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sábado, 25 de fevereiro de 2012

O QUE DESIGNA UM ICEBERG


Por vontade própria e alheia tem andado o Raposas ancorado. Retomemos a navegação:

Como sempre, na primeira aula, bato na tecla duma necessidade de mergulhar na escuta, de um despertar na palavra, e reforço a necessidade de nos aventurarmos no dicionário como num safari de luxuriantes colibris. Pelo menos cinco ou seis vezes ao dia, acentuo, mentindo com o meu exemplo, que se não descubro cinco palavrinhas novas por dia me sinto um abajur depreciado pela virilidade da sua pera, etc., etc. E insisto que me interrompam, caso nas minhas deambulações ocorra alguma palavra que eles desconheçam. Não se inibam, não se inibam… E entrego-me ao fluxo, desopiladamente, alternando a gaguez com blocos de alguma fluidez e duma impensada pertinência, desemperrando a língua… e uma aluna levanta o dedo. Diz, convido, e ela pergunta, dr., O que quer dizer iceberg, O que designa um iceberg, repisa, num orgulhoso assomo de erudição. O que designa um iceberg, ecoa no meu crânio, ao ralenti. Não sei o que é, conclui. Não viste o Titanic, pergunto, angustiado. Ela não se deixa esmorecer, Vi até metade. Viu precisamente até ao momento em que aparece o iceberg, o que é o mesmo que não ter visto. Sinto uma gota de suor frio a sulcar-me as fontes. Ressalvo, é natural que desconheças o que seja um iceberg, és uma rapariga dos trópicos. Mas por dentro estou gelado com o esforço de não deixar transparecer que talvez não seja admissível no século XXI que um estudante universitário, em qualquer parte do globo, não saiba o que é um iceberg.

Lembro-me de um choque semelhante em Quelimane quando um aluno, que teve de ler uma palestra de Merleau-Ponty, me trouxe uma lista de palavras-mistério para eu lhe desvendar, havendo, no meio de alguns conceitos, um aguaceiro de palavras corriqueiras, que culminava num cirro cinzento e pesado, a única palavra que ele se havia esquecido de apontar e que agora pronunciava de viva voz: professor, o que é “espontaneidade”? O mesmo aluno que, num jantar de convívio que tivemos depois, já alegrete com um copito, me falava do mar vertical, metáfora que eu aproveitei para definir a poesia.

Mas a mais mortal talvez tenha ocorrido seis ou sete meses depois de ter chegado a Maputo. Fui apresentar um livro de contos de Albino Muianga, e conto uma história com o Picasso.

Um soldadito vem de fim-de-semana a casa e passa por uma galeria onde se inaugurava uma exposição do basco. E fica logo de cabelos em pé com as mulheres do quadro que está exposto na montra, com os rostos de frente e de perfil ao mesmo tempo.  E resolve ir dar uma lição ao pintor. Entra abruptamente pela galeria, acotovelando à esquerda e direita, e pergunta estentóreo, onde está o bardamerda do pintor? O Picasso acolhe-o sorridente, com a sua boina basca e uma taça de vinho. Escuta o arrazoado do soldado sobre os distorcidos corpos daquelas mulheres e a sua falta de realismo e então pergunta brandamente: O amigo tem namorada? A pergunta desconcerta o soldado, que anui, tenho. E tem uma fotografia consigo, pede o pintor, amavelmente, num tom que não admite recuo. Tenho aqui, e o soldado tira a carteira do bolso, abre-a e mostra a fotografia da namorada, que passa imediatamente para as mãos atentas do pintor. É muito bonita, observa o pintor depois de uns segundos de silêncio, muito bonita mesmo… pena é ser tão pequenina.

Isto para explicar que aceitar a arte implica aceitar as suas convenções, de igual modo que se aceita que aquela imagem da fotografia “seja” a pessoa que retrata.

Contei esta história, que é no mínimo risonha, e fiquei siderado pelo silêncio gélido que se seguiu na plateia, que reunia umas dezenas largas de pessoas, quadros, intelectuais e médicos - a profissão do Aldino.
No beberete que se seguiu houve uma cirurgiã que se apiedou da solidão do apresentador e se aproximou calorosa para me perguntar: o Picasso é aquele artista que pintou aquele menino das lágrimas, não é? Falava-me de um poster absolutamente foleiro e kitsch que forrou as paredes da pequeno-burguesia urbana dos anos 70. E então fez-se-me luz, a maioria da gente ali reunida não sabia quem era o Picasso.
Para espanto meu, descobria um sítio no mundo – muitos, verifiquei depois – onde não se sabe quem é o Picasso. E não sei se tem mal, embora os intelectuais na Europa saibam quem é o Malangatana. Um lugar onde um jovem universitário desconhece o que seja um iceberg. Nunca estaremos suficientemente advertidos para as nossas diferenças.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

