segunda-feira, 18 de julho de 2011

Que pode a literatura?


Pergunta-me o Nazir: que pode a literatura?
E eu diria que a literatura tem ainda um papel social nesta época, que é simultaneamente a mais rica e a mais perigosa. Ideologicamente, acabaram-se os modelos pronto-a-vestir e o homem ou cresce reinventando a vida, os valores e o amor, ou avilta-se.
Vivemos uma espécie de «choriro», o período que em África designa o interregno entre a morte de um rei e a coroação de outro, quando tudo é permitido e se instala um estado de excepção que turva as águas. Talvez nos tenha calhado viver um período idêntico ao que segundo a Yourcenar caracterizava o tempo de Adriano, quando haviam fenecido os deuses antigos e os novos deuses ainda não tinham despontado.
É um momento ímpar, de grande liberdade e de grande informação, mas que já não admite nem preconceitos nem álibis, e em que, mercê de alguma coragem, cada um pode chegar sem intermediários aquilo que é.
Tem um lado negro, esta ambivalência: um biltre pode chegar mais facilmente aquilo que é e os biltres são como os chineses, não param de nascer.
Quero contar ao Nazir uma história que vivi, para elucidar o que poderá ou não a literatura.
Rimbaud acreditava piamente que, na Etiópia, poderia “desaparecer sem que a notícia jamais se divulgasse”, segundo a carta que envia de Harar, a 6 de Maio de 1883.
Não obstante, um século depois, em Outubro de 1997, em Addis Abebe, capital da Etiópia, um jovem de fala doce e dedos que pretendiam harpejar mel (estão a ver o excesso de sacarose!?), numa pastelaria sórdida nas imediações do meu hotel, desdobrou-se em argumentos para me vender dois produtos: moedas do século XIX, e manuscritos de «Rambo» - Rimbaud actualizado pelas peripécias de Sylvester Stallone.
Levou mais de meia-hora a montar as provas da sua intocável honestidade, o intuito era salvar os manuscritos de mãos gananciosas e devolvê-los à glória de França. Eu, no dizer do magano (- hélas, teve o flash assim que me viu franquear a porta!), seria o portador ideal.
O Rimbaud não desapareceu, mudou unicamente em Rambo, em mercadoria de contrabando, na mais rotunda conformidade com aquilo em que se tornou. Por outro lado, digo eu, Rimbaud não se repete, está sempre em movimento, tanto na sua etapa europeia, como na posterior e derradeira. E talvez o escândalo do segundo Rimbaud se atenue se considerarmos que o jovem bardo queimou todas as etapas rapidamente e cedo embateu na aporia de Wittgenstein: do que não podemos falar devemos calar. Aporia que Wittgenstein viria a superar.
O erro de Rimbaud foi considerar que as energias condensadas no silêncio o catapultariam ao limiar duma indivisibilidade permanente que supriria os “degraus subidos”; do que decorre que não se sinta, nas suas cartas da Etiópia, que o fazer iniciático da obra se haja afinal convertido num poder de auto-transformação. É escusado procurar neste Rimbaud (nas suas cartas) qualquer traço de “um iluminado”, como se as suas informações chãs sobre dinheiro, mercadoria, ou armas fossem um código cifrado e não, ao invés, o despacho trivial de um inábil contrabandista de armas, suspeito além disso de contrabandear escravos.
Falei atrás em degraus subidos. De onde para onde? O itinerário duma auto-gnose é sempre (e ria-se quem puder) uma escada para baixo e para o alto que se sobe para dentro, porque lembra uma carta geográfica desenhada por Esher. E aí, como também as escadas de Escher, aquelas não têm fim, e facilmente cospem o iludido para «o fora«. A Rimbaud perdeu-o a soberba, e a pressa, que lhe implodiu no cerne o prisma que a dado momento fora a chave para um tempo próprio e uma visão tão inextricável como barbaramente sua.
Rimbaud foi o primeiro desses heróicos ejaculadores prematuros que o cinema, numa aceleração incurável onde se fundem ainda o romantismo e o clamor das imagens, instaurou como ídolos.
Verlaine regista na sua biografia de Rimbaud: “ele anda agora pelos trinta e dois e viaja pela Ásia onde se ocupa de trabalhos de arte”. Para Verlaine, mais literato que Rimbaud e um ingénuo até à medula, é impensável a natureza dos negócios a que se entregou o seu antigo amigo e amante e que a demanda da “verdadeira vida” proclamada em «Une Saison…» não passe de uma bravata.
Embora, no fundo, a ingenuidade de Verlaine, apenas confirme o diagnóstico de Alain Borer: «não há “o impensado”: só o invivido».
Precisemos o que está em jogo, socorrendo-nos de novo de Alain Borer: se vida e obra estão «intimamente, não se pode dizer melhor, ligadas», então estamos lixados e ler Rimbaud é assistir ao «fracasso da transformação do real pelo poeta que se reconhecera como o eleito dessa missão. Não passraá de confusão a “desaparição elocutória” de Mallarmé e o “Eu é um outro” de Rimbaud?». E então aqui talvez o Herberto tenha razão: o segundo Rimbaud anula o primeiro “cancela as iluminações ou as épocas no inferno (tanto faz) como um «erro»”.
O que aqui se anuncia é demasiado grave para ser ocultado.
Contudo, o descalabro do segundo Rimbaud coloca-nos de sobreaviso e faz-nos compreender que a suceder-se uma, muito nietzschiana, Aurora (um novo ponto de mira que transforme a vida), ela terá de ser consecutiva, isto é, a mesma não autoriza o relaxe e a auto-complacência. Daí que o cínico Diógenes andasse pelas ruas, em pleno dia, de lampião aceso, à procura do homem: desenhava no solo a sua própria sombra.
A Aurora, para sê-lo, tem de ser consecutiva, ainda que pareça similar aos olhos do distraído, de modo a conseguirmos mudar ao mesmo ritmo em que mudam as condições do acontecimento.
O fracasso de Rimbaud é o que nos dá o recuo e dilui as cartilagens da crença que invariavelmente nos secunda quando somos mobilizados para um encontro com «o real». Não é possível mergulhar em Rimbaud e ficar-se inocente, ainda que a emulação seja a experiência que cabe a cada um empreender sozinho, em risco. A dele foi a que cumpriu na Etiópia, num curto-circuito com o seu passado.
A erupção mística é uma ilusão dos literatos: Rimbaud deve ser lido o mais precocemente possível não porque alargue o âmbito literário mas porque nos faz penetrar noutro real, material, que nos desfaz as ilusões. Somos barbaramente devastados pelos sinos que a sua leitura nos deposita nas veias e isso vale para o bem e para o mal. O horizonte incondicionado que, à sua leitura, se alastra na nossa sensibilidade como um novo afecto (o que nos faz bem) é um ovo para o devir mas arrasta consigo e inevitavelmente as máscaras do mal.
Lê-lo permite-nos compreender melhor os labirintos do mal e as opções que validam a decisão de uma escolha. Ler Rimbaud, como Thomas Bernhard. como Bobin dá-nos defesas.
Se eu não tivesse lido Rimbaud teria caído facilmente na conversa do jovem vigarista etíope, que era veterano e experimentado no ardil, enquanto eu era um iniciado como incauto. Mas os sopapos de Rimbaud puseram-me a pau, sepultaram de antemão as ilusões sobre uma tão magnífica coincidência.
A (alguma) literatura desmascara os prestidigitadores, e, embora abra o campo das virtualidades, desmascara as mentiras, a desonestidade. Claro que esta é uma aprendizagem no tempo, pois a literatura é, paradoxalmente, o maior propulsionador imóvel que se conhece. E a sabedoria trágica que nos traz é sem retorno.
Portanto a questão, meu caro Nazir, não é sobre o que pode ou não a literatura, mas antes:
- de que têm medo “os agentes culturais” e os responsáveis políticos dos países párias para se afadigarem tanto a impedir que os seus cidadãos tenham acesso e, afinal, se alienem com a literatura?
- de que têm tanto medo os mercados nos países ricos a ponto de, mesmo tendo acabado os pronto a vestir ideológicos,  procurarem uniformizar, com critérios e normas editoriais imbecis, todo o trabalho criativo?

