quinta-feira, 16 de junho de 2011

A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS


Em 2008, como treino e preparação para o romance, que tem um fôlego e especificidades muito diferentes do conto, que tem sido a minha área, escrevi uma novela pícara e com laivos de pantagruelismo.
Como personagem escolhi o João de Deus, o alter-ego de João César Monteiro ou vice-versa, com o atrevimento que me apraz.
Era um exercício para me exercitar na extensão e no detalhe que o romance subentende, mas no qual me diverti como um bruto. 
Passei depois a novela a três amigos, todos escritores. Com a generosidade dos amigos, eles vaticinaram-me um êxito estonteante.
O que evidentemente foi desmentido pelos editores, 4, para quem enviei o livro. Ou silenciaram absolutamente, ou ternamente responderam numa linha dizendo que eu estava doido. Não tive nenhuma reacção séria, técnica, ao livro.
Por isso, como eu próprio não o levo muito a sério, decidi publicá-lo no blogue, um capítulo por semana. O próximo capítulo será postado no próximo domingo.
Como justificação para os editores escrevi então:

«Numa contabilidade rápida, o cinema novo português deu poucas personagens. Talvez o Belarmino; Vanda, a eterna viúva de O Passado e o Presente, Kilas, o inspector interpretado pelo Nicolau Breyner, em Os Imortais… e, definitivamente, João de Deus, esse alter-ego de João César Monteiro.
Agradava-me em João de Deus uma liberdade objectiva: é a última personagem portuguesa desempoeirada e liberta das suas circunstâncias, ou antes, aquém e além delas, simultaneamente, um desses raros que são sempre maiores que a situação, como Charlot e os pícaros do século XVII ibérico; criaturas desataviadas de psicologia. Suspeito que - na entorpecida condição in between que se tornou a de Portugal - João de Deus terá sido o último dos portugueses livres.
Cansava-me, em João de Deus, o mesmo que, nele, me exultava. A mais brutal obscenidade antecedia uma cosmologia, o chiste inconsequente, no desfrute de um sorvete, iluminava o fulcro onde os segredos do mundo se articulavam e expunham.
Era um místico infiltrado a fundo por Dada.
E agradava-me, sobretudo, que a locução de João de Deus juntasse Camões e Pound, Antero e Pessoa, Mozart e os surrealistas, a derrisão e o riso, os jograis e Piero de La Francesca, num mesmo novelo. De igual modo, nele (João de Deus/César Monteiro), o sagrado e o profano, o riso e o sério, o sexo e a morte, o erotismo e a pornografia, o vernáculo e o ornato da linguagem, a vida e a literatura eram indiscerníveis: o desafio, nesta tarefa, era mimetizar semelhante “orquestra barroca” em andamento, tendo sempre o humor como filtro.   
Que esta biografia paródica de João de Deus, antes de começar a filmar com o César Monteiro e depois (o resto é público), divirta é tudo o que se pretende. E por força maior, homenagear o seu criador: um cineasta que escrevia como poucos escritores e ciente de que a arte rompe conveniências (sejam quais forem) e exige atrevimento. »

Quem viu a trilogia em torno do João de Deus sabe que para além de um aparatoso des-metafísico, o sacrista é um obsessivo coleccionador de pêlos púbicos. Que admira pois que seja por aí que tudo comece?



A PAIXÃO SEGUNDO JOÃO DE DEUS

AS REALIDADES
Era uma vez uma realidade
com as suas ovelhas de lã real
a filha do rei passou por ali
e as ovelhas baliam que linda ai que linda está
a re a re a realidade
Era uma vez noite de breu
e uma realidade que sofria de insónia
então chegava a fada madrinha
e placidamente levava-a pela mão
a re a re a realidade
No trono estava uma vez
um velho rei que muito se aborrecia
e pela noite perdia o seu manto
e por rainha puseram-lhe ao lado
a re a re a realidade
CAUDA: dade dade a reali
dade dade a realidade
A real a real
idade idade dá a reali
ali
a re a realidade
era uma vez a REALIDADE.

Aragon

Quando todos os cálculos complicados se revelam falsos, quando os próprios filósofos nada mais têm para nos dizer, desculpável é que nos viremos para a garrulice fortuita dos pássaros ou para o longínquo contrapeso dos astros.

M.Yourcenar
Memórias de Adriano

1
Átrio

Numa amolecida manhã de domingo de 2004, de malas já aviadas para o Báltico, flanava pela Baixa. Despedia-me dos lugares e murmúrios de meia vida; esquecido de ser lince, diluído no branco imponderável do Verão; sonâmbulo, sem pressa ou rumo.
Desperta-me, algures, a repetida ladainha dum realejo. O anacronismo arrastou-me até à esquina da Rua da Prata com a dos Retroseiros. Aí, um homem magro, meio encurvado, narigudo, de óculos escuros e face escalavrada, dava à manivela num realejo velho poisado sobre uma caixa de electricidade, ao mesmo tempo que, quase em surdina, recitava algo. Apurei o ouvido: era A Tabacaria, de Pessoa. Aos pés, no forro do boné, rebrilhavam moedas. Não abalei, senão à terceira reprise do poema, declamado em sessões contínuas. Algo me incomodava na figura.
No dia seguinte, volto à Baixa para visitar o meu amigo Stephan, cujo atelier fica num quinto andar da Rua do Carmo, e ao entrar no átrio do prédio cumprimento o porteiro, sentado na secretária que se dispõe para lá da caixa dos elevadores. As duas metades da porta do ascensor convergem lentamente para o centro, e, na nesga final, sou atravessado por um raio: o porteiro era, em lavado, o homem que vira no dia anterior com o realejo.
À descida, de propósito, pedi-lhe lume: era ele. Não somente o homem do realejo como a alma gémea de João de Deus. Saio apardalado.
No domingo seguinte (o meu último domingo em Lisboa) voltei à esquina da Rua da Prata com a dos Retroseiros. Lá estava ele, em realejo. Ouço o poema e deixo duas moedas no boné.
Volto na segunda ao átrio do prédio, na Rua do Carmo, e aí não estou com meias medidas, estendo uma fotografia de João de Deus ao porteiro, pedindo-lhe um autógrafo.
Ele fica encabulado e sussurra:
Como me descobriu?
Basta olhar para si… - afianço eu, espantado – Pensava-o morto.
Cita-me Pessoa:
Morrer é não ser visto…
Insisto com ele durante quatro dias para me deixar entrevistá-lo, explicando-lhe que, de abalada, não posso adiar as premências. Por fim cede. Passamos em claro as noites de quarta, quinta e sexta, eu, ele, as suas baforadas e fantasmas, e o gravador. Na madrugada de sexta desentendemo-nos, gravemente. No sábado apanhei o avião para Vilnius, capital da Lituânia..
Este é o relato circunspecto que resultou dessa entrevista.
Duas semanas depois de ter partido, contou-me o Stephan, o porteiro deixou de aparecer ao serviço e nunca mais foi visto. 
    
