segunda-feira, 20 de junho de 2011

LER OS OLMOS, O TROVÃO DISTANTE

Julian Beever, o chão de Paris

Ontem ao fim do dia visitou-me o Tavares Belarmino, um jovem amigo de 21 anos que vinha de Paris, embriagado com a cidade, onde passou duas semanas, como ele dizia, atordoadoras. Trouxe-me um diálogo do Alain Badiou, filósofo e escritor, sobre o amor, Éloge de l’amour (Champ/Essais, Flammarion), que aconselho a todo a gente para quem o amor seja mais que o simples hedonismo. Um livro belíssimo. Hoje, recebo um email da Susana Gonçalves, que está em Paris e para quem o reencontro com a cidade não está a ser feliz, para além do diálogo com um inesperado tuaregue. Eu, que só tenho de Paris uma experiência atordoadora (como a do Tavares) aqui deixo o único conto que escrevi com a Cidade das Luzes em fundo. Pertence ao meu livro, Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo, Teorema, 2008. Vai dedicado aos dois.


Naquele Inverno as árvores eram só pescoço. Era o que guardava da terra: troncos com finos pescoços implumes. Olmos, se a lotaria dos nomes permite uma hipótese. Tudo tão diferente do jardim das Tulherias, onde, agora, a campânula das castanheiras-da-Índia a protegia dos aguaceiros.
O Amadeu trabalhava em Paris num café com um nome pomposo, Le Petit Coin de L'Opera, disseram-lhe, e, farta de se sentir em salmoura, conseguiu que um emigrante de passagem fosse portador do seu apelo. Há dois anos que nada sabia do noivo mas no íntimo a sua promessa abrasava, irrevogável.
Pôs-se um pimento quando um mês depois o carteiro lhe depositou uma carta nas mãos. A prima é que lha leu. O Amadeu marcava-lhe encontro na «vue panoramique» da Samaritaine. A 15 de Maio, faltava um mês. Ele não enviava a morada mas não cismou. Em Paris as árvores teriam mais do que pescoço, anteviu, e aos trinta e cinco não há tempo para indecisões.
O senhor de boné de bombazina e cachimbo, da banca de livros, fitou fixamente a carta que amarrotava na mão. Ela pronunciou como pôde a palavra Samaritaine e ele apontou a haste do cachimbo em duas ou três direcções. Felizmente não estava longe e chegou meia-hora antes do encontro.
Lá em cima, a vista aparvalhava. Sentia-se uma rola na palma de um trovão que, a espaços, rugia ao longe. Deus já não habitava nas poldras: a grande cidade espreguiçava-se à sua frente, ardendo-lhe nas narinas. Pena o granizo que caiu de súbito, a roupa colada ao corpo, o atraso de Amadeu.

Só dois dias depois encontrou o Le Petit Coin de L'Ópera, na «Rue de Charenton». Uma tasca atamancada e suja, de balcão de mármore roído e a tresandar a ranço e vinho. Ao fim de uma hora de inarticulada lamúria compreendeu: do Amadeu nem o borboto.
Voltou à Samaritaine. Dessa vez concentrou-se na Basílica do Sacré Coeur: a sua vida manava dali, misteriosamente. Quatro horas depois olhava a escadaria íngreme. Já não tinha dinheiro para o elevador. Subiu-a hipnótica. Não ia à cata de nenhum Cristo de ouro, mas foi junto à estátua de tantas promessas que uma mão treinada a quis espoliar. Deu conta no último momento e com uma lima que guardava no bolso do casaco fez um lenho na mão do ladrão. Antes de desmaiar.
       
Um pergaminho, o rosto da Senhora que, ao acordar, lhe oferecia um chá. Esplendia uma bondade irrecusável. Quem a teria levado, desmaiada, para aquela casa?
A Senhora já tivera empregadas portuguesas (soube mais tarde que se oferecera ao padre para a levar quando viram pelo BI que era portuguesa) e sabia as palavras suficientes para a entender -  rapidamente decidiu ampará-la. Era a mãe de um político.
Começou por fazer pequenos serviços enquanto ruminava os ossos miúdos de uma língua afanosamente estrangeira.  
   
Das janelas da casa, mesmo ao lado da basílica - à cunha num dos vértices da colina - Paris desenrolava-se como um deslumbrante tapete de arabescos. Ali, só destoava a torre de Montparnasse; nunca se habituou àquele mono.
A Senhora tinha bom fundo e incitou-a a aprender a ler e a escrever. E para a motivar tomou a iniciativa de lhe comprar uma gramática portuguesa, um dicionário português-francês e um caderno de exercícios, oferecendo-se para a acompanhar nos estudos. Faziam duas horas de exercícios semanais, prazenteiramente interrompidas por momentos de mímica e gaguejadas confidências ou pela impertinência da velha cozinheira corsa, a quem enciumava a intimidade da nova com a patroa.
Marisa afeiçoou-se à sua patroa septuagenária, um ser talhado para a nobreza como o cobre para a luz.
 
Seis meses depois, num domingo, saía do metro e calhou chocar com o emigrante. Ele não a reconheceu, ela voltou atrás e seguiu-o. O homem apanhou a linha 4 e à saída enfiou-se pelo «marché aux puces» de Clignancourt. Marisa, que nunca lá tinha ido, apanhou-se a contar as malhas na pele de um jaguar e perdeu-o de vista.
Voltou a encontrá-lo no mês seguinte. Ele esperava alguém junto à entrada da Ópera, na Bastilha, e ela passeava o Balthasar, o coolie da Senhora. Esta nunca lhe dava horas de entrada nem perguntava por onde andara e Marisa acostumou-se a apanhar o Metro e a conhecer Paris aos palmos. Nos primeiros tempos voltara ao Samaritaine, agora preferia deambular pelos recantos da cidade. Era ele. Dessa vez não hesitou.
O homem primeiro começou por esquivar-se, não tinha ideia, depois, embaraçado, pediu-lhe desculpa de ter forjado a carta. "Nunca imaginei que se pusesse a caminho. Nem sequer conhecia nenhum Amadeu...". Marisa lembrou-se de quando as árvores ficavam num fio e o vento persistia no açoite, semanas.
Ele deu-lhe um cartão, tinha uma padaria, se ela alguma vez precisasse. Deixou que o Balthasar lhe ladrasse.
As palavras escritas mentem ainda mais que as que saem pela boca, pensou, e emaranhou-se ali na decisão de ficar analfabeta e muda.
Só falava quando era preciso para não ser malcriada. A patroa fez uma pausa no rendilhado com que fazia durar um croissant e perguntou-lhe uma derradeira vez porque decidira parar de aprender. Depois aceitou.

