terça-feira, 17 de maio de 2011

FORTUNATA CR'ITICA/ TEIXEIRA DE PASCOAES

foto de amadeu baptista: o outro lado das nuvens
Impelido por razões de trabalho li outro clássico, desta vez o poema Senhora da Noite de Teixeira de Pascoaes, que no volume consultado, antecede Marânus, que é na verdade o que preciso de reler, por estrita necessidade. Tive o prazer de uma língua que encontra a mitra do peru acabadinha de sair do congelador. É arrepiantemente perdulário o Pascoaes, pior que o Cardozo do Benfica, que falha e falha e falha golos diante da baliza vazia. Apliquei-lhe a tesoura, numa técnica invasiva de respiração boca-a-boca (e viva a insolência): aqui vos deixo a silva, o lote de salvados, seguido de 4 rugas que redigi nas margens do poema.

SENHORA DA NOITE
1
Aí vem a meia-noite,
rosa de sombra
que, em botão, é estrela.

Aí vem a meia-noite,
um lácteo derrame anuncia
a Sibila, o Poeta, o Rouxinol.

Aí vem a meia-noite
a derivar para o distante
jardim do mar.

Casto alvor da neve,
sob os pés, lá vem –
e silva o vento enamorado
e preso da sua trança.

Seu agitado leque
é o vento sul,
muito além ressoa.

Ouve-se Orfeu
e a voz magoada de Euridice
que surge dos arvoredos,
- limosa a carne.

Não tarda, a triste dama,
cinza gelada, múmia de som,
aí vem – a meia-noite

(Lembra a asa viva
dum clarão sobre a terra
cismática dum monte).


2
E a noite
subiu comigo aos cerros
do Marão. Alto sorriso,
lúcido, marmórea luz,
solta folhagem
de azul desfeito.

E a aurora,
sentindo sobre a fronte
a minha alegria –
mesmo que seja de mortes
a minha vida – com o relâmpago
da sua comoção
me trespassou.

Aí vi
a semente que quer ser árvore,
o plinto de mármore
na nuvem que se espanta,
como o frio se embebe de calor
e a seiva arde
na corola,
na sua bainha tão verde.

E aquele riso
claro e fecundo
dava um ar infantil de paraíso
à velha e férrea idade deste mundo.


3
Em grande magia, o mar.

E a senhora da tarde, enamorada,
dirige-se ao poente
que lembra estranha Babel,
                       incendiada.

                       E vem da serra
ignoto sol escuro.

Cotovia da sombra,
                        o mocho pia
- o mocho é treva.


4
Engelha a noite, a velhinha.
Mal pode andar
                  tão pálida e fatigada.
Deita-se e dorme.

Dorme, dorme, sossegada,
que o teu sonho é madrugada.   



SENHORA DA ALBA

1
Sem dar azo a mais destrinças,
           posta a alma ao lume
(bem ou mal passada?),
                                          a treva
encarvoa-se de silêncio.
Vem a alba e lembra-me:
                                 como cintila
a minha mão no teu dorso!


2
Tudo se penetra:
no fundo é a mesma coisa,
só conta a parte de amarelo
                 que existe no azul
dum céu que transpira
no sonho de ser esmeralda.
Esgarça-se a nuvem, é uma questão
                           de sintaxe,
só as nuvens arrumam os cimos,
pois sem sintaxe não há emoção duradoura
                           nem é a cerejeira
             reminiscência
nas costas da cama que te ouve
             em blandícias.


3
Por que escrevo, se a chuva não pára?
Sou um plebeu em ascese para o zero,
                                      um esqueleto
                que joga aos dados
as letras que ditarão o seu nome.
Por que escrevo,
                            se perdura
o grande silêncio sem patos
bravos
            em rajadas sobre o lago?
Escrevo porque sou a camisola
            de alças
                     no teu corpo.


4
O quatro tem uma perna
de ganso.
                  Chapinha.
A barriga parece a minha.
                  O rabo é o teu.
Está grávido do cinco,
                  Senhora da Alba.

domingo, 15 de maio de 2011

PORQUE HOJE É DOMINGO: TER GALO/ um conto inédto de Valério Romão

Um gajo já não pode confiar nos amigos. Pede-se-lhes, pá, faz-me lá um continho para meter no blogue e o marmelo responde à letra. É o que dá ter nascido em França, de pais emigrantes, fica-se a pensar que o leite é leite quando é vinho. Mas pronto, como apesar do meu embaraço (e mais não digo…) o conto tem a lâmina recurva que é preciso, aqui vos deixo um belo naco de prosa inédita de Valério Romão. E uma pergunta: que andam os editores da língua portuguesa a fazer que estão tão distraídos?