domingo, 17 de julho de 2011

A Helena de Tróia segundo Daumier




1

Das mulheres mais feias que já vi.

Foi nela que as cerejas, a haver infância

para tais orelhas de abano, ex-

perimentaram o comboio fantasma.


Fosse a macilenta asa de sua pele
em papel quadriculado e propiciar-se-ia,
à falta do belo, o útil - a manseutude
do útil sempre dá realce

a um olhar de toupeira. Vejam se lhe as faces
repuxadas como baças folhas de couve
que o tempo alacremente calcou.

E contudo pisa como uma gueixa,
mesmo quando se apressa
é um bonsai que se apressa.


2      (além do mais é coxa)


Foi inventada para ela, a palavra opróbrio,
Só desse modo se desanuviava
a fealdade comovidamente honesta
que era a sua. Diante dela Aristóteles

calaria que o ideal da arte de carpintaria
reside nas flautas. Miudezas
onde soçobra o espírito,
antes de esbarrar num cepo,

num pântano, no cirro que coaxa
toda a indivisa noite
até fazer sangrar a alba, 



E TEM DIAS EM QUE ALGUÉM ACREDITA


 
Teve o Nuno Dempster a simpatia de escrever um belo texto sobre o meu “Não se Emenda, a Chuva”, que já foi postado dia 30 mas só vi anteontem, o que apaladou o meu fim-de-semana. Quem quiser espreitar, clique http://esquerda-da-virgula.blogspot.com

