sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

FONTES DO VENTO I: JOAN BROSSA

JOAN BROSSA  

Poeta, dramaturgo, artista plástico e designer gráfico catalão. De feroz ímpeto experimental, foi o inspirador e um dos fundadores do grupo e da publicação conhecida como Dau al Set (1948), uma das principais manifestações modernas da poesia visual catalã e donde sairiam figuras como o pintor Tápies. Poeta total sem distinção de géneros, o seu trabalho alargou-se à prosa poética, ao cinema, teatro, música, cabaré, design gráfico e ilusionismo.
As traduções são minhas.




O céu está estrelado.
Agora começa o poema.

Uma mesa; ao seu redor
três cadeiras.

Deve o decoro presidir tanto
aos deveres importantes quanto os prazeres
mais frívolos. O decoro
é o fruto do conhecimento
e do respeito; é o conhecimento
do sacrifício que os deveres sociais
impõem ao amor próprio
E é uma imprescindível
necessidade de afecto.

A mesa e as cadeiras estão vazias.


Este poema
tem duas estrofes.

Entre uma e outra
há uma distância
de um centímetro.

Irrompe um pranto calado
tapando a cara com ambas as mãos.

Era pastor?









Já me constaram os valores da dose
de segurança ou tolerância
estabelecidos para a quantidade
de radiação que pode receber uma
pessoa que trabalhe com aparelhos
radioactivos.

Dependure-se
deste poema
uma âncora.



A persiana pode ser horizontal
ou vertical e podes graduá-la sem
te mexeres da cadeira em que estás sentado.

Oh, sucessão do dia
e da noite!


E neste momento
faço o que é suposto fazerem os
marinheiros: com a canção de
um metem os outros a compasso
a cadência dos remos.

O calor
aumenta de dia em dia,
pois a primavera está
nas últimas e assoma
o verão.

Dafne e Cloé.
Livro Primeiro.
Prefácio.



Aqui
recorro a uma cova natural;
o plano deste poema está
situado num nível mais baixo,
não demore o escadote
         para sanar a diferença.
No corredor há pilastras
que o dividem em dois
compartimentos.

Penso em Saturno
com o seu
anel.



POEMA

A tua amizade
faz a minha felicidade.

Pela direita entra TU
cruza um passadiço e sai
pela esquerda.

Pausa.

Entra AMIZADE pela esquerda
e sai pela direita.

Pausa.

Abre-se a porta do fundo, aparece
estranhamente maquilhada FACE A MIM
e desaparece.

Pausa.

Entra FELICIDADE com um nariz de cera
Pela direita e sai pela esquerda.



ODE À HISPANIDADE
Esta cadeia vem da Venezuela.
foi iniciada por Salomé Farina
e deve dar a volta ao mundo.

Faz 24 cópias e reparte-as pelos teus
amigos por longe que estejam.

Espinoza Díaz, do Exército Venezuelano, fez
as cópias e ao cabo de nove dias recebeu
uma recompensa de10 000 pesos.
Aurelia Núñez levou a coisa para a brincadeira.
Incendiou-se-lhe a casa, perdeu
os seus familiares e ficou louca.
Em 1954 o general Ostranza não
a tomou a sério. Apanhou uma gripe
das feiotas; assim que melhorou, encarregou
o seu secretário de fazer as cópias;
mas este não as meteu no correio.
Ao fim de 9 dias houve mexidas
no pessoal e o secretário nunca mais
se endireitou.

Não rompas por nada deste mundo esta cadeia
e antes de 9 dias receberás uma surpresa
agradável.

Tal como recebi a reenvio.

Louvado seja Santo António!

eclipse

A cabeça
é um círculo. Dois círculos
com um ponto no meio
são os olhos. Duas linhas
representam o nariz e uma linha
a boca. Surge o cabelo
como um gatafunho por cima
do círculo da cabeça.

Lanço uma coisa na papeleira.
Há lutas a que se discerne o fio condutor.
Outras vezes as causas da guerra não são tão claras.
Mas a vida humana tende a ocupar a terra.

Três círculos,
três linhas
e um gatafunho. 


O MARINHEIRO

Eu sei como
fazer cruzar o mar
numa barca a três homens e três mulheres
sem que em nenhuma das duas bordas
haja dois homens com uma
mulher.

Sei como
fazer cruzar o mar a três homens
e três mulheres, não cabendo na barca
mais que duas pessoas e sob condição
de que em nenhum caso se verifique haver numa
ou noutra borda mais homens que mulheres,
mas antes o contrário, ou tantas mulheres como homens,
ou só os homens ou só as mulheres.


