sábado, 26 de fevereiro de 2011

DO AMOR: ALINHAVO E DESVIO

almada negreiros

Quando a minha filha Ana entrou na adolescência e desatou a procurar na internet as letras de todas as canções românticas-pimba-&-brega-&-deixa-o-pai-de-tímpano-almareado, eu tive a ideia, que me parecia um ovo de colombo, de lhe fazer uma antologia de poemas de amor universais.
Passei várias noites a folhear livros, a escolher e a traduzir poemas – só me faltava atrás das costas um daqueles gregos melífluos que com uma flauta acompanhavam o aedo.
Quando finalmente publiquei o livrinho com as traduções foi o meu fracasso mais rotundo. Nenhum adolescente lhe pegou.
Talvez à dúzia sirvam para omoletes. Enquanto não crescem.      

  

ÚTERO


Faz horas que aqui estão.
Partes do seu corpo, não as mais íntimas,
mas partes do seu corpo, espalharam-se
repartidas pelas quatro, as vinte esquinas
desta casa. E agora vivo
dentro da casa que amo.
Movimento que faça, se me estico
fora da toca, e toco uma meia,
um sapato, uma saia, a sua loucura por antúrios,
sei os marcos de uma terra que é a minha.

 

Gabriel Ferrater




DREAM


Às vezes
sonho com a Inglaterra (litorais,
comarcas azuladas).

Tu resides
na casa vizinha. Lilases
rebentam onde as ondas se desolam.

Vivemos num mundo
onde o amor não necessita
sentir-se desgraçado para sê-lo.

 

Juan-Eduardo Cirlot




FILHA DO CONHECIMENTO


E agora a amplidão do espaço
cinge-se à minha batida,
e tu, flor de ouro,
tu estás em mim.

A arte do Oriente que estudei amiúde
é a tua carne os teus ossos
a curva do teu olho
a tua língua mais os seus tons maviosos.

Face à nudez
dos teus seios a religião
perde toda a realidade

e a macia perfeição
do teu amorável ventre
prodigaliza a filosofia.

Kenneth White



HISTÓRIA DE UM AMOR

Para que eu pudesse amar-te
os espanhóis tiveram de conquistar a América
e os meus avós
de fugir de Génova num cargueiro apodrecido.

Para que eu pudesse amar-te
Marx teve de escrever O Capital
e Neruda a Ode a Leninegrado.

Para que pudesse amar-te
em Espanha houve uma guerra civil
e Lorca morreu assassinado
depois de ter visitado Nova Iorque.
Para que eu pudesse amar-te
teve Virginia Wolf de escrever Orlando
e Charles Darwin
de viajar ao Rio da Prata.

Para que eu pudesse amar-te
enamorou-se Catulo de Lesbia
e Romeu de Julieta
Ingrid Bergman filmou Stromboli
e Pasolini os Cem Dias de Saló.

Para que eu pudesse amar-te,
Luís Llach teve de cantar Els Segadors
e Milva os poemas de Brecht.

Para que eu pudesse amar-te
alguém teve de plantar uma cerejeira
na cerca de tua casa
e Garibaldi de lutar em Montevideo.

Para que eu pudesse amar-te
as crisálidas fizeram-se mariposas
e os generais tomaram o poder.

Para que eu pudesse amar-te
tive de zarpar num navio da cidade onde nasci
e tu de resistir a Franco.

Para que nos amássemos, por fim,
ocorreram todas as coisas deste mundo

e desde que nos amamos
persiste uma grande desordem.

Cristina Peri Rossi


ALBA


Tão fresca como as pálidas folhas húmidas
                                             do lírio do vale,
ela deita-se ao meu lado, e amanhece.
Ezra Pound



Adoras deitar-te na nossa cama desfeita.
Os nossos suores antigos não te incomodam.
Os nossos lençóis sujos por sonhos esquecidos
os nossos gritos estampados no papel da parede
tudo isso exalta o teu corpo esfaimado.
O teu rosto desairoso ilumina-se então,
e os nossos desejos de ontem
são os teus sonhos de amanhã.
Joyce Mansour


A NOITE É-LHE PROPÍCIA


Foi tudo muito simples:
aconteceu que as mãos
                                     que ela amava
tomaram de surpresa
a sua pele e os seus cabelos;
                                      que a língua
descobriu o seu deleite.
Ah, deter o tempo!
                                    Ainda que a história 
vá no seu início
e ela saiba que a noite
                                    lhe é propícia
teme que com a alba
continue com uma sede
                                     igual à de sempre.
Agora, o amor invade-a
uma vez mais. Ó tu
                               que bebes !
Apieda-te dela
vê como tem seca a garganta
                                   nem falar pode.