A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS VI


2

Na Suiça, em Neuchatel (a água é o único elemento de que não prescindo), fui ascensorista durante seis meses. Uma profissão rilkeana: pela alba, ascende a sombra da rosa! A minha admissão foi imediata porque me apresentei ao gerente do hotel em latim e depois o português, o francês, o espanhol, o italiano e o húngaro borboletearam no meu palato sem atritos à vista.
Só no inglês gaguejo, por causa de uma falhada entrevista com o John Wayne que me inibiu para sempre. Por alturas do Cinéfilo, o Fernando Lopes, chutou-me para Madrid: a instrução era uma, sacar do coldre uma entrevista ao cowboy indomável. Combinámos no bar do hotel dele e cheguei uma hora antes de tempo. A minha neurastenia fez-me deglutir meia dúzia de Bushemills nessa hora – o atraso dele, de quinze minutos, foi a propulsão para mais dois. Mas a língua não se me embarga, se a garganta se avinha. O problema foi outro: o porte, a estatura que avançou na minha direcção (apesar de lhe conhecer os traços de cor) excedia tudo o que estava disposto a admitir para um homem. O Wayne era um portal, e na bacia nonchalante que evoluía na minha direcção despontava o centauro. Aquele Hara não se compadecia com a estreiteza do meu. Compreendi de um ápice que não passava do porta-moedas de Quíron, e o álcool trovejou no meu crânio borrando de medo o meu inglês exponencial. Não consegui acabar uma só pergunta e a bisarma deixou-me sentado após vinte minutos de gaguejo; a sua mão de vaqueiro consolou-me o cachaço e aconselhou um gorosan. Nunca mais o meu inglês se desabituou de brancas, recuperando desse malogro.
Continuando. Um ascensorista favorece muito o actor, em busca da gorjeta. Nem sei o múltiplo em que naufragaria Pessoa se em vez de empregado de escritório tivesse sido ascensorista, deve ter sido nesse arrepio que escreveu: Nada deseja/ salvo o orgulho de ver sempre claro/ até deixar de ver.
A lábia favorecia-me, e, como de quinze em quinze dias me calhavam folgas de três dias, comecei a atravessar a passar a fronteira para ir a Bruges ver o Hans Memling e comer moules, outra fraqueza inexplicável no meu carácter.
Não tinham passado mais de três meses quando aquele congresso internacional sobre Victor Hugo encheu o hotel de literatos. Eu preveni-me. Tendo notícia daquela enchente uma semana antes fui à biblioteca municipal requisitar cinco ou seis obras, que me permitissem entabular conversas com os congressistas. E li de um fôlego Les Contemplations, Les pecheurs, uma biografia, o Journal de l’Exil. Ah, e a Inês de Castro, para ver como é que o velho tinha despachado aquela palhaçada.
Troquei versos por gorjetas, entre o 1º andar e o 9º, não há como macaquear num gigante os seus rudimentos (são assim as teses universitárias e com menos citações do que as que desembainhei nessa semana). Mas, extraordinário, foi o sonho que tive com ele e o colóquio que travámos.
É conhecido que, em New Jersey, Victor Hugo se entregou a umas sessões espíritas, a cujas quais compareceram Platão, Esquilo, Galileu, Maomé, Dante, Shakespeare (que, em homenagem a Racine, fez a sua charla em francês), Chénier, e tanti quanti. Uma noite, supunha-me eu no mais empedernido nicho de Morfeu, e uma luz bruxuleante levanta-me as persianas. Cheirou-me a petróleo e sentei-me alarmado.
À beira da cama estava Victor Hugo. Atrás dele, num círculo, viam-se os espectros dos seus companheiros de sessão, numa mudez de cera. A sua voz, vinda de um poço, ecoava-me na cabeça.
João de Deus?
Sim.
Frequentaram-no sempre, as vozes?
A Voz, Deus não cede direitos.
São filamentos. Também o tempo usa as montanhas.
Nunca se sentiu usado por Satã?
Um mar de pedras em sobressalto?
Que o levou a fugir de Paris?
A vertigem com que no sangue as coisas tendem a ser outras.
Que gera o medo, além do medo?
João de Deus: o vento escoa num grão de areia…
Que mais o espanta na Criação?
Tantas palavras para tramar o espanto?
O consentimento do mundo, meu vate, vem da palavra ou da acção?
Age e Deus dessedenta-se no teu talo…
Aqui, não sei como, soltou-se do meu crânio uma centena de lampadários que lhe iluminaram majestosamente a fronte e no momento seguinte comecei a ditar-lhe um livro, ou quase: L’Ocean.
No meu espírito decorreram dois meses durante aqueles quinze minutos, comigo a ditar os aforismos e ele a anotar:
«La vieille reine de Portugal, mère de don Miguel avait été fort dévote et presque sainte. Quelques années avant sa mort elle devint folle. Sa folie était de se croire en paradis. Seulement il parâit que ce paradis était au-dessous de son idéal. Elle disait souvent : tiens ! ce n’ést que cela ! si j’avais su ! Sa sainteté du reste était contestée. Mon confrère Brifaut me disait : - je connais un portugais qu’elle avait forcé de lui faire un enfant.» ;
«Le penseur est comme la terre. L’un ne garde pas plus l’ombre des événements que l’ autre ne garde l’ombre des nuées.» ;
«Laissez-moi vous dire, madame,
Que je n’ai, sort doux et cruel,
Rien que votre nom dans mon âme
Rien que votre aile dans mon ciel.» ;
«Avant la création, Dieu était atôme.
La création est son volume.» ;
eu sei lá, aquilo brotava.
No fim perguntou-me, grato:
Que posso dar-lhe em troca?
Pedi-lhe, timidamente:
Um pentelho de Mme Emile de Girardin (a cortesã que em New Jersey o incitava ao espiritismo).
Ele guardou um momento de silêncio:
Esses, sabe Deus que são de aço. Pede-me outros…
Então de Adéle.
A minha filha?
Adéle H.   
Assim será feito.
No dia seguinte, ao acordar, a minha mão dormente tocou um saquinho de veludo azul. Atado por um cordão de ouro. Continha uma madeixa de cabelo, um dente de leite e três pentelhos. Foi generoso o poeta.
O meu colega da recepção ficou a zeros quando lhe apareci radiante e lhe garanti:
Meu gato-pingado, toma lá segredo de homem que abdicou de ser histrião: a fada do dentinho existe!
Passei os dias seguintes a tentar rememorar os aforismos que havia ditado ao vate. Mas, quando um mês depois folheei na livraria L’Ocean e li «N’imitez rien ni personne. Un lion qui copie un lion devient un singe», fiquei um nadinha sentido, e soube então que o tempo era um acordeão e não raras vezes o futuro se revê no passado. O Poeta ultrapassara-me pela esquerda.