2
INCIPIT



1

Como lastima o Steiner, será sobrinho do renomado fabricante de ascensores que fez fortuna em Viena de Áustria?, incipit, a orgulhosa e florescente palavra latina que designava o Início, degenerou em Incipiente, desprimor contra a qual travarei combate, à dentada se tanto me for exigido. E que, com sanha e esmero, se grife a voz na retina do leitor, percuciente, verdadeira, pinchada de sangue – está dito, adoro cabidela -, ainda que se lhe misturem duas gotas de groselha. Está a gravar?
No início, as verdades são simples, ou podem não sê-lo: quem pisa a flor da abóbora não lhe provará a sopa. Do que decorre não ser verdade que só a inocência ou a ignorância sejam felizes. Espreitemos the dark side of the moon. Os indícios, são a pontapé na Cabala: Deus conhece de cor o número de pêlos e cabelos de cada um. Na origem, a observação do dano posterior já é incipiente. Mas, na origem, é como nos distingue, é o código de barras que nos coube em lotaria. Picuinhas, l’emmerdeur. Quando se rumina a cifra do infinito, para quê voltar a contar pelos dedos? Que vantagem se tira em entrar e sair de casa pela janela das traseiras? Daí que os Yoruba, que não dormem em serviço, abominem esse deus do inconsciente que habita os sonhos e a quem atribuem a demoníaca capacidade de contar. O maior desejo deles é não serem contados, não fazer parte da renda púbica. Eis donde me vem o impulso de roubar às criaturas que momentaneamente actuam na minha arena amorosa a mais irrelevante prova do recôndito: fanando-lhes um pêlo púbico danifico-Lhe o código de barras. E o meu nome não é obra do acaso – eu sou a sombra que poupa muitos ao juízo patriarcal, pois, eis a fraqueza do Altíssimo, só se aplica a saber de cor aquele que não tem tempo para a averiguação final.
Continuando, sem mais delongas ou centavos freudianos, foi ao balcão do quiosque dos jornais, no Príncipe Real, que encetei a minha colecção de pentelhos.
Ao tempo, que remonta ao lá vai alho, repontava naquele balcão uma jovem oxigenada de olhos cor de oliva, lábios violeta e peitos fluorescentes. Diariamente, eu ensaiava com ela alguns ditos brejeiros, aos quais escoiceava antes de se pôr a grazinar, suspirando como uma porta entornada. Adoro esta imagem, que catei no poeta Ángel Crespo, e que prazenteiramente escolheria para epitáfio: João de Deus, a porta entornada.
Abreviando, um dia, vesti uma camisinha branca com um Miró estampado no bolso, reforcei de borsalino, e subi a Rua do Século encrespando a voz num havana.
Em vendo-me chegar a sonsa fez-se de fingida, para eu a mimar com um piropo:
De mais nenhuma senhora estou queixoso, que de sua genitália; umbral que só ao círio apagado de Deus está reservado…
Ai, sr. João de Deus, é tão maroto…
Aí está uma palavra em desuso, como andrajos…
O que vai ser hoje?
O olhar dela, de lúbrico, acenderia toda as velas da igreja de S. Roque. Num impulso, passei-lhe o chocolate que trazia no bolso e, imperativo, no timbre que o Mason me roubou, pedi:
Esfrega-o.
Nem hesitou. Rebrilharam-lhe os dentes (confirmei-o depois: estrelavam assim que a rata dela virava paul, aí está uma metamorfose que o Ovidio não previu), subiu a saia plissada, meteu-o na cuequinha, como fazem hoje muitas com os telemóveis, e esfregou-o na crica. Bom, primeiro tirou-lhe a prata.
O chocolate, reservado para uma mousse, tinha uma semana de frigo, e estava rijo. Ela esfregou-o com ganas no tépido rincão; nem quando chegou um sexagenário distraído e gaguejou «O Co-co-mércio do Porto, faz-z favô…» ela abandonou a manobra. Dissimulou, um olho na tablete, outro no imprevisto, aviou o cliente (profissionalismo deste já não há!) e continuou o ruge-ruge.
Ia desfalecendo quando as narinas aspiraram o cheiro que se exalava da esfrega, imagine uma essência galante com um assobio de chocolate e outro de marisco. Ela revirava os olhos e cruza a rua o Agostinho da Silva. Cumprimentei-o de longe, apontando-a:
«Mestre, uma portuguesa desatada…».
O meu enlevo, ao inspirar a fragrância da tablete amolecida, antes de a voltar a encamisar na prata, não vem ao caso porque aquele era aroma edénico que remontava ao primeiro homem. Nem lhe agradeci, o que é genésico não é para agradecer.
Está ali, naquela moldura. Entre as 11h30 e as 11h35, incidindo-lhe o sol em 68 grados, vê-se a mancha do chocolate. 

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A GRANDE ONDA

de Hokusai, para ser lida ao som de Vox Balanae, de George Crumb
                                                                                                   
                                              para o Rui Lopes Graça e o João Lucas


1

Incrustada em deus
como a bainha da sombra no meu passo
                                    ou a canoa
na água que a deflagra.

O espelho deserta da tua face,
                             palpa
no declive d’água
a agoniada extensão da luz.

Rema, o teu braço é o veio
movente do teu corpo -
                                       a porta
de que só deus tem a chave.

Livra-te de que ele a abra!
                                Rema!


2

Que tumulto me atou
veia a veia
                  ao bordejar do Índico?
Suspenso pelos ganchos da transparência
        que me vincam na carne
               os amiúdes passos em falso,
remo.

Há quem cante,      que alívio
saber que há quem           
resgate da cinza
                          o cisne.

Rema! Rema!
Segue a luz que s´enrola
                 para dentro: talvez a onda
         volte à nascente,
pelo âmago da corrente,
aí onde o ouro
desemboca do fundo.


3

Há flautas na água?
Claro que há flautas na água!
E ouvem-se as gaivotas,
               mungidas
pela lembrança dos roseirais.