EXPIRAÇÃO E INSPIRAÇÃO DE JOÃO ULISSES


                                                                 para a Ana Ulisses

Morreu o João Ulisses. Vou ficar na cama
a coçar a cabeça e a cismar na pequenez
da minha clausura. Talvez fume um maço
de olhos fixos no morrão incandescente
em que patinou a minha torre de Babel.
De facto, hoje não tinha nada para fazer,
e daqui para diante será inútil esperar
por anjos caídos no esconso lúgubre,

morreu o João, o meu Ulisses à moda
do Porto. Não era o ULISSES de Homero,
não tinha a estampa do ULySSES de JoYce,
era o que foi dado num encontro alucinado
no antigo Luso do Porto que depois verti
num conto, de fortuna e colarinho incertos.
Homero e Joyce criaram arquétipos, alianças
que não casam com os dedos da morte,

neles as provações são menores que a gana
com que as unhas, o cabelo, o coração
atribulado dos seus heróis, vence o olvido.
Ainda hoje deambulam, iridescentes,
nas circunvoluções do leitor. Reparo agora:
não me ocorre herói que seja calvo.
O meu Ulisses tinha uma bela cabeleira de índio
peruano, até nisso era dotado, mas finou-se,

e o meu cabelo desfalece às pazadas
na fronha encardida. Olho paralisado
o meu corpo, exangue, a deslassar
sob a ventoinha no tecto, o gim acabou,
apocalipse now  forever, e desejo
que o artefacto caia e me decepe:
morreu morreu morreu o Ulisses
de olhos e costas voltados contra o mar.

Triste a condição dos poetas menores,
ver – de Tristia, da estultícia do seu exílio –
morrer as suas personagens, e acordar
a meio da insónia, aturdidos, na mesma cela
em que se esfumam as miragens.
Pudesse eu ainda salvar-me socorrendo-me
de um artifício à Borges: filmando um encontro,
num fumarento bar do basfond de Esmirna,

entre o meu Ulisses e o João, o Ulisses
que eu não conheci. Discordam de tudo
menos da temperatura da luz que havia
no Luso, numa ínvia noite de chuva,
em que uma personagem se senta ao balcão
e pede uma Francesinha.  Para o que se segue
contradizem-se, no mais ínfimo lampejo
da memória. Só eu assisto e anuo com tudo,

como um nó que se descobre marinheiro.
Somos três homens perdidos na bruma,
dois Ulisses e o seu narrador – qual deles
afastará o frio começando a assobiar?
Morreu o Ulisses. Quem me salva a personagem?
Baixem as persianas – o seguro morreu de velho
e eu também não. Um morro de cinza abate-se
sobre a minha sombra. Trabalha ventoinha!



Excerto do conto Ulisses à Moda do Porto, publicado em Tormentas de Mandrake e de Tintin no Congo, Teorema, 2008:

