domingo, 10 de abril de 2011

OZO /INÉDITOS


Ando a preparar uma mudança de casa, o que dá sempre uma volta profunda a papéis e cadernos, para poupar no peso e na tralha a levar. E redescobri dois cadernos ao fundo da despensa que continham vários esboços do meu confrade OZO (cf. post de Fevereiro, Derrotas Sexualmente Transmissíveis, sobre a origem deste amigo que me coabita a sombra). Aqui vos deixo estes inéditos de Ozo. O poema final é político, um da dúzia desse género que o camarada produziu. As fotos são do josé cabral:


ELVIS HOME

1
Tem o semblante de uma tristeza
que nunca conheceu tômbola,
       nem em sonhos,
                                   e viu
seis cavalos tártaros
urinarem
sobre o único óvulo que semeou.


3
De cabeleira verde,
irradiava tal esplendor
por entre a fumaça e o tilintar
dos flippers que aquele enorme
ziguezagueante balcão
pendia
da sua luva
ama-
re
la.


4
Quando a despi
no vértice que crisma
        a noite, no lugar
     onde as águas se juntam
ao sorvo das éguas
e as pernas se abrem,
             loquazes,
tinha um donuts.


5
Ainda se o bigode fosse a mielas
              mas era só dela
a tipa era mão de vaca e não
emprestava nem um bocadinho
ao mano,
               uma cara encovada
e sem um pêlo para amostra,
como um cu
                enfiado em si mesmo.


6
Pega no giz com a ponta dos dedos
e fá-lo chiar na cabeça do taco
depois flecte as pernas num trapézio,
enquanto o cigarro ao canto da boca
esborrata o batom.
Eu embico no brandy
e reflicto: sem pressão
         o cérebro
amolece
e o tempo relaxa-se
como dois seios sem soutien.



MÍNIMA MORALIA
“Eu, que sou montanhês, sei o que vale
a amizade da pedra para a alma.”
Leopoldo Lugones
1
a pedra do meu sonho
acordou comigo,
ao meu lado na cama.

e, o que é espantoso:
deslembrada.

7
Perséfona em pó.
Medeia em cristais.
Lésbia em pomada.

quem pega
nestas matronas?

na minha rua
só o vento sabe latim,
e grego sequer as sombras.

9
“um homem baleado
morre quase sempre por
envenenamento de chumbo.

se não for em excesso
a bala é quase inofensiva”.

insistia o Gilinho
a rilhar o tremoço.

12
na primavera, se acaso
estivessem desocupadas,

as mãos sondavam o primeiro
falo que encontrassem
engomado –

falo de formigas
que não se privam
de ser
obreiras.

16
- o nevoeiro desponta
quando a Nossa Senhora
repousa os seios
em terra.

- tens a certeza?

- pelo menos foi
o que a minha mãe
me disse.

17
se conseguires encostar
a orelha à tua sombra
ouvirás o mar

mas tem de ser
com os pés no ar.

18
‘antes de ti o meu corpo
estava cego
como a lâmpada que nunca
conheceu casquilho’.

20
aos vinte: esfregamo-nos como martas,
criamos filhos traquinas
e vivemos felizes para sempre.

aos quarenta: maceração íntima,
chega-se a tua pele à minha mão
como um trovão que se afasta.

22
o silêncio?
faz tempos que não o vejo.

24
era como se eu afogasse
a pedra na mão.

Podia lá imaginar
que o olho dele também
não sabia nadar.

25    (os sítios indevidos)
- senhor juiz, no momento
foi impossível furtar-me
a medir trinta passos
na vereda estreita do sexo dela,
que aliás se dilatava à passagem.

- e o senhor não ouvia o culto
no santuário do Cristo Rei?

- estava vento e o arvoredo
só me deixava ouvir
uma briga de andorinhas.

29
ir a despacho
no teu peito nu:
a promoção que as íris
tanto aguardaram.

31   (explicação)
a corça
que naufragou
nos meus braços
não me torna
infiel.
havia uma disposição
da natureza,
um grumo de nostalgia.
como um mau-olhado
que era preciso
extirpar.

ate gozei
com culpa,
eu seja ceguinho!

