quarta-feira, 6 de abril de 2011

DA GUERRA COLONIAL: CINZAS & BRASAS/ K3 de Nuno Dempster

Nunca frequentei muito os blogues. Era um universo que menorizava. Julgo que pelas mesmíssimas razões por que nutro reticências a escrever para crianças, embora já tenha dois livros no género publicados e outra história a meio: por falta de atenção e de humildade. Um orgulho de prematura velhice lazarenta, de cigarrilha ao canto da boca e uma citação de Malcolm Lowry ou de Philippe Sollers sempre no colt. Cabotinices de geração.
Mas, concluindo, fui sempre desconfiado. Bom, há boas razões para continuar desconfiado, mas igualmente as há para constatar que surgiram coisas realmente notáveis e que um vulcão subterrâneo se move e mudará, como efeito da blogosfera, uma futura história da recepção literária.
Por isso, eu que durante uma década andei distraído, agora tento recuperar com a pressa dos que pedalam na arte do devagar.
E de outros nomes virei a falar, em Portugal, que da blogosfera assaltaram a literatura com engenho, “ferocidade” e muita eficácia nas manobras, mas para já quero adiantar dois nomes seguríssimos: Henrique Fialho e Nuno Dempster.
Doravante, se quisermos ser sérios, quanto a nomes em foco na poesia portuguesa dos últimos cinco anos terá de se mencionar o Fialho e o Dempster, ainda que os seus livros não circulem com grande visibilidade no circuito comercial. 
K3, de Nuno Dempster (&Etc., 2010) é um livro de versos tracejantes, que com a coragem e o fôlego dum poema de 56 páginas, nos transporta a um cenário de guerra, por “um rio/sem hipótese alguma de lirismo” (pág. 23):

«De bruços no poema,
Avançamos em fila para sul.» (pág. 41)

A “jornada pelas trevas” começa pelo mês das cerejas, quando o narrador-enquanto-jovem-magala embarca com centenas de outros no Cais de Alcântara, a caminho da inapetecida guerra colonial.
Guiné-Bissau era o destino, a chaleira onde, em infusão, homens eram assombrados pelos vapores do seu medo, até ao apuramento do lobo:

«Recordo a juventude,
iríamos perdê-la à vista
do mar barrento,
sem entender que negros eram aqueles,
tão diversos de nós,

que faziam ali,  no espelho pantanoso
do rio Geba, à volta do navio,
além de carregarem as bagagens,

os corpos musculosos de hulha
pronta a incendiar-se.» (pág. 20)

Este «filme», o Apocalipse Now do seu narrador, procura «retomar o passado contra o tempo», numa montagem cénica em que o corroer da inocência dos incautos nautas recorta simetricamente a circunstância histórica que os condicionava.
O livro acusa sem, inteligentemente, cair numa denunciada retórica da incriminação política. O contexto está lá para elevação dramática: nem outro seria o tom certo quarenta anos depois. E antes faz-nos acompanhar a ingenuidade dos seus protagonistas:

«O sol clareia a falta de sentido
do rumo que levamos,
daí que eu não chegasse a ver no mar
sinal de deuses,
dos deuses que se lê terem andado ali,

só peixes-voadores,
alheios ao clamor dos afogados,

os deuses, se estivessem, lembrariam
não haver quem alcance
quantos náufragos jazem sobre as águas,» (pág.12)

Gente simples, duma juventude desprovida de cultura clássica e que por isso não distingue o tridente de Neptuno de entre a espuma das ondas - e a quem ainda não aflorou a consciência política. Muitos só tinham, à flor da pele a sensibilidade da sua época, e heróis menos nacionalistas e míticos, como o narrador: «Já eu então estava destinado/ a não ser Gilmour,», (pág.27). Gilmour, o dos Pink Floyd.
Só a guerra despertará alguns para a dúvida, para a própria elucidação das emoções. Aliás, talvez por isso, o que diferencia K3 de Catalabanza, Quilolo e Volta, de Fernando Assis Pacheco, o outro grande livro referencial que em versos tratou da Guerra, esteja na sua muito maior contenção em relação à presença de «pathos» (- de que o livro de Pacheco está saturado). Onde Catalabanza nos punha em situação, este narra; onde Catalabanza subjectiva, K3 antepõe um maior equilíbrio entre a guerra de um homem e a anti-epopeia colectiva que escamou uma geração; onde Pacheco procura a empatia, Dempster expõe a perplexidade da emoção diferida com que fecha o poema:
«Na despedida, o ataque a Gebo
a que assisti sozinho
no banco de um jardim desmantelado.

