quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

QUATRO ORELHAS DADA




A minha gargalhada do mês:
“A verdade é esta: sou gajo para me masturbar a olhar para as orelhas da Luiza Neto Jorge”.
‘E muito bem observado. O que a Luiza se riria, se ouvisse
De facto, entre o relâmpago (menor) e o resplendor (maior), as suas, foram sempre duas orelhas ao relento. Algo implantadas, mutantes: orelhas que em si eram brincos.
Como o implante de pélvis numa amiga minha.
A frase é do Henrique Fialho. Veja aqui. E encontrará outros motivos para sorrir e cúmplices.  
Eu, para o caso, i. é para o assanhado regateio entre o pequeno talo e os cinco irmãos metralha, sou um bocado mais bestial e prefiro estas, mais ásperas:
Embora menos atreitas ‘a verberação da palavra, noite não lhes falta, e baba.
Mas não desdenhem, este canito sabe de cor o Mahabaratha.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

POEMA SOBRE O DESASTRE DE LISBOA


Nunca pensei escrever este poema. Que Deus lhes perdoe:


O primeiro desastre de Lisboa fez rugir a córnea
e desenrolar no rio uma língua bífida
que soldou os escombros até ao Rossio.
O segundo desastre foi o poema de Voltaire.

No terceiro desastre, trinta e oito anos
após a polpa brava de Abril realizou-se:
a Primavera que veio, já se foi.
Entretanto, o país que nunca foi adulto

está a saque – apático, degenerado, seco,
como se a carcaça de Gregor Samsa
tivesse cristalizado a saudade na tristeza
de Pessoa, que acreditara até aqui

ser todo o mineral mais ao menos
planta. Mas, no Portugal actual,
cobre é cobre, mentira é mentira,
pobreza é zebra para Merkel.

E não sobrou réstia de quitina
ao sonho mais esmagado, não restou
uma gota de sangue à Mensagem.
Fora da braguilha, os impostos

impõem o terno que devemos ter no
ataúde, o sotaque predador do inimigo.
Vista de longe, e eis-me ébrio, Lisboa
lembra uma fábula que resiste à morte

dos derradeiros animais que nela
magicavam enredos humanos. E perdido,
de mim, do silêncio, de futuro e filhas,
ponho-me em pontas e danço as lágrimas.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

TRÊS LIVROS RECEBIDOS DE LISBOA

matta

Recebi de Lisboa, expedidos por mão gentil, alguns livros da Averno. Quem diremos nós que viva?, de Vítor Nogueira, Oráculos de Cabeceira, de Rui Pires Cabral, e Thaumatrope, de Alexandre Sarrazola. Como não sei ler sem uma caneta na mão, aqui deixo os primeiros contágios, nascidos das páginas brancas de cada um dos livros.


QUEM DIREMOS NÓS QUE VIVA?

Necessário se torna lembrar que debaixo de água
o tempo atraca com sérios danos para o seu casco.
Que milhares de pêndulos ficaram carecas de saber
que, submerso, não obstante as falinhas mansas,
o orgulhoso tiquetaque vale menos
que um zumbido no coração das medusas.

Oito pandas gigantes, acabadinhos de chegar
da China à Old Albion, foram recebidos com gaitas
de foles, vê-se no Euronews. Mais próximo,
um fiat desabrido passou o amarelo, galgou
os raides e precipitou-se num enlameado
Trancão, continua o sismógrafo.

Nada das expectativas e colapsos
anunciados supera hoje, em sugestão,
o verso onde imaginei milhões de relógios
a resvalarem dos seus pulsos para o fundo
dos oceanos, enquanto os ponteiros d’olhos
arregalados  se especializavam em pinturas
rupestres. Com que rouca voz, assentaram
tais cebolas no fundo, pestanejando
como sonhos temerosos de despertarem
miradouros vazados de futuro?

Há anos que luto para escrever o capítulo
sobre o corsário Bocage, o avô gaulês      
de Manuel Maria Barbosa, que veio a Lisboa
vender três caixas de relógios saqueadas
a um bergantim holandês, mas agora adivinhei
que o seu navio afundou no Mar da Palha
levando consigo a carga; decidindo-se
então o ex-compatriota de Zinedine  
Zidane, extenuado com o tempo
que perdera, a ficar em Lisboa.

Intuo agora como começar a narrativa,
os inúmeros relógios a despertarem no estômago
de safios, lampreias e robalos, daqueles de quatro
quilos que o meu pescava no Bico da Areia.
Fica o deserto mais repleto quando naufraga
um ponteiro ou pelo contrário vicejam
jardins entre os minutos e as horas,
é a minha única dúvida quanto ao estado
de alma daqueles mecanismos
incapazes de fingir que são eles mesmos.




