quinta-feira, 24 de março de 2011

JOHN BERGER, fosfato de cálcio

Este post é para os meus amigos brasileiros , pois julgo que o John Berger, pelo menos como poeta, não está publicado no Brasil. Conheci-o numa tradução espanhola e depois pedi ao Helder Moura Pereira que traduzisse o livro para a defunta «Íman Edições», que dirigia com a Teresa. Infelizmente, o princípio da realidade impôs-se e fali antes de conseguir publicar «E OS NOSSOS ROSTOS, MEU AMOR, FUGAZES COMO FOTOGRAFIAS», na belíssima tradução que aqui transcrevo. Fiz ainda a diligência de o recomendar a outro editor, o da «Quasi», mas desconheço se o livro chegou a sair antes da «Quasi», por sua vez, ter falido. A beleza destes textos é que é imemorial e espero que seja um lenitivo para a ciática do Tuca.

As belas fotos, inéditas, são do fotógrafo moçambicano Luís Bastos:

ERA UMA VEZ


Primeiro foi uma lebre. A dois mil metros de altitude, numa fronteira de montanha. Para onde se dirige? – perguntou o funcionário da alfândega. Para Itália, disse eu. Porque não parou? – perguntou ele. Julguei que me tinha feito sinal para avançar, respondi. A partir desse momento a conversa acabou, porque uma lebre atravessou a rua a correr, a poucos metros de nós. Era uma lebre magra, com uns tufos na ponta das orelhas acastanhadas. E apesar de não correr com muita velocidade, corria para salvar a pele. Às vezes acontece.
Alguns instantes depois, a lebre voltou a atravessar a rua para o outro lado, perseguida desta vez por uns cinco ou seis homens, correndo ainda mais devagar que ela e com o ar de quem tinha acabado de levantar-se da mesa. A lebre corria na direcção dos rochedos e dos primeiros pedaços de neve. O funcionário, aos gritos, dava indicações para apanharem a lebre – e eu segui o meu caminho e transpus a fronteira.

O animal seguinte foi um pequeno gato. Um gato completamente branco. Vivia numa cozinha de chão irregular e chaminé aberta, com uma mesa desconjuntada e paredes rugosas, caiadas de branco. Quando estava junto à parede, o gato tornava-se quase invisível, só se viam os seus olhos escuros. Quando virava a cabeça, desaparecia no interior da parede. E quando se punha aos saltos no chão ou em cima da mesa, parecia um ser que se evadira da própria parede. O modo como aparecia e desaparecia dava-lhe a intimidade misteriosa de um deus do lar. Eu sempre achei que os deuses do lar eram animais. Por vezes visíveis, por vezes invisíveis mas sempre presentes. Quando me sentava à mesa, o gato saltava-me para os joelhos. Tinha dentes aguçados e tão brancos como o seu pêlo. E uma língua cor-de-rosa. Como todos os gatos de pouca idade, passava a vida a brincar: com a cauda, nas costas das cadeiras, com o que ia encontrando no chão. Quando queria descansar, procurava um sítio confortável e aí ficava. Ao olhá-lo, fascinado, durante uma semana, notei que ele escolhia, sempre que podia, uma coisa de cor branca – uma toalha, uma camisola, roupa interior. Então, de olhos cerrados e boca fechada, enrolava-se todo e tornava-se invisível no meio das paredes brancas.

Uma aldeia nos montes, não muito longe de Pistoria. O cemitério da aldeia era rectangular, com muros altos a rodeá-lo e portões de ferro forjado. À noite, a maior parte das sepulturas ficava iluminada, cada uma com a sua vela. Eram luzes eléctricas, ligadas a iluminação pública. Ficavam acesas toda a noite e eram muito mais do que os candeeiros da rua da aldeia. Logo a seguir ao cemitério, a estrada fazia uma curva acentuada de onde saía um caminho de terra batida que conduzia a uma quinta. E foi ao longo desse caminho que eu vi os patos cinzentos.
Em várias outras ocasiões tinha já encontrado a família toda. Instalavam-se muitas vezes numa escarpa coberta de erva, sob uns silvados mesmo em frente do cemitério. Da primeira vez que vi as luzes do cemitério ao crepúsculo, reparei nos patos meneando-se de um lado para o outro sobre o verde nocturno da aldeia. Pato, pata e seis filhotes.
Mas desta vez era apenas o macho, quase imóvel no meio da estrada, de cabeça baixa mordendo o pó. Só ao fim de um minuto, mais ou menos, me apercebi de que estava sobre as costas da pata, totalmente invisível debaixo dele. De vez em quando abria as asas, que apareciam então sob as patas do macho, para depois se aquietar e voltar a mergulhar no pá da estrada. O ritmo da investida aumentava. Por fim, atingido o clímax, o pato saía de cima da fêmea e esta regressava à sua forma real. E ele deixava-se cair por terra. Ali, deitado a seu lado, sentia-se como se tivesse sido alvejado. Um pequeno saco cinzento carregado de chumbo e com a forma de um pássaro. Ela olhou à volta, levantou-se, sacudiu as asas, endireitou o pescoço e lá foi, confiante por saber que assim os filhotes já a podiam encontrar outra vez.

