quarta-feira, 23 de março de 2011

TAYLOR & SÓCRATES: O DESENCONTRO

Morreu Elizabeth Taylor. Eis o que em mim silenciou a demissão de José Sócrates. Aliás Sócrates, sabê-lo-emos numa próxima biografia, era o nome do ginete que encheu de correrias a infância de Elizabeth, dado pelo seu pai marchand de arte, nesse último momento em que a actriz foi feliz, antes de se meter nas fitas.
Não sei o que o demissionário primeiro-ministro português pensava de Cleópatra. Eu sempre tive uns ciúmes danados de Richard Burton, e só desviei dali a cisma quando Elizabeth se perdeu de amores por um camionista, nos idos de oitenta, e eu movi o holofote para a hipótese de consolar a velhice de Ava Gardner – se me aparece um camionista como rival na cama eu abdico imediatamente, há que ter consciência que face a certos limites físicos nem o ioga nos ajuda.
Não sei, repito, o que o ex-primeiro ministro português, cuja queda fez cair o Euro – o que mais me impressionou neste preâmbulo da opereta nacional -, pensava de Elizabeth Taylor; o que eu tenho a certeza é que a sua actuação como primeiro-ministro foi sempre a de alguém que se julgava a protagonizar Quem tem Medo de Virgínia Wolf? Essa foi a sua desgraça, e a nossa.
Sócrates descobriu em si uma heteronomia que o levou muitas vezes a privilegiar o seu lado de actor sobre a seriedade exigida pela matéria específica do que circunstancialmente estava em jogo e era nítido que ia aos debates parlamentares para se ouvir.
A desgraça de Sócrates nasce das suas evidentes qualidades políticas – é por exemplo espantoso como após o desgaste de 6 anos de governação chegou aos debates das últimas eleições legislativas e papou todos os debates televisivos sem excepção.
O Francisco Louçã, que embrulha hoje toda a esquerda com os seus esgares e os seus arremedos de economia, e que se julgava eleito para tribuno do século, nunca lhe perdoará ter perdido o debate. E Pedro Passos Coelhos, recém-eleito como o galito-mor da oposição de direita precisa de um combate que o confirme. Ele não tem nada a perder. Se as coisas lhe correrem bem será o novo homem providencial, se lhe correrem mal acusará o sistema instalado. E Paulo Portas, arguto como Deneuve nas suas representações, sabe que é a oportunidade de chegar ao poder num novo acordo com o PSD.
O que é risível nesta pífia opereta da política portuguesa é que todos têm razão. Como naquela história que muitas vezes se atribui ao Talmude: um doutor de leis procurava, na presença dos seus discípulos, fazer justiça entre dois queixosos. Exposto o caso do primeiro, decidiu o juiz dar-lhe razão, até ter reflectido longamente. Mas quando o segundo terminou a defesa da sua causa, o juiz, depois de nova e longa reflexão, deu-lhe também razão. Os discípulos espantaram-se ao ver o seu mestre dar razão às duas versões contraditórios dos mesmos factos, ao que o juiz respondeu, depois de ter voltado a reflectir: «Com efeito, também vós tendes razão.»
A oposição tem razão, a economia não pode crescer unicamente com medidas de austeridade que só penalizam os menos favorecidos, e Sócrates tem razão, os juros da ajuda externa ao país só não subirão dramaticamente se houver confiança dos mercados, e isso exige estabilidade e medidas duras. E quando é assim, e com o país absolutamente atolado na crise, era preciso abandonar as paixões e ensaiar um meio-termo, um consenso.
E é patético que, para conseguir garantir as reformas que Portugal se comprometeu a adoptar na última cimeira da CEE, Passos Coelho apresente como medida alternativa a subida do IVA em todos os produtos.
Por isso apesar de todos terem a sua parcela de razão tem mais razão o Luís Carlos Patraquim que me mandou durante a tarde um MSN em que dizia, preto no branco: «Portugal suicidário, viva Camilo e Manuel Laranjeira!»
No que todos não têm razão é em não admitirem que não têm a menor ideia, a menor visão, demitindo-se todos com o primeiro-ministro. Ou um primeiro-ministro não é, afinal, aquilo que a gente o deixou ser?
Esta gente indigente que têm liderado a política portuguesa ainda não percebeu que Portugal só tem quatro trunfos no gizar do futuro, dois ases, o turismo e a cultura, e dois valetes, a sua relação com África (mas não com a exclusiva e pérfida Angola) e a aposta na ciência. Destes últimos poços de petróleo, só o último tem sido explorado, e o primeiro, a espaços e sem a articulação devida e obrigatória com a cultura. E, enquanto este sector não ganhar primazia, Portugal só terá produtos que os outros fazem mais rápido e com menor custo – sapatos, por exemplo. O único petróleo estruturador seria a cultura, uma indústria séria da cultura, sector que tem sido continuamente fustigado e onde o país se tem portado como um perdulário. 
Eu percebo-os, o drama profundo, ou antes o único desígnio desta classe política é que ambicionava, cada um à vez, ter sido um dos maridos de Elizabeth Taylor – bom, menos Paulo Portas, que desejava ter sido Michael Jackson.
Libertou-me felizmente dessa hipnose a presença do camionista – isso desfez-me o feitiço. E a Ava, a minha condessa descalça, é uma rapariga com outra consciência crítica.
Daqui de Maputo, do porto de Maputo, mandei expedir oito toneladas de pêsames. Só que a minha língua não é bifurcada como a dos políticos: os meus pêsames vão inteirinhos para Richard Burton, o único dos ex-maridos que me merece respeito.  