sábado, 16 de julho de 2011

LEMBRAR A SUSAN SONTAG

As arrumações têm isto de bom: fazem-nos reencontrar o que estava esquecido e reelaborar antigas leituras. No meio de uma amálgama de papel e lixo encontrei um dossier sobre a Susan Sontag que baixei da net há uns anos, e que foi coligido por uma Universidade do Chile por ocasião de se terem feito 5 anos sobre a morte da escritora em 2004. Saneado o lixo da secretária, arrumada (ainda que tudo isto seja vão e vá durar 48 horas), pus-me de papo para o ar a reler o dossier.
Achei quatro pepitas que aqui deixo:
1        Susan Sontag, desde menina que considerou a sua infância uma tremenda perda de tempo.
Aos 3 já lia, aos 8 lia Shakespeare, aos quinze anos o director do liceu chamou-a e disse-lhe: “a menina só está a perder tempo aqui, vamos já dar-lhe o diploma para poder ir para a universidade”. Sontag ingressou imediatamente na universidade e aos 17 casou-se. Nunca perdeu tempo.

De facto, de toda a minha infância, só me lembro do tédio. A vida só se me alegrou quando descobri a literatura.
E lamento ter de declarar que não sofri de qualquer complexo de Édipo, que desde que me lembro desejei outras mulheres que não a minha mãe (na generalidade às mulheres lá de casa – a minha tia surda, a minha avó bipolar, a minha mãe tocada por uma bruma de autismo - sempre as achei uma Graias (as três manas da mitologia grega que partilhavam um só olho e uma só dentadura).
Desde miúdo, o meu sentimento dominante foi o de me sentir desapropriado, e fora de casa sempre fiz um humor cruel com a sorte filial.
Só mais tarde, com a descoberta da literatura, me aconteceu o que Sontag evoca quando diz:
 «a literatura alargou a minha capacidade de compaixão»
 tendo-me então reconciliado com a lotaria que me coube e desviado o que me restava de crueldade e ironia para alvos exteriores ao lar.
Só hoje, lidando com as minhas filhas, admito a candura na infância, mas continuo a desconfiar da utilidade da sua duração institucionalizada.  

2.      «A Áustria (comentava o bom resultado de Haider, político de extrema-direita, nas eleições austríacas) é uma nova Sérvia e os austríacos são como os sérvios. Dois povos párias que continuam sustentando os seus respectivos líderes precisamente porque o resto do mundo os condena».

Agrada-me muito este conceito de «povos párias», que associo ao «orgulhosamente sós» de Salazar.
Ainda há dois dias assisti às declarações dum responsável do governo moçambicano congratulando-se porque a Nato já fala em negociações na Líbia, o que só daria razão à OUA, que desde sempre defende uma solução pela via do diálogo na Líbia.
E esqueceu-se de dizer que pela via do diálogo o Mugabe ficou no poder, depois de perdidas as eleições, pela via do diálogo o Kadhafi manter-se-à no poder, depois de massacrar o próprio povo durante 40 anos; esqueceu-se de dizer que o actual Presidente da OUA fez da Guiné-Conackri gato-sapato e que é um dos melhores exemplos do que é a vileza do poder africano.
Tudo em nome da «perpetuação do que está», ainda que seja irracional e tal soberania implique o desrespeito total pelos direitos humanos e a vontade dos povos; e da ideia peregrina de que manter uma «uma péssima solução» contra a opinião de todos é uma marca de identidade. Ou seja, preferem a estupidez à mudança.
«Povos párias» é uma boa designação para os países que colocam o desejo de perpetuação da autoridade à frente da racionalidade dos seus desígnios.

3.«De facto, invejo os paranóicos, porque julgam de verdade que toda a gente lhes está a prestar atenção».

Oh, como os invejo também, coro, tremo, resfolego de inveja. Mas não há ninguém que me lance o mais pequeno soslaio? Que é feito da piedade?

4. Para a Sontag, a literatura era uma espécie de chamamento, de salvação, e era investida de um projecto. Que projecto? Ela responde: «…produzir alimento para a mente, para os sentidos, para o coração. Manter a linguagem viva. Manter viva a ideia de dignidade. Tens de ser um membro da sociedade capitalista do século XX (e XXI), para compreender como a dignidade em si mesmo pode estar sendo questionada…».