Voltar ou não voltar,

Morrer ou não morrer, tanto fazia.»(pág.63)   

Como se vê por este final, Nuno Dempster não produz um relato sereno – que pulsação da guerra o deixaria? – mas consegue matizar uma distância, permeá-la de reflexividade, apesar da iniludível violência da perda, do cheiro a vomitado dos recrutas, da inclemência dos estampidos que não saem da pele, dos traços da morte:

«Sentia o sangue
com que velhos facínoras
conseguem amansar
a força juvenil,
carregá-la de armas
e trazer carpideiras da polícia
para embalar as mães,
já confinadas ao destino,
quando os filhos regressam em caixões secretos,
cujo rosto de pedra-sabão
não lhes consentem ver.

“Os filhos mortos deitam um cheiro insuportável”,
Diziam os paisanos. (pág. 10)»

Por isso este relato de 56 páginas tem a força duma crónica cauterizada,
e apesar de por um lado concordar com Henrique Fialho quando este refere que neste livro «de algum modo a viagem que parte da Estação Marítima de Alcântara, nos questiona sobre a própria natureza da poesia e as suas fragilidades quando confrontada com os relances da vida: “os versos serão sempre/mais do que os mortos/ e têm vida curta”»,
por outro também creio divisar em K3 uma espécie de cântico de superação,
no sentido em que, se o poema fala e mostra como em situações limites os homens rapidamente se tornam predadores, a sua narração rejeita quaisquer laivos de cinismo (que podia despontar com facilidade pelo avesso do exorcismo), e diz que nada pode obrigar a tornarmo-nos cúmplices dos perseguidores.
E para que não haja dúvidas, Nuno Dempster, inclusive, abandona neste poema a ironia que lhe é tão peculiar em tantos outros poemas.  
K3 é, neste intento, um poema de claro vinco ético, que à imediata leitura política sobrepõe um duro itinerário de iniciação:
a de que só a vida sucede à vida, mesmo que não pareça.

«um tiro na cabeça do africano,
as orelhas cortadas,
um escarro nos olhos revirados,

desiquilíbrio mórbido,
pavor nocturno

a pele mais rascante que
gravilha das pedreiras.

O instinto de matar é não morrer?

Não é.
É não matar.

A vida só confina com a vida:
mesmo que seja escassa:»(págs. 33/34)

K3 devia ser lido como uma oratória, e tinha vantagem em ser dramatizado para várias vozes e banda sonora. Infelizmente, o estado de apatia a que chegou a poesia e o seu papel em Portugal, e por outro a incapacidade da lusa gente para lidar com os seus fantasmas, tornam este projecto improvável – embora me seja claro que K3 peça uma locução em voz alta e no silêncio que antecede a emboscada.
Porque, afinal, somos todos «áugures no fim da validade».
O melhor é adquirir já este excelente livro antes que esgote, pois com o Vitor Silva Tavares (o editor da &Etc.) não há reedições.

terça-feira, 5 de abril de 2011

NO PLINTO DE CLAUDE ROY

KLEE

Uma hora de repouso a reler Les Rencontres des Jours, o extraordinário diário de Claude Roy, que cobre os anos 1992-93, e a que volto periodicamente, sempre com redobrado prazer, valeu-me desta feita um poema, uma tradução e uma nota:


AO ENCONTRO DOS DIAS: O VENTO
                              «(…) seul le vent parle d’Agamennon et de Clytemnestre»
                              Claude Roy
                                                    para a Izabel Lisboa

Só o vento fala de Agamémnon e Clitemnestra, mais
ninguém lembra. Quem faz a barba reflectindo
na dor de corno de Menelau e se Helena terá sido
um cata-vento ou uma mulher perspicaz
que trocou um bruto por uma sensibilidade à flor
da água – a quem importa isso agora?
Só o vento, esse museu da irrelevância,
de tudo o que foi esquecido, desmembrado,
não fraqueja a sua voz, ainda que a rebente
contra as orelhas dos surdos e as lapas
nas rochas da preia-mar. E o pior
de tudo, o inferno, é não poder amar
e encontrar de costas voltadas o vento e o silêncio.

