quarta-feira, 20 de abril de 2011

SENTIMENTO DA NEVE: PANERO E EU, 1


Em 2001 fiz estas traduções de Juan Luís Panero, com a Teresa. Em Portugal saiu numa edição da Fenda, e em S. Paulo saiu pela Llumme. Deu-me um grande gozo escrever o prefácio, pelo que o transcrevo, como introdução:
 

«Solo son tuyas – de verdade – la memoria y la
muerte.»
Juan Luis Panero

É difícil prefaciar o que não estamos certos de ter entendido, como a sensação, refractada num copo de whisky ao balcão de um bar manhoso de subúrbio, de que a melancolia, hoje, mais que uma afecção, não passa de uma gasta moeda de bolso, enquanto o vento lá fora sacode os plátanos e celebra a força inalterável dos elementos; o que nos obriga a ir fundo no copo, na ânsia de uma âncora; de um despojamento que só a idade dá. Ou como o traço das desapiedadas mãos do tempo nesta poesia crepuscular de Juan Luis Panero. 
Mantenho com a poesia deste poeta espanhol relações de intermitência e perplexidade. Primeiro li de um jacto o seu Galeria de Fantasma (Visor, 1988), que me agradou ao ponto de no mês imediato ter oferecido dois exemplares. Depois, comprado o volume da Poesia Completa, 1968- 1996 (Tusquets), pelo contrário, invadiu-me o torpor e o enfado e esqueci-o nas filas de trás das estantes, enquanto debicava no irmão mais novo, Leopoldo Maria Panero, um flamejante poeta irregular de voz e rosto talhados por torrentes vulcânicas e «um maldito à maneira» - a quem não falta a compulsão satânica.
E nesse precipitado primeiro juízo o meu desafecto nunca conseguiu assimilar as causas do frenesim dos poetas espanhóis dos anos oitenta e noventa por Juan Luis, a quem repescaram de um relativo obscurecimento, transformando-o numa figura de culto. Até que o modo enfático como Joaquim Manuel Magalhães se lhe refere, no prefácio à sua antologia de poetas espanhóis, me levou a “conceder-lhe outra oportunidade”. Desde então erra o livro entre o tampo e as gavetas da mesa de cabeceira, sem que eu alguma vez tenha conseguido captar com nitidez a raiz do seu real magnetismo. Suponho que acabei por traduzir Juan Luis Panero para divisar onde, entre o firmamento e o horizonte, está a sua linha de equidade: a sua fugaz mas inescapável sedução.
Lembrava, Wallace Stevens: «existem diversos graus de imaginação da mesma forma que existem, por exemplo, graus de vitalidade e, portanto, de intensidade. O que supõe implicitamente que há graus de realidade» e obriga a que o ar circule. Aliás, o ar convém circular, pois como se diz na estética japonesa, a boa poesia é como a seda, quer dizer lisa, elegante, mas a poesia suprema é como o papel – ordinário, deve manter uma certa rugosidade.  Ora, a rugosidade de Juan Luis Panero acotovela-se em janelas exteriores às minhas paisagens naturais - prefiro os vendavais que se desatam em Hugo Claus, Gonzalo Rojas, Fátima Maldonado ou Jorge Riechmann à poesia com airbag, de que Philip Larkin ou os cultores da «poesia da experiência» em Espanha podem ser exemplo. O que me levou ao vagar de traduzi-lo? O seu grau de realidade interpelava-me, mexia com os meus ecos e fantasmas, apesar de sentir que navegamos em sistemas neuropoéticos muito dissemelhantes.
Reveja-se o que vaticinava Octavio Paz numa carta dirigida a Pere Gimferrer, « Creo (...) que para usted la lenguaje no es algo dado (...) sino algo que debemos rehacer cada dia. Algo que inventamos diariamente – y que diariamente nos inventa. Me explicaré: Cernuda, poeta al que admiro, se servía de las palabras para expresar o desentrañar sus conflictos y sus visiones. El lenguaje era un instrumento para crear objectos verbales (poemas) que fueram asimismo declaraciones espirituales o psicológicas. Para un poeta como Huidobro, para escoger el otro extremo, el lenguaje en sí mesmo (...) es ya un conflicto, un problema: no se sirve de las palabras, sabe que son tan reales (o irreales) como las árboles, las casas, los aviones y las pasiones: son su ser mismo y lo que no es su ser, su vida y aquello que lo será siempre ajeno. Huidobro o la pasión del lenguaje; Cernuda o la lenguaje de la pásion. La actitude del chileno, mas allá de toda odiosa comparación sobre los «méritos» poéticos, es más radical. Es crítica y creadora: al enfrentarse con el lenguaje se enfrenta con los fundamentos mismos del mundo. El mundo no es lo que vimos, ni, sobre todo, lo que decimos. Para decir el mundo hay que inventar otra vez todo el lenguaje – todo el mundo que es un lenguaje».
Esta distinção parece-me reflectir o debate que a poesia, sob diversas máscaras, tem travado no seu seio. De modo grosseiro tracemo-lo assim: de um lado, na senda de Mallarmé, a necessidade de encontrar na linguagem um substituto do sagrado ( Mallarmé tenta resgatar a linguagem do seu condicionamento material, da sua funcionalidade, construindo uma rede que “pelo isolamento da palavra” a vivifica e traslada para o “canto”; investindo-a de um halo inaugural), de outro lado o objectivo não tanto de investir o mundo de significação como o de capturar as coisas na sua presença individual e momentânea. A que ao longo do século – com as devidas excepções em cada tradição - corresponderam os modelos francês e anglo-saxónico.
Juan Luis Panero é poeta que medrou nesta última orbe - tal como Cernuda, uma outra sua influência confessa; mas repita-se que a tipologia avançada acima é geograficamente redutora, e bastaria atentar na proposição que Juan Luis atribui ao espanholíssimo  Juan Rámon Jiminez: «Inteligência: dá-me o nome exacto das coisas!».
A obra de Juan Luis Panero, pelo seu tom pessoal, que não teme resvalar para a confessionalidade, partilha experiências directas, particulares ou locais e atém-se ao uso humildemente referencial da linguagem. Panero pertence assim, na distinção apontada por Paz, à linhagem dos poetas para quem a linguagem é um instrumento para criar objectos verbais (poemas) que são inegáveis «declarações espirituais ou psicológicas».
A falar aqui de um sentido, é da relação com a coisa-mesmo que ele se quer emergido, mesmo quando mediatizado pelas menções culturais. A poesia, neste caso, reflecte um vínculo e opera como a chave que vivifica e intensifica a experiência da vida, não ergue uma metapoética. Ao invés, Juan Luis Panero abdica de qualquer esteticismo, de veleidades lúdicas ou experimentais; nem faz da cultura «modo de emprego», tecido verbal ou material para colagem: processos que vingariam nos poetas da sua geração cronológica (Panero lançou a primeira recolha, A Través Del Tiempo, em 1968), a dos Novíssimos, ou Geração da Linguagem, e que teve em Pere Gimferrer e Guilherme Carnero figuras de topo. Essa atitude acabou por retardar o seu pleno reconhecimento, pois durante anos Juan Luis Panero foi considerado um “compagnon en retard” dos poetas da geração de 50 e “tapado” pelas ubérrimas afinidades que a sua poesia manteria com as de Jaime Gil de Biedma e Francisco Brines.
«Máscaras e Mitos» se chama o livro de crónicas em que Juan Luís Panero dá azo aos seus exercícios de admiração, levantando, numa espécie de cartografia de «sonhos, heróis e fantasmas», o seu século e as balizas do seu gosto. E às tantas, ao resgatar Max Ophuls do reino das sombras, o poeta cita o cineasta:«Eu creio firmemente que quando se começa a rodar uma película não devemos propor-nos criar uma obra-prima, trata-se simplesmente de dar o melhor de nós, de ter em conta as propostas dos poetas que nos precederam e de fazê-lo o mais simples e directamente possível». Cremos que Juan Luis Panero colocou aqui a máscara de Max Ophuls. 
