sexta-feira, 29 de julho de 2011

MILTON LOVES HILLARY CLINTON



Urge conseguir uma boa edição do Milton.
Neste momento o Milton cochila num banquinho,
ao lado do armário das toalhas na casa de banho,
há um mês que ninguém o tira de lá.
Um tijolinho encadernado à antiga.
Ali permanece, supostamente, para matar o tédio
das horas mortas. Mas apesar da boa-vontade
que nos acode nesse recanto de ensimesmamento
desfraldado não consigo avançar uma página
inteira por dia, é pedregoso demais,
parece-me mais solene que um lutador de sumô
a pôr os lábios em bico para declamar um haiku.  
A única edição que tenho é a esforçada tradução
do António Leitão de, 38, e se o Milton
é isto, oh my god, o melhor é esquecê-lo:

«Exasperar nos cumpre um deus ovante
Que dos furores seus largando as rédeas,
Nossa existência rápida termine,
Para nós sendo a morte o único anélo.
Que triste anélo! Quem, mesmo pungido
De cruas aflições pelo árduo acúleo
A vida intelectual perder deseja
E os pensamentos que sublimes voam
Por toda a vastidão da eternidade», pág. 83

Que triste anelo, um verdadeiro cachucho,
ó Leitão! Nunca me calhou comprar o livro
numa edição inglesa ou em spanish
ou franciu e agora, em Maputo,
depois desta lixa para ferro nas retinas,
falta-me a gana para encomendar
o livro numa livraria sul-africana.
Apesar das inesquecíveis páginas de Borges
sobre Milton, dos cantos directos à baliza
marcados por Pessoa (a bola levava efeito)
enquanto magicava no Paraíso Perdido,
sinto-me como o distraído
a quem o pescador passou agulhas, um novelo
de fio de nylon, e a quem sobressalta
a pergunta: remendo qual dos buracos?
Ó Leitão, acho que vou entregar esta edição
à embaixada americana em Maputo,
com uma dedicatória para Hillary Clinton.
Se não percebes a intenção, topas a rima?




QUE HISTÓRIAS CONTA O OURIÇO À BALEIA?