Já que não fala, pode ser que venha a cantar, disse-lhe a patroa, que lhe emprestou um casaquinho com estola e a levou à ópera. Para lhe fazer companhia. Conhecera o marido no intervalo de uma estreia do «Nabuco» e tornou-se um ritual na sua vida não falhar uma reposição da ópera. Pelo caminho contou o enredo a Marisa, que se alheava. A ópera fazia-lhe lembrar o Petit Coin de L´Opera e o nome da peça um dos pratos que mais servia no restaurante português onde tinha trabalhado: osso buco.
Era tudo um pouco demais, as talhas, os candelabros, os tapetes vermelhos no chão, os espelhos onde se descobria atarantada, uma cereja num pão de ló. No intervalo atravessou aqueles corredores a olhar os pés, os seus dois trambolhos metidos nuns sapatos de vidro, à vergonha expostos. Voltou ao lugar, atrás da Senhora, e quando a música recomeçou salvou-a de enlouquecer o zunido de um insecto, junto à cabeça. Veio-lhe uma imagem: o primeiro balcão do teatro incrustado no abdómen de uma mosca. Esforçou-se para não rir.
  
Cinco anos num «passe-vite», brincava mais tarde Marisa, aludindo a esta fase da sua vida.    

Com coisas boas. Na sua terra o silêncio granítico das casas apoderava-se do ânimo, latejava nas têmporas. Em Paris não, antes das pedras sentia-se o elo entre as pessoas e essa vibração transmitia-se às casas, aligeirava-lhes o peso, parecia música suspensa, até nas estátuas. Apesar de serem edifícios incomparavelmente maiores aos da sua infância.
Ali nevava mais, mas não tiritava de frio porque, costumava dizer à Senhora, "o frio vela connosco, não somos o morto!".

Um domingo, disse-lhe a Senhora sorrindo: «Marisa, sabe que hoje são as eleições europeias. Na sua terra também. Já que na juventude não pôde votar, agora depois de velha devia aproveitar os votos todos!». Aquilo doeu-lhe. Não o voto, o modo ameno e trocista com que a patroa lhe lembrou que haviam passado cinco anos e que entrava solitária na casa dos quarenta.
Telefonou a uma porteira conhecida e foi com ela votar num Clube Recreativo em Strasbourg/Saint Denis. Aí, a porteira mostrou-lhe um cartaz que anunciava um baile no sábado seguinte e insistiu na companhia dela.
Acedeu. Achou graça ao conjunto, formado por acordeão e bateria, lembrava-lhe os da terra, mas, como de costume só falou o necessário para não parecer mal educada.
Um transmontano de hálito avinhado não se intimidou com o seu silêncio e toda a noite lhe pisou os pés, num arremedo de dança. No fim, teimou em levá-la a casa, obrigou-a a atravessar Saint Denis e quis forçá-la a entrar com ele numa sex-shop. Valeu-lhe de novo a lima. O lenho foi quase no mesmo sítio. A amiga porteira é que deixou de lhe falar.

Voltou aos seus passeios solitários. Habituou-se a ir para o jardim do Luxemburgo ou para as Tulherias. Às tardes. Soltava o cão e sentava-se a escutar o martelar manso dos vocábulos. Aos poucos foi achando o francês uma língua de vislumbres. Não foi fácil. De início enfrentou um muro opaco, de tijolo, depois um muro de buxo com buracos, onde, palavra a palavra, a sua compreensão ia respirando; ao fim de quatro anos comunicava, entendia tudo na televisão e o muro era uma azinhaga forrada de amoras, ainda que aqui e ali despontassem arbustos e bagas de que desconhecia a designação, o sabor e uso.
Mas era impagável o prazer de ir sentar-se à beira de um dos lagos hexagonais das Tulherias, abrindo os ouvidos ao jorro descontínuo das conversas. Tudo a maravilhava: uma nova particularidade da língua, as energias que as palavras são capazes de desencadear, e, porque não, as histórias divertidas e rocambolescas que a vida, instante a instante, desata. Habituou-se a ser um vulto quase invisível no mundo, descobria prazer nisso: muda como a pedra que escuta.    

Lembrava-se que no Inverno anterior àquilo ter acontecido apanhou o gosto de se plantar à janela durante os nevões, a ver o manto branco a cobrir paulatinamente os telhados e terraços de  Paris: a cidade era um gigantesco tabuleiro de damas.
Lembrava-se porque para a senhora, de repente, esse «tempo fatídico» punha-a triste e lembrava-lhe o Sudário. Maria sabia que as verdadeiras razões residiam na discussão que ouvira atrás de uma porta, entre mãe e filho; nas palavras duras que ela lhe dirigira: «és um político mais sujo, mais corrupto, que o lamaçal que fica depois de nevar!".
A neve, para a Senhora, só realçava as tristes pisadas do filho, e caiu doente. O que obrigou Marisa a permanecer em casa, a espreitar pela janela os brilhos e a geometria da neve nos telhados de Paris, enquanto uma melancolia viscosa e negra orlava o coração da patroa.