GASPAR/ O melhor dos Reis Magos

Eu era o disléxico mais intratável, o mais rotinado ou o mais apto, da minha rua – depende das perspectivas.
Tudo dissimulado em anedotas em que me especializara para desviar a atenção das calinadas a esmo. Uma vez perdi uma posição de trinco na equipa da rua, arrancada a ferros, com esforço e afinco na canela, porque, depois de abandonar uma jogatana a meio contra os gajos do Pombal (perdíamos 3-2), justifiquei a seguir (tínhamos perdido 7 a 3): “tive de ir gacar”. Ninguém confia na segurança de um trinco que se expõe desta maneira à tripa forra da gargalhada alheia. 
Para me safar, habituei-me a exibir umas piruetas verbais e metia-me por atalhos narrativos tão bizarros que ficava tudo à coca para ver como eu se safava. Os menos atentos, diziam que eu tinha uma grande fantasia, os mais atentos que eu era uma gosma sem osga a quem pudesse engravatar.
Ora, este miúdo que assim torto cresceu em mim nunca deixou de existir, e logo que desatei a escrever artigos para os jornais fui logo notado pelas piruetas (…para bom entendedor) - felizmente havia revisores.
Hoje sei que a dislexia não é só verbal, que a há também no modo relacional, isto é, um disléxico também é especialmente dotado para acumular gafes, sem dar conta, no contacto humano. Neste mister sou um especialista. Para não me desviar por caminhos ínvios conto apenas a história idiota que narrei num velório à mãe de um poeta amigo que tinha falecido acidentalmente. Agarrei-lhe na mão e transmiti-lhe o meu orgulho por ter conhecido o filho e a sua vocação poética. E para enaltecer a qualidades do filho contei-lhe a parábola indiana de um Mestre que era continuamente atazanado pelo seu discípulo sobre os sinais que deveria reconhecer no seu caminho para Deus. E então quando chegaram a um poço, continuei eu, e o discípulo bebericava o Mestre pegou na cabeça dele e enfiou-a com firmeza dentro da água do poço. O discípulo foi apanhado desprevenido e viu-se naqueles apuros e por muito que esperneasse não conseguia libertar-se da tenaz. Quando estava prestes a afogar-se o mestre puxou-o para cima. Deixou que se recompusesse e então perguntou-lhe: que pensavas tu, na tua aflição. Que queria respirar. Pois então, replicou o Mestre, quando todos os teus poros, agonicamente, clamarem por Deus, aí estarás no caminho certo. E, para sublinhar a minha moral, repeti a frase final substituindo Deus por poesia, e garantindo assim à senhora, como consolo, que a vida do filho não fora em vão.
A senhora estava lívida, próxima da apoplexia, e eu retirei-me convicto de lhe ter ungido a alma. E só no caminho para casa me perguntei sobre o propósito de contar tal história a uma mãe cujo filho morrera afogado, numa 4L, na noite da maior chuvada do ano.
Isto para vos dizer que muito depois da minha exclusão do plantel da rua mas quando ainda éramos todos irremediavelmente jovens e mais cretinos ainda do que hoje (claro que falo de mim, que se abstenha quem quiser), conheci o Luís Manuel Gaspar, que era o contrário de mim, e que além de um ilustrador brilhante e de um poeta imerecidamente silenciado tinha o fascínio pela palavra certa, pela sílaba embutida in su sitio, pelo areamento da sintaxe. O Gaspar nasceu para ser o mordomo que põe ordem na mui desarrumada despensa de Deus, aquela em que se perdeu o Noé depois de ter inventado o vinho.
Sempre que alguém pensa numa revisão ortográfica que não deixe de fora uma espinha pensa-se no Gaspar, que fez uma aposta com o demo, autorizando-o a arrancar um pêlo aos seus gatos sempre que o mafarrico encontre nos seus livros uma gralha ortográfica; ora, os gatos do Luís Manuel Gaspar são conhecidos pela pelúcia farfalhuda enquanto o demo teve de se tornar poliglota para blasfemar de uma forma continental, ao lembrar-se da haste muito direita que é o Gaspar.
Eu não pensei nele para isso e fiz mal. E fiz bem. Fez-me uma belíssima capa, como se pode ver em baixo.

E quando o livro chegou da tipografia e lho dei, tive de sofrer as alfinetadas do seu riso de boticário sobre a minha videira repleta de gorgulhos e ferrugem. Adivinham: as gralhas, os desacertos verbais, as desatenções mais estúpidas. Na verdade eu não fizera a revisão do livro, sabendo-me um desastre nesse campo dei-o a um amigo escritor que estava sempre a escarnecer dos meus deslizes ortográficos, e ele recebeu a incumbência como um triunfo, eu editava numa editora onde ele nunca ousara chegara mas ele ia-me refinar a gramática. E jurou lealdade. Entregou-me as provas uma semana depois sem ter mexido uma palha, entretanto tinha-se apaixonado e andou aos melros em fulva seara alheia. E calou, eu é que me lixei porque acreditei nele.
E agora, num restaurante do Bairro Alto, revejo o Luís a pôr a sua voz de cantata para modular foneticamente as arranhadelas à língua que betumavam as páginas do livro. Eu muito envergonhado, mas ao mesmo tempo perdido de riso pelo carinho de que eram dotados os meus amigos. E por isso nunca ousei perguntar ao António Guerreiro se fora de propósito que, ao recomendar o livro, no Expresso, no balanço final do ano como um dos dez livros a ler, lhe atribuíra o título de As Cinzas de Maria Burra.
O que interessa é que sempre gostei do riso do Luís Gaspar e, como o reencontrei por causa deste blog, não resisto a confessar-lhe que agora, para ganhar a vidinha, também me entretenho a fazer revisões ortográficas, e de livros de Direito – polindo o verbo e a pontuação nas mais anfractuosas leis. E rio-me às bandeiras despregadas imaginando-lhe a reacção - dois assobios, uma palmada na mesa, um pontapé involuntário ao parceiro de mesa - quando ler sobre este meu novo ofício em terras de Mia Couto.