Poeta de uma obra escassa (sete recolhas de poesia em 35 anos), quando se lê de um fôlego Juan Luis Panero a primeira impressão é de alguma monotonia, pois não são visíveis bruscos saltos processuais ou alterações temáticas – passa-se tudo em surdina. Parece pelo contrário um poeta já formado ao primeiro livro e que com leves flutuações prossegue a sua  (citando a fórmula feliz de Maria Pepa Palomar) «poesia-racconto, ao modo de Pavese». De livro para livro,  Panero condensa, recapitula, como se quisesse fundamentar uma disciplina da reserva, uma pedagogia da contenção, uma sageza para a reticência.
A Través del Tiempo, Los Trucos de La Muerte, Desapariciones y Fracasos, Antes que Llegue la Noche, Galería de Fantasmas, Los Viajes sin Fin, ou o mais recente, de 99, Enigmas y Despedidas: eis os elucidativos títulos dos livros de Juan Luis Panero. Nesta poesia de tónica existencialista, a realidade manifesta uma propensão para a «débacle», para a dissipação. A consciência do tempo devém um baile de fantasmas, a quem «a deriva dos incidentes» (Wallace Stevens) empresta às vezes uma inesperada harmonia, desde que se esteja desembaraçado de toda a concepção prévia, de toda a vontade de ordem, mesmo antropocêntrica: «Imagino-vos mais poderosos que o tempo tão temido, porque espíritos, plantas, hoje/ me dais testemunho do seu inútil domínio».  (Fosséis e Minerais).
Cabe ao poeta o ofício da memória, erguer recifes onde como náufragos os seus desencantos resistam ainda à diluição e ao desaparecimento, na medida em que o próprio tempo, ainda que seja o operador, se vê sujeito às  mesmas armadilhas que tornam sinistra a irmandade entre a terra e os mortos. E cabe-lhe também, com uma  sabedoria embebida em estoicismo, proceder ao massacre das ilusões – das quais a primeira é precisamente pensar-se que o leito onde se inscreve a nossa durée corre para a fonte.
Panero reflecte continuamente sobre o que a insolvência do tempo desprende da existência - separando-a, tornando-a exterior. Exterioridade que tenta e corrompe  inclusive o que julgáramos mais interior a nós: o corpo e os seus lugares de afecto/desejo. Tal como o tempo, também o corpo e as suas insufladas emoções se esvaziam, paradoxalmente, à medida que se expandem, dissipando-se no interior de si mesmos. E a tragédia estriba-se aqui: só é recuperável, pela reflexão, o que já não nos pertence e nos exterioriza. Esta contradição, entre a linearidade apocalíptica do tempo físico e a sua ambulatória, reversível, realidade psicológica, gera o pathos desta poesia aberta aos diques da experiência e à sua condição dissociativa.
Não obstante, nestes versos a natureza não é malévola, o mal não se erige como uma fatalidade: há uma dignidade no afrontamento da adversidade que a restitui como destino e que converte a inexorável espessura da morte (e da sua sombra: o esquecimento) numa espécie de brando consentimento da neve. Eis a sua grandeza. Se recensearmos os avatares culturais que Juan Luis Panero convoca – Scott Fitzgerald, Hemingway, Malcolm Lowry, Drieu de la Rochelle, Mauraux, entre outros – constata-se serem todas criaturas de antes do «pensamento débil», criaturas que toda a vida lutaram, ainda que derrotadas à partida, pela legitimação e responsabilidade de um destino. Seres do Limbo, em perpétua vigília, que cabem na definição insuspeita de Sartre: «le póete moderne est celui qui s’engaje à perdre». 
Releia-se Cioran a dissertar sobre as suas insónias e sabe-se: a vida é suportável por causa da descontinuidade que lhe dá o sonho. Ora, Panero, na escrita, antepõe sempre o filtro da consciência - um fluxo contínuo - desautorizando o duende com as armas da precisão: inteligência, e paixão (- evidentemente, a que sob o efeito da sua intensidade se desdobra em narrativa). Juan Luis Panero é um lírico que nunca se entrega à efusão da metáfora – suspeita dela - e cuja matéria verbal não perde o talhe de uma dilaceradora acareação com o real. Mesmo quando é contemplativo, o seu estado não é passivo, entregando-se Juan Luis Panero muitas vezes a jogos cénicos: «os seus poemas são antes de mais um pôr em cena teatral e às vezes cinematográficos» (César Antonio Molina). Um dos exemplos mais fascinantes deste procedimento é o poema Um Estrangeiro, que corresponde a um travelling cinematográfico impulsionado por um narrador em off que, no fim, por um assomar de espelhos, se descobre ser a personagem.
Juan Luis Panero move-se com a arguta lucidez da insónia, como um felino por entre escombros, estragos materiais, sopesando nos breves fulgores da memória a sua irradiação perpétua: essa réstia de valor que permita «entrar na morte de olhos abertos», como exorta num dizer o imperador Adriano (da Yourcenar) - personagem caro ao poeta. Será então função do vate – a sua ética por supuesto - desenvolver os atributos que Juan Luis Panero detectou em Carson Mc Cullers e Isak Dinesen: uma «assombrosa capacidade para fazer do Inferno um lugar habitável».
Outra coisa que me foi atraindo neste poeta é a triangulação entre poesia, álcool e tempo. O álcool calcina o instante, entroniza interior e exterior numa síncrona batida cardíaca, e tem por isso propriedades anestésicas, contra o tempo ou o dor que o assiste (, não me move qualquer intuito psicanalítico mas não posso deixar de assinalar que na crónica sobre o filme El Desencanto - que abordava o dia da morte do seu pai, o poeta Leopoldo Panero - Juan Luis, numa breve e mordaz sinopse sobre a sua vida, tenha mencionado por duas vezes o «irreprimível desejo» do pai em tê-lo sempre «o mais longe possível»). O álcool funciona neste poeta como o sonho noutros: é o instrumento que distorce as perspectivas, ou que abole, suspende, as suas coordenadas. Mesmo as expressivas e gramaticais: as brancas suprimem a loquacidade do tempo e marcam-lhe outro ritmo, novos intervalos, “humilham-no”, colocando o tempo à mercê da repetição. O tempo é para o alcoólico esse lagarto que os mexicanos cozem no bojo da garrafa onde fermenta uma água refractada.
Esta poesia convoca, o mais das vezes, poucos elementos, um vocabulário pobre (repare-se no  repertório estreito da adjectivação: cálido, terco, tíbio, tenaz …quase perfazem o elenco). E não são incomuns as repetições ou os “engasgues” de expressão, as que o álcool tece na sua chave de braços à desabalada velocidade do tempo. Coisa que o Lowry, um dos avatares continuamente convocados à boca de cena desta poesia, sabia como ninguém.
Não acredito num estado neutro da língua que permita uma tradução que não seja interpretativa. Provavelmente, a cada estação da vida do tradutor corresponderá uma sintonia diferente com o texto de que se parte. Na generalidade segui o conselho de Borges, contido numa resposta a Roger Caillois: «...não creio que seja possível atingir a exactidão verbal numa tradução. É mais importante encontrar a cadência que convenha ao tema. Penso isso, não somente sobre a tradução, mas também sobre a composição. Uma vez que se tenha encontrado o acento justo, nem muito alto nem muito baixo, nem muito enfático, já se tem o poema.»
Ia escrever: “há algo de blues nesta poesia”. Mas uma  rajada mais forte, que lança as ramagens contra a montra do bar e varre de uma vez a melancolia, deteve-me. Em homenagem ao poeta, peço um vodka. Ao lado um caixeiro viajante conta o drama que foi quando os seus mapas e atlas não encontravam comprador porque a pulverização da União Soviética lhe desactualizou o material. Distraio-me.