TER GALO
I
O Toni era bom miúdo, pelo menos era essa a opinião dos seus pais e demais familiares que com ele privavam desde que o rapaz não excedia, em tamanho e habilidade motriz, a forma oblonga de uma abóbora generosa. Foi por isso com alguma surpresa que o pai e a mãe do Toni receberam da directora de turma um bilhete, através do qual eram convocados para uma reunião de carácter extraordinária onde se discutiriam assuntos inadiáveis relativos ao educando Toni. O pai do Toni ouvira dizer a um colega de trabalho que esse tipo de encontros, em cima da quadra natalícia e a fechar o primeiro trimestre de aulas, serviam normalmente para transmitir aos pais que os educadores haviam querido educar o educando mas que este, teimosa e não raras vezes rudemente, não se deixava educar. Tendo em conta que o Toni era tão bom miúdo como bom estudante e que não havia indícios que nos últimos tempos ele houvesse deixado de ser uma coisa ou outra, receber uma notícia do calibre desta seria uma surpresa tão grande – mesmo que inversamente agradável – como ganhar uma qualquer lotaria e os pais de Toni, embora pessimistas pelo tom inegavelmente apreensivo da missiva, não esperavam que o filho houvesse sucumbido a uma hecatombe classificativa sem haver, pelo menos, um boletim prévio através do qual os pais pudessem antecipar o luto, banir os objectos electrónicos de entretenimento e proibir, numa arremedo de censura intelectual saudita, Google, Facebook e derivados.
O seu filho nunca evidenciou comportamentos deste género, torno a dizer, se me permite a aproximação cuidadosa ao assunto. Se fosse outro rapazito
       daqueles que já tivemos o cuidado de sinalizar para que o agrupamento lhes preste a devida atenção pedagógica
       não me admiraria e nem estaria aqui, nestes propósitos
       que não é nada meu, para ser honesta
       a tentar expor o assunto com a devida delicadeza, porque tenho dos senhores a melhor das impressões e vosso rapaz, desde que cá anda e excluindo as normais tropelias que são um sinónimo, não raras vezes, de um crescimento saudável, nunca havia sido fonte de preocupação para ninguém, muito menos para os professores que o acompanharam até agora
       mas as coisas são o que são e seria inconsequente da minha parte pretender que fossem de uma forma diferente ou não as levar à vossa consideração
       ai, desculpem-me rima
E entre umas risadas de circunstância, forçadas pelo silêncio e empurradas pelo desconchavo de três diafragmas a tentarem afinar o tom da conversa, a directora prosseguia no seu longo intróito à apresentação da versão adequada dos factos, com o qual pretendia que a verdade chegasse aos pais mastigada e digerida de tal modo que conseguisse, pela exposição cuidada do tema e pelo manejo da forma pelo qual o debitava em parágrafos de duas orações, cirurgicamente entrecortados pela exposição gratuita e oblíqua de duas fileiras de dentes, influenciar, num registo tão inconspícuo como hipnótico, a punição de que o Toni, na cabeça pedagogicamente formatada da directora, seria merecedor. Numa regurgitação de pássaro, calhar-lhes-ia no colo a ideia da directora como se fosse a deles, através da qual o Toni teria de ser educado tão cândida como firmemente, da mesma maneira que se corrigem os cães abebezados que não conseguem conter o prazer de ver os donos; mais, seria inadequado e menos seria indolor. A educação, para a directora, era como uma pirâmide de flûtes onde, às vezes, por descuido ou imprópria colocação, um dos copos não enchia, comprometendo-se e comprometendo toda a estrutura subjacente e a responsabilidade, naquele mundo geometricamente perfeito, dividia-se equitativamente segundo o andar da pirâmide, a quantidade de copos afectados e a perícia ou bondade de quem fazia soluçar o champanhe pelo gargalo da garrafa.
       De qualquer modo
Prosseguia a directora
       o assunto, embora gravoso, não merece que lhes roube toda uma tarde de trabalho. O vosso filho, assim como os outros meninos, teve de escrever, como é costume nesta altura, uma lista de presentes de Natal.
Se me permitem um aparte confessional, lembro-me de quando começámos a pedir estas listinhas aos nossos educandos. Há vinte anos, por exemplo, pedir-lhes que nos dissessem três coisas que desejassem para o Natal era excessivo. Por um lado, a maior parte deles sabia que não teria mais de uma prenda, e muitas vezes grandemente distinta daquilo que haviam pedido e, por outro lado, três desejos de Natal parecia-lhes – e a nós, confesso – manifestamente faraónico. Agora,
       mudam-se os tempos
       fazemos listinhas de dez desejos de Natal e só impondo restrições muito severas conseguimos que as crianças não excedam aquilo que lhes propomos. Qualquer dia
E fazia uma pausa onde entalhava um sorriso semi-paternalista e preparava-se, numa deformação profissional para a qual já estava cega, para finalizar a história, como sempre, com uma componente moral
       teremos um mês inteiro só para fazer as listinhas de Natal ilimitadas e não tenho dúvidas que, mesmo assim, as crianças ainda as achem insuficientes.
Os pais do Toni, numa deferência ilimitada para com a exposição do óbvio, anuíam que sim com a cabeça, sem ousarem expressar-se verbalmente sob pena de prolongarem os excursos pedagógico-morais da directora e os três, inclinados para a mesa como se a gravidade houvesse achado um umbigo, faziam do silêncio e do sorriso as pontes para os planaltos através dos quais, esperava-se, a directora soubesse expor o motivo pelo qual estavam reunidos.
       O vosso menino fez a lista dele e entregou-a a professora, que costuma reunir todas as listinhas e lê-las à turma para que os colegas tenham ideia do que é que cada um quer para o Natal. É um exercício simpático para que eles interajam e equacionem, através das perguntas que lhes vamos fazendo sobre o comportamento que tiveram ao longo do ano, se eles próprios conseguem achar-se merecedores de tamanhas regalias
       e não é difícil concluir que a maior parte tem uma ideia de si muito mais ampla que os corpinhos que a albergam
       Por vezes temos surpresas muito agradáveis porque há garotos que nos incluem, ou aos colegas ou aos familiares, no íntimo das suas listas e é reconfortante saber que o Natal, apesar da publicidade e do consumismo que lhe está associado, consegue ainda despertar no coração deste meninos uma vontade de partilha que devíamos cultivar como uma rosa no deserto.
       Céus, perdoem-me este afrontamento poético, que isto não é nada meu. O espírito natalício deve ter também passado por aqui
E os três, já por hábito, trocavam os galhardetes de uma risada enquanto aproveitavam para ajeitarem os corpos ao desconforto das cadeiras cuja preocupação ergonómica dataria certamente do tempo em que a madeira era talhada com o propósito de inculcar, naqueles que dela se iam servir para se sentarem, a empatia pela paixão de Cristo.
Cruzando as mãos como um médico que acaba de pousar os exames complementares de diagnóstico, a directora baixa os olhos e suspende a as interjeições sorridentes com as quais pontuava a conversa.
       A professora, quando foi ler a listinha dele para a turma, teve de se conter, o que é muito desagradável, para não revelar aquilo que o menino havia escrito aos colegas. Como é uma colega com experiência, que muito admiramos, conseguiu que a aula prosseguisse sem o sobressalto que seria causado, temos a certeza, a leitura integral da listinha.
       Ela própria veio entregar-me a lista antes de falar com o menino e, em boa verdade, ainda não tomamos qualquer tipo de procedimento com o vosso filho, porque queríamos falar com os senhores primeiro e chegar a algumas conclusões antes de investir pedagogicamente.
O vosso filho
parece-nos um menino muito saudável, muito educado, muito correcto
escreveu na sua listinha de dez desejos de prendas, por cinco vezes, que queria uma espingarda que matasse.
