sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A TENTAÇÃO DA GORDURA

O objectivo do pistoleiro: posts certeiros
Um pequeno quiproquo com um amigo a propósito de um post nesta casa - nunca me cansarei de repetir esta palavra: quiproquo - levou-me a pensar sobre a motivação de fazer um blogue, a partir deste meu casulo a 10 000 km da insidiosa palavra diáspora. E cheguei a esta parábola: um homem é como uma cebola, vai-se desfazendo das camadas até sondar o núcleo, o osso, onde tudo ressoa a prata oxidada. Depois, ou tem vocação para a anorexia ou manto a manto se volta a cobrir. Não por pudor, mas porque por dentro está frio enquanto lá fora se ouve a campainha da carrinha dos sorvetes. Este contraste é que o puxa ao tango, o que nem sempre dá acerto quando não se é argentino.  

A PROVA

Para quem tivesse dúvidas - ver post anterior - a prova. Encon-trado o Caprotti. Não há dúvida, só os italianos nos embarrilam assim.
Tudo começou no engodo da 
musa de Dante - uma rudimentar cachopa impúbere, desde aí enfiam qualquer quadrúpede no mínimo buraco de agulha. Embora Berlusconi seja uma tribolite.

MADAME CAPROTTI


Mona Lisa, a própria

Mesmo a Maputo chegam estas novidades de arromba. Madame Gioconda, afinal, era mister Salai, de sua graça Gian Giaomo Caprotti, que começou a trabalhar com o artista aos 16 anos e esteve com ele 25 anos, tendo sido a sua musa e o seu modelo, durante vários anos. O pintor, dizem os experts que – analisando cópias digitais de muito boa resolução, segunda a notícia - chegaram a tal conclusão, deixou indícios pintados nos olhos da Gioconda: uma minúscula letra com a letra L de Leonardo e S de Salai. Bom, está tudo dito. Pena que tais nano-letras que cunhariam a prova só possam ser lidas por ácaros, ou por ampliações de muito boa resolução. Mas fica por saber se o método não permitiria descobrir em pormenores de quadros do realismo socialista a pulsão de Jackson Pollock? Talvez seja método que revolucione tudo.
Na verdade, sempre me pareceu - coisa que silenciei até hoje - que o rosto da diva se assemelhava a uma nádega, e para mim era o único enigma, enigma pífio na medida em que nada me move, pelo contrário, contra a existência das ditas. Porém, a imagem inspira-me essa ambivalência.
Havia que terminar isto com uma citação latina. 











quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

E NÂO SE PODE EXTERMINÁ-LOS?

Leio no facebook do Carlos Alberto Machado:

Coitado, recebeu carta de editora!
«Um escritor meu amigo propôs a uma editora a publicação de um romance de sua autoria. Fê-lo via e-mail. Passados 3 (três) minutos, um senhor de lá respondeu:
Boa tarde, Obrigado pelo seu contacto. Não estamos a aceitar originais. Cumprimentos, JM” (sic)
“Ao menos foram rápidos”, disse-me o meu amigo escritor, “nunca houve despacho maior. Parece uma ficção: um gajo leva três meses a empobrecer a si e aos seus até à quarta geração da sua genealogia para escrever a sua noveleta, mete no prego o último ourito da mulher, para irem comemorar o triunfo da palavra FIM, e antes de irem jantar a um rodízio brasileiro, a família em meia-lua assiste ao envio do e-mail para a editora com o futuro a ouro estampado no anexo. E quando regressam do jantar, onde gastaram a massa de uma semana, a editora já tinha respondido: não estamos a aceitar originais.
É caso para perguntar: as editoras vivem de quê, afinal?”»
De facto: podiam ao menos ter lido para em propriedade dizerem que não. Ou então explicarem: estamos com a programação cheia e de momento não há orçamento para o menor improviso. Mas aí colocava-se a questão, e se no manuscrito que não leram, está o livro que lhes faria dar o salto financeiro e manobra para os improvisos? Como é que uma editora responde à cabeça: não estamos a aceitar originais? Uma mercearia pode não aceitar batatas, legumes, pêssegos carecas? Um clube de futebol pode não aceitar golos?
Lembro-me do que me espantou ler nos Cadernos de Lanzarote a ansiedade com que Saramago, quando acabava um livro, ficava, quanto à possibilidade do seu editor não gostar do livro e não o publicar, e de alguns comentários de alívio que tece sobre as respostas positivas aos mesmos por parte de Zeferino. Seria com certeza uma prerrogativa de respeito entre dois homens que se conheciam e estimavam, uma derradeira postura de humildade. Ou esse fundo de incerteza existia, de facto?
É caso para re-perguntar: as editoras vivem de quê, afinal?
E já tive a sensação de me terem recusado à cabeça um livro por ser meu, antes sequer de ser manuseado,
lido. Importava mais a origem que o texto. Coisas humanas. Algo de muito fétido coa o reino da Dinamarca.

PS – Para nem tudo ficar mal, dois livros recebidos de que gostei muito: os últimos de Hélder Moura Pereira e de Armando da Silva Carvalhos. Hei-de voltar a eles.


a anunciação

Estúdio de Francis Bacon
Na Mongólia, o sonhador pode sonhar por um outro, ou até sonhar por numerosas outras pessoas. Leio e pasmo.
Aí estava um negócio - fosse eu um xamã de igual qualidade.
De qualquer dos modos esta é a única explicação que encontro para um sonho que me perseguiu durante anos, ao ponto de se ter cunhado como uma recordação que eu reportava ao vivido. Durante anos – uma década, precisamente – estive convencido de que quando me casei com a minha primeira mulher tínhamos ido viver para uma casa emprestada, na Avenida Todi, em Setúbal, até a nossa, oferecida pelos pais da noiva, estar pronta.
Era um apartamento, num primeiro andar de grandes janelas rasgadas – a casa fora em tempo adaptada a loja –, um T-0 com kitchnet. O facto é que aí vivi – seis meses - o único período de pacificação do casamento, ternos, unidos, degradando-se tudo quando nos mudámos para a nossa casa.
Anos depois, sempre que voltava a Setúbal, palmilhava a avenida, procurando a casa, em vão. Todavia, eu tinha presente cada pormenor do seu interior, a mesa redonda de mogno com flores de marfim embutido, os cadeirões com almofadas vermelhas, a estante de boa madeira que em noites ímpares acordava em mim sonhos de larápio, a Clara no balcão da cozinha a rechear as beringelas, o tapete com dois peixes em 69… A avenida é que teimava em desmentir-me.
Quando eu e Clara nos pudemos reaproximar, sem dano ou atribulações, perguntei-lhe pela casa, e jurou-me ela que fôramos para a casa nova no próprio dia do casamento.
Ainda não estou convencido, apesar de a partir de hoje ter por certo que um sonho de outrem me visitou e que não passamos do atelier de alguém.

Mãos e Borboletas



Esta é também do Brodsky: «A verdadeira história da consciência inicia-se com a primeira mentira. Acontece que eu recordo a minha». Acontece que eu não, mas adoraria mentir sobre isso, porque não me custa a acreditar que ele tenha razão.
Talvez isso me dê uma natureza mais sonâmbula – não tem sido de grande ajuda, mas de qualquer maneira, seja-se portador de mais ou menos consciência, julgo que há um limite de palavras vãs ou falsas antes que a boca acorde selada.
Seladas como aquelas mãos que, presas no pedúnculo, olham a borboleta.

a foto, de 1930, é de peter rose pulham

homenagem II

                                                          Joseph Brodsky speaking
É inquietante ler a correspondência trocada entre Jorge de Sena e Eduardo Lourenço, ou entre o primeiro e Sophia de Mello Breyner, a acutilância dos raciocínios em acto, a qualidade da elaboração, a língua usada de forma pletórica, o humor, a ironia, a pequena safadeza, o grau de cumplicidade numa ideia de destino literário sem um pingo de vacilação, ou de transigência, e não farejar no horizonte nada de parecido.
Será do buraco do ozono? Do plasma, que nas achata as imagens? Do tempo que nos falta, da memória que perdemos, pulverizada em tanta negociação?   
Jorge de Sena foi um autor que recuperei de modo superlativo depois do meu “exílio”, pois os seus dramas passaram a ser os meus, até as rancunes.
Em homenagem à sua verve, aqui deposito uma ironia de outro grande, Joseph Brodsky: «Parece-me que a memória vem a ser um substituto do rabo que perdemos para sempre, no feliz processo de evolução».