AS PEGADAS DE DEUS

eu, depois de ver o pé

Vi um pé que torna bamba qualquer medida. Bebia uma beer e concentrava-me num ensaio viscoso como crude e ao ouvir na tv do bar uma canção muito popular com uma letra absolutamente imbecil quis ver a tromba do grotesco. E à minha frente, numa cadeira contígua, balançava-se O PÉ.
Não sei se era o pé de Hércules, em negro, era certamente uma bisarma com ar de destino ou de foz. Um pé feminino, cuja genitália, imagino, deve ser um chamariz de atritos e forrada a papel de parede. Não sei se um pé chega a ter uma sintaxe, como a vespa que me sobe pelo copo de cerveja, mas este é uma frase-de-efeito que me deixou siderado.
Não é um pé tão livre como em Picasso, nem tão colorido como em Renoir, nem tão profundo como em Mondrian, nem tão poroso como em Pollock, mas que conexões, que belas incorrecções se podem fazer à sua sombra!
Um pé que lembra um bacalhau, talhado por dentro como um missal. Feminino.  Meu Deus, o sorriso é tão abrasivo como o pé é longitudinal.
Traz-me outra Laurentina?

terça-feira, 19 de abril de 2011

CIRCUNSPECÇÃO DUM EMIGRA

A barbárie está instalada. E o flagelo das suas buzinas impede-nos de ouvir o murmúrio das perguntas. É a única coisa que explica que face a esta crise política portuguesa, que de longe configura uma verdadeira birra entre comadres, ninguém faça as perguntas necessárias.
E uma deles é, claramente, já o disse jocosamente mas agora insisto para pedir que alguém me esclareça:
- Quanto custa manter um exército?
- Desmantelar um exército sai mais caro que mantê-lo?
- É prioritário para Portugal, neste momento, manter um exército?
- Não é possível reconverter a indústria do armamento?
- De que crise de fala se não se tem a força moral de se abater nas balas para se injectar no crédito às pequenas e médias empresas?
- Que critério se usa hoje para a necessidade da compra de mais um tanque?
- E se o exército anda de tanga, e nem para a graxa das botas há orçamento, para que se mantém um exército? Porque hão-de ser sempre civis os sacrificados?
- Pode o Ministério da Defesa defender-nos, se 800 militares, o número suficiente segundo o Otelo Saraiva de Carvalho, decidirem fazer um golpe de Estado? E se não, para que existe um Ministério da Defesa e a sua delapidação orçamental?
 - E por grave que seja a situação, alguém mandou o Otelo Saraiva de Carvalho dar uma volta ao bilhar grande quando se pôs a dizer que se os soldados soubessem o que sabem hoje não tinham feito o 25 de Abril?
- E em nome de quê as tão judicativas instâncias do mercado internacional quando avaliam em recessão a economia de um país não preconizam de imediato: querem crédito, abatam primeiro o exército?
Confesso que está para além do meu entendimento que depois de escolher a entropia um país peça emprestado para pagar o diligente serviço das carpideiras.
Todos os anos, pelo ano novo, cresce-me um bocado de asa e tenho de a meter para dentro, deve ser disso.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A PALAVRA QUE LAVRA RÁ