Dois passos à sua frente o ar queimava. Foi a arrastar-se, a superstição a destapar todos os medos antigos, que nesse dia chegou às Tulherias, vinda da praça Concorde. A doença da Senhora convertera-se no seu pesadelo: via-a nitidamente estendida à sua frente como uma toalha para uma mesa de dez pessoas. Que fazer se ela morresse, a quem recorrer? A morte eminente da Senhora - salvo seja - lançava-a de novo numa encruzilhada.
Passou à frente da estátua que representa o Nilo, de Lorenzo Ottoné, e deteve-se pela milionésima vez a medir a proporção e o sentido das figuras: a do rio, majestosamente reclinada, e a das insignificantes crianças decapitadas, uma sobre o seu ombro e as outras duas sentadas aos pés - para além do mistério da única criança com cabeça montar um crocodilo.
Já sabia há algum tempo que as crianças representavam os afluentes e por isso não precisavam de cabeça, mas Marisa empreendera que o escultor não as fizera assim.
Sentou-se à beira do lago e mergulhou os pés na água, tépida. Estava-se nos fins de Abril e a semana fizera despontar um extemporâneo calor de Verão. Não havia uma cadeira vazia ao redor do lago, um homem calvo adormecera com a cabeça caída para trás, no gozo do sol clemente. No lado oposto do lago, um grupo de espanhóis cantava sevilhanas.
Naquele dia pareciam-lhe mais pequenos os esguichos de água que saíam dos vértices do octógono, naquele dia a vida afigurava-se-lhe mais triste e comezinha e Marisa revia-se na pouca sorte daquelas crianças decapitadas: com os pés no rio da vida não acediam à condição de poderem exprimir a sua alegria.
Um pardal que exibia uma côdea de pão no bico passou afoito por debaixo das suas pernas. À saída do túnel, outro pardal fez-lhe uma tangente e roubou-lhe a provisão, indo aterrar no rebordo, três metros depois. Mal teve tempo de lhe tomar o gosto, dois pombos ameaçadores obrigaram-no a largar a presa. A côdea ficou sobre a pedra do rebordo porque um terceiro pombo meteu-se na disputa. Aproveitou o primeiro pardal que num voo raso fisgou a côdea, rumando ao cimo das árvores.
A cena animou quase todos os presentes naquela área e ao seu lado uma jovem mulher de 23, 24 anos largou uma  gargalhada, contra o ar sisudo do seu companheiro. Quando começaram a falar deu conta que eram portugueses. O diálogo estarreceu-a:
Olha que já devemos estar indexados no Guiness... - queixava-se ele.
Porquê?
Que machadada na auréola romântica desta cidade!
Mau...
Sério. Devemos ser o único casal que vem de férias a Paris e não dá uma para amostra. A nossa primeira vez em Paris e nada...
Outra vez a mesma conversa!
Uma semana... e nada. Só se pedia uma rapidinha, nos lavabos do Museu do Homem... uma trancadinha para amostra...
Que romântico!
Que queres? É uma força de expressão justa, se se fala em urgência.
A urgência do amor! Que pomposo. Já te expliquei, nas condições em que estamos não me sinto à vontade. Numa casa tão pequena, a dormir numa assoalhada sem porta que dá directamente para a cozinha e a casa-de-banha, e com elas a dormir no quarto ao lado, desculpa, mas não me sinto à vontade...
Antes irmos para um hotel. Ao menos uma tarde.
E o dinheiro? Comprasses menos livros. E com tantas coisas para ver, querias perder uma tarde...
Perder uma tarde? Vês? Já me estou a ouvir dizer ao conselheiro matrimonial: "senhor doutor, já nem Paris nos inspira!".
Mas não se partilham outras coisas, além do sexo? Eu amo-te e estamos juntos. Não é o mais importante?
É, mas falta a prova parisiense.
A prova?
É como comprar uma cartola e nunca tirar o coelho. E o trágico é que tão cedo não vamos poder cá voltar...
A prova...não caibo em mim.
Algo inesquecível, único, que nos faça acreditar toda a vida. Olha, imagina que te despias agora e te metias água dentro, a fazer o perímetro do lago, enquanto eu me punha em cima da cadeira e bradava aos céus, "é a Vénus, nasceu a Vénus das Tulherias, é a mulher que eu amo, a Vénus, a Vénus das Tulherias nasceu deste amor que lhe tenho, a mulher mais bela do mundo..."
Brincas!
Sério. Uma loucura. Ao menos tínhamos algo para recordar.

E então aconteceu. Para espanto de Marisa, ela tirou a mochila das costas, e em três gestos sacudidos despiu a t-shirt, os calções e as cuecas.
E nua, mais nua que muitas feridas, entrou no lago. Ele estava fulminado pelo efeito das suas palavras: a namorada percorria o lago, recebia palmas, piropos ou assobios, enquanto agulhas e linhas lhe selavam a boca. Quatro, cinco minutos, num passo lento, no passo de quem espera ser ungida, o que centuplicava o silêncio dele e lhe revolvia nas tripas o fátuo carvão das promessas. Quando ela se reaproximou, caía uma lágrima na sua face e ele, não suportando mais o vexame, fugiu.
A mulher vestiu-se calmamente, sob o clamor dos curiosos que entretanto se tinham aproximado, e Marisa, ainda atónita por se ter sentido mais emocionada do que escandalizada, deixou fugir:
A menina é muito bonita.
Ela respondeu-lhe sem levantar a cabeça:
É um infame, um cobarde infame.
Pôs a mochila às costas e preparava-se para seguir quando Marisa notou que ele tinha esquecido um livro. Pegou nele e estendeu-lho:
Olhe o livro do seu... namorado.  
Fique com ele. Fui eu que lhe ofereci. Ele nunca o mereceu.
 