E enquanto terminava a frase tirava da gaveta um papel pequeno e garatujado que entregava aos pais do Toni que, de repente, sentiam o alívio típico do diagnóstico e o pesar que se lhe segue, próprio de quem procura, dentro de si, convocar os recursos necessários para resolver o problema. Dos três havia-se eclipsado o sorriso social e o papel circulava de mãos em mãos e cada par de olhos que lhe tocava a espessura capilar arranjava uma forma de materializar a surpresa do contacto em expressões rebuscadas de incredulidade e de desaprovação. A directora
       O que é que vamos fazer com isto?
II
Quando o pequeno Toni olhou para o formato dos embrulhos que jaziam como as entranhas inertes de uma árvore de Natal imaginariamente esventrada, apercebeu-se da possibilidade de, por uma vez na sua ainda curta vida, a sorte o ter bafejado num assunto que ele dava por perdido desde que o formulara em desejo e, no dia que precedeu a véspera de Natal, Toni mal pôde pregar olho e o pouco que sonhou já tinha sido contaminado pela presença daquele embrulho no qual se escondia, imaginava Toni, a espingarda que ele tanto pedira ao Pai Natal em carta, a Deus em preces e aos seus pais em metáforas a que eles, aparentemente, eram imunes.
A forma como Toni formulava o seu desejo era, não raras vezes, ambivalente; se por um lado especificara, de cada vez que falava no assunto, que queria uma espingarda a sério, convencido de que o “a sério” seria imediatamente convertível numa propriedade essencial e indespedível da espingarda, i.e., o facto de ela ser uma arma, de ser arma de tiro e de ser uma arma mortal, por outra parte não era menos verdade que o Toni, quando inquirido, manifestava uma certa dificuldade em justificar a sua escolha, evadindo a questão com um encolher de ombros estratégicos ou com um “eu quero” em ritmo infantil de semi-sapateado.
Seria a todos os títulos inconfessável, no seio de uma família regrada como a sua, anunciar,
talvez a do Júlio fosse mais adequada para exprimir este tipo de pulsões homicidas porque, dizia-se na Escola, sempre que a oportunidade de expressar um segredo já conhecido de todos mas suficientemente hediondo para se fingir surpresa consternada a cada audição surgia, que o pai do Júlio estava preso e quem estava preso ou era um ladrão ou um assassino. Tendo em conta que a detenção do senhor já se prolongava, pelo menos, por dois anos lectivos, era justo assumir que o pai do Júlio seria mais assassino que larápio pois dois anos era muito tempo para estar detido por roubar fosse o que fosse
mesmo fingindo ser uma brincadeira para tomar o pulso ao critério moral do momento, que se queria por fim à vida de qualquer criatura maior e menos repelente que uma barata (empreitada para a qual todos contribuiriam menos a mãe, que lhes tinha um pavor alérgico), mesmo que fosse um par de galinhas e um galo, como era o caso na cabeça do pequeno Toni, que mirava com redobrada expectativa o embrulho elíptico de onde sairia, no dia de Natal, esperava, uma solução para o problema das manhãs de Domingo interrompidas pelo cocorococó a destempo que o deixava dormir há meses.
O galo do vizinho, ao contrário dos galos das histórias, não cacarejava o glorioso despertar matutino no telhado do celeiro ao raiar do sol, como outros o faziam em tantas ilustrações que Toni já vira. Este galo, que Toni odiava ao ponto de não consegui sequer dar-lhe uma alcunha moderadora, acordava muito antes dos primeiros segundos de fotossíntese e, revigorado pelos ares pré-matinais, alçava da epiglote e, do alto do ponto mais elevado a que podia chegar fazendo um uso intensivo mas desajustado das asas que deus lhe conservara por piada, debitava em longuíssima e estridente voz de galo a equivalência inversa do que seria a alegria matinal. Este galo, cuja existência fazia com que o Toni, por contágio, começasse a detestar as galinhas e os galos como um todo até chegar a qualquer criatura emplumada, passando naturalmente pelos pombos arrulhadores que lhe lembravam galinhas menores a anti-depressivos, era o único obstáculo entre um sono justo e adequado à idade e os constantes sobressaltos pelos quais Toni passava, já com a antecipação a contribuir grandemente para empolar o estado de tensão que o acompanhava de cada vez que a horizontalidade da postura rimava com sono e sonho.
Toni havia tentado junto dos pais uma ofensiva diplomática para que estes percebessem a dimensão do problema; chegou inclusivamente a propor um acordo com base em notas escolares: se os pais concordassem em trocar de quarto com ele, Toni comprometer-se-ia a ser o rapaz mais bem comportado e classificado de toda a sua turma nos trimestres que faltavam para acabar o ano lectivo. Os pais não percebiam a necessidade de Toni de trocar de quarto, apesar de estes estarem em zonas diametralmente opostas do mesmo andar da vivenda que habitavam. Para eles, os quartos eram quartos, i.e., paredes caiadas, segundo rezava a música, feitas para albergar corpos mais ou menos cansados. O pedido do Toni nunca fora considerado porque os seus pais tanto achavam que era obrigação do petiz ser o melhor – ou fazer por ser – da turma, como tinham a ideia firme que não deviam abrir precedentes logísticos sob pena de um dia acordar com a parede da garagem grafitada a pretexto de uma qualquer inovação estética. O Toni, como tinha uma vergonha desmedida em confessar os verdadeiros motivos pelos quais se queria afastar do seu quarto ou, melhor dizendo, daquele lado poente da casa, acabava por resignar-se no descontentamento típico das crianças, que esperam o sim sem parar isso anteciparem ter de desenrolar publicamente o porquê.
Geograficamente, os plumídeos estavam localizados num quintal que distava dois do dele. Toni não tinha acesso directo ao quintal do vizinho, e muito menos ao quintal posterior ao quintal do vizinho, onde deambulavam o galo e as galinhas, dos quais ele sabia a existência pelos cacarejos frequentes e por eles esvoaçarem – tanto quanto lhes era possível, o galo mais vezes do que as galinhas – para cima do muro de tijolo sem reboco onde provocavam, sem parecerem dar atenção a isso, o cão do vizinho, um rafeiro com costela de pastor belga que escondia, por debaixo do tufo de pelo que lhe chegava da testa ao focinho, os olhos mais pretos e brilhantes que Toni já vira.
A ideia de matar os bichos à pedrada já lhe havia passado pela cabeça. Não fora a distância considerável de uns quinze metros e a falta de pontaria de um braço que a custo se esforçava diariamente para não roubar, numa contracção muscular involuntária, as pernas dos F’s ou as curvas generosas dos S’s, e Toni já teria resolvido o problema. O facto de a vizinha passar alguns bocados do dia a estender roupa na varanda do primeiro andar ou a deixar-se lamber pelo sol enquanto fumava não ajudava o pequeno Toni a concentrar-se na tarefa de, deixando o galo alçar-se no muro de tijolo, calibrar a força, direcção e ângulo de saída de uma pedra semelhante àquelas que ele usara em treinos com garrafas de plástico, as quais raramente sucumbiam aos intentos lapidadores do pequeno Toni e faziam prever janelas partidas e outros cuidados acaso Toni resolvesse tratar do assunto à pedrada.
Outros esquemas já haviam sido imaginariamente considerados. Alguns não eram sequer planos, na acepção activo-conspirativa da palavra. Eram desejos, fantasias dispersas alinhavadas entre uma distracção e um despertar. Uma das ideias recorrentes do Toni fundava-se sobre a possibilidade, até agora inédita, do galo cair muro abaixo em direcção ao rafeiro intempestivo. Não somente o problema teria um fim, como não haveria possibilidade – e muito menos legitimidade – de ligar um acontecimento fortuito a um desejo que lhe fosse, em segredo, subjacente. Os galos, pela quantidade de vezes que aquele galo específico já havia subido, andado e descido do muro, deviam ter um precioso sentido de equilíbrio aliado e um desprezo quase felino por aquele ladrar gutural, tão intenso quanto inofensivo.
A espingarda, transversalmente deitada num coma de embrulho, havia de ser a solução.