Infelizmente a Sontag, aqui, não tinha toda a razão. Também nos países do Terceiro Mundo se sente o assalto à dignidade – isto é aos valores irredutíveis que formam um carácter.
Exactamente porque se perdeu qualquer noção de uma educação para os valores e o meio social pelo contrário multiplica os exemplos de que tudo está à venda neste frágil tecido humano.
Ontem, veio despedir-se uma colega da Teresa, mãe de duas crianças que têm povoado cá a casa. Vão voltar para Portugal, de vez. O marido havia crescido em Moçambique e, anelado pelo afecto, quis vir para ficar. Qual foi a gota de água que os fez decidir partir? Foram passar uns dias ao Tofo, uma praia a 500 km de Maputo, e numa saída à noite com as filhas (de 7 e 10 anos) foram barrados pelo porteiro duma discoteca, que não queria deixar entrar as crianças. O que eles acataram. A mais velha é que não se conformou, tendo acusado a mãe de que não tinham entrado porque «ela não quis pagar» ao porteiro – leia-se subornado. Eles compreenderam que, apesar do esforço feito em casa, era impossível manter as filhas estanques da influência do meio.
Parece uma pequena coisa mas é uma coisa monstruosa, e presente na mais pequena prática do quotidiano, em Maputo.
Há um mês a minha filha foi tirar o seu bilhete de identidade (como moçambicana) e pagou a taxa de urgência. E perguntou à funcionária, “daqui a quantos dias posso levantar o BI?”. Respondeu-lhe aquela, “segundo o que está estipulado, em três dias, mas se a menina não me der mil meticais não vai ficar pronto…!”. Assim mesmo, sem papas na língua, a funcionária, ao balcão, em serviço, exigiu a sua comissão.
Na mesma altura, uma amiga foi levar ao aeroporto um casal amigo que cá tinha estado em lua-de-mel. Na entrada para a sala de embarque, quis acompanhá-los. O que, claro, é proibido, e lhe foi lembrado. Acatou, despediu-se e virou as costas para sair. E ouviu a sugestão da funcionária do aeroporto: «…se a senhora me der dinheiro para o chapa…». A minha amiga saiu chocada com a sugestão da funcionária e a facilidade com que qualquer meliante, terrorista, ou pessoa ruim pode ali penetrar sem custo (enfim, o custo do chapa), contornando a segurança do aeroporto.
Pequenas coisas mas omnipresentes, disseminadas, que vão corroendo os valores, corroendo o carácter e diluindo a dignidade.
Pode a literatura alguma coisa? Sempre é um regime ideal onde se adquirem valores, contra a bagunça lá fora. Por isso, ler (boa literatura), é absolutamente (e de novo) preciso.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

SAUDADE, ou o estado de excepção


Excelentíssimo Presidente do Partido e Primeiro-Ministro de Portugal, dr. Pedro Passos Coelhos:
   trinta e sete anos depois a democracia devia estar digerida, refractada, jugulada, mas como infelizmente nem sempre é o que acontece impõe-se legislarmos, de modo a cortar pela raiz algumas atitudes menos corporativas e que travam o ajustamento do país à sua temperatura axial.
Neste sentido, saudamos daqui a sugestão do candidato à liderança do PS José Seguro quando chama as coisas pelos bois e promete devolver o Partido ao «pomar dos afectos», de onde nunca devia ter saído. O nosso mal foi ao longo dos séculos termos vindo a malbaratar o pinhal de Leiria e outros rincões do nosso afecto luso. De facto, para quê continuar a insistir nas ideias, e múltiplas, que arruinaram ao país, quando afinal podemos obter mais resultados com a corrente dos afectos? O engenheiro José Seguro compreende-nos e só manifestamos estranheza em que continue a posicionar-se na oposição. Oposição a quê, se aquilo que defende é a nossa linha?
Mas, para que não hajam quaisquer dúvidas, sugerimos que se legisle e regulamente, por forma a que não se verifiquem mais desvios éticos como os do Ministro Nuno Crato, ao recrutar para Chefe do seu Gabinete, um socialista encartado, e, o de Tiago Leite, Chefe de Gabinete do Secretário de Estado da Administração Interna, que requereu para seu motorista privado Telmo Correia, que faz parte da actual “Concelhia de Alpiarça do PS”(- imagine-se, por supostamente, por ter dado ouvidos à esposa, mas será tal desculpa?).
Já lavrámos o nosso protesto, que chegou ao conhecimento de Vasco Cunha - Presidente da Comissão Política Distrital do PSD de Santarém – o qual vai ser pressionado por vários militantes para tomar medidas sobre esta situação, posto o desagrado geral, e alguns de nós aventa a urgência em que o caso chegue ao conhecimento de Miguel Relvas, ministro dos Assuntos Parlamentares para uma conclusão definitiva. Porque temos pressa, temos connosco a impaciência do País, que não está para morosidades, e daí que o procuremos sensibilizar para o nosso projecto.
Reunida, a Concelhia Municipal de Santarém deliberou apresentar ao Governo uma série de medidas, que passada a Lei, se tornariam a substância do Futuro e um incremento para uma frondosa Geração Portugal Portugal:
Deixemos que fale a qualidade do nosso projecto e o rigor do elenco das nossas medidas:
«ARTIGO1
Os lugares vagos da Administração Pública, de modo vertical, devem ser integral e inapelavelmente preenchidos pelos membros do Partido ou dos Partidos da Coligação no Poder.
Este é o momento, pois quem ousará trazer mais instabilidade política ao país e trair o acordo com a Troika?
ARTIGO 2
Abra-se um concurso para Arrumadores de Carros, de modo a que também estes não fujam à linha partidária; obstando assim possibilidades de espionagem ou de fuga de informação.
Foi deles que partiu a informação que nos degradou aos olhos da Moody´s. Todos eles têm primos na América.
ARTIGO 3
De modo a não se levantarem suspeitas, todos os membros sem excepção do Partido devem casar com mulheres de outros Partidos políticos; filhas, irmãs ou cunhadas dos seus dirigentes, de preferência. Temos de começar a ser inclusivos.
ARTIGO 4
Admitem-se excepções, se o membro do Partido estiver casado com uma militante do Partido. Contudo, neste caso, o ideal é o sacrifício pelo País e o casal separar-se momentaneamente para a consecução do “trabalho ideológico” que o momento em Portugal exige.
Alargar um pouco o conceito de Família, trazendo ao reduto da Nação um elemento tresmalhado, é o que a História Pátria nos impõe.
ARTIGO 4
O membro do Partido que conquistar a esposa (ou o marido) do membro de outro Partido ficará isento do imposto que recairá este ano sobre o subsídio de natal.
ARTIGO 5
A esposa do militante do Partido que não se inscrever no Partido após 3 meses de casamento deve ser declarada como portadora de Alzheimer.
Os médicos do Partido facultarão as novas certidões.
ARTIGO 6
Deve abrir-se um concurso de heroínas do PSD dispostas a arrebatarem o coração mortiço (vê-se) do candidato José Seguro, uma Padeira de Aljubarrota que lhe estenda a verdadeira pá dos afectos (o que ele procura), recuperando-o para a nossa causa.
ARTIGO 6
O proselitismo será recomendado desde a escola primária e Fernando Pessoa (que defendia que os Partidos Políticos eram “máquinas de reprodução da intolerância das igrejas”) vedado dos programas escolares. Será com vantagem substituído pela História dos Templários.
ARTIGO 7
Os membros dos Partidos da Oposição passarão a ser designados por Ultramarinos, para devolução de uma réstia de sonho, ao mesmo tempo que os despejamos de alguns gramas de realidade.
ARTIGO 8
Será concedida aos membros do Partido a liberdade de escolha em relação ao seu clube de futebol preferido ou ao seu fadista de eleição.
Bom, a fadista Conceição da Imaculada deve ser excluída, por causa do decote.
ARTIGO 9
Os companheiros que vacilarem neste novo rumo devem ser galvanizados pelos militantes que padecerem de convicção, para o que se criarão Células de Reanimação nas Empresas.
ARTIGO 10
Os resultados dos Concursos Públicos deverão ser canalizados para as empresas amigas do Partido, ao mesmo tempo que se apagarão dos dicionários as palavras «nepotismo, corrupção, caudilhismo» e seus sinónimos e derivados para que as novas gerações cresçam purificadas e em boa consciência.
A ocasião é a melhor: repetimos, quem ousará levantar celeumas e faltar ao compromisso com a Troika?
ARTIGO 11
As esposas dos responsáveis dos cargos administrativos de topo (de vereador para cima) só devem ter cabeleireiras, calistas, personal training, motoristas, dentistas, explicadoras de boas maneiras, amigas, cozinheiras e assessoras de imagem que forem do Partido.
ARTIGO 12
Desnacionalizemos os dicionários. Deixemos ao português médio a possibilidade de se assenhorear livremente de um espectro lexical de 1000 palavras. A partir daí a «corrente da língua» passa a ser detida por um naipe de empresas apuradas em concurso e quem quiser alargar o seu leque vocabular terá de comprar um kit.
Parece-nos um verdadeiro petróleo, sr. Primeiro-Ministro.
Esperemos que as nossas medidas propostas ganhem o seu apoio. O País pede, o Partido idem, e o espírito da sua antecessora (que teve sempre razão antes de tempo), a Dra. Ferreira Leite, que pedia que, «excepcionalmente», a «democracia se suspendesse por uns tempos», zumbe em concordância.
O estado de excepção está declarado, só aguardamos o seu consentimento.
Pela Concelhia Municipal de Santarém
(assinatura irreconhecível)

