quarta-feira, 29 de junho de 2011

PRESS RELEASE


CONVERSA DE ANTÓNIO CABRITA COM O SEU GATO
SOBRE O CURSO DE FILOSOFIA E ARTE
NO INSTITUTO CAMÕES, DE TANTOS A TANTOS
(INFORME-SE HOMEM, A CURIOSIDADE É O PRIMEIRO PRATO!)

Refila o Sebastião:
- Não sei se gosto do nome que me deste… Sebastião.
- Sebastião era o nome dum jovem rei português que perdeu uma batalha tendo com isso levado a que Portugal perdesse a independência durante 60 anos. Mas como o seu corpo nunca apareceu pensava-se que esse rei voltaria para libertar Portugal num dia de nevoeiro. Ora, como a ti, meu gatão, também ninguém te ouve chegar, parece que chegas sempre envolto em nevoeiro.
- Então porque não me deste o nome de Bruma? Sempre era mais inventivo.
- Tens toda a razão, é esta mania da antropomorfização, chegou-me com os gregos. Os gregos davam a tudo as características do homem, até aos deuses…
 - Só me falta dizeres que eles inventaram os seus próprios deuses?
- Ah, já sabias?
- Não posso, é verdade isso?
- Para muitos estudiosos sim, os deuses gregos eram projecções das qualidades ideais dos homens, formas de interpelação de cada um de nós com o melhor de si representado numa figura, mas os africanos também fizeram isso…
- Aldra…
- Estás-me a chamar aldrabão? O animismo africano é uma forma de antropomorfização, vê como nas histórias tradicionais africanas o coelho, o leão e o elefante falam e reflectem os problemas dos homens…
- Eu não tenho nada a ver com gregos.
- Estás enganado. Muitas das histórias orais de Cabo Delgado são iguais às fábulas de Fedro. Ora, os macondes não lêem grego. Nem os gregos a língua dos macondes. Ou essas histórias chegaram aqui por contágio, ou os homens em qualquer lugar, face aos mesmos problemas, oferecem respostas semelhantes com uma variação mínima. Na verdade temos todos os mesmos números de ossos. E por isso cada ateniense é um maconde potencial e vice-versa.
- Mas porquê um curso de filosofia?
- Se, contra qualquer bom senso, eu me ponho a atravessar a estrada num momento de grande fluxo de trânsito é porque decidi primeiro que a vida não vale a pena sem o risco, e resolvi enfrentar o destino, o que os antigos chamavam Fatum. É um jogo, onde enfrento o inevitável. Sem saber estou a encenar o começo da Tragédia. Em todas os nossos gestos do quotidiano, em todas as nossas acções existe uma escolha onde damos um significado à nossa narrativa, e nisso, sem o sabermos estamos a questionar o que está para a trás, as causas, e a abrir um novo espaço de virtualidades no futuro. Isso é filosofia…
- Balelas, se quero atravessar a estrada nessas condições é apenas porque estou com pressa.
- Ora enganas-te. Não existe a pressa, existe apenas a adequação do ritmo ao acontecimento, e isso chama-se o Kairos, como na parábola da figueira no Novo Testamento. A figueira não amadureceu a tempo e quando Cristo passou por ela não havia figos e por isso ela perdeu aí o encontro com o numinoso, que era como os antigos chamavam ao Sagrado, e perdeu a sua Salvação. Se tu atravessas a estrada com demasiada pressa, sem te ajeitares ao ritmo do fluxo podes ser atropelado, mesmo que vás com pressa tens de coordenar com a ocasião… esta sincronia é também uma chave filosófica, só que tu não sabias.
- Hum. É isso que vais ensinar?
- Transmitir, ou antes: insinuar. Ensinar não é possível. Não é possível transmitir a experiência do sarampo pelo telefone. É preciso estar infectado com o sarampo para compreender. Mas enfim, tenta-se…
- E porquê a arte?
- A arte é o que faz a um gato parecer um tigre na sombra.
- Queres tu dizer que sou um tigre?
- Eu acho que és um tigre que sonha que é um gato.
- Já me estás a confundir.
- É bom estares confuso, é dessa nuvem que saem as luzes.
- Eu cá quero ver tudo claro.
- Erro, ver claro vêem os cegos, os outros aprendem a discernir… É aí que tudo começa.
- É caro o teu curso, no Camões?
- É quase ao preço da chuva, é um Curso Livre. Esse quase que se paga é o que dá dignidade à chuva. Mas é barato, para poder ir quem quer ser infectado.
- E qual vai ser o prato?
- Cem gramas de Pitágoras, duzentas de Platão, uma pitada de Aristóteles e para a sobremesa Plotino com banana frita. E tem imagens e filmes à mistura.
- E africanos, não falas de africanos?
- No quinto módulo, aí é só África. Do Egipto até ao Achille Mbembe.
- Hum, não sei se vou.
- É pena, vai ter gatas.
- Gatas?
- Onde há filosofia há o Eros, o elo da atracção mútua. É o que o Platão ensina no «Banquete».
- Hum, isso não te dá fome?
- Vamos lá então ao nosso pequeno-almoço. E dou-te um brinde para ruminares com a torrada, é do Heraclito: «aquele que não espera pelo inesperado, não o verá chegar».

DEZ QUATUORS



LÍVIDA NEVE

Sim, o pavor faz-me revirar os ossos
que chiam gemebundos como as lágrimas
de cão que limpam as ramelas à lívida
neve, que nunca exagera.


O SEGREDO

Adejava de terra em terra
sobrevoando as linhas restritivas, lagos
e lameiros, em busca do segredo
que o liquefazia numa árvore.


O QUE SOBRA À PORTA

Eis a porta que se abre para dentro
de si mesmo, contundida, à cata
de orifícios que a aliviem de estar tão absorvida
pelas sensações que lhe deixaram a batente.


TATUAGEM

Corria atrás do vento
para lhe tatuar no dorso a toutinegra.
corria atrás do vento, escorreita
e nervosamente prismática.


COM GANAS

Já o passado exibia ao ombro
a minha pele esfolada
e daí, se não se importam,
com ganas me escapuli pró presente.


O BETUME

O betume impermeabiliza.
O nome não. O vento também não.
Há três dias que os pássaros comentam isso:
algo impermeabiliza o que não sabem designar.


