sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

O RELOJOEIRO CONTORCIONISTA: Um Conto de Valério Romão

Como não gosto de publicidade enganosa, aqui vos deixo um conto de Valério Romão. Foi o último conto dele que consegui publicar, em 2006, na Revista Magma, da ilha do Pico, no seu número 2, que eu coordenei, a pedido do Carlos Alberto Machado e da Sara Santos.

O relojoeiro contorcionista

A dificuldade é microscópica. A luz não ajuda.
Os clientes dizem-me que a loja está cada vez mais suja, que não é possível trabalhar com rolos de cotão deambulando pelas mesas como gatinhos, os clientes que só se mantêm fiéis porque a minha tabela de preços é tão an­tiga quanto eles o são. Não posso ter uma empregada de limpeza – replico – não posso ter uma senhora de plumas de avestruz na mão a estragar-me meses de trabalho com uma espanadela ruminada à pressa.
A dificuldade é antiga.
O meu pai ensinou-me tudo o que sabia. O meu avô tinha mãos de cirur­gião e olhos de pombo. Eu carrego alguns genes bondosos e medo de fazer outra coisa. O trabalho é como um par de tamancos que se lega de mãe pa­ra filha: por mais desconfortável que seja, não há coragem para mostrar as feridas nos pés. Um cambalear ocasional que se atribui à diferença de ta­manho entre dois membros rigorosamente idênticos é o único indício de descontentamento. Ainda assim, não há corpos perfeitos e a mentira pas­sa de barriga em barriga.
Não desgosto os relógios. Fascina-me saber que há coisas que, quando me­xem para a esquerda, obrigam outras coisas a mexerem-se para a direita e estas últimas forçam pequenos gravetos de metal a percorrer distâncias milimétricas numa cadência monocórdica de barítono deprimido. Aprendi a amar alguns tipos de metais, algumas marcas específicas de engrenagens, aprendi a soldar e a desviar átomos com a ponta da pinça. Todo a minha vi­da está prenhe de rolamentos minúsculos e cheiro de cobre. Não tenho fi­lhos, nem mulher. Quando morrer serei enterrado com uns tamancos cor-­de-caixão. Ninguém verá as chagas nos pés.
A dificuldade é parar.
Quando se é relojoeiro parece que o tempo dá para tudo. É um manto cin­zento, estendido, que se prolonga espaço fora e que salpica tudo de tique­taques sincronizados. Quando se é relojoeiro tem que se cumprir os pra­zos. Ninguém confia num relojoeiro que se atrasa, independentemente do valor da desculpa ofertada. A mãe pode estar a galgar a linha da meta, o pai ou sobrinho podem ter tido um acidente grave. O que importa é que haja alguém cuja função seja a de compor uma sinfonia pela qual todos os passos possam ser dados com segurança. É preciso um maestro. Um alqui­mista da simultaneidade. Eu.
Um relojoeiro não se cansa, um relojoeiro não se desconcentra. Um relojoeiro é um apêndice do tempo e desde logo está fora dele. Contempla-o, encaixa as suas peças como se brincasse com Legos e devolve às pessoas a possibilidade de falhar um compromisso. Caso eu não existisse, não haveria atrasos, nem ocasião. Somente a visão do sol e das rugas faciais para saber que a vida não tem buracos e que, quando os tem, não tem vida. Eu sou o alicerce.             
Quando morrer e 1evar comigo os tamancos serei homenageado com uma estátua ou uma rua com o meu nome. Quando eu morrer todas as coisas serão engolidas no silêncio dos relógios coma­tosos. Deixará de haver emprego, leis, férias. Tudo será um único bolo confuso de noite e de dia se revezando.
O problema é sincrónico.
À noite cumpro o meu ritual privado. Desço as escadas, bebo meio copo de leite morno e começo a dar corda aos bichos. Cada um dos relógios - de parede, de pulso, de bolso — tem um grunhido diferente. Tento compor o ramalhete. Paro todos os relógios. Menos um. Depois tento acertá-los mentalmente, com as engrenagens bloqueadas, para que, quando for hora, conseguir que todos batam os segundos no mesmo instante. São centenas de músicos aspirantes a solistas. Mas eu quero uma orquestra, uma filar­mónica de Cronos que esteja em sincronia com o meu espaço interior, que cumpra as regras do bater do meu coração.
Todas as noites dou voltas pelas bancadas, esgueiro-me por debaixo das ca­deiras e penduro-me no escadote para que sinta, uma única vez apenas, a simultaneidade original. O meu avô disse-me quando eu tinha tempo, antes de saber que o tinha, que Deus não criou o mundo em sete dias, que toda a história da génese originária era um paliativo para mentes preguiçosas. Deus criou tudo no mesmo instante, como se todos os relógios do mundo houvessem batido o pé ao mesmo tempo, e desse estrondo instantâneo brotaram todas as coi­sas vivas.
O pecado original, outra farsa para imberbes – dizia o meu avô -, foi o desrespeito pelo ritmo do mundo. O primeiro homem e a primeira mulher zangaram-se porque um deles se atrasou. Não porque houvesse comido uma maçã ou um bolo-rei, e sublinhava bolo-rei com um cinismo impróprio para curas, não porque houvesse desejo de saber mais ou ser igual a Ele. O tempo foi desrespeitado, pura e simplesmente nunca me disse se houvera sido o homem ou a mulher a atrasar-se e todas as coisas perderam o lastro de pureza e a sincronia. O meu avô que lia a bíblia à luz da teoria do atraso metafísico nutriu sempre o sonho de ser ele a restaurar o tempo em que as coisas eram como deviam ser. Eu herdei as suas mãos e a sua paranóia. A dificuldade é sempre o tempo.
Um noite qualquer, uma noite sem sol igual às outras, uma noite fria e de­sacompanhada de carne, depois de cinquenta anos passados a pular para cima de cadeiras, a abrir e a fechar gavetas teimosamente iguais, dou por mim com um estranho formigueiro nos dedos.
Nessa noite fiz tudo com precisão. Parei os relógios. Todos. Pus a mão no coração e escutei. Não com os ouvidos. Escutei pela mão, escutei o ritmo todo do meu corpo, a pressão que o sangue exerce sobre as paredes das ar­térias, os impulsos micro-eléctricos de neurónio a neurónio, as células da pele a caírem no chão, ribombando como fanfarras de bombeiros. Com a mão no coração e os olhos cerrados porque se ouve muito melhor com os olhos cerrados dirigi-me a cada relógio e acertei-os de acordo com o que ouvia sentia e sei que entre um e outro decorria uma batida cardíaca apenas. Dentro dessa batida cardíaca morriam civilizações inteiras porque uma estrela ha­via engordado de luz e fogo, dentro dessa batida havia choros de bebés cujas caras me eram absolutamente incompreensíveis mas todos os bebés choram dentro dessa batida travavam-se guerras, amavam-se pessoas e coisas, den­tro dessa batida todo o espaço me era revelado como só Deus o poderia ver.
Enquanto acertei os relógios
com calma, com segurança
vi tudo o que o universo oferece e esconde. Não somente o que há, mas tu­do o que poderia ter havido, que se multiplica em cada segundo que passa pelas possibilidades deixadas para trás. Era como se, de repente, tudo es­tivesse despudoradamente nu. Vi a nudez do meu pai, do meu avô-metafí­sico, vi a minha mãe que poderia ter casado com outro qualquer e tido outros filhos quaisquer ou ter morrido à nascença ou dois anos depois vi os filhos que nunca tive e que poderia ter tido, vi a mulher que deveria ter amado, vi todas as mulheres que nunca deveria ter visto e sentei-me, pesado. O universo e seus irmãos passaram por mim, sincopados, de ba­tida em batida, e deixaram-me sozinho com todos os mundo ao colo a lu­tar por atenção.
Pendurei os tamancos. Parei os relógios todos. Disse aos clientes que pre­cisava de férias. Nunca mais voltei. Tenho ainda em mim a gritaria selva­gem do começo e do fim de tudo.
O problema é esquecer.