domingo, 30 de janeiro de 2011

KOK NAM: FOTÓGRAFO E ANDARILHO

A foto do lado, excelente, é de Santimano, e o excelentíssimo dinossauro retratado é o Kok Nam, uma dessas personagens de eleição que a vida me tem oferecido.
Kok Nam/ o homem por detrás da câmara é o título do livro que a Escola Portuguesa de Moçambique – Centro de Ensino e Língua Portuguesa (EPM-CELP) lhe dedicou, em NOV de 2010, para assinalar o seu 11.º aniversário. O grafismo (excelente) foi da responsabilidade de Luís Cardoso e a ideia do livro e a sua coordenação editorial coube a Teresa Noronha.
A obra homenageia o fotógrafo moçambicano, um veterano do fotojornalismo, que é fundador e actual director do semanário Savana. Paralelamente, foi inaugurada uma pequena mostra antológica dos seus trabalhos.
O livro compreende um texto introdutório da autoria de José Luís Cabaço, uma longa entrevista a Kok Nam feita por mim, e 40 fotografias.


Infelizmente o Kok está momentaneamente doente, nada que um homem habituado como ele a muitas carambolas não saiba superar. Mas isso torna mais urgente repisar que este pequeno livro introdutório serve sobretudo como lembrete: o essencial da sua obra está por compilar e publicar. Como o álbum que (com o seu olhar humano antropológico) ambiciona fazer sobre as Forças Armadas de Moçambique (as “Forças Amadas”, propus-lhe eu que se chamasse, com autorização dos poetas Hélder Moura Pereira e Fernando Gandra, que titularam assim um livro conjunto) ou outros que compilem as milhares de imagens em que, nele, a História tomou assento. Não esqueçamos que Kok foi um dos fotógrafos que atravessou todas as fases do pré e do pós independência de Moçambique e que entusiasticamente fez das contingências humanas documento. Testemunho que são milhares de fotos inéditas e que depois de divulgadas farão dele um fotógrafo com uma dimensão semelhante à de Ricardo Rangel.   



Deixo como testemunho humano, o texto que sobre ele publicou recentemente Zetho Cunha Gonçalves, poeta e escritor angolano, que vive em Lisboa, e que editou esta belíssima crónica no Savana 
«Kamarada Kok, esta prosa em forma de mukanda (que é como se diz carta e/ou segredo, em Angola) deveria ter sido escrita e enviada a semana passada. Acontece que estava a queimar todos os prazos para entregar uma prosa − e aflito com ela, porque longa e despudorada −, sobre os kamaradas Zefanias Sforza & Patrakas (dois sócios moçambicanos, que tu muito bem conheces), para uma publicação electrónica brasileira, de seu nome Mulemba. Eis a razão do atraso desta mukanda e consequente falta de comparência no glorioso “Savana”.
Quero começar por te dizer que as sextas-feiras do Cais do Sodré, em Lisboa-os-sustos, não têm sido a mesma coisa sem as tuas gargalhadas e o teu humor e estórias desconcertantes de “chinês bonito, porque muito alto”. Porém, Maputo requereu-te a presença por razão de força soberana, e eu subscrevo essa implementação da tua ida para uma grande festa, conforme me confirmaram ter sido, e de arromba, a kamarada Ivone e o kamarada Parcídio. Estou a falar, naturalmente, da apresentação do teu livro, ou desse “Kok Nam: O homem por detrás da câmara”, livro inventado a partir de ti, das tuas estórias e do teu trabalho de fotojornalista.
O que mais me tocou no teu livro é a questão dos afectos que lá está exposta a 360º em redor do eixo central que és tu, e à temperatura natural do corpo humano. E, dentro dos afectos, o humor, essa forma superior de inteligência para uso quotidiano, desde o texto de José Luís Cabaço, às respostas que dás ao António Cabrita (espécie de cicerone para a ínfima parte das tuas memórias/estórias, meu aventureiro do pestanejar de olhos abertos), à pequena mostra das tuas humaníssimas, esplendorosas imagens fotográficas, que são, deixa-me dizer-te, um pouco e muito da História do teu país.
Não sei por quê (talvez porque as chamadas “liberdades poéticas” tudo podem permitir, do acerto miraculado ao disparate mais insondável), sempre me pareceu que as nuvens se riem, e riem muito. De quê ou de quem se riem, sinceramente nunca pensei no caso. Mas, agora, quando o kamarada Cabrita te espicaça, perguntando num tom de quase afirmação antecipada: “Nunca o veremos expor uma série de fotografias sobre nuvens?”, tu desconcertas: “Nunca. Sabem o que é? Uma nuvem não ri.”. E aqui, tu que pensas por imagens antes de formulares um sentido para a gargalhada ou para a indignação que tão bem te caracterizam, tu, kamarada Kok Nam, é sobre a expressão de um rosto ou a volubilidade de um corpo que accionas o “clic” e a tua memória vivencial e testemunhal sobre a Terra e quem nela habita, com todas as circunstâncias, perenidades ou precaridades e contingências da própria condição humana.
Ri, ri mesmo muito (ao contrário das tuas nuvens, que vou começar a designar como “as nuvens sorumbáticas do kamarada Kok Nam”), com as tuas respostas ao kamarada Cabrita. E, apaixonado da fotografia e do humano nela incorporado que sou, também te quero dizer que alguma coisa mais aprendi contigo, através deste livro. Não só o “não adiar”, porque “a vida nos lixa”, mas também essa “luz própria” que o Outro tem e de que tu falas com tanta intensidade (porque, naturalmente, terás sempre que iluminar a luz que a cegueira branca do instante fotográfico impõe entre ti e o modelo), me fez acordar memórias e rostos e gentes e circunstâncias de vida há tanto arrumadas nas fundas prateleiras da memória, essa dama de caprichos e sobressaltos de alucinação e insónia.
Tocou-me fundo o modo como falas do malogrado Presidente Samora Machel, o retrato humano que dele traças a viva voz (porque os outros retratos e não-retratos, as fotografias que dele fizeste, essas e esses, mais que património teu, é património de Moçambique e da Humanidade). Mas ainda, esse rememorar pelas tuas palavras daquilo que é, sem qualquer sombra de dúvida, a riqueza mais perene de Moçambique: a sua mestiçagem humana e cultural, da qual Samora tinha plena consciência e “orgulho”, mesmo quando, ou sobretudo, como dizes, “Éramos todos pobres. Mas isso unia-nos. E o sentimento de que a figura cimeira do Estado era como nós e um homem de carácter moral unia-nos… Mesmo na escassez.”
As tuas fotografias, caríssimo kamarada Kok, são todas elas perpassadas por aquele sopro de vida e de luz, a mais justa, mesmo quando é da tragédia e da escassez de humanidade que elas se apossam de nós. E agora, depois deste pequeno “bodo” aos contemporâneos teus, entre os quais me permito incluir, quero fazer solenemente uma reivindicação ao kamarada: faça o favor de se desmangonhar (ser menos preguiçoso, como se diz em Angola), e vá implementando mais álbuns a partir dos seus “arquivos implacáveis”, porque nessas imagens fotográficas, se está muito da História e da memória de Moçambique, não deixa de lá estar também um pouco da História e da memória da própria Humanidade.
O Povo, impaciente, quer mais “Kok Nam: O homem por detrás da câmara” ao alcance do olhar e ao toque das mãos. Faça o favor de implementar a continuação desta saga libertária, kamarada Kok!»
           







CHEIAS: COMO RETER AS IDEIAS?