PS. - Deixei uma gralha no texto para ver se ele a topa

terça-feira, 22 de março de 2011

TRISTIA/ O DIA MUNDIAL DE POESIA


camille bombois

Felizmente acabou, um dos dias mais abomináveis do ano, o do Dia Mundial da Poesia, em que toda a gente anda com a «poéisia» a amendoar-lhe a boca. Como diria o Gombrowicz, tanto açúcar junto enjoa.
Lá mandou ofício a Associação de Escritores Moçambicanos aos 500 oficiantes da «poéisia» para irem aos jardins da sua sede mostrar as guelras e juntar três sílabas das mais líricas ao esterco do mundo.
Se estivesse em Portugal seria a mesma coisa, e já participei equivocadamente, em nome de causas, nesses matadouros de versos. Com direito a emissão televisiva e transformação do evento em circo político.
É invariável, o fedor impregna, seja qual seja a latitude.
A crer-se em tantos amantes da «poesia» devia ser um estoiro de vendas, mas não, a ingrata vende cada vez menos, em Portugal anda-se pelos 400/500 exemplares por livro, a serem consumidos a conta-gotas, em Moçambique também, em toda a Europa o género está cada vez mais acantonado em nichos, em todos os EUA Ezra Pound vende ao ano 600 exemplares (lamentava-o Octavio Paz, no seu último livro), o que é ridículo – que longe estamos do tempo em que Neruda vendia um milhão de exemplares com os Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Tanto amor à «poesia» e veja-se a Grécia, a terra de Homero e Píndaro (e já agora de Seferis e Elytis) onde os cabeleireiros são considerados uma profissão de risco, com direito a reforma completa aos 50 anos, e um poeta morre de fome.
A mim o que me vale são os pavões do palácio da presidência, de que sou vizinho. Enquanto houver pavões eu mantenho-me (normalmente dá para um mês de refeições, e com as penas faço almofadas que vendo). Sempre que acabam tenho de mudar de país.
Entretanto, ocorre-me o telegrama de Marianne Moore sobre Poesia: «Eu também não gosto dela./ Ao ser lida, porém, com um total desprezo, descobre-se/ apesar de tudo que o genuíno aí tem o seu lugar.»
Mas, passado o vómito, nada me impede de exercer o meu voto:


TRISTIA
                               para o Fernando Santos

Estava em armazém, esta fala.
Ainda o mar era marmóreo.
Estava em armazém, esta fala,
atrás da porta canelada, em zinco.

Não que fosse secreta, a luz
simplesmente não tinha nascido ‘inda
sob a frincha que enche de clareiras
as moitas onde os ursos se cimentam.

Naturalmente nada cresce, se a chuva
não auxiliar, se um relâmpago
não provocar um látego na polpa
do pêssego que anseia morder a terra.

Pelo menos nenhuma criança trepará
desembestada pela ombreira
sem o bom conselho dos maus hábitos,
a promessa de chafurdar nos ninhos,

de lambuzar de mentiras o focinho
do sagui que esconde sob o tampo     
da carteira. E nunca por dentro do óbvio,
do riso, crescerá - como pelo veio do sono.

É manhã. Recomeçam as beatas
a acumular-se nos cinzeiros, as beatas
que enchem de luzes mortiças os conventos,
enquanto na tv passam modelos e os martelos

repicam nas obras ao redor, e ruidosas buzinas
se entredevoram, e deus se abstrai, fascinado
pela iridiscência nova das suas veias
de silicone. Eu saio para a rua, há um ano

que saio à procura dos botões-de-punho
(ouro e madre-pérola) que me foram gamados
no último festival do Dia Mundial da Poesia.
Saio, a pau com tudo, como o detective verde

que já se esconde sob as pálpebras
do moribundo. Ai do moribundo que pisque,
da osteoporose que assobie saudosa
das atonalidades da alegria! O detective

verde registará a gafe, o mais ínfimo grão
de moléstia, a chispa que desafine o coro
das línguas mortas. É de relva o seu
camuflado e a beretta está a postos!

Saio e vejo que flanam, saídos da flanela
do inverno para a primavera dos jardins,
as primeiras t-shirts cingidas ao corpo
que a si mesmo promete resgates,

imenso dano - o imundo contágio,
diria a culpa dos que advertidos
se abstêm.  Eles sabem, o amor está
no fundo dos corpos e vem à tona

à primeira oportunidade, entrevendo
bóia. A carne é a bainha da espada.
E nunca se perguntam onde é a atribulação,
engendram-na pelo simples gesto

de aparecerem, cravejados de músculos,
transpirados, o olhar solto, que até no voo
do flamingo capta sinais, o vinco
do consentimento. Observo-os da esplanada,

ciente de que o seu intratável domínio
se sublimou em mim, noutro compasso,
em fluxos e atritos incorporais,
e fungo - terá sido esse trespasse

compensatório? A profundidade
que ergue ilhas vale a perda
do histrionismo, ou em hologramas
nos afundamos até o corpo capotar,

indigesto? Incomoda a Primavera,
divisar no horizonte um corpo afiado
que nos corta a respiração ao clamar
por maior velocidade, que a alma

não talhe ao sorriso de outrem.
Quando era miúdo amiúde se falava
em limpa-chaminés, os brônquios
atracados na fuligem. Depois

as chaminés emudeceram
ou foram levadas por assistente
social para algum asilo
onde em vão aguardam visitas

fugazes ao lado de outros temas
bastamente desencarnados
como o marxismo e os beatles,
todos eles antes eternos, tal

a glabra cabeleira do Pai Nosso
que farejou no punhal de Sitting Bull
o sangue do General Custer.
Agora só nos interessa o amor,

o seu pleito ou a falta dele, porque
amar é uma variação atmosférica
e degenera a rodos numa intensidade
de luz que nos cega. E embora o ardiloso

pensamento à falta de fateixas
desenhe cais telescópicos - é duro
ganhar assim o pão do espírito, a sensação
de que só pela imprevisível ventania

que nos palpa as meninges
nos salvamos de andar em círculo
como as roscas. E magoa, afinal
mais do que sustentavas, ó Seneca,

pois tudo o que chega de fora
reclama coração. Bem me disfarço
de detective verde, vou ao armazém
fornecer-me de truques e falas novas,

ao armazém que se dissimula atrás
da porta canelada, em zinco, e amanheço
armado de novos sustos e do acicate
da indignação, reabastecido pelo pernicioso

costume da puta da idade nos tratar
como podengos, com coelhos nas costas
e lebres à frente…- mas sempre na dúvida:
quem afinal me roubou os botões-de-punho?   