                                         
O SONHO DO PEIXE

O mundo
está submergido ao fundo
das águas do espaço.
Vê-se surgir uma grande claridade
seguida de gritos e gargalhadas.

Está escrito:

Não se pode explicar
nem o como nem o porquê
das cidades que existem
com ruas e edifícios
fundidos no espaço,
junto a uma praia.

E ainda mais:

O mar é vida, a morte
é praia.
A franja da lua
é muito estreita.


Três mulheres
somam sessenta
unhas.


Apesar de me sentir tão alegre, vem-me
alguma de imediato à cabeça e, deixando-me levar
por ela, ponho-me triste, tanto, que o leitor
se dá conta e fica surpreso; e eu,
esforçando-me por dizer algo, cito
razão pretérita e agarro uma cana:
é a cana com que brincava
em miúdo, como se fosse um corcel,
encaixando-a entre as pernas
para correr de um sítio
para outro.


POEMA

Escreveram-se estes versos
para que passem desapercebidos
como um cristal. Olho a rua através
do vidro duma janela.
Mirai a rua e não vereis o vidro.

Fora e dentro de vós
há um universo.

Também quero que os meus versos
deste poema sejam idênticos
às badaladas dos relógios
de torre espalhados
pelo mundo.
 



O OLHO GORDO DE HERZOG

Mais um prémio para O Olho de Herzog. O João Paulo merece porque trabalha com a paciência e a minúcia do ourives. Com um gozo que transmite à escrita.
Um dia, passei uma tarde sentado na esplanada da Pensão Martins, em Maputo, lendo o Campo de Trânsito e polindo um pequeno ciclo de poemas em prosa que lhe dediquei. Aqui os deixo, em homenagem:

AS 11 VISITAS DO POETA WALLACE STEVENS
À ESPLANADA DA PISCINA DA PENSÃO MARTINS

ao João Paulo Borges Coelho
 Adágio 1
Hapiness is an acquisition 

‘Mais claro não canta um galo’, repetia, os olhos desfechados no peito dela, dois semáforos para cegos, lambuzando a carne ‘branca como acuçenas’, já esquecido de lhe haver prometido varrer o corpo com o olhar isento de um corrector de provas, ‘escuta, aqui não há ninguém a quem salvar’, quis emendar; a boca plasmada, as mãos gretadas no ápice da fonte, ah sim, a felicidade é uma aquisição...


Adágio 16
Thought is an infection. In the case of certain thoughts it becomes an epidemic

Em miúda foi pisoteada três vezes e meia pelo mesmo casco, o dianteiro esquerdo, do Red Bone - um ginete que valia o seu peso em aricalco. Na adolescência quis pôr anilha a uma cegonha, para saber se era a mesma que em sonhos lhe caía sazonal e lugubremente na sopa. Quando casou pela terceira vez com Richard Burton, Liz pronunciou «sim» já ciente de que o pensamento é uma infecção que, no caso de certos pensamentos, degenera em epidemia. Mas onde enxergar melhor enfermeiro?


Adágio 24
The loss of a language creates confusion or dumbness

Há três verões que não faziam marmelada debaixo da mangueira do fundo do quintal. Nem em algum outro lugar experimentou o seu sexo ventania. Olhava do alpendre o folhedo que a ceifa do Inverno acumulara cerce ao tronco cansado do jacarandá e decidiu que não enfrentaria mais ao espelho a sua figura romba, o rosto esmaecido, o peito caído, a língua seca e gretada pela perda de um idioma que lhe deixara confuso e gago o espírito.


Adágio101    (lembrando Dylan Thomas)
The death of one god is the death of all

O copo escapou-se-lhe da mão, bateu e rolou ao longo do veio mais macio da velha mesa de mármore - milagre, intacto - no justo instante em que o relógio de parede, nas suas costas, dava as treze e a sua esposa, elevando a voz do escritório contíguo, lhe perguntava  a morte de um deus é a morte de todos? Dezembro enchia de musgo as árvores, retrucou ‘hum, hum...’ e, enquanto num calafrio se inteirava do desvelado extravio do seu espírito, reforçou a dose. 


Adágio 132
The time will come when poems like Paradise will seem like very triste contraptions

Tentou vender os óculos raban, do Alto Maé à Costa do Sol, porfiou com sapatos russos quase novos, à terceira vez que lhe disseram ‘não’ a um rolex afinado que até doía sentiu-se um símio em terra de deuses perdulários e então abriu a navalha e matou, ciente de que o dia chegará em que poemas como o Paraíso se considerarão artifícios muito tristes.