                                                                                III
Quando eu consegui entrar no quarto
tive de arrombar a porta, perdi a conta a quantos pontapés lhe preguei para que a conseguisse finalmente deitar ao chão, porque ele tinha-a trancado por dentro
vá-se lá saber porque o fizera
ele estava estendido, ao pé da janela, e sob o impacto do momento nem percebi, de imediato, que ele não estava a dormir, que aquilo não era sono mas a sombra da morte, que o meu menino estava ali sem ali estar, emprestado pelo tempo
a boca cheia de espuma e os olhos revirados, eu até pensei tratar-se de um ataque epiléptico, algures li sobre isso, um primo meu
que Deus tem
teve até muito tarde e era assim que ele tombava maduro, tínhamos de ter cuidado para ele não mordiscar a língua e de resto era esperar que aquilo passasse, aqueles espasmos
e a verdade é que muita gente tem, por que não poderia o meu filho aparecer-lhe
como aparecem as gripes ou as alergias sazonais
a gente não ia gostar dele menos por isso
por se perder dele próprio em tremores tétricos ocasionais
tudo se compreende num filho
e mesmo que não se compreenda perdoa-se
e eu perdoo-lhe isto
perdoo-lho mesmo que não o perceba
assim como lhe perdoava tudo mesmo que não percebesse nada
fora isso acordá-lo deste torpor e salvá-lo num repente redentor e o médico me viesse aqui à sala dizer que ele dormia descansado um sono solto de criança
e que podíamos esperá-lo à beira da cama entre flores e caixas dos melhores chocolates e prometendo uns aos outros que nenhuma pergunta teria de ser feita
porque à sorte
como ao azar
a gente não deve perguntar mas aceitar
e as perguntas
a serem feitas
já vêm atrasadas e fora de tempo
porque não nos questionámos antes
quando lhe oferecemos aquela espingardita de plástico
que ele dividiu em corpo e cano com uma serra de metal para dela fazer uma espécie de zarabatana
como me disse o seu colega
que pelos vistos é uma arma com origem na América do Sul
mas os miúdos agora sabem tudo com a televisão com a internet
ele sabia o que fazia quando a seccionou com algum esforço
e quando a entupiu de veneno para ratos que eu guardava na garagem
numa prateleira alta
a salvo dos curiosos
pensava eu
pensava que ele nem sabia o que era veneno, quanto mais que o pai o teria para impor sossego territorial em casa e nos arredores
ele queria provavelmente atirar aquilo para algum lugar onde a mão não lhe chegava e inventou um tubo com um cano de uma espingarda de brincar
e quando aquilo entupiu deve ter aspirado parte do composto a tentar desentupir o cano e agora está ali rodeado de médicos que lhe tiram e metem coisas no corpo
à espera que o corpo
Algum dos senhores é o pai do António?
Alguém aqui é pai do António Cabrita?
Sou eu Doutora, sou eu