Nesse dia entrou mais tarde em casa. Atravessara a cidade a pé, movida pelo assombro. A coragem daquela rapariga, a confiança com que se dispusera às palavras dele, sem que no fim, apesar da desilusão, a sua beleza, a sua inteireza, a sua nudez saíssem chamuscadas. Pelo caminho, abriu repetidamente o livro, eram versos, via pelo recorte que eram versos, e esforçou o entendimento sem conseguir articular mais do que quatro ou cinco palavras de obscuro sentido. O título parecia ter colher e boca e mais cismada ficou, que tinha a poesia a ver com os talheres? Havia de conseguir ler o que a rapariga captara naquele livro para não ficar interdita – e tremia de pensar que a sua vida acordava de novo alcateias, depois de tantos anos de uma transparência estática, vazia.
O livro tinha uma dedicatória: “Para o António Valdemar, com a promessa de amor da Clara”, e um endereço, soube depois, para a eventualidade de ser perdido.

Contou tudo à Senhora que a encorajou a estudar. A Senhora ainda tentou decifrar com ela uma ou duas estrofes mas a sua ténue energia já quebrava como palha seca. Nessa noite Marisa levou um licor para a cama e fixou sem desfalecer as letras, uma a uma: pastora de vogais.
Inscreveu-se num curso para adultos que dava, em complemento, uma formação profissionalizante. Uma outra amiga porteira é que lhe havia trazido os papéis. Pensava no fim do curso abrir uma pequena pastelaria. O professor não coube em si de pasmado quando ela confeccionou uns bolos corsos. Tinha mão.
Ao fim de quatro meses já lia o jornal com fluência, sem os tropeções que dantes a faziam desanimar. E experimentou ler de fio a pavio o livro de poesia. Com susto, como nos salmos. Dois meses depois ainda estava atordoada. Não imaginava que se pudesse escrever assim, que as palavras acendessem fogueiras na neve. Sentia-se tão pronta para aquele significado novo das palavras que soube que tinha de regressar a Portugal. Já não tinha medo de não compreender tudo o que uma língua nos diz.
Mas era-lhe impossível partir de imediato. A sua gratidão para com a Senhora não lho permitia, naquele estado.
Com a sua proverbial generosidade a Senhora facilitou: morreu 15 dias depois, viam as duas um programa sobre astrologia. Pediu a Marisa que lhe apertasse a almofada e depois de a ter aconchegado, quando Marisa se sentou, reparou que a cabeça da senhora pendia. A surpresa é que deixara a Marisa e à velha cozinheira corsa um pé-de-meia, o suficiente para um pequeno negócio na terra.

A carta para o Amadeu - tinham-lhe dito entretanto que ele vivia em Barcelona e estava viúvo e desta vez haviam-lhe dado a morada - é que estava a meio. Não sabia se a acabaria, começara a sair com um senhor, o Béjart, que andava no mesmo curso, mas nos escritórios. Já tinham ido numa excursão à Bretanha. Pensava nisso ao almoço e ficara tão aérea que deixou salpicar a camisa. À tarde, na aula, a professora chamou-a ao quadro. Aguentou a mão enquanto pode, até que a professora, se meteu com ela: "a Marisa está a guardar algum segredo?". Baixou a mão e as nódoas, três - uma delas parecia um pássaro -, assomaram. A Arminda, que era a mais velha e estava na primeira fila com uma camisola listada que lhe dava um ar de gaiata não aguentou, "ó Marisa, e canta?".
    Escreva o que quiser, sugeriu a professora. E Marisa pegou no giz e redigiu: «Naquele tempo as árvores eram só pescoço». Riram todas muito, embora Marisa insistisse em que era verdade.

   Era ali naquela rua: perto do castelo de S. Jorge. Depois havia de aproveitar para espreitar Lisboa lá de cima, nunca o tinha feito. Subiu ao 2º, era o esquerdo. Bateu à porta. Ouviu lá dentro, uma voz feminina, “abres a porta, estou a trocar-lhe a fralda”. Havia uma criança, pensou, e sorriu, estranhamente aliviada. O homem abriu a porta. Era o mesmo.
Sr. António?
Sim, faz favor. 
Sorriu, entregando-lhe o volume de «A Colher na Boca»*:
Venho-lhe devolver este livro. E agradecer. Tenho a certeza que o senhor merece uma segunda oportunidade.