Adágio 151
Life is the elimination of what is dead
(Robert Lowell inquire Mallarmé)

Quando por nós bate o sino, o último alento é mais fictício ou mais premente? Donde me veio em miúdo a ideia de que a aurora depena um anjo? À medida que atravesso a casa ela despovoa-se: adeus abat-jour, sob cujo halo li Moby Dick, adeus espelho, não voltes de Guadalajara, adeus escrivaninha onde lhe enderecei mil cartas de despiste - não é isto triste? Existe algures uma carne básica, da qual a literatura seja parte essencial? E, nesse momento em que o olhar se enrola para dentro como a língua morta do camaleão e a ponta do indicador direito se toca a si mesmo no escarpado nada, quem nos apalavra o armistício? A vida é eliminação do que está morto, e a morte os ossos convertidos em gelatina amarela? Sabias tu, ó Mallarmé, que a mínima careta arranha o rosto?


Adágio 160
The great poem is the elimination of what is dead

O drama é que não torna. A folha do caderno, depois de escrita despede-se de vez, a brasa no coração só deixa cinzas. Deixe a mão de sopesar a sua realidade num seio e o salmo que se magnificava com a chuva fica mudo. Eis o despejado de melanina, o albino, fértil nos passeios de Maputo – arrepiam, no branco da chávena, os seus dedos adustos, coloridos pelo tabaco - o que nunca foi pode recompor-se? Olha-me através de uns óculos fumados que lhe acentuam um ar de mosca – é seu, ou empresto-lhe eu o semblante inumano? O amor que não resulta é o pneu que na curva se desprende do carro, tal como o grande poema é a eliminação do que está morto? E o transatlântico que se afasta, é um soneto? 


Adágio 222
Words are everything else in the world

A espuma daquele fim de tarde, na praia do Tofo, trepava-te pelo corpo, cobria-o de uma renda onde repicavam acenos suaves como o mar de Ítaca na proa da nave de Ulisses. Words are everything else in the world.


Adágio 234
The more intensely one feels something that one likes the more one is willing for it to be what it is

Desapareceu durante as três semanas de chuvas inclementes que patrocinaram no Zambeze um Museu da Calamidade. Cheguei a ponderar: estas cheias alimentam-se do meu pranto. Voltei a vê-la, dentro de um jipe. Sorria para ele, mas eu estava em trânsito, num chapa apinhado. Reapareceu mais magra, um vinco levemente violáceo sob as omoplatas, um dente partido e olheiras mais fundas que o baque surdo da bola de snooker, e eu disse que sim. Vens convalescer, indaguei, Fazes-me um chá, murmurou. Sim. Quanto mais intensamente sentimos algo de que gostamos, mais queremos que seja o que é, e ao contrário de Pedro no horto das oliveiras, eu disse três vezes que sim.


Adágio 264
Reality is the object seen in its greatest common sense

Assim que fechava os olhos, revia o sangue a gorgolejar, junto à lâmina da faca semi-enterrada no pescoço. Ele esvaíra-se ao lado do frigorífico, aos safanões, os olhos pregados de espanto no faqueiro italiano comprado de véspera. Abria-os e era outra a cozinha, os azulejos com pássaros azuis esmaltados tinham dado outra alegria à casa, e molhava o pão com manteiga no chá. À noite ingeria o leronin para obstruir os sonhos, que a realidade é o objecto visto no seu mais intenso sentido comum.


Adágio 1 (variação)
Hapiness is an acquisition 

‘Mais claro não canta um galo’, repetia, os olhos desfechados no peito dela, dois semáforos para cegos, lambuzando a carne ‘branca como acuçenas’, já abstraído de lhe haver prometido varrer o corpo com o olhar isento de um corrector de provas, ‘escuta, aqui não há ninguém a quem salvar’, quis emendar, antes dela interromper, zangada: ‘olha as minhas mamas, são pretas!’. Tens razão amenizou ele – ciente de que o silvo da felicidade é uma aquisição -, e isto é um poema.