TRABALHO DE CASA: IMPERDÍVEL

matta
Hoje acordei mal-disposto, como se o fósforo se tivesse consumido e a chama alastrasse pelos dedos. Abro o blog e espreito de esguelha o comentário colocado no post, abaixo. Parece-me coisa irónica e reacção feminina – talve porque nas minhas aulas o quadro de Courbier provocasse sempre fartos rubores. Abro uma página e escrevo um longo arrazoado, jocoso. Antes de editar a página resolvo ver se descubro quem escreveu o comentário.
z
Só vejo um link: Trabalho de Casa. Cliquo-o e abre-se um blog. É do Valério Romão, meu amigo. Começo a ler.
Há uma hora que choro. Literalmente. O Valério é um escritor maravilhoso, o jovem escritor que mais me orgulhei de ter publicado. Infelizmente não houve condições para o conseguir catapultar ao lugar que merece – e o Eduardo Prado Coelho não deixou de o mencionar elogiosamente na longa recensão que fez à efémera Construções Portuárias, a revista literária que dirigi -, nem a sua escrita é a do meanstream dominante, e, além disso, a vida tem-lhe sido adversa. O blog Trabalho de Casa é o seu diário, onde relata um combate absolutamente desproporcional: a sua firme tentativa de comunicação com o filho Guilherme, um autista. Foi o sismo que lhe coube.
Há uma hora que choro, literalmente. O Valério escreve como um predestinado, e a nitidez, a vivacidade, com que mergulha no seu inferno, sem um pingo de complacência e sem que o seu olhar analítico tolde um grama de ternura, é atordoador. O Valério devolve-nos às coisas que importam e a sua inquirição dilata a humanidade, dá-lhe um lastro novo, novas pensabilidades, mesmo nas trevas. Choro porque a sua dor é, momentaneamente, a minha e a minha vida fica muito mais rica com isso. Veja aqui: trabalhodecasa.wordpress.com.
Não lhe serve de nada para a brutalidade que o assiste mas eu admiro profundamente o Valério.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