sábado, 14 de maio de 2011

CARTA A IZABEL LISBOA

janela de casa desenhada por pancho guedes
Debate comigo Izabel Lisboa no seu blog, aqui, a propósito do meu post sobre a morte do Bin Laden, e fá-lo com veemência e paixão. O regime da paixão merece-me sempre respeito e o diálogo é necessário, para mais num mundo que alguns reputam já de pós simbólico.
Eu, de facto, nunca nutri qualquer simpatia pelo falecido Bin Laden, repudio os seus métodos, duvido até da justiça da sua causa e nunca o tomei por David.
Aliás, mais de uma década depois de 2001, as sociedades islâmicas não estão mais fortes no debate interno, nem mais justas nas políticas sociais, o que valida as revoltas que se têm sucedido em efeito dominó, e avolumam-se as sombras sobre o que se vai seguir, por exemplo, no Egipto, que está sob ameaça de cair nas malhas dum governo islâmico autoritário, tão tenebroso como o de Barak. Não vejo que a cruzada de Bin Laden tenha trazido um ganho, para além da Al Jazira (mas que ele dinamitaria, se ela o criticasse).
O que não me empurra em nada para posições pró-americanas, ou pró-ocidentais. É evidente que é uma prepotência Obama declarar que com a morte do Bin Laden se cumpriu a justiça, tal como nenhuma reparação de justiça esteve por trás daqueles aviões que embateram nas Twin Towers. Num caso estamos diante da retórica do dominador, noutra estamos face ao ressentimento do dominado. Nenhum tipo de ressentimento pode lograr a justiça: tudo aí se reduz à aposta vã do lobo que quer mostrar ao leão que também sabe caçar. Não se sai do círculo do jogo predatório.
Aliás, por exemplo, sempre achei a esperança que se depositou em Barak Obama uma ilusão, porque nenhum homem pode colocar-se acima daquele sistema, num país onde a maior indústria é a das armas - como veio a ser demonstrado.
Agora, ter de aceitar que Bin Laden (ou similares) sejam a resposta contra o Império Americano, ou que os meus alunos não leiam Derek Walcott ou Aimé Césaire (dois expoentes fundamentais da cultura negra) em nome do seu direito de se abandonarem à «possessão» na Iurd, parece-me apenas uma armadilha que não nos deixa pensar o que é necessário; é uma chantagem ideológica, em que uma esquerda lúcida já não pode embarcar, porque já basta que em todo o século XX o maior inimigo da esquerda se tenha situado nas suas próprias práticas no exercício do poder.
O mundo hoje é mais complexo e exige um esforço redobrado para superarmos a bipolarização. Temos de conseguir pensar em arquipélago e muitas vezes contra nós mesmos, contra as primeiras impressões. Como o Groucho Marx que era mais sério do que se supõe quando dizia que nunca aceitaria entrar num clube que o admitisse como sócio.
Por exemplo, a avançada cínica e brutal do neo-liberalismo em todo o mundo tem conhecido como contraponto a re-tribalização do mundo e o assomo das «identidades culturais».
Ora, este facto, paradoxalmente, paralelamente a constituir-se como uma reserva ecológica das culturas tem-se revelado também algumas vezes um ninho de ratos legitimador de coisas terríveis, e carece de um exercício de distanciamento crítico, de forma a conseguirmos distinguir o trigo do joio.
Estamos numa encruzilhada, sob a derrocada dos Mitos do Progresso e a Tentação das Origens. E esta é uma nova armadilha.
O Amin Maalouf explica-o muito bem num livro extraordinário «As Identidades Assassinas», onde demonstra o abismo e a intolerância a que nos conduz o ardil das identidades quando estas se tomam por essências – pois estas nunca suportam o aroma da alteridade, o outro e a sua deriva.
E podemos preferir o cosmopolitismo à autarquia das identidades, tendo uma saudável atitude de diálogo e reserva, sem sermos movidos pela adesão a qualquer tipo de Centralismo, estando pelo contrário de antenas viradas para as minorias e as expressões “periféricas”. Por exemplo, contra a opinião de jornalistas e escritores amigos de S.Paulo e do Rio de Janeiro – que chamavam a si todo o destaque do que se passaria no Brasil, o resto seria paisagem segundo eles – eu publiquei uma antologia de literatura amazónica. E orgulho-me de ter editado o Vicente Franz Cecim, um visionário, a que a intelectualidade do rio ou de S. Paulo continua surda, porque ele insiste em manter-se em Belém.
Vim para Moçambique por opção, a ganhar o mesmo que os moçambicanos, não aterrei como cooperante (nada me move contra os cooperantes, eu simplesmente aterrei de forma mais “inconsciente”), nem como representante de coisa nenhuma, nem da Civilização Ocidental, além da vã esperança de ser útil e de, entretanto, ler e escrever.
Agora, ninguém larga o conforto europeu e vem de pára-quedas para um dos países mais pobres do mundo por ser a favor da cultura do fast-food e do “pensamento único”.
E sou pelas sínteses, pela coragem da mestiçagem, por uma racionalidade que englobe a emoção contra o racionalismo (porque são coisas muito distintas, a racionalidade e o racionalismo), e ponho toda a minha imaginação nesse combate. Embora não sufrague o retorno ao espírito do lugar por mera alucinação rousseauneana. Até pelo motivo mais simples: há coisas boas e admiráveis nas outras culturas e nas sociedades tradicionais, mas o que tenho aprendido neste meu mergulho no terreno (em África, e em viagens ao Iémen, à Índia e ao Paquistão) leva-me a considerar que a Sociedade Ocidental não tem o exclusivo do Mal – e que uma lucidez se impõe se não queremos naufragar na demência.      
Por exemplo, a medicina tradicional africana tem práticas funcionais e alguns resultados inegáveis em certas áreas mas é uma desgraça que, em nome da Tradição, se continue a sancionar o comportamento dos milhares de homens que face à infertilidade da mulher se recusam a fazer exames clínicos e que, influenciados pelos curandeiros, acusam as mulheres de feiticeiras, com toda a violência social que daí decorre. Eis uma superstição que deve ser combatida, tout court.
Esta é uma realidade verificável todos os dias no Hospital Central de Maputo. E a minha opinião não decorre de nenhum sentimento de superioridade de Europeu sobre esse «saber» africano, mas sim de uma sensibilidade atordoada com o sofrimento inidulível do(a)s outro(a)s.   
E pronto, Izabel, resta-me dizer-lhe que gosto muito da sua foto nova no blogue. Beijinho