A TRILOBITE: DAR AS COSTAS

A trilobite, o camaleão e o tubarão-martelo. Que trio. Nenhum deles povoa o imaginário infantil. Para os ronga o camaleão simboliza o infinito. Claramente por se dissimular e poder estar em todo o lado de modo invisível (a ubiquidade de Deus) e por causa da particularidade que os liga: vêem em 360%. De novo como Deus.
Arrepia pensar que a trilobite partilha uma qualidade de Deus. Não deve ser coisa boa, a avaliar pelo acossamento em que navega o tubarão-martelo. Quem olha em 360% sentir-se-à olhado em 360%? Dizia Lacan que a paranóia eclodia da impressão de ser olhado por todos os lados. Precisamos do nosso canto, recôndito, privado, de recuperar dos olhares do mundo num refúgio oculto, onde por instantes possamos ser Robinson Crusoé numa ilha, a gozar o pleno da sua solidão. Intermitentemente: desconectar.
E sempre atribuí o humano a essa possibilidade de não ver. Só quem anseia o controle deseja ver tudo, quem anseia pela liberdade aceita, como afirmou Blanchot, que todos os dias há uma coisa para não ver. Desse lugar à sombra há-de manifestar-se o inesperado, um doping vital.
A confiança, para mim, sempre esteve associada à vulnerabilidade de dar as costas. Como escrevi num monólogo dramático, O estoiro das mangas na chapa, a fala de um sem-abrigo, e de que transcrevo um trecho:
«Um dia, estava eu roto de fome,
como a pedra a quem já nem percevejo visita,
e roubei um livro, numa banca de rua,
que se chamava O Banquete. O autor tinha nome
de segurança: Platão. É com certeza um fuinha
de plantão, pensei, movido
pela evidência da miséria. Adiante,
eu queria era vender o livro
e comprar uma lata de sardinhas.
Abro-o no caminho, só para espantar o cansaço
de andar sem sequer a sombra de um caju no bucho
e calha-me ler a ementa do banquete.
Adiante, podia ser que comendo pela vista
também arrotasse pela vista.
Pelo menos na igreja estão sempre
a comparar a Palavra de Cristo à carne do mundo.
Li-o duma assentada… ganda pedra,
ainda que naquela altura o trocasse à primeira
por duas badjias ou um cachorro.
Cinco gajos à mesa, como os dedos numa mão,
põem-se a discutir sobre o amor.
Só que cinco dedos já se sabe o que decidem
fazer quando se põem a pensar no amor.
Aqueles não, era malta indecisa e tinham medo
de virar a mesa para dar azo ao apetite.
E às tantas conta um deles que os homens,
dantes, tinham 4 pernas e 4 braços
e os 2 sexos e andavam sobre os 4 braços
como se passassem a vida
a fazer a roda. Mas os homens puseram-se
em guerra com os deuses e Zeus,
que era lá o reizinho entre eles,
veio à terra e com um cabelo cortou
os homens ao meio, como se faz aos peixes.
Ficaram de um lado 2 pernas e 2 braços
e o pirilau e do outro o mesmo mais a xaxa.
E desde então, dizia o doido que estava a discursar,
cada um de nós procura o seu duplo pra acasalar.
É um céu à procura duma montanha,
um selo à procura do seu envelope,
da alma gémea… O tanas! Comigo
não dá, já deitei fora várias metades de mim
que não condiziam nada com as venetas que me dão,
mas o que tirei da história é que as costas
nasceram depois de nós. Depois de nós.
Eu adoro costas, vê-las pelas costas,
virar as costas, pôr-me de costas voltadas.
A gente diz, Não, Não, e tau,
no instante seguinte cedemos e estamos no Sim,
pelamo-nos para estar de pernas abertas para o Sim.
Mas quando viramos as costas, aí
não é palheta, é definitivo. As costas
é o que há de mais vivo em nós.
Quando conhecemos alguém devíamos perguntar,
Eh, quantas costas voltaste tu, na vida? Três?
Três?! Isso é canalha que não confia em ninguém,
nem em si mesmo. Lembrem-se do toureiro,
mata no único momento em que não vê os olhos
da besta e por isso não sabe se naquele momento
o bicho tem na ideia estripá-lo com os cornos.
O toureiro mata no momento em que pode morrer
e isso não é só o mais bonito como o mais justo.
Ao virarmos as costas é como se estendêssemos a face
para uma bofetada ou pronunciássemos respeitosamente,
em silêncio, a nossa aversão. Só fica mal visto
quem reage a quente e então quem mata pelas costas
é o mais indigno. Nós não, demos as costas
como homens de valor. Por isso: quantas vezes
voltaste as costas na tua vida, é disso que se trata.
Ter as almôndegas necessárias para nos expormos
ao perigo - eis o que encarece o respeito e o torna inteiro.
Entendem? Eu preciso de não ver para confiar.
Se eu visse tudo, brrr…até me dá um arrepio!
Se não houvesse coisas escondidas para mim
saberia lá que fazer com isso! Não ver tudo
ao mesmo tempo ensina-me a dar mais importância
ao que vejo agora, o dedo dela a encaixar a mecha
de cabelo atrás da orelha, a esticar um caracol,
estão dez mulheres à minha volta mas só uma
ao mexer no cabelo daquela maneira
me agita e só nesse gesto isolado percebo
que achei quem queria; sem esse gesto
ela não existiria fora do grupo. O livre
arbítrio é dar as costas, e nem vejo como
nem porquê há-de Deus procurar
em cada alma obediente a sua alma gémea,
quem o complete, como se fosse uma gata
borralheira desesperada por achar um sapatinho
onde lhe caiba o pé.»  
Expor as costas é para mim o passo para o dimensionamento ético, um primeiro princípio de hospitalidade. Algo que a tribolite não conceberá com a sua vigilância perpétua.