Mas quem selou o sonho,
                 um lugar
     que anilhou nos pés
     a onda      perfurada de visões?

É ainda ele, no tanto que perdeu?

Não percas o ritmo!
Dança,
             sentado no banco,
deixa que as tuas pernas paralelas pulsem
e convirjam no esquecimento
      da onda:
                    vê e apressa-te,
o que sobe desce,
no oco da flauta já ressoa a timbila,
dança com o teu remo veloz!

Isso, contagia a luz!


4

Incinera-se dentro de ti
                   a onda,
         é já um toro de madeira
exposto ao ígneo vendaval
                  da memória.

Rema,
antes que se esvaia,
o teu ponto de ancoragem:
só no seu desenho
        se esvanece
a férrea moldura do presente:

do modo febril que a árvore
perscruta na mínima fímbria
de ar
          sinal da ave,
                                  ausente.
rema e rema, dança e rema.

Isso, contagia a lua!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

COMO DEIXAR DE RESPIRAR PELAS PALAVRAS

vieira da silva. o amigo dá licença que detalhe?

                           («Quando um indivíduo perde contacto com o universo mítico, encontrando-se a sua existência reduzida ao domínio dos factos, a sua saúde mental encontra-se em grande perigo», Jung)
A literatura é um «fazer-mundo» e não um mero patamar para o entretenimento.
Por isso Gabriela Llansol não é ensinada nas escolas. Não é possível fazê-lo. Não é possível dar aulas sobre Herberto Helder, ou sobre o Fluxo-Floema de Hilda Hilst. A dificuldade de pegar em António Ramos Rosa ou em Vicente Franz Cecim decorre de serem autores que abrem janelas para «outra realidade», e segui-los obriga a um gaguejar. Que professor de literatura admite o atrito nos seus patins? Não há aporias para o professor de literatura, que amêndoa todas as palavras na sua língua até ficarem inteligíveis.
Daí que nas festas da Comunidade Portuguesa, no dia 10 de Junho, pelo mundo, se continuem a VOMITAR poemas de Régio e Torga, de Sophia e de Jorge de Sena. Coitada da Sophia, que odiaria que em seu nome silenciassem a sua filha, Maria Andresen, excelente poeta, mas que coitada sofre do crime de só ter começado a editar há dez anos. E o Sena não tem culpa de ser misturado entre o Fado da Canoa e as danças de salão pelos representantes de um povo que não o respeitou nem entendeu em vida e a quem ele devidamente azucrinou em O Reino da Estupidez. Mas como os responsáveis das festas do 10 de Junho não o leram… continuam a abusar-lhe da paciência.
Vem isto a propósito de como me subiu a mostarda ao nariz quando uma amiga, inocentemente, me perguntou, visto que eu escrevia com facilidade (outra ilusão a fustigar um dia destes), porque é que eu não escrevia “adaptações de clássicos”.
Primeiro ter de explicar que não se macaqueia o Dickens, o Homero ou a Agustina Bessa Luís, é um cansaço.
O que nos separa, a mim e à minha amiga, é um defeito de geração. Ela é séria, amiga, boa professora e uma leitora atenta, mas já cresceu numa geração em que a literatura não é uma vaca sagrada mas apenas um modo de contar histórias. Enquanto para mim é absolutamente e ainda uma vaca sagrada, um modo de respirar, uma gnoseologia. Uma vaca sagrada entrega-se à brincadeira como nenhuma outra – mas nessa brincadeira está em auto-reflexão e não em lassidão auto-complacente.
 Hesito entre os filósofos que, como Leibniz, diziam que deus está no detalhe, e os que prescrevem que é a arte que está no detalhe. Ou antes, hesitava: agora escolho o detalhe.
A arte de Dickens, Homero ou Agustina está no detalhe, no desenho da tubulação em que conectam derivação e mito. É aí que se tornam trans e paradoxalmente se distinguem uns dos outros. O resto é a trama, a anedota – cuja suficiência, embora não pareça, não faz a literatura, tal como no cinema uma boa história não garante um bom filme.
Como é que se faz uma adaptação? Metendo a plaina no veio, matando o pormenor, o devaneio, para restituir intacta, num terço das páginas, o fio da trama.
Ademais, a literatura não é uma lotaria de sinónimos, mas aquilo a que Gadamer chamava, ironicamente, «a palavra conformada», para sublinhar que uma conformação desenvolve a sua própria forma, que emana de dentro e se apresenta (no texto, no poema) como ela mesmo e só ela mesmo, o que está no oposto da construção, que se faz de fora para dentro, consoante um plano, pelo que é indiferente usar um tijolo ou outro.
Experimente-se mudar um sinónimo numa novela de Raduan Nassar, num livro de Borges Coelho. A frase desmancha-se, só existia em função dessa formulação, como na antiga proporção áurea. Já é indiferente num best-seller. Pode-se pegar na informação contida numa página de Dan Brown e mudar tudo, tanto fazia escrever assim ou assado. Uma vez fiz este exercício numa sala de aula de português com um livro da Colecção Uma Aventura, de Isabel Alçada… Reescrevi completamente a primeira página do livro. E no fim perguntei à professora de português, que estava presente, como é que ela esperava transportar os alunos para o entusiasmo da língua apoiando-se em livros onde a narração se serve de palavras absolutamente desmotivadas, tão desmotivadas que todas se podem substituir por sinónimos. Nunca mais fui convidado para falar de literatura nas escolas, enquanto a Isabel Alçada continua no currículo das escolas portuguesas. Pior: a Isabel Alçada continua a ser responsável (ou era-o antes de ser ministra) pelos livros que entram ou não no Plano Nacional de Leitura. Talvez me falte ambição para ser ministro…   
 Mas continuando, bem sei que existem pilhas, colecções de resumos, de adaptações, que há editoras que vivem disso – e as escolas promovem-nas, sem que haja um professor que venha à boca de cena explicar que, primeiro é desonesto, e que, segundo, a única vantagem em ler os resumos de As Metamorfoses de Ovídio é a de deixar de respirar pelas palavras.
E esta não é uma matéria de opinião.
Deixar de respirar pelas palavras pode ser uma forma de entrar no princípio da realidade mas paralelamente mata a ciência com que a literatura nos obriga a respirar em todos os elementos, mediante o detalhado escafandro das palavras. Porque a literatura, meus queridos professores de português, não é o guarda-chuva mas o dilúvio.