miró

uma palestra dada em Maputo, em 2008:
1


Na Índia, Deus pode criar uma pedra que lhe seja impossível deslocar, e sonhar um sonho do qual não desperte. O que seria uma impossibilidade lógica para o pensamento ocidental.
Na filosofia, chama-se a este impasse lógico uma aporia.
Mas não existem aporias na literatura. A Rainha de Copas de Alice no País das Maravilhas, diante da observação incrédula de Alice a uma coisa de que ela se havia gabado de ter feito, responde: “Achas impossível? Eu concebo pelo menos duas ou três coisas impossíveis antes do pequeno-almoço!”.
O que nos dá uma esperança. “Quem não faria melhor de si mesmo?”, interrogava o poeta Henri Michaux, e não vejo mal em crer que, modestamente, podemos melhorar. Em quê?
Quando pensamos que Shakespeare utiliza na sua obra 25 000 palavras, que Camilo Castelo Branco chegou às 18 000, e que nós, normalmente, não passamos de 3000 ou 4000, vemos como temos muito a melhorar. Mas serve-nos para quê, melhorar a nossa competência lexical e linguística? Serve para ampliar a nossa liberdade e dilatar a nossa consciência do mundo, pois, como dizia Wittgenstein, os limites da minha linguagem são também os limites do meu mundo e os limites da minha realidade.
No filme Bird, de Clint Eastwood, sobre o saxofonista de jazz Charlie Parker, há uma cena em que é referido de modo depreciativo o início do rock’n roll. Charlie calcorreia uma rua onde dantes só havia clubes de jazz e onde naquele momento unicamente se ouve a batida do rock’n roll. O saxofonista resolve entrar num dos clubes, e vê a animação dos jovens, que dançam e no palco descobre um dos seus antigos companheiros numa banda. Fica um bocado a ouvir e o que ouve enerva-o, e então, num impulso, sobe ao palco e tira o saxofone ao amigo. Foge com ele pelos bastidores e segue-se a perseguição de Charlie pela multidão, pelo músico amigo e pela polícia. Até que o apanham num beco. E então Charlie devolve ordeiramente o saxofone e explica-se ao amigo: “desculpa lá, eu só queria ver se o teu saxofone estava avariado, pois só te ouvia tocar duas notas”.
No instrumento que é a linguagem passa-se o mesmo, se não tocamos com todos os pistões a expressão fica coxa e a nossa compreensão do mundo que nos rodeia também, posto persistirem zonas penumbrosas que não iluminámos.
Antes dos hipermercados, por exemplo, não sabíamos que havia quatrocentas qualidades de queijos no mundo, e o nosso sentido do paladar fica decididamente muito empobrecido se a nossa biografia gustativa se resumir ao queijo Flamengo. Quem só conhece o Flamengo julga que a música só tem um instrumento: as congas. E jura que não existe o piano, ou o violino.
Antes da descoberta dos microscópios nós diríamos, ‘o mundo dos átomos não nos diz respeito!’. Contudo, pensem, na cabeça de um alfinete cabem 60 milhões de átomos e basta a fissão, a divisão de um deles, por acção do plutónio, basta que um deles se parta como a casca de um ovo para num efeito dominó, se desencadear o processo de uma explosão nuclear. No perímetro de uma cabeça de alfinete habitam 60 milhões de hipóteses de arrasar uma cidade! Uma porcaria tão insignificante, invisível, um átomo nem tem tamanho para um tipo se assoar, um verdadeiro zero à esquerda - e acaba com as nossas peneiras em três tempos. Se até a porcaria de um átomo se pode emaranhar no nosso destino, como renunciar a reflectir no que uma relação mal resolvida com a linguagem pode fazer da nossa vida?
E a coisa não fica por aqui. O poeta basco Bernardo Atxaga narra num poema a história de um ouriço que saiu do bosque e se pôs a atravessar a auto-estrada. Na sua língua, contando os verbos, as palavras não passam de 27. E o ouriço demora-se pachorrento no asfalto a pensar nas 27 palavras da sua língua: inverno, ouriço, águia, rã, caracol, minhoca, insecto, rio, fome, o sol está porreiro, etc. Pela estrada aproxima-se uma carlinga que ele não reconhece porque na sua língua não existe qualquer vocábulo para nomear aquela coisa monstruosa que se aproxima. Fica quieto a observar. E no momento seguinte é esborrachado porque a sua língua não compreendia a palavra “camião”.
Capacitem-se: nós todos somos este ouriço e o nosso trabalho consiste em alargar tanto a consciência do mundo como a sua nomeação.
A consciência era, para Fernando Pessoa, “a escada sem degraus”. Em cada patamar da escada ilumina-se um novo tipo de percepção, dado que ver uma paisagem do cimo da montanha altera a visão que se tem do vale.
Nessa “escada sem degraus” da consciência sucedem-se os andares. Demos a cada andar o nome de “um limiar”. Tomemos agora como metáfora da consciência o hotel Sheraton, em Lisboa: olhando a volumetria daquele edifício não cessamos de imaginar que o seu interior abrigará muitos graus distintos de acolhimento e de inteligibilidade, consoante se sucedem os limiares.
Coexistem naqueles 33 andares muitos tipos de níveis de consciência e de níveis de realidade. Todavia, a co-existência de um leque de consciências e perspectivas não as supõe equivalentes nem autoriza a irresponsabilidade com que hoje se opina que tudo é igual a tudo.
Tomemos uma pequena semente e uma cadeira. Uma cadeira decompõe-se em partes, uma semente é indivisível, e ao contrário da perna da cadeira - que serve para montar naquela cadeira, ou para espantar um ladrão, ou para se converter em dois mil palitos, e nada mais - a semente contém em gérmen a árvore. Outra árvore. E na árvore os troncos de cima estão expostos a outro tipo de ventos. Melhor: ser semente de jacarandá implica um conhecimento dos ventos ou do peso dos ninhos muito diferente do que aquele que está inscrito na semente de imbondeiro.
Na Índia, que desenvolveu um pensamento que, ao contrário do ocidental, repousa não sobre o objecto observado mas sobre o espírito que observa, a consciência é uma variável susceptível de se contrair ou de se expandir. A consciência é um balão, que pode mirrar ou encher-se magnificamente.
Podemos aceitar agora que durante a subida das escadas do 33, na subida de um para outro patamar do 33, de um para outro limiar, ocorra uma expansão da consciência e a sua conversão semiótica correspondente. A conversão semiótica designa a operação que permite a “passagem de mudança de qualidade sígnica, decorrente do cruzamento e inversão das funções situadas no alto e no baixo de um determinado fenómeno, em decorrência da mudança de dominante no contexto”.
Diante de uma frase destas fica-se logo sem fôlego, mais vale ir jogar bilhar. Que raio significa uma frase tão exdrúxula? Uma conversão semiótica, i. é, uma mutação do nosso olhar sobre o que nos rodeia, assemelha-se ao processo de virar uma luva para fora: o que estava dentro exteriorizou-se, o que desconhecíamos brotou, o lado das coisas que não víamos expôs-se. Verifica-se então uma dobra da consciência que amplia o mapa daquilo que conseguimos captar da realidade.
É o que acontece no seguinte verso do argentino Roberto Juarroz: “como uma árvore tombada do fruto”. Que imagem estapafúrdia - pode lá uma árvore tombar do fruto? Mas se pensarmos que um mau filho, o fruto, pode demolir uma familia respeitável, a árvore, verificamos que afinal isso acontece todos os dias. Se pensarmos que o insecto que se vai alimentar do fruto ainda na árvore é portador de um fungo que irá fazer adoecer essa árvore, vemos mais uma vez como a inversão que a metáfora produziu é afinal mais frequente do que julgávamos. Nós é que nos habituámos a pensar quadrado, de um único ângulo de visão. A poesia ajuda-nos a detectar outros ângulos, faz-nos realizar a conversão semiótica.
É como se um cego aprendesse a descer as escadas do 33 a pé-coxinho. Outra coisa impossível - sem tropeçar, e partir uma vértebra ou magoar um túbaro na queda? Sim, é possível quando a escada cresce à medida do passo do cego.
No século XVIII, o naturalista Lineu acreditava que as rochas, as montanhas, e a terra no seu todo cresciam à medida que se descobriam os aparelhos de medida. A régua, o telescópio, o teodolito – eis alguns aparelhos de medida. Por exemplo: para o Lineu, o camponês que viva numa quintinha e se debata com a pobreza tem vantagem em comprar uns binóculos pois de cada vez que espreita nas lentes o seu terreno ganha o perímetro de uma enorme propriedade. Brinco, mas para o aparelho de medida que é a nossa consciência convém um passeio frequente às veredas da poesia, que actua nela como a lente que amplia a escala do real. Ampliar os perímetros, eis um atributo da poesia. E isso leva-nos à segunda parte da nossa comunicação.