DA INVISIBILIDADE

Lá se haviam estabelecido beduínos.
A bem dizer, lá continuam a brotar os beduínos,
ainda que ninguém o saiba. Perguntei à miúda
que me serve a cerveja - nem cerejas nem beduínos.


PULSAM

Quando a fenda se rasga no horizonte
a dança compõe a aridez da paisagem
e as tuas pernas, expansivas,
numa fímbria de saliva, pulsam.


DELAGOA BAY

Não há surfistas em Delagoa Bay. E, nela, rara-
mente mudam as copas dos coqueiros em hélices
destemperadas, como oráculos no vento.
Por isso se calaram os tambores.


O BEIJO-DE-MULATA
                                                               à dita
Reincidente, floresceu o beijo-de-mulata,
naquele canteiro. É um milagre, numa terra
que continuamente se revolve, mais presta
à erosão que uma fieira de cometas.

domingo, 26 de junho de 2011

A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS III



4

Calhou-me a mim, a rifa. No Vává*, o Chico Antunes, o pássaro-bisnau, que era comissário de bordo na TAP, apresentou-se lamentoso porque os voos cheios do fim de ano lhe haviam trocado os turnos, lixando-lhe a concertada dessa noite na Gulbenkian, e já tinha os bilhetes comprados. O programa, lia o pássaro-bisnau, pomposo, compunha-se da peça para ballet com que Stravinsky fechou o seu período neo-clássico, Orpheus, e de duas obras de Robert Gerhard, Set Haikai, e Pandora Suite, também esta escrita para uma pequena orquestra de ballet.
O Alberto e a Solveig** escusaram-se, andavam numa fase de ‘música concreta’ e não queriam contemplações com «o reaças» do Stravinsky. O Lopes*** tinha plenário de trabalhadores na RTP. Eu, danado para as contemplações e as borlas, e ciente que a ressaca com que acordara nesse dia não me deixaria ir mais longe, chamei a mim os bilhetes.
Orpheus – delicado, ovos de borboleta e limões amarelos - fez-me entender que o estampanço de Almada no painel do átrio da Gulbenkian é um declive que não é só dele. Na arte, apenas a música pode aplicar o número de ouro sem sufocar no esquema. A divina proporção fazia daquele morceau de Stravinsky um airoso passeio pelas dunas, à cata de conchinhas e de estrelas do mar. O ideal para uma ressaca.
Nos Set Haikai passei pelas brasas. Falta à miniatura japonesa a gordura que faz da picanha um menu e que entreabre o barroco ao infinito. É como a pintura minimal, aprecio num museu mas um Rotkho na sala (apesar da temperatura, é o que mais aprecio nele, o revérbero quente que dá às cores) actuaria sobre mim como a tsé-tsé. A música era bem composta, magnificamente estruturada, capazmente interpretada, mas sem a outrance que me faz alçar o ouvido.   
Contudo, anagrama de conduto, senti aos primeiros acordes de Pandora que a minha ressaca tinha encontrado a sua retrete turca. Não há violência como a que experimenta o que apanhou uma carraspana na véspera se a retrete da baiuca onde combate o torpor das veias a cafeína e água com gás é turca. Tal abaixamento do centro axial do corpo aliada à baixa tensão arterial provoca uma despressurização que desequilibra o mais pintado. O primeiro andamento de Pandora, The Quest, exercia esse tipo de efeito. Era uma vertigem sem princípio nem fim, de um desamparo abisal, como dizem os espanhóis, o que o Gerhard nunca deixara de ser. Sentia-me a respirar sob quatro ou cinco atmosferas; o pânico, sentado ao meu lado, abria a navalha para o descasque. The Quest era le morceau idéale para a centuplicação do drama no ataque dos pássaros em Hitchcock.
Felizmente que, em Psyché and the Youth, o 2º andamento, o piano abrandou a vertigem e à entrada das flautas eu já recuperara o sangue frio. Pouco ouvi (sobreponha-se aqui a voz pomposa do pássaro-bisnau) das variações orquestrais ao Ad Mortem Festinamus, cançoneta entoada pelos peregrinos do século XIV que visitavam o mosteiro catalã de Montserrat: a minha desesperada análise do que me acontecera nos minutos precedentes atirara-me para milhas dali.
Fui então tocado por uma luz e empanzinado por uma ideia que à época me parecia estupidamente nova: os perigos de Pandora não chegavam da sensualidade bruta e desregrada, da licenciosidade dos costumes sob influência súbita dos raios gama nos aparelhos reprodutores dos Faustos & Margaridas desta vida, o que se destapa na caixa de Pandora não é o intenso cheiro a sexo que nos exalta e atrapalha, mas o fedor da amnésia com que as sociedades modernas querem esconder a morte e exaltar a juventude.
Levantei-me, de supetão, na plateia, e gritei três vezes Eureka, precisamente à entrada do terceiro andamento, Pandora´s Carnival, mas a minha sintonia não colheu o apreço dos chatos dos arrumadores e seguranças, que me convidaram a sair. E o público, diga-se, bardamerda para o público… foi conivente.               
Dois dias depois… ainda me arrepio, de contar. Se contar se fundisse com o que aconteceu seria proibitivo fazê-lo pois as retinas dos leitores seriam respigadas por cal viva.
Faltavam duas horas para o ano novo e não se via vivalma na cidade, só os mânfios, os cães sem dono e os tesos como eu. Arrastava-me pelo Largo da Misericórdia, de montra em montra de alfarrábio. Cismava em como havia de desviar alguns dos tomos expostos, e, só por descargo, dei uma espreitadela no Expresso, rezando por companhia. Nada. Tinham-me deixado sozinho. Cravei ao sr. Carlos uma bifana e uma lourinha, bebi a fiado mais duas, e resignei-me a voltar para casa.
Curvei para a Trindade*** e ao passar na esquina da Opinião**** chama-me um polícia.
É o senhor João de Deus?
E daí?
O senhor desculpe, como costumo vê-lo por aqui…
E os pombos também…
Temos uma chatice e não temos mais ninguém para identificar… o morto.
‘Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los’.
Que diz?
Nada, disse-lhe eu acendendo o cigarro, pensava em Pessoa… Que morto?
Um senhor que costuma estar nesta casa, com os senhores.
Aqui na Opinião?
Sim.
Aqui só há cães e cachorros…
Não é assim que lhe chamam, sei que ele tem a alcunha de um animal mas não é cão…
Lá tive de acompanhá-lo à morgue. Não ia totalmente contrafeito. O relato circunspecto daquele fim de ano sempre me daria para um mês de cravanços.
Entrei na sala frigorífica e havia um corpo coberto em cima de uma mesa de alumínio.
É este, indaguei.
Não, o sr. Enfermeiro vai abrir a gaveta.
O enfermeiro abriu a gaveta frigorífica e vi logo, enquistado em sarilhos, o Cabeça de Vaca.
Estava a pedi-las… - deixei cair, num encolher de ombros.
O senhor confirma que o conhece?
Apeteceu-me brincar:
Não sei, deixe-me ver este, a ver se não há engano.
Num puxão puxei o lençol, para os pés do cadáver.
Senti um pontapé no esterno. À minha frente, nua, estava Ofélia, a Ofélia pintada por Sir John Everett Millais. De uma beleza que a aguarela da morte apenas intensificava e que agora me deixava a vida tão sedentária e vazia como os guindastes do porto. Fora uma infâmia a vida ter-se esquecido de me colocar na rota dela, pior a perspectiva de, aurora sobre aurora, entreabrir os olhos e não ser o guardião da morta. Seria para sempre o que não nasceu para isso. Não sei se me entende: não a queria ressuscitar, que para tal se me dissiparam os dons. Nem esconder a sua morte. No caso dela não era necessário: a sua imagem abria uma brecha na morte, sem ter de a iludir. Aquela resina fria que alastra sob a pele dos mortos e os enrijece como mármore, não ia ter efeito com ela, a luz que a sua pele emitia não mentia. Você sabe o que aconteceu ao Pessoa, quando lhe abriram a túmulo para o trasladarem para os Jerónimos, cinquenta anos depois do falecimento? Estava inteiro. Teve de ser cortado às postas, como o bacalhau, para caber na urna que lhe fora reservada. Era o que lhe iria acontecer. Queria andar com ela, de cidade em cidade, para que vissem que a morte não é o fim, que não precisamos de fingir e que a beleza pode existir para além dela. E que o pecado só enodoa quem não colheu amoras, nu, à beira de um regato, enquanto por cima flauteiam os primeiros acordes do Don Giovanni. 
Com dificuldade, gaguejei para o polícia:
Este é o meu morto.
O sr. João de Deus não está a compreender. Trouxemo-lo para identificar aquele senhor…
O idiota estava morto há muito, este cadáver está tão vivo que me deixa… morto para sempre…
O polícia tentava levar a coisa a bem.
Diga-nos só como se chama aquele falecido.
Sei lá, não compreende, homem? Eu agora sei que morri, que não há nada depois disto…
Enregelava dos pés à cabeça. Sabia que se a onda fria me chegasse ao coração eu encomendaria a alma aos pinguins. Era preciso reagir, e pus-me aos gritos com o polícia:
Saia… saia…
Ele fitava-me, siderado. Insisti:
O sr. Agente importa-se de sair?
O polícia esboçou tirar o cassetete do cinto e eu antecipei-me, esmurrando-o. Aviei-o num instante, tinha aprendido tudo com o James Cagney, e pu-lo fora da sala frigorífica, mais ao enfermeiro, um medricas.
Depois fechei a porta por dentro e tive uns momentos de recolhimento diante da alameda de frésias que a contemplação do seu corpo se me abria; aquele anjo estava nimbado por um brilho, uma harmonia que nunca mais entrevi. Estremeci, a pensar no que seria aquela alma de olhos abertos.
Começaram a arrombar a porta. Tive de me decidir. Abocanhei-lhe o sexo, frio mas majestoso, e à dentada arranquei-lhe alguns pêlos púbicos, que recolhi depressa no bolso pequeno das moedas, antes de rebentarem com a porta e de me prenderem os movimentos.