41    (ouvido no café Branca de Neve)
‘Xai-xai, a minha terra, ficou
de tal modo coberta com as cheias
que se afogaram as antenas de televisão.

para Deus será um pequeno refluxo,
para os meus pais foi maior
que a etimologia do Diabo
e suicidaram-se, ela
de bronquite, ele de débito.

quem adivinharia que Xai-xai
era um nome hemorrágico.’

42
deposto. o olhar
sobre a bica.
icemo-nos
à boca dela.

47
o sujeito é o homem
que inverte
o boato em carne:

roubado de um teste.

48    (um cabo-verdiano, antigo emigrante nos States)
‘sou poliglota de ascensores.
no mais sou ignaro.
mas nem o Pessoa, que era muitos,
conheceu tantos elevadores como eu.’

49
do tornozelo aos ilíacos
é perfeita. e aí encaixam-se
duas torneiras que só repelem
quem não gosta de água.

50
desencaminhada.
a estrada é um ermo.
a noite podia perfeitamente
roubar-lhe de esticão

tudo o que tem
mas prefere passar-lhe
a língua no bulício
das nádegas, nas coxas,

cujo ébano mergulha
o escuro em jardins
suspensos.

e eu,
à janela, roído
de inveja.

57
abomino os poetas que quando escrevem
meu amor apõem de imediato meu ódio

o amor não é uma vergonha nem um mérito:
a chuva que se precipita na rampa

raramente sobe. e o ódio é o vício
de um especialista que se tornou

jornalista. tomba neste momento
o opus 45 para chuva, vento e jacarandá.

58
não é inverno,
é prosa.

59
a congeminada artrite das palavras,
a sua mordedura,
cálida,
e por vezes absurdamente
tolerante,
leva-me a confiar
mais na escalada dos teus seios.

60
não te sigo. vou
no mesmo caminho.

mas de árvore
p’ra árvore

as minhas raízes
nomadizam-se.

63
repuxei o lábio a pedir-lhe
não te vás. felizmente
mostrou-me que a decepção
tem folha perene.

agora nem morta voltará
a infiltrar o mindinho
entre o meu prepúcio e a glande.

64
o que eu desejaria que perdurasse?
a nudez, no interior da razão.

um viático que não exigisse
um saldo de vilanias, que a crispação

do hip-hop aceitasse o caminho
de água do jazz, e que nada

aplanasse o odor de outro corpo.

66
instrução
para surdos-
-mudos:

leiam
em
braille.

67
o esgalgado galgo
da florista
é desossado
em corrida
e não
chega a gozar
o silêncio
da chuva.

68
a mão dele, que tresandava
a tangerina, afagou-lhe
a cabeça e depois os seios
como se – avaliada
a redondez da copa –
sopesasse os frutos.

70
empanturra-se de ostras
e arrota baixinho.

só os pobres podem
olhar o céu
com interesse.

essa ervilhaca
a que chamas alma

é como a raspadinha,
mínima moralia:

o mais fugaz petisco
traz o vício.


A VIA HERÉTICA

Que Deus me perdoe mas
o caule desta imperial lembra-me
o antebraço de Nossa Senhora
e o ouro da sua energia,
fluida,
    nas frinchas
           do Seu Amor.

Que Deus me perdoe
mas a base do copo
lembra-me uma glande
que uma lanceta
       vitrificou

e quando o elevo e rodo
observando-lhe a transparência
assalta-me a visão
daquela pila
      de urso,
num filme polaco,
      O MONSTRO,

      que à vista
da mínima réstia de tornozelo
duma condessa
que tomava banho
no sangue das cem virgens
que mandara matar,
      pulsava
expulsando num jorro
             a Via Láctea,

que Deus me perdoe
as coisas que me ocorrem
matutando
                 n’Ele.  


OSSOS DE BORBOLETA

Sei encontrar os nexos
      mas não multiplicar os anexos,
      a ponderosa cheta.