«Como é que o conheceste?
Num FantasPorto. Era o quinto filme que via nesse dia, no Carlos Alberto, e sai-me aquele enredo de uma brasa aperaltada que seduzia os homens e a meio da trancada se transformava numa enorme aranha que lhes devorava as entranhas... não aguentei mais e saí para a rua, como diria o Fortes, com uma aranha no penteado. Eram para aí dez da noite, e o Luso estava apinhado. Conheces o Luso, na Praça Carlos Alberto, de vitrinas corridas de alto a abaixo, um café antigo? Só arranjo lugar ao balcão. E não sei porquê, deve ter sido do bucolismo que o filme transmitia, peço uma francesinha.
Consegues comer aquela bodega até ao fim?
Nunca, não tenho o estômago de um búfalo. Nem cheguei a meio.
Pouso a coisa e, foi automático, ouço uma voz com sotaque atrás de mim, importas-te que acabe? E eu, força. Era ele. Ficou de pé, ao meu lado. E disse-me, nem em Bruxelas, esqueci esta merda... e ri-se. Referia-se à francesinha. E eu fiquei logo antenado. Houve uma altura em que todos os amigos que me rodeavam tinham estado em Bruxelas... Entretanto, o gajo do meu  lado saiu,  era um escocês que estava à espera da mulher, que tinha ido ver o filme da aranha, e ela chegou com um ar enjoadíssimo e para nunca mais... e o Ulisses abancou. Queres uma imperial, convidei. Só se pagares. Para mim, ele já era amigo dos meus amigos, tinha estado em Bruxelas... Vê lá se conheceste algum destes gajos, perguntei-lhe, o Al Berto, o poeta, o Guilherme, o Dodo, ou o Tinoco, um tipo que estava ligado à Luar? E ele acenava-me, com a boca cheia. E contou-me a história do salto dele: conheceu no Cais do Sodré o cozinheiro de um barco turco, que o metia dentro do navio, a troco de uns dólares. Pediu dinheiro emprestado e passado dois dias o turco escondeu-o no porão de açúcar. O barco partiu nesse tarde, só que os vapores do açúcar começaram a embebedá-lo e apareceram os ratos, às pazadas demasiados para um homem já meio grogue. E então desatou aos berros. O navio já estava em águas internacionais, saía caro voltar ao porto, e então o cozinheiro disse que precisava de um ajudante... Mais tarde, percebi que não era só isso, o cozinheiro era panasca e marcou-o... Atravessou o Mediterrâneo, parou em várias ilhas gregas, e acompanhou o navio até Esmirna. Aqui saiu, e com a jorna que lhe pagaram, fez toda a costa da Turquia até Istambul, onde arranjou boleia num camião de congelados para Berlim. Um mês depois chegava a Bruxelas, onde permaneceu um ano, antes de se mudar para Amsterdão...
Porquê, a mudança?
Ele nunca me explicou. Na Bélgica o grupo de exilados português era mais politizado e na Holanda era mais janado, era a hipótese que eu punha... Mas um dia perguntei ao Tinoco, que estava ligado à Luar, se ele o conhecia. Ele pôs uma cara de caso, cofiou a barba e perguntou-me apreensivo, Tu és amigo desse gajo? Esse gajo assaltava tabacarias de velhinhas em nome da Luar e tivemos de convidá-lo a mudar-se para Amsterdão.
Olha o figurão... Mas afinal, o que é que te ligava ao gajo?... Então, ficaste mudo?
Lá no Luso, estava a meio da narração prodigiosa da sua vida e diz-me a frase mágica: deixei a minha caixa de poemas com o Al Berto. Nessa altura eu dava uma importância excessiva aos versos, para mim um poeta era um ser de altíssima prioridade.
Ingenuidades...
Cada um tem as que pode... E perguntei: e o Al Berto devolteu-tos? Não, perdeu-os num incêndio. Bolsei a pergunta fatal: tens continuado a escrever? Sim, tenho tudo na pensão... E aqui o sacana foi expedito, disse-me, trabalhei nas alfândegas até à abolição das fronteiras, depois, separei-me, e nunca mais me enquadrei... Nessa altura reparei que atrás de nós fez-se silêncio, mas ele pediu logo outro copo e continuámos, Tens escrito sobre isso, perguntei-lhe, cabotino, e o latoso: é o que me resta, o despojamento das personagens de Beckett é a que estou reduzido. Tens esses poemas contigo, salivei eu. Na pensão.
Espera lá, e como é que ele foi de Amsterdão para o Brasil?
Voltou depois do 25 de Abril. Meteu-se no meio teatral, fez uma peça no Trindade, e depois foi para o Porto, viver com uma actriz, entretanto chamam-no de novo do Trindade para participar num elenco com artistas brasileiros... e ele conheceu a brasileira e pirou-se com ela. Por isso é que ele tinha voltado ao Porto, soube que a antiga namorada estava desamparada e foi tentar a sua sorte...
Continua lá, no Luso...
Disse ao gajo, trazes os poemas amanhã, conheço vários editores. E ele, talvez, estou com um problema... O sacana tem um ar inteligente, matreiro, e é perito em pôr um ar sofrido. Passados dez minutos apanhei-me a pensar, que se foda, o jornal é quem paga, e ofereci-me para lhe pagar os dez contos que ele devia na pensão.
Não te rias, o gajo tinha estado em Bruxelas, o viveiro de todos os meus amigos... Pagas a pensão e amanhã encontramo-nos aqui às três da tarde para me mostrares os poemas...
E leste-lhe os versos?
Noutra ocasião. Mauzotes, muito auto-complacentes. Era um repentista com graça, mas depois não trabalhava o verso, e ficava-se pelo poema-piada, à tropicalista...  E na prosa era pior, mostrou-me um romance e eu dissuadi-o... ou antes, como as editoras lhe deram para trás, ele então resolveu ouvir-me...
E no dia seguinte, o gajo népia...
Cheguei cinco minutos antes, a antegozar os poemas. O Luso estava quase vazio. Eu tinha comprado na Leitura uma antologia de poesia árabe e comecei a degluti-la. E li-a inteira, sem sombra dele. Às 16 horas comecei a ficar inquieto,  dei por mim a observar os desenhos no estuque, uvas e sátiros e ninfas e sobreveio-me a hipótese: criaturas tão dignas a serem observadas por um otário! Quinze minutos depois inquiri o empregado que estava ao balcão e nos havia servido na noite anterior: você não viu o tipo com quem estive aqui, ontem? Ele olha-me compungidamente, lava dois pratos, e depois sussurra, sem levantar os olhos: eu só lhe digo isto uma vez, meu amigo, e se quiser que eu repita, eu nego. O senhor ontem movimentou nesta casa 300 contos em apostas, sobre quanto é que o Ulisses lhe ia apanhar...
Não posso!
Podes com pouco. Foi assim mesmo.
E tu.
Comi e calei. O gajo tinha-me dado um conto. Eram trezentos contra um, mas o meu não era mau...
É verdade.
É essa a minha questão central: eu devia ter-me indignado. Devia tê-lo perseguido e crivá-lo de bofetadas... mas achei que ele me tinha dado um conto, ainda que à custa da minha ingenuidade. Até o título me veio ali, na ponta da língua: Ulisses à moda do Porto. Ainda voltei ao Luso duas noites, se calhar para pôr a hipótese de lhe dar uma galheta, mas o tipo sumiu-se.
Quando é que o voltaste a ver?
Seis meses depois, aqui mesmo. Entro e vejo o marmanjo sentado à mesa com o Zetho, o Patraquim e o Herberto. E adianta-se o tipo, antes que eu pudesse reagir, devo-te dinheiro, toma já cinco mil, e passa-me a nota, o resto depende de o mereceres...»