E escuta a sua condoída
respiração; a agonia
                              de um êxtase
e o rogo: não te vás…
não te vás. Façamos pois
                              uma saúde!
      Jose Agustin Goytisolo
         


Quando a água debaixo do chuveiro
a resgatou ao aturdimento
de olhos fechados crio ver
milhares de gotas apressadas
a salpicar-lhe o manto da infância
como se fosse uma tempestade
de algum longínquo veraneio.
Na estância que os conduz
pelos caminhos da noite
pede “seca-me os cabelos”
como lhe faziam em menina.
Depois vai à janela e encara
de frente o céu assombrado:
estas horas passarão num ápice
chegará o dia e o adeus
e só ficará a ausência.
O frio roça a sua pele húmida.
Jose Agustin Goytisolo



O SONO VENCEU-A POR UNS MINUTOS


Quem seria por Deus quem era
aquele homem meio abstraído
que olhava a lua cúmplice
o copo sempre atestado
um cigarro caído entre os lábios
e nu como o demónio?
O sono venceu-a por uns minutos
mas ele não se moveu. Observa
o amante, o conhecido de poucas horas,
se bem que ele sim parecia sabê-la de cor
apesar de se terem acabado de encontrar.
Olha o relógio. Pensa na sua casa:
na quietude que a mantém
enquanto ela... patetices!
Com assombro constata agora
que não sente pena ou sobressalto.
Levanta-se para beber:
ele vai ouvi-la e virá ao seu lado
para voltar a estremecê-la.

Juan Agustin Goytisolo



NÃO HÁ RETORNO


Já terminou o domínio
                                 da noite
e um ar macilento
                            surde
detrás dos cristais.
                               Vestiu-se:
recolhidas as suas coisas
                               enrola agora
o último cigarro.
                              Depois, em pontas
dirige-se para a porta:
                                não se vira
ela dormita e contemplá-la
                                           dói.
O seu corpo de luz é
                              desfechado na luz,
e ele esgueira-se tenso:
                                não há retorno,
adivinha que a morte
                                 lhe é propícia,
que há de fundir-se na sombra
                                 mais profunda
e vária. E que nada lhe aliviará
                                a derrota.
Juan Agustin Goytisolo


ELA CONFESSA O SEU AMOR ENQUANTO ESTÁ MEIO ADORMECIDA

Ela confessa o seu amor enquanto está meio adormecida
           no cúmulo da escuridão
                      em meias palavras, ciciadas:
enquanto a terra desperta o seu sonho invernal
           e faz germinar a erva, as flores
                       a despeito da neve,
                       a despeito da neve que cai.

Robert Graves




Sonhava com cidades longínquas
em paisagens ignotas, de cores ruidosas,
mesmo na orla dos desertos.
Os meus sonhos ausentam-se rapidamente
como as estrelas nas noites já extintas.
Faz frio nas catedrais
e o sorriso das mulheres
tornou-se raro, lapidar, estranho
como as flores da floresta tropical.

Só resta o desejo de não estar só
e a curiosidade.
É o que espicaça – todos os dias.
Felizmente que entre nós as mulheres não usam
um véu até aos tornozelos.
Mas a tenacidade do tempo já me fatiga
e arrasta para algures.

Adeus. Nada traí na minha vida.
Disso estou certo
e podeis crê-lo.

E o mais belo de todos os deuses
é o Amor.
Jaroslav Seifert

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

AYATOLLAH, ACHEI A MINHA VOCAÇÃO!