Foram meses de pranto, os olhos secos para o mundo. Aquele anjo deixara-me pregado na ombreira do inferno. Não foi por passatempo que Pessoa escreveu, Grandes são os desertos e tudo é deserto. E ele só conheceu uma ténia chamada Ofélia, não esbarrou na legítima.
Felizmente que o João César faltava a quase todas as promessas que fazia, pelo que não iria precisar de mim tão depressa.
Errava de autocarro, sem destino, de uns para outros, o dia inteiro, como uma caligrafia que cospe em si mesmo até se esborratar. Não queria ser visto, voltar a fixar os olhos em mais ninguém.
Um dia, ou antes, no dia 1 de Maio de 1976, o autocarro, que subia a Joaquim António Aguiar, engasga-se na multidão que descia das Amoreiras para se juntar à grande manifestação dos trabalhadores que ia ter lugar, e dali não saiu. Desci, vi que para cima e para baixo era a mesma mole humana densa como um mal-entendido, e no meu passo de sonâmbulo fui em frente, na direcção do Parque Eduardo VII. Acabei por desembocar à entrada da Estufa Fria, que não visitava há anos. Estava fechado (- o 1 de Maio ainda é feriado obrigatório, vai uma aposta em como em 2012 isso muda?) mas um dos guardas não escondeu o maço de cartas que tinha na mão e num impulso, o meu primeiro sinal de vida de há meses àquela data, perguntei se podia alinhar na jogatana. Lerpa. Jogo em que defenestrei muitos. Passadas duas horas trocava as lecas acumuladas – os gajos, baratinados de todo – por um passeio nu, na Estufa. Eles galhofavam, incrédulos, mas era alinharem ou depositarem na minha mão um terço do ordenado. Antes o passeio do louco.    
Serenou-me aquela luz coada de verde no meu corpo nu, o refrigério de alguns recantos, o transpirado silêncio da clorofila. Acabei por adormecer, como Adão, deitado num banco à sombra de uma piteira gigante.
Seriam cinco da tarde quando me acordaram:
Tens de te pirar, vamos mudar de turno.
Desci pela rua de Santa Marta e no cruzamento com a Rua das Pretas vi que um afluente da manifestação desviava da Avenida e subia para virar à direita, metendo pelas portas de Santo Antão. Era um grupo ordeiro de formigas no carreiro e intrigava-me a marcha compassada de silêncio, sobretudo vindos de um ruidoso metralhar de palavras-de-ordem.
Chegando ao edifício do Coliseu, a maioria punha um ar subitamente comprometido e, torcendo o pescoço à esquerda e à direita na busca de discrição e de uns gramas de invisibilidade, entrava numa porta barrada por um tecido vermelho. Acima das cabeças lucilava um tubo de néon verde e, em esmeralda, o nome da casa: Bar 25*****.