2

Vou ler-vos o poema de um grego, Yannis Ritsos, que se chama O Corpo do Vento:
Eu vi-o, em corpo inteiro, o vento, em corpo inteiro – diz –
deu-me bofetadas na cara, deu-me socos
no peito e nas pernas; os seus joelhos
bateram nos meus joelhos; pisou-me
os dedos dos pés; - vi-o, digo-vos eu,
 aqui, corpo a corpo, ambos de pé. Agora,
tenho na boca uma enorme solidão
e nove folhas carnudas à volta do pescoço.
Que qualidade nos fascinam no poema? A sua claridade, embora o poema inverta as perspectivas, o seu suspense, pois só no fim percebemos que fala uma árvore, e a plausibilidade – acreditamos que é uma árvore quem fala.
Desponta aqui uma das maiores aventuras da poesia, bem caracterizada pelo francês Christian Bobin: “Nomear o que se ama, é amar superlativamente, e um suplemento do amor, e é o que eu tento readquirir hoje. Mas isso não chega: sonho nomear a rosa com a língua que é sua e não apenas com os nomes correntes.”
Vemos aqui como, pelo menos enquanto projecto, a poesia tende a abrir o espaço do indizível e a activar uma nova experiência na realidade que o poema inaugura. Do que decorre que a poesia seja muito mais que uma “receita verbal”, um amontoado de versos ocasionais aprimorados pelo tricot que resulta de uma tradição de gosto induzida e caucionada numa prosódia, numa técnica discursiva.
A poesia, pelo contrário, faz-se de experiências que têm a sua carne no poema e que nos imbricam, alterando o nosso corpo e o nosso espírito.
A quem duvidar do poder da palavra refira-se o que acontece no decorrer de uma litania religiosa, onde, por indução da crença na palavra, o nosso cérebro segrega endorfinas, que têm uma função psico-biológica tranquilizante. Eis por que se enlouquece de palavras, através das palavras, ninguém enlouquece de comer bacalhau, ou por estar triste ou por ser abandonado, ou por ir à pesca com um urso, o delírio da loucura é causado pelas alterações químicas com que um fluxo ininterrupto de palavras intencionadas abala o sistema neuronal.
Espanta-me sempre que as pessoas limitem a nossa relação com a linguagem à sua função pragmática e a julguem anódina, transparente. As palavras não são inocentes de todo e uma das funções mais nobres da poesia é curá-las. O argentino Robert Juarroz di-lo esplendidamente quando afirma que a poesia deve «desbaptizar o mundo/ sacrificar o nome das coisas/ para ganhar a sua presença».
Os índios guarani no Brasil tinham um método imbatível para curar as palavras. O corpo semântico da língua guarani mudava sempre que alguém morria. Ou seja, falecendo alguém, todos os objectos que existiam nessa casa tinham de mudar de nome, salvaguardando o risco dos vocábulos ficarem contaminadas pela morte. Balde passava a designar Deus, e o vocábulo Deus aplicava-se a arco, enquanto a rapariga mudava nominalmente em rapaz. Caricaturo, mas era uma língua dunar, que colocava muitos problemas aos padres jesuítas que lá foram tentar doutriná-los, dado que como se queixava um em carta para o Vaticano, é difícil persuadir alguém sobre a superioridade dos nossos argumentos se em dois meses o jaguar, o verdadeiro símbolo do temor para os Guarani, muda 7 vezes de termo. Da mesma forma que a linguagem entre os Guarani nunca saía de um patamar adâmico, inaugural, na poesia a palavra procura a sua infância.
Pois deixem-me dizer-vos um segredo: a juventude encontra-se, não se tem.