sexta-feira, 10 de junho de 2011

Entusiasmo ao domicilio

Está decidido. Se conseguir arranjar uma alternativa – e será o trabalho dos próximos 2 meses – não darei mais aulas. Por desmotivação absoluta. É algo que adoro fazer – e que a avaliar pela reacção dos alunos em várias disciplinas, escolas e cursos, não faço mal. Eu é que estou demasiado impaciente.
Quando se dá aulas na universidade, o sonho secreto é ver crescer um pequeno grupo de alunos, que o debate com eles potencie a vivacidade de um pensamento que se torna pensante, no avesso da maioria que age como um banco de corais a branquear por entre caudas de tubarão. Que as suas dúvidas e questões nos ajudem a melhorar, e nos aportem ao inesperado.
Um bom professor quer ser interpelado, desafiado, deixado a gaguejar numa clareira nova da floresta; surpreendido pelo rasto incandescente de novas aporias. E para isso necessita de ter alunos para quem o saber, uma fome de saber, é mais importante que a formalização do canudo.
Não me tem calhado. Nem leitores, nem jovens capazes de converterem uma curiosidade emergente numa paixão que sidera; nem quem ame a linguagem ou o conhecimento acima do estritamente suficiente para se distinguir dum frigorífico. Rigorosamente nada. Tanto azar cansa.
Para além disso, quando cheguei a Moçambique os alunos que apresentassem um trabalho picado da net conhecia uma penalização. Hoje 95% dos trabalhos são “copy/paste”, puro simulacro. Na maior parte dos casos, nem sequer aproveitaram para ler a informação que desviaram. Estudam por delegação.
É o novo estado das coisas: formam-se doutores por delegação. Se fossem cirurgiões confundiam o fígado com o pâncreas, e se engenheiros uma empena com o reumático do avô. E esta crosta de mentiras está instalada em nome dos Objectivos do Milénio.
A mim é que custa cada vez mais preparar aulas para alunos obscenamente desinteressados e que estão convencidos que quando precisam vão à net. Como se a cognição fosse uma dentadura postiça e a aprendizagem não exigisse que de antemão se aprenda a aprender, uma impregnação. Mas que fazer se já ouvi a Mamã Graça (como é aqui chamada a viúva de Samora Machel e actual esposa de Nelson Mandela) afirmar preto no branco que daqui a 50 anos África vai estar na crista do desenvolvimento mundial porque hoje todo o conhecimento se encontra na net, era só ir buscá-lo. E como relatar a minha dor ao ver um auditório de professores, reitores e alunos a bater palmas, ululantes, em capciosa decapitação? Como é que não entendem que há um fosso entre saber carregar num botão para activar a máquina de lavar roupa e saber desmontá-la e montá-la de novo?
Aterrei em Maputo com a vontade de ser útil. Mas que fazer se a minha utilidade é considerada supérflua e sobretudo se o saber não é considerado um tablado para a alegria? Tenho de ir pregar a alegria para outras freguesias. O santo António alegrava os náufragos, ressuscitava-os. Eu, se as minhas filhas me perguntarem, a que tipo de peixes pregas tu, não saberei responder. Só sei que são tristes e engravatados desde a alma, só sei que vivem por delegação, estudam por delegação, amam por delegação, que só se entregam a sonhos de penhora (o que eles se pelam pelo crédito bancário), ou à clorofila do Partido (um credito delegado), e que não amam nem a filosofia nem a natureza. Os carros sim, uma boa bomba, ó la lá.
Ainda por cima se ganha tão pouco! C’est fini, c’est Capri! Pelo menos nesta modalidade de alugar o conhecimento para gente sem um tostão de brilho no olhar. Propus no Camões e eles aceitaram um Curso Livre de Filosofia e Arte, dos gregos até a actualidade, para ser dado em vários módulos. Estou entusiasmadíssimo. Ali só se inscreverá quem de facto queira ser intoxicado.
Sinto-me como o Lino Ventura, que após anos de uma batalha judicial nos órgãos competentes, voltou a ter uma erecção.  
  

VOLTA AL BERTO, ‘TÁS PERDOADO!