Jura um amigo que o dinheiro é fêmea
e faz várias ninhadas por ano,
        há-de confundi-la c’a chita
 - se também ele defraudou a sorte!

mas conheço centenas que incapazes
de fazer um nexo
         fazem trilar a chita
            com promessas de grilo.
Perdão, a cheta,

O que me enoja no arranjinho, na auto-estima
       da calinada, no implícito ao fundo
do mais reles esquema,
        é a escalada da luva,
proporcional
à escala
da ignorância sobre o ADN:

um grilo não fecunda uma cheta,
a mentira não torna menos pretos
       os sapatos brancos do janota.

Algo tremendo penetrou na minha vida,
uma lente que não faz ver
mas na verdade acende o olhar
                             - tramou-me.

Escreveu o Maquiavel, um man
de poucos amigos:
                   a ideia é quebrar o real,
confundir os sentidos,
desmoralizar as aparências,
e o ilógico é o segredo de uma ordem
           que se exprime em segredo.

E fascina-me o descaro
com que dos ossos se faz gelatina
           e se lhes escarra o tutano,
esvaziando os sentidos,
            em nome do mais brutal fake
- que a mola se chame metical,
                      é um exemplo.

Ah, a desrazão geométrica!

Eu sei como se cede
          e se enrolha a honestidade,
sei como mente o asno amarelo,
como se perde a vergonha nadando à cão,
sei os trilhos onde os habilidosos
           depenam os flamingos
para prometerem petróleo
                      ao povo,
e como se devolve as palhaçadas
               com a putrefacção do riso.

Eu sei, é tão fácil agarrar uma ilha
pelos cornos da administração,
                   com luvas de veludo,
ou fazer de um porto o viveiro
                   para as minhas rãs.

Foi sempre claríssimo para mim
que estamos juntos na manha,
no relax,       don´t do it,
falta-me é o sangue mafioso dos italianos,
                    e o inescrúpulo de Shaka
                     - tenho ossos de borboleta.

Só isso       um pendor demasiado humano
para fazer dos princípios trapézio
                 afocinha-me no asco,
e fragiliza-me o humor
quando me caiam a sombra
e me oferecem pulseiras de cobre para o bio-ritmo
            e um fô by fô para calar a opinião  
            - arre, tenho sangue de borboleta.

De que reino é a mole formada na pedra?
             A sua noite anda a oeste,
florescendo a alba a sul – como é
     grande o embaralhamento dos pontos cardiais!
E em que lento desapontamento deixei eu de saber dançar
            conforme a música?
Em que farol capotei o carro?

Ai Mbique, a perda de realidade
não só compra como pode dar lucro,

e coitado de mim que faço os nexos
               e tenho ossos de borboleta!




sexta-feira, 8 de abril de 2011

BORGES E HITCHOCK: ENCONTRO NO BRITISH BAR

Dentre as milhares de crónicas/críticas que escrevi em torno do cinema, algumas ficaram-me no goto, como esta, que encena um encontro entre Borges e Hitchcock no British Bar, em Lisboa, um bar afamado entre os marinheiros de todo o mundo por causa do seu relógio cujos ponteiros andam ao contrário, motivo que teve direito a uma cena em A Cidade Branca, de Alain Tanner. A crónica, se não me engano, saiu no Expresso em 2001.


Empreendia nas decepções humanas que podem ter levado, no fim da vida, Eduardo de Filippo, um dramaturgo cumulado de sucessos, a preferir encenar A Tempestade com marionetas, emprestando a sua voz a todas as personagens; ou antes, empreendia na cena desvairada em que estava a minha vida, com personagens (de esplêndida vocação animal) a entrar e a sair de palco, num fluxo ininterrupto de tempestades, quando dei conta de que, à medida que a ia bebendo, a caneca ficava cada vez mais cheia.
Foi o sinal de que me encontrava no British Bar e, irreparavelmente, a meio de um sonho. Olhei em volta. Estava rodeado de sombras, todas elas tão indiferentes como a da ventoinha no tecto. Até que ouvi aquela voz, de costas para mim. Olhei para o chão e titilaram-me as meninges: lá estavam as duas, levemente alongadas mas atadas pelos pés, como se a mesa da frente fosse um canteiro, de onde brotavam.
Eram as sombras de Borges e de Hitchcock. Celebravam os respectivos centenários. Como reconheci eu a sombra de Borges? Pelo sépia. São sépia as sombras dos cegos. E pelo modo de sublinhar o que dizia abrindo e levantando levemente a mão da bengala, equilibrada como um prumo, antes de a voltar a fechar no momento exacto em que o castão oscilava. Como se risse com os dedos.
Hitch? Um ovo com duplo queixo? É de olhos fechados. O realizador lamentava-se:

- Eles não compreendem as profundas afinidades que têm as nossas obras?
- Profundas? - hesitava Borges.
- As suficientes. O «tema do homem que é ninguém e que é todos», que o Borges explora em tantos contos, por exemplo, eu ensaiei várias variações desse tema com os meus «homens injustamente acusados». E repare como o seu item é propício à presença de uma culpa interior, inexplicável, que se abate de algum lado. Por outro lado, sempre achei muito lisonjeiro que tivesse escrito: «Todos os homens no vertiginoso instante do coito são o mesmo homem. Todos os homens que repetem uma linha de Shakespeare são William Shakespeare...»
- Bom, se me é autorizado o trocadilho, em relação à primeira parte, foi uma forma de meter prematuros e retardados, filhos e pais, no mesmo baralho, dado que a substância de que somos feitos é o tempo. Freud que me desculpe... - Eu prefiro a sugestão de que nós, os gordos, temos o verbo, a maleabilidade e o «wit» de Shakespeare. Sempre que a sra. Hitchcock referia a necessidade de eu fazer dieta, eu lembrava-lhe que era o autor de Falstaff...
- É engraçado que refira a questão da autoria, porque creio que temos ambos uma visão algo impessoal da criação que não tem sido comparada. Para mim, sempre foi claro que a figura do leitor, tais como as acções de reler e traduzir, são parte da invenção literária: o leitor sintoniza-se com as emoções do texto e é ele quem comanda o ritmo da narração. O que o Hitch preconiza com a invenção do «suspense»...
- Como assim?
- Lembra-se de ter dito: «É indispensável que o público esteja perfeitamente informado dos elementos presentes, de contrário não há 'suspense'»? Trata-se, segundo as suas palavras, de dar ao público uma informação de sob a mesa onde um casal estende um mapa e planeia um itinerário para as suas férias há uma bomba-relógio. O drama gera-se nas expectativas, na ansiedade do espectador...
- Bom, é pelo menos cúmplice...
- Participa na construção do drama.
- Não sabia que tinha visto os meus filmes. Pensei que tinha deixado de ir ao cinema.
- Pelo contrário. Vou acompanhado e contam-me. E, como você transmite em primeira mão os dados aos espectadores, eu sinto a vibração e imagino o que se vai tramando na tela.
- Compreendo.
- Ao princípio, ia com uma senhora que... via. Depois, passei a ir com invisuais. Com ela, sentia-me como se estivesse com um papagaio que continuamente me corrigia a acentuação das palavras e a gramática...
- Tem razão. Eu também sou absolutamente contra a tirania da verosimilhança. Sempre disse que um crítico que puxa da muleta da verosimilhança é porque não tem imaginação...
- Gosto muito do «slogan» que utilizou para Os Pássaros: «Há filmes que são fatias de vida, os meus são fatias de bolo!»
- Que bolo seria o seu?
- Pão-de-ló. Uma textura, uma massa, um sabor uniformes, mas que nunca desiludem.
- Falando agora mais seriamente, há um aspecto na sua literatura que sempre me atraiu.
- Diga.
- O medo. A defesa que faz do medo. Parece-me coisa de verdadeiro poeta.
- Hitch, não estou a segui-lo...
- Há um conto seu em O Livro de Areia, salvo erro, onde a personagem descobre que tem um monstro na cave. Está lá à procura de qualquer coisa e dá por aquela presença inominável. Corre pelas escadas acima, com o monstro na peugada. E no último momento, quando está a chegar à porta, não resiste e olha para trás, para lhe ver o «rosto». E o Borges suspende aí a narração. Ou seja: cada leitor acrescentará o seu monstro à emoção, desenhará a sua forma...
- Nunca vi esse conto nessa perspectiva... Um tigre é um tigre... Qual é a vantagem?
- A vantagem é a de cada um inventar o medo. Por exemplo, a sensação excitante de medo que as pessoas experimentam na montanha-russa, quando o carro se aproxima de uma curva fechada, deixaria de existir se elas pensassem seriamente na possibilidade de o carro descarrilar. É como nos filmes: o espectador precisa de saber, mesmo que inconscientemente, que as personagens do filme não pagarão o preço do medo, isto é, que o actor não fica seriamente ferido quando é baleado... que o medo que sentem é uma convenção...
- Então para quê embarcar na ilusão?
- Exactamente, a ilusão do medo é necessária, porque nos torna mais humanos. Levei a vida a tentar explicar que o medo nos é vital. Para o prazer e para o respeito mútuo, a chave do medo abre portas... Há que ter a coragem de ter medo.
- É divertido e sério, como de resto a sua obra.
- Isso dito por si, convém-me. Continue...
- Li um livro maravilhoso de um filósofo de Barcelona, o Eugenio Trias, que lhe dedica páginas admiráveis...
- Mau. A última vez que estive com o Kant até o «molotoff» esmoreceu. Um homem que quer conceber o infinito a contar pelos dedos...
- Vê como nos entendemos? Ia-lhe falar da percepção do infinito nos seus filmes. O Trias descreve minuciosamente a acção de Vertigo, segue-a plano a plano. E demonstra que tanto na cena em que Scottie a espreita no espelho da florista como na compulsão do fotógrafo, em Janela Indiscreta, para multiplicar as escalas no plano fixo da fachada, você concebe o espaço como um labirinto. Ora o labirinto é o primeiro átrio para quem se atreve a pensar o infinito. E, só de uma assentada, temos o duplo, o espelho, o labirinto, o infinito, tudo temas borgeanos...
- Estou comovido. O Borges importa-se que, para a sobremesa, peça «tigre au vin»?