Fachada do Coliseu, o Bar 25 ficava na última porta, à direita, entrava-se franqueando uma cortina vermelha
Entrei. A atmosfera era glauca e num pequeno balcão forrada a napa vermelha, ao canto esquerdo, compravam-se umas fichas que custavam exactamente vinte e cinco paus. A ficha dava acesso a umas cabinas, donde, de vez em quando, saíam homens com o ar encantado de terem sido vacinados contra a morte.
Perguntei ao tipo do balcão, apontando as cabinas:
O que é que temos aqui?
Um peep show.
Que consta em?
Nas minhas costas, uns miúdos riram com a minha ignorância. Um deles esclareceu-me:
Se tiver alguma coisa contra uma boa sarapitola, dê o seu lugar aos novos.
Há décadas que não ouvia aquele termo: sarapitola. Sorri:
… compreendi… - Dei uma moeda ao empregado – Dê-me lá uma ficha, quero estar a par das novidades.
Esperei por vez. Era o sétimo da fila e o único que não estava a fumar (tinha a bolsa nas encolhas), restava-me o desconcerto das mãos no justo momento anterior aos jogos malabares.
Os homens saíam das cabinas num estado de enigmática gratificação. Não me ocorriam sarapitolas com tais efeitos, a não ser nas primícias, quando o corpo é ainda o continente negro que a catana desbrava. Ver para crer.
Finalmente vagou a minha cabina. Pus a ficha na ranhura e a porta abriu-se magicamente. A cabina estava forrada de alcatifa escura e tinha uma cadeira diante da janela de vidro. Sentei-me e fixei a cena, que me estarreceu.
Uma rapariga de cabelo comprido, ondulado, sobre os ombros e olhar plácido, enrolada num manto, velava um bebé deitado sobre palhas, numa improvisada cama de cruzetas. O bebé dormia, mas de vez em quando agitava as pernas como se no sonho fugisse da subida da água na praia. A dado momento, ela fitava fixamente o vidro e, tal e qual a ventosa de um polvo, palpava o nosso olhar. Literalmente. Irradiava uma paz que descia pelo tronco e nos fazia arfar. Então, num recato, lentamente, subia o manto sobre a cabeça. Misteriosamente, senti-me acossado por um espasmo. Assustei-me quando atrás de mim, na cabina vazia, ouvi mugir uma vaca e senti o hálito quente de um burro. Saí da cabina confundidíssimo, mas nimbado por uma sensação de perdão.
Como falar desta experiência? Fiquei cá fora, a digerir o que me tinha acontecido e a observar os homens que saíam do Bar 25. A todos aparecia a Nossa Senhora, vestida, imaculada, ilesa de sexualidade? Teria sido perfurado por uma alucinação? Como explicar a flagrante tensão, o cuidado, a crispação à chegada, e o ar descongestionado, relaxado, levemente beato, que exibiam à saída? A maior parte, homens curtidos, de boina aos quadrados e bigodaças sombrias, calejados pelos solavancos de um país clivado em heranças atávicas e dogmas revolucionários, entrava de cenho cerrado e saía como se asas escondidas lhes acabassem de nascer nas axilas.
Resolvi esperar por ela, segui-la, decifrar o enigma. Era, à altura, uma experiência inconfessável e só agora, quase trinta anos depois, falo disso sem embaraço. Mas intui ali que toda a agitação política da época não passava da espuma abaixo da qual se movimentavam as verdadeiras correntes. Estava tudo perdido, os homens no fundo só anseiam pela estabilidade perdida.
Era ela. Apesar da minha determinação, das ganas com que a seguia, os pés, que lhe pairavam sobre o chão respondiam às minhas acelerações, mantendo-a a uma invariável distância de mim. Quinze metros me separavam do enigma, quinze metros que não conseguia encurtar.
Apanhei o eléctrico atrás dela, mas nem lá dentro me consegui aproximar, uma estranha reacção magnética impedia-me. Saí atrás dela, em Pedrouços, e seguia-a na direcção do cais. Perguntei na bilheteira para onde ela comprara bilhete e pedi um para mim. O destino era a Trafaria. 
Na Trafaria segui-a pela cerrada malha labiríntica do bairro dos pescadores, até ter entrado dentro de um pátio. A noite pusera-se. Uma noite de lua nova, escura. O pátio servia quatro casas e seccionava-o três compridas cordas com roupa estendida, mas apesar das luzes acesas e dos rumores das televisões ligadas não se via ninguém. Na casa da direita acendeu-se uma luz, era a casa dela. Esperei cinco minutos e a coberto dos lençóis e toalhas de mesa estendidos, confiado no negrume da noite, avancei.
As cortinas eram de musselina transparente, mas apesar dela tomar banho, numa tina de água, a sua nudez nunca seria comparável à de Valéria Messalina. Aquele corpo harmonioso não fora contagiado por ideia de volúpia; partilhava a inexplicável mansidão da banhista de Ingres. Escondido, sentia crescer em mim a dor cruciante de divisar uma roseira sem espinhos. Apetecia-me, em nome da humanidade, tirar desforço; derrubá-la, devassar-lhe as guaridas do corpo, semeando-lhe na sombra um desejo arrebatador, pegajosamente sexual. Mas algo me inibia, decididamente do meu contacto com aquela mulher indecifrável nunca se diria: «o velho bode lambe o sexo da cabra».
De repente levantou-se, embrulhou-se numa toalha, e desapareceu. Esperei algum tempo, nada acontecia. Só por curiosidade, encostei a mão à porta e, para espanto meu, ela abriu-se. Assomei a cabeça e, acabei por penetrar no corredor escuro. Não se ouvia vivalma, embora despontasse luz num aposento ao fundo do corredor. Entrei no quarto com a tina. Fui espreitar a água. Milhares de reflexos de olhos gulosos boiavam à superfície. A água que lhe escorria do pano molhado que comprimia nos ombros, limpara-lhe a pele da conspicuidade de uma tarde de trabalho, largava-lhe o lastro. Reconheci naquela alcateia de olhos ébrios de desejo os meus. E no meio, junto à menina do meu olho direito, boiava um pêlo castanho claro, de uma zona do corpo que me é particularmente cara. Meti a mão em concha e resgatei esse exemplar único. A mão tremia-me. Um barulho vindo do fundo do corredor fez-me abrir a janela de guilhotina e sair de um pulo.
Desde então, como Calígula, sonhei repetidas vezes que conversava com o espectro do mar. 