domingo, 10 de julho de 2011

OS OSSOS DO OFÍCIO




I                                        (o mistério da mosca)
As moscas, como os ventos, sempre me habitaram.
As moscas de Sartre, as anti-euclidianas de Córtazar,
a Albertina do O’Neill; as moscas etíopes
enroscadas nas faces dos miúdos,
que tomam por aerogares; o temor
nunca confessado de Gregor Samsa
de jovem e sisudo escaravelho dominado 
pelo pesadelo de se julgar uma rutilante mosca verde;
a voluptuosa mosca de Cronenberg;
a volta-ao-mundo-em-oitenta-moscas;
a mosca que é um epígono do anjo
e a irmã: um anjo transistorizado…

A mosca de Victor Hugo.
Que via Victor Hugo na mosca?
Um ponto de mira para o infinito.

O meu primo, em miúdo, tirava-lhes as asas
e enfiava-as nos buracos das tomadas.
Eu era menos cruel e inventei
as moscas-fantasmas, polvilhando-as de farinha.

O que é a paranóia senão uma mosca telescópica
voejando em torno de certas palavras saturadas de açúcar?
Poder-se-á, a propósito das hipérboles da mosca,
falar de uma estética restrita?

Uma vez comprei um casaco de cabedal
numa loja de roupa em segunda mão
e fui perseguido por um zumbido durante cinco horas,
até que descosi parte do forro e vi
que uma mosca se escapulia. Que probabilidades
havia deste fenómeno acontecer?
E porque raio a mim, que fui sempre atraído
pelos mistérios da mosca?

O drama da mosca é ser um estar-aí
sem nunca lhe caber o ensejo de um estar-em-si.
Daí estar tão mal equipada: o seu horizonte
visual não ultrapassa o meio metro
e a sua percepção visual não tem a acuidade
necessária para topar a teia de aranha,
literalmente invisível para o desprevenido díptero.
Talvez seja este pormenor que liga a nossa condição
à da mosca: ela não vê a teia como nós
não captamos a urdidura viscosa com que o futuro
nos atrai e lixa com a sua lixa para ferro.