quinta-feira, 12 de maio de 2011

CARTA A UM JOVEM ESCRITOR 5



Volta o Rollo May a intrometer-se na placidez da minha manhã. Não devíamos dormir com livros à cabeceira, era preferível um sorriso ou as pernas longas da Jane Russel. Calhou-me o Rollo, agora há que amassar o pão. 
Mas lembra ele esta exortação de Joyce: “Bem-vinda sejas ó vida, vou pela milionésima vez, ao encontro da realidade da experiência, para moldar na forja da minha alma a consciência ainda não criada da minha raça.” A frase é do Retrato do Artista quando Jovem, e é exemplar, porque, lembra o terapeuta, “cada encontro criativo é um facto novo; de cada vez a coragem (teima o gajo, cf. post anterior) deve ser afirmada. O que Kierkegaard diz sobre o amor vale também para a criatividade: cada pessoa deve começar do princípio.”
Ora a mim interessa-me muito esta ideia (aliás verificável) de uma alba consecutiva, pois isso compele-nos para o comprometimento. É de facto como no amor, que só funciona se não abrir uma janela para o ressentimento (fazendo ressaltar as esquírolas do passado) e tramar antes o novo, o qual – por sua vez - não se confunde necessariamente com a novidade mas tem de ser uma forma renovada de olhar as coisas.
E só sabemos que estamos engatados (a pedalar em pleno comprometimento) quando se deu essa deslocação, tal metanóia. A raça é o portador dessa nova sensibilidade, de um comprometimento em estar no ponto da porosidade, em estar-aí, onde o diálogo com a realidade não submerge, inquinado pela sedição do (nosso) passado. Já da raça falava Pound, «o poeta é a antena da raça», mas tirem os cavalinhos da chuva os que queiram ver nisso disparates de pele.
O que implica um trabalho incessante, uma vigília (reparem que Joyce recorda que a consciência não nos foi dada como papa-feita no Monte Sinai), ter a ousadia de experimentar e de falhar, do mesmíssimo modo que temos de aceitar o encontro com a realidade da experiência, invariavelmente em devir. Não há como fugir: a experiência devassa-nos.
Espanta se tenho dificuldade em demorar-me nos poetas que são como aquele actor que ataca sempre as personagens do mesmo modo: de risca ao meio.  
Quando em miúdo me deu para “ungir o verbo” com um ar de gato esfolado por dentro, o meu pai ficou apreensivo. Chamou-me à parte e perguntou-me se não era preferível “fazer-me homem”, isto é, começar a desassossegar raparigas e pomares.
Depois de jantar, no intuito de esvaziar a minha pretensão, propôs-se escrever um poema. Passado meia hora entregou-me um soneto de factura técnica irrepreensível que tinha Lisboa como tema. Eu é que, obstinado por uma cegueira entranhada antes de tempo, intui aí que a poesia não tinha nada a ver com o versejar e que o endereço prévio, a formatação do tema, a inquinava.
Escrever sobre, intuía eu, reduz a linguagem ao papel do carteiro, a uma mediação neutra.
O meu pai, em sintonia com tantos poetas de hoje, concebia o poema como uma paisagem mensurável, com tique-taque. Ele confundia a qualidade do poema com o seu escanção.
Ademais, procurar regular sinceridade estética e fiabilidade psicológica, numa síntona veracidade vernacular, não passa de uma má influência do cinema de Hollywood, que é «condutivista» e liso: i.é, o ideal para um estrato etário baixo.
Quando os leio tiro-lhes o chapéu - o meu chapéu de antropófago, bem entendido! – para usar uma tirada com graça, de Aimé Césaire.
A poesia está noutro lado. Onde está, não sei. Só sei quando a encontro.