para o Fernando Santos, que anda tresmalhado

Agora tenho a certeza, vou-me converter. Ao islamismo, que foi quem me trouxe a Revelação.
E vou-me oferecer como mártir ao ayatollah Kasem Sedighi, eu sou um poço de possibilidades revolucionárias. Santamente falando. Para tudo. Sou um íman pronto a arrasar uma cidade, um quartel do inimigo, a terraplanar hangares e o orgulho das torres de vigia.
Desde miúdo que sou assim. Desde que o Padre Ventura explicou nas aulas de Moral e Religião que se pecava por pensamentos e omissões e eu me senti pregado a umas omissões felpudas de pendor lúbrico, coitado de mim um franganito inconsciente mas atraído a uma mina de pecados sombreados e aroma acidulado. Já na ginástica desportiva fora admoestado por causa desses pendores secretos, como quando treinando o Cristo nas argolas vi despontar três pêlos públicos num dos vértices da roda que a Rosalina exercitava na trave e fui tomado por uma erecção que calou os galos da vizinhança por uma semana e semeou o padre-nosso entre atletas e professor.
O meu avô, que era pastor evangélico, emprestou-me o martelinho de borracha com que ele curava as gonorreias e deu-me indicações severas quanto à assiduidade do movimento percussivo.
Temo que tenha sido aí que comecei a mentir e que o ilícito se tenha alastrado na minha vida.
O segundo momento de desnorte veio com a leitura dos psicanalistas. Afinal, dizem eles, na caminha do casal  nunca são dois, mas três, quatro, cinco. Ora é o fantasma do pai, ora o do primeiro namorado, ora a imagem que se tornou perene da secretária do dentista do primeiro andar, ora a do marido da melhor amiga. Eu, no primeiro  casamento, fui sempre mais feliz quando pensava na Barbara Streisand. Tinha o fetiche do nariz dela farejando-me longitudinalmente o acontecido que, ‘tá claro, nessa altura, só pensava direito. A minha mulher entregue a momices e denguices e eu naquele movie interior, secreto e ilícito. E sem isso, não me animava, seria como o consecutivo lamento da minha tia Carmélia, que na altura tanta espécie me fazia, o meu marido fenece muito cedo… É isso, habituei-me a que o meu leito fosse a tenda do Kadhafi, com camelos, cabras e avestruzes, pois fui sempre um pecador de vistas largas.
Agora sei para onde vou e já não me apavora ter reconhecido que aquele terramoto dos Açores, em 1980, com mais de mil mortos e seiscentas casas devastadas, tenha sido provocado pelas cartas obscenas que, nessa altura, enderecei à Carolina do Mónaco; afinal, só sabendo a verdade sobre o cedo prevenimos o cedro.
E como tudo o que importa na vida pia é o quanto sublimamos e para onde canalizamos a energia de tanta ilicitude indeclarada, vou-me entregar como mártir ao ayatollah.
Estou pronto para todas as missões.
A loucura de paris que me espere, nas praias de copacabana implantarei o meu farol contra os ímpios, nova iorque que tema o pior. Repararam que já escrevo o nome das cidades em minúsculos, para mim são já o pasto onde a iniquidade rumina o sismo. Já salivo, antevendo os maxilares do sismo no meu rasto de charme e sedução: hei-de ser o fantasma crivado em milhares de clítoris - fora as práticas. Aí serei o diabo à solta, nada me escapará, das adúlteras, às hospedeiras de bordo e moças com sindroma de dawn.
E voltarei como Don Juan a Torremolinos só para me concentrar na Letízia Ortiz, a Letízia sempre me interessou muchíssimo, e aí constituirei a minha primeira brigada de reformados viscosamente tarados. Sabem lá o que é a fúria espanhola vidrada na virilha!
Sempre adorei sexo ilícito, agora será o meu sacrifício.
Ordena-me ayatollah e eu te sedigharei, e assim será feito: que cidade queres tu que eu arrase primeiro com a ponta do meu caduceu?

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

COLÓQUIOS COM A JADE

amadeu de sousa-cardoso

Meto-lhe o vestidinho sobre a cabeça. Desponta o penacho louro e a pergunta:
- Pai, quantos anos tens?
- Cinquenta.
Desfaz-me pronta as ilusões:
- Cinquenta e dois, palerma...
- Pois.
- Mais quatro e vais ter 56, como a mãe.
A Luna, rectifica, da outra cama:
- Jade, a mãe não tem 56, tem 46...
Faz uma carita de espanto, antes de concluir compungida:
- Coitadinha da mãe, é gaga...