A entrada de Jessica Rabitt no British Bar teve o efeito de um buraco negro: contraiu quase tudo em redor. Ainda que a sombra de Hitch se mantivesse crivada de pequeníssimos clarões e Borges mantivesse a sua serenidade imperturbável, com as mãos apoiadas num castão invisível, porque a bengala tinha caído ao chão...
E foi aí que descobri que eu, que tantos homens fora - inclusive aquele em cujos braços desfalecia Matilde Urbach -, era, neste sonho, Roger Rabitt.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

A ESPINGARDA NA LAREIRA E O CUBO DE GELO

1)    Se experimentássemos na vida real o mesmo tipo de intencionalidade sígnica que se investe na construção de uma narrativa cinematográfica viveríamos num estado de completa paranóia.
Resolvido o problema, os protagonistas, depois do longo itinerário da crise, pacificados, acolhem novamente um olhar inocente, que aceita o acidental e o aleatório à sua volta, mas durante, não só o mais pequeno sinal tem significado como pode adquirir um segundo e terceiro nível de leitura. Como quem não quer a coisa.
Um bom exercício é ver um filme do fim para o princípio, depois de sabermos a que finalidade o enredo conduziu a história e as personagens.
O encontro acidental, no princípio do filme, do detective com um atleta embuçado no mictório público do parque, e o diálogo trivial que travam sobre a segurança e a higiene das instalações, uma hora depois, sabido que o atleta é afinal o serial killer que a polícia procura, toma o aspecto duma conversa cifrada, e todas as sílabas pronunciadas nesse encontro “ocasional” mostram-se afinal revestidas de significado e anunciação. O espectador virgem é que ainda não estava avisado.
O pacato universitário que participa num seminário, numa cidade a 10 000 milhas da sua casa, e que verifica ao desmanchar a mala no hotel que se esqueceu da sua escova de dentes, irá conhecer uma mulher fatal, na fila do supermercado onde se desloca para comprar uma escova, que o arrastará para uma aventura sexual, que afinal se desdobrará numa vertiginosa história de burla onde, até quase ao fim, ele será a única personagem que não sabe o seu papel.
Não há absolutamente ponto sem nó, numa fita – como quem não quer a coisa, no fluxo do inaparente cresce a sombra. E o que era inconsciente toma a dianteira, saturados os indícios.
Uma regra de ouro nas artes da representação, e que já o Tchecokv preconizava há mais de um século, quando explicou que a espingarda que aparece no cenário, por cima da lareira, no primeiro acto, tem de ser usada no terceiro acto. 