Parece que há cheias de novo na Zambézia, a questão está apenas na escala que as coisas atingirão desta vez. Prometi a mim mesmo que me escusaria a comentar, neste blog, as chãs peripécias de Moçambique, mas convenhamos, só há cheias de forma tão repetida quando, numa lógica quase perversa, se descuida prevenir os erros para que se foi avisado. A natureza é ingrata, mas o homem ajuda.
Em 1997, na Etiópia, vi o chão prensado pelo peso das vacas. É uma valência social, pois o status e os sinais de riqueza medem-se em cabeças de gado. O resultado é um solo tão prensado que fica polido e não deixa crescer erva. Com a perda da sua porosidade, a terra nem aceita semente nem absorve a água, que desliza como por um corrimão até ao Nilo. Portanto às chuvas fragosas seguem-se violentos períodos de seca, pois entretanto, nunca se planificou uma política da água: o país não tem barragens, cisternas, nada que retenha a água. Em nome da tradição, os governos etíopes nada fazem para mudar as mentalidades dos camponeses.
Ao lado, a 60 km da costa, do outro lado do Mar Vermelho, fica o Yémen, a Arábia Feliz. E das coisas que espantam naqueles riffs transformados em hortas e em pequenas comunidades é descobrir, nos sítios mais inesperados, cisternas, que garantem a retenção da água, um bem precioso por ali. É uma tradição milenária.
Os vizinhos do lado é que não aprenderam nada, em dois mil anos de convívio. E entretanto também são devassados por cheias e secas a um ritmo que estonteia os media.
Quando Moçambique deixar de ser tão politizado e estiver mais preocupado com as soluções técnicas para os problemas talvez aí se tomem as medidas necessárias a evitar esta sangria periódica de bens e vidas.  

POST BY António Cabrita, Foto de cisterna em Manakha, Yémen

GOSTAR E DESGOSTAR

Levo a manhã a reler Versiones Y Diversiones de Octavio Paz, o volume que reúne todas as suas traduções e ao deparar com a nota em que refere que as sessenta páginas de traduções que dedicou a William Carlos Willams foram induzidas por um amigo para uma edição mas que preferiria ter traduzido Wallace Stevens, lembro-me das reservas que o Herberto também me manifestou em relação ao poeta imagista e, num impulso, vou buscar o Paterson, abrindo-o ao acaso. Acabo por ler duma assentada o Livro IV, que na tradução portuguesa, perfaz quase 60 páginas. Insatisfeito, vou buscar a tradução francesa, de Yves di Manno e cotejo. Confirma-se. O prato forte é a trivialização mais irredenta, a polverização da interioridade em resíduos verbais duma superfície cega pelo encadeamento da transparência. Os fragmentos mais interessantes são-lhe alheios: deve-os a Pound, uma breve passagem sobre a usura - que Williams associa ao cancro - ou a Ginsberg, que, retratando-se como artista-enquanto-jovem-cão, lhe escreve, no seu indisciplinado vórtice.
O Livro V, que se lhe segue, por alto, parece-me bastante mais interessante e equilibrado, mas não apaga a impressão do anterior, duma tagarelice que nunca resgata o enfado que liberta, e pior, que se não reconhece como comunicação implodida, distância crítica que ao menos lhe podia inocular um pingo de auto-derrisão, num travo paródico. O Livro IV não descola do ronrom poético dum señorito convencido da extrema importância do seu mundo incubado pela cisão duma personalidade atomizada, etc., etc., empobrecida de valência ou aura. Pois.
Como a idade nos desilude os poetas que estimamos. Resta-nos amá-los na despedida:

«Também eu, meu caro williams, preferia
viver numa cidade bordejada
de fábricas de seda,
agora que me capacitei
de que cada pontada de ar
é a folha de um livro
não lida
que rompeu a sua reclusão.
Que dom maravilhoso o redemoinho
das cores que esfarrapa
a lua indolente,
como se à entrada da floresta
bifurcasse a estrada.
Assombrados, os olhos
acordariam então
para o armistício.»

POST BY António Cabrita
Na foto, de 1915, vemos William Carlos Williams com a mãe e os filhos

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LA LUNA

Dorme-se mal, depois de um naufrágio assim numas eleições. E o pior é saber onde. O meu recanto na cama está ocupada pela Jade, de três anos (a finarem), atravessada sobre o tronco da mãe. Acabo por ir para a cama dela e deito-me a ler. De frente para a Luna, de cinco anos, que dorme na cama geminada. Felizmente que a luz não a perturba.
Primeiro é um pé que me toca na coxa, depois a mão que se estica e me agarra o cotovelo. Viro as páginas com cuidado, mas sorrindo, pois ela parece dirigir um manípulo.
Acabo por fazer um poema nas guardas do livro:


Estira-se ao sul a minha vida.
Tem uma ilha defronte.
Tosca e suave. Por ela leiloo
todo o ar que respirei

e o restante que está a monte.
Ex-erma a minha vida.
De trevo miúdo o chão da ilha.
Deuses remotos, homens

perdidos… pero la luna!
Tem um urso sobre
o peito, a minha ilha,
e faz oco quando dorme. 

É a minha filha. Um pomar
de gotinhas de chuva.
Dorme, e vai num batel
que inflama a minha vida.


O EFEITO ADVERSO


BREVE REFLEXÃO SOBRE A MORTE

Agitam-se alguns
como se ainda não tivessem nascido.
Entretanto um dia
Williams Burroughs, intimado por um estudante a dar
opinião sobre uma
eventual vida póstuma, replicou:
- Mas quem lhe disse que você não está já morto?

O ‘scrito acima é de Miroslav Holub, um poeta e eminente imunologista checo (que verto da tradução francesa, da Circé), a quem a especialidade não resguardou da visita da morte, em 1998 – sendo ainda um jovem, de míseros 75 anos.
Seja como for, sugere o poema, estamos sempre desconectados, num estado de extenso sonambulismo, e pouco nos é dado fazer, para além de nos agitarmos demais ou de fazermos perguntas desnecessárias, ie., rebarbativas: póstumas.
Talvez possamos aceder momentaneamente à consciência que nos cede o poema, num breve interregno, ao flagrante de uma sintonia, mas estou certo de que Holub, ainda para mais com a sua especialidade, não declinou num assédio de consciência: foi mais à má fila, por um efeito adverso.
As coisas sórdidas em que nos debatemos numa ressaca de eleições.
Talvez seja culpa do quadro do Tàpies, que se chama «Cruz e Terra».

A REPÚBLICA E OS SEUS ESGARES



O pavor da Republica é que já não consegue convencer os seus filhos dilectos ao desmame. Isso reflecte-se no fácies de alguns: reveja-se o esgar vitorioso de Cavaco Silva, que nem mesmo no desfrute final teve a grandeza de evitar o desabafo mesquinho, o gel do ressentimento, e o esgar aprendiz de Louçã: cá me fazem cá me pagam - vamos reflectir sobre isso, prometeu ele.
É um país de que pólo a pólo já só tem esgares. Tique facial provocado pelo vício, no lácteo doping da República.
Quem também não tirou a persona, nem mesmo quando anunciou a sua vitória simbólica, foi Fernando Nobre, num rito de impersonalidade.
Mais enfiados, “o” candidato vencido, e aquele que afivela um sorriso de ocasião para todos os momentos em que, por insistente solicitação, lhe pisam os pés, don Xosé Sócrates. Porque se não foi a seu pedido que o sistema com o novo cartão eleitoral falhou, parecia.
Extraordinária foi a explicação de Rui Rio para a derrota do autor de Trova do Vento que Passa: o país não gosta de madraços que nunca trabalharam, prefere os que sobem a pulso. Fazer versos é como se sabe um fruto do ócio, nada que se compare à transpiração e à presciência de quem se mata a trabalhar até à adivinhação final: onde aplicar o dinheiro com lucro. Uma habilidade, confessa Rui Rio, que não teve. Ainda bem que é honesto e aplica o seu dinheiro e não o público, que gere.
Uma noite, inesquecível. O único rosto humano que por lá vi, foi a da ártica tristeza de Manuel Alegre quando assumiu a derrota. O seu problema é que era de há muito uma ave esquecida do riso (- quando é isso te aconteceu, ó Alegre?), e a virtualidade do seu imenso país republicano arrancou-lhe o resto das plumas.
Que regresse ao seu programa minimal: os versos. E deixe a política para as fluorescentes máquinas de esgares que a tutelam.