Certa noite, passeando no campo perto de Prijedon, na Bósnia, descobri um pirilampo solitário, com a sua luz de âmbar verde, no meio de umas ervas. Apanhei-o e levei-o na ponta do dedo, onde reluzia como opala eléctrica num anel. À medida que me ia aproximando de casa, as outras luzes, demasiado fortes, faziam com que se apagasse.
Pu-lo em cima de umas folhas verdes na cómoda do meu quarto. Sobre o toucador havia um espelho que ficava mesmo em frente da janela. Deitado de lado na cama, eu podia ver uma estrela reflectida no espelho e por baixo o pirilampo, em cima da cómoda. A única diferença entre os dois. A única diferença entre os dois é que a luz do insecto era um pouco mais verde, mais glacial e distante.

yellow II
            Onde estará agora Tony Goodwin? A sua morte afirma que nunca mais poderá ter presença em qualquer lugar: que cessou de existir. E, fisicamente, é verdade. Há duas semanas queimávamos folhas secas no pomar. Agora caminho sobre as cinzas quando vou até à aldeia. Cinzas são cinzas. A vida de Tony pertence historicamente ao passado. Fisicamente, o seu corpo, simplificado e reduzido ao carbono pelo fogo, reentra no processo físico do mundo. O carbono é pré-requisito de qualquer forma de vida, a fonte do orgânico. Digo a mim mesmo estas coisas, não para elaborar uma capciosa alquimia da imortalidade mas para não me esquecer de que é a minha concepção do tempo que está a ser interrogada impiedosamente pela morte. Não vale a pena usar a morte para simplificar as nossas vidas. Tony já não está dentro do nexo do tempo tal como é vivido pelos que, até há pouco tempo, eram seus contemporâneos. Mas estará sobre a circunferência desse nexo (circunferência de um círculo, não de uma esfera), tal como os diamantes e as amibas. E todavia também está do lado de dentro, como todos os mortos. Numa condição que é a de tudo-o-que-os-vivos-não-são. Os mortos são a imaginação dos vivos. E para os mortos, ao contrário dos vivos, a circunferência da esfera não constitui fronteira nem obstáculo.



A pulsação dos mortos
    tão interminavelmente
constante como o silêncio
que devora o tordo.

Os olhos dos mortos
      gravados nas palmas das mãos
enquanto caminhamos na terra
que devora o tordo.



UMA VEZ, EM AUXONNE

            A estação dos correios de Auxonne é muito pequena e a empregada tem olhos azuis. Fui lá somente duas vezes.
            Da primeira foi para te mandar uma encomenda; enquanto a empregada a pesava na balança, eu imaginava as tuas mãos a abri-la.
            “Quatro quilos e trezentos”.
            Numa encomenda feita com as nossas próprias mãos, há uma mensagem que não pode ser pesada: os dedos do destinatário a desatar o nó feito pelo remetente.
            Naquela estação dos correios, eu imaginava os teus dedos a desatar os nós que eu tinha feito em Auxonne.
Dez dias depois voltei à cidade e à estação dos correios, desta vez para te mandar uma carta. Lembrei-me do dia em que expedi a encomenda e de ter sentido uma certa perda. Mas que poderia eu ter perdido? A encomenda chegara em condições. Tinhas feito sopa de beterraba. E a garrafa de água destilada com flor de laranjeira, tinha-la posto sobre o armário, um pouco acima dos teus vestidos. A única coisa que se perdeu foi o fugaz futuro daquela encomenda.
O que choramos no luto pelos nossos mortos é a perda das suas esperanças. O homem-da-encomenda estava já morto, nenhuma esperança lhe restava. O homem-da-carta tomou o seu lugar.



Os Adãos e Evas
sistematicamente expulsos
com que tenacidade
voltam todas as noites!

Antes,
quando nenhum deles
sabia contar
e não havia meses
nascimentos música
não tinham número os seus dedos.