5/04/2011



Se eu fosse o vento
faria refém o teu vestido
e os teus seios sentiriam
o meu sopro na tua ponte.

(anónimo grego)




Países há em que escolher um presidente não é dissemelhante de encomendar um sniper.

KOK NAM: O FECHO DA EXPOSIÇAO



Esta mostra antológica não esgota nem de longe nem de perto quer os temas quer o estro do Kok Nam.
O Kok que é um homem de rotinas que não gosta de contrariar, é também um homem que abusou da sua modéstia e que agora tem por arrumar milhares de negativos e um acervo fotográfico que daria em número e qualidade várias outras exposições antológicas. Quando andávamos a preparar o livro que foi editado pela Escola Portuguesa, eu, a Teresa Noronha que o produziu e o gráfico Luís Cardoso, ficámos desorientados pela fartura que se nos apresentava e que excedia em larga escala o que esperávamos. Esperemos que o Kok melhore e que possa ser ainda ele a organizar o seu espólio, que se Moçambique não se põe a pau vai ser comprado por um museu americano. Mas cada país saberá dos cordéis com que deprecia os seus.
Entretanto, a obra do Kok não precisa de nenhuma tutela teórica que a legitime formalmente, já está há muito acima disso, e por isso apetece-me falar de outra coisa.
Se eu tivesse que definir a sua obra diria: é a obra de um homem que não quis ser póstumo ao seu tempo. Isto pode à primeira parecer uma contradição mas não falo da vida do Kok, que, espero, que se aguente às provações por que passa. Falo sim da sua atitude perante a fotografia, que é a de um homem moral, um homem de fidelidade. Explico-me.
Terei de me socorrer de uma entrevista de Maria Cásares grande actriz dos anos 50 e 60, que foi a musa de Albert Camus e grande amiga dos existencialistas da época, o Sartre, a Simone de Beauvoir, a Sigmone Soiret, o Yves Montand, todos os intelectuais da sua época. E nos anos 80 perguntaram-lhe na televisão se aceitaria tomar a poção da juventude, caso a descobrissem. E respondeu a senhora, olhos nos olhos com o Pivot: «sabe, vi demasiada gente extraordinária desaparecer à minha volta para agora não cumprir o compromisso com os meus mortos…». Esta grandeza, que é a de poucos, é a que encontro na fotografia do Kok Nam e nos motivos porque a partir dum determinado período ele pôs a fotografia em pousio.
 O melhor da sua obra, o que a estimulava, tem o lastro épico com que a sua geração ergueu em imagens uma memória da construção do país.
No filme brasileiro «25», que retrata o imediatamente antes e o imediatamente após a independência do país, no 1º dia de Moçambique como país independente, há um jovem negro de 20 anos que chega ao pé de um estrangeiro cheio de máquinas fotográficas a tiracolo e pede: «tire-me uma fotografia, que eu nunca me vi». Esta espantosa cena era também a metáfora ideal para um país nascente, e o Kok e a sua geração dedicaram os melhores 15 anos da sua vida a garantir que mais nenhum moçambicano precisasse de fazer tão estranho pedido a alguém de fora.
E o Kok foi um dos mais esforçados, tendo o seu acervo uma consequência, uma qualidade, uma continuidade até uma intensidade como vejo em poucos, e que ultrapassa em muito as circunstâncias do  foto-jornalismo.
Não uso aqui o termo intensidade em vão. Porque foi com uma espantosa intensidade que o Kok calcorreou o país anos a fio para devolver uma imagem aos humildes, aos soldados, aos camponeses, aos trânsfugas, aos construtores de um projecto de nação.
Para quem como ele viveu tão de perto um processo onde se apostavam credulidade e utopia, sacrifício e sentido de justiça, os anos seguintes foram os do degelo, os de uma quotidianidade onde os homens se entregam mais ao pragmatismo político do que ao vindimar dos sonhos e o Kok Nom fotógrafo preferiu transformar-se num exemplo cívico e dirigir um jornal independente a voltar á vida de andarilho com uma máquina à ilharga. Creio que ele não queria ser o fotógrafo da disforia.