Hoje sonhei toda a noite com o Al Berto. Acordei cheio de saudades dele. Por isso ponho em baixo o texto que publiquei numa Phala da Assirio & Alvim quando ele morreu:
«Não éramos ainda animais de relutância. Eu teria 18 anos e o Alberto 29 quando deglutimos os primeiros canecos. O Al Berto regressado da Bélgica, onde trocou os pincéis pelo estilógrafo, eu trasladado de uma adolescência turva, que me deixou mais próximo da adivinhação pelos búzios do que de qualquer outro enlace viável.
O Al Berto acabara de editar o seu À procura do Vento num Jardim de Agosto, O Retrato de Homem Faca, do Tony Duvert, e o Demasiadamente Belos para Quem Só Não Queria Estar Só, do Sérgio... (que o autor me perdoe, esqueci o apelido), um livro ousadíssimo para a época e que eu me esforçava por distribuir, apesar da facilidade com que se incendiavam as pestanas dos livreiros quando deparavam, no miolo do livro, com fotografias de efebos nus, contra ou num sulco entre dunas – que iluminavam toda a matéria do devaneio.
Um ano depois e milhares de canecos repartidos o Al Berto editou o Meu Fruto de Morder Todas as Horas e, simultaneamente, o meu atentado lírico, um longo poema com anjos pululantes e vingadores no título. A festa de lançamento, na saudosa Opinião, foi naturalmente conjunta. E foi de arromba. Eu fiquei de borco rapidamente e um cínico de dedos compridos e melados aproveitou e papou-me a miúda. Aprendi aí que as mais duras traições são as domiciliárias – ou tinham-me os deuses visto tão próximo da glória lírica que, no seu arcaico sistema de roldanas, se decidiram pelas compensações? Durante anos o Al Berto não soube porque fazia eu do lençol uma mortalha quando me conhecera tão atilado nos amores. Nunca lhe disse – e como se logo no título me dera por anjinho, se ele era o editor? – que me vingava do primeiro livro.
Um ano depois de começar a privar com o Al Berto tive outro dos “coup de foudre” da minha vida: conheci o Guilherme Ismael no Escola de Cinema. Sem saber ainda que na Bélgica ele e o Al Berto haviam escrito a quatro mãos sobre a epopeia de Ícaro: um pára-quedista descobre, em queda livre, que certos cordéis são um atalho para a alma. Que pensa, quantos sedimentos levanta sob a laje do medo este desalentado Ícaro, antes de se estatelar no chão? Um manuscrito que nunca li, mas que sei existir.
Eu e o Guilherme empreendemos uma média metragem: argumento meu, produção e fotografia do Manuel Costa e Silva, realização dele. Local da rodagem? Obrigatoriamente a quinta do Al Berto em Sines.
Era a história de um escritor febril que se fechava numa mansão para escrever uma novela enquanto as suas personagens vinham de longe (da Patagónia?) para o matar. A generosidade do Al Berto aturou uma equipa de rodagem em casa enquanto a ponta do seu indicador premia a Nikon. Eu e o António Pinto Ribeiro (que hoje teoriza sobre o estado abúlico das cadeiras) éramos os actores (eu mudo e quedo e calado) e o Al Berto aparecia numa cena ao espelho, como um duplo, um reflexo alucinado do escritor.
O Guilherme Ismael foi trabalhar para a BBC e o filme, já montado, a que faltava acrescentar simplesmente dez minutos de música, foi depositado no Centro Português de Cinema, durante um ano, até às primeiras férias do Guilherme. No regresso este constatou que as latas tinham sido abertas e o filme utilizado como pontas de montagem. A barbárie havia feito das suas e cortado as pernas ao duende Al Berto, mesmo por detrás do espelho.
Entretanto, num intervalo da rodagem, com a desopilação que dá a embriaguez, resolvi dar um bigode ao narcisismo de Pinto Ribeiro. Passeei nu pelos quartos, em poses, e fui deitar-me nos tapetes de azedas que rodeavam a casa enquanto o Al Berto me tirava fotografias. Tínhamos combinado um portfolio que enviaríamos para Hollywod, com os dizeres na capa: «Um De Niro das Torcatas Procura Melodramas Solteiros». Só depois do vexame e de outra garrafa vertida o Al Berto me disse que não tinha rolo na máquina. E assim perdi uma carreira.
Nunca gostei da prosa do Al Berto. Aquilo sempre me pareceu um sofá com cornucópias. A publicação de Lunário separou-nos. Quando crescemos afiando os lápis na mesma sala a sinceridade é uma faca de dois gumes, que às vezes enferruja no sangue. Ou seja: já não nos podíamos ver e afastámo-nos.
Em 93 fartei-me do cinema e do teatro e decidi voltar à escrita, publicando um livro de contos, Cegueira de Rios. Há muito que não falávamos e eu, que causticara os títulos que se seguiram a O Medo, nem sequer lhe mandei o livro. Abro o rádio e acidentalmente ouço-o referir-se elogiosamente ao dito. Fiquei boquiaberto e percebi então que o bicho generoso e de lealdades que eu conhecera se mantinha. E senti-me mesquinho, grotesco, um cretino – que importância tem a literatura? Entendi a lição.
Havia um vício que em dias de alta voltagem engrenávamos à mesa. Um contava uma história, uma graça, uma adivinha, e o outro tinha de replicar, inventando outra. Lembro-me desta: «Um homem debruça-se no rio e coloca uma anilha no seu reflexo. Quem responde ao chamamento?», e desta outra: «Um alcião engana-se na rota e vai ter ao Mar Morto. Onde pôr o ovo?».
E conto-te esta, meu caro Al Berto: Hoje, no meio da redacção deste texto, numa esplanada da Avenida da Liberdade, veio uma cigana interromper-me, cravar-me. Tinha numa mão um papelinho onde se identificava como originária da Bósnia e mãe e viúva. Eu não admitia dar-lhe mais de duzentos paus mas como me apetecia retê-la contei-lhe – em inglês, francês, portunhol -  detalhadamente como se cultiva uma Árvore do Conhecimento. Tu sabes: pega-se num vaso e enterra-se um gato persa. Rega-se com vinho – pode ser do barato – e borrifa-se com sangue de codorniz. Lê-se, ao vaso, durante uma hora, todos os dias, As Mil e Uma Noites. Ao fim disto, o Conhecimento há-de chegar porque a terra perdoa.
Ela esboçou um sorriso e antes que eu reagisse (estava virado de cabeça para trás a pedir uma caneca) fanou-me a milena que eu tinha em cima da mesa. Eu já lhe perdoei, perdoa tu também.»

segunda-feira, 6 de junho de 2011

BANDEIRINHAS, HINOS E PRECEITOS



Ontem, depois das eleições terem demonstrado que quem ganhou foi a abstenção, tivemos o discurso de vitória do candidato do PSD, Pedro Passos Coelho, e aconteceu aí algo que me pareceu sinistro.
Gritou-se, Portugal, Portugal, seguiu-se uma espécie de congelamento temporal e de repente, de forma uníssona, como se tivesse sido ensaiado, toda a gente desatou a cantar o Hino nacional com a forma mui respeitosa com que um peão admira de esguelha o Rei no tabuleiro de xadrez e, antes mesmo de pensar no que há a fazer, já estica o peito para a condecoração.
Não me lembro de nas últimas décadas ter assistido a uma bacoquice assim. Para mais indevida, a vitória era do PSD, um partido, e não era ainda um acontecimento de Estado. Apropriaram-se do Hino, como se houvesse uma simbiose entre a Nação e o Partido.
Toda esta retórica antiga, pesada, anacrónica, me assusta porque me remonta à Mocidade Portuguesa e aos rituais que felizmente não cumpri. Tinha acabado de escrever que me deixava apreensivo o hieratismo de Passos Coelho mas não esperava sentir que se regressava aos tempos antigos.
Preocupa-me o país essencialmente porque me preocupam as pessoas, em primeiro lugar, depois o futuro dos meus filhos em segundo lugar, e em terceiro o futuro da língua – se, afinal, voltamos aos procedimentos que, pelo uso intensivo e abusivo dos símbolos, ancilosam a articulação desejável entre linguagem e pensamento.
Cantar o Hino nacional, num festejo partidário, equivale a antecipar uma unanimidade antes de ser merecida, e esta arrogância é arrepiante. Esta arrogância é a de quem se sente capaz de fazer tudo para manter o país na ordem, a consciência no redil.
Para além disso, a promessa de cortar a eito nos Ministérios, reduzindo-os a 10, para cortar nas despesas do Estado, parece-me resultar de uma lógica redutora que julga ter no x-acto a sua panaceia milagrosa.
Esperemos para ver: se nesses dez Ministérios, um for dedicado à Ciência - à sua educação, divulgação e investigação - e outro à Cultura, então sim, teremos uma visão de futuro. Se a Ciência e a Cultura não tiverem direito a Ministério, é de temer os anos que aí vêm e isso será sinal de que a demagogia e a propaganda vão avançar noutras direcções mais perigosas.
Sou o primeiro a esperar ansiosamente que o Passos Coelho me surpreenda positivamente.
Uma última pergunta: o Louçã, como o Sócrates, não devia apresentar a sua demissão, ou continuaremos a aturar os seus esgares até à extinção final do BE?