Antes,
quando nenhum deles sabia contar
sentiriam
o tremor por trás das pálpebras
a sede ao fundo da garganta
outra coisa que não
o perfume de flores infinitas
e o bafo de animais imortais?
No seu sono sereno
terá a ponta das suas línguas
procurado o botão de um outro gosto,
mortal e transpirante?

Invejariam a ansiedade
dos que viriam depois da Queda?

As mulheres e os homens ainda regressam
para viver ao longo da noite
todo esse tempo imemorial.

E com a pontualidade
do primeiro pelotão de execução
a expulsão chega com a aurora.


DISTÂNCIA

Encheste o termos de café
guardaste as nossas pegadas para o caso
de ser preciso enfrentar o perigo
    da neve eterna
      que nada testemunha.

Inseparáveis, como carpinteiro e martelo,
ensinávamos a distância
a construir um tecto
    com as árvores
      por entre as quais fugimos.

No silêncio que ficou atrás de nós
já não ouvimos a longínqua
pergunta na casa de verão:
    E amanhã, onde
      iremos?

Ao crepúsculo os cães aparelhados receiam
que a floresta não tenha fim.
E todas as noites no meio da neve
    acalmamo-los
      com o nosso riso imprevisível.

blue I

UMA CANÇÃO DE AMOR

As montanhas são impiedosas
a chuva derrete a neve
há-de gelar outra vez.

Nos café dois estrangeiros
tocam acordeão
e os homens todos cantam.

As melodias ocupam
as bolsas do coração
as cavidades dos olhos.

As palavras ocupam
os estábulos
que mugem entre os ouvidos.

A música barbeia as maxilas
distende as falanges,
a única cura para o reumatismo.

A música limpa as unhas
amacia as mãos
extrai os calos.

Um café cheio de homens
vindos do gado encharcado
do óleo diesel, da pá eterna,

agora acariciando
uma canção de amor
com mãos menos rudes.

As minhas abandonaram os pulsos
e atravessam as montanhas
à procura dos teus seios.

No café dois estrangeiros
tocam acordeão
a chuva derrete a neve.


          Acordamos na casa de um amigo, onde havia um piano. Dormíramos num colchão, no chão. O piano estava no piso de baixo. As duas crianças da casa estavam a treinar um exercício antes de irem para a escola. Um exercício para quatro mãos. Às vezes enganavam-se e voltavam ao início da frase.
Se vivêssemos no século dezoito, quando todas as questões eram portas que se abriam de par em par para os jardins, eu podia perguntar-te: Lembras-te? Mas no nosso século, quando só não há limites para o mal e a indiferença, não nos podemos dar ao luxo de perguntas desnecessárias; em vez disso, temos de nos defender com as certezas a que pudermos deitar mão. E eu sei que tu te lembras.
As duas crianças tocavam de uma forma leve e compenetrada e as notas iam enchendo a casa. Estavas deitada de costas para mim, os teus seios nas minhas mãos. Nenhum de nós fazia o mais pequeno movimento. A música obrigava à breve audição e nós ouvíamos – olhando no vazio, tal como olhamos as flores do papel de parede no quarto de um hotel, sem realmente as vermos. Acordar assim, ao som da música tocada de forma tão leve e compenetrada por aquelas crianças, antes de irem para a escola, foi o mais perto que alguma vez poderemos estar de acordar em casa, meu amor, antes de partirmos.
    
blue II
          Aquilo que me reconcilia com a minha própria morte é, mais do que outra coisa qualquer, a imagem de um lugar: um lugar onde os teus ossos e os meus fiquem sepultados, atirados para ali, nus, juntos. Disseminados, numa confusão desordenada. Uma das tuas costelas está apoiada contra o meu crânio. Um metacarpo da minha mão esquerda repousa dentro da tua bacia. (Contra as minhas costelas quebradas, o teu seio, parecido com uma flor). As centenas de ossos dos nossos pés estão dispersos como areia. É estranho que esta imagem da nossa proximidade, apenas ligada por fosfato de cálcio, possa produzir um sentimento de paz tão grande. Mas é isso, precisamente, o que acontece. Contigo eu posso imaginar um lugar onde me seja suficiente não ser mais do que fosfato de cálcio.