FACEBOOK: O MUBARAK DA MORAL

Ah, o mundo o inefável mundo não desiste, apesar de lhe ter recomendado um ror de vezes, mete férias, precisas, deixa-nos a sós com as nossas plicas, vai lá de passeio às ilhas gregas, que mal tinha um pouco de desnorte?
Ele não, quer controlar tudo e persiste, apesar de estar um caco, já lhe disse, essas olheiras são o teu calcanhar de Aquiles, mas ele ‘tá esquecido, cegou da memória como o Homero.
Vejam só (que não há só gaivotas em terra… etc., etc.): o Facebook, dada a extrema novidade da Origem do Mundo, um quadro de Courbet de 1886 (eu fui mais avisado, publiquei uma variante, onde a senhora aparece de calcinha, cf. post A PRIMEIRA MULHER QUE VI NUA, no arquivo), decidiu desactivar a página de Frode Steinicke, porque este artista dinamarquês estampava o quadro oitocentista no seu Perfil.
Faço um apelo. Que toda a gente que tem uma página no Facebook coloque o quadro do pintor francês oitocentista no seu Perfil, pois a urbanidade do século XXI não admite tamanho hálito aos mubaraks da moral.
Faz favor, façam circular este apelo: “coloquem A Origem Do Mundo no vosso Perfil do Facebook, contra os mubaraks da moral!”.
E honra a Ruby, a jovem marroquina, menor, que catapultará a queda de Berlusconi, e devolve a videosfera aos seu território virtual, pois o magnata depois de ter hodido milhões de jovens italianos com o seu lixo televisivo (e aqui não lhe interessa o sexo, como Júlio César, Berlusconi, no que toca ao que autoriza que se produza nos media, é peganhosamente bissexual) vai cair por causa de um delito cometido na áspera, espessa, rugosa realidade.
Que pena, no julgamento, que começa a 6 de Abril, não se poder ouvir Júlio Iglesias!

NÃO SE EMENDA, A CHUVA IV



vai a capa ao contrário, para que o meu amigo sinta
no seu pescoço
a dimensão do meu desconforto 
As amenidades tropicais têm lados sombrios, que arrombam qualquer vaidade.
Os Correios, nesta terra, são uma lotaria e não um serviço. Quando cheguei a Maputo há cinco anos, a coisa funcionava, depois houve eleições e o partido vencedor achou-se com legitimidade para fazer trocas e baldrocas. Como o homem que tinha arrumado a casa era da Renamo apressou-se a substitui-lo por um fiel à nomenclatura. O resultado é da mais palpável desgratificação: receber hoje uma carta é um dom, uma encomenda já pertence à ordem do milagre.
Há cinco semanas que o editor meteu no correio em Braga um pacote com alguns exemplares do meu último livro, cheirando ainda a tipografia. Há cinco semanas que todas as manhãs me dirijo à catedral de Maputo e faço uma prece para ser nesse dia que poderei cheirar, sentir o peso do livro, a volúpia da letra impressa, dirigir-me com ele ao balcão de um bar e pedir, dê-me um triplo, faz favor (as doses aqui são risíveis: é uma colher de sopa por dose), enquanto lhe acaricio a capa e imagino a noite de amor escaldante que vamos ter. Rien de rien.
Aqui deixo a capa e em baixo quatro poemas do corpinho bem feito que o livro tem:

Como se esfolasses um animal,
atiras-te ao verbo sem
dares conta: é ele quem
te impele à porta giratória

por onde se acede ao salão
que anicha, em cima
da secretária de mogno,
a tua solidão empalhada,

as tuas asas ferradas
pela obsessão
de voltares a ver a tua mão

descarnada, feita de ar.
E esse sonho
é a tua única saída.