PATOS E CHAPAS/ um conto de Maria José Arthur

miró - se eu tivesse asas
É com imenso prazer que vos apresento uma nova escritora moçambicana, Maria José Arthur (assim mesmo, com «h» e reminiscências da Távola Redonda). Maria José é antropóloga e edita um excelente boletim, Outras Vozes (ver aqui), que aborda os problemas do género e da violência doméstica com rigor e coragem, mas tem-se mantido inédita como escritora de ficção, pois, escrupulosamente, foge de engordar qualquer nova vaga de “exotismos” - mal de que padece grande parte dos olhares que assentam sobre África.
Este conto/crónica faz parte de um grupo de quatro que será editado na Colecção Acácias, que eu dirijo editorialmente, e de que é coordenadora executiva a Teresa Noronha, livros produzidos pela Escola Portuguesa de Moçambique.
Tive uma enorme dificuldade em escolher qual dos quatro divulgar, por várias razões. Um deles, Um Equívoco, parece, sem que a autora o adivinhasse, o meu auto-retrato, e eu não resistiria a rabular sobre isso, desviando a atenção do conto em si, os outros dois são muito bonitos, muito dominados (um deles A Bruxa, é mesmo o que prefiro), mas menos “exuberantes” do que julgo necessário a uma estreia que atraia um bom holofote sobre uma revelação meritória. Acabei por escolher este, Patos e Chapas, não apenas por ser uma deliciosa crónica do quotidiano de Maputo como também por questões rítmicas, aspecto nada despiciendo à recepção de um novo autor.
Leiam e desfrutem.
                                                                PATOS E CHAPAS