Advertência: este é um personagem que inventei, a partir do nosso encontro. Eu não conhecia o João Ulisses, estive com ele apenas duas horas, nem nunca lhe li os poemas

sábado, 28 de janeiro de 2012

TRANSATLÂNTICOS QUE TRESPASSAM ICEBERGS

michaux, plume

1
Para o Leonardo da Vinci a mão pensava, no exactíssimo sentido em que para muitos compositores a orelha criva de sons e harmonias incriadas a mente do compositor.
Hoje fui entregar uma revisão e no gabinete do editor, na amena cavaqueira de sempre, dei conta que o ar condicionado me despertava o reumático na mão. Uma moinha que aparafusa, contínua, com a avidez do mais álgido fungo.
E estou a ouvir o meu amigo e já a pensar noutra coisa que aos olhos de muitos será vulgar mas que em mim retine como uma campainha mágica:
o Henry Michaux sofreu de uma feroz osteoporose na mão aos 56 anos, que a tolheu, tendo-o feito descobrir, a expressão é dele «o homem esquerdo». Ora não há coincidências e o esburacamento ósseo da mão daquele que é para mim um dos definitivos poetas do século XX só pode ter sido uma vendetta do sistema ósseo sobre uma mão que sonhava demais.
O Michaux foi dos poucos que fez vários transatlânticos trespassarem icebergs sem haver conhecimento de um único naufrágio.
Mãos mais  articuladas que as pálpebras de deus.

2
A Ana Cristina Leonardo, jornalista e crítica literária, a pena muitas vezes lúcida da Meditação na Pastelaria, uma intelectual a quem move a transparência de nunca ter gingado à procura de consensos e tem uma opinião forte sobre quase tudo (ela não se inibe de querer-se o contrário do “pensamento débil”, coisa a que sou mais atreito), escreveu há uns meses uma coisa no seu blogue a que sempre pensei responder.
Acontece que não tinha o livro em casa e portanto só me podia apoiar na minha fé, o que não é argumento suficiente contra a Cristina (e tem razão), pelo que tive de esperar que me devolvessem o livro.
Foi ontem, o livro é os Cem Anos de Solidão, e pude finalmente reler umas páginas enquanto digeria o que ela havia escrito, onde se dizia, preto no cinzento, pois cito de memória, que o romance do Garcia Marquez não havia resistido ao tempo.
Estamos em desacordo. Explico porquê, e só me vou ater à primeira página do livro, que me dá os argumentos suficientes.
O livro começa com a célebre frase que toda a gente conhece: «Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.»
Poucos inícios são tão fortes, a) pelo contraste entre uma situação sumamente grave e uma evocação aparentemente tão irrelevante – como se o Buendía tivesse o sentido das proporções avariado e não houvesse nele, estranho para um militar, o mais breve resquício duma noção de hierarquia na narrativa de uma vida, e todos os signos se equivalessem; b) pela metonímia que trepa sentido anexo até se converter numa metáfora estonteante e quase invisível e que é introduzida pelo gelo: a morte é uma congelação.
Quando Buendía se recorda, já está morto.
É difícil fazer melhor.
Continua o parágrafo:
«Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e cana, construídas na margem de um rio de águas transparentes que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos.»   
A transparência das águas é traduzida pela lente que amplia o tamanho das pedras: quando nós vemos os ovos pré-históricos deixamos de ver o fluido que as permeia, o efeito da transparência está genialmente plasmado. Em literatura não se pode fazer melhor.
Todos os anos, pelo mês de Março, chegavam os ciganos e as suas maravilhas. A primeira maravilha que levaram a Macondo foi o íman. Mas antes lê-se:
«O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nome e para as mencionar era preciso apontar com o dedo
As coisas sem nome são coisas sem vínculo, sem o elo que instala o circuito entre as pessoas e o acontecimento das coisas que as torna partilháveis, empáticas. O que o íman magicamente provoca.
Portanto, o aparecimento do íman não é mais um efeito fácil, não está ali posto ao acaso mas é compelido pela necessidade diegética, é a sua transposição mais orgânica.
Vejamos agora a apresentação do primeiro dos protagonistas da narrativa, Melquíades:
«Um cigano corpulento, de barba ferina e mãos de pardal dos telhados…»
Esta descrição, sobretudo a das mãos, ainda que o adjectivo ferino transmita de imediato algo de diabólico (porque indomável) à personagem, vaza de imediato o carácter da personagem: tão simpático e saltitante (isto é, errante), como sedutor e capturador (no sentido em que torna seu tudo o que toca, com inexplicável beneplácito dos demais, como se fosse a serpente que hipnotiza os pássaros). Síndroma de Estocolmo se chama ao efeito que o Melquíades exercerá sobre a comunidade.  
O que leio na segunda metade da página faz-me crer que, por um lado, como até aqui, não haverá uma palavra só no romance que não esteja enganchada num sentido posterior no romance, e por outro, pode haver uma leitura gnóstica do romance, o que inscreve no seu cerne uma pluralidade de leituras, para além da do gozo imediato da trama.
Se isto não são sinais de um enorme romance, não sei o que seja um romance intemporal.
E só falámos da primeira página.
Não creio que quem esteve anos ao rés da miséria (como saberão, o Garcia Marquez quando acabou o romance nem teve dinheiro para mandar o manuscrito inteiro para o editor, só lhe restando dinheiro para o selo correspondente a metade do peso que tal representaria, isto é, só mandou metade do romance) para acabar um livro ceda a falhar uma palavra, a meter numa página que fosse um sinónimo qualquer em vez da única palavra necessária à tessitura.
O que torna a sua malha absolutamente responsável.
Por isso não creio que se possa dizer que o Cem Anos de Solidão tenha envelhecido.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