quarta-feira, 23 de março de 2011

TAYLOR & SÓCRATES: O DESENCONTRO

Morreu Elizabeth Taylor. Eis o que em mim silenciou a demissão de José Sócrates. Aliás Sócrates, sabê-lo-emos numa próxima biografia, era o nome do ginete que encheu de correrias a infância de Elizabeth, dado pelo seu pai marchand de arte, nesse último momento em que a actriz foi feliz, antes de se meter nas fitas.
Não sei o que o demissionário primeiro-ministro português pensava de Cleópatra. Eu sempre tive uns ciúmes danados de Richard Burton, e só desviei dali a cisma quando Elizabeth se perdeu de amores por um camionista, nos idos de oitenta, e eu movi o holofote para a hipótese de consolar a velhice de Ava Gardner – se me aparece um camionista como rival na cama eu abdico imediatamente, há que ter consciência que face a certos limites físicos nem o ioga nos ajuda.
Não sei, repito, o que o ex-primeiro ministro português, cuja queda fez cair o Euro – o que mais me impressionou neste preâmbulo da opereta nacional -, pensava de Elizabeth Taylor; o que eu tenho a certeza é que a sua actuação como primeiro-ministro foi sempre a de alguém que se julgava a protagonizar Quem tem Medo de Virgínia Wolf? Essa foi a sua desgraça, e a nossa.
Sócrates descobriu em si uma heteronomia que o levou muitas vezes a privilegiar o seu lado de actor sobre a seriedade exigida pela matéria específica do que circunstancialmente estava em jogo e era nítido que ia aos debates parlamentares para se ouvir.
A desgraça de Sócrates nasce das suas evidentes qualidades políticas – é por exemplo espantoso como após o desgaste de 6 anos de governação chegou aos debates das últimas eleições legislativas e papou todos os debates televisivos sem excepção.
O Francisco Louçã, que embrulha hoje toda a esquerda com os seus esgares e os seus arremedos de economia, e que se julgava eleito para tribuno do século, nunca lhe perdoará ter perdido o debate. E Pedro Passos Coelhos, recém-eleito como o galito-mor da oposição de direita precisa de um combate que o confirme. Ele não tem nada a perder. Se as coisas lhe correrem bem será o novo homem providencial, se lhe correrem mal acusará o sistema instalado. E Paulo Portas, arguto como Deneuve nas suas representações, sabe que é a oportunidade de chegar ao poder num novo acordo com o PSD.
O que é risível nesta pífia opereta da política portuguesa é que todos têm razão. Como naquela história que muitas vezes se atribui ao Talmude: um doutor de leis procurava, na presença dos seus discípulos, fazer justiça entre dois queixosos. Exposto o caso do primeiro, decidiu o juiz dar-lhe razão, até ter reflectido longamente. Mas quando o segundo terminou a defesa da sua causa, o juiz, depois de nova e longa reflexão, deu-lhe também razão. Os discípulos espantaram-se ao ver o seu mestre dar razão às duas versões contraditórios dos mesmos factos, ao que o juiz respondeu, depois de ter voltado a reflectir: «Com efeito, também vós tendes razão.»
A oposição tem razão, a economia não pode crescer unicamente com medidas de austeridade que só penalizam os menos favorecidos, e Sócrates tem razão, os juros da ajuda externa ao país só não subirão dramaticamente se houver confiança dos mercados, e isso exige estabilidade e medidas duras. E quando é assim, e com o país absolutamente atolado na crise, era preciso abandonar as paixões e ensaiar um meio-termo, um consenso.
E é patético que, para conseguir garantir as reformas que Portugal se comprometeu a adoptar na última cimeira da CEE, Passos Coelho apresente como medida alternativa a subida do IVA em todos os produtos.
Por isso apesar de todos terem a sua parcela de razão tem mais razão o Luís Carlos Patraquim que me mandou durante a tarde um MSN em que dizia, preto no branco: «Portugal suicidário, viva Camilo e Manuel Laranjeira!»
No que todos não têm razão é em não admitirem que não têm a menor ideia, a menor visão, demitindo-se todos com o primeiro-ministro. Ou um primeiro-ministro não é, afinal, aquilo que a gente o deixou ser?
Esta gente indigente que têm liderado a política portuguesa ainda não percebeu que Portugal só tem quatro trunfos no gizar do futuro, dois ases, o turismo e a cultura, e dois valetes, a sua relação com África (mas não com a exclusiva e pérfida Angola) e a aposta na ciência. Destes últimos poços de petróleo, só o último tem sido explorado, e o primeiro, a espaços e sem a articulação devida e obrigatória com a cultura. E, enquanto este sector não ganhar primazia, Portugal só terá produtos que os outros fazem mais rápido e com menor custo – sapatos, por exemplo. O único petróleo estruturador seria a cultura, uma indústria séria da cultura, sector que tem sido continuamente fustigado e onde o país se tem portado como um perdulário. 
Eu percebo-os, o drama profundo, ou antes o único desígnio desta classe política é que ambicionava, cada um à vez, ter sido um dos maridos de Elizabeth Taylor – bom, menos Paulo Portas, que desejava ter sido Michael Jackson.
Libertou-me felizmente dessa hipnose a presença do camionista – isso desfez-me o feitiço. E a Ava, a minha condessa descalça, é uma rapariga com outra consciência crítica.
Daqui de Maputo, do porto de Maputo, mandei expedir oito toneladas de pêsames. Só que a minha língua não é bifurcada como a dos políticos: os meus pêsames vão inteirinhos para Richard Burton, o único dos ex-maridos que me merece respeito.  