2)    Transformar um índice aleatório numa necessidade é o dispositivo da criação e quando se consegue harmonizar o acidental e o necessário dá-se a arte.
Tomemos uma cena de intimidade, na última estória de 5 x Favela - "Acende a Luz", dirigido por Luciana Bezerra -, que me parece a mais estimulante deste filme em sketches realmente simpático mas ainda um pouco imaturo.
O marido, entesado, tenta convencer a mulher a ir para a cama e faz-lhe o cerco. E ela dissuade-o invocando que é Natal, que eles estão sem energia em casa… e sem gelo para servir aos convidados que daí a umas horas irão lá a casa. Ele acaba por aceitar adiar o coito e sair em busca do que há carência.
Em situação, como quem não quer a coisa, a cena contrapõe à tusa dele, hot, o degelo dela - em nome do que falta em casa: algo que será partilhado com todos. E engatilhado pela promessa implícita ao jogo dela (‘faz-me agora a vontade e logo terás a recompensa que esperas’), o marido parte em busca do que lhe pode resfriar os ímpetos: o gelo.
Este jogo do inverso é um momento excelente, pois no breve relance duma cena de intimidade (uma nega) a realizadora não só nos dá o mecanismo relacional - naquela casa é ela quem estabelece as regras da relação - como ilumina uma dimensão inconsciente: estará já aquele marido no ponto de cegueira que deixa a mulher solta?  
Mas tudo isto entrosando-se com o spot principal: há falta de luz na favela.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

MIRA LAMBROSO; ME QUEDO SIN PALABRAS!

Teophanio Lambroso, renomado pharmaceutico de poetas,
recomenda bula e remédio para poetas com minhoquices na cabeça e palavra
arrevesada, e mui justamente me cita – do que me penitencio, ó Teophanio!
(Se ele soubesse que eu tenho uma irmã de estalo, rica e solteira, ficava calado!).
Vale a pena espreitar a acusação, na Desinformação Selectiva
O remédio que ele me aplica vai em baixo:


o remédio de Lambroso: que pena não serem supositórios
A bula pago-a já, com gosto:
A BULA, A MULA E  A MUSA

Escrevi este poema embalado
pelo remorso de ter fracassado
em dois torneios de bilhar
em Capetown, desconcentrado
por mil passeatas no mar
com uma suspicaz londrina
que me deixou a Xanax
e a suminhos de ananás.

Foi tão brutal a minha sina
que fez-se luz: só se dessoldaria
a minha língua da grande concha
de tão sensual ondina,
se embebesse fundo o aparo
na inflamação das cicatrizes
e delas fosse aprendiz.

Não volta a crescer o rabo
da lagartixa amputada?
A coisa é mais política
do que parece e discrimina.
Caído na esparrela, breve
me vi desalojado da rotina
de tão cínica cadela.

Foi então que li - a vingança
serve-se fria, Ó Lúbrica! -
sobre a nova face da pirataria
em Madagáscar e topei
ali o que me salvaria. Tinham
os seus cientistas modificado
o ADN humano: o plácido recto,
numa simetria invertida,
restituía, agora melhorado,
pedaços da terra prometida,
tudo o que fora consumido.

A boca ingeria um ovo e o ânus
evacuava galinha da índia.
Poucos na ilha arriscavam trinchar
um nico de entrecosto: tal seria
pior que parir uma profecia.

Já a ignota ilha remodelara
o seu mundo, dispensando as fezes
e o pesado fado escatológico
que até a Cristo molestara. E se
comer salada podia ser uma maçada
sinónima de jardim público,
pelo contrário, a corno que ingerisse
o seu próprio e recortado chifre
(mete o rabo para fora, mima o esforço de cagar)
 era dado o dom de obrar a amada.