O ANEL E O APERTO: A RENDIÇÃO DO ESTRÓINA


Não vale a pena assobiar para o lado, fazendo de conta que não aconteceu nada.
Casei-me.
Houve dois momentos embaraçosos, antes e durante:
o tête à tête com o meu corpo quando me despi no gabinete de provas da boutique
 onde comprei o fato e, num espelho alheio e menos macio e ameno, tive de contemplar a massa profusa e decaída de um corpinho que enfim já teve o seu esplendor grego e agora lembra o de um debochado bizantino – um momento de desânimo, talvez a noiva merecesse couve mais tenra;
a outra situação embaraçosa foi quando, pestanejando muito, me saiu o why not, antes de emendar, estava a brincar e de ter assinado o sim.
Se algum dos amigos me quiser dedicar uma musiqueta, que seja The touch of your lips, de Chet Baker, que não partilho já aqui pela total falta de tempo que esconde uma feroz inépcia técnica.
Este meu casamento foi também um casamento político: o do amor contra a rataria.
Foi provavelmente um dos últimos casamentos de amor num tempo em que os Presidentes da República convidam à venalidade.
Quando Cavaco Silva, num enlevo hipócrita, se lastima da sua reforma sem simultaneamente se demitir por até aí não ter dado conta de como fizera tão pouco pelo bem-estar dos cidadãos do seu país (- eis a perícia gaiteira de um ratice deslumbrada por ter subido da terra dos figos à dos melões), o mundo fica mais transparente, dado que a mensagem é:
“… não vale a pena trabalharem, esforçarem-se, o mérito nunca recompensará, vejam o meu caso, cheguei a Presidente e não me chega, só há uma possibilidade: Fodam a filha do Rei!
Exorto-vos a fazer render o corpinho (daí a minha angústia no gabinete da prova, já não reúno condições para essa provação), mintam, manipulem as emoções, realizem casamentos de conveniência, é o único modo de safarem a pele!”
Enquanto eu, neste país à beira do caos, violento e duma aspereza social metafísica, posso ainda casar-me por amor: caso-me apesar de não termos reforma, ó desavergonhado magistrado! Não há casamento de maior inconveniência.
Caso-me, arriscando mais uma vez o Pacto, apostando na Pessoa e não no Contribuinte – compreende a diferença, ó magna figura?
Mas dizia que a festarola promete correr bem, só tenho pena que o Carlos Vaz Marques não venha fazer a reportagem – sempre foi um dos meus grandes sonhos: ver um casamento meu na rádio – mas o Carlos já me prometeu que estará nas bodas de prata.
E segue o discurso que botarei esta noite contra a insistência dos convidados e que, homem prevenido, “improvisei” de véspera. E dirá o noivo:    