COMO DESTAPAR A LUZ?

Esta imagem, que fui buscar a asthonorengray.blopspot.com resultou de uma pinhole-câmera, ou seja é uma foto obtida a partir de uma caixa rudimentar sem lente fotográfica, e que toda a gente pode fabricar.
Para uma exposição de pinhole-câmara feita no espaço de atendimento do consulado português em Maputo, e que reune imagens obtidas pelos jovens alunos da Casa de Gaiato com uma câmera pinhole, depois de orientados pelo José Cabral e o José Tomás, fiz o texto que segue em baixo e que às primeiras linhas justifica a escolha da foto acima:

«Uma vez uma filha perguntou-me, “Pai, o escuro é o medo a fugir da luz?”.
Tinha três anos. Nunca mais me fizeram uma pergunta tão difícil e perturbadora.
Mas pessoas há que passam a vida sem dar conta
nem do desenho nem do mistério da luz.
Quem fala no vento? A árvore. Já em relação à luz
foi preciso criar a arquitectura para a vermos nos seus imensos matizes
e ainda assim para a maior parte de nós ela permanece invisível.
Só lhe prestamos alguma atenção pela alba, se o sono não nos tiver distraído.
É raro que se conheçam alguns aspectos sobre a luz:
a)      que necessita de um obstáculo que a desacelere
para que a possamos apreender:
sem a densa atmosfera terrestre a sua velocidade
deixar-nos-ia para sempre nas trevas, cegos;
b)      que há uma luz negra;
c)      que só à sombra se pigmentam os frutos;
d)     que, pelo efeito da sua refracção, as cores
que se manifestam nas coisas são a única cor que não existe nelas.
E ficava-me por aqui. E vai um pau. Pensar no enigma
da alínea d) já me dava água pela barba.
Daí que, ao ter visto que uma caixa de papelão com um furo
mínimo num dos lados e um pedaço de filme ou papel fotográfico
no lado oposto produzia imagens, me tenha espantado muito.
A minha alma ficou burra, diria a minha avó.
Mas um furo como? O buraco de uma agulha.
Por onde passa a imagem de um camelo, que vai gravar-se
no papel. A metáfora bíblica, encaixa-se, afinal,
em qualquer pequena caixa que possa servir de câmara escura.
Lá dentro fica o camelo invertido, com um ar muito atarefado.
Câmera Pinhole, se chama a este processo de obter fotos
sem lente. E é tão simples. De manhã a criança acaba os flocos de aveia,
à tarde faz-se um furo na embalagem com uma agulha e instrui-se
a cria, “Vai tirar uma foto ao gato!”. E ela vai
e volta com o gato imprimido na alma. Nunca mais se esquece.
Parece que o Da Vinci, antes de pintar a Mona Lisa,
já se entretinha a estudar o fenómeno da “câmara escura”
e aplicava os seus efeitos ao desenho. Ele há doidos felizes!
A mim não, nada disto me tinha ocorrido. A quem queixar-me
de tão abrupta ignorância? Ao bispo? Ao professor Correia,
que chamava melões às cabeças onde relampejava as bengalas?
Eis-me absolutamente a zeros (bom, a zeros – 4) sobre a luz
e as caixas pretas. E, meu Deus, o rol de imagens que despertam
numa circunspecta caixa preta a que chegou orifício:
a) mil fantasmas prateados;
b) as estrias que aveludam os lugares-comuns;
c) um relógio que pé ante pé foge do mar;
d) o sorriso de um magala cujos joelhos oxidaram anjos;
e) uma noiva a quem o vento levantou a saia até à denominação comum;
f) os 33 dentes do garfo de Jesus;
…………………………………………………………;
tantas que somos tomados por um arrepio:
e se a luz for um animal que se alimenta das tuas rugas,
das minhas – bicho que, poro a poro, calceta na pele o medo?
Embora nem sempre seja a luz dura, cruel.
Há uma luz benigna, como a que emanava da tez
daquele homem que abria os dedos e exclamava:
“tenho a mão perfurada de milagres”,
como a luz que banha o pão e dá relevo ao seu cheiro,
ou a que encheu de aprazíveis pára-quedistas
os olhos fascinados de minha filha – já ela
se esquecera da pergunta que me fizera.
A tal sobre a fuga do escuro que cinzelou estas pino-fotos
com que os gaiatos destaparam a luz.
Quem sabe quantos deles, depois disto, estudarão para faroleiros?
Eu já cá não estarei mas, não obstante,
um vendaval de luz
lembrará a minha guerra à paz do mundo.»