quarta-feira, 11 de maio de 2011

TOU A PÊDI, DOIS DEDOS DE COBARDIA



 Escreve o Rollo May, “uma atitude comum nos nossos dias consiste em fugir à responsabilidade de estruturar a coragem necessária para um relacionamento autêntico, deslocando o centro da questão para o corpo (…) Na nossa sociedade, é mais fácil desnudar o corpo que as fantasias, desejos, aspirações e temores (…) E assim as pessoas isolam o edifício mais “perigoso” de um relacionamento indo directamente para a cama. Afinal de contas, um corpo é um objecto e pode ser tratado como tal.”
Passei metade da vida a espetar o corpo contra as esquinas mais rubicundas, porque pelos vistos me faltava a coragem para a amizade e para uma embriaguez que se depurasse pela sublimação. O credo era o corpo e longe de nós faltar à sua chamada, a qualquer preço. As coisas melhoram quando se adquire consciência de que também se paga um preço e que há uma reciprocidade na falência, mas é sempre um risco para o funâmbulo equilibrar-se sobre as ruínas emocionais. Dissipámos, sem fruto. Não me lamento, constato, era o ar do tempo: a delapidação. Há uma grandeza nisso quando, numa breve pausa, damos conta de que não saímos ilesos mas que como os gatos sabemos lamber as feridas sem queixumes ou sem projectarmos o azedume sobre os demais.
É quando nos descobrimos gatos escaldados que as coisas começam a virar. Espero. Eu estou apaixonado pela caixa do supermercado mas já não penso em, como o Dali, desnudá-la para lhe meter dois ovos estrelados nos ombros (- esta é para o caso da minha mulher me espreitar o blogue). O flirt tornou-me menos odiosa a ida ao supermercado e aumentou o meu sortido de cadernos vazios. Se fosse do género de me angustiar diante da folha em branco estava tetraplégico. 
Há uma mulher polícia, de poisio certo, junto ao meu Banco, que me desvia sempre o pensamento de Plotino. Vou eu com o Plotino a inchar-me os neurónios, passo pela silhueta dela e incham-me as hormonas. Ou é ao contrário, já não sei. Temos um jogo, todos os dias lhe ofereço um preservativo que nunca usaremos. É para lhe lembrar a Lei – afirmo, muito sério, de camisinha estendida. Você tem um belo cassetete! -, atiro-lhe na despedida.
Na universidade, há uma colega que cada vez que encesta em mim os olhos verdes eu lhe falo da trepanação do Apollinaire. Ela ri, não sei porquê, uma trepanação é uma coisa muito séria. E então, replico-lhe, Sabe Túlia, a beleza foi feita para consolar os que abdicam. Esta é uma máxima que adquiri para mim há quinze dias. Repito-a a cada momento, sempre que vacilo. Que Nosso Senhor me perdoe mas agora cada vez que vejo uma mulher penso em santa Justa, que não dava folga nem para o pai. Espero que esta frase seja suficientemente ambígua para se perceber que ando há uma semana na fila dos corajosos. Ainda não sei o que hei-de pedir quando chegar ao balcão.