domingo, 5 de junho de 2011

AGÊNCIA BARATA: AS ELEIÇÕES, PESSOA E A POLÍTICA

barldaya
São hoje as eleições legislativas em Portugal. Algo de facto tem de mudar, mas teria de ser de cabo a rabo, e a democracia parlamentar (lamento, mas não concebo outro regime melhor) precisa de ser reinventada. Julgo que é o tempo para assumir de novo a política como uma festa e fugir dos que falam em desígnios e simultaneamente a abraçam como o exercício «do que tem de ser».
Chega de cinismo e de pragmatismo.
Assustam-me a seriedade de Passos Coelho (o homem nem dançar sabe, tem um hieratismo inconcebível), a ratice de Sócrates, os esgares de Louçã, o populismo de Portas – e diante de Jerónimo fico tomado de compaixão.
Aproveito o dia das eleições em Portugal – e felicito desde já os vencidos e dou os
pêsames aos vencedores, que serão os vencidos de amanhã, para falar um pouco da visão que Pessoa tinha da democracia e da política; e sugiro que talvez fosse útil reler os escritos políticos de Pessoa, muito para além da sua controvérsia e das suas ingenuidades epocais (na sua altura, aos olhos da altura, seria desculpável aceitar “uma tirania momentânea” em nome dos fins e da boa consciência revolucionária; hoje, depois da perspectiva histórica do século XX, a ideia é abominável):
 

Muitas discussões têm levantado o itinerário político do F. Pessoa.
De antemão, tenhamos sempre presente esta advertência do próprio: «não se deve cair no erro pragmático de misturar o Útil e o Verdadeiro (…) O erro político fundamental tem sido julgar que pode haver uma política verdadeira; não há, só há uma política útil».
Só há uma política útil. E foi em torno disto que o seu raciocínio e mesmo as suas contradições – que procuravam aliás acompanhar o ziguezague da vida política da República – se orientaram:
«Se há facto estranho e inexplicável é que uma criatura de inteligência e sensibilidade se mantenha sempre sentada sobre a mesma opinião, sempre coerente consigo própria. (…) Ser coerente é uma doença, um atavismo., talvez (…) A coerência, a convicção, a certeza, são além disso, demonstrações evidentes – quantas vezes escusadas – de falta de educação. (in, Crónicas da Vida que Passa, 1915)»
Pessoa coloca acima da coerência o primado da experiência e sobretudo, por isso fala em educação, apela ao acto de escutar, como factor básico para a evolução do pensamento político. Podemos, por conseguir conceber a utilidade de Pessoa como uma forma de manter-se poroso ao pulsar social, aberta à discussão sobre a pertinência e oportunidade das reformas.
Com o título «Considerações Pós-Revolucionárias», Pessoa faz um balanço da República de um teor sulfúrico e em vários escritos, artigos e manifestos, tomou o político Afonso Costa, nos primeiros anos da República, como a sua besta de estimação. Num opúsculo intitulado «A Oligarquia das Bestas», de 1915, chegou a escrever: «Afonso Costa! É um piolho da política. Era possível odiar Franco. A este esfregão nem isso é possível! (…) Franco seria um tirano de merda, este é um tirano de caca!».
A sua desilusão quanto à República parlamentarista, sentimento que partilhou com muitos, foi-se acentuando, e desembocaria numa adesão sincera, romântica e momentânea, à famigerada República Nova, de Sidónio Pais, depois da guerra, um militar que tomou o poder e quis instituir uma República presidencialista, e em quem Pessoa enxergava um perfil mítico. Aliás diga-se que houve mesmo uma febre nacional por Sidónio, que arrastava multidões, mas que acabou por nada confirmar pois foi rapidamente assassinado antes que as suas proverbiais hesitações se tornassem uma mancha de carácter.
Pessoa projectava em Sidónio a figura de um Presidente-Rei que fosse capaz de conciliar «um centralismo equilibrado com uma descentralização municipalista».
No fundo, Pessoa era um monárquico mas não suportava o mecanismo da ascensão dinástica, pois alinhava por um crivo aristocrático, e achava que só devia ser rei quem o merecesse. E durante anos, como Platão, escreveu esboços e esboços sobre uma República Ideal e até fez sair textos aparentemente comprometedores como O Interregno, de 28, que parecia um certificado de legitimação do fascismo nascente. No entanto, devemos ter cuidado com os juízos precipitados, sempre que se trata de Pessoa há um golpe de rins ao fundo da esquina. Na verdade, e não perdendo de vista a sua asserção de que «só há política útil», a sua aparente legitimação da ditadura releva unicamente deste raciocínio
«Uma ditadura, apesar de ilegal, pode ser todavia justificada pelas circunstâncias, quando num país é tal o estado anarquia, governamental ou social, que torna impossível da legalidade. Entre um estado de guerra civil, real ou latente, e um governo de força, por ilegal que seja, que caiba essa anarquia, nenhum homem de recto critério, por liberal ou democrata que seja, hesitará em tal apoio.»
E prossegue com uma ressalva imediata: «Sucede porém que até o ilegal se quer que o consideremos justificado, tem que obedecer a certas normas (…) e o seu papel é limitado à manutenção da ordem até que a anarquia desapareça; desapareça esta está findo o papel da ditadura…».
Pessoa não admitia que qualquer ditadura se perpetuasse, fosse qual fosse o seu sentido político.
Daí que tivesse elegido como inimigo o socialismo soviético e em 1932, dada a teimosia de Salazar em manter-se no cargo, começa a escrever um novo folheto, onde, referindo-se ao anterior «O Interregno» se lê: «Dou hoje esse escrito por não escrito, repito este para o substituir», seguindo-se um arrazoado contra a ditadura, contra Salazar e contra a putrefacção do ambiente e o poder aos medíocres.
Nesse período nem Mussolini escapa à sua ironia feroz. E contra Salazar escreveu um poema mortífero que o teria levado imediatamente à prisão se fosse publicado.
Na verdade, concordo com Morodo, um ensaísta espanhol, quando diz sobre o Pessoa político: a sua concepção de Estado era um sistema individualista, quase acrata (Estado mínimo), oposto à divinização estatal e a toda a coacção partidária: «Pessoa, era um anarquista utópico de direita».
Mas quero, e para terminar, frisar um outro aspecto que me parece mais relevante. Em 1932, num texto chamado Reflexão sobre o Provincianismo, escreve Pessoa: «o urbanismo mental é mais difícil de estabelecer que o geográfico”; associe-se a isto uma outra nota em que Pessoa define os partidos como aparelhos reprodutores da intolerância das religiões, e termos percebido que o Pessoa almeja como homem político não é distinto da metamorfose que a sua transpessoalidade, ou a sua heteronomia, trouxe à definição de personalidade. Pessoa concebe o homem como expressão coral e não como feito de uma só peça.
Em 1917 é publicado no Portugal futurista o «Ultimatum», pela pena de Álvaro de Campos. É um libelo político fortíssimo pela regeneração da Europa, que nesse momento está numa guerra fratricida, e onde o heterónimo de Pessoa propõe uma intervenção cirúrgica anti-cristã, o que compreendia:
a)      A abolição do dogma da personalidade
b)     Abolição do preconceito da individualidade
c)      Abolição do Objectivismo pessoal
O seu projecto, psicologicamente, corresponderia a uma revolução coperniciana, com os devidos nexos políticos traduzidos num novo sistema em que cada cidadão teria direito a X votos, consoante o mérito pessoal. Pessoa, como era um Sindicato, teria direito a, no mínimo, 6 votos: ele mesmo, 4 heterónimos (contando com o António Mora), e o semi-heterónimo Bernardo Soares.
Isto é mais do que curioso (ainda que muito perigoso e rejeitável), sobretudo como pretexto para uma discussão do que são os valores em uso na preguiçosa e dolente democracia hodierna e nunca esquecendo que Pessoa sobretudo visava um sistema que premiasse o mérito, um sistema antitradicionalista e anti-hereditário, e ao arrepio de quaisquer interesses corporativos.   
Lembro que Copérnico foi o primeiro a dizer que afinal a terra não estava no centro do sistema solar mas sim o sol, ou seja o centro de repente era exterior a quem o olhava e localizava-se fora do sujeito de conhecimento.
Foi esta deslocação que Pessoa efectuou toda a vida com sucesso, no que respeita à personalidade. Um dos poucos democratas genuínos no século XX, um homem que vai ao cerne receptor da ideologia, o sujeito, e o esvazia, substituindo-o por uma pensamento que não se move por antagonismo dialéctico mas no trânsito entre polarizações.
O que à partida torna impossíveis pulsões hegemónicas, autoritarismos e dogmas. Mais democrático é difícil.     
Em 1936, quando morreu Fernando Pessoa, os serviços fúnebres ficaram a cargo da Agência Barata.
É um simples pormenor, mas no caso de Pessoa nenhuma coincidência é um acaso. 