*Vavá, café nas Avenidas Novas, que foi o poiso certo da geração de cineastas dos anos 60
**Alberto Seixas Santos e Solveig Nordblund, dois dos cineastas dessa geração, que nessa altura eram um casal
***Trindade, a mais famosa e maior cervejaria de Lisboa
****Opinião, na rua da Trindade, antiga livraria e galeria, em vários andares e com bar no último andar, onde hoje fica a sede da editora Cotovia
*****Bar 25, um bar de peep-show e de streap que se localizava no rés-do- chão do edifício do Coliseu em Lisboa, e muito famoso em 75 e 76  


MELHOR MADRINHA DE GUERRA NÃO HÁ

Há uma prática dos Gabinetes de Atendimento às Mulheres e Crianças Vítimas de Violência Doméstica na polícia moçambicana que é no mínimo surpreendente.
 As vítimas, depois de três dentes quebrados, um olho arrombado e um braço ao peito, vão à polícia fazer queixa e esta, em vez de proceder ao acto, dá-lhes uma intimação para entregarem ao agressor.
Portanto, elas entregam ao marido violento a prova da sua delação.
Muitas delas depois não chegam a ter tempo de passar de novo pela polícia, vão directamente para o hospital.
É o que me lembra o comportamento de Mário Soares: depois duma campanha de corpo e alma ao lado de Sócrates, como musa pretérita, porque «aquele» era a melhor solução para o país, agora, declarou: o PS precisa de «ser refundado» e de voltar a`que «se leve a política a sério».
Esta gente não pesa as palavras?
Afinal, em crónicas políticas, em comícios, procurou o ex-presidente convencer-me de quê, durante a campanha eleitoral? A seriedade não era o que havia antes? Ele, que esteve iniludivelmente ao lado do seu camarada Sócrates, em comícios, com a mãozinha ao alto, a caucionar o candidato, insinua agora que o ex-líder do PS não levava a política a sério, e que desvirtuou o espírito do Partido?
O Sócrates lembra-me a incauta espancada que, fragilizada, de boa-fé, entregou ao Marocas a folhinha da intimidação.
Fica no ar a ideia de que Mário Soares estaria refém, e que, quinze dias depois, chegou o momento para “delatar” a verdade: depois do uppercut eleitoral, o Grão Fundador do Partido, aplica o nocaute psicológica.
Se o PS tivesse ganho as eleições punha-se do mesmo modo a necessidade de «refundar» e de voltar ao debate político «sério», isto é, a uma acção política não exclusivamente comandada pelo oportunismo e a necessidade de manter o poder?
Mário Soares mostra mais uma vez que é um sobrevivente mas o modo como quer tornar póstumo o seu tempo político às vezes, para ser simpático, causa-me um pastoso fastio.

sábado, 25 de junho de 2011

O MAL/ uma tradução inédita de Christian Bobin


Isto anda mesmo tudo ligado, eu tinha acabado de escrever, durante o longo tédio de vigiar um exame:
«A astúcia com que Perseu fez uso do espelho e do seu reflexo para ver a Medusa sem precisar de cruzar o seu com olhar petrificador da Gorgone, é ainda hoje o artifício através do qual olhamos o mundo. A televisão é o espelho de que fazemos uso. Mas esta esperteza encortiçou-nos o coração. Afastados do risco, habituámo-nos a prescindir da reciprocidade e da compaixão com que acolhíamos a dor alheia, e se isso nos permite sobreviver, por outro desmobiliza-nos, anestesia-nos a sensibilidade. Resta saber a que ponto nos aviltou a televisão, pois a cabeça da medusa, mesmo decapitada, transformava em pedra quem os olhava e isto prometia ser pela eternidade. Adivinharam, a cabeça da medusa continua viva no ecrã.
Temos de voltar a abordar de frente o monstruoso para, correndo o risco de nele nos perdermos, recuperarmos a vulnerabilidade que nos impele à coragem de agir face aos problemas, em vez de nos mantermos contristadamente informados sobre eles.»
Chego a casa e a Teresa (Noronha) passa-me esta tradução e pede, mete no blogue. Tinha lido o texto e sentiu-se incapaz de não o traduzir.
Eu, cada vez que torno a Christian Bobin fico abismado. Pela escrita, a um tempo diáfana e elaborada (ainda que não pareça), pelo ritmo das frases que se sucedem redondas como as ondas na praia, pela claridade que não teme as sombras nem nomear o mal; pelo encantatório que imprime a todas as páginas e que o torna para mim (mesmo em prosa) o grande poeta francês do momento.
Aqui fica pois o capítulo de L’Inespérée, traduzido pela urgência da Teresa (- estou lixado, isto vai dar namoro). E como ninguém escreve como ele, calo-me:


O MAL

Ela é suja. Mesmo limpa, está suja. E cobre-se de ouro e de excrementos, de crianças e de panelas. E reina por toda a parte. Ela é como uma rainha gorda e suja que já não tem mais nada para governar, tendo já invadido tudo e a tudo contaminado com a sua sujidade natural. Ninguém lhe resiste. Ela reina em virtude de uma atracção eterna pelo que é baixo, pelo negro dos tempos. Ela está nas prisões como um calmante. Ela está em permanência em certos pavilhões dos hospitais psiquiátricos. É nestes espaços que ela se sente em casa: não se olha para ela, não a escutam, deixam-na em baboseiras no seu canto, colocando à sua frente aqueles que não se sabe muito bem o que fazer com eles. Os dias, quer nos hospitais quer nas prisões, são mais longos que os dias. É necessário que passem. Fazem-na guardar os inválidos mentais, os prisioneiros, os velhos nos asilos. Ela tem infinitamente menos dignidade que estas pessoas, avassaladas pela idade, feridas pela lei ou pela natureza. Ela está-se perfeitamente nas tintas para essa dignidade que lhe falta. Ela contenta-se em fazer o seu trabalho. O seu trabalho é o de sujar a dor que lhe é confiada e aglomerar tudo – a infância e a desgraça, a beleza e o riso, a inteligência e o dinheiro – num único bloco vidrado e viscoso. Chamamos a isto uma janela para o mundo. Mas é mais que uma janela, é o mundo em bloco, o mundo como piolheira desatada, os detritos do mundo entornados a cada segundo na carpete do salão. Claro que podemos escavar. Encontramos por vezes, sobretudo nas primeiras horas da noite, as palavras novas, os rostos frescos. Mas se nas descargas é possível pôr a mão em verdadeiros tesouros, não serve de nada tentar repescar alguma coisa lá dentro, os caixotes do lixo chegam muito rapidamente, os que os manipulam são muito rápidos. Metem pena, estas pessoas. Os jornalistas de televisão fazem pena com a sua falta completa de inteligência e de coração – esta doença dos tempos que eles contraíram, herdada do mundo dos negócios, falem-me de Deus e da vossa mãe, têm um minuto e vinte segundos para responder à minha questão. Um amigo vosso, um filósofo, passa um dia lá dentro, na vitrina engordurada de imagens. Pedem-lhe que venha para falar do amor, e porque têm medo de alguma palavra que possa levar mais tempo, medo que ele chegue a algum lado (porque é necessário a todo o custo que não se passe nada de confuso e de desesperado) – quer dizer menos que nada – por causa deste medo convida-se igualmente vinte pessoas, especialistas disto e daquilo, vinte pessoas o que significa três minutos por pessoa. A vulgaridade, diz-se às crianças que está nas palavras. A verdadeira vulgaridade deste mundo está no tempo, na incapacidade de o despender de doutra forma senão como moedas, depressa, depressa, ir de uma catástrofe aos algarismos da inflacção, depressa depressa passar para as toneladas de prata e da ininteligência profunda da vida, do que é a vida na sua magia sofredora, depressa depressa corramos para a hora seguinte e que sobretudo nada aconteça, nenhuma palavra certa, nenhum espanto puro. E o vosso amigo, após a emissão, inquieta-se um pouco, porquê tanto ódio do pensamento, esta mania de triturar tudo tão fino, e a realizadora dá-lhe esta resposta, magnífica: estou de acordo consigo, mas é melhor que seja eu a estar neste lugar, porque se fosse outro seria bem pior. Esta frase recorda-me os dignatários do Estado Francês durante a segunda guerra mundial e na legitimidade que se atribuía aos virtuosos funcionários do mal: era necessário tomar conta das deportações dos judeus de França, isso permitia-lhes salvar alguns deles. A mesma abjecção, a mesma colaboração com as forças do mundo que arruínam o mundo, a mesma falta absoluta de bom senso: há lugares que é melhor deixar desertos. Há actos que não se podem cometer sem se ser imediatamente desfeito por eles. A televisão, contrariamente ao que ela diz de si mesma, não dá nenhuma notícia ao mundo. A televisão é o mundo que se afunda no mundo, um golfo de choraminguice avinhada, incapaz de dar uma única notícia clara e compreensível. A televisão é o mundo em horário completo, transbordando de sofrimento, impossível de ver nestas condições, impossível de entender. Tu estás ali, no teu sofá ou diante do teu prato, e atiram-te com um cadáver seguido de um golo de um futebolista e abandonam-vos aos três, à nudez da morte, ao rosto do jogador e à tua própria vida, já de si tão obscura, cada um largado no seu cantinho do mundo, separados após terem sido assim tão brutalmente ligados – um morto que nunca acaba de morrer, um jogador que não pára de levantar os braços, e tu que não deixas de procurar o sentido de tudo isso, mas já passou, já estamos noutro assunto, depressão na Bretanha, bom tempo na Córsega. E então’ então o que fazer com a velha golada de imagens, ávida de moedinhas? Nada. Não é preciso fazer nada. Ela ali está e não se mexerá nunca mais. Um mundo sem imagens é a partir de agora impensável. Haverá sempre jovens dinâmicos para as servir, para fazer os negócios sujos no teu lugar, no lugar de todos os outros, em nome de todos os outros. É preciso lograr que o baixo vá até ao fundo, deixar a decomposição orgânica do mundo prosseguir. Está quase a terminar, está quase no fim, não devemos sobretudo reparar no que se tolda – é melhor colocar uma base de tinta nas maçãs do rosto da morta. Deixar proliferar as imagens cegas: qualquer coisa vem à superfície, qualquer coisa vem ao nosso encontro. Existe na dor uma pureza infatigável, a mesma que na alegria, e esta pureza está em marcha por baixo das toneladas de imaginário congeladas. Enquanto esperamos, as imagens verdadeiras, as imagens puras de verdade encontram abrigo na escrita, na compaixão da solidão daquele que as escreve. Velibor Colie, por exemplo. Um escritor jugoslavo, que sem usar imagens belas, diz apenas o que vê, tão simples como isto. Ele relata um acontecimento passado em Modrica, na Bosnia Herzgovina, no dia 17 de Maio de 1992. E na sua forma simples transforma-o em algo que é eterno. Ele vê na singularidade de um lugar e de um acto o que há eterno no mundo desde o início dos tempos, o que te permite ler sem que a coragem desapareça, sem que tu te interrogues a dado momento: para que serve isto, e concede-te o tempo necessário para que a frase acabada de escrever entre no teu espírito, formando um sentido. Lemos: “O cigano Ibro ganhava a sua vida vendendo cartão, papel velho e garrafas vazias. Ele possuía uma carroça desengonçada e várias gerações de habitantes de Modrica ouviam nas primeiras horas do dia o célebre pregão “Transportes de todo o género. Carrega-se mortos e vivos”. Ele vivia numa estranha chaminé, numa rua próxima à Casa de Saúde. Tinha uma mulher surda-muda e um filho de quinze anos, débil mental. No dia 17 de Maio, quando a armada serva entrou definitivamente em Modrica, o cigano Ibro recusou-se a fugir, embora fosse muçulmano. Não tiveram piedade dele. Os soldados servos cortaram-lhe a garganta, assim como à sua mulher e ao seu filho e, como no “tempo dos Turcos”, plantaram as suas cabeças na paliçada da cerca à volta da casa. Segundo o que nos contaram testemunhas, ele tinha, sobre a mesa, no pátio, uma garrafa de raki e café acabado de fazer... Para acolher os militares, no caso de eles virem.” Ao lermos isto podemos ver tudo, ele, a mulher, o filho, a hílare jovialidade dos assassinos, as cabeças espetadas e o café ainda quente. A televisão talvez tivesse mostrado o café, mas insistiria sobretudo nas cabeças, com um prelúdio do género: “hesitamos em mostrar-vos”, e passariam logo adiante porque há mais coisas para mostrar: depressão na Córsega, bom tempo na Bretanha. E tu ficarias ali, sentado na tua casa de jantar, estúpido com as três cabeças em cima da mesa. Ao contrário, na escrita, está tudo – e a pureza trágica do tudo: a hospitalidade concedida aos assassinos. O mal da televisão não está no que a televisão é, está no mundo, e se os confundimos, é porque eles não fazem mais que uma massa perdida, sofredora. O mal do mundo está lá, desde sempre, no recusar da hospitalidade, primeiro fogo sagrado da história humana, antes mesmo do surgimento de Deus. É o mal do mundo e é o de que sofre a louca investida das imagens: não conseguir captar um mínimo da vulnerabilidade da dor, desconhecer as leis elementares da hospitalidade que mandam que se dê de beber a quem vem de longe. Eu distraio, diz a televisão, e há muito que deixou de nos fazer rir. Não se pode fazer cultura para toda a gente, diz a televisão, e não ousamos responder-lhe que não é um problema de cultura mas de inteligência, o que não é seguramente a mesma coisa. A inteligência não tem nada a ver com os diplomas. Ela pode andar conjuntamente com eles mas não é o seu elemento primordial. A inteligência é a força, solitária, de extrair do caos da sua própria vida uma mão cheia de luz suficiente para iluminar um pouco mais longe do que nós próprios – na direcção do outro além, como nós perdido no escuro. Eu transmito o sentimento, diz a televisão, e não temos a coragem de lhe mostrar o abismo que existe, entre o sentimento e a pieguice. Não sou eu, diz a televisão, ao fim e ao cabo é o povo, eu faço o que o povo quer – e não podemos senão calarmo-nos diante do analfabetismo grave da televisão e dos que a fazem. Na palavra do povo correm as mais belas expressões da língua francesa. Ela diz a falta e o entontecimento, a nobreza dos indigentes sob a incúria dos nobres. Fala exactamente o contrário do que diz a televisão. E por ora ficamos por aqui: a dor chega esfomeada nos braços da televisão que a enroupa imediatamente nos seus braços sem previamente a alimentar – escutar ou vê-la. Então ela volta a partir, a dor, e procura um direito de asilo na tinta antes de o encontrar um dia na igreja das imagens – porque tenho a certeza: um dia haverá um homem suficientemente inteligente para saber filmar uma garrafa de raki e um café acabado de fazer, e este homem aceitará tranquilamente perder o seu tempo, dizendo apenas o que tem a dizer e depois calar-se-á, porque por vezes é necessário calar-se para proferir a palavra justa – mostrando, demoradamente, simplesmente mostrar, calmamente, uma garrafa de raki e o café acabado de fazer.     
   