miró
A palavra crivada de caroços
a palavra quarto-minguante
a palavra que delonga o cheiro
a palavra que desincha o nevoeiro
a palavra que adoça os citrinos
e afunda a algazarra
a palavra que nunca se confessa
a palavra de inúmeros pedúnculos
a extensa palavra… perdão!
a que o meu pai não disse antes de morrer
a palavra que só nas aspas desaperta o colarinho
a que vive no sobrolho da raposa
a palavra que não se enxerga, nem miando
a palavra presa num átimo
que sorveu um lago na Suíça
a palavra abobadada num ovo
a palavra que ilumina por dentro o mel
a palavra que suicida os cemitérios
a palavra chuva, que azula as nuvens
a palavra nítido nulo
a palavra martelada por presságios
a palavra lesionada: dez contra os onze do atrito
a palavra que surripia o arrepio
a palavra que deseduca os figos, fazendo-os cair
a palavra roedora até ao sabugo
palavra que croma o vento
e se aposenta em bolinhas de cânfora
a palavra que assobiam dois incisivos tão separados
a palavra que desopina de modo promissor
a palavra cunhada e amante do cunhado
a palavra que ventila a narina do ácaro
a palavra de hulha que tossiu o mês inteiro
e a que desafinou junto à campa de minha mãe
a palavra que pesquei em Esmirna, na Turquia,
com quatro quilos e meio
a palavra que desorbita a pacatez dos legumes
a palavra que abre a china ao meio
como os polegares a laranja
a palavra desaustinadamente terna
a palavra com duas gemas por pão
a palavra que amo e por decoro nunca pronunciei
a palavra convertida em confetti
e a palavra que lavra Rá

seguem de perto o meu silêncio.

18/04/2011

sábado, 16 de abril de 2011

ARTIGOS DE PAPELARIA

sudek
BIC
É a milionésima bic que compro
desde o princípio do ano. Vermelha.
Muito rapidamente esgueirar-se-á
para lugar incerto como uma galinha
receosa de ser decapitada.
Haverá um inferno para as esferográficas
desaparecidas? Quem ou quê lhes pega,
mudando-as para o hangar das coisas invisíveis?
Verdes, azuis, pretas, vermelhas – o impulso
é o mesmo, extraviarem-se antes
que alguém lhes empreste um sentido,
a perna de um cão, a impalpável radiação
de um oximoro. Serão os «meteoritos do espírito»
de que falava o Artaud? Adestram o pulso
e depois ao menor movimento
de uma sílaba que as ameace elevar
à condição da música dão à sola.
Isto para poetas menores como eu,
para outros até o seu desaparecimento
é divino: Bic,bic,bic, bic cristal.

BORRACHA ERASER
Com uma borracha Eraser o tempo
apagou a ava gardner, a janis joplin,
a hilda hilst, com quem eu subiria
três vezes em todos os elevadores
de Manhatthan, o tempo apagou
as gencianas que havia num poema
de d.h.lawrence e os beijos-de-mulata
naquele canteiro da Malhangalene
que agora se amodorra numa tonelada de brita.
Com uma detestável borracha Eraser,
o tempo apagou o teu nome
de todos os meus cadernos e deslaçou
o meu rosto do teu sistema arterial.
Nunca mais compro esta merda. 

X-ACTO
Desenhar um baile de Catarina
da Rússia na casca de uma laranja.

RESMA
Dá-me um quilo
de anagramas
em sangue?

LÁPIS
O lápis é o champanhe da grafite
- dizem. Eu mantenho a minha
de que são os lanceolados ovos de Deus.
A Laika levou consigo na aeronave
um lápis - um utensílio anti-gravidade
ao contrário das esferográficas - e vários
blocos A4. Mas não consta
que tivesse deixado relatório e o lápis
apresentava desvairadas marcas de mordidela.

CADERNO
Na verdade, não vivo em função
da verbalização de todas as minhas experiências
– enlouqueceria rapidamente nisso.
Acho até estranho que haja pessoas
que consideram impossível não pensar.
Eu não penso, a maior parte do tempo
estou em ponto morto,
como o arquitecto a quem a luz devorou.

SALDOS
Ao lado da papelaria entra-se
para um anexo e um cartaz indica:
“vendemos cabelos brancos do Brasil”,
e: “vendemos em saldo sanitas avariadas”.



quinta-feira, 14 de abril de 2011

COITADINHO DO CROCODILO!

acorde a Lisístrata que há em si!
Estão os militares portugueses preocupados porque a penúria ameaça estender-se ao sector e há francas hipóteses do Ministério da Defesa não ter como garantir os ordenados e as reformas dos ex-militares, nos próximos meses.
É legítima a preocupação da classe. E que bom que isto se passe num país democrático, e não em África, onde esta situação se reverteria rapidamente num projecto de extorsão do poder pelo exército.
Mas fica uma pergunta por fazer: Portugal precisa de um exército desta dimensão nesta altura? Para se defender de quê? Que proveito tem um país tão pequeno e dependente em ter um exército que lhe devora uma fatia substancial do bolo que devia ser gasto em cultura, em bibliotecas, em educação, numa melhor distribuição social? Claro que há compromissos internacionais a respeitar, mas à tal Europa cínica e estritamente económica não deviam os pequenos países entregar a factura pela obrigação de estarem envolvidos em compromissos que lhes exigem um dispêndio desproporcional em relação às suas pequenas economias?
E a questão é:
Quantas consultas em oncologia custa uma bazuca?
Quantos ginásios custa um submarino?
Quantas bolsas de estudo se pagavam com um tanque?
Quantos carros de bombeiros se pagavam com um avião de combate?
Quantas peças de teatro custa um simples Tatoo Militar?
Não quero ser mal interpretado, mas constato que ou as mulheres portuguesas não sabem onde têm a cabeça, ou não têm lido muito. Ou pelo menos não têm lido a Lisístrata, do Aristófanes.
É uma simples história de mobilização das mulheres contra o prolongamento da guerra do Peloponeso, que, face à teimosia dos homens em mante-la, impulsionadas pela lucidez de Lisístrata, fazem uma letal greve de sexo. A guerra não durou muito!
Ora aí está uma forma clara de atenuar a crise portuguesa: enquanto Portugal mantiver um exército desproporcionado para as suas actuais necessidades, as mulheres deviam vestir as calças quando fossem para a cama. Mas convictamente, calças sem fecho-éclair.
Ao fim de três meses julgo que teríamos os militares de gatas, voluntariamente, a pedir demissão.
Isto também vale para a posse das armas. PISTOLA EM CASA: PERNAS CRUZADAS!
Se a boa metade da humanidade, tomando o exemplo de Lisístrata, fizesse o seu trabalho e não caísse na ladainha de um mundo congeminado pelo imaginário masculino haveria menos escolas ameaçadas por fanáticos.
Minha amiga: acorde a Lisístrata que há em si!
Time out: pernas cruzadas, mulheres do meu país.
É o futuro que está em jogo, não o engravide!