Maravilhoso povo maputense
gente que veio por bem e gente que veio ao engano, bem hajam.
Desde que montei o meu primeiro triciclo, aos meus dois anos, que não me ocorria dar um passo tão grave.
Conduzir o triciclo por veredas íngremes e rotundas salpicadas de sapatos, sem chocar com o Dick, o coolie que havia lá em casa, constituiu o meu primeiro encontro com o perigo.
Porque fomos feitos para andar sobre duas pernas e não sobre três rodas.
Para andar sobre três pernas existem precisamente os triciclos, de quem nós fomos as damas de companhia.
Mas o nosso natural são as duas, ambas as pernas, com que tropeçamos diariamente no olhar das raparigas matreiras…
Perdão, este era o meu discurso de despedida de solteiro…
Um momento. Enganei-me no bolso. Ah, cá esta…
Recomeço.
Prezados e condignos filhos de Delagoa Bay, aos que vieram por bem e aos que vieram ao engano, bem hajam…
desde a primeira vez em que me recusei montar a cavalo
que não me ocorria dar um passo tão grave,
ocorrendo-me agora que o berreiro que fiz nesse dia no hipódromo
significaria o pânico de não chegar inteiro a este dia
sem lesões centrais e periféricas que esfacelassem a minha capacidade para cumprir os deveres da conjugalidade
e outros de pendor mais abstracto
mas mantenho que a minha vida se decidiu nesse primeiro não
diante de um alazão a quem o tratador tratava por Raimundo,
e esse não só hoje ganhou sentido no rotundo sim que dei esta manhã
num cartório revestido a capulanas e sob o olhar pátrio e benevolente
do presidente deste povo maravilhoso
que lá fora se esmifra e acotela no chapa, ordeiro,
e diria que o sim até ribombou aos tímpanos do conservador que exultou
ao ponto de lhe terem caído as calças ao som da sílaba
facto pelo qual se desculpou com o insólito sumiço do cinto
fanado por um vizinho com manápulas de larápio
e ribomba ainda nos meus tímpanos amaciados pelo sim
ouvido a esta dama antes do deslassar da cintura do escolápio.
A esta dama Teresa de Cordato, e Noronha como minha mãe,
prometi eu no primeiro dia na feira popular do nosso primeiro almoço
prometi eu, dizia, três meninas com quem andarmos na montanha russa, faltando-nos neste momento adquirir apenas
os últimos dez metros de carril para nos mudarmos para Durban
onde montaremos a maior montanha russa da África Austral,
plano que desde hoje e daqui deixa de ser secreto.
Mas mais vos conto ilustres e embevecidos convidados,
que na verdade nunca saímos da Feira Popular
porquanto nas primeiras férias em que nos fatigámos mutuamente foi mamã Teresa tomada por uma labirintite que a manteve deitada quinze dias com vertigens que desenharam naquele leito a cordilheira dos Alpes
o que nos enleou para sempre em cordas e picaretas,
e por isso, agora, só para distinguir um bocadinho só que seja
este nó cego a doer em paixão tisnada
como li em poeta lírico desses que até no buço da amada descortinam os lírios do rio vos confesso que de amor amado já não estranho
desde o sim ao retrovisor que nos atou
e anuncio que, apesar de a partir de hoje
suspeitar que alguém se fará rogado sempre que lhe pedir irrigas-me
o púcaro com martini, une bonne voyage ç’est comme ça,
e mesmo até para os que afinal contra todos os avisos
não trouxeram xaile, anuncio
que considero aberto o baile.



quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

OS GALGOS DA MENTE

gordon matta-clark, portrait
A escrever um inocente comentário no facebook
dou conta de que cria (filho) é um anagrama
de cariado. Susto. Talvez
por isso os tibetanos retenham a ejaculação…
não a soltam. Ao fim de dez orgasmos
retidos a mente é um galgo afegão em corrida.
Não sei se tenho energia para tanta corrida.
Um corpo não é também a alegria dos seus cansaços?


Começo a acumular os cadernos em branco.
Nunca fui magano para me pôr a contar
as linhas dos cadernos – até hoje.


Amo a minha mulher.
Cada casa tem o inverno que pode.


Eu também não gosto dela.
 Ao ser lida, porém, com um total desprezo, descobre-se
apesar de tudo que o genuíno aí tem o seu lugar:
escreveu Marianne Moore, num poema intitulado POESIA.
Esta declaração de guerra é um verdadeiro divisor de água.
Eu também detesto a poesia, posso lá eu relacionar-me
com algo que me trata como um cão de cego?
Gosto é de espreitar à socapa no espelho
e de lá ver alguém que não sou eu,
objectos e posturas que me não pertencem.
São raros vislumbres.
À socapa, se ela sabe (a poesia) faz-me o escalpe.


Rastejando constrangida na filigrana florida
A Inveja, montada no seu cão, olha para o elefante.
Resumo outro poema da Moore, que era uma velha danada.
e a montagem ilustra bem a minha inveja de não estar em Lisboa
neste momento de dissabor, a dar berlaitadas na tromba da crise,
com as minhas unhas florescidas pelo cacimbo.
Sempre que vejo um jardim muito arrumado dá-me vontade de urinar.
É uma coisa de miúdo.
Mas em Maputo estou farto do cheiro a urina.

Avidez e ciúme: duas leguminosas
que à varanda urdem tapetes.


O olhar que só vê as estrias
volve rapidamente axiomático.
É preciso que o liso contrarie.
Por isso às vezes vou à Baixa,
à Casa Elefante, ver as mulheres
a apalpar a suavidade dos tecidos,
para me entronizar no viso delas.


Que será feito da Fátima (a Maria Velho da Costa)?
Tanto que bebíamos.
Uma mulher que usa a língua com a largueza de um cartógrafo.
Enquanto eu bebia com a Velho da Costa, colegas
contavam anedotas ao director do jornal.
Oh lá lá, como subiram na vida.


Daqui a 3 dias faço 53 anos. É obra do diabo:
dividir para reinar. Encosto o búzio da minha filha
à orelha e bebo um cafezinho.
Não é Racine mas entretém.