NÃO SE EMENDA, A CHUVA III

Há três semanas que dois exemplares do meu livro «Não se emenda, a chuva», saído quentinho da tipografia, me foram enviados por Vergílio Alberto Vieira e que não lhes ponho a vista em cima.
Debilidades tropicais. Nem sei se já foi distribuído em Portugal – suponho que sim. Viver à distância obriga-nos à paciência. Mas só com ela se decifram os hieróglifos na casca das tartarugas, diria um orientalista. Merda para os contemplativos. Queria senti-los, cheirá-los, sopesá-los, irritar-me com as gralhas, embebedar-me com as letras – já. Ainda por cima o desenho do José Mouga, a sua variante sobre a Rapariga do Brinco do Vermeer, caiu como ginjas, servindo como uma luva à melancolia do livro. Faço finalmente (?) um livro eivado de melancolia (ainda que surrada) e não o vejo? Terá sido desviado para o Zimbabué, ou aparecerá à venda nas bancas de livros de rua de Maputo? Enquanto me desidrato em ansiedade, sinto-me como os sapatos de Man Ray, e só por desabafo descarrego em baixo qualquer coisinha:

VARIAÇÕES EM BACON
para o José Luís Tavares e José Forjaz
1
A carne escorrega dos pés para a cabeça. É um movimento que contraria a gravidade e por raros entrevisto.
Assim que o peso da carne aflui inteiro à cabeça contrai o olhar em milhentas rugas.
Então, na mente, uma figura com o palor das sombras de Turner, vivifica o que foi, o que o tempo não curou e inverteu, para sempre, no bojo da inocência.

2
No estudo para um retrato de Van Gogh a sombra da figura está truncada, carcomida a meio por uma fome branca.
É um fruto do acaso mas que realça o que dá pertinácia à pintura: um instinto com pernas desamarra de si o torso das forças racionais.
O que o pintor de corvos não desdenharia.


3
Pintar um grito humano que desactive os direitos
conexos da carne e imponha à manhã
o silêncio que lhe perfura os olhos.
Uma boca de onde surda
a proa de um navio.


4
Como atingir um máximo de semelhança, da maneira mais inconsciente?
Atravesso o Tamisa sob o estardalhaço de uma prova de motonáutica e o espírito repõe-me o silêncio que infligiu a Florença um golaço do George Best.


5
Jura Sylvester que enquanto posava para o retrato eu examinava fotografias
de animais selvagens.
Tigres, suponho, a incendiar o bambu.


6
Poças de carne sobre um fundo em acrílico.
Tem sentido falar de um nu em Cézanne?
Vidas esmaecidas em pinceladas bruscas, a cuja transparência luzem ossos.


7
Chega de fora-de-campo, como o falcão desfechado pela opalescente nuvem
sobre a codorniz, ou estava de antemão numa pincelada
que fez cintilar o medo no olho da ave?
Formas fugazes sobre a tela, interceptadas por outras que se impõem,
poderosas como pensamentos carnívoros.
Só no México são os feijões saltitantes.


8
Ah, a sorte de ter um pai treinador de cavalos, ébrio pelas capitais do mundo,
a urinar de esguelha os miosótis, escondida a face,
músculo e lente afinados pelo amarelecido desaire.
O meu pai, Francis, um “retratista de danos”, ensandeceu
a fixar no vento os matizes da transparência, o nó que lhe esborratou o coração.
E legou-me o que intuiu de véspera: a improbabilidade de armistício
nas naturezas mortas.
Treinará agora com o teu os centauros do empíreo!

Ah, um morto é uma escultura que devora o buxo, não há escapatória,
sou sincero, não há como fugir a um pedaço de carne cravado na erva.
Como expor, sem retorcer a imagem, os níveis da emoção de Inocêncio X?
Que coisas pode o modelo trazer de volta, iludida a agressão do tempo?
Aquele que sonda através dos reflexos tem de porfiar no olhar,
aquele que escuta atrás da palavra tem de visar a atenção do açude,
a que peremptória mima o gafanhoto quando rumina as hastes e os
brotos da melancolia, pois, barqueiros aziagos,
matamos sempre aquilo que amamos.