*segundo livro de poesia de Herberto Helder


domingo, 19 de junho de 2011

A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS II

2

Sob sugestão de várias famílas, para tirar teimas, fui ao nimas. A fita chegava com um carimbo de impostura: Barry Lindon. Saí de casa prevenido, acompanhado de leitura redentora: os Diários Secretos de Wittgenstein.
Em Alvalade, no 40, sentou-se ao meu lado uma velhota baixota - os pés pairavam-lhe a cinco centímetros do chão – de face empergaminhada mas estranhamente envolta em luz. Duzentos metros depois, laça-me num sorriso : «o sr. desculpe... mas, como o vejo a ler, pode ser que me saiba dizer o significado de um sonho...».
Conta: «Adormeci e ‘acordei’ num andor, vestida de Nossa Senhora; numa procissão da aldeia em que nasci. Queria dizer às pessoas, ‘é um engano, sou a Armandina...’, mas o meu corpo estava petrificado, e assim, naquela aflição, fui sendo levada pela multidão... até gostei, o calor apertava e eles tiravam-me da soalheira e encaminhavam-me para a igreja... se é fresca aquela igreja! Mas estava inteiriça, como uma imagem, em cima de um andor. Eu pensava, estava em mim, mas algo me paralisava, naqueles preparos... E pergunta-me, numa ansiedade quase prazenteira: o sr. acha que isto tem a ver com a minha morte?».
Entro no S. Jorge ainda atordoado pelo colóquio com a anciã, bebo um café e decido ir verter águas, antes de enfrentar a estucha. Franqueio descontraídamente a porta do WC e sou surpreendido por uma pistola, que me mete no sério. “Andor, andor...”, grita o meliante, enquanto o cano da arma varre o perímetro entre mim e um homem cujo pavor senta na bacia. “Andor..”, ameaça o agressor. E eu saio, em suores frios. Gesticulo para os polícias, à entrada do cinema, e galgo as escadas para o balcão. Agarrava no puxador da porta da sala quando se ouviu a detonação. Entro no escuro, sento-me atarantado nas primeiras filas, limpo o suor e tento concentrar-me no écran, alhear-me do burburinho que crescia nas minhas costas e dos gritos que se sucediam no átrio.
Na fita, durante as duas penosas horas que se seguem, um cara larouca das Avenidas Novas enfeita alguns quadros do século XVIII inglês e desbarata, em nome da tradição pictórica, o sarcasmo e a sujidade que magnificam Thackeray. Um belíssimo abajourt com a lâmpada da arte fundida por dentro. Eu cabeceio, a espaços.
À saída, desço ao Riba D’Ouro, firme na ideia de emborcar um uísque e de sacudir um pouco a bizarra sequência dos acontecimentos e o trânsito danado da palavra «andor»; sequioso de limpar os olhos na peneira de Wittgenstein.
Dou três goladas, rabisco três linhas acerca do emburguesamento do pícaro. Abro o livro ao acaso, na página 178, e é-me atirada pólvora aos olhos: durante a guerra, no barco-patrulha que controlava a margem esquerda do Vístula, onde se encontravam os russos, Wittgenstein é o homem encarregado de manejar o reflector durante a noite: um alvo ideal. O perigo é constante, ainda que a sua gravidade dependa das escaramuças hipotéticas provocadas por um ou pelo exército inimigo.
Rebobino: Wittgenstein fez a guerra num barco-patrulha, descendo e subindo o rio Vístula. E que serviço prestava? Era o homem que apontava o reflector para as margens, expondo à luz as prováveis emboscadas do inimigo.
Situação tremenda, meu caro, que configura a metáfora ideal para a condição do criador: a sua máxima vigilância assenta na dádiva da sua fragilidade. Ao expor expõe-se. E é este assumir do risco que lhe dá parte do valor. Há valor quando há risco, avez-vous compris?
Interrogo-me: que risco foi o meu, nos lavabos? Se a minha tivesse tido uma intervenção enérgica, não poderia ter salvado o encurralado? Provavelmente, o agressor disparou para o tecto, como dissuasão, ou terá sido o polícia a dominar a situação, evado-me em desculpas. Andor, andor, a velhinha do 40 enfrentava mais animosamente o espectro da sua morte. E, neste ressaibo com sabor a cobardia, capacito-me que a única coisa que importa, como dizia o Cesariny, é chamar o empregado e clamar bem alto: este pastel de nata está uma merda. Quando ao pastel de nata concerne, eu bebia malte, por acaso no ponto.
Cheguei a casa, peguei na pinça e tirei um pentelho a mim próprio: para nunca mais me esquecer de estar à altura das provas de vida.


sexta-feira, 17 de junho de 2011

CARTA A BENJAMIN

DOISNEAU, quando traduzo estou sempre em Paris
Pergunta-me o Benjamin Machado se consegui arranjar editora para a tradução do Israel. Como estupidamente não consigo postar um comentário no meu blogue tenho de responder-lhe assim. E a resposta é: não. A única editora que editaria este livro seria a Assírio & Alvim, onde devo estar no índex, pois nunca sequer têm a delicadeza de responder às minhas cartas, um simples “vá à merda!”.  
Infelizmente, no mundo editorial português não se olha ao texto mas ao nome, e tudo depende de cunhas, dos afectos. Não sei porquê, não faço mesmo ideia, mas não estou coberto por essa benesse. A outra hipótese seria a Cavalo de Ferro, que tem sido bastante descaracterizada nos últimos tempos – pelo menos graficamente já está igual a mais 500 – mas aí não conheço ninguém, condição sine qua non para o envelope ser aberto. O ano passado, a suspensa Cosmorama falou-me do seu interesse em publicar a tradução. Mas faliram antes, e, mesmo que retomem, como já por duas vezes tive lá um livro meu que depois de chegar às segundas provas acabou por não sair (e mais chato, no segundo caso, em 2010, sem uma palavrinha prévia, quando eu me desloquei de Moçambique a Portugal, convencido de que ia haver o lançamento do meu livro Bar La Fontaine) estou um bocado escaldado.
Um caso extremo da estupidez das editoras é o do Henrique Fialho, que tem um blogue com 1500 seguidores, um trabalho notável diariamente exposto como escritor e tradutor, mas em quem nenhuma editora de peso pega (a não ser que ele tenha recusado, o que não me consta) porque afinal eles não vendem livros, unicamente traficam amizades, senão já teriam percebido que o Fialho é renda certa.
Quanto a Moçambique não chega a ter mercado e ainda está numa fase de exaltação das identidades étnicas que não deixa espaço a este tipo de poesia.
Portanto, falando curto e grosso, estou à nora, no que toca a editoras. Por exemplo, neste momento vai sair um romance meu no Brasil que não tem editor em Portugal. Paciência, o que interessa é fazer o trabalho e bem, i. é, indo às cordas treinar as vezes que forem necessárias para o combate sair escorreito e eficaz.
Para além disso, traduzir é um modo de pôr a minha solidão a dialogar, exercício absolutamente necessário para a minha saúde mental numa terra onde não tenho parceiro para a cavaqueira poética. E afinal estamos sempre sós, não é? O que interessa é o que fazemos disso. Talvez cada um de nós não passe de um príncipe que se sonha na sua noite e há que desenhar essas constelações que julgamos ter visto no céu.
Olhe Benjamin, o meu próximo desafio é traduzir Charles Olson e Mark Strand, dois poetas americanos dos anos 60 que me interessam muitíssimo. Não calcula a monção que vai ser.
E, no entretanto, dedico-lhe esta minha versão de um poema de Juan Gelman:
« THE HEARTACHE AND THE THOUSAND NATURAL SHOCKS
quando hamlet agarrou numa flauta e pediu a guildenstern que a               tocasse
e guildenstern desculpou-se     não posso        hamlet
retorquiu        então miserável
não podes arrancar uma nota a este simples instrumento
e pretendes arrancá-la de mim homem interminável
mente naufragada em bestas sucessivas que espreitam pelos meus olhos
e crivam milhões de rostos no meu sangue,
fluindo errantes ou desprendendo-se como desacordadas estrelas
           contra a obscuridade
antes de se fundirem cremosas nos meus abismos
e da sua conflagração me subir à saliva
numa pequena gota acre -  tudo quanto baste ao seu esplendor
e a este rumor velho de séculos que desata a ansiedade
           com que os meus testículos contagiam a noite -
ou quando em mim entro como num tumulto de constelações ainda sem nome
e as contemplo a fugir a entrechocar e a cair desfeitas em cólera
sobrevindo-me uma lágrima tumultuada por tanta crepitação e desastres
não pensas guildenstern não crês tu
que hamlet   elsinore   a dinamarca
a europa a orbe do universo e as galáxias que tremeluzem mais além
são apenas a lágrima de um príncipe que se sonha na sua noite?»