3

O que nos leva ao terceiro ponto da nossa comunicação.
Disse o escritor Vargas Llosa, numa entrevista:
A ficção literária não pode competir com a do cinema ou TV. As ilusões forjadas pela palavra exigem participação activa do leitor, algum esforço de imaginação e às vezes, no caso da literatura moderna, complexas operações da memória, associação e criação – algo de que os espectadores são poupados pelas imagens.
O que o peruano diz para o romance vale a dobrar para a poesia. Dantes o poeta escrevia metade do poema e o leitor com a sua interpretação “escrevia” a outra metade. Com a nossa imersão no mundo das imagens o jovem leitor, ou o mais maduro mas preguiçoso, encontraram na aparente evidência das imagens o melhor dos álibis. Nem sequer avaliam que a velha máxima de que uma imagem vale por mil palavras só era adequada antes da era dos “efeitos especiais” e das imagens digitais, voltando hoje a fiabilidade a comer maçãs à ombreira da palava.
Resulta deste estado de coisas um divórcio constatável entre o leitor e a poesia, na sua tradição mais genuína e criativa. O leitor só absorve o que é mais fácil, consumível e prescinde da sua participação no poema, do encontro que pode nascer desse adentrar-se no verbo. E defensivamente declara-se, ‘este poeta é hermético, não se entende nada do poema…Deixemos esta chumbada para os profissionais’.
Já dos versos do poeta renascentista espanhol Garcilaso de la Vega se dizia serem tão obscuros que havia que entrar neles com archotes, para entendê-los.
Na verdade, a poesia aponta o seu binóculo a um conteúdo comum para pesquisar uma nova escala e falar do desconhecido. Tentar dar uma forma inteligível ao desconhecido não terá naturalmente tradução simultânea para a linguagem coloquial. Aliás, apenas a comunicação publicitária é que faz uso de uma linguagem já testada. O que é que nos dá a comunicação publicitária? Flamengo, com embrulhos extraordinários, mas Flamengo.
Outra dificuldade se apresenta. A poesia do século XX, realiza uma segunda operação que cansa o leitor: o poema auto-reflecte sobre os seus processos criativos e a linguagem. No entanto, repare-se: o prédio do 33 não se ergueu sem andaimes. De igual modo, o poema não comunica sem montar os seus andaimes, a estratégia de como comunicar: daí que todos os poemas, apesar de veicularem um conteúdo, só respirem pela relação que estabelecem connosco, tentativamente.
Poemas que nos comuniquem a emoção causada pela morte de um filho, a beleza da namorada ou o desgaste do tempo são aos milhares, raros são os que nos transmitem também essa nova que é a experiência do poema e nos projectam como leitores para um outro lugar onde pressentimos, pela palpitação do verbo, uma superação do tempo e da contingência que provocou o poema.
A arte nasce da contingência (das coisas que acontecem à nossa volta, das alegrias, sarilhos, dramas e situações em que a vida nos atola) mas opera uma sublimação e não uma mera transcrição. O poeta surrealista Paul Eluard revela-nos o que é a sublimiçao ao definir o mecanismo do poeta deste modo: «o poeta quer falar da mulher que ama e fala de pássaros, quer falar da guerra: fala de amor, tão pouco conhece o poeta o título do seu poema senão após tê-lo escrito...».
Deduz-se obrigatoriamente daqui que não se fazem poemas sobre o sentimento, a guerra, a paz, a liberdade, as escolhas sexuais, mas com o sentimento, a guerra, a paz, a liberdade, o amor ou o ódio. Esses fluxos emocionais desembocam no poema como um feixe de energias e não como conteúdos em moldes pré-formatados. Aliás, o poeta distingue-se – diz o filósofo Rafael Argullol, e nós concordamos - por ser, não exactamente o homem mais sensível, mas antes aquele que atraído pela voragem do acontecimento consegue distanciar-se até poder articular em palavras que lhe sejam próprias.
Voltemos agora ao problema sobre a dificuldade de leitura dos poemas, ao seu hermetismo e ininteligibilidade. Talvez o problema radique noutro lado. Esperimentemos ler um trecho de um poema sofrível de José Miguel Silva, poeta de quem habitualmente até gosto. O poema chama-se Feios, Porcos e Maus, e diz assim:” Compram aos catorze a primeira gravata/ com as cores do partido que melhor os veste./ Aos quinte fazem por dar nas vistas no congresso/ das juventudes, seguem na caravana das bases,/ aclamam ou apupam segundo o mandato das chefias (...) Aos trinta e dois e bem o momento de começar/ a integrar as listas, de preferencia em lugar elegivel,/ pondo sempre a vileza em primeiro lugar. A partir/ do parlamento tudo pode acontecer: director/ da impresa municipal, coordenador, assessor de (….) No final, para os mais afortunados, pode haver nome de rua,/ com ou sem estátua, e flores, fanfarras de formol». Assim que acabamos a leitura, podemos voltar a cabeça no travesseiro e adormecer, absolutamente indiferentes à sorte do poema, que verteu o seu conteúdo sem estabelecer connosco uma relação. O poema deu-nos a sua mensagem, mas como num comunicado, no momento seguinte está esquecido. O poema não passa de uma “coisidade” exaltada.
Se, pelo contrário, lemos este trecho de Herberto Helder (que também tem poemas menos conseguidos): «Minha cabeça estremece com todo o esquecimento./ Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. / Falo, penso./ Sonho sobre os tremendos ossos dos pés./ É sempre outra coisa, uma/ só coisa coberta de nomes./ E a morte passa de boca em boca/ com a leve saliva,/ com o terror que há sempre/ no fundo informulado de uma vida.» somos sensibilizados por uma significação radiosa, mas dupla, que nos escapa à primeira e obriga a reflectir e a passear com o poema nos escaninhos mais arejados do cérebro até conseguirmos que o tempo nos dê a resposta a cada uma das metáforas que nos intrigam no poema.
A inapreensão ou a incompletude da nossa leitura vai perfazendo um trajecto, onde nós e o poema fazemos «um», no perpétuo vaivém de uma relação. E como a nossa inteligência sofre da ilusão entranhada de que temos de ver «tudo claro» voltamos ao poema que nos intriga várias vezes, dando conta de que em cada leitura obtemos uma resposta diferente para o mesmo. E então subimos várias vezes as escadas do 33 só com este poema a jogar xadrez conosco no nosso íntimo, e de cada vez que tornamos a descer as escadas a configuração fisica das escadas está diferente porque o poema, com as inúmeras perguntas que nos colocou, nos transformou, provocando uma mutação, a tal conversão semiótica.
O poema absorve-nos, transforma-nos, vai incubando em nós que tudo é outra coisa para lá das aparências e em cada limiar abriu novas janelas. A mesma janela que se abre quando dançamos e não somos mais nós que dançamos, e a dança que dança em nós, ou a mesma janela que se abre quando tocamos piano, e damos conta de que não somos mais nós ou as nossas mãos que tocam, mas é a música que se serve das nossas mãos para acontecer. Por muito que nos custe, tanto a beleza como a arte ou o amor acontecem mais quando o “eu” está ausente. Agora para isso precisamos de estarmos desnudos, e e necessário estarmos implicados na relação – na que, por exemplo, o poema estabelece connosco. Temos de participar.
Julgo ser nesta diferença que tudo se joga, não no facto do poema ser acessível ou não, simples ou complicado. Um poema que não altere a nossa percepção do mundo, do corpo, do tempo e dos outros, que não incuba em nós, serve para quê – para além de servir a vaidade do seu autor? O que é complexo não pode deixar de ser complexo – e para visitarmos esses “novos mundos” apenas precisamos decidir se queremos ser leitores exigentes, que admitem a longa duração, ou voláteis frequentadores do shooping, se queremos ser velhos de espírito vivo e gaiteiro ou jovens que o tempo gastou como as borrachas.
Tudo depende de exercitarmos ou não os músculos da imaginação no espaldar da escuta e da interpretação. Tendo, embora, bem presente que interpretar um texto não é esgotar-lhe um sentido mas sim, pelo contrário, apreciar nele, o plural de que está feito, como jurava o velhinho Roland Barthes. Aquilo que as imagens já não nos oferecem. E para tal precisamos de voltar a ser leitores participativos, precisamos dessa viagem.
Agora, como lembrava o filósofo Wittgenstein, a experiência é intransmissível - será possível transmitir uma conversa, mas não o sarampo, por telefone. Daí que as viagens da literatura sejam também tão ricas.
E para acabar vou contar-vos um sonho que tive e que me colocava como inquilino do 31° andar do 33. Eu era aquele cego do pé-coxinho e estava na sala a ver a televisão com os meus doze filhos, à africana. Levantei-me, cansado da algazarra das crianças e fui à varanda fumar um charuto e divisar a linha da costa de Madagáscar. E veio a minha filha mais nova, uma cachopa de 4 anos e perguntou-me: pai, lembras-te daquele ouriço que queria atravessar a auto-estrada? Com 27 palavras que histórias é que o ouriço conta à baleia. Não a quis desanimar e dizer-lhe que com uma pauta tão reduzida as histórias não podem ser muitas e sosseguei-a: Filha, estamos no 31° andar. O pai vai dormir, sonhar que está no 33° andar, e aí há-de ser-me dada uma resposta; amanhã digo-te. E peguei em mim ao colo e fui para o quarto dormir. E isso que vos recomendo: o sonho de alargar com as escalas da poesia as fronteiras da vossa consciência.
1


quarta-feira, 27 de julho de 2011

VERGONHAS COM ROSTO

Porque é que eu aqui só vejo rostos?



Recebi por mail este estranho convite:
«Prezados Senhores,
O Conselho da Juventude da Cidade de Maputo (CJCM) tem a honra de convidar V. Excia para participar na "Marcha Sem Rosto"a a ter lugar no dia 29 de Julho, Sexta-feira, a partir da 8:30h, com o ponto de partida na Praça da Paz, perto do Shoprite e término na Embaixada da Líbia.