segunda-feira, 9 de maio de 2011

LEMBRO QUE NÂO ESQUEÇO, Ó ÓSAMA



LEMBRO QUE NÃO ESQUEÇO, Ó BIN LADEN


Na Líbia continua o caos, e, apesar de tudo, sou mais contra a ineficácia da Nato, do que a favor da sua ingerência, sobretudo porque é tardia e hipócrita. Vejam como estou dividido.
E não tenho a certeza se foi a melhor opção transformar Bin Laden num mártir.
No essencial, tenho um drama com o islamismo actual: lamento profundamente que os seus moderados não sejam mais veementes e constantes a criticar os seus radicais, como se estivessem a jogar em dois tabuleiros – salvaguardando a ambiguidade suficiente para se poderem acomodar sem sustos, caso os radicais triunfem em toda a linha.
E o problema não está só no modo como se trata metade da humanidade (as mulheres) nesse universo, e no tratamento pouco urbano que recebeu Laura Logan, uma jovem repórter americana que aterrou no Cairo para relatar a libertação do povo egípcio do ditador Mubarak e que imediatamente a seguir ao seu “directo” foi violentada e violada pela turba cuja energia positiva exaltara - uma mole humana pouco habituada a cabelos louros e soltos;
eu lembro outras coisas:
lembro-me da intolerância com que os talibans destruíram os grandes Budas de pedra no Afeganistão, coisa que devia ser inconcebível no mundo actual;
lembro-me da expressão de pânico que vi no olhar do jovem ladrão apanhado pela polícia à minha frente, em Sanaa, capital do Yémen, e como senti a minha mão esquerda latejar e ficar roxa, só de imaginar o golpe do cutelo;
lembro-me da “decência” com que Henrique Galvão se recusou a saquear o cofre do Santa Maria, em 61, no primeiro desvio mundial de um transatlântico para operações de propaganda a uma causa revolucionária e do “pragmatismo” materialista, da perda de dignidade dos “revolucionários”, que se seguiu, em nome dos fins e da eficácia. 
lembro-me da criança de três anos de sorriso cândido que quis fotografar no Yémen e como foi esbofeteada brutalmente pelos familiares porque tinha mostrado “a perna” ao ocidental, que estava, evidentemente, diante do fedelho, com uma erecção cavalar;
lembro-me, em Aden, na Praia do Elefante, da turma de raparigas pré-universitárias que, à minha frente, foi para dentro de água com o tchador “calçado” (vocês desculpem, mas aquilo não é uma coisa que se vista), vinte e cinco cabeças de fósforo à tona de água, por causa da presença de um estrangeiro na praia e do decoro, que Bin Laden aprovaria, face ao evidente estado de sobreexcitação cavalar do perverso europeu;
lembro-me de milhares de inocentes mortos pelos seguidores de Bin Laden, em atentados pelo mundo, sem lhes ter sido perguntado a opinião;
lembro-me da limpeza com que Bin Laden se prestou a ser:
- o álibi para a cruzada americana e as suas atrocidades,
- o álibi para a política bárbara de Israel,
num mundo que ficou mais inseguro e selvagem e que nada aprendeu com o exemplo de Ghandi (aliás, é esse o problema dos homens: não aprendem);
lembro-me que as únicas estratégias de combate de Bin Laden unicamente fomentaram o ódio e o incremento das armas;
lembro-me que o islamismo de Bin Laden não é o de Rumi, Saadi, Ibn Arabi, Omar Khayyam, Ghalib, Muhammad Iqbal, Badr ShakirAl-Sayyab, Jabra Ibrahim Jabra, ou Salah Stétié; que o Islão destes não é o pesadelo climatizado da Al Quaeda;
que Abdelatif Lâabi e Tahar Ben Jelloun continuam exilados e que os melhores livros dos autores magrebinos continuam a editar-se em França – por que será?;
lembro-me do miúdo de doze anos que, junto às colunas do palácio da Rainha de Sabá disparou, nas minhas costas,  uma rajada da sua kalachnicov, como forma serena de extorquir mais dez dólares ao turista – e associo isso à bestialidade das crianças-soldado que continuam a polvilhar o continente africano, sem que ouça uma palavra sobre esse fenómeno nos fóruns internacionais;     
e por isso me ocorre ficar à rasca sempre que vejo pessoas à minha frente cativas da mais rudimentar simetria, e que diante da ameaça real dos efeitos da Globalização e do grande cinismo económico, em nome da diferença, estendem os seus afectos na justificação de regimes autocráticos e de figuras sinistras, invariavelmente em nome do mal menor; pessoas que não conhecem o valor do três, e que não precisamos de ser por uns ou por outros mas que podemos ser contra uns e outros e outros… e desconfiados em relação a todos os que aspiram ao poder (mesmo os que nos são simpáticos), pois nada disto é necessário e já houve formas mais sadias de encarar o poder.
O sistema rotativo de cargos públicos na Grécia pré-clássica e na América pré-hispânica impedia o monopólio de poder por parte de uns indivíduos cuja mesma «vocação política» bastava para os desqualificar. Indivíduos que no dizer de Aristóteles, «se aferram aos cargos públicos como se tivessem contraído uma enfermidade que só pode curar-se com a sua continuidade no poder». Como diz Xavier Rubert de Ventós, o filósofo a quem saco esta informação, o poder de controlar e decidir sobre a vida dos demais nunca deveria nunca estar na mão de alguém bastante doente para o procurar.
E, na Grécia, quando estes «doentes» se apegavam ao poder e faziam perigar a livre circulação do mesmo, era-lhes aplicado um sistema de segurança: o ostracismo. Atenas e as cidades democráticas de Argos desterravam por um tempo interminado todos aqueles «que buscavam afincadamente o poder e com ele se deliciavam, quer pela sua riqueza, quer por suas numerosas relações ou por alguma outra influência política»; o «ostracismo» era um mecanismo contra a consolidação do poder político.
Ou quando nos povoados índios de Oaxaca alguém acumulava excessivas riquezas, o povo decretava a sua ruína ritual nomeando-o patrocinador da festa do santo padroeiro, patrocinato em que o agraciado devia gastar a sua fortuna se não quisesse ver-se desprestigiado ou acusado de impiedade e bruxaria.
A questão essencial, torna Ventos, localiza-se aqui: somos ricos o suficiente para permitirmos os ricos, bastante poderosos para permitirmos os poderosos? As velhas instituições dos cargos giratórios, o ostracismo, o potlach e o patrocinato pareciam responder à consciência de que o poder não nos há-de salvar, mas é aquilo precisamente de que devemos salvar-nos.
São exemplos simples de muitas coisas que podemos aprender com a História e com a Antropologia e que talvez nos permitam outros modelos para a organização política e as suas manifestações.
Por isso hesitei antes de falar de Bin Laden, que não me merece qualquer requiem,
e julgo que a forma mais airosa de relatar o seu fim será pela ironia, a mesma com que Tuca Zamagna, no Desinformação Selectiva, esclarece que os americanos converteram Bin Laden a Iemanjá.