quinta-feira, 16 de junho de 2011

JANTAR COM ESPINOSA E ALGUNS AMIGOS

 Em 2009 fui convidado para dar um curso de guionismo em Taanannarive, capital de Madagáscar. Convite irrecusável. Mas teria de dar as aulas em francês, língua que dominava muito bem na leitura mas que falava como um cuco que acabou de aprender espanhol. Para me impregnar, durante dois meses adormeci com vários filmes franceses no colo, e traduzi dois livros, um de prosa e outro de poesia. O de poesia foi um dos mais estranhos livros que me foi dado ler, Jantar com Espinosa e Outros Amigos, do poeta hebraico Israel Eliraz, traduzido para francês pelo autor e vários de seus amigos, entre os quais o poeta Michel Deguy. É um longo poema de cem páginas dividido em 5 capítulos.
Pouco sei dizer sobre este livro, a não ser que me cativa e intriga, à vez. E chega-me. O próprio Eliraz define-se assim: «Mil faces reflectidas noutras mil faces, eis o que é a acção poética de hoje. Nós e os nossos poemas somos variações infinitas».
Aqui deixo um capítulo.
O curso correu muito bem, muito obrigado. Quanto à ilha e à cidade recomendo-as vivamente – corram.

IV

será que o verdadeiro pode esquecer-se?


50

PODE o verdadeiro esquecer-se
ou camuflar-se
por um tempo

(sob um outro nome ou morada)

ainda que não pereça.

E parece-se com o quê?

Com um estremecimento de asas

(fora da língua) e de repente
ei-lo (o verdadeiro), aqui,
no imediato

(por entre retalhos de sede) e
nós não sabemos onde
enfiá-lo


51

como o círculo o verdadeiro
conhecemo-lo
não por qualquer

outra coisa, mas por si mesmo.

Manifesta-se aqui
e não algures

entre pão e mel, pepino
alho e cebola.

O verdadeiro desponta como
uma figueira no pátio

e nós, à volta da mesa, nós
comemos o seu fruto

um por
um


52

no mais afastado da cozinha,
no lugar traseiro,
ou outro lado

onde o sítio é mais do que uma
batata a murro
no forno,

aí, reponta o centro,
ao rés da verdade

sem ele nós não podemos
simplesmente conhecermo-nos.

O centro aflui aos cantos e nós
devemos falar disso

com a nossa irmã formiga
que deles surgiu


53

há uma formiga por detrás da formiga
que nos corta o fôlego.

Ela sabe o que nós saberemos:

sem a dominação do entendimento
tudo se encaminha para a perda

e aí vivemos como se fora
do nosso elemento. 

Irei dizer isto mesmo aos amigos,
suplicar-lhes: não ignoreis
a disposição do século.

Lá fora expande-se a rataria idólatra,
numa cidade de terracota.

«Os vermes devoram
a carniça do boi »


54

perto da verdade fica
um objecto verdadeiro, um aparelho verdadeiro

ambos nos oferecem o corporal
que quer dizer taça,
ou gasto.

Falaremos disso para nos evadirmos
do medo de ser submerso

no imediato
(angustiado).

Alguém se expande, um grito.

Alguém chora, até finar-se
nisso.

Oração pisada, na sua boca
vazia


55

e nas algibeiras, afinal, abarrota-se
o vazio ou a promessa?

Tudo o que se ilumina
manifesta-se.

Este punhado de terra no meu bolso
ensina-me a espessura
da regra

e sempre a necessidade de ferramentas
para reproduzir ferramentas.

Que fazer com tudo isto
quando o dia cai,

e não acaba de cair e
de remexer-se grácil em meu redor?

Eis-me ultrapassado


56

fica ainda por confirmar
se é recíproco

o amor de Deus por nós,
os homens que
o amam.

Não cessai de observar
a formiga que se apruma
sobre as suas seis patas

minúsculas como se ela
descobrisse de súbito

a sua complexidade natural para
se erguer sobre as suas seis
patas minúsculas

sem necessidade além de si mesmo


57

seja o que for, segue
a coisa verdadeira

e chegarás à vida real

sem ela tu não podes simplesmente
conhecer-te.

Observa este objecto delicado, mágico,
regista-o em quatro esboços
a lápis.

Serei eu obrigado a ingurgitar
o lápis infantil

porque despontou em fruto?

O fruto (alucinante) tombou
na bainha sem regresso,

pânico-de-bolso


58

faz-se tarde e talvez
isto não acabe.

Atrás de nós permanecerá aquele
que consentiu
em que nos fôssemos sem ele

direitos ao cerne.

É este o tempo certo
de exalar-se, de se imiscuir

antes que a luz sólida
se apague na boca?

Passam os dias e
a alegria

fora do alcance. Faz-se tarde
e talvez isto não acabe


59

o jantar não nos protege.

O que se quebra não pára
de quebrar-se.

O fogo perde a sua natureza metafísica
entre os extractos
do jornal da tarde.

Só os pueris deuses da casa
arrastando os pés nus

armam um barulho lastimável.