O objectivo da marcha é apelar para paz na Líbia, focalizando o povo líbio.
 Cordialmente, »
E reflicto: uma «Marcha Sem Rosto» designa o quê?
Uma manifestação não é uma coisa assertativa, em que precisamente por causa de uma causa se empresta o rosto, o nosso, a voz, a nossa?
É em nome do quê que se efectua esta marcha? O «povo líbio» é demasiado lato, uma entidade absolutamente abstracta.
Se nos ativermos à tradição autocrática da Líbia, até o Kadhafi é uma emanação do povo.
Realiza-se a marcha contra o homem que declara que se os rebeldes entrarem na capital ele «suicida» a cidade? Ou é uma manifestação de apoio ao homem que, em nome da sua tradição autoritária, acha preferível arrasar a cidade (com o tal povo incluído) a retirar-se? (Ainda que ele tivesse razão, como se arroga ao direito, em vez de nobremente se retirar capitalizando politicamente o efeito do acolhimento internacional do seu gesto?)
Não se percebe ao que somos convocados, o objecto da marcha, no prolongamento coerente aliás do anonimato que a convocatória reclama.
O que nos coloca diante de outra contradição: se a marcha está manchada pelo anonimato serve a quem, na causa que pretenda a servir? É igualmente uma causa sem rosto?
Se for uma marcha de apoio ao actual regime líbio fica a mesma marcada pela insubstância, pois como pode apoiar firmemente o que não dá a cara? Se pelo contrário se trata duma manifestação de repúdio ao actual regime líbio e se pretende com tal designação assegurar que as pessoas não venham a sofrer represálias por causa da sua opinião política, padece a mesma de irrelevância, sendo sabido que a) o anonimato é hoje uma lotaria `as mãos dos fotógrafos, b) as massas não pensam, só os indivíduos.
Qualquer que seja o prisma que se tome, num momento em que o supracitado povo líbio já deve ter todo abandonado qualquer réstia de neutralidade no conflito, não compreendemos que pode manifestar-se nesta manifestação?
Será uma coisa só de Maputo ou será um evento concertado com outros países africanos, num posicionamento comum? E a ser assim, que definição de princípios pode trazer uma marcha sem rosto? Neste caso porque não convocar os Espíritos, deixando as pessoas em paz? Nunca compreenderei certos meandros da política e os seus simulacros.
Resolvo ir espreitar na net, a ver se arranjo mais informação. E então descubro isto:
«O Conselho Nacional da Juventude (CNJ) a nível da cidade de Maputo promove, próximo dia 29 do mês em curso, uma marcha de solidariedade para com o povo líbio, em virtude dos ataques da NATO de que tem sido alvo. O acto vai decorrer sob o lema “Marcha sem rosto: juventude moçambicana pela paz na Líbia”.
Segundo uma nota de imprensa do Conselho da Juventude da Cidade de Maputo (CJCM), o drama vivido pela população líbia não deixa ninguém indiferente, daí ser neste âmbito que o CJCM decidiu manifestar em público a sua solidariedade para com os milhares de inocentes que estão a ser vítimas do flagelo da guerra.»
O que sublinhei esclarece o que ficou omitido. Afinal a Marcha sem Rosto, tem um Rosto: a oficial, do governo. O que foi singelamente omitido do convite.
E convidam-se as pessoas para que de boa vontade elas possam integrar-se numa manifestação onde perderão, de facto, a face, pois a meio do acontecimento descobrem que na verdade foram manipuladas e estão a apoiar o coronel Kafhafi.
E afinal o povo é só aquele que não deseja o afastamento do ditador – ainda que não sejam muitos, a minoria, ao que parece. Já quem está contra o poder já não é povo. Pelo menos em África.
Que triste papel o destes jovens demagogos com procedimento de velhos: focalizando o povo líbio, desagradeço! São estes jovens que se tornam Malemas corruptos!

“Sería feliz si yo supiera cómo”/ Rosario Castellanos



Rosario Castellanos (1925 – 1974) era uma magnífica poeta e embaixadora mexicana que um dia em Israel ao ir mudar uma lâmpada ficou electrocutada. Aqui deixo alguns poemas que traduzi para a excelente revista Magma (a nº2), dirigida pelo Carlos Alberto Machado e a Sara Santos, no Pico/Açores, e que infelizmente nunca teve a distribuição que merecia.


ORIGEM

Sobre o cadáver de uma mulher: assim cresço.
Enroscam-se nos seus ossos as minhas raízes
e do seu coração desfigurado
emerge um talo, duro e natural.
Do féretro de um menino não nascido:
do seu ventre revolvido antes da colheita
levanto-me tenaz, definitiva,
brutal como a lápide a quem a tristeza ocasionalmente
morde, como a tristeza marmórea do anjo funerário
que no bojo das mãos oculta a face sem lágrimas.


O OUTRO

Para quê nomear os deuses, os astros,
a espuma de um oceano ignoto
e o pólen dos jardins mais remotos?
Se nos dói a vida, se cada dia que acosta
desgarra uma entranha, se cai a noite
e cai convulsa, delapidada!
Se nos dói a dor em alguém, num homem
que nunca conhecemos mas intrínseco
assiste a todas as horas e é a vítima
e o inimigo e o amor e tudo
o que nos falta para sermos inteiros!
Nunca digas “é minha a treva!”,
A tua alegria não se sorve num ápice!
Olha como à volta há outro, há sempre outro.
O que ele respira é o que a ti te asfixia,
o que ele come é a tua fome.
Morre com a metade mais pura da tua morte.


DESTINO

Matamos o que amamos. O mais
nunca esteve vivo – nunca.
Nem um só, assim perto. A nenhum outro fere
um esquecimento, uma ausência, às vezes menos.
Matamos o que amamos. Que cesse de imediato esta asfixia
de respirar por pulmão alheio.
O ar é  lá bastante
para os dois! Não basta a terra
para os corpos juntos,
parca porra parca a ração da esperança,
tão parca como a dor de partilhar.

O homem é animal de solidões,
cervo com uma flecha no flanco
que foge e se dessangra.

Ah, mas o ódio, a sua ferida insone
de pupilas em vidro; a sua postura,
em torno, repouso e ameaça.

O cervo vai a beber e na água aparece
o reflexo de um tigre:
o cervo bebe a água e a imagem. E torna-se
- antes que o devorem (cúmplice, fascinado) –
igual ao seu inimigo.
Só damos vida ao que odiamos.