Em meu ver porque não quis trair a intensidade do que tinha vivido, e não quis fazer uma obra póstuma ao testemunho do que nele fora a mais honesta das entregas, e que tem, como disse atrás, um cunho épico. Era como se ele se sentisse inseparável de algo que fora suspendido e agora, por fidelidade, não tolerasse como fotógrafo o chão quotidiano e os seus temas mais corriqueiros, depois de ter sido um dos maiores documentalistas dos sonhos de um país.
Porque nunca se tratou de “saber fotografar”, da habilidade técnica, de fazer uns enquadramentos bonitos, mas do entusiasmo em fazer o mais correcto para melhorar o mundo e a lógica de tão cínicos tempos como os que atravessamos não o motivava. É neste sentido que falo do seu estofo moral, o Kok nunca quis tirar partido dos seus créditos – a dado momento não teria sido complicado ter-se tornado um grande fotógrafo internacional e viver à conta do nome feito. Escolheu sempre a opção mais difícil para si e vejo aqui muito da sua grandeza como homem.
Um homem simples, a meio caminho entre um intelectual e um prático, e que nunca deixou de ser inteiro.
Surpreendeu-me sempre que houvesse gente que quando eu manifestei o desejo de lhe fazer uma entrevista grande, para livro, me procurasse demover porque diziam que o português do kok punha os cangurus no tecto. Como se a sensibilidade e a memória de um homem não fossem os seus melhores cartões de visita.
Lembro-me da graça com que ele num almoço em minha casa replicou à minha filha Jade, de quatro anos, que olhava para ele muito atraída, para lhe sair numa súbita evidência, enquanto lhe apontava o dedo:
- É o senhor chinês!
E responde o Kok, confundindo-a ainda mais:
- Chineses são os canários, eu sou moçambicano! Mas a Jade é sueca, não é?
Eu passei a admirá-lo mais desde a nossa entrevista e estou-lhe grato por termos feito um livro tão humano. Humano a um ponto que me lembra um verso de Sá de Miranda onde o poeta quinhentista diz: «poeta até ao umbigo, os baixos prosa».
O Kok nunca se pôs em coturnos, nunca quis fiz fingir o que não era, e foi muitas vezes prosa.
Por isso, a mim que sou o seu amigo mais imperfeito, no fecho desta exposição que reúne as fotografias do livro - e que me perdoe a anfitrião, a senhora cônsul - mas só me ocorre dizer: tenho saudades do Kok, porra!


domingo, 3 de abril de 2011

HOMENAGEM: ROBERTO JUARROZ


 

ROBERTO JUARROZ
(1925-1955)

Poeta e ensaísta argentino, um dos mais importantes e secretos poetas argentinos do século vinte. A parte mais importante da sua obra está reunida num volume intitulado Poesía Vertical.
As traduções são minhas.


Uma grande tentação se oferece ao homem, a de exercer a sua capacidade mais superlativa e radical: criar. Eis porque não se trata de ver o poema. Paul Éluad dizia justamente que o poema consiste em dar a ver, em mostrar o mundo, em mostrar o que a quotidianidade nos dissimula e nos esconde a inanidade da vida. Dar a ver a realidade substancial do homem, o que a nossa precariedade, a nossa incapacidade, os constrangimentos da existência, nos furtam e o que nos escapa por sermos inaptos para responder directamente à exigência absoluta. Direi mais: não basta dar a ver. Trata-se de dar a criar, de um incitamento a se re-criar.

Não cesso de me emocionar quando me lembro de que Paul Klee disse «o visível não é senão um aspecto do real». A poesia seria desde logo a tentativa de revelar os aspectos da realidade que são invisíveis.

Creio que toda a arte é uma ruptura, uma fractura do real habitual para ter acesso a outra coisa, a uma forma inaparente do real, talvez o fundamento mesmo do real.