sábado, 22 de janeiro de 2011

NÃO SE EMENDA, A CHUVA II

A foto é de Cartier Bresson e, acidentalmente (com a inocência possível à carga desta foto), examinava-lhe os detalhes (Guardien 340, por exemplo), quando recebi o telefonema a informar-me de que ficou pronto o meu livro Não se emenda, a chuva, o meu primeiro de poesia publicado em quatro anos. Nestes anos goraram-se outras edições, como os livros Bagagem não Reclamada e Bar La Fontaine, por falência da editora que os reclamara, e, mais triste, com as provas já na mão. Desta vez, a raposa do tempo não me roeu a lebre antes da meta. Estou grato a Vergílio Alberto Vieira e a João Manuel Ribeiro, os responsáveis por esta colecção, Livros de Horas, e pelo bom gosto gráfico que a norteia. É de facto um livro muito elegante, muito favorável à leitura dos poemas. É o livro da serenidade condoída com que queria celebrar os cinquenta? Diz-me o José Luís Tavares ser débito atravessado por uma ponta de melancolia, pouco habitual em mim. Talvez ainda não tivesse lido A Bola nesse dia em que fiz o alinhamento final do livro. Tenho o sentimento de que é um livro de que o Al Berto, que eu evoco num poema, gostaria e isso basta-me por agora. Deixo três poemas:

VARIAÇÕES EM BACON
para o José Luís Tavares e José Forjaz
1
A carne escorrega dos pés para a cabeça. É um movimento que contraria a gravidade e por raros entrevisto.
Assim que o peso da carne aflui inteiro à cabeça contrai o olhar em milhentas rugas.
Então, na mente, uma figura com o palor das sombras de Turner, vivifica o que foi, o que o tempo não curou e inverteu, para sempre, no bojo da inocência.

2
No estudo para um retrato de Van Gogh a sombra da figura está truncada, carcomida a meio por uma fome branca.
É um fruto do acaso mas que realça o que dá pertinácia à pintura: um instinto com pernas desamarra de si o torso das forças racionais.
O que o pintor de corvos não desdenharia.


3
Pintar um grito humano que desactive os direitos
conexos da carne e imponha à manhã
o silêncio que lhe perfura os olhos.
Uma boca de onde surda
a proa de um navio.


4
Como atingir um máximo de semelhança, da maneira mais inconsciente?
Atravesso o Tamisa sob o estardalhaço de uma prova de motonáutica e o espírito repõe-me o silêncio que infligiu a Florença um golaço do George Best.


5
Jura Sylvester que enquanto posava para o retrato eu examinava fotografias
de animais selvagens.
Tigres, suponho, a incendiar o bambu.


6
Poças de carne sobre um fundo em acrílico.
Tem sentido falar de um nu em Cézanne?
Vidas esmaecidas em pinceladas bruscas, a cuja transparência luzem ossos.


7
Chega de fora-de-campo, como o falcão desfechado pela opalescente nuvem
sobre a codorniz, ou estava de antemão numa pincelada
que fez cintilar o medo no olho da ave?
Formas fugazes sobre a tela, interceptadas por outras que se impõem,
poderosas como pensamentos carnívoros.
Só no México são os feijões saltitantes.


8
Ah, a sorte de ter um pai treinador de cavalos, ébrio pelas capitais do mundo,
a urinar de esguelha os miosótis, escondida a face,
músculo e lente afinados pelo amarelecido desaire.
O meu pai, Francis, um “retratista de danos”, ensandeceu
a fixar no vento os matizes da transparência, o nó que lhe esborratou o coração.
E legou-me o que intuiu de véspera: a improbabilidade de armistício
nas naturezas mortas.
Treinará agora com o teu os centauros do empíreo!

Ah, um morto é uma escultura que devora o buxo, não há escapatória,
sou sincero, não há como fugir a um pedaço de carne cravado na erva.
Como expor, sem retorcer a imagem, os níveis da emoção de Inocêncio X?
Que coisas pode o modelo trazer de volta, iludida a agressão do tempo?
Aquele que sonda através dos reflexos tem de porfiar no olhar,
aquele que escuta atrás da palavra tem de visar a atenção do açude,
a que peremptória mima o gafanhoto quando rumina as hastes e os
brotos da melancolia, pois, barqueiros aziagos,
matamos sempre aquilo que amamos.



de SETE FACETAS DO TEMPO
ENTRE OS CORSÁRIOS DA MACANETA*

4
A ideia de que o tempo pudesse ser massa folha-
da: uma ideia de garoto,
competia ainda o mil-folhas de domingo com o
reclamo do primeiro beijo,
sonho fatídico, onde me transmuto ainda.
Não se retalia. Pode-se até esquecê-lo, empres-
tar-lhe a sinusite,
deixá-lo a debulhar lágrimas com a fotografia, à
beira da catástrofe
onde um morto lacera, de olhos verdes.
Mas, incessante, sinuoso como o pulmão que sin-
croniza um bando de flamingos, hás-de voltar a ele como
ao pobre nome que percutes
contra os dentes, ansiando por tertúlia.
Não se retalia, ao tempo não se retalia. Pois quem
vive de travões emprestados? Como eu,
nessa noite especial, ondulante,
em que forcei a insónia para ouvir pela rádio o último
round entre Ali e Frazier
– dois lençóis friáticos treinados para ficarem
num fiapo muito antes de lhes chegar traça –
eu, um miúdo ainda de todo alheio
aos knock- outs de Cortázar, à malsã
auto-piedade do Sísifo de Camus, às laranjas azuis
de Éluard, criança ainda de todo inepta
para deduzir que contra os relógios só o alho-porro
e, sobretudo, não picar com a mesma faca amor e ciúme.
E disposto a confiar nele como na vitalidade do
nariz que pinga,
e a incutir: você é quem sabe, você faz o preço!
E o tempo, sorna, de sorriso a tiracolo, a descar-
nar-me as gengivas,
a enrodilhar-me nas suas veias de lobo
( - a sua pata de papelão não perdia de vista
o meu mealheiro sobre o frigorífico), (atenção, há um corte no texto)
enquanto Ali - grafitos indeléveis no céu
de Órion - ginga ao canto, furtando-se
ao amasso de Frazier, e resiste,
uma e outra vez, dando enlace e realce
ao delicado equilíbrio das estrelas ascendentes.


6
Mais meia-hora da carga valente que caiu e podia
apresentar às miúdas o general Custer.
A Luna dançou à chuva, a Jade adormeceu no ful-
cro da tempestade.
Eu, dado o adiantado da água temi que o dragão
sem freio do tempo nos mergulhasse,
a mim e à T’resa, nas comportas do amor para
nos cuspir depois nas suas margens
já sem o escalpe da memória.
O Capão, depois de examinar no tecto a qualidade
da construção – nem uma gota digna de um dedal –,
mais tranquilo, explica à Isa as manobras do seu exercício
de Sudoku.
Encho a fornilho do cachimbo com o tabaco que
me trouxe Sitting Bull, de tudo aliviado.
*A Macaneta é uma praia a 40 km de Maputo, onde passei uns dias com José Capão e Isa Maldonado, a quem o ciclo é dedicado