segunda-feira, 21 de março de 2011

MATUTAR COMO SANSÃO, ANTES QUE VENHA A TESOURA

esta pegada será minha?, etc., e tal
Pequena folga entre duas aulas para anotar dois apontamentos que surgiram no curso das mesmas:

«Nunca gostou de pensar em colectivo porque se sente um dos cem varredores que apaga nas dunas os traços da passagem dos humanos enquanto atrás deles uma segunda esquadrilha de varredores apaga os seus traços, antes que venha o vento turvar os olhares, ou que um homem tremendamente solitário sulque a praia.»

«O japonês, como o chinês, o árabe e muitas línguas africanas não possui o verso ser. Usa-se um auxiliar no lugar. Como não podemos dizer “eu sou”, é impossível apreender o conceito de individualidade inerente às culturas ocidentais – explica o actor japonês Yoshi Oida, para falar da estranheza com que um actor destes lugares se coloca na pele de Hamlet ao proferir “ser ou não ser eis a questão…”, e ocorre-me agora que é nas culturas destas línguas que gramaticalmente tornaram periférico o sujeito que ainda hoje se acolhe o fenómeno da “possessão”.
Mas outra questão vos quero deixar – inquiro a turma de jovens actores: como representar se topologicamente não existe a virtualidade de um sujeito de que se parta?»

sábado, 19 de março de 2011

NÃO SE EMENDA, A CHUVA IV: CRÓNICA DE UM CRIME ANUNCIADO

Confirmou-se o pior cenário. Tocou o telefone. Resmunguei como de costume mas lá atendi e ouço do outro lado a voz do Tavares, que me diz de chofre: «bad news…estou com um amigo que comprou ontem numa banca de rua o “Não se emenda, a chuva”, a oitenta meticais…». Portanto, as duas encomendas com exemplares meus que espero em vão há dois meses foram efectivamente desviadas nos Correios de Maputo por funcionário relapso e passadas a um vendedor de rua cúmplice. Apetece-me percorrer a cidade e bater banca a banca até achar o receptor e meter-lhe um cagaço de morte.
A Teresa pede que me acalme e veja a coisa pelo lado positivo: arranjei novos e inesperados leitores. Eu sinto-me menos tolerante e mais perto do serial killer que deseja examinar in loco se dentro de cada caixa torácica não se encontra um bandolim.
Vou-vos contar o que fiz ao último ladrão de livros que me passou no estreito. Era meu amigo e há anos que nos frequentava a casa, dormindo lá muitas vezes. E levava sempre os livros que pedia. Um dia descobri que os que pedia encobriam apenas o dobro dos livros que já tinha desviado para dentro da mala que usava sempre à tiracolo. Primeiro cortei-lhe o cabelo à máquina zero:
o meliante antes dos retractivos
aqui vemos o bicho macilento a fazer contas à vida, enquanto os meus familiares cumprem as minhas instruções. Eu estou em off, à frente dele, com um fio de electricidade descarnado que vou enrolar-lhe num escroto.
A seguir levámo-lo até ao alto da Torre, na Serra da Estrela, que, nesse Dezembro, estava branca de neve, despimo-lo, untámo-lo com alcatrão e penas, à antiga, e obrigamo-lo a descer nu pela estrada até Manteigas, uns quilómetros abaixo.
Depois levamo-lo para Lisboa, meio febril, a tremelicar o dente, e obrigamo-lo a entrar na Esquadra da Polícia em Benfica, com um cartaz que dizia, «Venho pagar os Retroactivos» e, numa das mãos, a cópia da lei de atentado aos bons costumes de 1953, e na outra um relatório de todos os pecados cometidos nos jardins públicos com as filhas e mulheres dos funcionários dessa esquadra, cujos nomes um amigo da justiça me havia fornecido.

A lei, pode-se consultar na notícia em cima, mas do relatório dos desmandos dele constava:
Jardim Botânico, com a Arminda (a filha do Comandante), a 18 de Novembro: Mão naquilo, aquilo na mão, aquilo atrás daquilo; Jardim da Estrela, com a Fernanda Girão (a mulher do comandante), 22 de Novembro: aquilo na mão, aquilo naquilo; Parque Eduardo VII, com a Raquel Martins (a mulher do capitão), 11 de Dezembro: a língua naquilo; Parque do Campo Grande, com a Martinha (a filha do sargento Getúlio), 14 e 15 de Dezembro: mão naquilo, aquilo na mão, aquilo naquilo, aquilo atrás daquilo; Jardim do Tourel, noite de 17 de Dezembro, com a Maria Bettencourt, filha do 2º cabo Jesus: mão na mão, mão naquilo, aquilo naquilo.
Não sei quanto lhe cobraram em retroactivos, convertidos em euros, mas soube que só um mês depois saiu do hospital, as pernas e os braços ainda engessados.
Hoje estou, na generalidade, com muito menos humor do que naquela altura. Vou sair agora de casa para a minha ronda pelas bancas de livros de Maputo. Os funcionários ladrões dos correios e os seus receptores que se cuidem.  