Depois dum pratalhão de pistache
e de duas beers indonésias,
na Praça da Independência, vi a malgaxe
d’olhos verdes, a sua alameda de frésias.

No quarto 324 do White Palace me lhe fui
à blusa e tirei-lha, no rompante de abrir
um fruto. Em dificultosa esgrima
(contradições de ser musa)
tive de lubrificar-lhe o atributo.
A musa de imediato me cedeu a rima,
as pobres e as de luxo, tendo até mais
prometido envenenar com estricnina
uma depravada por página,
e isto antes de eu, lampeiro, enfiar o dente
no meu chifre, moendo-o desvelada,
pausadamente. E mais não digo:
sa-iu-me a mula encadernada.

DA GUERRA COLONIAL: CINZAS & BRASAS/ K3 de Nuno Dempster

Nunca frequentei muito os blogues. Era um universo que menorizava. Julgo que pelas mesmíssimas razões por que nutro reticências a escrever para crianças, embora já tenha dois livros no género publicados e outra história a meio: por falta de atenção e de humildade. Um orgulho de prematura velhice lazarenta, de cigarrilha ao canto da boca e uma citação de Malcolm Lowry ou de Philippe Sollers sempre no colt. Cabotinices de geração.
Mas, concluindo, fui sempre desconfiado. Bom, há boas razões para continuar desconfiado, mas igualmente as há para constatar que surgiram coisas realmente notáveis e que um vulcão subterrâneo se move e mudará, como efeito da blogosfera, uma futura história da recepção literária.
Por isso, eu que durante uma década andei distraído, agora tento recuperar com a pressa dos que pedalam na arte do devagar.
E de outros nomes virei a falar, em Portugal, que da blogosfera assaltaram a literatura com engenho, “ferocidade” e muita eficácia nas manobras, mas para já quero adiantar dois nomes seguríssimos: Henrique Fialho e Nuno Dempster.
Doravante, se quisermos ser sérios, quanto a nomes em foco na poesia portuguesa dos últimos cinco anos terá de se mencionar o Fialho e o Dempster, ainda que os seus livros não circulem com grande visibilidade no circuito comercial. 
K3, de Nuno Dempster (&Etc., 2010) é um livro de versos tracejantes, que com a coragem e o fôlego dum poema de 56 páginas, nos transporta a um cenário de guerra, por “um rio/sem hipótese alguma de lirismo” (pág. 23):

«De bruços no poema,
Avançamos em fila para sul.» (pág. 41)

A “jornada pelas trevas” começa pelo mês das cerejas, quando o narrador-enquanto-jovem-magala embarca com centenas de outros no Cais de Alcântara, a caminho da inapetecida guerra colonial.
Guiné-Bissau era o destino, a chaleira onde, em infusão, homens eram assombrados pelos vapores do seu medo, até ao apuramento do lobo:

«Recordo a juventude,
iríamos perdê-la à vista
do mar barrento,
sem entender que negros eram aqueles,
tão diversos de nós,

que faziam ali,  no espelho pantanoso
do rio Geba, à volta do navio,
além de carregarem as bagagens,

os corpos musculosos de hulha
pronta a incendiar-se.» (pág. 20)

Este «filme», o Apocalipse Now do seu narrador, procura «retomar o passado contra o tempo», numa montagem cénica em que o corroer da inocência dos incautos nautas recorta simetricamente a circunstância histórica que os condicionava.
O livro acusa sem, inteligentemente, cair numa denunciada retórica da incriminação política. O contexto está lá para elevação dramática: nem outro seria o tom certo quarenta anos depois. E antes faz-nos acompanhar a ingenuidade dos seus protagonistas:

«O sol clareia a falta de sentido
do rumo que levamos,
daí que eu não chegasse a ver no mar
sinal de deuses,
dos deuses que se lê terem andado ali,

só peixes-voadores,
alheios ao clamor dos afogados,

os deuses, se estivessem, lembrariam
não haver quem alcance
quantos náufragos jazem sobre as águas,» (pág.12)