GAZETA DE MADAGÁSCAR, 1

Quatro da tarde. Posiciono a ventoinha nas costas e sento-me à secretária, recostada à janela que se espreguiça no Índico. Nenhum flamingo. A tisana reconforta-me de uma ressaca mal curada enquanto o olhar vagueia por páginas avulsas de um livro de Christian Bobin. Uma frase prende-me.
Abro o computador, no fito de a transcrever. Os dedos cavalgam o teclado e cometo um erro ortográfico: «Pessoalmente, não estou longe de acreditar que a melancoloia…», mas percebo de imediato que o eruptivo «o» acorda um timbre novo. Quando acabo: «é o pecado maior», sei-me em sintonia com o que Christian Bobin manifesta – acrescentei à melancolia a moinha, o enjoo.
Nada me move contra a melancolía,  simplesmente não é a minha praia. Se por lá veraneio, em certos fins de tarde, no fito de dar um mergulho e de catar amêijoas, esse devaneio, em mim, só engendra o desejo de romper. E acabo sempre a recordar que, na Idade Média, a acedia, outro nome para a melancolia, era um pecado espiritual por excelência. Nada que, perdoem-me os muito assanhados filhos de Saturno, seja motivo de muitas felicitações.
Convém, a espaços, sacudir o torpor. E sou da massa de Plutarco a quem intrigava que as pessoas acreditassem de forma tão ingénua que só morriam uma vez. Eu também me espanto, pois com pânica regularidade me descubro projectado contra muros e surpreendo árvores a tombar dos frutos.
Mas hoje é dia de radiações. Ressuscitado, os meus binóculos varrem as águas na direcção de Madagáscar.
Enclavinhada na linha do meu olhar desponta a ilha. Enorme, o recorte da sua costa reflecte invertida a costa de Mozambique - é mar que nasceu de cesariana!
Não se vê, a ilha, mas já lá pus os pés e é um bom lugar para morrer, mais belo e intenso que o lado de cá. Escolhi voltar, mas a semente do que daqui não vejo frutificou: eis-me prenhe do que em mim doravante se chama Madagáscar, um cenário onde ainda respiram piratas e lemingues, ideal para uma topografia do sonho.
E é tudo o que é preciso saber para não bloquear de medo face ao círculo de giz que, no dizer de Musil, paralisa a galinha de Kircher. É a desgraça que vemos repetir-se na nossa vida: há sempre um habilidoso que com um pau de giz convence os demais de que são galinhas, e de que só ele tem direito a ditar «o que devem fazer», porque o seu círculo é mágico – e o que ele exclui carboniza.
A invisível Madagáscar lembra-nos: há sempre algo exterior aos círculos.
Em gazeta tenho andado, há uns anos. Mas, afinal, que vim eu fazer a África?
Aspiro ao desapego que transpirava Max Martins, poeta septuagenário de Belém de Pará, que me recebeu no seu anexo, em calções e tronco nu, deitado na rede, montada no carreiro que sobrava às umbrosas colunas de livros e papelada. Expelia o fumo da sua cigarrilha, baloiçando a sua palidez de exímio lagarto à sombra, e ofereceu-me, tragados dois cálices de aguardente, um livro seu, que eu não tinha. Manifestando-lhe a minha perplexidade por o livro ser anterior ao volume em que se recolhia toda a sua obra e nele não constar, respondeu-me, após uma pausa de espanto compartilhado, como se em si mesmo só ali, naquele momento, retinisse a omissão:
- «esqueceu-me!».
Vim para África recuperar o primeiro olhar, desapropriar o nome. Terei alguma vez a coragem de o mudar? Identifico-me totalmente com essa figura mítica de São Sebastião de Maranhão que se perdeu nas selva amazónica, com o seu cortejo de elefantes, serpentes de prata, carroças cheias de tesouros, flores e palmas por toda a parte, pajens, alabardeiros e formosíssimas escravas – só não me identifico mais porque, azar de rosto humano, o processo histórico me negou as escravas.
Em 70 chegaram as primeiras revoadas de trabalhadores negros à Lisnave. A paisagem humana alterou-se profundamente na minha cidade e as rixas entre bairros passaram a ter como alvo os rapazes negros. Era um ódio mesquinho e cego, alimentado por muitas mães que tinham os mais velhos em África, na guerra.
Eu tinha onze anos e era franzino e muito irresoluto – vacilava entre ser um corsário ou um santo. Num sábado alinhei com a ala mais bélica e hirsuta da rua, queria ver como actuavam. Percorremos a pé os mais de seis quilómetros que me separavam de Porto Brandão. O sol, com mão ociosa, encharcava-nos as pinhas, peneirava a determinação. Porque não desistimos? Talvez o mal tenha, como os pombais, muitas facetas. Já próximos, à curva da azinhaga vimos, fosforizadas ao fundo da descida, as cabeças negras, apinhadas à entrada do cinema-esplanada.
A poucos metros rebrilhava uma bica de água. Dessedentámo-nos durante minutos, recuperando fôlego, olhando-os ao fundo, os olhos enegrecidos. Depois, os meus companheiros estabeleceram o plano, isto é, cada um pegou na sua pedra bicuda. E descemos, em marcha de combate. Eu seguia-os, roído de culpa, disposto a falhar propositadamente todos os alvos, mas como trair os amigos sem eles notarem? A maior parte deles eram filhos de varinas de mercado e nem dinheiro gozavam para ir ao nimas – enquanto os filhos dos “escarumbas da Lisnave” se abotoavam com os prazeres do mundo. Era a emoção que talhava em xisto aqueles rostos que avançavam a meu lado, em cruel demanda. A minha cabeça ardia ao ralenti, numa dimensão paralela, torturada. E, num silvo, a primeira pedrada rasou a minha testa. Eles tinham adivinhado e defendiam-se.
O resto é uma esgrima que a memória não reteve – mira resvaladiça e ténue. O meu ralenti só despertou, fundindo-se repentinamente no presente, quando um jorro vermelho brotou do olho de um puto preto e um grito selou o olho vazado. Corri desalmadamente, até os bofes ficarem em brasa, e encostei-me a uma azinheira centenária, com uma enorme copa. Aí fiquei mais de uma hora, um risco de pavor no olhar.
Nunca soube quem tinha apontado a pedrada e afastei-me dos meus companheiros de tantas horas de futebol. O eco daquele grito nublava-me o drible, desacertava-me o passe vertical. Erguia um novo campo de possibilidades e comecei a interrogar-me: que merda é essa, o humano? E a achar o casco de vidro ao fundo do copo.
Em 95 aterrei em Maputo pela primeira vez. Chegava com a incumbência de escrever um guião cinematográfico para o cineasta Camilo de Sousa. Alguns acontecimentos funestos arrefeceram as expectativas e vi-me demasiadas vezes sózinho numa cidade que me lembrava Cartago depois da passagem dos romanos.
E uma noite resolvi ir com amigos mais novos a uma discoteca, na periferia. A uns quilómetros da cidade fazia-se um desvio por uma estrada de terra ladeada por dois muros altos em cimento cru. Cenário lunar, que se prolongava por quilómetros, e na travessia do qual eu, sempre que se cruzava um carro connosco, era aconselhado a baixar a cabeça, de modo a que as suas luzes não denunciassem a presença de branco – o que, naquele lugar, naquela altura de penúria e de turbulento pós-guerra, podia dar azo a um assalto.
Desembocámos num terreiro pejado de carros e por detrás do muro ouvia-se o ritmo da marrabenta.
A discoteca preenchia os clichés africanos, com as mesas ornadas de chapéus de colmo e algumas máscaras nas paredes. Eu estava um pouco alegrete e disposto à farra, e fui para a pista dançar. No intervalo de uma dança para outra a pista esvaziou-se e estava sozinho quando Bob Marley arranhou as primeiras notas de um reggae. Um dúzia de miúdas assaltou a pista, rodeando-me. Foi uma abordagem tão às claras que me senti prestes a ser repasto das Bacantes e estremeci, literalmente, de medo. E resolvi sair da pista, com metade delas atrás de mim a invectivar-me. De cabeça voltada, dizia ainda «não» a uma mais insistente, quando me virei na direcção do bar. E foi aí que me beijaram. Um beijo exacto, húmido, único como um anzol bifurcado. Era a mais bonita. Perguntou-me se lhe pagava uma cerveja e salivei de imediato a pensar nos restantes pedidos que se seguiriam. 
Uma hora depois saímos da discoteca, rumo ao meu apartamento. Providos dos preservativos necessários. Nunca ninguém com uma pele tão negra e luzidia (passe o lugar-comum) me sulcara de humidade a cama e estava bastante excitado.
Entrámos, pus música, demos dois dedos de conversa, e ela perguntou: «Tens um bife, na geleira?». Fiz-lhe o bife com batatas. Pediu outro. Comeu os três bifes que tinha. Depois instalou-se um silêncio propiciatório. Disse-lhe: «Vai andando para o quarto, vou tomar um duche rápido.»
Quando cheguei ao quarto dormia, nua e ferrada. Os seios tinham grumos de farinha. Sentei-me na cadeira do quarto e mirei aquela fuselagem preta – quase azul. Veio-me à cabeça o grito do miúdo, o esguicho de sangue, e a pergunta incómoda: «quantas miúdas ele não pode olhar assim, com a alegria de dois olhos por cada poro?». E num frémito percebi que chegara a minha oportunidade para perceber que ser humano também passa pela renúncia – e fui para a sala, dormir.
Na manhã seguinte, dissipado o sortilégio nocturno, a luz acentuava tudo o que nos separava.
Foi uma das poucas vezes em que fui “um santo” e talvez a única em que me orgulho de não ter sido um espoliador, de ter «não-agido». Há uma coisa talvez informe (uma «grande razão», diria o Cesarinny) que se apelida «a moral» e que não serve só para ser fodida! 
Não houve qualquer inocência na minha escolha, nenhuma bacoca saudade de um paraíso perdido. África, em muitos aspectos está a saque, e noutros é um fascinante recomeço, exactamente na mesma proporção em que é o território ideal para o homem reencontrar uma espécie de “ética para náufragos”.
Em África, “condenado da terra”, condenado ao arado da palavra, recomeço do zero, despojado, nu - retomando o enigma da minha existência própria e singular. Desempregado por dentro e por fora, sou de novo o anónimo que vive sem antes nem depois, entregue ao abismo da reinvenção a que nos condena a lucidez de Calderon, quando recorda: «uma noche es la edad de las estrellas».