SOPRA AS TUAS VELAS

O corpo com a idade impõe ora folga, ora um
alpendre certo (com vinha de enforcado) aos apartes,
enquanto surripia o humor aos corvos.
Um dia esquece-nos, expele pelos olhos uma faúlha

preta, e eis-nos arredados de toda a escuta
como as flores de plástico, que macambuzam a televisão
da avó. Já fui mais festivo, fotografava ao acaso
e, na ampliação, detectava a secreta geometria dos fundos,

as gengivas que desbravam o riso de Deus.
Mais presciente a minha filha de três anos:
«és a sereia Ariel ou o linguado?».

Nem hesita: o linguado!
Entra no teu silêncio e sopra as tuas velas,
recomendava, astuto, o Victor Hugo.



Assevera o psicanalista Gregório Baremblitt
com a argúcia devida a quem tem um nome
que só Jeremy Irons saberia interpretar:
há infinitos modos de voar,

não sendo necessário escolher o de Ícaro
e menos ainda o de Santos Dumont.
É o que penso a sul, fixando
nesta esplanada sobre a baía,

os seus peitos de bronze e o gesto redondo
com que o seu dedo engancha a madeixa
atrás da orelha enquanto

o seu olhar húmido me recita
trinta e três modos
de voar e de morder, pelo menos.

.
Será hoje que a vaidade me bate à porta ou continuarei a arrastar a modéstia, enquanto o galo me agarra pelos gasganetes, o galo com pés de morsa?
Há-de o sacana ter lançamento no Camões, em Maputo, apesar do torcicolo.

FOLHAS DE PARRA/1


NICANOR PARRA (1914)
poeta e matemático chileno e invariavelmente candidato ao Nobel nos últimos vinte anos, Parra, irmão de Violeta, é o anti-Neruda e um poeta que revolucionou a poesia do seu país ao rechaçar a metáfora e evadir-se de todo e qualquer obscurantismo expressivo. Poeta de grande verve, a sua capacidade para “coloquiar” com o leitor, e o seu enfoque em cenas, figuras e imagens populares e quotidianas, tornaram-no uma figura central no panorama poético da América do Sul. Entre os seus livros contam-se Poemas e Antipoemas, Cueca larga, Hojas de Parra, entre outros.
As traduções são minhas, talvez com a ressalva de Canção (e caso não seja, lamento) pois já as fiz há uns anos e não me lembro em que ataque de tosse ou de sonambulismo a terei feito, apesar de estar na mesma pasta.

VIAGEM PELO INFERNO

Numa sela de montar
fiz uma viagem pelo Inferno.

No primeiro círculo
vi umas figurinhas
placidamente recostadas
a uns sacos de trigo.

No segundo círculo borboleteavam
homens em bicicleta,
à rasca, sem saber onde apear-se
- pois estavam bravas as chamas!

No terceiro círculo reparei
numa só figura humana
que parecia hermafrodita.
Era criatura sarmentosa
e dava de comer aos corvos.

Trotando e galopando queimei
um espaço de várias horas
até ter chegado a uma cabana
no interior de um bosque
onde vivia uma bruxa.

Sacrista do cão,
foi por um triz!

Já no círculo número quatro
topei um ancião de longas barbas,
calvo como um sandeu
que montava um pequeno barco
no interior de uma garrafa.
Que afável o seu olhar!

No círculo número cinco vi
uns jovens estudantes jogando futebol
araucano com uma bola de trapos.
Fazia um frio de rachar.

Tive de passar a noite em claro
num cemitério, encostado
a uma tumba
para não morrer de frio.

No dia seguinte continuei
a minha viagem por uns cerros
e vi pela primeira vez os esqueletos
das árvores incendiadas por turistas.

Só restavam dois círculos.
No primeiro lá estava eu
sentado a uma mesa negra.
Lambuzava-me com uma codorniz
e a minha única companhia
era um candeeiro a petróleo.

No círculo número sete não vi
absolutamente nada, só ouvi ruídos
estranhos e uns risos espantosos
enleados nuns suspiros
profundos, que perfuravam a alma.