CONTRIBUIÇÃO MATEMÁTICA PARA UMA TEORIA DO RAIO

a miúda dos meus sonhos quando eu ambicionava ser ladrão de bancos. a foto é de man ray
Pediu-me o João Paulo Cotrim que lhe faça uma micronarrativa para ele incluir numa antologia sobre a pobreza. Enquanto o pássaro não vem à rede, lembrei-me de como em criança, pobre como o catano, nunca me conformei com a penúria que me havia calhado e fantasiava sobre assaltos a Bancos ou sobre os pergaminhos perdidos da família - que caíra da aristocracia miguelista até ao operariado mais profundo. Essa coisa da educação para ser “pobre mas honrado” só pode atrair crianças sem imaginação. Eu por mim estou seguríssimo que só a escrita me desviou do roubo ou das negociatas menos asseadas. Menos que isso era alinhar no jogo das decapitações. O que não me era possível, olhando para as gengivas desdentadas da minha avô, desde que aos 35 lhe acontecera algo até ao fim dos seus dias. E então, enquanto vigiava os Bancas e anotava as entradas e saídas dos funcionários, contava aos meus amigos a triste queda da casa dos Cavaleiros D’Argot, de que me julgava o último dos avatares, e justificava assim os meus pés calçados com sapatos de cores diferentes. E de tanto contar o momento da queda de todos pergaminhos da família no chão mais empedrado, soube-a de cor. É assim:   


Queda da brasonada casa dos Cavaleiros d’Argot? A que lapidou a minha avó, Judite de Noronha, na tarde do dia 5 de Novembro de 1945, um lustro depois de três cruzes da sífilis terem cavalgado o fígado ao marido amantíssimo.
Recomeçemos. Queda e agravo do destino até então inconsútil dos Faro e Noronha - século e meio após o pundonor com que, contra o cão espanhol, no Buçaco, o primogénito da linhagem, João Baptista Faro e Noronha, batalhou pela promoção a brigadeiro? A que vexou a minha avó, Judite de Faro e Noronha, na tarde do dia 5 de Novembro de 1945, cinco anos depois de enviuvar por acção das três Carpas que desemaranharam alma e vísceras ao habilitado consorte.
Tentemos de novo. Despejo e desamparo dos Dias de Carvalho? A que devorou o sorriso a minha avó, Judite de Faro e Noronha Dias de Carvalho, oitenta anos depois do sogro, o General Henrique Dias de Carvalho, ter pontapeado a primeira gema brilhante em Lunda e caçado um elefante em cujas presas se lavrava um insólito tratado de astronomia quioco; quase a seis anos de enviuvar do primo que a desabrochou como mulher - na tarde do dia 5 de Novembro de 1945.
Até então era uma viuvez contristada, sem o alarde dos corvos nos despojos da batalha. Uma viuvez sem transvazo, de olho na proporção.
E havia alguns vestidos, fora de moda, mas com a dignidade das lembranças, trajáveis numa necessidade, uma recepção, um chá em casa de amiga na Lapa, um baile em casa do comendador Fontaínhas.
A minha avó, educada para a escansão dos alexandrinos franceses e os voltejos da valsa, apesar do ar compungido dos seus três filhos menores – a mais velha tinha cinco anos à morte do pai – foi incapaz de fazer-se à vidinha, como sói dizer-se, e entregou-se aos nervos mais predadores. Os que a prostavam na cama seis meses por ano e a projectavam eufórica, alçada à fantasia mais descabelada, nos restantes. Estava amalucada, dizia a vizinhança, sofre dos nervos, retorquia a família, é bipolar, diria hoje um psicólogo ao primeiro relance.  
Portanto, não obstante a fraca ração que a pensão de tenente na reserva de meu avô lhe assegurava, como viúva, nesses anos em que a II Guerra Mundial fazia galgar o custo de vida, sazonalmente, irrompia a esperança na casa. A esperança de voltar a casar-se, de retomar o direito aos chás de sociedade ou a entrada nos chalets da Cruz Quebrada sem ser por caridade, a esperança de olhar os filhos e não os culpar pelo seu entrevamento prematuro. Seis meses de tudo ou nada – nos quais o seu corpo voltava a ser mais do que um mero acto de fala.
E era uma senhora capaz, a minha avó, Judite de Faro e Noronha Dias de Carvalho, não propriamente bonita mas com laivos que a poderiam tornar atraente e livrá-la da taxonomia em que a viuvez tende a acomodar-se.
Até aquele dia: 5 de Novembro de 1945, dia do Tatoo Militar, cujo desfile desceria a Rua do Arco de Carvalhão. As janelas do terceiro andar onde a minha avó vivia com os filhos e as irmãs gémeas eram um posto privilegiado: plantadas na desembocadura da curva para o plano descendente que o arco oitocentista rematava, consentiam uma panorâmica mais demorada. Naquele dia, dada a ansiedade que carregava o ar, teriam feito bom dinheirinho pelo aluguer das vistas, se o destino não fosse tão caprichoso.
A rua engalanou-se de cobertas e tapetes e a minha avó e as irmãs desencantaram ao fundo do báu um tapete de arraiolos, que havia resistido até então à sanha dos “penhores”. Por certo um dos mais vistosos, pelo menos nos prédios em redor, e o aparato subiu aos olhos das três irmãs, que se postaram radiosas à janela.
O piriquito da vizinha de cima não se calava e a minha avó, contra a aflição das gémeas, mais afeitas ao decoro, pôs-se a assobiar árias de ópera (estava num dos daqueles meses) à compita com o pássaro, dobrando-o por três secos sem resposta, a avaliar pela ovação das vizinhas.
E de repente alguém das janelas do quinto gritou: «vêm aí!». O rufar dos tamores e as cornetas retumbaram, circenses. E cresceu como uma onda o barulho da marcha. Breve se viram, as primeiras flâmulas e, atrás, os batalhões de comandos. Num verde que os olhares bruniam, como se as boinas tão simetricamente encaixadas nas cabeças fossem de pedra. Seguiram-se os marinheiros, num branco impoluto. Por felicidade os rostos dos militares, hieráticos mas florescidos, viravam-se para aquele lado da rua.  Depois dos marinheiros, a artilharia, com três canhões a fechar o batalhão.
Recortou-se a primeira flâmula a cavalo. E atrás, garbosos, com brilhos nos galões e nas esporas, os oficiais de cavalaria. Os cascos dos cavalos crepitavam nos paralelipípedes da rua com uma cadência tão disciplinada como a verificável na valsa – extraordinário domínio dos cavaleiros sobre a montada. Talvez tenha sido o que fascinou a minha avó: a conformidade dos cascos.
Uma pontada de vento ameaçou arrancar da cabeça o chapéu de um capitão, que desmanchou a pose fincando a palma no topo da cabeça. Um rumor de simpatia sacudiu a rua. Terá a minha avó Judite apreciado a prontidão com que aquele gesto rompeu a solenidade do ritual, sem perder pitada de postura? O certo é que sorriu. E surpreendida ficou porque o capitão-de-cavalaria devolveu, no exactíssimo momento, o rosto preso ao dela, ainda que a 15 metros, no plano ascendente da rua. Uma coincidência. A minha avó desfez o sorriso. E por que não? Voltou a sorrir. E o capitão-de-cavalaria, a 10 metros da janela, acompanhou-a na disposição. Duas vezes? Observou-o bem. Era celta como o falecido, sob o chapéu despontava uma leve ondulação dos cabelos, tal qual o mil vezes apetecido,  o rosto é que lhe parecia mais comprido. Mas o sorriso não lhe ficava atrás. O capitão-de-cavalaria estaria a cinco metros e decidiu tirar a limpo. Ou não foi consciente e unicamente não conseguiu evitar, sorrindo de novo, com toda a expressão da sua alma? E ele retribuiu-lhe. Era indubitável: era-lhe dirigido aquele sorriso caloroso, de quem sabe segurar um pássaro na mão sem o estrafegar. Ao perto o capitão-de-cavalaria melhorou muito.
E no clamor daquele sorriso nupcial desprendeu-se-lhe a placa, a de cima – fora sempre fraca a dentição na famíla – e a minha avó, Judite de Faro e Noronha Dias de Carvalho, viu-a, à prótese, ao ralenti, galgar metro a metro no vácuo – a partir de qual metro teria ele dado por isso? – e estilhaçar-se sem remédio no empedrado.
Quantas galáxias se consumiram nessa explosão? A minha avó nunca mais teve dentadura. Os vestidos foram comidos pelas traças. As filhas acasalaram no proletariado mais profundo. Os Cavaleiros d’ Argot, os Faro e Noronha e os Dias de Carvalho nunca foram reabilitados.
E assim nasci eu: deserdado.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Polpa, aroma e arte – uma novela imaginal