TRANSPERTO I, RAFFAELI CARRIERI



Alguns dos poemas de Raffaele Carrieri que traduzi, com a colaboração de Anna Rizza, e que publicámos, em Maputo, na semana da Língua Italiana no Mundo, em Outubro de 2010:


TARDE EM ÁFRICA

Os caravaneiros pararam os camelos.
O ar estava prenhe de tambores.
Como um cesto prenhe de ovos.
Descendo da minha torre de trapos
Apertei muitas mãos
E recebi não poucas vénias.

Qual jogo interrompido recomecei?
Os milénios tornaram-se espelhos.
Enganos e sugestivos soslaios.
Desposei Sara com a vista.
Anelado pelos seus cabelos pretos
E o jasmim dos seios.

Sem desfazer os véus
Tomei o caminho do mar.
Sara mais nova que o táler
Conservado na lã
Ecoa ainda no ar
Da minha tarde em África.


INAUGURAÇÃO

Cinco milhões de andorinhas
Acabadas de chegar das Pirâmides
Como se diverte a luz
A saciar a fome das borboletas
Enquanto o ar se quebra
Na bainha das saias.
Os olhares, o pólen,
E o prazer, de tantas caudas.


PEIXE SONHADOR

Efémera esteira
De peixe encarnado
É a tua língua
Um peixe sonhador
Que foge e torna
Foge e torna.


INVEJO A LULA

Muito invejo a lula
Que se eclipsa no seu preto:
Branco é o seu recobro, a salvo
No variável azul.


TOCASTE QUE BASTE

Basta, já tocaste que baste.
Chamaste a noite
E sentaste a viúva.
Tão imensamente viúva
Que maçada com a tua música
Desligou as pálpebras.


APEGA-SE AO MEU VERSO

Apega-se ao meu verso

O passo ligeiro
E o cheiro a esturro
Do fugitivo

Apega-se o vento quente
Que na fornalha de areia
Criva de astros
O alho.

Nasce por raiva o cardo,
O espinhoso cardo,
E a cabra consola com a sua flor.


REPOUSO COM A MINHA MÃE

Eu e tu e eu e tu
Como dois velhos capitães
Enviuvados de água.
Ou duas velhas gaivotas
Açoitadas pelo vento
Que se refugiaram em terra.

Eu e tu e eu e tu
Princípio e fim
De uma única tempestade
Trocando nas confidências
As arestas e os limites:
O mínimo de cada coisa
Que habitua a morrer.

Eu e tu e tu e eu
Dois velhos capitães
Loquazes e gaiteiros,
Sentados nos quartos
Os rabos muito amarrotados
Pela apreciação dos muros, a paz.

Eu e tu e eu e tu
Sem mais tempestades
Miragens ou naufrágios.
Sentados no quarto
Dois fatigados capitães:
Protegidos pelas espinheiras
Espiamos a morte que não vem.


NÃO DIZER AO POETA
A Erza Pound no Manicómio Criminal de Washington

Não digam ao poeta que o pão
É mais branco que o sal.
Não chamem a guarda
Se o poeta arde.
E nada de adiantar sobre o que deva fazer
Se sobre o mar cai a tempestade.
Deixai que o poeta chore
O cristal ferido
Na obscuro braço da mina.


SETE MUROS

Tenho sete espíritos
Por cada noite
E esperança alguma.

Tenho sete portas
No coração
E sete muros.

Tenho sete vidas
Na minha vida
E uma só morte.


MURO EM CIMA DE MURO

Maldito seja este silêncio
Que levanta um muro
Em cima do muro:
O céu separa do corpo
O olhar do olho.
Entre uma e outra mão
Cava-se um vale.
Maldito este silêncio
Que levanta um muro
em cima do muro.


O VERME O FRUTO

Eu sou aquele
Que falha tudo:
O verme o fruto.
Falho o amor,
Inerte no instante
Da palpitação.
Falho a ascensão
E falho a queda.
Falho a ausência
E a presença.

Eu sou aquele
Que falha tudo:
Falho no largo
E no estreito.
Falho a evasão
Incapaz de um murmúrio.
Nem aguento morrer
Onde não esteja.

Eu sou aquele
Que falha sempre:
Falho no dar
E também no apego.
Falho a ferir
Falho a curar.
Falho a estar só
E em companhia.

Ai, vida minha,
Até falho a loucura!


ROSA DOS OUTEIROS

Jovem morre a rosa
Nos outeiros
E a velhice triste
Desvela-se nos espinhos.

MEMÓRIAS DE UM PEIXE-BOI: INQUIRIÇÃO POLICIÁRIA SOBRE AS VERDADEIRAS INTENÇÕES DO TEMPO, I





O patrício José Flávio Pimentel (amigos assim não lembra o diabo)teve a fineza de me enviar a fotografia acima, no dia em que o anfíbio na foto do meio perfazia cinquenta e dois anos. Foi um golpe baixo, desferido com a cumplicidade de um antigo colega de universidade, o Luís Serpa, praticante de vogais no blog IN VIVO. Foi quase nocaute, como se contará na saga Memórias de Um Peixe-Boi, que se inicia em rodapé, e profusamente ilustrada, para que não se coloquem duvidas.
A segunda imagem desta série é pois o avatar em peixe-boi da reminiscência aludida na terceira imagem e na primeira imagem, no imenso perigo tubular que se anuncia, começa a narração (quanto ao mistério da senhora grávida a meio da imagem, isso se resolverá depois):


METAMORFOSE


De todo me convinha, ter sido
guarda das pimentas de el-rei
Dom Manuel de Portugal
e que uma alma nédia e fértil
a tal reminiscência me catapultasse.
Porque como sói dizer-se a memória
que não tem um ponto de mira
perde-se na ideia que uma mosca
faz de um pombo, oh lá lá
um porta-aviões japonês. Mas
eis-me de bruços, um pastel
diante do professor de tango
que em três braçadas vence
quatro piscinas, e cismando
nesta partilha de uma quadrícula
de água entre um esbirro basco
(bronzeia-se em off, o ranhoso)
e um tuga nos recantos ociosos
do Hotel Andalucia, em Maputo,
constato que a minha vida capotou
a baixas velocidades. Porque
uma destas noites soergo-me
sem pressa, repetia o meu avô
Henrique, a quem ferrou a embolia
antes de qualquer desforço.
Em que enfermidade comecei
a aceitar o mundo, interrogo-me
na braçada, e em enviesado
alarme ouço o clamor das crianças.
É lastimavel o laço que a ternura
me tramou, o mais ímpio suborno.
Réstia de cicatriz, descosida
do que tão profusamente me abraça,
também eu, prometo, volverei
num cão sarnento em quem
ninguém se queira assoar. E
enquanto vacilo na estratégia
o chouriço da Jade enfia-me
a prótese na glote. Uma batalha
perdida, reflicto, não desfigura
a grandeza, e acendendo-se-me
em candelabro o natural
de peixe-boi, passo a crawl.