ADVERTÊNCIA AO QUE CHEGA

Não me toques o braço esquerdo. Dói
de tanta cicatriz.
Dizem que foi da tenção de matar-me,
eu que mais não queria senão dormir,
profunda, amplamente, como dorme
a mulher que é feliz.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

CLARABÓIAS, O TINOCO, A MORTE À SOLTA

Obra de francisco bronze, um amigo comum

Cansaço. Sempre que me descubro com os músculos retesados de cansaço, ou frouxos, a cair como muco líquido dum nariz pingão, pego num livro de poesia e faço os trabalhos de espaldar.
Cansaço de não dormir o suficiente, de estar sujeito a fazer coisas que detesto, ou da morte dum amigo. Esta invasão do aleatório na vida é o que mais me cansa, mais que ter que rever um compêndio de leis de 500 páginas, o que às vezes me calha no goto, e me deixa capaz de pontapear todas as clarabóias do mundo.
Enfim, parvoíces.
Mas o cansaço de ver que ao meu lado um amigo perdeu o caminho dos dedos e emprestou o coração a algum deus vagabundo cai-me sobre o corpo como a cal.
Desta vez, dizem-me, tenho de confirmar, tão incrédulo ainda estou, foi o Alfredo Tinoco. Um calmeirão barbudo de ar mongol, voz grossa, bigodes levemente à Dali e riso espontâneo, altissonante; e com mãos de andebolista que algures trocara os petardos daquela bola rija como cornos pela borboleta do badminton.
Tinha várias paixões, todas convergiam nos livros.
Aprendi com ele a andar ajoujado de livros, permanentemente, e a ler em qualquer canto, da cabine telefónica, aos transportes e às tabernas mais rudes. Aprendi com ele a amar as palavras e a fechar os livros quando algum amigo chegava para tramar o riso.
Aprendi com ele que as coisas diferentes nos nutrem mais que as semelhantes.
Aprendi com ele a admirar, qualidade que é de poucos. Ele admirava o Sena, o Grabato, o Camilo…
Aprendi com ele que a amizade é um modo de nos reencontramos dois anos depois, como se nos tivéssemos acabado de ver na véspera, com a confiança sempre à frente dos bois.
Apesar dele ser cerca de dez anos mais velho que eu, eu pensava que ele estaria lá sempre, que em voltando para Portugal ele seria um dos velhos gaiteiros com quem ensaiaria diariamente os últimos acordes na gaita. Fintou-me. Que cansaço. 
Agarrei no primeiro livro, tacteando, sem querer saber o que pegava. Calhou-me um volume com a poesia do Malcolm Lowry. Abro ao acaso e leio:
«Pensamentos de ferro navegam ao entardecer em barcos de ferro».
Não preciso de ler mais, esta imagem extraordinária basta-me. Sei que ele gostaria, desta simbiose entre o pensamento e os navios, e da vulnerabilidade da palavra reabilitada pela resistência do minério; apesar do desassossego de nos outrarmos nas coisas que de nós se afastam.
Sei que comungaríamos este verso, por uma fria manhã de Fevereiro, no café Tropical, antes de passarmos aos sucessos de Fábio Coentrão no Real Madrid, ou dele me contar um conto de Cortázar lido nessa noite, e de convidar a descer com ele a uma qualquer mina que estivesse a transformar em museu.
Sei que o Malcolm Lowry escreveu este verso para ele, é a nossa ultima libação.

Confirma se, esta na net. Soube o com um ano de atraso, ninguem teve  a gentileza de me informar. Roubei este texto do blog «A Douta Ignorância»:                                                                                 


Um bom professor vale anos de estudo de manuais obsoletos, compensa o convívio forçado com patetas incuráveis, justifica o tempo perdido em transportes para se chegar à faculdade. O bom professor é aquele que nos ensina o que só ele nos pode ensinar. O bom professor é aquele que, durante uma aula de História numa secundária dos subúrbios, discute Ian McEwan connosco. O bom professor é aquele que nos leva até Borges e, com toda a generosidade do mundo, nos empresta uma edição de Ficções. O bom professor é aquele que, a pretexto de uma matéria qualquer, nos convida para ver Ondas de Paixão. O bom professor é aquele que, no meio da estupidez geral de uma turma do nono ano, tem a coragem de se dizer fã de Debussy. O bom professor é aquele que sai do caminho estreito dos programas e partilha com os alunos um pouco do seu mundo, da sua experiência, do seu conhecimento, da sua perplexidade perante a vida. Alfredo Tinoco foi um desses professores. Recordo pouco das aulas dele, qualquer coisa sobre Museologia, mas não esqueço aquela tarde numa esplanada de Entrecampos em que afirmou, com um sorriso gaiato e a voz rouca de gigante, que era anarquista e que, por isso, não se dava ao trabalho de votar. Proclamou, ufano, a aversão ao bicho automóvel e confessou que não tinha carta de condução e que, mesmo a trabalhar no estrangeiro, encontrara sempre uma solução para esse problema que, na nossa época, equivale a uma deficiência. Esta simples lição sobre diferença ensinou-me mais do que todas as aulas sobre eco-museus e patrimónios. Infelizmente, não vou a tempo de lhe agradecer essa dádiva, porque o Professor Alfredo Tinoco, mestre gentil e grave, morreu esta semana. A generosidade, da qual fomos felizes beneficiários naquele fim de tarde, permanece comigo. 
Bruno Vieira Amaral e Henrique Raposo

quarta-feira, 20 de julho de 2011

À sombra de Zbigniew Herbert



Como eu gosto deste polaco, meu deus; gosto mais dele que de passas do Algarve. Zbigniew Herbert: é um nome de vento afiado nas duas faces duma navalha. As versões são minhas.



OS CARVALHOS

Na floresta, encavalitados na duna,
três carvalhos portentosos, aos pés
dos quais procuro conselho e protecção.
Emudecidos os anjos, abalados os profetas,
não resta em terra ninguém mais honorável
- eis porque, ó carvalhos, a vós dirijo
as minhas interrogações sombrias, esperando
o veredicto do destino, como outrora em Dodone.

Mas é necessário confessar que o vosso ritual
de concepção – ó ponderados! – me inquieta;
no limiar da primavera no começo do verão,  
à sombra dos vossos ramos enxameados
de folhagem recém-nascida,
uma orfandade de rebentos - em tufos
pálidos, mortiços,
mais frágeis que a erva
que desponta num oceano de areia -
luta solitária, desoladamente.

Por que não defendeis as vossas crias
a quem a primeira geada afeiçoa
os dois gumes do gládio?