Gente simples, duma juventude desprovida de cultura clássica e que por isso não distingue o tridente de Neptuno de entre a espuma das ondas - e a quem ainda não aflorou a consciência política. Muitos só tinham, à flor da pele a sensibilidade da sua época, e heróis menos nacionalistas e míticos, como o narrador: «Já eu então estava destinado/ a não ser Gilmour,», (pág.27). Gilmour, o dos Pink Floyd.
Só a guerra despertará alguns para a dúvida, para a própria elucidação das emoções. Aliás, talvez por isso, o que diferencia K3 de Catalabanza, Quilolo e Volta, de Fernando Assis Pacheco, o outro grande livro referencial que em versos tratou da Guerra, esteja na sua muito maior contenção em relação à presença de «pathos» (- de que o livro de Pacheco está saturado). Onde Catalabanza nos punha em situação, este narra; onde Catalabanza subjectiva, K3 antepõe um maior equilíbrio entre a guerra de um homem e a anti-epopeia colectiva que escamou uma geração; onde Pacheco procura a empatia, Dempster expõe a perplexidade da emoção diferida com que fecha o poema:
«Na despedida, o ataque a Gebo
a que assisti sozinho
no banco de um jardim desmantelado.

Voltar ou não voltar,

Morrer ou não morrer, tanto fazia.»(pág.63)   

Como se vê por este final, Nuno Dempster não produz um relato sereno – que pulsação da guerra o deixaria? – mas consegue matizar uma distância, permeá-la de reflexividade, apesar da iniludível violência da perda, do cheiro a vomitado dos recrutas, da inclemência dos estampidos que não saem da pele, dos traços da morte:

«Sentia o sangue
com que velhos facínoras
conseguem amansar
a força juvenil,
carregá-la de armas
e trazer carpideiras da polícia
para embalar as mães,
já confinadas ao destino,
quando os filhos regressam em caixões secretos,
cujo rosto de pedra-sabão
não lhes consentem ver.

“Os filhos mortos deitam um cheiro insuportável”,
Diziam os paisanos. (pág. 10)»

Por isso este relato de 56 páginas tem a força duma crónica cauterizada,
e apesar de por um lado concordar com Henrique Fialho quando este refere que neste livro «de algum modo a viagem que parte da Estação Marítima de Alcântara, nos questiona sobre a própria natureza da poesia e as suas fragilidades quando confrontada com os relances da vida: “os versos serão sempre/mais do que os mortos/ e têm vida curta”»,
por outro também creio divisar em K3 uma espécie de cântico de superação,
no sentido em que, se o poema fala e mostra como em situações limites os homens rapidamente se tornam predadores, a sua narração rejeita quaisquer laivos de cinismo (que podia despontar com facilidade pelo avesso do exorcismo), e diz que nada pode obrigar a tornarmo-nos cúmplices dos perseguidores.
E para que não haja dúvidas, Nuno Dempster, inclusive, abandona neste poema a ironia que lhe é tão peculiar em tantos outros poemas.  
K3 é, neste intento, um poema de claro vinco ético, que à imediata leitura política sobrepõe um duro itinerário de iniciação:
a de que só a vida sucede à vida, mesmo que não pareça.

«um tiro na cabeça do africano,
as orelhas cortadas,
um escarro nos olhos revirados,

desiquilíbrio mórbido,
pavor nocturno

a pele mais rascante que
gravilha das pedreiras.

O instinto de matar é não morrer?

Não é.
É não matar.

A vida só confina com a vida:
mesmo que seja escassa:»(págs. 33/34)

K3 devia ser lido como uma oratória, e tinha vantagem em ser dramatizado para várias vozes e banda sonora. Infelizmente, o estado de apatia a que chegou a poesia e o seu papel em Portugal, e por outro a incapacidade da lusa gente para lidar com os seus fantasmas, tornam este projecto improvável – embora me seja claro que K3 peça uma locução em voz alta e no silêncio que antecede a emboscada.
Porque, afinal, somos todos «áugures no fim da validade».
O melhor é adquirir já este excelente livro antes que esgote, pois com o Vitor Silva Tavares (o editor da &Etc.) não há reedições.