quinta-feira, 23 de junho de 2011

AS COISAS QUE IMPORTAM

mestre capone

                              para o Francisco Ferreira
As televisões anunciam: revólver
de Al Capone leiloado em Londres.
E eu em Maputo. Que falta
de pontaria para o destino!
Serei sempre como a figueira,
molenga, com uma alma
que é uma espelunca-de-aluger
e incapaz de frutificar a tempo de ter
as raízes pisadas pelo peso
das olorosas sandalinhas de Cristo.
Já perdi por um fio a guilhotina
de Robespierre, um tufo
da melena de Hitler,
uma sela marchetada a marfim
de Bush, o texano, um selo
exortativo da Grã Perenidade
de Mugabe e dois botões
de punho de Kadhaffi.
Só nos últimos 6 meses. É isto,
sem nada para deixar aos filhos.
Talvez um 123 para porem as farófias
no ponto, mas não é a mesma coisa.
A minha vida deslaça
sem que eu adira,
ainda que simbolicamente,
a um crime de monta,
uma crueldade com estardalhaço
digna de borrar de medo
a própria sombra.
Que tristeza ó minha mãe,
que me erodiste a ruindade:
eis-me um podengo do bem!
Uma revoluçãozinha, onde eu
pudesse fuzilar os refractários
e alguns poetas mais burgueses!
Chamava-lhes um figo. Hum!
Não há aí quem queira leiloar
esta minha incapacidade
para estar onde as coisas
que importam acontecem?
Eu vendo, por muito dinheiro!

PROCURA-SE MUSA, MESMO QUE ZAROLHA

sudek. chutar  a musa
Platão escreveu duas coisas terríveis que tiveram uma influência funestíssima nos séculos vindouros, e ainda hoje. A primeira é esta: «o poeta é uma coisa leve, alada, sagrada, e não pode criar antes de sentir a inspiração, de estar fora de si e de perder o uso da razão», a segunda é o que se segue, concomitante: «não sendo cada um deles capaz de compor bem senão no género em que a Musa o possui». Ambas pertencem ao Íon, que está para o diálogo como eu para o ballet clássico.
O Michel Serres torce o nariz à dialéctica destes diálogos e entendo porquê, em toda a conversa (?) é o Sócrates quem estabelece “as regras do diálogo e da relação”, e para levar a água ao seu moinho, o “parteiro das almas” estende a idiotia do rapsodo (o recitador dos poemas alheios, que por delegação simboliza o poeta) aos cocheiros, pescadores e militares, que só serão excelsos na sua arte quando esquecidos de si.
E se o melhor que dão na sua arte pedem emprestado às Musas, e só chega por dom, imagine-se o desastre para o resto.
Isto já não há Sindicatos? De facto, uma sociedade que vive sob «a síndrome Lady Gaga» já não consegue discernir que os baixos salários começam pela depreciação dos ofícios no campo das ideias; o que urge uma reciclagem ou uma contra-argumentação.
Francisco José Viegas foi nomeado Secretário de Estado da Cultura. Procura-se Musa, mesmo que zarolha, pois os tempos estão necessitados de toda a arte.

RELEITURA DE ÍON


1
Há vezes em que só compreendo as palavras
e noutras só os pensamentos.
Quando acontece coincidirem
e enxergo a ambos como dois carris uníssonos
e casados pelo ritmo
não sei se sou o tronco do carvalho
se a copa se a cotovia
que deles se afasta.