Que significa – ó carvalhos – a cruzada
demente, o massacre dos inocentes e a selecção
sinistra que paira nietzscheanamente
sobre a placidez da duna, apta a consolar
os melodiosos queixumes de Keats -
aqui onde tudo incita ao beijo,
ao anelo, ao armistício?

Como devo compreender a vossa parábola
sombria, o lúgubre toc-toc do picapau,
o riso das tíbias brancas,
o tribunal da alba e a execução da noite
a vida às cegas nos fiapos da morte?
Que importa, ao estapafúrdio não o sofro mais
e fica com quem governa aqui,
o deus de olhar aquoso na face do contabilista,
demiurgo de ignóbeis quadros estatísticos
que quando lança os dados ganha em todos os tabuleiros,
convertida a necessidade em variável do acaso.
E pode o sentido ser mais que a nostalgia
dos fracos e a astúcia dos desiludidos?

          Tantas interrogações – ó carvalhos –,
tantas folhas, e sob cada folha
o desespero.



INSCRIÇÃO


Olhas as minhas mãos
frágeis – dizes tu – como as flores

olhas a minha boca
demasiado pequena para dizer: universo

         debrucemo-nos mais sobre a haste dos instantes
         o vento pede a nossa sede
         olha, os nossos olhos esfumam-se ao crepúsculo
         o mais precioso odor vem do que a morte principia
         e na forma das ruínas atenua a dor

há em mim uma labareda que cogita
a brisa para o brasido e para os véus

tenho mãos impacientes
e posso
esculpir no vento
a cabeça de um amigo
repito este verso que adoraria
transcrever em sânscrito
ou numa pirâmide:

quando a fonte das estrelas estancar
nós daremos a luz às noites

quando o vento ficar petrificado
nós deslocaremos o ar.                              


A CULTURA E «O COMPLEXO DE ROBESPIERRE»




Aterrou em Maputo o Nuno Ventura Barbosa, um jovem documentarista que para além do saboroso nome camiliano é criatura estimável, e aproveitei para me pôr a par sobre as últimas da produção do cinema em Portugal.
Fareja ele fortes indícios de que para o ano não se efectuem os Concursos do ICAM (o instituto que tutela o cinema e o audiovisual em Portugal), visto que neste momento já correm zunzuns de que o Ministério da Cultura anda a chamar as produtoras para renegociar a entrega das tranches dos subsídios anteriormente atribuídos (ou seja, para poder entregar o pilim mais tarde do que é costume e a muito piores horas, depois de ter estado a juros no banco.
Ou seja, há um tecido social, com uns milhares de técnicos associados que vai achar o paletó mais roído pela traça.
É tudo de uma cegueira, de uma falta de imaginação, extraordinárias. Como não perceber que quando há pouco dinheiro é que se tem que investir e de apostar em ganhar dinheiro? Que essa é a única saída.
A solução para revitalizar o país não passa pela solução de Proscrutes, que cortava indiscriminadamente os pés aos hóspedes que não lhe cabiam na cama, nem por fazer o sector cultural pagar as favas dos submarinos comprados para um exército absolutamente inútil, cortando-lhes as fontes, mas, no que à cultura cabe, pela motivação; i.é. pela criação de condições estruturais para que o sector possa gerar mais dinheiro e sair do ciclo vicioso da subsídio-dependência.
Aí então pouparia o Estado e criava-se algo que se poderia capitalizar e exportar.  
Mas que fazer, o povo e os seus representantes são putanheiros, nunca pensam estruturalmente, mas unicamente na vantagem imediata, no aparato. Até nos cortes orçamentais são aparatosos. Fazem-me lembrar a anedota que consta dum manual de chistes que nos chegou da antiga Grécia, onde se lia a carta de um estudante para o pai, depois de ter vendido os livros: «Podes estar contente comigo, pai: os meus estudos já começaram a render-me alguma coisa».




terça-feira, 19 de julho de 2011

PROPOSTA ÚNICA PARA SANAR A CRISE PORTUGUESA

Desnacionalizemos os dicionários. Deixemos ao português médio a possibilidade de se assenhorear livremente de um espectro lexical de 800 palavras. Que diga sardinha mas não cherne. A partir daí a «corrente da língua» passa a ser detida por um naipe de empresas apuradas em concurso e quem quiser alargar o seu leque vocabular terá de comprar um kit.
Parece-nos um verdadeiro petróleo, sr. Primeiro-Ministro

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Que pode a literatura?