A mosca é um hiato na eternidade
ou o excremento do vento? 
Pressinto que a mosca é uma luva
que nunca encontrou dedos.
Toma e assina, por baixo.


ii
O Tejo já foi mais poderoso que os fulminantes
da minha infância. Quando os cacilheiros baliam
no nevoeiro como cordeiros amedrontados
e as vagas recortavam o dorso de um animal adormecido. 
Não havia radar e as histórias de naufrágios secavam os olhos.
Era muito raro, à travessia, despregar o silêncio dos cascos de espuma.
A lembrança do terramoto de 1755 e da fúria
que o rio semeara até ao Rossio acentuou o meu respeito
pelo estuário e firmou uma certeza: o Tejo
tinha seiscentos metros de profundidade.
Os anos aquietaram as águas e o Mar da Palha
marinou de cordato, virou maricon.
Mas nada me preparou para a chapada que levei em 95
quando me mostraram uma carta topográfica
onde se desenhava um charco que na sua máxima
profundidade atingia os 40 metros.
Valery, mais avisado, diria que a profundidade
está na pele, mas o drama é que ninguém escapa
de recolher os cacos das suas decepções.
Os safios passaram a ser espécimes de aquário –
os ferrys cresceram em segurança e infalibilidade.
As nuvens sobre o rio emurcheceram em telões.
E pelo meio houve um sacana que me abordou
com escárnio: mas tu, quando chegas de avião,
não vês os galeões no fundo?
Em miúdo, contava-se, um rapaz perdeu
a mão num rebentamento de fulminantes
– parece-me mais bravo que a fatalidade
de morrer atolado numa banheira.   


iii 
O meu avô paterno coxeava. Em casa usava-se
a expressão bicos-de-papagaio com mais assiduidade
que amor, levas um tabefe ou atenção miúdo. Recordo-me
do meu avô entornar três ou quatro favais
de seguida e alegrete provocar uma das suas irmãs
de culto com a hipótese de Deus sofrer de espandilose.
O meu pai também foi mordido por um joelho,
o direito, até aos 35 anos. Inchava-lhe o joelho,
deixando-o a coser em dores toda a noite.
Um dia alguém lhe falou nas propriedades
da argila e, de facto, com pachos diários de barro,
a enfermidade secou. Não liguei mais aos ossos
até que a discutir ópera, afincadamente,
com um amigo, este, num arrebatamento wagneriano,
me deu um leve empurrão e me vi em trajectória
de voo, aterrando de ombro contra o lancil
de uma caldeira. Estilhacei a cabeça do úmero,
que ficou com o pasmado desenho da foz do Nilo.
E então compreendi finalmente que Bernard Noel,
num poema, aluda a uma “tente d’os” (tenda de ossos),
porque abaixo do tecto do céu, abaixo do tecto
de ossos – somos espuma e estamos tenazmente sós. 


iv
Enlouqueceriam os objectos, se fossem tocados
como os sentimos? O primeiro objecto que recordo
é um avião de lata, embrulhado em celofane e abandono.
Porquê em celofane? E de que matéria é o abandono?
Mistério duma plasticidade tão inesgotável
que só tem par na sobriedade angélica.

O primeiro vínculo: um avião de lata.
O que talvez tenha origem na minha denegação
radical: jura a minha mãe que eu teria rejeitado a mama.
Hipótese difícil de validar, pois que irreparável decepção
leva um nascituro a aderir à fotossíntese?
Mas, ela jura! Eu, até onde a reminiscência labora,
só confirmo que um toque de lata se apega ao jeito da mão.
O meu primeiro toque.

E teria nascido com a minha irmã, aos três anos,
a irrefutável sensação de abandono?
Sobrava um intruso em casa, uma criatura alada,
reclamada de mão em mão, armada de fralda,
pulmões, vagidos de aço, e com regurgitos no lugar dos élitros.
Levei dias a lançar o avião de lata sobre o berço,
num arremedo de bombardeio.

E não é que falhei, na mira e na aviação?


v
A minha timidez escorre em chuvas ácidas,
com efeitos retroactivos. É uma bagagem
que não se despovoa, nem muda de cabide
com a idade. Ao fim de décadas de prática
é difícil a um tímido destrinçar o que separa
a timidez dum travestimento da cobardia
– mas que se torna um campo
de restrições, é indubitável.
Hoje li a seguinte manchete num matutino:
“Nos EUA, ataque cardíaco prolonga a vida
dum condenado à morte” e apercebi-me
que estava diante da tipologia do paradoxo
que um tímido encarna – a vida embarga-o
tanto que muitas vezes se apanha a desejar
a desculpabilização dum enfarte.
Um tímido tem sempre a resposta na ponta
da língua: o seu drama é viver aquém
da personagem, desinvestir antes de tempo.
É um céptico, apesar de si.
A timidez arrastou-me toda a vida
por desventuras tremendas. A história
do meu primeiro beijo é o espectáculo
de uma crisálída a devorar a sua borboleta.
Lábia não me faltava mas quando chegava a hora
da prova... falava da morte. Carregava fundo
num contorcionismo existencial que, coitadas,
no esplendor avícola dos treze, catorze anos,
as retorcia em náuseas. Rapidamente
me regurgitavam e eu - no fundo aliviado,
visto intuir que a espera para a levitação
de um beijo admite uma tolerância mínima –
acusava-as de frivolidade.
A minha dúvida era técnica – sobre
o exacto manejo da língua, que áreas da boca
ocupar, se o objectivo era escrever em morse,
com a língua, no palato dela «amo-te»,
ou se despontariam cãibras na língua,
em pleno acto... Um mundo de dúvidas
que, diziam-nos, não se confessa
a nenhum adversário. E para isso
havia o cinema. Todos os domingos palmilhavava
7 km até ao Porto Brandão para beneficiar
da vista grossa do porteiro dum cine-esplanada
onde os minorcas podiam entrar nos filmes para 18:
era o meu hangar de beijos.
Os tímidos são hoje no mundo
os que acreditam e esperam por um milagre,
o milagre da incontinência.  




vi

Nascemos sob a laje de uma atmosfera.