de SETE FACETAS DO TEMPO
ENTRE OS CORSÁRIOS DA MACANETA*

4
A ideia de que o tempo pudesse ser massa folha-
da: uma ideia de garoto,
competia ainda o mil-folhas de domingo com o
reclamo do primeiro beijo,
sonho fatídico, onde me transmuto ainda.
Não se retalia. Pode-se até esquecê-lo, empres-
tar-lhe a sinusite,
deixá-lo a debulhar lágrimas com a fotografia, à
beira da catástrofe
onde um morto lacera, de olhos verdes.
Mas, incessante, sinuoso como o pulmão que sin-
croniza um bando de flamingos, hás-de voltar a ele como
ao pobre nome que percutes
contra os dentes, ansiando por tertúlia.
Não se retalia, ao tempo não se retalia. Pois quem
vive de travões emprestados? Como eu,
nessa noite especial, ondulante,
em que forcei a insónia para ouvir pela rádio o último
round entre Ali e Frazier
– dois lençóis friáticos treinados para ficarem
num fiapo muito antes de lhes chegar traça –
eu, um miúdo ainda de todo alheio
aos knock- outs de Cortázar, à malsã
auto-piedade do Sísifo de Camus, às laranjas azuis
de Éluard, criança ainda de todo inepta
para deduzir que contra os relógios só o alho-porro
e, sobretudo, não picar com a mesma faca amor e ciúme.
E disposto a confiar nele como na vitalidade do
nariz que pinga,
e a incutir: você é quem sabe, você faz o preço!
E o tempo, sorna, de sorriso a tiracolo, a descar-
nar-me as gengivas,
a enrodilhar-me nas suas veias de lobo
( - a sua pata de papelão não perdia de vista
o meu mealheiro sobre o frigorífico), (atenção, há um corte no texto)
enquanto Ali - grafitos indeléveis no céu
de Órion - ginga ao canto, furtando-se
ao amasso de Frazier, e resiste,
uma e outra vez, dando enlace e realce
ao delicado equilíbrio das estrelas ascendentes.


6
Mais meia-hora da carga valente que caiu e podia
apresentar às miúdas o general Custer.
A Luna dançou à chuva, a Jade adormeceu no ful-
cro da tempestade.
Eu, dado o adiantado da água temi que o dragão
sem freio do tempo nos mergulhasse,
a mim e à T’resa, nas comportas do amor para
nos cuspir depois nas suas margens
já sem o escalpe da memória.
O Capão, depois de examinar no tecto a qualidade
da construção – nem uma gota digna de um dedal –,
mais tranquilo, explica à Isa as manobras do seu exercício
de Sudoku.
Encho a fornilho do cachimbo com o tabaco que
me trouxe Sitting Bull, de tudo aliviado.

*A Macaneta é uma praia a 40 km de Maputo

A TENTAÇÃO DA GORDURA

O objectivo do pistoleiro: posts certeiros
Um pequeno quiproquo com um amigo a propósito de um post nesta casa - nunca me cansarei de repetir esta palavra: quiproquo - levou-me a pensar sobre a motivação de fazer um blogue, a partir deste meu casulo a 10 000 km da insidiosa palavra diáspora. E cheguei a esta parábola: um homem é como uma cebola, vai-se desfazendo das camadas até sondar o núcleo, o osso, onde tudo ressoa a prata oxidada. Depois, ou tem vocação para a anorexia ou manto a manto se volta a cobrir. Não por pudor, mas porque por dentro está frio enquanto lá fora se ouve a campainha da carrinha dos sorvetes. Este contraste é que o puxa ao tango, o que nem sempre dá acerto quando não se é argentino.  

A PROVA

Para quem tivesse dúvidas - ver post anterior - a prova. Encon-trado o Caprotti. Não há dúvida, só os italianos nos embarrilam assim.
Tudo começou no engodo da 
musa de Dante - uma rudimentar cachopa impúbere, desde aí enfiam qualquer quadrúpede no mínimo buraco de agulha. Embora Berlusconi seja uma tribolite.

MADAME CAPROTTI


Mona Lisa, a própria

Mesmo a Maputo chegam estas novidades de arromba. Madame Gioconda, afinal, era mister Salai, de sua graça Gian Giaomo Caprotti, que começou a trabalhar com o artista aos 16 anos e esteve com ele 25 anos, tendo sido a sua musa e o seu modelo, durante vários anos. O pintor, dizem os experts que – analisando cópias digitais de muito boa resolução, segunda a notícia - chegaram a tal conclusão, deixou indícios pintados nos olhos da Gioconda: uma minúscula letra com a letra L de Leonardo e S de Salai. Bom, está tudo dito. Pena que tais nano-letras que cunhariam a prova só possam ser lidas por ácaros, ou por ampliações de muito boa resolução. Mas fica por saber se o método não permitiria descobrir em pormenores de quadros do realismo socialista a pulsão de Jackson Pollock? Talvez seja método que revolucione tudo.
Na verdade, sempre me pareceu - coisa que silenciei até hoje - que o rosto da diva se assemelhava a uma nádega, e para mim era o único enigma, enigma pífio na medida em que nada me move, pelo contrário, contra a existência das ditas. Porém, a imagem inspira-me essa ambivalência.
Havia que terminar isto com uma citação latina. 











quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

E NÂO SE PODE EXTERMINÁ-LOS?