sábado, 4 de junho de 2011

A MOSCA E O SANGUE DO LEÃO


Há um grande poeta sul-africano Breyten Breytenbach, branco, que esteve 8 anos preso nas celas do apartheid, por duríssimas declarações contra o regime e, pasmemos, por estar casado com uma indiana ( - shari em que também caí). É desta irracionalidade que ainda padecemos hoje, nesta terra incandescente onde todos os diademas são de sangue, basta sair à rua para perceber como na cidade africana coexistem mundos sem se fundirem, estanques, intangíveis, numa inominada desautorização reiterada. O próprio Breytenbach escolheu o caminho do exílio e hoje vive em França, donde em 2008, contra as unanimidades escreveu ao Mandela, de quem foi amigo, uma carta, por altura dos 90 anos deste, a interpelá-lo e a interrogar: «esta violência fratricida e ignara, esta corrupção, este desprezo ignominioso pela vida humana e os valores, este dernorte sem saída, é tudo o que conseguimos fazer de África? Celebramos então o quê?».
Reli-o esta noite. É um poeta assombroso. A partir dum verso seu escrevi o que vai em baixo, pensando-o como a abertura duma tragédia shakespeareana que nunca escreverei, com Lady Macbeth e Shaka zulu nos principais papéis. É como segue:  


«A mosca não pode aterrar no sangue do leão,
escreveu breyten breytenbach,  nome de granito
onde ecoam uns sincopados cascos de cavalo 

mas o que interessa é a renúncia do insecto,
a renúncia de quem escolhe a equidistância,
e como eu se abstém de afogar-se

nas encordoadas veias de Deus. Toda a vida
desejei que me fosse anunciado: “Eis
o que chega da floresta!”, apontando aquele

que de si mesmo se perdeu e recolhe
por sob a língua os braseiros da ausência
e a culminação do mais escarpado Nome,

e foi-me, nesta espera, dessorando a pobreza.
E, se ouvia zunir aprestados os vampiros,
julgava-me protegido como a sentinela

a quem só a manhã quebra os ossos.
Assim me habituei aos rumores ocultos
da noite como a árvore aos veios que a impelem.

Mas agora impõe-se-me um direito de nada
mais aguardar, e de desposar a acção,
não a que sob a embriaguez e a macieira levou Will

a decorar com o seu punhal em carne viva o relicário
de Anne Hathaway, mas a que mesmo de esguelha
perdura na memória dos homens em letras exaltadas.

Sinto amiúde que me falha ter exercido qualquer
actividade venatória, como ter sido caçador furtivo
ou guardião do segredo de um crime de grande porte,

e de xisto é o meu coração carecido, mas espero
que o arpão da imaginação abra a porta duma taberna
onde se possa ser mais que borrachão e espirituoso

e o mal e o bem entrancem nos dedos o tabaco e o cuspo
chegue à língua, desalterado na amargosa limpidez  
que me ocupa quando dobo o mar em espuma branca.»
   


DÁ-ME CEM GRAMAS DE CAMÕES MAL PASSADOS?