GASPAR/ O melhor dos Reis Magos

Eu era o disléxico mais intratável, o mais rotinado ou o mais apto, da minha rua – depende das perspectivas.
Tudo dissimulado em anedotas em que me especializara para desviar a atenção das calinadas a esmo. Uma vez perdi uma posição de trinco na equipa da rua, arrancada a ferros, com esforço e afinco na canela, porque, depois de abandonar uma jogatana a meio contra os gajos do Pombal (perdíamos 3-2), justifiquei a seguir (tínhamos perdido 7 a 3): “tive de ir gacar”. Ninguém confia na segurança de um trinco que se expõe desta maneira à tripa forra da gargalhada alheia. 
Para me safar, habituei-me a exibir umas piruetas verbais e metia-me por atalhos narrativos tão bizarros que ficava tudo à coca para ver como eu se safava. Os menos atentos, diziam que eu tinha uma grande fantasia, os mais atentos que eu era uma gosma sem osga a quem pudesse engravatar.
Ora, este miúdo que assim torto cresceu em mim nunca deixou de existir, e logo que desatei a escrever artigos para os jornais fui logo notado pelas piruetas (…para bom entendedor) - felizmente havia revisores.
Hoje sei que a dislexia não é só verbal, que a há também no modo relacional, isto é, um disléxico também é especialmente dotado para acumular gafes, sem dar conta, no contacto humano. Neste mister sou um especialista. Para não me desviar por caminhos ínvios conto apenas a história idiota que narrei num velório à mãe de um poeta amigo que tinha falecido acidentalmente. Agarrei-lhe na mão e transmiti-lhe o meu orgulho por ter conhecido o filho e a sua vocação poética. E para enaltecer a qualidades do filho contei-lhe a parábola indiana de um Mestre que era continuamente atazanado pelo seu discípulo sobre os sinais que deveria reconhecer no seu caminho para Deus. E então quando chegaram a um poço, continuei eu, e o discípulo bebericava o Mestre pegou na cabeça dele e enfiou-a com firmeza dentro da água do poço. O discípulo foi apanhado desprevenido e viu-se naqueles apuros e por muito que esperneasse não conseguia libertar-se da tenaz. Quando estava prestes a afogar-se o mestre puxou-o para cima. Deixou que se recompusesse e então perguntou-lhe: que pensavas tu, na tua aflição. Que queria respirar. Pois então, replicou o Mestre, quando todos os teus poros, agonicamente, clamarem por Deus, aí estarás no caminho certo. E, para sublinhar a minha moral, repeti a frase final substituindo Deus por poesia, e garantindo assim à senhora, como consolo, que a vida do filho não fora em vão.
A senhora estava lívida, próxima da apoplexia, e eu retirei-me convicto de lhe ter ungido a alma. E só no caminho para casa me perguntei sobre o propósito de contar tal história a uma mãe cujo filho morrera afogado, numa 4L, na noite da maior chuvada do ano.
Isto para vos dizer que muito depois da minha exclusão do plantel da rua mas quando ainda éramos todos irremediavelmente jovens e mais cretinos ainda do que hoje (claro que falo de mim, que se abstenha quem quiser), conheci o Luís Manuel Gaspar, que era o contrário de mim, e que além de um ilustrador brilhante e de um poeta imerecidamente silenciado tinha o fascínio pela palavra certa, pela sílaba embutida in su sitio, pelo areamento da sintaxe. O Gaspar nasceu para ser o mordomo que põe ordem na mui desarrumada despensa de Deus, aquela em que se perdeu o Noé depois de ter inventado o vinho.
Sempre que alguém pensa numa revisão ortográfica que não deixe de fora uma espinha pensa-se no Gaspar, que fez uma aposta com o demo, autorizando-o a arrancar um pêlo aos seus gatos sempre que o mafarrico encontre nos seus livros uma gralha ortográfica; ora, os gatos do Luís Manuel Gaspar são conhecidos pela pelúcia farfalhuda enquanto o demo teve de se tornar poliglota para blasfemar de uma forma continental, ao lembrar-se da haste muito direita que é o Gaspar.
Eu não pensei nele para isso e fiz mal. E fiz bem. Fez-me uma belíssima capa, como se pode ver em baixo.