A poesia não visa o confortável recurso duma resposta, mas alguma coisa de mais grave, de mais importante, que consiste em procurar no homem as presenças que o acompanham. A poesia não oferece nem solução nem fórmulas, nem receitas fáceis, mas uma companhia para a vida.

Num místico, no meu entender, o verbo não é essencialmente senão um pretexto, e a sua autêntica vocação é o silêncio. Em poesia, pelo contrário, o verbo é parte integrante da experiência fundamental. A poesia não desagua jamais no silêncio, ainda que tal seja por vezes dito. Agora, o silêncio não desempenha na poesia um papel menor que o verbo.

(…) duas atitudes devem ser bem distinguidas. A primeira, que definiriam substancialmente a ciência e a filosofia, tenta elucidar o sentido das coisas. A segunda, que compreenderia a mística, a poesia e a arte, persegue não apenas o sentido, mas além disso uma transformação da realidade que é o homem. É por isso que um dos meus primeiros poemas termina assim: SER NÃO É COMPREENDER. A poesia deve ser uma transubstanciação de todo o fazer e de toda a coisa, através da linguagem e da vida do homem levados a seu máximo de poder expressivo, associativo, revelador.
Lembro-me que Menéndez Pidal dizia que falta aos dicionários assinalar, para além da definição ou a função de um nome, a sua carga emotiva. Se cada palavra comporta uma, o facto de pensar e de nos exprimirmos é eminentemente emotivo: não há pensamento sem emoção. É bem neste sentido que julgo pensar.

O culto do irracional, como tal, não é unicamente uma reacção excessiva, desmesurada, injusta contra a parte mais humana que implica igualmente a razão. A procura do para além do racional consiste num reconhecimento integral do homem, do seu comportamento racional e irracional, numa ultrapassagem do simples movimento dialéctico da razão e do conhecimento, e visa então a busca dessa terceira dimensão onde se produz a conivência viva e real de elementos aparentemente contraditórios.

Creio que a ética, a estética e a poesia são autónomas e se referem a objectos diferentes. Nós vimos já que a poesia não pode ser reduzida a um simples conhecimento. O carácter excepcional da experiência poética não pode ser assimilado a nenhum sistema ético, estético ou gnoseológico determinado. A questão consistiria então em saber se a poesia é ela mesmo susceptível de dar acesso à virtude, à beleza, à verdade. Se nós consideramos a ética, por exemplo, nós vemos que ela se refere à conduta do homem relativamente a certos valores, o bem, o mal, ao que conforma, ou não, o erro, a falta, a coragem. Mas estas noções são de todo estranhas à poesia que não têm nada a ver com a ética: ela é uma ética profunda. Ela é, no fim de contas, uma maneira de ser, de se conduzir em profundidade, uma atitude de inteireza face ao real. A poesia é uma tentativa de purificar a visão, de abrir o olhar sobre as coisas na sua plenitude. Creio que a poesia sustida por uma conduta integral é uma das formas maiores duma ética perfeita. 
Quanto à estética serei tentado a repetir que a poesia desdenha do sentido tradicional da beleza enquanto harmonia ou equilíbrio e intenta, ao contrário, uma plenitude expressiva que não se conforma necessariamente com certos cânones, normas, medidas ou parâmetros exteriores.  

In Poésie et Création/ Dialogues avec Guillermo Boido



Uma rede de olhares
mantém unido o mundo,
não o deixa cair.
E ainda que não saiba o que se passa com os cegos
hão-de os meus olhos apoiar-se numas costas
que podem ser as de deus.
No entanto
o que eles buscam é outra rede, outro fio,
que agora encobre os olhos com um fato emprestado
e precipita uma chuva já sem solo nem céu.
É isso que buscam os meus olhos,
o que nos descalça
para ver se algo mais nos sustenta por baixo,
ou inventar um pássaro
para averiguar
se existe o ar,
ou criar o mundo
para saber se há deus,
ou aceitar meter um chapéu
para comprovar que existimos.


Penso: neste momento
talvez ninguém no universo pense em mim
só eu me penso
e se morresse neste instante
ninguém, nem eu, me pensaria.

E aqui começa o abismo
como quando durmo.
Sou o meu próprio sustento e eis que me retiro.
Contribuo para atapetar de ausência tudo.