O Carlos (Alberto Machado) faz-me um rasgado elogio
no seu blogue. Gosto e não gosto. Gosto
porque o respeito como escritor e entre o que diz e o que faz
há um rosto, não gosto porque se elogia demais,
desconfio que o país está assim por nos acharmos a todos geniais,
mera estratégia para nunca nos comprometermos a nada,
ao menor esforço. Desculpa Carlos, mas trocava o teu elogio
por um país onde O Respiro (foi de oitenta)  tivesse uma edição de mil
exemplares e fosse lido e discutido e tu fosses publicado
e lido e discutido. Preferia que me deitassem
abaixo do cavalo, a ter esta sensação  de ser só para alguns.
Conforta, mas é uma alunagem
e na lua as sílabas têm a gravidade do facebook.
Merecíamos era podermos estar juntos a libertar o sedimento,
mas nunca contámos anedotas ao director.
Lodo mágico: somos parentes.


Sempre tive a sensação de que pensar
era um cão à procura de um lugar para dormir.
É preciso achar o reverso da coisa:
que o cão desperte num lobo.


Hoje não há futebol para magoar
este tédio com um pouco de cretinice.


Nada disto é um poema.
Quem assim pensa que se dane.
São os galgos da mente, engalfinhados.
Nada perdura assim.









quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

BILENE, AGAIN

No dia em que a Grécia anuncia, eh pá, vamos desmoronar, eu parto para quatro dias de desintoxicação no Bilene. Again. Adeus casas de cambio, adeus Vénus e Marte, adeus credulos pategos, adeus pátria minha desnavegada e retraída, adeus Guebas, adeus policia na estrada, adeus alunos & baldrocas, adeus incalcináveis turnos da opacidade do mundo...
Da ultima vez que ali desencalhei os nervos escrevi crónica, que publiquei no Savana. Aqui a boto:

CORRESPONDENTE NO BILENE
(uma lagoa paradisíaca à beira mar, a 200 km de Maputo, e em cujas margens a burguesia de Maputo ergue as suas mansões)
por António Cabrita

Era uma vez um ilhéu que gostava muito de uma mulher que vivia noutra ilha. Gostava tanto dela que lhe escrevia todos os dias. Ela acabou por casar com o carteiro. O carteiro era o meu avô.
Eis um tipo de narrativas que eu já não julgava possível desenvolver com credibilidade por causa do progresso. No princípio do século XX, o meu avô, um carteiro apessoado e cheio de lábia beneficiou da falta de mobilidade e de transportes entre as ilhas dos Açores para destapar o coração da minha avó fazendo de Cupido. Hoje o Msn dispensaria o seu papel na história, as carreiras entre as ilhas são bi-diárias - o tremendo charme do meu avô ficaria a ver navios.
Mas descobri um lugar onde a sua história ainda se encaixa: o Bilene. Passo a explicar. A primeira vez que cá vim foi em 95. E vi um lugar paradisíaco, com condições para um crescimento exponencial rapidíssimo… mas os tempos eram de vacas magras. Nessa altura fiz três amigos: o Chico, o Artur e o Momed, três miúdos que palmilhavam diariamente doze quilómetros pela praia para irem à vila comprar sal ou arroz, ou fósforos, coisas básicas.
Esta semana voltei, com a filharada. Foi uma reinação, a mais nova ficou encantada com o tamanho da banheira. E, em casa, alto incremento da sueca.
Nos breves momentos à solta que nos deixam três crias + a amiga,  observo o movimento dos pescadores, da população autóctone, das mulheres e crianças que circundam a lagoa pela praia para ir buscar farinha, arroz, ovos, material para o remendo das redes, sei lá. E penso nas duas horas que eles perdem nisto, para lá, e nas duas da volta, quatro horas extraviadas que só deixam tempo para uma vida fisiológica, de resposta às necessidades e estímulos mais primários. Estou a lamentá-los (por que, estão a ver, podiam ser horas dedicadas à formação) e não é que de repente nesse magote de figurinhas ambulantes descubro o Chico, o Artur e o Momed?
Doze anos depois, já com filhos, a vida dividida entre a pesca e a maratona de ir buscar fósforos, arroz, preservativos (idealizemos). O Chiquinho já sem dentes, o Momed analfabeto como antes e o Artur (que era o mais bonito) com uma cicatriz na testa que se escusou a explicar. Se calhar foi o carteiro das cartas de amor de alguém para uma cachopa que vivia em Macia e um dia quis fazer de padrinho à italiana (como o meu avô) e lixou-se.
O Chico vem com um filho, o Nelson, de cinco anos a quem ele inicia às longas estiradas (daqui a 10 anos, imagino, o garoto deixa a miúda em suspenso, lá para as bandas do Monte dos Noivos, diz-lhe ‘espera aí, que vou buscar a camisinha!’, e perfaz em corrida 10 km no fito de ser um homem prevenido). Interrogo-me se o rapazito depois das tarefas obrigatórias para a comunidade familiar (ó Nelson, pede a mãe, vai-me comprar fósforos, ou arroz…) terá tempo para ir à escola, duas horas para lá, duas na volta, mas ofereço-lhe uma cola, felicito o Chico por estar vivo e calo-me.
Olho em volta, certifico as condições ideais para um crescimento explosivo numa década e interrogo-me: que fizeram os responsáveis até agora, como é possível que doze anos depois as infra-estruturas sejam rigorosamente as mesmas e só os ricos tenham beneficiado das potencialidades do lugar? Encolho os ombros, peço um uísque no imemorial Estrela do Mar e sento-me diante da televisão a ver o meu primeiro telejornal após uma semana de jejum, e então pela nonagésima vez no ano ouço um Laurentino gabar-se: Nellspruit (a cidade sul-africana mais próxima, a 200km) cresceu à custa dos moçambicanos! Sou de imediato varado pelo enigma, inconveniente, pertinaz: mas porque não cresce Bilene à custa dos moçambicanos? E porque não cresce Moçambique a outra velocidade, apesar do labor com que os moçambicanos fizeram crescer Nellspruit? 
Talvez porque quando os moçambicanos começaram a ir largar o dinheiro a Nellspruit os sul-africanos tiveram «uma visão» em relação ao que fazer com essa mina. Não basta ter o dinheiro, é preciso ter uma estratégia. Começar por oferecer bicicletas àqueles milhares de jovens que fazem da praia um atalho para os libertar para a formação, por exemplo. Talvez esses moçambicanos possam fazer por si o que os outros não fazem por eles.
Interrompo a crónica. A mais nova acordou com uma birra exigindo leite, que acabou. A birra sobe de tom e pergunto-me (sem carro, nem bicicleta) se palmilho três quilómetros de ida e três de regresso para lhe ir comprar leite.
Convenço-a a comer batatas fritas.