Eis-nos no vazio
na direcção do verdadeiro (que
é uma bolso)

(todo o grão
é bolso)


60
torno à cozinha
na cozinha, sento-me perto

da formiga sábia no fito de estudar
as coisas reais

e apago o escrito que não
cesso de escrever

toda a noite, não cada noite.

Agora já não sei mais se
se apresenta sobre a mesa uma nuvem

ou sobre a nuvem uma mesa.

Feliz o que pode dizer:
«Um dia destes
vou-me»

etc.


61

tudo isto toma o seu tempo.
A criança perde o pé.

Bailes intermináveis, etc.

Feliz o que pode dizer:
«um dia destes
vou-me»
etc.

A estrada reflecte
uma nuvem, mancha
enodada

excesso de angústia como
uma palavra extraviada
entre regras

etc.



A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS


Em 2008, como treino e preparação para o romance, que tem um fôlego e especificidades muito diferentes do conto, que tem sido a minha área, escrevi uma novela pícara e com laivos de pantagruelismo.
Como personagem escolhi o João de Deus, o alter-ego de João César Monteiro ou vice-versa, com o atrevimento que me apraz.
Era um exercício para me exercitar na extensão e no detalhe que o romance subentende, mas no qual me diverti como um bruto. 
Passei depois a novela a três amigos, todos escritores. Com a generosidade dos amigos, eles vaticinaram-me um êxito estonteante.
O que evidentemente foi desmentido pelos editores, 4, para quem enviei o livro. Ou silenciaram absolutamente, ou ternamente responderam numa linha dizendo que eu estava doido. Não tive nenhuma reacção séria, técnica, ao livro.
Por isso, como eu próprio não o levo muito a sério, decidi publicá-lo no blogue, um capítulo por semana. O próximo capítulo será postado no próximo domingo.
Como justificação para os editores escrevi então:

«Numa contabilidade rápida, o cinema novo português deu poucas personagens. Talvez o Belarmino; Vanda, a eterna viúva de O Passado e o Presente, Kilas, o inspector interpretado pelo Nicolau Breyner, em Os Imortais… e, definitivamente, João de Deus, esse alter-ego de João César Monteiro.
Agradava-me em João de Deus uma liberdade objectiva: é a última personagem portuguesa desempoeirada e liberta das suas circunstâncias, ou antes, aquém e além delas, simultaneamente, um desses raros que são sempre maiores que a situação, como Charlot e os pícaros do século XVII ibérico; criaturas desataviadas de psicologia. Suspeito que - na entorpecida condição in between que se tornou a de Portugal - João de Deus terá sido o último dos portugueses livres.
Cansava-me, em João de Deus, o mesmo que, nele, me exultava. A mais brutal obscenidade antecedia uma cosmologia, o chiste inconsequente, no desfrute de um sorvete, iluminava o fulcro onde os segredos do mundo se articulavam e expunham.
Era um místico infiltrado a fundo por Dada.
E agradava-me, sobretudo, que a locução de João de Deus juntasse Camões e Pound, Antero e Pessoa, Mozart e os surrealistas, a derrisão e o riso, os jograis e Piero de La Francesca, num mesmo novelo. De igual modo, nele (João de Deus/César Monteiro), o sagrado e o profano, o riso e o sério, o sexo e a morte, o erotismo e a pornografia, o vernáculo e o ornato da linguagem, a vida e a literatura eram indiscerníveis: o desafio, nesta tarefa, era mimetizar semelhante “orquestra barroca” em andamento, tendo sempre o humor como filtro.   
Que esta biografia paródica de João de Deus, antes de começar a filmar com o César Monteiro e depois (o resto é público), divirta é tudo o que se pretende. E por força maior, homenagear o seu criador: um cineasta que escrevia como poucos escritores e ciente de que a arte rompe conveniências (sejam quais forem) e exige atrevimento. »

Quem viu a trilogia em torno do João de Deus sabe que para além de um aparatoso des-metafísico, o sacrista é um obsessivo coleccionador de pêlos púbicos. Que admira pois que seja por aí que tudo comece?



A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS

AS REALIDADES
Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
e as ovelhas baliam que linda ai que linda está
a re a re a realidade
Era uma vez noite de breu
e uma realidade que sofria de insónia
então chegava a fada madrinha
e placidamente levava-a pela mão
a re a re a realidade
No trono estava uma vez
um velho rei que muito se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade
CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.

Aragon

Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos nada mais têm para nos dizer, desculpável é que nos viremos para a garrulice fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros.

M.Yourcenar
Memórias de Adriano

1
Átrio

Numa amolecida manhã de domingo de 2004, de malas já aviadas para o Báltico, flanava pela Baixa. Despedia-me dos lugares e murmúrios de meia vida; esquecido de ser lince, diluído no branco imponderável do Verão; sonâmbulo, sem pressa ou rumo.
Desperta-me, algures, a repetida ladainha dum realejo. O anacronismo arrastou-me até à esquina da Rua da Prata com a dos Retroseiros. Aí, um homem magro, meio encurvado, narigudo, de óculos escuros e face escalavrada, dava à manivela num realejo velho poisado sobre uma caixa de electricidade, ao mesmo tempo que, quase em surdina, recitava algo. Apurei o ouvido: era A Tabacaria, de Pessoa. Aos pés, no forro do boné, rebrilhavam moedas. Não abalei, senão à terceira reprise do poema, declamado em sessões contínuas. Algo me incomodava na figura.
No dia seguinte, volto à Baixa para visitar o meu amigo Stephan, cujo atelier fica num quinto andar da Rua do Carmo, e ao entrar no átrio do prédio cumprimento o porteiro, sentado na secretária que se dispõe para lá da caixa dos elevadores. As duas metades da porta do ascensor convergem lentamente para o centro, e, na nesga final, sou atravessado por um raio: o porteiro era, em lavado, o homem que vira no dia anterior com o realejo.
À descida, de propósito, pedi-lhe lume: era ele. Não somente o homem do realejo como a alma gémea de João de Deus. Saio apardalado.
No domingo seguinte (o meu último domingo em Lisboa) voltei à esquina da Rua da Prata com a dos Retroseiros. Lá estava ele, em realejo. Ouço o poema e deixo duas moedas no boné.
Volto na segunda ao átrio do prédio, na Rua do Carmo, e aí não estou com meias medidas, estendo uma fotografia de João de Deus ao porteiro, pedindo-lhe um autógrafo.
Ele fica encabulado e sussurra:
Como me descobriu?
Basta olhar para si… - afianço eu, espantado – Pensava-o morto.
Cita-me Pessoa:
Morrer é não ser visto…
Insisto com ele durante quatro dias para me deixar entrevistá-lo, explicando-lhe que, de abalada, não posso adiar as premências. Por fim cede. Passamos em claro as noites de quarta, quinta e sexta, eu, ele, as suas baforadas e fantasmas, e o gravador. Na madrugada de sexta desentendemo-nos, gravemente. No sábado apanhei o avião para Vilnius, capital da Lituânia..
Este é o relato circunspecto que resultou dessa entrevista.
Duas semanas depois de ter partido, contou-me o Stephan, o porteiro deixou de aparecer ao serviço e nunca mais foi visto. 
    