Será por isso que pensar
num homem
se parece a salvá-lo.


Entre pedaços de palavras
e carícias em ruínas,
encontrei algumas formas que voltavam da morte.

Vinham de desmorrer.
Mas isso não lhes bastava.
Tinham de continuar a retroceder,
tinham que desviver tudo
e depois desnacer.

Não podes fazer-lhes pergunta alguma,
nem olhá-los duas vezes.
Mas elas apontaram-me o único caminho
que talvez tenha saída,
o que regressa desde toda a morte
até lá atrás ao acto de nascer,
e se encontra com o nada do começo
para retroceder e desnadar-se.



Encontrei o lugar justo para pôr as mãos,
à vez maior e menor que elas mesmas.

Encontrei o lugar
onde as mãos são tudo o que são
e também algo mais.

Mas ali não encontrei
algo que estava seguro de encontrar:
outras mãos esperando as minhas.



Estão as costas do homem mais nuas que a sua frente,
e seguramente pesam menos.
Não partem o vento nem as palavras
tão só as sustêm.
Mas nas costas do homem não está o homem.
Estão os outros homens e a morte,
os risos e os deuses,
a angústia dos mortos.

E estão, também, o fumo de uma antiga fuga,
o molde de um leito demasiado tempo só,
a palavra que ninguém irá dizer,
a ausência disto que ainda não se foi
e sobretudo a soma de toda a ausência,
como uma rede perdida,
como um mar inútil,
como o fracasso de todos os abrigos.

Sim, as costas do homem estão sempre mais nuas
muito mais nuas que a sua frente. 




um ponto em que a visão do olho deixa de crescer
e começa a decrescer.
É o sítio onde se tece a teia mais gratuita da aranha,
a que não visa caçar mas sim caçar-se.
Ali está o fruto que se exprime para dentro.



O universo se investiga a si mesmo.
E a vida é a forma
que emprega o universo
para sua investigação.

A flecha vira-se
e crava-se em si mesma.
E o homem é a ponta da flecha.

O homem crava-se no homem,
mas o branco da flecha não é o homem.

Um labirinto
só se encontra
noutro labirinto.



Muitas coisas me atam.
Por exemplo,
as múltiplas partidas.
e também as suas múltiplas chegadas.
e talvez, sobretudo,
os inúmeros sucedâneos
de partir e chegar.

Atam-me as rotinas do corpo enamorado
e as incorruptíveis decadências,
as zonas pisoteadas do tempo,
a visão deste mundo e de qualquer.

E pensando bem
talvez tudo me ate.

Mas o último nó desata-me.



Cada coisa tem peso num só lugar.
Nos outros, unicamente cai.
Como o traço que só se cumpre numa praia,
a nuvem no céu
ou a carícia num corpo.

Cada gume corta em nada mais que um ponto.
Nos demais só interrompe.

Cada passo tem também o seu sítio justo.
Salvo o passo que o homem guarda
para entrar no abismo.


Assim como não conseguimos
aguentar muito tempo o olhar fixo sobre nós,
tão pouco aguentamos muito tempo a alegria,
a espiral do amor,
a gratuidade do pensamento,
a terra na suspensão do cântico.

Não conseguimos sequer aguentar muito tempo
as proporções do silêncio
quando algo o visita.
E menos ainda
quando nada o visita.
O homem não consegue suportar muito tempo o homem,
nem tão pouco o que não é o homem.

E no entanto consegue
suportar o peso inexorável
do que não existe.



Apoiar a cabeça sobre uma palavra,
ou sobre uma cor recém-descoberta,
para descansar a outro nível
ou talvez para despertar noutra transparência.

