mais nosso futuro por vir. Estou tonta 
comendo dos meus próprios versos, 
exilada aqui neste buraquinho onde cai de tudo o pior. 
Sou uma boémia nas horas tortas. 
E a miséria é o luxo na minha vida. 
Agora olho-me no espelho, olho porque o mim 
ainda é uma incógnita do eu quando se parece 
com o mais simples da minha inexistência.
Olho-me de novo. Incrível, quase a vida 
se encerra no começo do arco carnudo dos meus lábios, 
ansiando o beijo, o mar no toque das patas. 
Mas como tenho medo da água, da espuma,
só me resta sonhar e tocar-me sem pressa,
na esperança de ouvir as ondas. 
Sentir na epiderme como é ter o muhipiti 
preso, electrocutado na minha garganta. 
Olho-me: estou-me comendo com os olhos. 
Devorando cada pergunta de mim - 
assim se devoram a rosas em princípio de primavera.
A mim, que, de tão pobre a vida que tiram, sai barata.

20
Olha para o V comigo. Estas a ver? 
É quase um buraco fundo. Um côncavo 
refúgio. Voltado para o céu.