CANTA-SE O MAR

Nada conseguirá arrancar da minha memória
a luz daquela misteriosa lâmpada,
o resultado que nos meus olhos fixou
ou a impressão que incrustou na alma.
Tudo pode o tempo: sem embargo,
creio que nem a morte a há-de aplacar.
E vou explicar aqui, se mo permite
o eco mais incisivo da minha garganta.
Naquele tempo, francamente, sequer atendia
ao nome, estava longe de escrever
o meu primeiro verso ou de sofrer
o derrame da minha primeira lágrima
e assemelhava-se o meu coração, nem mais
nem menos, ao esquecido quiosque de uma praça.
Mas aconteceu que certo dia o meu pai
foi desterrado para sul, para a desviada
ilha de Chiloé, onde o inverno
é como uma cidade abandonada.
Parti com ele e sem pensar chegámos
a Puerto Montt numa manhã clara.
A minha família de sempre habituada
ao vales centrais ou à montanha,
de maneira que nem por sombras
ou telepatia alguma vez se conversou
sobre o mar em nossa casa.
Sobre esta matéria eu sabia apenas
o que na escola pública ensinavam
e adivinhava uma ou outra ribeira clandestina
pelas cartas de amor de minhas irmãs.   
Descemos de comboio entre bandeiras
e uma solene festa de paróquia
e então o meu pai puxando-me por um braço
e virando a cabeça para a branca,
eterna espuma, que ao longe
até um país sem nome navegava,
com o peso de uma oração disse-me:
«rapaz, olha o mar!». O mar sereno,
o mar que banha o cristal da pátria.
Não sei dizer porquê, mas é o caso,
uma força maior tangeu-me a alma,
e sem medir, ou suspeitar sequer,
a magnitude real do que observava,
desatei a correr, sem ordem nem concerto,
como um condenado para a praia
e num instante memorável pus-me face
a face com esse grande senhor das batalhas.
E aí, sim, estendi os braços sobre a asa
ondulante das águas, rígido o corpo
e fixas as pupilas na verdade
sem fim da distância, sem
que no meu ser se movesse um cabelo,
tal como a sombra azul das estátuas.
Quanto tempo durou a nossa saudação
não poderiam dizê-lo as palavras.
Só devo acrescentar que naquele dia
nasceu na minha mente o desassossego
e a ânsia de repetir em verso o que incessante
e onda a onda deus à minha vista recriava.
Data de então a fervorosa abrasadora
sede que me fisga até ao fundo: 
na verdade desde que existe o mundo
ressoa a voz do mar na minha alma.


NÃO CREIO NA VIA PACÍFICA

não creio na via violenta
gostaria de crer
em algo - mas não creio
crer é crer em Deus
a única coisa que me vem
é encolher os ombros
perdoem-me a franqueza
não creio nem na Via Láctea.


COMO LHES IA DIZENDO

número um em tudo
nunca houve não há não haverá
sujeito de maior potência sexual que eu
uma vez fiz ejacular dezassete vezes consecutivas
a uma empregada doméstica

eu sou o descobridor de Gabriela Mistral
antes de mim não se tinha ideia de poesia
sou desportista: papo os cem metros planos
num abrir e fechar de olhos

hão-de saber que eu introduzi o cinema sonoro
no Chile e em certo sentido acrescente-se
sim sou o primeiro bispo do país
o primeiro fabricante de chapéus
o primeiro indivíduo que suspeitou
da possibilidade de voos especiais

eu disse ao Che Guevara Bolívia nunca
e expliquei-lhe com luxo de detalhes
quando se está avisado para quê arriscar a vida
a haver-me feito caso
não lhe teria acontecido o que lhe aconteceu
- lembram-se vocês do que aconteceu ao Che na Bolivía?

imbecil me chamavam no colégio
mas eu era o primeiro aluno da turma
tal como vossas excelências me vêem
jovem - bom moço - inteligente
genial diria mesmo
- irresistível -
com uma verga de cura e padre nosso
que as colegiais adivinham de longe
apesar de eu tratar de dissimular ao máximo.


SERMONES Y PRÉDICAS DEL CRISTO DE ELQUI

XX

Na realidade não há adjectivos
nem conjunções nem proposições
quem viu alguma vez um Y
fora da Gramática do Belo?
na realidade há só acções e coisas
um homem dançando com uma mulher
uma mulher que amamenta a cria
um funeral - uma árvore - uma vaca;
a interjeição coloca-a o sujeito,
o advérbio é estampada pelo professor
e o verbo ser é uma alucinação do filósofo.



XXVI

Resumindo a coisa
ao tomar uma folha por uma folha
ao tomar uma rã por uma rã
ao confundir um bosque com um bosque
estamos a comportar-nos frivolamente
esta é a quinta-essência da minha doutrina
felizmente já começam a vislumbrar-se
os contornos exactos das coisas
e já as nuvens se vê que não são nuvens
e os rios se vê que não são rios
e as rochas entra pelos olhos que não rochas
são altares!
                  são cúpulas!
                                       são colunas!
e nós devemos dizer missa!