2
INCIPIT



1

Como lastima o Steiner, será sobrinho do renomado fabricante de ascensores que fez fortuna em Viena de Áustria?, incipit, a orgulhosa e florescente palavra latina que designava o Início, degenerou em Incipiente, desprimor contra a qual travarei combate, à dentada se tanto me for exigido. E que, com sanha e esmero, se grife a voz na retina do leitor, percuciente, verdadeira, pinchada de sangue – está dito, adoro cabidela -, ainda que se lhe misturem duas gotas de groselha. Está a gravar?
No início, as verdades são simples, ou podem não sê-lo: quem pisa a flor da abóbora não lhe provará a sopa. Do que decorre não ser verdade que só a inocência ou a ignorância sejam felizes. Espreitemos the dark side of the moon. Os indícios, são a pontapé na Cabala: Deus conhece de cor o número de pêlos e cabelos de cada um. Na origem, a observação do dano posterior já é incipiente. Mas, na origem, é como nos distingue, é o código de barras que nos coube em lotaria. Picuinhas, l’emmerdeur. Quando se rumina a cifra do infinito, para quê voltar a contar pelos dedos? Que vantagem se tira em entrar e sair de casa pela janela das traseiras? Daí que os Yoruba, que não dormem em serviço, abominem esse deus do inconsciente que habita os sonhos e a quem atribuem a demoníaca capacidade de contar. O maior desejo deles é não serem contados, não fazer parte da renda púbica. Eis donde me vem o impulso de roubar às criaturas que momentaneamente actuam na minha arena amorosa a mais irrelevante prova do recôndito: fanando-lhes um pêlo púbico danifico-Lhe o código de barras. E o meu nome não é obra do acaso – eu sou a sombra que poupa muitos ao juízo patriarcal, pois, eis a fraqueza do Altíssimo, só se aplica a saber de cor aquele que não tem tempo para a averiguação final.
Continuando, sem mais delongas ou centavos freudianos, foi ao balcão do quiosque dos jornais, no Príncipe Real, que encetei a minha colecção de pentelhos.
Ao tempo, que remonta ao lá vai alho, repontava naquele balcão uma jovem oxigenada de olhos cor de oliva, lábios violeta e peitos fluorescentes. Diariamente, eu ensaiava com ela alguns ditos brejeiros, aos quais escoiceava antes de se pôr a grazinar, suspirando como uma porta entornada. Adoro esta imagem, que catei no poeta Ángel Crespo, e que prazenteiramente escolheria para epitáfio: João de Deus, a porta entornada.
Abreviando, um dia, vesti uma camisinha branca com um Miró estampado no bolso, reforcei de borsalino, e subi a Rua do Século encrespando a voz num havana.
Em vendo-me chegar a sonsa fez-se de fingida, para eu a mimar com um piropo:
De mais nenhuma senhora estou queixoso, que de sua genitália; umbral que só ao círio apagado de Deus está reservado…
Ai, sr. João de Deus, é tão maroto…
Aí está uma palavra em desuso, como andrajos…
O que vai ser hoje?
O olhar dela, de lúbrico, acenderia toda as velas da igreja de S. Roque. Num impulso, passei-lhe o chocolate que trazia no bolso e, imperativo, no timbre que o Mason me roubou, pedi:
Esfrega-o.
Nem hesitou. Rebrilharam-lhe os dentes (confirmei-o depois: estrelavam assim que a rata dela virava paul, aí está uma metamorfose que o Ovidio não previu), subiu a saia plissada, meteu-o na cuequinha, como fazem hoje muitas com os telemóveis, e esfregou-o na crica. Bom, primeiro tirou-lhe a prata.
O chocolate, reservado para uma mousse, tinha uma semana de frigo, e estava rijo. Ela esfregou-o com ganas no tépido rincão; nem quando chegou um sexagenário distraído e gaguejou «O Co-co-mércio do Porto, faz-z favô…» ela abandonou a manobra. Dissimulou, um olho na tablete, outro no imprevisto, aviou o cliente (profissionalismo deste já não há!) e continuou o ruge-ruge.
Ia desfalecendo quando as narinas aspiraram o cheiro que se exalava da esfrega, imagine uma essência galante com um assobio de chocolate e outro de marisco. Ela revirava os olhos e cruza a rua o Agostinho da Silva. Cumprimentei-o de longe, apontando-a:
«Mestre, uma portuguesa desatada…».
O meu enlevo, ao inspirar a fragrância da tablete amolecida, antes de a voltar a encamisar na prata, não vem ao caso porque aquele era aroma edénico que remontava ao primeiro homem. Nem lhe agradeci, o que é genésico não é para agradecer.
Está ali, naquela moldura. Entre as 11h30 e as 11h35, incidindo-lhe o sol em 68 grados, vê-se a mancha do chocolate.