E quando o livro chegou da tipografia e lho dei, tive de sofrer as alfinetadas do seu riso de boticário sobre a minha videira repleta de gorgulhos e ferrugem. Adivinham: as gralhas, os desacertos verbais, as desatenções mais estúpidas. Na verdade eu não fizera a revisão do livro, sabendo-me um desastre nesse campo dei-o a um amigo escritor que estava sempre a escarnecer dos meus deslizes ortográficos, e ele recebeu a incumbência como um triunfo, eu editava numa editora onde ele nunca ousara chegara mas ele ia-me refinar a gramática. E jurou lealdade. Entregou-me as provas uma semana depois sem ter mexido uma palha, entretanto tinha-se apaixonado e andou aos melros em fulva seara alheia. E calou, eu é que me lixei porque acreditei nele.
E agora, num restaurante do Bairro Alto, revejo o Luís a pôr a sua voz de cantata para modular foneticamente as arranhadelas à língua que betumavam as páginas do livro. Eu muito envergonhado, mas ao mesmo tempo perdido de riso pelo carinho de que eram dotados os meus amigos. E por isso nunca ousei perguntar ao António Guerreiro se fora de propósito que, ao recomendar o livro, no Expresso, no balanço final do ano como um dos dez livros a ler, lhe atribuíra o título de As Cinzas de Maria Burra.
O que interessa é que sempre gostei do riso do Luís Gaspar e, como o reencontrei por causa deste blog, não resisto a confessar-lhe que agora, para ganhar a vidinha, também me entretenho a fazer revisões ortográficas, e de livros de Direito – polindo o verbo e a pontuação nas mais anfractuosas leis. E rio-me às bandeiras despregadas imaginando-lhe a reacção - dois assobios, uma palmada na mesa, um pontapé involuntário ao parceiro de mesa - quando ler sobre este meu novo ofício em terras de Mia Couto.

PS. - Deixei uma gralha no texto para ver se ele a topa

terça-feira, 22 de março de 2011

TRISTIA/ O DIA MUNDIAL DE POESIA


camille bombois

Felizmente acabou, um dos dias mais abomináveis do ano, o do Dia Mundial da Poesia, em que toda a gente anda com a «poéisia» a amendoar-lhe a boca. Como diria o Gombrowicz, tanto açúcar junto enjoa.
Lá mandou ofício a Associação de Escritores Moçambicanos aos 500 oficiantes da «poéisia» para irem aos jardins da sua sede mostrar as guelras e juntar três sílabas das mais líricas ao esterco do mundo.
Se estivesse em Portugal seria a mesma coisa, e já participei equivocadamente, em nome de causas, nesses matadouros de versos. Com direito a emissão televisiva e transformação do evento em circo político.
É invariável, o fedor impregna, seja qual seja a latitude.
A crer-se em tantos amantes da «poesia» devia ser um estoiro de vendas, mas não, a ingrata vende cada vez menos, em Portugal anda-se pelos 400/500 exemplares por livro, a serem consumidos a conta-gotas, em Moçambique também, em toda a Europa o género está cada vez mais acantonado em nichos, em todos os EUA Ezra Pound vende ao ano 600 exemplares (lamentava-o Octavio Paz, no seu último livro), o que é ridículo – que longe estamos do tempo em que Neruda vendia um milhão de exemplares com os Vinte Poemas de Amor e Uma Canção Desesperada. Tanto amor à «poesia» e veja-se a Grécia, a terra de Homero e Píndaro (e já agora de Seferis e Elytis) onde os cabeleireiros são considerados uma profissão de risco, com direito a reforma completa aos 50 anos, e um poeta morre de fome.
A mim o que me vale são os pavões do palácio da presidência, de que sou vizinho. Enquanto houver pavões eu mantenho-me (normalmente dá para um mês de refeições, e com as penas faço almofadas que vendo). Sempre que acabam tenho de mudar de país.
Entretanto, ocorre-me o telegrama de Marianne Moore sobre Poesia: «Eu também não gosto dela./ Ao ser lida, porém, com um total desprezo, descobre-se/ apesar de tudo que o genuíno aí tem o seu lugar.»
Mas, passado o vómito, nada me impede de exercer o meu voto:


TRISTIA
                               para o Fernando Santos

Estava em armazém, esta fala.
Ainda o mar era marmóreo.
Estava em armazém, esta fala,
atrás da porta canelada, em zinco.