2
Eu unicamente exprimo a realidade
como convém a um profano.
Nem o saber nem o sagrado
se exprimem, pondo a galinha o ovo.
E está ao alcance de qualquer homem
reconhecer o que digo ao calar,
de ombro na ombreira, depondo
a caçadeira para fixar como o caçador
o especioso brilho na coxa
da corça que descasca a laranja.

3
Não me lembrava de onde era chegado
aquele nome. Tinha-o debaixo da língua
mas não me saía e acabei por amá-lo
só para lhe adivinhar a origem.
Epio, o construtor do cavalo de Tróia.
Reconheci-o depois de me ter deitado
com ele, selando com o meu sexo
a morte do meu pai, Eliano,
e de meu irmão, Heraclides, o citarista,
desventrados pela adaga do invasor,
na noite do dia em que aquele casulo
de morte foi tido por inocente
e levado para dentro das muralhas.
Quem o adivinharia, três meses depois,
naquele grego gentil que fundiu
em bronze o seu nome
na minha carne?

4
Penteava os oráculos.
Era o que se lia na cédula
como profissão:
penteava os oráculos.
Isto antes da reforma,
agora é general
dos exércitos intangíveis.
 

5
A manha, a batota com que Sócrates
pôs Íon diante da escolha impossível:
a de ser um homem injusto ou divino
faz-me lamber os dedos
só de antever a jogatana
do próximo sábado. Eu levo
um baralho novo, ele o vinho.
O coitado não sabe que eu
me pélo por ser um homem injusto.


quarta-feira, 22 de junho de 2011

O AIRBAG DE DEUS

Hoje no café, voltaram a perguntar-me, E Deus? É a pergunta que regularmente me fazem, neste país de palmeiras, mangas, mesquitas e igrejas baptistas. Andam num tu cá, tu lá permanente com Deus, apesar da desordem manifesta no campo social e duma miséria irredenta e vivida num verdadeiro espírito de Job.Eu só me lembro da história que P. Jacob cita no seu livro O Empirismo Lógico, e que conta o seguinte: «O físico Szilard anuncia um dia ao seu amigo Hans Bethe que decidiu escrever um diário:-Não tenho a intenção de o publicar; vou simplesmente catalogar os factos para que Deus seja informado.
- Tu não achas que Deus conhece os factos? – pergunta-lhe Bethe.- Sim, anui Szilard, mas ele não conhece esta versão dos factos!».
Um Deus assim é que me convinha. Aliás, na esteira duma certa tradição herética cristã para quem Deus não se conhece a si mesmo e se busca no fazer e na iluminação do homem. Como se tivesse sido tomado duma monumental amnésia e só em nós, as suas sinapses, despertasse fugazmente.
Mas quem vive em África só pode acreditar em Deus por falta de imaginação. A superstição, a idolatria, e a violência estão tão mescladas com a indigência, a sordidez e o egoísmo humano e social, que Deus me parece profundamente injusto, idiota ou surdo, posta a vanidade dos apelos amplamente repetidos por milhões de bocas. De outro modo, com tanta entranhada, porque havia de ser esta paisagem humana tão fustigada?

cristina rodero
Todas as manhãs, no entreposto de chapas que existe quase à porta do meu prédio, vejo um paralítico andrajoso, sem carrinho de mão, que se arrasta sobre os braços e os joelhos, atirar-se do autocarro para a berma do passeio. Como se mergulhasse na piscina. Avalio o embate diário daquela carga de ossos na pedra. Nem sempre cai bem. No outro dia o seu joelho contundiu na esquina do lancil do passeio e gemeu durante uma hora. Depois vegeta pelas imediações, todo o dia, lançando olhares de misericórdia aos transeuntes para que lhe dêem esmola. É um quadro deprimente.
Perto, muito perto, fica a recém-inaugurada igreja da IURD, um edifício mastodôntico, com milhares e milhares de fiéis, que descem do chapa ali mesmo, a fim de irem ao culto. Nunca vi nem os fiéis ou quaisquer pastores da igreja se proporem levar aquele pobre diabo para o templo, para que ele fosse objecto dum desses milagres que passam todos dias na televisão e que ressuscitam o crocodilo numa montra de sapatos.
Passam por ele e não lhe tocam, não lhe deixam esmola, esgotados pelo dízimo, e não ousam imaginar – sob medo de não acontecer. Por que senão, o que os impede de aliviar o sofrimento deste homem? Que tremendo egoísmo os cega na busca de uma salvação privada, que não envolva o seu próximo? Cristo amou os leprosos, mas estes cristãos não, e ao contrário do que aparece nas televisões evangélicas, esta terra padece duma verdadeira carência de milagres. Dos autênticos.
À porta do Hospital Central, em Maputo, uma vítima de mina pessoal, sem pés, vende fita-cola. Não tem um sorriso beato na boca porque tinha o lábio fendido por um estilhaço que lhe rebentou também com os dentes. Ali perto também existem templos dessas igrejas novas onde campeiam os milagres a metro, mas nenhum desses fiéis imaginou sequer a possibilidade de que aquele homem gostaria de ser salvo, de ser preenchido pelo miolo da fé, exorcizado do diabo que planta machamba no corpo dele. Foi despejado pela igreja. Ninguém o leva ao conforto milagreiro ou o consola, tentando-o converter à sua confissão, se calhar com receio de que ele depois não seja assíduo no pagamento do dízimo.
À porta doutra igreja vi uma mulher a ser espancada pelo marido que dizia que ela estava penetrada pelo demónio e que se deitava com outros homens. O homem, rude, inarticulado, era claramente um idiota sem perdão, mas nenhum dos irmãos de fé ousou apartá-lo da mulher, porque aquele era “um assunto particular”, e como é sabido, a mulher foi amaldiçoada por Deus.
Creio que Sartre tinha razão quando defendia a necessidade dos homens começarem a ser responsáveis pelos seus actos, sem álibis ou entidades transcendentes que os alheiem de ser a verdadeira mola das suas escolhas.
Depois de cada um adquirir uma pauta de valores e de ser activo na responsabilidade social para consigo e os outros, se realmente sentir necessidade duma espiritualidade apegada a um rito ou a uma comunhão religiosa, why not?
Mas primeiro devíamos arrumar a casa. Enquanto tivermos o airbag de Deus pela frente e nas costas, suspeito que não cresceremos o bastante como pessoas para dedicarmos espontaneamente amor e respeito aos demais.       

Diane Airbus. Porque não é Deus platónico?