De ano para ano outras se equilibram

no estirado músculo cardíaco,

às vezes sem barra, pelo puro arrojo da fé.

Quando ninguém aplaude, as atmosferas
encarquilham, recolhem ao cofre
dos nomes convertendo-se em miasma.
Se no último instante uma palavra
acudisse ao trespasse compreenderíamos
que morremos como ostras ou como
aquela luva que nunca encontrou mosca.


A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS V


3
L’ EXIL

1

Às vezes, a vida admite evasivas. Escolhi a Suiça por dois motivos. Ao contrário do que se diz, é país sem cucos. Não tem cucos. Nada me enerva mais que um pássaro que só martela uma sílaba. Nos Alpes, aos primeiros nevões os cucos caem maduros como fruta cristalizada… Deixe-me apanhar aquela beata… Não se deve deixar o fogo morrer… Hum, e queria visitar o túmulo de minha mãe.
A minha origem é franco-húngara. Já adivinhou: judearia. O meu pai, Dominique Le Beau, um garboso antiquário francês, com muitas ligações na Áustria e na Hungria, conheceu a minha mãe em Budapeste, a filha de um colega seu com quem negociava relógios antigos.
O colega ainda hesitou, posta a diferença de idades. Uma posta salgadíssima de preconceitos por demolhar, pois o meu pai tinha uma fina estampa, e não este caco que aqui vê, e aos 40 era ainda flor para inebriar a primeira cachopa de 24 que se desse ao trabalho de cheirá-la. Mister sem dificuldade para a minha mãe, de quem herdei o apêndice.
E então o velho deu o xeque-mate e ofereceu ao futuro sogro um relógio de especiarias do século XVII. Na época em que a iluminação caseira se fazia a velas e não se dispunha de fósforos, a leitura das horas, no escuro da noite, podia constituir um problema espinhoso. Em França, Monsieur de Villayer, há gente que até a espirrar tem génio, projectou um relógio cujo mostrador tinha encastoadas, no lugar dos números, tipos vários de especiarias. De noite, Monsieur Villayer sugeria que se tocasse com um dedo o ponto indicado pelo ponteiro: as horas eram validadas lambendo o dedo. Hora do cravinho? Três horas. Olá, sabe a piri-iri! Seis horas, tenho de despachar-me… Foi tiro e queda: quem não troca uma filha por uma gorjeta gastronómica?
Disposta a minha mãe, profanou-lhe o meu pai com denodo a fonte e os jardins perfumados.
E nasci eu, precoce. Precoce em tudo menos na fala. Durante três anos não proferi um ai, para desespero dos meus pais. Não emitia um som, como se tivesse nascido na altura do mudo. Nunca decifrei este enigma, eu que sou um adiantado mental. Ultimamente, carteei-me com Grotsteen, o homem dos buracos negros na mente mas de pouca utilidade me foi.
O desprevenido do meu pai transferira os seus negócios para Budapeste às portas da Guerra, e em 43 percebeu finalmente que os astros de Hitler lhe eram desfavoráveis. Havia que arrepiar caminho.
Foi uma aventura, de cuja primeira parte nada recordo, mas, dizem-me, rocambolesca. Marchávamos já em solo suíço, nas montanhas, a dez quilómetros do destino, e eu começo a dar sinais de agonia.
Agoniava-me o branco.
Sou, de nascença, muito sensível às cores, dizem-me que agarrava os objectos por causa das cores e não pelas suas funções. Os garfos tiveram de os pintar de encarnado e os pratos de amarelo, eu recusava-me a comer em faiança branca. Nos Alpes, sentia-me esquartejado por quatro ginetes cor de leite. O meu pai, se contava o desespero que então me entreviu nos olhos, enchia os seus de lágrimas.
E então saiu-me o primeiro grito. Mãããaaaeeeeeeeeeeeeeee, um grito esganiçado mas intenso, brutal, capaz de fazer o escalpe ao do Munch. O meu grito reboou num eco que se prolongou interminável por causa da avalancha que se lhe seguiu.
Só eu e o meu pai nos salvámos, no cimo de uma árvore, a minha mãe ficou sepultada. Como quem diz. Misteriosamente nunca mais lhe apareceu o corpo.
Entende agora a minha segunda motivação para a escolha da Suiça: descobri-la sob o gelo como a Ofélia de John Millais.
Depois da morte de minha mãe, o meu pai não admitia permanecer naquele solo, e acabámos por aterrar em Tomar, onde ele manteve um pequeno antiquário. Pelos meus 10 anos, às vésperas de partirmos para Paris, o meu pai foi convulsionado por uma trombose que o deixou meio tolhido e incapaz de falar, e eu acabei por crescer sozinho, pelejando com os fantasmas dos Templários.