 A angina de peito dos templos
Pouquíssimos leitores têm lido o post que coloquei sobre o Pina, um número que me permite observar que só amigos e portugueses têm sido curiosos em relação às baboseiras que eu possa ter dito sobre o vencedor da última edição do Prémio Camões.
Os meus amigos brasileiros e moçambicanos têm campeado pela ausência. Por um motivo simples: ninguém conhece o Pina.
Há uma boa razão para isso: o Prémio Camões vale zero, ou como se diz no Porto, a terra do Pina, vale um caralho! O resto é a pimpinela escarlate das embaixadas.
Em 2001 eu já o tinha verificado, in loco!
Desloquei-me a S. Paulo para tentar arranjar um parceiro comercial para a minha editora, Íman Edições, e ao mesmo tempo armei-me em agente de três ou quatro escritores portugueses, recomendando-os vivamente: a Maria Velho da Costa, o Armando Silva Carvalho, o José Amaro Dionísio, e, entre os novos, o Gonçalo Tavares… Não ia incumbido, mas à primeira desembainhava a minha carteira de nomes. Entre outras, refiro aquelas editoras com quem mantive contactos mais particulares e de empatia: a Hedra, a Iluminuras, e a Escrituras. Sobretudo a Hedra e a Iluminuras eram dirigidas (são-no ainda, suponho) por gente gira, que ama os livros e a literatura. Ora, com todos acontecia o mesmo: a Maria Velho da Costa tinha acabado de ganhar o Prémio Camões, e então eu punha em cima da mesa o livro que escrevi com ela (Inferno, três guiões para cinema sobre o Camilo Castelo Branco, visto sobre os prismas do dinheiro, do amor e da escrita) e tentava vendê-la; não só lhes era absolutamente desconhecida, como ninguém sabia o que era o Prémio Camões. O eco das embaixadas e das instâncias da famigerada lusofonia não chegava aos ouvidos de quem lidava e trabalhava com os livros. E está tudo dito.
Em Portugal há algum eco do Prémio Camões – no Brasil o seu efeito é nulo. Em Moçambique também. Sai uma noticiazita do prémio e acabou – desta vez nem isso vi, pois ninguém conhece o Pina.
E não há edição local de qualquer livro ou antologia dos (anteriores) premiados, i.é, não se aproveita o Prémio para olear um circuito entre autores e mercados, o Prémio não serve para porra nenhuma.
Ou antes, na exaltação provinciana do costume, em cada um dos países, só há embandeiramento do arco quando cai num dos da terra.
A lusofonia é isto: um pátio enlameado por séculos de desqualificação mútua. E enquanto Portugal não entender que quem tem a grande indústria do livro é o Brasil e que o circuito da divulgação terá de abrir-se nessa direcção, o melhor é os escritores portugueses dedicarem-se ao tráfico de gambozinos, que parece ser mais lucrativo que o da coca.

 

quinta-feira, 2 de junho de 2011

O PINA, CAMONEADO À JOHN FORD


Estava em falta com a celebração do Prémio Camões para o Manuel António Pina. Não pelo Camões, mas pelo Manuel. Foi para mim uma surpresa enorme a decisão da atribuição deste prémio ao Manuel António Pina. Estou há seis anos fora de Portugal, não faço a menor ideia das flutuações actuais no xadrez [VAC1] da literatura portuguesa, e desconheço boa parte dos novos valores que despontaram bem como as correcções do deve e do haver no canteiro das margaridas.
O Pina sempre foi alheio a estes concursos. Tem um coração vadio a todas as tentativas para o circunscreverem, como os gatos que cultiva (julgo que em vasos), e foi sempre um homem de imaginação alheada de movimentos, modas e gerações, em serena contra-corrente. E ainda por cima tem humor, o sacana.
Jornalista e cronista, nunca precisou de se pôr em bicos de pés. E foi, avesso a vedetismos, publicando poesia e livros infantis como quem come caracóis, espetando condignamente o caracol um a um.
Bateu-lhe à porta. Não há como não abrir a porta a zarolho tão apetitoso.
Houve uma coisa que em tempos me confundia na poesia de Manuel António Pina e que hoje adoro: a sua capacidade para se colocar absolutamente de lado na divisão que faziam os românticos entre os intuitivos e os racionais. Eu era um romântico e apesar da ousadia dele em titular um livro, o seu primeiro livro, de 1974, como Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo Calma e Apenas um Pouco Tarde, eu desconfiava. Era parvo e fazia mal. Hoje sou um fã descabelado. Com o Pina estamos diante da festa da inteligência, que nem descura o jogo dos espelhos: havia de ser giro um almocinho de herozes entre o Pessoa, o Borges, e o Pina, enquanto o Kant, que empoava a cabeleira, observava.
Recordo dois momentos especiais com o Pina, precisamente um almoço com ele e o Helder (Moura Pereira) – acho, brutamontes como sempre, que comi rojões, enquanto o Helder e o Pina se aflautearam num peixinho grelhado -, em que ele me contou uma história oitocentista delirante de uma corveta ancorada no Douro com uma rebelião a bordo (recordo que recordo o transe mas desrecordo a estória); e uma viagem de comboio Lisboa-Porto em que papagueámos todo o tempo, ou antes, ele foi dando azo à sua veia de narrador e eu fui admirando o bicho.
É o que me faz ter a certeza de que agora, tendo ele o tempo que dá sempre a maçaroca, abandonará as traduções para cometer o romance. Não se tem tanto talento em vão.
Mas, como dizia, demorei nesta felicitação porque me faltava o livro.  Ainda não achei o que queria mas desembrulhei duma caixa o Cuidados Intensivos, e reparo agora que ele está autografado e endereçado a um Paulo (será o Paulo da Costa Domingos, com quem todos nos demos na altura?) e que o terei desviado do seu dono. Mas este desvio retroactivo permite-me agora transcrever 3 poemas:

NA BIBLIOTECA
O que não pode ser dito
guarda um silêncio
feito de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta. 


CUIDADOS INTENSIVOS
IX
“Apaga a luz. Guarda-me os óculos. Obrigado.
Como se chamava o homem da lavandaria,
o que trazia sempre a roupa trocada
e um dia trouxe uma camisa dele próprio
e a deixou ficar lá em casa mais de um mês
à espera que a mandássemos outra vez para lavar,
a ver se a recuperava?
(Ao fim de cinco semanas,
a mulher perdeu a paciência,
e veio por ele e pela camisa, que ainda
estava dentro do saco de plástico
no guarda-fatos; era igual à minha, azul,
talvez de um azul menos óbvio mas, de qualquer modo azul).
Lembrei-me dele porque
quando morreu tu disseste:
‘Coitado, pode ser que acerte
com o caminho do céu!’
Tinha uns óculos de lentes grossíssimas,
e não me admiraria que a sua morte
tivesse sido, mais que morte, um erro de paralaxe.
agora, sem óculos, como saberá ele
se está vivo ou está morto?”

O QUE DISSE S.
“O que vem de baixo
e o que vai o para baixo
estão parados;
É o vasto mundo
que dentro deles, e fora deles
desce para o alto
e sobe para o fundo”.