MARR-KE-TING, O TAO DA POESIA



O marr-ke-ting. Quando o livro Bagagem Não Reclamada esteve para sair escrevi uma notícia publicitária para os blogues. Era assim:

PUBLICIDADE PARA O LIVRO «BAGAGEM NÃO RECLAMADA», A SAIR PELA COSMORAMA

Porquê aceitar o tremendo fastio de ler este livro? Porque

«O tempo que demora
um seixo a sentar-se
o tempo de escamar
a truta até à fonte
o tempo de prescindir
da devoluta ombreira de Deus»

é o tempo que o leva a soletrar.
Quase nada ou muito pouco
para quem se habituou a desbaratar o tempo
deplorando o tempo que não tem.
E tem, novidades, poemas de amor,
num lirismo que não é piegas
e pouco referido no seu autor:

«Saudades de amoras.

Saudades de ler Cortázar na cama,
a dois, sublinhando
“dói negar uma colher,
negar uma porta,
negar tudo o que o hábito seduz
com suavidade satisfatória,
e não há nada de mal em que as coisas
nos não vejam mudar”.

Dói a saudade de surpreender
na tua mão
o espesso corrimento
e de que um dente
bata no meu
- praguejando
contra as línguas mortas.

Saudade do entusiasmo
que não era periclitante
e erguia uma escada
no celeiro.

Antes
dos donativos
e das instruções
para casados:
“come-a
com azeite e sal
e põe outro relógio
no buraco”.»

ou:

«Não há aqui sentimentos à deriva
tudo tem a precisão do que amanhece,

sabendo que a sombra é o lobo
necessário, que no coração
se entrelaçam uma cidade
e o passo dela,
a claudicação
do seu salto
no bueiro, a imprecação
com que espevita
em lâmpadas
a mate luz de Outono.

Nos seus olhos deslaça-se o passado,
vagas só as do mar,
não há aqui sentimentos à deriva –

e assim que ela sorri
sei que a sua função
é tornar-me imortal,
dessa imortalidade que se mede a pulso
nas torneiras
e se auto-intitula:
“A que mantém a água na boca!”»

Tem, além disso, “trovas” do tempo que passa:

«Depois do charuto, pôs-se a apreciar
o baile, os pares, o brilho de um relógio
mole na retina da mulher. Pensou:
hum, ao menos eu amadureci,

não me importo nada que a beleza
me passe ao lado, desde que eu possa assistir.
Mas depois ocorreu-lhe: só a morte
é que dá borlas. E ao som da música

pôs-se determinado a bater o pé,
com uma energia expansiva,
como se manco fosse
unicamente o deus que espreita.»

ou:

«(Qualis vita, finis ita)
No umbral dos anos que passam,
ei-la: dá grilos aos corvos.
Lúgubres, murcham com ela os meses:
dá grilos aos corvos.
Disponho-me a amá-la nove vezes
seguidas numa noite?
A insípida dá grilos aos corvos.
Antes da primeira colheita
dos nossos beijos já ela dava grilos
aos corvos. Se um familiar pergunta
«és feliz», responde «como Castor
e Polux tenho um gorro frígio»
e com uma pinça dá grilos aos corvos.
Por isso já não aguento viver em Lisboa.»

E poemas de outra elaboração, de um inescapável velcro existencial:

«Não eram casas, eram nesgas
de outros espaços que logo
se desapercebiam. Era a morte
assim, prolífica de lugares,

a vigília súbita - indício do pavor
de estar a regressar
a uma diversidade
do ter sido, do vir a ser?

Estuários, ravinas, moradas,
à vez reconhecidos e ignotos
como os de um anjo?
Sonham os cegos ou vêem
noutras partes?
Não há acudimento.»


«Gente irremissa, até no meio dos ciclones,
preocupada com uma malha caída,
um cabelo na sopa. O tecto do mundo
não é o Himalaia mas o coração
que espera, a espera ainda sem folga,
a ungulada asa preta do morcego.
Não ponha música, oiça-me
a música faz-me doer os olhos.
Os mortos também devem ter saudades, entende?»

Bom, vindo de quem vem, não lhe podiam faltar as “chuchas metafísicas”:

«Se, como viu Jasão, a vida
navega por entre rochas
em colisão, que infausto crime
tornou a poesia trivial?
Captura da mais insondável
variação do vento na vidraça,
como a borboleta que espaneja
entre a cal e o muro – quem não viu
nunca poderá adivinhá-lo;
que se acorda para dentro
na rota do milagre e a escarpa
não tem meio, apesar dos fiéis
rogarem em círculo como os cães,
apesar do jacente salto cabisbaixo.»

Mas se, nele, alguns copos ladrilhados por uma honorável tradição:


Adágio101 (lembrando Dylan Thomas)
The death of one god is the death of all

O copo escapou-se-lhe da mão, bateu e rolou ao longo do veio mais macio da velha mesa de mármore - milagre, intacto - no justo instante em que o relógio de parede, nas suas costas, dava as treze e a sua esposa, elevando a voz do escritório contíguo, lhe perguntava a morte de um deus é a morte de todos? Dezembro enchia de musgo as árvores, retrucou ‘hum, hum...’ e, enquanto num calafrio se inteirava do desvelado extravio do seu espírito, reforçou a dose.

só parecem antecipar um lastro “rançosamente” místico:


«Na infância, a Noite era uma
Senhora muito encarquilhada
Que varria a luz até
Adormecer de cansaço.
Depois, a senhora rejuvenesceu
E o seu sexo escandia
Os dragões matutinos.
Hoje a Noite é um pequeno
Ladrão que adormece à espera
De que a ocasião fique vaga,
Ilha onde a minha ilusão
Abre o seu guarda-chuva
E luze, intérmita, no escuro
........................................... »

não prescinde o poeta de uma colorida auto-crítica
(auto-derrisão lhe chamou um crítico
dos mais famosos que há na praça):

«A vida são as luvas da morte, cismou,
e a mostarda subiu-lhe ao nariz.
Espojada a reputação na erva fria,
quis esbofeteá-la, mas o mundo está à pinha
de intrusos que nos distraem. Saiu do café
com a sensação fruste de ser um oráculo naif,
se tanto, um licor fino. Chegado a casa escreveu:
"Este verso é mais infalível que o Papa!"
Ah, ser ao menos traduzido em islandês,
suplicava aos somíticos fantasmas,
já no quintal - descalibrado cenho
entre dois goles de malte, de cotovelos
pregados à sua mesa de carvalho,
rente ao muro de asas abertas que o sitiava».

E apesar de no livro se detectar algumas recaídas românticas, suspeitas de irracionalismo:

«Às golfadas, fere no escuro.
deixa pegadas húmidas,
um odor a algas no convés
da alma. Vestígios que a alba
não desarmará, até ser dia.
Reluta, a alma. Teme
como a uva ser pisada
em vão. Nas luzes
da costa conto os pêlos
de Deus. À cabotagem.
Mas não se alcança Deus
naufraga-se Nele. Justo
farol: a atenção Divina
entrecorta-se de dúvidas.»

tem o mesmo guinadas de astuta colagem ao seu tempo:

«A fada má (a dos românticos),
que envenenava as vogais
de leite das crianças,

a fada preguiçosa, que balbuciava
versos realistas, (‘pode baixar
o volume do seu televisor?’)
e acuava a populaça dos sentidos,

o encanto decadente de quem,
desnutridos os dons, secou
as grainhas entre os dentes,
e agora fala em novos paradigmas,

o poeta e o crítico, dois
testículos degenerativos
que imploram delegação,

ei-los, forçados a depor:

‘o vento frui de si mesmo
ou flúi de fora para dentro?’»

Para além do mais, este é um livro raro, que nunca se esquece do seu leitor:

«Procura-se leitor, morto ou vivo,
doze euros de recompensa,
alguém que restitua à letra
o corpo radiante, as mamas

en su sitio, o cuzinho refilão.
Procura-se leitor, morto ou vivo,
que vaze as minhas mãos
na sua espalhafatosa intimidade.

Procura-se leitor que salpique
a sua actuação com crisântemos,
em vez de desairoso tropeçar

na própria sombra. Procura-se
leitor, que aguente mais que água
tónica ou a acedia que atomiza.

Em que outro livro, relaxa o poema, cumprido o seu fado?