XLII


A presença do Espírito Santo
é um halo nítido no olhar inocente
num casulo que está por abrir
num pássaro que se balanceia no ramo

difícil que alguém possa pôr em dúvida
a presença do Espírito Santo
num pão recém tirado do forno
num copo de água da serra
numa onda que se estrela contra uma rocha

cego de nascimento teria de ser!

até um ateu treme de emoção
diante da sementeira que se inclina
sob o peso das espigas maduras
diante de um belo cavalo de corrida
de um volkswagen último modelo

o difícil é saber detectá-Lo
onde parecia não estar
nos lugares de menor prestígio
nas actividades inferiores
nos mais desesperados momentos

aí falha o comum dos mortais

quem poderia dizer qu’ O percebe
nos achaques da velhice
nos enfeites das prostitutas
nas pupilas dos moribundos?

e no entanto O Indelével nunca falha
pois permeia tudo como o sódio
que o digam os Padres da Igreja!

Genuflictamos uma vez mais
em homenagem ao Espírito Santo
sem cujo visto nada de bom nasce cresce
ou tão pouco morre neste mundo.


O TÚNEL

Passei uma época da minha juventude em casa de umas tias
arrastou-me para isso a morte de um senhor que nunca deixou de lhes estar ligado
e cujo fantasma as molestava sem piedade
tornando-lhes a vida irrespirável.

Ao princípio mantive-me surdo aos seus telegramas
e cartas lavradas numa linguagem de outra época
prenhe de alusões mitológicas
e de nomes próprios desconhecidos para mim,
muitos dos quais pertenciam a sábios da antiguidade,
a filósofos medievais de menor coturno
ou a simples vizinhos do lugarejo em que habitavam.

Abandonar assim às boas de supetão a faculdade
rompendo com os encantos da vida galante
só para satisfazer os caprichos de três anciãs histéricas
afigurava-se-me um estorvo irreparável.
E aturar-lhes toda a infinita classe de problemas pessoais
resultava, para uma pessoa do meu carácter,
um futuro pouco lisonjeiro, uma ideia descabelada.

Mas a verdade é que aboborei quatro anos n' O Tunel,
em comunidade com aquelas damas medonhas
quatro anos de um martírio inalterável
dos confins da manhã à noite extrema. Breve,
as poucas horas de ripanço debaixo das árvores
converteram-se em semanas de fastio
em meses de angústia que dissimulava ao máximo
sob pena de despertar curiosidade em torno da minha   
                                                                   [pessoa                                                                 
e assim se passaram anos de ruína e miséria,
séculos de encarceramento vividos por uma alma
inadvertida no bojo de uma garrafa de mesa!

A minha concepção espiritualista do mundo
colocava-me ante os factos num plano de franca
                                                   [inferioridade
porque eu via tudo através de um prisma
ao fundo do qual as imagens de minhas tias se entrelaçavam
com filamentos vivos, numa espécie de malha impenetrável,
que feria a minha vista, tornando-a cada vez mais ineficaz.
Um jovem de escassos recursos não se dá conta das coisas.
Às tantas vive numa campânula de vidro que se chama Arte
que se chama Luxúria, ou que evoca as leis da Ciência,
tratando de estabelecer contacto com um mundo de relações
que só existem para ele e para um reduzido grupo de amigos.
Debaixo dos efeitos de uma espécie de vapor de água
que se filtrava pelo piso da habitação,
permeando a atmosfera até tudo se tornar invisível,
eu passava as noites diante da minha mesa de trabalho
absorvido na prática da escrita automática.

Mas para quê aprofundar estas matérias desagradáveis -
aquelas matronas vigarizavam-me miseravelmente
com as suas falsas promessas e as suas bizarras fantasias
e as suas dores sabiamente simuladas
retiveram-me anos entre as suas redes
obrigando-me tacitamente a trabalhar para elas
em fainas de agricultura
compra e venda de animais -
até que uma noite, olhando pela fechadura,
surpreendi uma delas
- a tia paralítica! -
a caminhar lestamente sobre a ponta dos seus pés
e voltei à realidade com um sentimento dos demónios.

UM HOMEM

A mãe de um homem está gravemente doente
Ele parte à procura de um médico
E chora
Na rua vê a sua mulher com outro homem
Vão de mão dada
Ele segue-os de perto
De uma árvore a outra
E chora
Depois cruza-se com ele um amigo de juventude
Aos anos que não nos víamos!
Acabam por entrar num bar
Discutem riem
O homem sai para ir mijar ao pátio interior
E vê uma rapariga
Já é de noite
Ela lava os pratos
O homem aproxima-se da rapariga
Toma-a pela cintura
Dançam uma valsa
Juntos saem juntos rua fora
E riem
Acontece um acidente
A rapariga perdeu a consciência
O homem vai telefonar
E chora
Chega ao pé de uma casa iluminada
Pede para telefonar
Há alguém que o reconhece
Fique para jantar amigo
Não
Onde está o telefone
Coma amigo coma
Depois logo vai
Ele senta-se para jantar
E bebe como um condenado
E ri
Fazem-no cantar
Ele canta
E depois adormece no escritório.