Quem disse que os patos são animais pacíficos? Tal como vejo as coisas e de acordo com a minha experiência, até a mais letárgica das criaturas se pode encontrar no meio de um conflito, daqueles cabeludos, de envolver meia cidade e as mais altas autoridades. Foi o que aconteceu com um pato de vida anónima, quarto filho de uma ninhada, que depois de uma breve exposição à fama teve um trágico destino. O problema é que nesta estória, dele, que foi a principal vítima, pouco se ficou a saber dos desígnios, das intuições e dos seus secretos sonhos de animal. Se deixou viúva e filhos, ignora-se. O que é certo é que ele era indisciplinado, pois tinha criado o hábito de se escapar da cerca da casa e atravessar a rua ao sabor dos seus caprichos. E foi numa dessas escapadelas que se atirou contra o chapa que circulava a alta velocidade ainda tão cedo na manhã, pois mal haviam dado as seis horas. O pato desatou a fugir, bateu as asas para ir mais depressa, esvoaçou, e por isso o embate deu-se ao nível do vidro párabrisa da carrinha, estilhaçando-o de imediato.
O motorista do chapa não percebeu logo o que se passava. Num momento deslizava veloz pela rua da Estratégia Popular e no instante seguinte ficou com o vidro no colo, felizmente em pedaços não cortantes. Jacinto, de seu nome, era um jovem empreendedor, que em três anos tinha passado de cobrador a motorista, que é o mesmo que dizer, o topo da hierarquia neste negócio de transportes. Mais adequado à dignidade que exibia. Muito se tinha esforçado para isso, evidenciando-se por ser expedito e duro o bastante para enfrentar qualquer cliente mais exigente ou recalcitrante. Sendo que o sistema de pagamento estava baseado no número de viagens excedentárias para além das suficientes para atingir o montante diário que tinha de entregar ao proprietário do chapa, o tempo era um factor muito importante. Por exemplo, se conseguisse ter a camioneta cheia, bastavam oito viagens por dia para juntar a quantia devida ao dono da viatura. Todas as que fizesse a partir daí destinavam-se ao pagamento do combustível e depois era só lucro pessoal. Também devia assumir os riscos de acidente, desde que provado que fora por sua culpa, e as multas por excesso de velocidade. O percurso normal era do subúrbio mais remoto, até ao centro da cidade. Ir e vir consumia-lhe uma hora em períodos calmos e quase duas horas nos momentos de maior tráfego. Em suma, Jacinto era uma máquina de fazer dinheiro para o seu empregador, e a única possibilidade de reverter essa situação a seu favor era conseguir rendimentos razoáveis para si mesmo. Nem aos Domingos podia parar, não fosse entrar outro jovem que se propusesse ao patrão, prometendo trabalhar mais e todos os dias, acabando por ser posto de lado. Aliás, tinha sido dessa maneira que ele conseguira aquele lugar. Muito intrigara até demonstrar que o anterior motorista se dedicava pouco ao trabalho.
Quando o pato partiu o vidro párabrisas, Jacinto já ia na segunda viagem da manhã e o incidente estragou-lhe o dia. Ao preço a que estavam as peças, repor os estragos ia-lhe custar uma semana inteira de lucros. Havia, pois, razão para lamentar e praguejar contra o azar. Parou imediatamente o chapa com intenção de procurar pelo dono do pato, para responsabilizá-lo pelo acidente. Pelo sim, pelo não, deitou a mão ao animal, prova material do que acontecera. Ajudado pelo cobrador e observado pelos trinta passageiros que se amontoavam no interior da carrinha, interpelou vigorosamente os passantes e as mulheres que àquela hora procediam à limpeza dos quintais das casas na proximidade. O dono do pato, se deu conta do alarido, manteve-se prudentemente escondido. Afinal, mais valia ficar sem um animal do que assumir estragos que dariam para comprar mais de dez patos. De nada valeram as ameaças e os insultos, não se conseguiu descobrir a quem imputar as culpas do desastre. Foi aí que um dos passageiros sugeriu uma queixa na esquadra de polícia mais próxima, o que poderia talvez, e frisou o talvez, servir como prova para o proprietário do chapa, de que o motorista estava inocente de culpas no acidente. Este, a quem não restava mais nenhuma alternativa, agarrou-se à sugestão e, desviando o chapa da sua rota, para lá seguiu com os seus trinta passageiros e com o pato que, para além do vidro partido, constituía evidência única do acontecido.
Perante este acto intempestivo, os passageiros ficaram revoltados. Até mesmo o que fizera a sugestão, não esperara ficar envolvido directamente nessa aventura. Àquela hora da manhã, com pouco movimento ainda na cidade, os passageiros conheciam-se vagamente uns aos outros. Havia operários que se apresentavam para a mudança de turno, guardas de prédios e de estabelecimentos comerciais, empregados domésticos e vendedores, que ou iam comprar verduras e fruta para as revender mais tarde noutros mercados, ou iam montar as suas bancas. Embora já de há muito habituados às decisões arbitrárias dos condutores dos chapas, como mudar de rota a meio do caminho ou fazer paragens não previstas para o almoço ou lanche do motorista e do cobrador, o desvio do veículo para uma esquadra da polícia, onde toda a gente sabe que os assuntos demoram imenso tempo a resolver, já parecia exagerado. D. Guilhermina, grande e obesa, que por esse motivo fora obrigada a pagar o equivalente a dois passageiros, era quem se sentia com mais direito de refilar e não se coibía de fazê-lo, enchendo a viatura com a sua voz aguda mas forte. Escudando-se nela, ergueu-se um coro de vozes discordantes, protestando contra o que seria um inevitável atraso nos seus afazeres diários.
Jacinto ignorou este coro de protestos não se dignando sequer a responder e, com a autoridade de quem tem o volante nas mãos, continuou em direcção à esquadra. O cobrador sentiu-se obrigado a intervir, talvez por estar do lado de cá, perto dos passageiros, e mandou um berro para se fazer ouvir dizendo que se calassem pois todos eram necessários como testemunhas. Este tom autoritário ainda exacerbou mais os ânimos e em breve, no apertado espaço da camioneta, se instalou a confusão. Aproveitando que todos se encontravam concentrados na sua revolta, Jorge foi metendo as mãos nos bolsos dos passageiros mais próximos, com o que conseguiu arrecadar algum dinheiro. Do lado contrário, Damião, pensando passar despercebido no meio de tantos encontrões e empurrões, foi-se insinuando entre as coxas da passageira à sua frente, roçando-se primeiro devagar e depois mais descaradamente. Nessa altura perdeu o controle e foi desmascarado, o que lhe valeu uma bofetada e um pontapé da visada, mulher séria nada dada a aventuras casuais com qualquer desconhecido e ainda para mais em chapas! O berreiro que fez chamou a atenção dos outros, que alertados, voltaram a tomar as precauções habituais neste tipo de transporte, deitando imediatamente a mãos aos bolsos. A agitação ganhou mais consistência com o coro dos que acabavam de descobrir terem sido roubados.
Assim, quando o chapa parou finalmente em frente à esquadra, as queixas a apresentar não se limitavam só ao infeliz acidente com o pato, mas tinham entretanto sido estendidas a outros assuntos. Ao abrirem-se as portas saíram todos em tropel e no meio de um vozeiral que despertou imediatamente os agentes sonolentos, que completavam o turno da noite e contemplavam ansiosamente o relógio a calcular quanto mais tempo lhes faltava para despegar. Jacinto avançava na frente com o pato na mão, seguido do cobrador e de trinta e tal passageiros enfurecidos, que falavam ao mesmo tempo.