Pergunta-me o Nazir: que pode a literatura?
E eu diria que a literatura tem ainda um papel social nesta época, que é simultaneamente a mais rica e a mais perigosa. Ideologicamente, acabaram-se os modelos pronto-a-vestir e o homem ou cresce reinventando a vida, os valores e o amor, ou avilta-se.
Vivemos uma espécie de «choriro», o período que em África designa o interregno entre a morte de um rei e a coroação de outro, quando tudo é permitido e se instala um estado de excepção que turva as águas. Talvez nos tenha calhado viver um período idêntico ao que segundo a Yourcenar caracterizava o tempo de Adriano, quando haviam fenecido os deuses antigos e os novos deuses ainda não tinham despontado.
É um momento ímpar, de grande liberdade e de grande informação, mas que já não admite nem preconceitos nem álibis, e em que, mercê de alguma coragem, cada um pode chegar sem intermediários aquilo que é.
Tem um lado negro, esta ambivalência: um biltre pode chegar mais facilmente aquilo que é e os biltres são como os chineses, não param de nascer.
Quero contar ao Nazir uma história que vivi, para elucidar o que poderá ou não a literatura.
Rimbaud acreditava piamente que, na Etiópia, poderia “desaparecer sem que a notícia jamais se divulgasse”, segundo a carta que envia de Harar, a 6 de Maio de 1883.
Não obstante, um século depois, em Outubro de 1997, em Addis Abebe, capital da Etiópia, um jovem de fala doce e dedos que pretendiam harpejar mel (estão a ver o excesso de sacarose!?), numa pastelaria sórdida nas imediações do meu hotel, desdobrou-se em argumentos para me vender dois produtos: moedas do século XIX, e manuscritos de «Rambo» - Rimbaud actualizado pelas peripécias de Sylvester Stallone.
Levou mais de meia-hora a montar as provas da sua intocável honestidade, o intuito era salvar os manuscritos de mãos gananciosas e devolvê-los à glória de França. Eu, no dizer do magano (- hélas, teve o flash assim que me viu franquear a porta!), seria o portador ideal.
O Rimbaud não desapareceu, mudou unicamente em Rambo, em mercadoria de contrabando, na mais rotunda conformidade com aquilo em que se tornou. Por outro lado, digo eu, Rimbaud não se repete, está sempre em movimento, tanto na sua etapa europeia, como na posterior e derradeira. E talvez o escândalo do segundo Rimbaud se atenue se considerarmos que o jovem bardo queimou todas as etapas rapidamente e cedo embateu na aporia de Wittgenstein: do que não podemos falar devemos calar. Aporia que Wittgenstein viria a superar.
O erro de Rimbaud foi considerar que as energias condensadas no silêncio o catapultariam ao limiar duma indivisibilidade permanente que supriria os “degraus subidos”; do que decorre que não se sinta, nas suas cartas da Etiópia, que o fazer iniciático da obra se haja afinal convertido num poder de auto-transformação. É escusado procurar neste Rimbaud (nas suas cartas) qualquer traço de “um iluminado”, como se as suas informações chãs sobre dinheiro, mercadoria, ou armas fossem um código cifrado e não, ao invés, o despacho trivial de um inábil contrabandista de armas, suspeito além disso de contrabandear escravos.
Falei atrás em degraus subidos. De onde para onde? O itinerário duma auto-gnose é sempre (e ria-se quem puder) uma escada para baixo e para o alto que se sobe para dentro, porque lembra uma carta geográfica desenhada por Esher. E aí, como também as escadas de Escher, aquelas não têm fim, e facilmente cospem o iludido para «o fora«. A Rimbaud perdeu-o a soberba, e a pressa, que lhe implodiu no cerne o prisma que a dado momento fora a chave para um tempo próprio e uma visão tão inextricável como barbaramente sua.
Rimbaud foi o primeiro desses heróicos ejaculadores prematuros que o cinema, numa aceleração incurável onde se fundem ainda o romantismo e o clamor das imagens, instaurou como ídolos.
Verlaine regista na sua biografia de Rimbaud: “ele anda agora pelos trinta e dois e viaja pela Ásia onde se ocupa de trabalhos de arte”. Para Verlaine, mais literato que Rimbaud e um ingénuo até à medula, é impensável a natureza dos negócios a que se entregou o seu antigo amigo e amante e que a demanda da “verdadeira vida” proclamada em «Une Saison…» não passe de uma bravata.
Embora, no fundo, a ingenuidade de Verlaine, apenas confirme o diagnóstico de Alain Borer: «não há “o impensado”: só o invivido».
Precisemos o que está em jogo, socorrendo-nos de novo de Alain Borer: se vida e obra estão «intimamente, não se pode dizer melhor, ligadas», então estamos lixados e ler Rimbaud é assistir ao «fracasso da transformação do real pelo poeta que se reconhecera como o eleito dessa missão. Não passraá de confusão a “desaparição elocutória” de Mallarmé e o “Eu é um outro” de Rimbaud?». E então aqui talvez o Herberto tenha razão: o segundo Rimbaud anula o primeiro “cancela as iluminações ou as épocas no inferno (tanto faz) como um «erro»”.
O que aqui se anuncia é demasiado grave para ser ocultado.
Contudo, o descalabro do segundo Rimbaud coloca-nos de sobreaviso e faz-nos compreender que a suceder-se uma, muito nietzschiana, Aurora (um novo ponto de mira que transforme a vida), ela terá de ser consecutiva, isto é, a mesma não autoriza o relaxe e a auto-complacência. Daí que o cínico Diógenes andasse pelas ruas, em pleno dia, de lampião aceso, à procura do homem: desenhava no solo a sua própria sombra.
A Aurora, para sê-lo, tem de ser consecutiva, ainda que pareça similar aos olhos do distraído, de modo a conseguirmos mudar ao mesmo ritmo em que mudam as condições do acontecimento.
O fracasso de Rimbaud é o que nos dá o recuo e dilui as cartilagens da crença que invariavelmente nos secunda quando somos mobilizados para um encontro com «o real». Não é possível mergulhar em Rimbaud e ficar-se inocente, ainda que a emulação seja a experiência que cabe a cada um empreender sozinho, em risco. A dele foi a que cumpriu na Etiópia, num curto-circuito com o seu passado.
A erupção mística é uma ilusão dos literatos: Rimbaud deve ser lido o mais precocemente possível não porque alargue o âmbito literário mas porque nos faz penetrar noutro real, material, que nos desfaz as ilusões. Somos barbaramente devastados pelos sinos que a sua leitura nos deposita nas veias e isso vale para o bem e para o mal. O horizonte incondicionado que, à sua leitura, se alastra na nossa sensibilidade como um novo afecto (o que nos faz bem) é um ovo para o devir mas arrasta consigo e inevitavelmente as máscaras do mal.
Lê-lo permite-nos compreender melhor os labirintos do mal e as opções que validam a decisão de uma escolha. Ler Rimbaud, como Thomas Bernhard. como Bobin dá-nos defesas.
Se eu não tivesse lido Rimbaud teria caído facilmente na conversa do jovem vigarista etíope, que era veterano e experimentado no ardil, enquanto eu era um iniciado como incauto. Mas os sopapos de Rimbaud puseram-me a pau, sepultaram de antemão as ilusões sobre uma tão magnífica coincidência.
A (alguma) literatura desmascara os prestidigitadores, e, embora abra o campo das virtualidades, desmascara as mentiras, a desonestidade. Claro que esta é uma aprendizagem no tempo, pois a literatura é, paradoxalmente, o maior propulsionador imóvel que se conhece. E a sabedoria trágica que nos traz é sem retorno.
Portanto a questão, meu caro Nazir, não é sobre o que pode ou não a literatura, mas antes:
- de que têm medo “os agentes culturais” e os responsáveis políticos dos países párias para se afadigarem tanto a impedir que os seus cidadãos tenham acesso e, afinal, se alienem com a literatura?
- de que têm tanto medo os mercados nos países ricos a ponto de, mesmo tendo acabado os pronto a vestir ideológicos,  procurarem uniformizar, com critérios e normas editoriais imbecis, todo o trabalho criativo?