Não que fosse secreta, a luz
simplesmente não tinha nascido ‘inda
sob a frincha que enche de clareiras
as moitas onde os ursos se cimentam.

Naturalmente nada cresce, se a chuva
não auxiliar, se um relâmpago
não provocar um látego na polpa
do pêssego que anseia morder a terra.

Pelo menos nenhuma criança trepará
desembestada pela ombreira
sem o bom conselho dos maus hábitos,
a promessa de chafurdar nos ninhos,

de lambuzar de mentiras o focinho
do sagui que esconde sob o tampo     
da carteira. E nunca por dentro do óbvio,
do riso, crescerá - como pelo veio do sono.

É manhã. Recomeçam as beatas
a acumular-se nos cinzeiros, as beatas
que enchem de luzes mortiças os conventos,
enquanto na tv passam modelos e os martelos

repicam nas obras ao redor, e ruidosas buzinas
se entredevoram, e deus se abstrai, fascinado
pela iridiscência nova das suas veias
de silicone. Eu saio para a rua, há um ano

que saio à procura dos botões-de-punho
(ouro e madre-pérola) que me foram gamados
no último festival do Dia Mundial da Poesia.
Saio, a pau com tudo, como o detective verde

que já se esconde sob as pálpebras
do moribundo. Ai do moribundo que pisque,
da osteoporose que assobie saudosa
das atonalidades da alegria! O detective

verde registará a gafe, o mais ínfimo grão
de moléstia, a chispa que desafine o coro
das línguas mortas. É de relva o seu
camuflado e a beretta está a postos!

Saio e vejo que flanam, saídos da flanela
do inverno para a primavera dos jardins,
as primeiras t-shirts cingidas ao corpo
que a si mesmo promete resgates,

imenso dano - o imundo contágio,
diria a culpa dos que advertidos
se abstêm.  Eles sabem, o amor está
no fundo dos corpos e vem à tona

à primeira oportunidade, entrevendo
bóia. A carne é a bainha da espada.
E nunca se perguntam onde é a atribulação,
engendram-na pelo simples gesto

de aparecerem, cravejados de músculos,
transpirados, o olhar solto, que até no voo
do flamingo capta sinais, o vinco
do consentimento. Observo-os da esplanada,

ciente de que o seu intratável domínio
se sublimou em mim, noutro compasso,
em fluxos e atritos incorporais,
e fungo - terá sido esse trespasse

compensatório? A profundidade
que ergue ilhas vale a perda
do histrionismo, ou em hologramas
nos afundamos até o corpo capotar,

indigesto? Incomoda a Primavera,
divisar no horizonte um corpo afiado
que nos corta a respiração ao clamar
por maior velocidade, que a alma

não talhe ao sorriso de outrem.
Quando era miúdo amiúde se falava
em limpa-chaminés, os brônquios
atracados na fuligem. Depois

as chaminés emudeceram
ou foram levadas por assistente
social para algum asilo
onde em vão aguardam visitas

fugazes ao lado de outros temas
bastamente desencarnados
como o marxismo e os beatles,
todos eles antes eternos, tal

a glabra cabeleira do Pai Nosso
que farejou no punhal de Sitting Bull
o sangue do General Custer.
Agora só nos interessa o amor,

o seu pleito ou a falta dele, porque
amar é uma variação atmosférica
e degenera a rodos numa intensidade
de luz que nos cega. E embora o ardiloso

pensamento à falta de fateixas
desenhe cais telescópicos - é duro
ganhar assim o pão do espírito, a sensação
de que só pela imprevisível ventania

que nos palpa as meninges
nos salvamos de andar em círculo
como as roscas. E magoa, afinal
mais do que sustentavas, ó Seneca,

pois tudo o que chega de fora
reclama coração. Bem me disfarço
de detective verde, vou ao armazém
fornecer-me de truques e falas novas,

ao armazém que se dissimula atrás
da porta canelada, em zinco, e amanheço
armado de novos sustos e do acicate
da indignação, reabastecido pelo pernicioso

costume da puta da idade nos tratar
como podengos, com coelhos nas costas
e lebres à frente…- mas sempre na dúvida:
quem afinal me roubou os botões-de-punho?   

segunda-feira, 21 de março de 2011

MATUTAR COMO SANSÃO, ANTES QUE VENHA A TESOURA

esta pegada será minha?, etc., e tal
Pequena folga entre duas aulas para anotar dois apontamentos que surgiram no curso das mesmas:

«Nunca gostou de pensar em colectivo porque se sente um dos cem varredores que apaga nas dunas os traços da passagem dos humanos enquanto atrás deles uma segunda esquadrilha de varredores apaga os seus traços, antes que venha o vento turvar os olhares, ou que um homem tremendamente solitário sulque a praia.»