Os agentes que se encontravam nos fundos, crendo tratar-se de uma invasão ou manifestação a propósito de qualquer motivo desconhecido, acorreram de armas nas mãos, amedrontados, prontos a venderem cara a pele. Quando se aperceberam tratar-se de um grupo animado simplesmente do propósito de participar ocorrências policiais, veio-lhes ao de cima a natural arrogância das forças da lei e, usando do tom mais imperativo e de gestos ameaçadores com os cacetetes em punho, conseguiram restaurar um pouco a ordem. Quando o oficial de serviço indagou sobre a ocorrência que ali os trazia, nova algazarra se verificou, com Jacinto a falar do acidente e brandindo o pato, as vítimas do roubo a exigirem justiça e a passageira molestada a querer denunciar o assediador.
Ao fim de um certo tempo foi possível chegar a um consenso, de que primeiro se explicaria a presença inusitada de um pato na esquadra, passando-se depois às outras ocorrências. Entretanto, para não prejudicar nenhum dos queixosos, ninguém foi autorizado a ir-se embora, pois ainda havia que revistar um a um os passageiros, para se apurar quem tinha deitado a mão a bolsos alheios.
Após uma primeira explicação de Jacinto, a medida imediata que se impôs foi encarcerar o pato que, bastante abalado com o acidente, nem forças tinha para reagir perante tanta balbúrdia. O animal foi colocado na cela dos fundos, destinada à prisão preventiva dos infractores que passavam pela esquadra. Em seguida foi perguntado ao queixoso o que pretendia exactamente, ao que este respondeu querer descobrir o dono do pato e um papel oficial, garantindo que o acidente tinha sido notificado à polícia e que ele, o motorista, estava isento de culpas. Os agentes, que não gostam de se comprometer de qualquer maneira, foram observar cuidadosamente a viatura e o vidro partido, para no fim emitirem o veredicto: assim do pé para a mão, era difícil de saber de quem tinha sido a culpa. Jacinto não gostou e disse que, uma vez que havia várias testemunhas, que lhes perguntassem como é que as coisas se tinham passado. O problema com esta sugestão é que uma parte dos passageiros, já muito irritados com a situação e vendo o tempo a passar, por vingança, declararam não saber quem tinha atropelado quem. Seria o pato que se pusera no caminho do chapa ou Jacinto que manobrara propositadamente para matar o animal? Perante estas afirmações, o grupo cindiu-se em dois: os pró-pato e os pró-Jacinto, que de repente se viu no meio de uma disputa em que era colocado em pé de igualdade com um animal.
Entretanto, e porque aos poucos se sentiam mais confiantes, os passageiros começaram a exigir dos polícias o seu dever de hospitalidade. Uns pediram água e, sobretudo as mulheres, exigiram ter acesso à casa de banho da esquadra. D. Guilhermina capitaneava esta reivindicação e, quando alguém ousou insinuar uma recusa, sob pretexto de que as mulheres sujavam as sanitas e o chão, ela avançou com ar ameaçador e saiu vitoriosa neste breve confronto. Conforme a discussão avançava foram-se pondo mais confortáveis, sentando-se nos bancos e nas poucas cadeiras disponíveis, aproveitando a ocasião para bisbilhotarem um pouco por toda a parte.
O bate boca aquecia mas, como não se adiantava nada com o assunto, um dos presentes sugeriu que se examinasse atentamente o pato, para tentar entender o ângulo do embate no vidro, o que poderia trazer luz sobre as responsabilidades respectivas no acidente. Acatando esta proposta, o oficial ordenou a um dos agentes que trouxesse o animal. No entanto, quando o referido agente se dirigiu à cela, deu conta do seu desaparecimento.
Esta nova ocorrência, da total responsabilidade dos polícias, uniu de novo os passageiros na comum acusação de que agora até nas esquadras havia roubos, porque um pato dificilmente teria inteligência para se evadir da prisão.  Instaurado de imediato um inquérito, apurou-se que um dos agentes largara entretanto o serviço e que, na ausência de outra explicação, só ele poderia ter levado o animal. Não querendo abrir mão dessa importante evidência que contava apresentar ao seu patrão, Jacinto propôs-se a conduzir os agentes até à casa do colega para tentar recuperar o pato. Como nenhum dos passageiros estava autorizado a ir-se embora chegou-se à conclusão de que o mais seguro era seguirem todos em grupo para fazer essa diligência, pois dessa forma continuariam sob vigilância policial. Ignorando-se os protestos dos que discordavam desta decisão, todos foram forçados a entrar de novo na carrinha, agora ainda mais apertados do que antes, pois levavam consigo os três agentes destacados para conduzir o inquérito. Felizmente que a casa do suspeito não ficava muito longe.
Camarinha Mavate, assim se chamava o presumível ladrão do animal, tinha efectivamente levado o pato. Note-se que ele não considerava que tinha roubado, mas simplesmente, perante o absurdo da prisão de um animal, decidira dar-lhe um uso mais racional, até porque o seu magro salário não lhe permitia muitas vezes o luxo de provar tais iguarias. Claro que quando lhe chegaram a casa a gritar e a acusar, Camarinha negou tudo. Só não conseguiu manter a sua versão porque lhe forçaram a entrada e, no quintal, encontraram o pato que tinha acabado de ser morto pela sua mulher, que se preparava para o arranjar para o almoço. O pobre animal terminava assim a sua breve mas aventurosa vida.
Jacinto foi-se abaixo com esta novidade e ele, que tinha adquirido na vida uma couraça que lhe permitia sobreviver nas condições mais adversas, sentiu-se de repente cansado de tudo. De que adiantava lutar, espernear, intrigar, se no fim de contas todos estavam presos nas teias de algo que não controlavam e que ao fim e ao cabo os mantinha no limiar da pobreza e os impedia de desfrutar da vida? Nesse momento teve saudades da sua infância despreocupada, de antes da guerra, lá na aldeia, onde a sua única responsabilidade era levar os cabritos a pastar.
Foi quando um dos presentes, não se sabe se por solidariedade ou por querer encerrar aquele assunto, propôs que se fizesse uma declaração sobre o que havia ocorrido e que ele, pelo menos, mesmo não sabendo se teria algum valor, assinaria a comprovar tudo. Este gesto teve a adesão geral e até Camarinha, na sua qualidade de agente, talvez por sentir que tinha culpas, declarou não se importar de deturpar um pouco as coisas e apresentar-se como mais uma testemunha do acontecido.
De novo na esquadra, desta vez para tratar das outras queixas, foi impossível recuperar o dinheiro roubado e descobrir quem fora o ladrão. Já praticamente ninguém reagiu, pois a manhã ia avançada e a maioria estava cansada e exasperada. A passageira molestada, também entretanto fatigada com tudo aquilo, desistiu da queixa. Finalmente foi dada permissão para que se retirassem e cada um se dispersou para seu lado, procurando encontrar outro chapa e já a pensar na desculpa que dariam aos empregadores para aquele atraso, na certeza de que um episódio destes dificilmente poderia ser apresentado como justificação. É que há pessoas que vivem como os outros nesta cidade, mas o mundo deles na prática fica a milhas de distância de coisas como estas que acontecem diariamente e que, afinal, constituem a realidade que sustenta esta metrópole.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

DERROTAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS/ os poemas de Ozo

Pouco tempo depois de chegar a Moçambique comecei a inquietar-me sobre as possibilidades de ser lido numa terra com 50% de analfabetos e uma percentagem besta de iletrados, onde um livro habitualmente tem um mercado de 200 leitores (para uma população de 20 milhões), mas sobretudo onde os modelos de poesia dominantes, trinta anos depois da independência, persistem em ser os da poesia de combate.
A saída de um livro póstumo de poemas eróticos de José Craveirinha, o ícone poético em Moçambique, recebido com abafado alarme e discrição, apontou-me uma saída. Inventei uma personagem, o Ozo, que escreve poemas eróticos ou de forte motivação social, num estilo mais directo e acessível que o meu, e entretive-me durante uns meses.
Mas mantive a coisa inédita até hoje. Escrevi cerca de 50 poemas e parei, regressando às minhas atmosferas.
No entanto, ao ver as fotos inéditas que o José Cabral me passou para eu colocar no blogue achei que era a oportunidade de ressuscitar tão irrequieta personagem, e inclusive fiz um poema novo para a última foto. Doravante, o poeta Ozo só existirá como réplica às fotos do Cabral, ou de outros fotógrafos moçambicanos. 
  

RECORDAÇÃO DE UMA MIÚDA
DA MAFALALA NUNCA MAIS ENTREVISTA

Foi a minha casa roubar o pisca-pólos
e deixou-me a sós com a fadiga
dos mais meândricos abismos,
aquele opulento Diabo distrital.
Pintava os lábios de prata p’ra
esconder o ouro nas partes gagas
e a pele, negra como a de minha mãe
à luz, arrebitava-se nuns seios pontudos
onde a sede naufraga de ciúme.