Porque chega o momento
em que até o sonho é uma ironia
e o despertar um simulacro.
Compreendemos então
que não importam os limites,
mas sim a persuasiva permeabilidade dos limites.

sábado, 2 de abril de 2011

COMUNICADO À NAÇÃO

saudek: as minhas filhas rejubilam com a boa nova
para a estela e o fernando
As máquinas de impressão da Minerva Central foram afinadas para cuspirem, no mais retinto verde alface sobre papel amarelo, vinte mil prospectos a anunciarem que a internet voltou ao lar donde emana o hálito fresco das raposas a sul.
Há dois dias que não dormem seis jornalistas das rádios locais (duas bem jeitosas, mais uma estafermo, e, entre os rapazes, feiosos todos, o mais dúctil de espírito há dois anos que tenta assinar o seu próprio nome sem um erro ortográfico), destacados para cobrir o acontecimento.  
Há uma carrinha Ford, no parque de estacionamento prédio, atrás da qual de vez em quando assoma o focinho impaciente duma câmara de tv.
O sagui do meu vizinho do sexto julga que é para ele e há dois dias que se senta no parapeito da varanda e se masturba à vista de todos.
Há vinte e quatro horas que três majoretes descem de pára-quedas para abrilhantar o acontecimento, e já mostram olheiras fundas sob a maquilhagem (aqui nem a distância entre a terra e o céu é normal).
Nesta espera, os paparazzi já engravidaram a empregada do quarto esquerdo e a do nono frente.
O Mia Couto assegurou-me que marcaria presença. Garantiu-me que nem os sete andares sem elevador o demoverão a vir manifestar a sua solidariedade, palestrando da minha varanda.
O ministro da cultura aproveitou a ocasião para lançar uns Jogos Florais, a que chamou “Rosa com o fôlego dum dedal à chuva” e prepara um discurso em hexâmetros.
O PCA (director-geral) da TDM, preocupado por não saber que cabeça rolará por este mês e meio de desnorte total, anda a xanax, e há uma semana que sonha com a Rainha de Espadas do País das Maravilhas. Para mais, disseram-lhe que o seu cargo já foi oferecido a Kadhafi.
O administrador do prédio, apreensivo quanto à possibilidade dos técnicos da TDM terem vindo ao prédio e desistido por causa da avaria do elevador, já me pediu desculpas em ronga, bitonga, shangana, inglês… e promete-me para amanhã excusas em latim.
O antigo presidente Chissano prometeu-me cinco cabeças de gado para me compensar dos prejuízos, e o rei da Suazi mandou-me o catálogo das suas esposas para eu escolher duas.
Está tudo a postos. Só falta a brigada técnica que me reinstalará telefone fixo e net em casa. O diagnóstico está feito.
Na quinta-feira passada, após duzentas chamadas para os serviços técnicos da TDM, desloquei-me lá pela quinta vez em duas semanas e desta vez entrei aos gritos, ameaçando-os de artigos no interior e no exterior do país e de acções punitivas, entre elas as que cabem ao meu 4º dan de karaté. Receberam o meu ânimo num silêncio culposo e o chefe dos operacionais prontificou-se a acompanhar-me imediatamente para realizar o diagnóstico técnico da situação.
Pelo caminho, contou-me que fazia o mestrado em Ciências Sociais, com o tema “Co-habitação e Desenvolvimento”, o que me pareceu promíscuo.
Lá subiu abnegadamente as escadas e depois de muita apalpação de fios, caixas, terminais, entradas e saídas do computador, concluiu: “a linha do telefone está avariada e por isso não lhe chega o sinal”, num remate de bacharel e não de mestre. Prometeu contudo “mover diligências” para uma brigada me vir reinstalar a coisa em casa na sexta.
Faltaram.
Porém, hoje de manhã, sábado, recebi um inusitado telefonema do técnico que estava indicado há várias semanas para vir observar o problema e que se justifica dizendo que me tentara telefonar cem mil vezes sem ter conseguido ligação, perguntando-lhe eu então pela origem do motivo sombrio que me levara naquele mesmo instante a atender-lhe o telefonema :“diga-me, meu amigo, a que curandeiro foi?”. É um excelente sinal, para a prática bantu em que nada se fala directamente sendo tudo convertível em condutas, sendo uma forma de pedir: “brada, estou à rasca, não aperte mais o chefe…”. É um excelente sinal
A minha net está voltar! Pode levar uma semana, quinze dias, mas algo se move.
A gente sente-o em casa, e até a imprudente da minha empregada já mandou distribuir garrafas de champanhe pelos profissionais da comunicação social que aguardam lá fora o grande acontecimento. Rezemos para que não esteja tudo bêbado quando chegar a hora. Ainda por cima lá fora o calor puxa à pinga.