Na nota final que Nicodemos Sena adicionou à sua novela, «A Mulher, O Homem e o Cão» (Letra Selvagem, 2010), e onde se dirige directamente ao leitor, lê-se: «Oxalá não tenhas interpretado apenas como fantásticos e excepcionais os acontecimentos narrados neste livro – bichos que falam, homens que se metamorfoseiam em plantas e animais, cidades submersas, gente que emerge das águas, seres insepultos, sentimentos personificados… A essência do real não se encontra na visão estereotipada dos fenómenos; ao contrário, um sonho extraordinário pode se converter na realidade mais nítida e bruscamente desenhada».
Podemos encarar este aviso do escritor de duas formas, ora como irónico (com uma piscadela de olho o autor estaria a sinalizar o género literário em que se situa), ora como profissão de fé. Arriscamos, Nicodemos Sena – que diria com o poeta Alain Bosquet: ‘No fundo de cada palavra, assisto ao meu nascimento’ – alinha pela segunda.
Nicodemos Sena será hoje talvez, na ficção, o mais lídimo representante do «imaginal» (já lá iremos) da Amazónia.  Não falo de uma escrita de alguém oriundo ou a partir da Amazónia, como António Moura ou Olga Savary, mas de um autor-arauto que dimana dos mitos da sua comunidade como a manga da mangueira, com polpa, aroma e arte.
Os elementos da narrativa parecem quase minimais: uma mulher, um homem, um cão, os seus múltiplos ou metamorfoses: a criança-passarinho, o homem-cachorro, a cobra, o boto, a criatura de sete cabeças e dez chifres, a encantaria (isto é, nas lendas da Amazónia, o mundo resplandecente e invertido que vive no fundo das águas). Tudo isto comandado por uma mobilidade-transitiva-das-identidades, numa espécie de jogo de matrioskas, cujo mecanismo se dá logo no segundo parágrafo da narrativa quando, para falar da manhã que nasce, se descreve que «o sol – que, como o senhor, sabe tem uma língua esponjosa  - já lambia coisas e pessoas, pessoas e coisas, pois aqui tudo dá no mesmo» (sublinhado meu). Acresça-se a estes elementos o enigma, que funciona como gancho: quem narra e a quem é narrado nesta história - e teremos os ingredientes desde pequeno-grande livro.
À primeira vista parece de facto estarmos diante duma narrativa fantástica, sem mais; a diferença neste autor, já detectável na sua novela anterior, A Noite é dos Pássaros,  como também em Vicente Franz Cecim, é que as suas narrativas superam em muito o estado de «rêverie» para se situarem num outro plano gnoseológico.
Que quer dizer coisa tão abstrusa? Talvez nos ajude a pensar – e afastando logo a alegoria, um espectro não desejado – a distinção que C.S. Lewis faz entre alegoria e símbolo. As duas figuras são manifestações do pensamento analógico, ambas postulam uma relação secreta entre “aqui e acolá” entre o mundo das ideias e o das coisas. Mas a alegoria é uma projecção imaginada enquanto o símbolo funciona como a cópia ou reflexo do mundo imaterial, sendo um suporte para a incarnação.
Esta distinção introduz um outro plano, não apenas na ordem da leitura, como na ordem do real, e aproxima-nos do «mundo imaginal» e da sua «geografia visionária», tal como os mapeou Henry Corbin, filósofo francês, nos seus estudos sobre a filosofia e mística iraniana do século XIII. Estes autores, di-lo Corbin, repetem incansavelmente que há três mundos: a) “o mundo inteligível” puro, b) “o mundo imaginal”, designado como el Malakut, o mundo da Alma e das almas; c) “o mundo sensível”. Esse mundo intermédio, é um mundo tão real, ontologicamente, como o mundo dos sentidos e o mundo do intelecto.
Esclareça-se que esta concepção não é apenas Persa. O Mundo dos Antepassados, dos povos Bantu, ainda vigente no imaginário africano, participa desta visão de um mundo articulado nessas três modalidades do real. O mundo de alguma poesia visionária de todo o mundo reflecte também este articulado. De igual modo, o imaginário da Amazónia.
Que importância têm isto? Toda, na medida em que implica uma noção do que é a imaginação ao arrepio da que é comum. De comum associa-se a imaginação à fantasia, e reconhece-se a imaginação como faculdade da alma mas não como “parte da alma”; a imeginação recorta-se então como uma espécie de heteronomia lúdica - na sua feição positiva - ou, nos seus aspectos nocivos, como a fonte da paixão da alma e das suas  desordens. Mas a fantasia, lembra Corbin, pode ser inofensiva enquanto o imaginal nunca, exactamente porque a sua “função fantástica”, diria Gilbert Durand, “não desempenha na prática o simples papel de refúgio afectivo, ele é bem uma auxiliar da acção”, uma coisa concreta, experimental, e não um mero exercício intelectual. Trata-se da “imaginação agente” que reivindicavam William Blake e Coleridge e que hoje reconhecemos actuante em Herberto Hélder, por exemplo.
Daí que classificar Nicodemos como um autor de narrativas fantásticas seja uma maneira redutora para designar um processo (ou um jogo) que opera com vários níveis da realidade, e onde a imaginação tem um valor reminiscente.
As sociedades hodiernas não gozam de um qualquer núcleo ou centro determinado que produza identidades fixas, verificou-se um deslocamento de centros e vivemos embaraçados pelo facto desconcertante do inegável progresso tecnológico mostrar-se afinal incapaz de produzir uma “representação do mundo”.
O que era até aqui a cultura? O aparato com que se organizavam respostas. Ora, a indeterminação tornou-se a rede onde nos aconchegamos para a sesta. Não creio que para a literatura tenha sido diferente e se é hoje nítida uma morfologia clivosa na comunidade literária a isto se deve: estamos face a distintíssimas manifestações com uma aparente comum origem mas que visam meios, objectivos e “realidades” muito diversos. Convém falar disso. Quero com isto declarar que existe uma literatura do lado da fantasia e outra do lado do imaginal, e que toda a literatura de molde visionário viaja nesta última esteira, que é, diga-se, um modo operatório para sair do tempo cronológico para entrar num tempo qualitativo e numa dimensão suprasensível, aflorada numa especial percepção da realidade, e não um mero efeito da fantasia-placebo, como acontece em Harry Potter, ou  Tolkien, por exemplo.
Mas nada disto servia para alguma coisa se literariamente a coisa não se sustentasse. «A Mulher, Homem e o Cão» é uma vigorosa e rigorosa narrativa, que entrança-múltiplas-estórias-dentro da história e nos interpela com o seu modo secretamente polifónico, posto que às vezes a sua elocução muda como mudam as personagens de pele, metamórfica. Por exemplo, toda a primeira parte, após breve preâmbulo do homem, é narrada pela mulher e isso implica um prisma do mundo e um tipo de diálogos e relato muito distinto do que é encetado logo a seguir quando se conta a história do menino triste, da sua alegria com o cão e do seu rapto pelo passarinho, seis páginas que a meu ver constituem o gancho que nos agarra definitivamente ao livro. E esta variação continua consoante vão desfilando as estórias delirantes, digressivas, sem que se perca nunca a unidade, o foco. O que era difícil numa narrativa deste género, lembro uma narrativa desta linhagem, o famoso O Bebedor de Óleo de Palma, do nigeriano Amos Tutuola, um dos livros inaugurais da moderna literatura africana, e que palmilha num igual universo digressivo, de uma imaginação sem freio, mas que se perde, a meio da narrativa, perdendo a intensidade do começo. Nicodemos Sena exibe por isso aqui um domínio técnico-narrativo que é por si só um atestado irrecusável, mas junte-se a isto a limpidez da escrita, o veio poético na esteira do estranhamento e do maravilhoso de Guimarães Rosa, e, o que é mais difícil, sem sombra de epigonismos.
Agora que o universo do moçambicano Mia Couto começa merecidamente a penetrar junto do leitor brasileiro, a Amazónia oferece na mesma linhagem um autor maduro e assaz fulgurante.
E quem narra? O segredo é a alma da leitura.  
nicodemos