CANÇÃO

Quem eras tu repentinas
donzela que se desapruma
como a aranha que pende
da pétala de uma rosa.

O teu corpo relampeja
entre os maduros pomos
que o cálido ar arrancou
da árvore da santola.

Cais com o sol, escrava
dourada da papoila
e choras entre os braços
do homem que te desfolha.

És mulher ou és deus
rapariga que te incorporas
uma nova Afrodite sobrevinda
do fundo de uma corola?

Ferido no mais profundo
do cálice, desenrolas-te,
gemes de prazer, estiras-te,
rachas como um copo.

Mulher parecida ao mar
- violada entre onda e onda –
eras ainda mais fogosa
que um céu de rubras nuvens.

A mesa está posta, morde
a uva que se passa
e beija com ira o duro
cristal que te deixa louca.





terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

SAX & CAPÃO LIMITADA: DA MÚSICA


´jazz band, matta, 1973

As insónias são para o que servem: ou planificamos o negócio sobre bonsais que nos vai confortar a reforma ou enlouquecemos; ou relê-se algo que nos trouxe alegrias e analisamos a mecânica da escrita ou a geringonça da insónia tritura-nos vivos.
Salvaguardei-me esta noite com dois dos meus hits, Nabokov e Cioran. Do romancista, o impagável «Pnin», que me devolveu uma palavra: «rododendro» – dá-me cem gramas de rododendro mal passado, por favor? – e me fulminou com um adjectivo: «toucinho opalescente.» Seria preciso escrever um livro para explicar porque é que só uma frase de Nabokov alumia um mundo. Quando se lê esta descrição: «uma cidade antiga em que a água é preciosa, com a miséria dos burros, tapetes à venda, minaretes, estrangeiros e melões, e os vibrantes pregões da manhã.», percebemos a inutilidade dos cursos de escrita criativa. Não é possível ensinar a associar a água preciosa e a miséria dos burros, os estrangeiros e os melões, ou se tem a imaginação e a crença para fazer dum inventário tão caótico algo que brilhe e resulte no encadeamento narrativo ou não se tem, ponto final.
«À sua frente um esquilo cinzento pousado no chão sobre os quadris confortáveis examinava uma pedra cor de pêssego. O vento tinha amainado e voltava agora a agitar a folhagem.» Uma pedra cor de pêssego? É Cézanne e o seu inusitado resgata a vulgaridade do cinzento. No desfecho, eu, pobre de mim, que aprendi em Hemingway, teria encurtado para “o vento voltava a agitar a folhagem”, sem dar conta que o vento vai e vem, e que essa repetição sugerida multiplica o tempo da acção tornando implícito que também o esquilo pode entretanto  levantar-se dos quadris e bazar, ficando o quadro  dinâmico e não estático. E é por isso que o sr. se chama Nabokov e não é um triste chamado Cabrita.
Mas depois de excursionar cinquenta páginas pelo russo-americano fui navegar nas águas do franco-romeno Emil Cioran. Um pequeno livro de aforismos, de título Sillogismes de l’amerture/Silogismos da amargura. Normalmente passamos pelas palavras numa pressa atabalhoada, com o Cioran isso não é possível, e vai-se sentindo o terreno como o cego apostado numa corrida de cem metros obstáculos: sentindo o risco não só em certas partes mas em todas as partes, e sofrendo o embate dos seus aforismos lapidares.
«Que não nos falem mais de povos submetidos, nem de seu gosto pela liberdade; os tiranos são sempre assassinados demasiado tarde: essa é a sua grande desculpa.», ou:
«Dizer: “prefiro este regime a tal outro” é flutuar no vago; seria mais exacto dizer “prefiro esta polícia à outra”. Pois a história, com efeito, reduz-se a uma classificação de polícias; pois de que trata o historiador se não da concepção do policiamento que o homem foi perpetrando através dos tempos?».
E às tantas, dou de caras com o capítulo Sobre a Música. Como o meu amigo José Capão é um melómano opalescente (hum, será que funciona?) e hoje faz anos traduzi para ele:

SOBRE A MÚSICA

Nascido com uma alma normal, pedi outra à música: foi o começo do desconcerto, de desastres maravilhosos…

Sem o imperialismo do conceito, a música teria substituído a filosofia: teria sido então o paraíso da evidência inexpressável, uma epidemia de êxtase.