DONA PERÍCOPE E O CINEMA

ghost writer, de roman polanski
para a Lourdes Sendas
Prometi voltar a escrever sobre o cinema, depois de um jejum de cinco anos. A compra acidental de um filme na rua deu-me o pretexto.
É uma figura da retórica. Chama-se perícope e é muito utilizada entre os predicadores. Consiste em pegar numa breve passagem da Bíblia e em reconstruir a partir daí, por encadeamente lógico e uso de analogias oportunas, todo o fundamento da fé cristã. É um jogo de propulsão fractal, do micro ao macrocosmos, numa caça ao padrão que re-liga.
Mas o que é espantoso é que este método pode servir também para a arte.
Comprei o dvd de Ghost Writer do Roman Polanski. Uma amiga pintora tinha-me descrito um plano que a fascinara nesse filme.
Não dura mais que três segundos, não é sequer bem um plano mas uma marcação de cena num plano-sequência, e até se repete na mesma sequência. Só uma pintora podia ser sensível à força irradiante dessa(s) imagem(ns), que contêm afinal a chave do filme.
Adam, o controverso ex-primeiro ministro britânico, recebe no seu escritório o novo «ghost writer», com quem afinará a escrita da sua biografia, depois da misteriosa morte do seu primeiro colaborador.
Na parede da sala abre-se uma enorme janela que se recorta contra uma paisagem arenosa que no horizonte se confunde com a cortina do céu, absolutamente plúmbea. E é contra esse enorme vidro que o político em queda, Adam, de fato de treino colorido, de costas para o espectador, se apoia de braços abertos acima da cabeça, num breve momento: é um rasgão no céu, suspenso no ar. A imagem ressalta do encadeamento da acção, lateja, poderosa – ganha autonomia.
A segunda vez que Adam volta à janela e que nela se apoia, um minuto depois, na mesma cena, arqueia mais o tronco e os braços e a imagem sugere já a de um corpo em queda, que perfura as nuvens. E então aí ilumina-se o arquétipo: é Ícaro em queda, depois de chamuscado no poder do sol, clara metáfora política.
Quem vir o filme com atenção será assaltado pela nitidez dessa imagem arquetípica de Ícaro e percebe imediatamente que aquele homem não sobreviverá à sua história, nem quem orbita na sua imediação, como sua sombra (o ghost writer). O núcleo do filme, a sua metáfora expansiva, está aí.
O resto, para quem detém a chave do símbolo, não passa do seu desenlace natural.
Revejam os meus caros amigos o filme, e leiam-no neste perspectiva. Depois experimentem aplicar a “perícope”, a outros filmes. A Táxi Driver, por exemplo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

AS LEIS COSTUMEIRAS E AS MÁS COMPANHIAS

mapplethorpe
Com esgares de um bacoco orgulho negro que unicamente se alimenta do ódio ao branco temos visto o angolano António Cortez - também conhecido por “Escurinho” ou por “Chico Adão”, o seu pseudónimo literário -, numa reportagem da RTP/África, a apresentar o seu livro "Direito Costumeiro e Poder Tradicional dos Povos de Angola".
Nada temos de antemão contra «as leis costumeiras», desde que razoáveis, em África ou em qualquer outro lado do mundo. O problema está quando o autor, exibindo um riso escarninho, nos assegura que as «as leis dos pretos não devem nada às dos brancos», porque, assegura, «não há nenhuma lei dos pretos que não esteja certa».
Ora acontece que os africanos não vivem hoje em sociedades particularmente felizes, particularmente desenvolvidas, nem de particular justiça social… ou em cuja equidade se possa aferir um efeito benigno das suas leis costumeiras. E entretanto veja-se a graciosidade com que «a lei costumeira» se sobrepõe à «lei positiva» na Costa do Marfim, em terras de Mugabe…
E para mostrar o lado negativo da «lei positiva», essa hedionda lei moderna, apresenta Chico Adão o mau passo, nas sociedades ocidentais, «dos homens casarem com homens e mulheres com mulheres», coisa que evidentemente, não acontece em África… perguntando desdenhosamente, «isso são costumes?».
Acontece que entre os brancos há imensas leis, costumeiras ou positivas, que não estão correctas, e que por isso estão permanentemente… sob suspeita, e em mudança. As sociedades modernas são sociedades em negociação permanente, que têm consciência da sua dinâmica histórica e de que podem melhorar… ainda.
O que implica que essas sociedades tiveram de abandonar moldes «essencialistas» quanto a uma suposta identidade, aos seus costumes e modos de vida. Coisa que Chico Adão, tão preocupado em achar uma ancestralidade para todas as manifestações costumeiras não parece aceitar.
Mas demos um exemplo. O mesmo Chico Adão parece ser o líder de uma tendência da MPLA que, à falta de coragem para levantar questões ao regime, instiga os deputados da oposição, da UNITA, a levantarem os problemas que eles não ousam. Nas sessões plenárias da Assembleia Nacional essa tendência mostra-se radical contra quem critica o MPLA, mas nos corredores tenta influenciar os oposicionistas a trazerem à liça os casos de injustiça que ela omite. Jogando sempre em dois tabuleiros.
Aqui temos um caso evidente de «comportamento costumeiro africano» absolutamente abominável e que não pode ser dado como bom exemplo de mecanismo social em nenhuma circunstância, lugar ou sociedade. Seja qual for a raça.
Quanto à matéria escaldante da homossexualidade ou da sua denegação africana, reproduzo um artigo que escrevi no Savana em resposta a um artigo do (agora) falecido Gabriel Simbine, irmão de Graça Machel (que foi esposa de Samora Machel e é a actual mulher de Mandela), e que patenteava um raciocínio que Chico Adão prontamente subscreveria:

Moçambique atravessa uma fase de retorno à mitologia das origens. O que sobressai nos discursos sobre a inexistência de homossexualidade entre os africanos, contagiados pelo diabo branco. O texto de Gabriel Simbine («O País», 16 de Fevereiro de 2007), que mão caridosa me deu a ler, ecoa esta perspectiva.
O cunho arbitrário de muitas das suas afirmações («a homossexualidade é o nível mais baixo do comportamento e atitude social de qualquer ser humano»: ultrapassará isto o domínio da opinião pessoal?) dispensa a utilidade de discutir se a homossexualidade é ou não uma «importação que chegou ao continente negro no pacote da cultura alienatória» derivada do «colonialismo e da religião ocidental», porque se acumulam os preconceitos onde deviam estar os argumentos.
Veja-se este exemplo: na Roma Imperial, muito antes do triunfo do Cristianismo, quando o que vingava era o politeísmo e um exuberante animismo permeava a vida dos cidadãos (aparentado ao africano, tirem-se as dúvidas no livro de R.M.Ogilvie, ’Os Romanos e os seus Deuses’), era vulgaríssimo que os homens fossem bissexuais. O imperador Júlio César era conhecido em Roma como «o homem de todas as mulheres e a mulher de todos os homens» (cf. o historiador romano Suetónio, ‘Os Doze Césares’). Portanto, uma sociedade profundamente animista acolhia pacificamente essa modalidade afectiva. Bom, em Roma havia registos, na África Sub-sahariana não... pormenor nada despiciendo para a seriedade desta discussão. Quanto ao supracitado cristianismo, pôs em acção uma máquina brutal para reprimir essa tendência sexual – e a liberdade recente em relação a esse tipo de amor (por que só se fala de sexo quando se fala de homossexualidade?) na Europa foi conquistada apesar da Igreja. O contrário do que alvitra Gabriel. Agora, o catolicismo durante milénios reprimiu a sodomia e a homossexualidade e afinal estas práticas persistiram: eis o que devia fazer pensar.
Corrijo outra afirmação errónea: a de que não há homossexualidade entre os animais. Vários estudos da etologia referem que os carneiros praticam mais a homossexualidade que a heterosexualidade. Veja-se o horror, nem “os anhos de Deus” escapam à conspicuidade sodomita!
Mas vamos ao que mais me choca no artigo. Primeiro: a natureza do negro original – impoluta, viril, abonada (e estamos na pura métrica), atreita à cópula (eles e elas – hum, garante o artigo que elas são um petisco) e às proezas físicas. O africano, diz Simbine, «não precisa de ser imitador (praticando a homossexualidade e o sexo oral) naquilo que ele sabe e pode fazer melhor que o colonizador europeu» (formulação científica). A palavra colonizador (-por que não ‘branco’?) não é convocada em vão: Simbine reproduz, na sua argumentação (?), os clichés e estereótipos inventados pelo esclavagista e pelo colono para definir o preto: bom para o trabalho braçal, o futebol, o atletismo, o basquete e uma fera na cama. Resultado: o negro pinoca melhor mas o colono pinocou-lhe tão bem a cabeça que agora só acredita no discurso do antigo amo e, paradoxos da liberdade, auto-retrata-se como um bom cobridor. Eis o racismo interiorizado, no seu máximo efeito.
Não passa pela cabeça de Simbine que os índices de performatividade dos negros no desporto na Europa, EUA e Brasil, têm como motivação o facto da comunidade negra desses lugares – de pouca equidade social -  ver nessas actividades uma hipótese para o sucesso social.
Houvesse nas sociedades referidas uma igualdade de oportunidades e os “bradas” começavam a distinguir-se também noutras actividades «técnico-científico e sócio-culturais» e baixariam a sua densidade humana no desporto de alta competição. E será que não seria preferível, em vez de ficarem confinados ao hip-hop, ao futebol e ao sexo?
Simbine não parece entender que o distingue o homem não é a natureza mas a cultura. O leão também truca-truca a leoa, mas o erotismo – uma operação da inteligência, da imaginação, dos códigos do desejo atinentes a cada cultura - é exclusivo do homem. Será por isso que, segundo explicação de Simbine, «o europeu tem um organismo frio (...) e não encontra satisfação quando pratica sexo normal entre o homem e a mulher (e) na falta do melhor (...) pratica a homossexualidade, o sexo oral, etc?» (outro axioma científico).
Contudo, não se trata apenas de Simbine ser contra a possibilidade do humano ampliar a versatilidade das suas sensações ou a labilidade das suas emoções. Como heterossexual assumido outra coisa me incomoda e muito no seu artigo: o fedor a “polícia de costumes”! Cabe lembrar: antes do 25 de Abril, em Portugal, a homossexualidade e a sodomia eram tabus e fonte de estigma. A homossexualidade “cresceu” com a liberdade – parece-me um preço justo.
Por isso, como medida de sanidade, empresto ao Gabriel Simbine uma reflexão final, do filósofo e sociólogo catalão Xavier Rubert de Ventós:
Ser moral, para mim, é recordar sempre a importância daquelas opções que não tomámos para nós: daqueles valores que, talvez necessariamente, sacrificámos, mas que nunca esqueceremos nem pretenderemos reduzir a subproduto dos inerentes ao nosso estado ou profissão. Podemos optar pela vida ascética, mas então o que faz falta é respeitar o valor da sensualidade. Podemos optar pela vida intelectual, sem deixar de realçar a importância de tudo o que se passa fora do campo das ideias. Frente à tendência para fazer o mundo parecido e à nossa medida, a moralidade consistiria antes em tornarmo-nos nós parecidos com o mundo; não em moralizar o mundo, mas sim em ‘mundanizar-nos’”. 
Aí está uma coisa que exige coragem: não querermos que os outros sejam iguais a nós e respeitarmos as opções que não tivemos. Um caminho para a liberdade e o respeito mútuo.
Esqueça o jogging, Gabriel Simbine, estude e pense.          