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O SEGREDO DO SALTO DA PULGA

Catapulta-se o mistério da vida
                    num ovo de pulga.
Todo o ar que respiras contrai-se,
inacabado,
                    num ovo de pulga.

A inexaurível energia dos teus vintes anos,
ei-la prodigiosamente vazada
                    num ovo de pulga.
Nem sentiste como os anos te amassavam; 
pelo seu detalhado, exíguo furo,
foi-te drenado o tónus
que se prosterna ao ovo de pulga.

Claro que permaneces: à espera
que o semáforo mude
e a pulga no ovo se nutra.
É irrelevante a potência
com que te entregaste
ao som e à fúria: sob
o tampo da tua secretária galhofa
grudado o inexorável
                   ovo de pulga.

Sonhas que um cavalo branco te persegue
por toda a parte?
No seu pêlo
palmo a palmo há saltos invisíveis
                    e inocula-se o ovo.

Dizes: madeiras sãs, de quina viva,
é o que tenciono afagar,
quer como carpinteiro, quer como bombeiro?
Onde o fogo não pega
medra em cachos
                    a cápsula do suctório.

Voltaste a amar, reconheces-te
nos seios da amada, no brilho da pele,
no seu riso de argúcia, na líquida
faca de mil faces?
Entre vós, mediará a pulga,
                o rosto da elipse,
não interessa se é pulga branca, se a negra,
que se esconde atrás da orelha.