THAUMATROPE

Arminda é o nome da escultórica macua
que, mastigando a chuimingue, aplica o abre-
-núncio às beers na tasca do beco fronteiro
ao Mercado Central, em Maputo.
Seria esta função menor, não fora dar-se
como bisneta bastarda de Gago Coutinho e de
se ouvir um hélice  ao fundo de tudo o que diz.

Neste momento, a sonsa Arminda abeira-se
da mesa do patrão, debicando no amendoim
que colhe da palma da mão, e responde, dolente
e descarada, quando este põe em dúvida
uma conta que ela pôs na caixa,:
esse white aí, viu tudo!”, passando-me
para o regaço cinco kg de papaia roubada.

Afasta-se a Arminda, perene e pernilonga,
sobre duas agulhas de amoníaco e alfazema.
Estás-me a dever uma, garota, assobio,
ciente de que a dívida será paga sem burburinho,
de que a vida – um prurido no ponto mais
sensível de certas espeluncas - é menos justa
mas mais ambivalente que a literatura.




ORÁCULOS DE CABECEIRA

O arrabalde tem isto: é um verão
que não acaba.
Dão nisto os centros:
carentes de resina, do cheiro a mar,
surdos ao ópus n.3 para vento e jacarandá,
ao relapso movimento da alegria,
contraem úlceras
que desditosamente se disfarçam em paus de incenso,
em certos livros tardios e vinhos mais caros
e lacónicos. O vento
é todos os ventos, escrevia Hugo,
mentindo a si mesmo, em Guernsey.
O arrabalde tem isto:
tatuado na retina é quase tudo,
pois à míngua de uma ideia de futuro
só o presente nele s’excelsa.
Ler oráculos de cabeceira,
por exemplo, enquanto lá fora,
sobre a pele do Índico,
num flamingo, bifurca a sombra.

sábado, 3 de dezembro de 2011

EMPRESTA-ME O SEU NOME? MARIA LEONARDO CABRITA


É a minha filha.
Tem um nome que é uma gema perfeita: Maria Leonardo Cabrita.
Veja-se da esquerda para a direita, de baixo para cima, em diagonal. Experimente-se abanar, é um nome indivisível, indelegável. Até merecedor de um adjectivo antique: é um nome rigorosamente imarcescível, que empenaria de alegria um serafim.
Está mais magrinha.
Mas tem muito humor, a sacrista, e uma inteligência vivíssima.
Há dois meses que, em silêncio, admiro esta sequência sozinho, mas agora não aguento mais, tenho de mostrar `as pessoas esta articulação algo floral de UM BRILHO que desponta com cabeça e membros do seu próprio segredo e não esconde o prazer de rir-se disso.
Não sei dizer melhor: todo o meu sangue agradece saber que ela respira como um pássaro que desfruta voar e rir ao mesmo tempo.
Quem me dera poder abraçá-la.  
Sei-a contudo tão longe que me sinto “um faquir falhado ou como um marinheiro prestes a ser atirado ao mar cosido `a sua própria rede”.
Fica apresentada a minha artista favorita.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

QUANTOS HIPOPÓTAMOS CABEM DENTRO DE UM RÉGULO?

os malefícios da idolatria




Retomei a minha colaboração com o semanário Savana. Aqui deixo a primeira crónica, publicada ontem:

Se bem me lembro, foi em 2007 que a STV fez uma reportagem sobre a mulher que supostamente teria dado `a luz um bule e três chávenas de chá. Durante essa semana, nas aulas da universidade, tive que debater as dúvidas dos alunos sobre se tal seria possível, porque na verdade a metade deles queria crer nessa possibilidade.
A mim o que me espantava era a falta de ambição da parturiente. Se se pode ser mãe de um serviço inteiro da Vista Alegre, por quê ficar por um bule e três chávenas? E parecia-me até um óptimo princípio para uma economia no casamento, as nubentes primeiro pariam o recheio da casa, mobílias, candelabros, carpetes, panelas e tachos, depois a própria casa, e só depois casariam.
Há coisas que não são do domínio das antinomias, de ser-se racionalista ou crédulo, mas simplesmente da ordem da sensatez e do conhecimento das coisas naturais: o adn humano e o “adn” da cerâmica não comportam qualquer tipo de coincidência ou de transitividade.
Não obstante, suponhamos que sim – também para os gregos do tempo do Aristóteles as mulheres podiam parir qualquer coisa, ostras ou ouriços, pois nunca se sabia que partidas podiam os deuses pregar – que uma mulher podia parir um bule. Onde foi registado? Como se chama a criatura? E como é que a STV abandonou um caso destes, não acompanhando a educação e infância do bule, vendendo para as televisões de fora um exclusivo desta monta? Que falta de inteligência comercial.
Agora há semanas que não ouço falar senão do régulo encarnado no hipopótamo. E que ouço quadros técnicos deste país porem as mãos no fogo em como é verdade… pois se o hipopótamo mudou de regime alimentar e agora come o picapau que fazia as delícias do régulo e encharca-se com o bom vinhito, pelo qual até o Santo Agostinho se pelava.
E eis-me na mesma encruzilhada: se comento, sou um racionalista desatado, se não comento sinto-me a observar os efeitos perniciosos uma alucinação colectiva.
Acontece, por outro lado, que literalmente acredito em tudo. Que a alminha do régulo transborde para o quadrúpede é-me pacifico. Mas o facto de acreditar em tudo, e esta é a diferença, não quer dizer que dê o mesmo valor a tudo. Uma coisa ser plausível não quer dizer que seja necessária. This is the question.
Eu acredito piamente que o facto do régulo ter encarnado no hipopótamo constitui uma demonstração de vanidade total dos poderes sobrenaturais do régulo. Na cadeia evolutiva dos seres, para citar Pascal, estando o homem encravado entre a besta e o anjo (para dar o nome de uma figura ao espírito), qual a vantagem de voltar em hipopótamo?
É um retrocesso. Pode até ser verdade mas é absolutamente improdutivo. Vejam lá o extremo poder que alguém exibe voltando em hipopótamo! Não seria preferível possuir uma criança e voltar como mestre-escola, o maior da região e arredores? Voltar em hipopótamo parece-me o mais disparatado dispêndio de energias. Ainda por cima pervertendo a natureza sã do hipopótamo, tornando-o alcoólico.
E o pior é que vejo a mesma absoluta inépcia comercial por parte da TVM. Como é que se tem um assunto desta natureza entre mãos e não se consegue fazer uma série de 18 episódios com ele, vendendo-o em todos os canais internacionais? Será que, na verdade, eles próprios não acreditam nas suas tradições? Há, em tanta improdutividade, Felizardo, qualquer coisa que me escapa.
Repito, eu acredito que o régulo tenha voltado em hipopótamo. Porém não vejo a utilidade do fenómeno.  Nem para a comunidade, nem para o hipopótamo. Ou antes, para este até discirno um sinal positivo: magnificado em vinho, na próxima encarnação ressuscitará em régulo.
O que eu consegui enxergar, na reportagem, foi o aproveitamento político. O responsável provincial que lá foi prestar homenagem ao hipopótamo-régulo, confirmou a comunidade na identidade das suas tradições e deixou-a contentinha e refém do seu secular obscurantismo. E, aliviem-se as almas beatas, o dinheirinho gasto em vinho não foi desviado em sandálias para as crianças.  

INÚTIL COMO A CHUVA: RENÉ GUY CADOU



René Guy Cadou (1920-1951) foi um excelente poeta francês, ceifado por um cancro na rampa ascendente da carreira. Aqui ficam alguns canteiros, traduzidos por mim, tomados de Usage Interne.  

Aceitaria de bom grado esta crítica sobre a poesia: a poesia é inútil como a chuva.

Há poetas que são como esses macacos que têm prazer em sacudir árvore para lhe fazer cair os frutos, imitando assim o gesto sagrado do homem.

As palavras são como a olaria de renome, extremamente porosa, donde a água se escapa misteriosamente. Tome-se uma palavra e revista-se-lha da matéria inflamável da alma.

O poeta não deve fazer esquecer o homem, mas o homem o poeta.

Alguns poetas não fazem a sua obra senão através dos vidros. Natural que a sua obra nos apareça muitas vezes maculada de caganitas de moscas.

A inspiração é a contra-inteligência do poeta, o agente secreto.

Come a tua mão. Guarda a outra para amanhã.

Escreve-se primeiro para nos conhecermos, depois para nos reconhecermos, enfim para nos desculparmos.

Uma poesia que perde a sua virgindade: é o que está certo Uma poesia que a reencontra: é ainda melhor.

Alguns poetas não vêem na poesia senão um fait-divers, ou uma beleza puramente anedótica. É colocar-se exactamente na situação do ladrãozeco de molas de roupa que marche, as mãos algemadas, entre dois polícias.

Preferirei sempre uma destruição de génio a uma construção comedida.

Ele há sempre um divórcio entre a poesia do momento e o público do momento.

Toda a poesia que corre de raiz lança-se no mar, tende-se a juntar-se ao universal.

Quanto mais o poeta se aproximar da terra mais ele será aéreo, mais ele tenderá a desconfiar da fadiga dos seus músculos.

Uma poesia que não fizer apelo senão à meditação arrisca-se, ao fim de uns anos a patinar no vazio, pois todas as grandes batalhas foram sempre lutas de movimento.

Eu não sou militar de carreira. Eu não me bato por nenhum soldo, por nenhuma patente, por nenhuma pátria.  Nem mesmo pela poesia: eu defendo a minha pele.

O tempo que me é dado, que o amor o prolongue.