ANTHERO: AREIA & ÁGUA, UMA LEITURA

Armando Silva Carvalho é um dos mais genuínos poetas vivos do momento, em Portugal. Com 73 anos nunca sabemos em que direcção navegará o seu próximo livro, o que é extraordinário. No mais recente, saído em Junho de 2010, coloca a máscara de Anthero de Quental e revivifica o poeta oitocentista.
Aqui deixo a minha impressão do livro, que escrevi no verso das badanas do livro:

               
ANTHERO: AREIA & ÁGUA, UMA LEITURA

Uma bofetada só é bofetada à segunda,
jura o Godard, cuja montagem de margaridas
na escarpa te pareceria uma «prece ensanguentada»,
mas o francês aprovaria essa tua necessidade
de desferires um segundo tiro (não me ocorre
se também pela boca ou de natureza occipital),
suponho que à procura dessa pouca luz, repentina,
que limpasse a iníqua insularidade do mundo
que detectaste na identidade. Abissal

Anthero, esse teu segundo tiro foi o lacre
da tua seriedade, pois demasiados se arrependeram
ao eco do primeiro e tu, «sem desdém ou pena»,
não hesitaste em desenterrar o naufrágio.
Não o adivinhaste aí e conveniente é
que nem sempre consigamos decifrar o futuro,
mas o Armando soube interpretar-te, revivificar
as tuas flores de lótus, e confortar
de forma resplandecente o teu desgaste.

O facto é que nem sempre permanecemos
jovens e de farrapos está a mediana gente
farta. Uma oferenda assim, como a dele,
croma-te memória e versos
e resgata-te da «mentira póstuma»
que é sempre a lúgubre sublimação
nacionalista. O que importa doravante
é como agitas ainda as entranhas humanas,
as suas cismas de prata, e os talheres
do Armando foram destros a separar
meros detritos da carniça sublime.
E graças a ele, aos seus insones pipos
de vinho, entendo agora o teu verbo:
«o cisne deve morrer como cisne».


Ps. Infelizmente perdi o contacto do Armando. Se alguém mo puder facultar agradecia

quinta-feira, 17 de março de 2011

OS CANÁRIOS DE CHERNOBYL/ homenagem a Anthony Quinn


Anthony Quinn foi grande emissário  dos «zês» na Terra: de zampanò a zorba. Por isso criei este papel para ele. 

OS CANÁRIOS DE CHERNOBYL
Naquele Inverno, via-os quase diariamente no ferry. Os dois cegos mais o filho, um rapaz de doze, treze, anos que os guiava. Faziam a ronda dos passageiros pelas cabinas e depois, mesmo que o céu estivesse carregado de nuvens, quedavam-se lá fora, entre a última fila de carros e o castelo da proa, conversando com gestos largos, acenos, numa sarabanda.
Já reparara neles, mas nunca a curiosidade me fizera levantar do lugar para os ir ouvir, apesar da evidente teatralidade que os rodeava. Não no momento de pedir. Aí, como Agatão, o padre do deserto, bochechavam pedras na boca no fito de inibirem a mais curta sílaba, e era o rapaz quem instigava à esmola. Mas, assim que se isolavam, o seu laconismo volvia loquacidade e mesmo à distância era nítido que conversavam bastante, o que a mímica sublinhava.
Nos olhos da senhora, uma quarentona, loura, de uma palidez marmórea, e vagamente parecida com a Faye Dunaway, uma membrana branca velava as íris, que à transparência lembravam luas novas. Os olhos do homem ofereciam pelo seu lado um vislumbre infernal, a varicela que lhe esburacara as faces estendera-se às escleróticas: pareciam bicadas por canários. Por seu turno, o filho, via perfeitamente; era o “canito” deles, como alguém me disse ter ouvido o pai referir-se-lhe.

Naquele dia chovia a potes e o rio esbracejava em vagas largas, que faziam o ferry inclinar-se, ensombrando os olhares. A chuva impedira-os de se isolarem, lá fora. Haviam descido à cabina da popa, que ficava ao nível da água, onde, por isso, se sente com menor incómodo o bater da água no casco.
O homem estava, apesar da cabina estar à pinha, particularmente falador e elevava a sua voz sem embaraços. Dizia ao filho:
- Esta parte do navio é como o rabo grande de uma preta, sente menos os golpes do vento.
- Não há nenhuma preta, por aqui… - Perguntava receosa a mãe, ao filho.
- Não, mãe.
E riam.
- O pai, já viu o rabo de uma preta? - Volveu o rapaz.
- Já apalpei.
Em redor, os risos começaram a ser sufocados.
- Aldra… - Dizia a mãe.
- Então não tenho aquele filho em Angola?
- Dizem, nunca vi
- É natural… - Replicava ele, com bonomia.
A boa disposição alastrava aos restantes passageiros. Atrás de mim, duas velhotas comentavam:
- É bonito ver a boa disposição desta gente!
- Ó mulher, pois não somos todos filhos de Deus?
- Se me contassem não acreditava!
- Hei-de dar-lhes esmola, ainda há bocado passou-me!
Os cegos voltavam à carga:
- Chove mesmo! - Exclamou o homem.
- Eu bem te disse para trazeres a boina.
- Também, a boina, de que é que me servia? Assim livro-me da piolhada!
- Olha o que dizes… - Censurava ela, incomodada.
- Quê, e o miúdo não é ranhoso, não? Então, por que andamos a pedir?
A cabina já ria, solta.
- Acha que volte a estender a lata? – Perguntou o filho.
- Olha, à beira do fim do mundo quem quer ficar com as moedinhas que tem? Vai lá, filho.
Uma nova vaga sacudiu o ferry e encheu de respingos as janelas. As pessoas mantinham-se numa circunspecção que apenas o espectáculo dos cegos amenizava. A colheita foi generosa.
- Vês miúdo… - Dizia o pai, abanando a lata – como nem todas as tempestades são ruins? – E sugeriu, continuando a abanar a lata - Olha filho, dança!
Chocalhava a lata e o miúdo agitava-se numa simulação de sapateado, que a mãe acompanhava com as mãos.
- Isso filho… - Instigava o pai – que foi a última coisa que vi, um filme com o Fred Astaire.
O navio abrandou e começou a procurar a corrente favorável à atracagem. E as pessoas recolheram ao silêncio, na expectativa da chegada.
Uma senhora levantou do chão um saco de papel grande, de oferta, que colocou entre as pernas e neste acto o saco rangeu.
- Vi sacos destes em Guimarães… - Disse o homem, perguntando ao miúdo – É da Zara?
- É sim, pai?
- E de que cor é? Verde?
O miúdo olhou o saco vermelho e respondeu:
- É amarelo! 
 