Beethoven viciou a música: introduziu nela as mudanças de humor, deixou que nela penetrasse a cólera.

Sem Bach, a teologia careceria de objecto, a Criação seria fictícia, o Nada peremptório.
Se alguém deve tudo a Bach é sem dúvida Deus.

Que são todas as melodias ao lado da que afoga em nós a dupla impossibilidade de viver e morrer?

Para quê reler Platão quando um saxofone pode igualmente fazer-nos entrever outro mundo?

Sem meios de defesa contra a música, estou obrigado a sofrer o seu despotismo e, segundo o seu capricho, a ser deus ou maltrapilho.

Houve um tempo em que, não logrando conceber uma eternidade que pudesse separar-me de Mozart não temia a morte. O mesmo me sucedeu com cada música, com toda a música.

Chopin elevou o piano ao esplendor da tísica.

O universo sonoro: onomatopeia do inefável, enigma desdobrado, infinito percebido e inacessível… Quando se sofre a sua sedução, já só se concebe o projecto de fazer-se embalsamar num suspiro.

A música é o refúgio das almas ulceradas pela dita.

Toda a música verdadeira nos faz palpar o tempo.

O infinito actual, paródia para a filosofia, é a realidade, a essência mesma da música.

Se tivesse sucumbido às meiguices da música, às suas chamadas, a todos os lugares que ela suscitou e destruiu em mim, há muito tempo que, por orgulho, teria perdido a razão.

A propensão do Norte para idear outro céu engendrou a música alemã – geometria de Outonos, álcool de conceitos, ebriedade metafísica.
À Itália do século passado – um bazar de sons – faltou-lhe a dimensão da noite, a arte de exprimir as sombras para extrair a sua essência.
Há que escolher entre Brahms ou o Sol…

A música, sistema de adeuses, evoca uma física cujo ponto de partida não seriam os átomos mas as lágrimas.

Talvez tivesse esperado demasiado da música e não tomei as precauções necessárias contra as acrobacias do sublime, contra o charlatanismo do inefável…

De alguns andamentos de Mozart desprende-se uma desolação etérea, como um sonho de funerais na outra vida.

Quando nem sequer a música é capaz de salvar-nos, um punhal brilha nos nossos olhos; já nada nos sustém, a não ser a fascinação do crime.

Como gostaria de morrer pela música, como castigo por haver duvidado da soberania dos seus feitiços.

UM ANJO NÃO É UM GAMBOzINO

lourdes sendas

Chama-se Art Project (o projecto da Google para uma visita digital aos museus de arte) e calcina quando se abre porque a qualidade das imagens expostas supera quaisquer espectativas. Quase que equivale a ver Deus pelas costas, afastando-se, radioso: fica-se de joelhos.
Estive com um amigo a experimentar o zoom em cada milímetro de Primavera de Boticelli, a desfrutar ao detalhe as borbulhas e mazelas do tempo na tinta e a avassaladora qualidade da pincelada do renascentista. É monstruoso.
E foi quando nos detivemos no olho da Vénus, ampliado até ocupar o ecrã do computador, sem perda de nitidez ou pormenor, que fui atravessado por um estremecimento.
Segunda uma tradição milenária, essénia, só duas criaturas podem ver os anjos: as crianças de colo e os burros.
Eis-me de lupa sobre o zoom das pupilas de milhentas crianças e burros, fartamente representados na pintura da Renascença, numa procura insana: hei-de topar o primeiro anjo.
A aposta agora situa-se num outro nível: será um querubim, um trono, uma dominação, um serafim - qual, dentre da ordem dos anjos, divisarei primeiro?
As crianças não foram à escola. Temos três computadores em casa, muni-as de lupa e obriguei-as à prospecção das retinas. Com circunspecção, solenidade, um por outro carolo de incitamento.
Um anjo não é um gambozino - e a fé é quem mais ordena. Ou não é assim?

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

ANJOS E CACHALOTES

Flor Garduño
Achei em Chesterton, um autor inglês adorado por Borges, uma passagem que procurava há muito e que aqui reproduzo:

«Um homem que se apega às harmonias, que não associa as estrelas senão com os anjos, ou os rebanhos com as flores primaveris, arrisca-se a ser bem frívolo, porque se limita a adoptar um só modo a cada momento; e passado esse momento ele pode esquecer o modo em questão. Mas um homem que
se esforça em conciliar os anjos com os cachalotes deve, por seu lado, ter uma visão bastante séria do universo.»

Terei aqui um vislumbre do que a minha amiga Joana Frataria procura na Índia?