GRAMÁTICA E ANUNCIAÇÃO DO TANSO

eu, preparado para a próxima visita a uma casa de câmbios

Na sexta-feira à tarde, véspera de Natal, percorri Maputo, de loja de câmbio em loja de câmbio para conseguir comprar 800 dólares que hoje teria de depositar na conta do meu senhorio.
Depois de calcorrear inúmeras avenidas, de baixo para cima e vice-versa, lá encontrei uma agência aberta com um maduro paquistanês, barbudo e de ar desportivo (camisola de alças), ao balcão. Quando cheguei vi que ele trocara dinheiro com alguém e não pedira documentos, como seria obrigatório por lei. Mas como eu queria era safar aquela maçada rapidamente não quis eu fazer questão disso, de o obrigar a dar-me um recibo e um carimbo, contra a inclusão da minha identificação no impresso. Ele não pediu e eu colaborei.
Achei estranho que o senhor, antes da transacção, depois de lhe ter passado os meticais para a mão, e estando nós sozinhos na loja, me tenha pedido cinco minutos e saído para a rua, deixando-me ao balcão, sete, oito minutos, em que tudo, mas tudo me passou pela cabeça. Lá veio então, deu-me cinco notas de cem novas e três mais antigas, e eu com a ansiedade nem as examinei a detalhe. Aliás, saí tão aliviado por me de livrado da incumbência que até me esqueci de lhe pedir o troco, trezentos e vinte meticais; relaxe pelo qual só dei três horas depois. Enfim, o tanso.
Hoje fui ao banco depositar a renda na conta do senhorio. E diz-me a funcionária depois de ter observado as notas com um ar enfadado, «… estas três estão fora de prazo, esta aqui já há muitos anos que não está em circulação».
Lá vou eu voltar ao vigas, sem uma prova documental, a minha palavra contra a dele e tendo como única arma dissuadora o facto de poder espetar com uma crónica de denúncia em dois jornais da terra que lhe minarão a respeitabilidade da casa, questão que para ele deve ser absolutamente irrelevante a partir do instante em que voluntariamente, com a silente estridência com que olha para o patego, passa aos clientes notas de cem dólares que já não circulam há vários anos - facto que ele, como profissional dos câmbios não pode ignorar.
Quando horas depois (passada a hora de expediente) dei conta de que ele não tivera a educação de compensar a minha indesculpável distracção com um pingo de honestidade, chamando-me de imediato para me devolver o troco, fiquei bravo comigo, e comigo… e com ele, e prometi só voltar lá para lhe ir urinar na montra. Mas agora impõe-se lá voltar e discutir, muito provavelmente com outros sócios e empregados, os efeitos duma transacção ilegal e duma sodomia não consentida.
É esta a inescapabilidade do tanso – numa cidade onde os esquemas são diários e a vidinha tem de ser um estar a pau.
Portanto, meu querido candidato a emigras, antes de vir, meça primeiro o seu grau de “intangibilidade”, o ângulo da sua capacidade para de antemão não desconfiar das pessoas. Se for igual ao meu é inútil o passeio, eles devoram quatro tansos por segundo, oito patos, doze artolas. A todos depenam com caridosos murmúrios.
Tudo enquanto um paquistanês esfrega um olho e, na verdade, pensa em Meca, a devotada.

domingo, 1 de janeiro de 2012

O PARTO

Dia 1 de Janeiro.
Estamos de esperanças.
A esperança, segundo Valéry, é a resistência do ser diante das previsões do seu espírito.
Seja. A borboleta que previu que seria tigre ainda não viu tudo.