Talvez a História do mundo fosse
em geral mais distinta se eu
não me sentisse um heliotrópio
consumido pelo fulgor das suas mentiras
digitais. Oh let my people go*, cantava
o meu Diabo, de cujas orelhas pendiam
duas luas esculpidas nas presas
dos últimos rinocerontes brancos.

Foi a minha casa roubar o pisca-pólos
e eu, de tusa atrás da orelha, deixei.
Já comprei um kit da Black & Decker
para a próxima visita do mais
dengoso Diabo distrital
que Deus, esse Grande Amendoim,
pôs na boca do mundo. Oh, let
my people fuck, trauteio eu, não é?

* a Mafalala é um mítico bairro popular de madeira e zinco, donde saiu uma nata de intelectuais negros e mulatos que se posicionaram  contra o colonialismo;
Let my people go, é o refrão do mais célebre poema de Noémia de Sousa, poeta tutelar da luta contra o colonialismo.


NUMA BARRACA DO MUSEU*

Jurava ela, sacudindo a fúria da estiagem
e sopesando-lhe um peito na palma da mão:
«esta rilação vai funcionar muito bem,
você vai ter uma boa cicatriz na sua alma».

Meia hora-depois, a sua pachorra
espanejava ainda as reticências dele:
«Não escolho nada… contigo só escorro!».
Duas Laurentinas voaram, antes dela

se confessar andorinha exilada: «Não
volto pra ele, aquele é só pra bater, 
é estrago, mas ti digo, miolo de crocodilo

cura asmático, cura até flor
de isquileto.» E aí rendeu os lábios
aos bico da andorinha, o intranquilo.

* O Museu é um mercado popular encravado numa zona nobre da cidade, onde as bebidas são metade do preço que no resto da cidade, razão pela qual é muito frequentado por jornalistas e artistas; nas zonas rurais de Moçambique, os miolos de crocodilo, devido às suas toxinas mortíferas, são usados como veneno



ESPLANADA DA COLMEIA

O amor de Estela, «siô,
…faz favô!», a espampanante brasileira
que o bruto escoamento do desejo,
- ah bravo agravo! -,

fez desembarcar em Maputo,
é um litígio sem espumante.
Não lhe coube a litigação
dourada de Van Gogh

com os girassóis, algo a rói
e refreia – ei-la atada,
coitada, a uma mó que lhe atrasa
o coração. De futuro,

o amor de Estela só aceitará
inscrição em musgo –
um custo mínimo de sedimento.
O que a perdeu foi o reggae, n’acha

o déstino tão injusto? Eu adoraria
anotar em tão macias omoplatas:
«o seu delta não tem ínsuas…»;
que os seus dedos finos –

harpejam de novo o ar, «siô
…faz favô!» -, confiscassem
o meu lápis e, entre
gemidos rabiscassem:

«a sua língua toca tambor
no meu trevo». Pena
o calor e a minha ins-ins-
tabilidade temperamental.

DERROTAS SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS
Cariño, não era suposto a tua ida
a Durban trazer risos, afagos
e unicórnios doutro mundo
ao deslustrado linho – mas a urgência

aninhou no meu pranto um rôr de rios.
E agora a sincronização num cardume
não é superior à dos meus dedos
no estuário do seu corpo, lume

tão fraterno que me distrai.
E na peroração do pénis
que firme me cavalga o tema,

cismo: às vezes vivos enterram
os seus vivos. Quereria eu vingar
com o meu sexo o teu ocaso?


A UMA MOÇA BRASILEIRA
QUE CONHECI NO COCONUTS

Minto tantas vezes que t’acredito
quando mentes e m’emprestas

a drive do teu amor. Não deixes
que mintam por ti. O mito inteiro

reboa no rebolar da cachoeira
s’ousares dar ouvidos ao bom palpite.

Se não tencionas mentir faz o delete.


VEROSIMELHANÇA ARISTOTÉLICA

Inútil procurar
no cânone
africano

uma rosa
zebrada.

um rabo
desacostumado
de velejar.


Tens os pés de Tutankamon,
falou ele… o fotógrafo.
Não entendi nada – quem é esse?
Um que, como tu, tinha as estrelas

represas nas unhas. Represas,
quê, quê, quê... perguntei? Represas
como as raposas a sul,
mas onde há represa há desejo

disse-me ele, puxando-me pra trás
do embondeiro. E agora,
perguntei no fim. Isso,

continua a interrogar… -, e riu,
enrolou um cigarro…e falou:
gostas de lírios-do-rio?