A Primavera chegou. Estive um mês em Milão, numa reportagem que me fez perceber como na estranja opulenta há bolsas sujeitas a muito açoite, nos desvãos da miséria. E voltei a frequentar o ferry.
Saía combalido da casa de banho do navio para onde me atirara a açorda de marisco da véspera, e procurava poiso quando os vi, pela janela: os cegos dobravam uma carrinha diesel rumo ao seu poiso habitual, esgotada a ronda. O incómodo das tripas não me puxava a sentar-me e acicatado pela curiosidade resolvi aproximar-me deles, seguir-lhes o fio da conversa.
O céu estava limpo, mas o ar soltava-se em rajadas que fustigava os cabelos. Suportavam-nas como se estivessem na primeira fila de uma peça de teatro que há anos desejassem assistir.
- Este vento está frio… - Queixava-se ela.
- Enrija… - Dizia o homem.
- O teu pai sempre gostou do vento? – Explica ela, ao filho.
- É verdade filho, sabes porquê, são os canários de Chernobyl…
- Que é isso, pai?
- Espera… que vem ali à esquerda? - Apontava para lá da proa, para um grande petroleiro que avança ronceiro, a 30 metros do ferry.
- É um cargueiro.
- Tens a certeza?
- Sim… - Repetia o rapaz.
- Está pintado de quê, vermelho?
O petroleiro tinha uma banda vermelha ao longo do casco, como se fosse um cinto.
- É azul…- Garantia o adolescente, dirigindo-me um sorriso matreiro – Mas porquê canários de Chernobyl?
- Daquele desastre nuclear lá na Rússia, não te lembras? Na central nuclear. Todos os canários da região perderam a voz, desde aí só sopram.
- Aldra! – Retorquia o rapaz.
- Estou-te a dizer filho! 
- O pai diz sempre essas coisas!
- Um pai nunca mente a um filho.
- Isso é, se não for cego!
- Ninguém é cego filho, não há aqui ninguém cego!
- Pois não! – Repetia sardónico o rapaz.
- Pois não… - Sublinhava o Pai – simplesmente, nós vivemos num mundo em que Deus não olhas as coisas como são mas como eram. Por isso é que para Deus é sempre Verão.
- O teu pai sabe… - Reforçava a mãe.
A sirene do petroleiro vermelho troou, quebrando o crocito das gaivotas.

OS SACRIFÍCIOS DA PATERNIDADE

moisés, o árduo desempenho de ser pai
É terrível a provação que me espera esta manhã: conviver com os mais pais da creche da Jade. Ainda por cima mete jogatana de futebol. A esta hora fui incluído numa equipa dum torneio qualquer. Esta gente não convive sem umas caneladas ululantes e incentivadas pela excitação dos filhos. Não se pode conviver em torno de umas castanhas e uma água-pé, enquanto se recitam os poemas de amor do antigo Egipto? Se fosse na minha cidade ainda nos poderíamos entreolhar, avaliando o que o tempo tinha feito à estampa de cada um - olha-me o camafeu em que aquela se tornou, meu deus como ele era bonito e o estrago em que ficou. Mas a dez mil quilómetros, sem ter partilhado a infância com nenhuma destas criaturas, só me resta ser avançado centro. Será que lhes conseguirei contar a minha velha aspiração de ser o melhor suplente do mundo? De ser contratado pelo Real Madrid e lá fazer carreira, sempre convocado mas sem nunca sair do banco - até ser classificado como o melhor suplente do mundo? Vamos lá a ver se consigo contar-lhes a história antes da constituição das equipas. E que em alternativa ao futebol não me coloquem nalgum torneio de xadrez! Seria uma vergonha para a Jade. Nunca ganhei um jogo de xadrez na vida, até a minha mãe, perdida de sono, me ganhava. Uma vez estive com dois peões de avanço e um bispo e ao cabo de meia-hora de dolorosa espera propus ao meu adversário: se quiseres levas o tabuleiro para a cama, gizas a jogada e amanhã retomamos. E replica-me ele: não pá, és tu a jogar! E fiquei tão atrapalhado com a minha desatenção que perdi logo em quatro lances. Pior então é no ténis, o ténis é uma modalidade para tipos muito supersticiosos, eu acho. É a única coisa que explica a graça de um jogo em que um jogador pretende dar a bola ao adversário e este tem a invariável indelicadeza de a devolver. Ao menos no futebol tenta-se tirar a bola ao outro, no ténis não, eu passo a bola ao meu adversário que malcriadamente a rejeita, como se estivesse amaldiçoada.
O meu gato espreita o teclado por cima do meu ombro, parece concordar com tudo o que eu digo. Hoje vai ser uma manhã terrível – se sobreviver dou-vos sinal.
A única coisa boa desta manhã é que ao regressar, moribundo está claro, já devo ter Internet à la carte e à la maison.