                 Já pôs o ovo.

terça-feira, 12 de abril de 2011

CARTA A UM JOVEM ESCRITOR 3

man ray
O avô de Saramago era pastor e analfabeto. O neto acompanhava-o muitas vezes na jorna, aprendendo com ele os trabalhos do campo, e ia descalço. José Saramago andou muitas vezes descalço até aos 14 anos, por pobreza. Conheceu com a palma dos pés a aldeia e as terras em redor. Era um pormenor que desconhecia. E que ligo à confissão do escritor já famoso em todo o mundo, quando em Março de 95, numa sessão pública dedicada ao tema «Ficção: Processos e modelos na narrativa», José Saramago, com a experiência de 22 livros já escritos declara com franqueza que não sabia em que consistiria isso que se designava por «modelo na narrativa». Só parece uma blague para quem não lhe leu a obra, de facto, o rapaz habituado a reconhecer a variedade dos terrenos a pé descalço não pode em crescendo agarrar-se a um formato, a uma fórmula. A memória do solo vário da sua infância não admite a imposição de um único tipo de formato. E de facto quem lê Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do Convento, O ano da Morte de Ricardo Reis, História do cerco de Lisboa, O Evangelho…,  Ensaio sobre a Cegueira, ou A Viagem do Elefante, encontra constantes mas também terrenos vários, conteúdos muito diferentes. Repare-se só na extrema imprevisibilidade que vai de Levantado do Chão a Memorial do Convento e quem adivinharia que a este se seguiria O ano da morte de Ricardo Reis, e quem depois de Jangada de Pedra esperaria por O Evangelho segundo Jesus Cristo? Como se, estilo à parte, coabitassem vários rios num, múltiplas facetas. Uma vez perguntaram a Saramago quem eram os seus autores do século e ele não hesitou: Kafka, Fernando Pessoa, e Jorge Luís Borges. Ora o que é surpreendente e lhe faz a riqueza é que quanto mais leio Saramago mais fico convencido que ele é a liga que resultou da fusão dos três: o sentido do absurdo e da parábola de Kafka, a polifonia de Pessoa, e a metafísica, os labirintos e o jogo lúdico de Borges. Com a simplicidade de quem respira.
Primeiro exercício: andar descalço duas horas por dia para perceber a diferença na natureza dos terrenos e como exigem um pisar diferente, umas vezes sobre a ponta dos dedos, outros espalmando a palma, e até sobre os calcanhares. Sondar os ritmos, consoante o tipo de solo e cheirar a terra, reapropriando-se do seu olfacto.
Segundo exercício: calçar-se enquanto despe a roupa. Ir à janela sopesar o vento. Se a vizinha da frente não gritar ao ver as lufadas de ar que lhe assaltam os badalos, continuar à janela até sentir frio. Então, enregelado, sentar-se diante do ecrã e bater nas teclas até que o corpo aqueça.
Pode ser que resulte.



CARTA A UM JOVEM ESCRITOR 2

rodney smith
Eu, que tanto snobei e denegri, e que inúmeras vezes julguei espantar a cobra com vergastadas de pau, chego aos 50 com a mola da competição absolutamente avariada.
Hoje faz-me espécie o modo como os escritores se desqualificam, obcecados por rumores inexistentes e em nome duma pureza que só dissimula uma caucionada arte de trepador. O parceiro do lado é sempre mais literato que nós, que somos a única liga genuína na pernaça da Musa.
Sempre admirei, mantive e mantenho modelos em reserva e talvez isso me tenha desincentivado o gosto pelo sangue. Eis-me vegetariano.
Ainda há um ano quando andava imerso na escrita de A Maldição de Ondina e bradava aos cinco céus que era a melhor novela da década, uma noite resolvi tirar teimas e reler O Deserto do Le Clézio, só para comparar (nos itens técnicos, rítmicos, e efabulatórios), e a manhã apanhou-me acabrunhado e com umas olheiras tremendas; e perguntou-me o Rogério Manjate, «e então?», e respondi-lhe, «o gajo deu-me 6 a 0». E com um score tão negativo só me restou voltar à reescrita do livro, aos treinos, e já meti três golos, talvez um dia chegue o empate – mas o importante é o  sentimento da proporção que nos pode afastar da lisonja e da auto-satisfação, pois isso é que fermenta o bolo.
Não se entende a inveja e o ciúme entre os escritores. Que a Maria Velho da Costa tenha uma extensão lexical muito maior que a minha só me encanta porque me indica o quanto há a progredir. Sempre achei detestáveis as caturrices do Vergílio Ferreira, nos seus diários, contra outros escritores em ascensão, ou as guerras (ainda por cima exangues) por satélites entre Gastão Cruz e Joaquim Manuel Magalhães.  
Mas mesmo a um nível menos doméstico há exemplos descoroçoadores: são insondáveis as reservas que o Saramago dedica nos diários ao Paz: «Almoço com Adolfo Bioy Casares (…) Em certa altura falou-se de Octavio Paz e encontramo-nos todos concordes em não gostar do sujeito.» (1 de Abril de 94), e, simetricamente, lembro-me dum círculo que frequentei alguns anos, com passarocos de peso (Herberto e companhias), em que, por influência de Bessa Luís, o Saramago era um bombo da festa.
E eu, alarve, concordava, sem lhe ter lido ainda com atenção a obra. E quando fui obrigado a isso, por questões de trabalho, achei-me diante duma obra de indeclinável qualidade e acima das opiniões que se tenham sobre ela. Tal como a obra de alguns dos seus denegridores o é; pelo que não se descortina a utilidade do dispêndio de energias.
Contudo, o ponto máximo na rivalidade entre escritores talvez esteja na maldade com que Quevedo comprou a casa de Gongora só para ter o prazer de o despejar e de lhe mandar os tarecos pela janela.
Para o mundo dos escritores o mundo é uma pedra de moer que exige uma grande crença para ser locomovida e algum sangue e esquírolas de osso por baixo. E uma idiota rivalidade mimética alimenta muito da energia dessa crença que faz de cada autor um atleta em transpiração sobre a mó, investido da única pergunta irrespondível.
Poucos poetas e escritores conheci capazes de uma generosidade que suplante esta bárbara condição.
Talvez o Al Berto e o Fernando Assis Pacheco.
E é por eles que digo: NOS RIOS GOSTO SOBRETUDO DOS DELTAS.