Leio no facebook do Carlos Alberto Machado:

Coitado, recebeu carta de editora!
«Um escritor meu amigo propôs a uma editora a publicação de um romance de sua autoria. Fê-lo via e-mail. Passados 3 (três) minutos, um senhor de lá respondeu:
Boa tarde, Obrigado pelo seu contacto. Não estamos a aceitar originais. Cumprimentos, JM” (sic)
“Ao menos foram rápidos”, disse-me o meu amigo escritor, “nunca houve despacho maior. Parece uma ficção: um gajo leva três meses a empobrecer a si e aos seus até à quarta geração da sua genealogia para escrever a sua noveleta, mete no prego o último ourito da mulher, para irem comemorar o triunfo da palavra FIM, e antes de irem jantar a um rodízio brasileiro, a família em meia-lua assiste ao envio do e-mail para a editora com o futuro a ouro estampado no anexo. E quando regressam do jantar, onde gastaram a massa de uma semana, a editora já tinha respondido: não estamos a aceitar originais.
É caso para perguntar: as editoras vivem de quê, afinal?”»
De facto: podiam ao menos ter lido para em propriedade dizerem que não. Ou então explicarem: estamos com a programação cheia e de momento não há orçamento para o menor improviso. Mas aí colocava-se a questão, e se no manuscrito que não leram, está o livro que lhes faria dar o salto financeiro e manobra para os improvisos? Como é que uma editora responde à cabeça: não estamos a aceitar originais? Uma mercearia pode não aceitar batatas, legumes, pêssegos carecas? Um clube de futebol pode não aceitar golos?
Lembro-me do que me espantou ler nos Cadernos de Lanzarote a ansiedade com que Saramago, quando acabava um livro, ficava, quanto à possibilidade do seu editor não gostar do livro e não o publicar, e de alguns comentários de alívio que tece sobre as respostas positivas aos mesmos por parte de Zeferino. Seria com certeza uma prerrogativa de respeito entre dois homens que se conheciam e estimavam, uma derradeira postura de humildade. Ou esse fundo de incerteza existia, de facto?
É caso para re-perguntar: as editoras vivem de quê, afinal?
E já tive a sensação de me terem recusado à cabeça um livro por ser meu, antes sequer de ser manuseado,
lido. Importava mais a origem que o texto. Coisas humanas. Algo de muito fétido coa o reino da Dinamarca.

PS – Para nem tudo ficar mal, dois livros recebidos de que gostei muito: os últimos de Hélder Moura Pereira e de Armando da Silva Carvalhos. Hei-de voltar a eles.


a anunciação

Estúdio de Francis Bacon
Na Mongólia, o sonhador pode sonhar por um outro, ou até sonhar por numerosas outras pessoas. Leio e pasmo.
Aí estava um negócio - fosse eu um xamã de igual qualidade.
De qualquer dos modos esta é a única explicação que encontro para um sonho que me perseguiu durante anos, ao ponto de se ter cunhado como uma recordação que eu reportava ao vivido. Durante anos – uma década, precisamente – estive convencido de que quando me casei com a minha primeira mulher tínhamos ido viver para uma casa emprestada, na Avenida Todi, em Setúbal, até a nossa, oferecida pelos pais da noiva, estar pronta.
Era um apartamento, num primeiro andar de grandes janelas rasgadas – a casa fora em tempo adaptada a loja –, um T-0 com kitchnet. O facto é que aí vivi – seis meses - o único período de pacificação do casamento, ternos, unidos, degradando-se tudo quando nos mudámos para a nossa casa.
Anos depois, sempre que voltava a Setúbal, palmilhava a avenida, procurando a casa, em vão. Todavia, eu tinha presente cada pormenor do seu interior, a mesa redonda de mogno com flores de marfim embutido, os cadeirões com almofadas vermelhas, a estante de boa madeira que em noites ímpares acordava em mim sonhos de larápio, a Clara no balcão da cozinha a rechear as beringelas, o tapete com dois peixes em 69… A avenida é que teimava em desmentir-me.
Quando eu e Clara nos pudemos reaproximar, sem dano ou atribulações, perguntei-lhe pela casa, e jurou-me ela que fôramos para a casa nova no próprio dia do casamento.
Ainda não estou convencido, apesar de a partir de hoje ter por certo que um sonho de outrem me visitou e que não passamos do atelier de alguém.