«Desabotoada a calça,
o poema relaxa,
como o guarda na guarita
que vê a manhã dourar
lama, folhas, os estalidos
que lhe amotinavam
a noite. Aceita
então de bom grado
um cálice, algo
que o distraia da missão
cumprida. O ventre
descai, engasta-se
no débito da rola.»

E saiba ainda que é diverso (outra raridade, neste tempo), tão diverso como os retratos dos treze pseudónimos com que começa.
Tudo isto pelo preço de um. Fica barato.
E se no fim se decidir a não comprar, saiba que não tem mal
porque dá sempre flor a derrocada dos castelos.

Veio «o impacto da realidade» e lixou tudo. Agora o melhor é ficar quietinho, a soprar as velas do meu silêncio

Não se emenda, a chuva



O quadro é do Matta, chama-se Bouche en Fleur e, acidentalmente, olhava para ele quando recebi a notícia de que ficou pronto o meu livro Não se emenda, a chuva, o meu primeiro de poesia publicado em quatro anos. Nestes anos goraram-se outras edições, como os livros Bagagem não Reclamada e Bar La Fontaine, por falência da editora que os reclamara,e, mais triste, com as provas já na mão. Desta vez, a raposa do tempo não me roeu a lebre antes da meta. Estou grato a Vergílio Alberto Vieira e a João Manuel Ribeiro,os responsáveis por esta colecção, Livros de Horas,e pelo bom gosto gráfico que a norteia. É de facto um livro muito elegante, muito favorável à leitura dos poemas. É o livro da serenidade condoída com que queria celebrar os cinquenta? Diz-me o José Luís Tavares ser débito atravessado por uma ponta de melancolia, pouco habitual em mim. Talvez ainda não tivesse lido A Bola nesse dia em que fiz o alinhamento final do livro. Tenho o sentimento de que é um livro de que o Al Berto, que eu evoco num poema, gostaria e isso basta-me por agora. Deixo três poemas:

VARIAÇÕES EM BACON
para o José Luís Tavares e José Forjaz
1
A carne escorrega dos pés para a cabeça. É um movimento que contraria a gravidade e por raros entrevisto.
Assim que o peso da carne aflui inteiro à cabeça contrai o olhar em milhentas rugas.
Então, na mente, uma figura com o palor das sombras de Turner, vivifica o que foi, o que o tempo não curou e inverteu, para sempre, no bojo da inocência.

2
No estudo para um retrato de Van Gogh a sombra da figura está truncada, carcomida a meio por uma fome branca.
É um fruto do acaso mas que realça o que dá pertinácia à pintura: um instinto com pernas desamarra de si o torso das forças racionais.
O que o pintor de corvos não desdenharia.


3
Pintar um grito humano que desactive os direitos
conexos da carne e imponha à manhã
o silêncio que lhe perfura os olhos.
Uma boca de onde surda
a proa de um navio.


4
Como atingir um máximo de semelhança, da maneira mais inconsciente?
Atravesso o Tamisa sob o estardalhaço de uma prova de motonáutica e o espírito repõe-me o silêncio que infligiu a Florença um golaço do George Best.


5
Jura Sylvester que enquanto posava para o retrato eu examinava fotografias
de animais selvagens.
Tigres, suponho, a incendiar o bambu.


6
Poças de carne sobre um fundo em acrílico.
Tem sentido falar de um nu em Cézanne?
Vidas esmaecidas em pinceladas bruscas, a cuja transparência luzem ossos.


7
Chega de fora-de-campo, como o falcão desfechado pela opalescente nuvem
sobre a codorniz, ou estava de antemão numa pincelada
que fez cintilar o medo no olho da ave?
Formas fugazes sobre a tela, interceptadas por outras que se impõem,
poderosas como pensamentos carnívoros.
Só no México são os feijões saltitantes.


8
Ah, a sorte de ter um pai treinador de cavalos, ébrio pelas capitais do mundo,
a urinar de esguelha os miosótis, escondida a face,
músculo e lente afinados pelo amarelecido desaire.
O meu pai, Francis, um “retratista de danos”, ensandeceu
a fixar no vento os matizes da transparência, o nó que lhe esborratou o coração.
E legou-me o que intuiu de véspera: a improbabilidade de armistício
nas naturezas mortas.
Treinará agora com o teu os centauros do empíreo!

Ah, um morto é uma escultura que devora o buxo, não há escapatória,
sou sincero, não há como fugir a um pedaço de carne cravado na erva.
Como expor, sem retorcer a imagem, os níveis da emoção de Inocêncio X?
Que coisas pode o modelo trazer de volta, iludida a agressão do tempo?
Aquele que sonda através dos reflexos tem de porfiar no olhar,
aquele que escuta atrás da palavra tem de visar a atenção do açude,
a que peremptória mima o gafanhoto quando rumina as hastes e os
brotos da melancolia, pois, barqueiros aziagos,
matamos sempre aquilo que amamos.



de SETE FACETAS DO TEMPO
ENTRE OS CORSÁRIOS DA MACANETA*

4
A ideia de que o tempo pudesse ser massa folha-
da: uma ideia de garoto,
competia ainda o mil-folhas de domingo com o
reclamo do primeiro beijo,
sonho fatídico, onde me transmuto ainda.
Não se retalia. Pode-se até esquecê-lo, empres-
tar-lhe a sinusite,
deixá-lo a debulhar lágrimas com a fotografia, à
beira da catástrofe
onde um morto lacera, de olhos verdes.
Mas, incessante, sinuoso como o pulmão que sin-
croniza um bando de flamingos, hás-de voltar a ele como
ao pobre nome que percutes
contra os dentes, ansiando por tertúlia.
Não se retalia, ao tempo não se retalia. Pois quem
vive de travões emprestados? Como eu,
nessa noite especial, ondulante,
em que forcei a insónia para ouvir pela rádio o último
round entre Ali e Frazier
– dois lençóis friáticos treinados para ficarem
num fiapo muito antes de lhes chegar traça –
eu, um miúdo ainda de todo alheio
aos knock- outs de Cortázar, à malsã
auto-piedade do Sísifo de Camus, às laranjas azuis
de Éluard, criança ainda de todo inepta
para deduzir que contra os relógios só o alho-porro
e, sobretudo, não picar com a mesma faca amor e ciúme.
E disposto a confiar nele como na vitalidade do
nariz que pinga,
e a incutir: você é quem sabe, você faz o preço!
E o tempo, sorna, de sorriso a tiracolo, a descar-
nar-me as gengivas,
a enrodilhar-me nas suas veias de lobo
( - a sua pata de papelão não perdia de vista
o meu mealheiro sobre o frigorífico), (atenção, há um corte no texto)
enquanto Ali - grafitos indeléveis no céu
de Órion - ginga ao canto, furtando-se
ao amasso de Frazier, e resiste,
uma e outra vez, dando enlace e realce
ao delicado equilíbrio das estrelas ascendentes.


6
Mais meia-hora da carga valente que caiu e podia
apresentar às miúdas o general Custer.
A Luna dançou à chuva, a Jade adormeceu no ful-
cro da tempestade.
Eu, dado o adiantado da água temi que o dragão
sem freio do tempo nos mergulhasse,
a mim e à T’resa, nas comportas do amor para
nos cuspir depois nas suas margens
já sem o escalpe da memória.
O Capão, depois de examinar no tecto a qualidade
da construção – nem uma gota digna de um dedal –,
mais tranquilo, explica à Isa as manobras do seu exercício
de Sudoku.
Encho a fornilho do cachimbo com o tabaco que
me trouxe Sitting Bull, de tudo aliviado.


*A Macaneta é uma praia a 40 km de Maputo, onde passei uns dias com José Capão e Isa Maldonado, a quem o ciclo é dedicado

homenagem




Faz cem anos Ernesto Sabato. É em Junho mas mais vale prevenir. Até lá, releia-se com vagar, fascinação e ciúme os seus três únicos livros de ficção: O Túnel, Heróis e Túmulos, Abbadón, o Exterminador. A mim, que fui tantos, nada me orgulha mais que ter sido seu contemporâneo. Prescindimos da citação em latim, mas recomendamos que, durante a leitura se ouça, por favor o Catálogo de Pássaros, do Messiaen interpretado pela Yvonne Loriod.