«O japonês, como o chinês, o árabe e muitas línguas africanas não possui o verso ser. Usa-se um auxiliar no lugar. Como não podemos dizer “eu sou”, é impossível apreender o conceito de individualidade inerente às culturas ocidentais – explica o actor japonês Yoshi Oida, para falar da estranheza com que um actor destes lugares se coloca na pele de Hamlet ao proferir “ser ou não ser eis a questão…”, e ocorre-me agora que é nas culturas destas línguas que gramaticalmente tornaram periférico o sujeito que ainda hoje se acolhe o fenómeno da “possessão”.
Mas outra questão vos quero deixar – inquiro a turma de jovens actores: como representar se topologicamente não existe a virtualidade de um sujeito de que se parta?»

sábado, 19 de março de 2011

NÃO SE EMENDA, A CHUVA IV: CRÓNICA DE UM CRIME ANUNCIADO

Confirmou-se o pior cenário. Tocou o telefone. Resmunguei como de costume mas lá atendi e ouço do outro lado a voz do Tavares, que me diz de chofre: «bad news…estou com um amigo que comprou ontem numa banca de rua o “Não se emenda, a chuva”, a oitenta meticais…». Portanto, as duas encomendas com exemplares meus que espero em vão há dois meses foram efectivamente desviadas nos Correios de Maputo por funcionário relapso e passadas a um vendedor de rua cúmplice. Apetece-me percorrer a cidade e bater banca a banca até achar o receptor e meter-lhe um cagaço de morte.
A Teresa pede que me acalme e veja a coisa pelo lado positivo: arranjei novos e inesperados leitores. Eu sinto-me menos tolerante e mais perto do serial killer que deseja examinar in loco se dentro de cada caixa torácica não se encontra um bandolim.
Vou-vos contar o que fiz ao último ladrão de livros que me passou no estreito. Era meu amigo e há anos que nos frequentava a casa, dormindo lá muitas vezes. E levava sempre os livros que pedia. Um dia descobri que os que pedia encobriam apenas o dobro dos livros que já tinha desviado para dentro da mala que usava sempre à tiracolo. Primeiro cortei-lhe o cabelo à máquina zero:
o meliante antes dos retractivos
aqui vemos o bicho macilento a fazer contas à vida, enquanto os meus familiares cumprem as minhas instruções. Eu estou em off, à frente dele, com um fio de electricidade descarnado que vou enrolar-lhe num escroto.
A seguir levámo-lo até ao alto da Torre, na Serra da Estrela, que, nesse Dezembro, estava branca de neve, despimo-lo, untámo-lo com alcatrão e penas, à antiga, e obrigamo-lo a descer nu pela estrada até Manteigas, uns quilómetros abaixo.
Depois levamo-lo para Lisboa, meio febril, a tremelicar o dente, e obrigamo-lo a entrar na Esquadra da Polícia em Benfica, com um cartaz que dizia, «Venho pagar os Retroactivos» e, numa das mãos, a cópia da lei de atentado aos bons costumes de 1953, e na outra um relatório de todos os pecados cometidos nos jardins públicos com as filhas e mulheres dos funcionários dessa esquadra, cujos nomes um amigo da justiça me havia fornecido.

A lei, pode-se consultar na notícia em cima, mas do relatório dos desmandos dele constava:
Jardim Botânico, com a Arminda (a filha do Comandante), a 18 de Novembro: Mão naquilo, aquilo na mão, aquilo atrás daquilo; Jardim da Estrela, com a Fernanda Girão (a mulher do comandante), 22 de Novembro: aquilo na mão, aquilo naquilo; Parque Eduardo VII, com a Raquel Martins (a mulher do capitão), 11 de Dezembro: a língua naquilo; Parque do Campo Grande, com a Martinha (a filha do sargento Getúlio), 14 e 15 de Dezembro: mão naquilo, aquilo na mão, aquilo naquilo, aquilo atrás daquilo; Jardim do Tourel, noite de 17 de Dezembro, com a Maria Bettencourt, filha do 2º cabo Jesus: mão na mão, mão naquilo, aquilo naquilo.
Não sei quanto lhe cobraram em retroactivos, convertidos em euros, mas soube que só um mês depois saiu do hospital, as pernas e os braços ainda engessados.
Hoje estou, na generalidade, com muito menos humor do que naquela altura. Vou sair agora de casa para a minha ronda pelas bancas de livros de Maputo. Os funcionários ladrões dos correios e os seus receptores que se cuidem.