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sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

QUANTOS HIPOPÓTAMOS CABEM DENTRO DE UM RÉGULO?

os malefícios da idolatria




Retomei a minha colaboração com o semanário Savana. Aqui deixo a primeira crónica, publicada ontem:

Se bem me lembro, foi em 2007 que a STV fez uma reportagem sobre a mulher que supostamente teria dado `a luz um bule e três chávenas de chá. Durante essa semana, nas aulas da universidade, tive que debater as dúvidas dos alunos sobre se tal seria possível, porque na verdade a metade deles queria crer nessa possibilidade.
A mim o que me espantava era a falta de ambição da parturiente. Se se pode ser mãe de um serviço inteiro da Vista Alegre, por quê ficar por um bule e três chávenas? E parecia-me até um óptimo princípio para uma economia no casamento, as nubentes primeiro pariam o recheio da casa, mobílias, candelabros, carpetes, panelas e tachos, depois a própria casa, e só depois casariam.
Há coisas que não são do domínio das antinomias, de ser-se racionalista ou crédulo, mas simplesmente da ordem da sensatez e do conhecimento das coisas naturais: o adn humano e o “adn” da cerâmica não comportam qualquer tipo de coincidência ou de transitividade.
Não obstante, suponhamos que sim – também para os gregos do tempo do Aristóteles as mulheres podiam parir qualquer coisa, ostras ou ouriços, pois nunca se sabia que partidas podiam os deuses pregar – que uma mulher podia parir um bule. Onde foi registado? Como se chama a criatura? E como é que a STV abandonou um caso destes, não acompanhando a educação e infância do bule, vendendo para as televisões de fora um exclusivo desta monta? Que falta de inteligência comercial.
Agora há semanas que não ouço falar senão do régulo encarnado no hipopótamo. E que ouço quadros técnicos deste país porem as mãos no fogo em como é verdade… pois se o hipopótamo mudou de regime alimentar e agora come o picapau que fazia as delícias do régulo e encharca-se com o bom vinhito, pelo qual até o Santo Agostinho se pelava.
E eis-me na mesma encruzilhada: se comento, sou um racionalista desatado, se não comento sinto-me a observar os efeitos perniciosos uma alucinação colectiva.
Acontece, por outro lado, que literalmente acredito em tudo. Que a alminha do régulo transborde para o quadrúpede é-me pacifico. Mas o facto de acreditar em tudo, e esta é a diferença, não quer dizer que dê o mesmo valor a tudo. Uma coisa ser plausível não quer dizer que seja necessária. This is the question.
Eu acredito piamente que o facto do régulo ter encarnado no hipopótamo constitui uma demonstração de vanidade total dos poderes sobrenaturais do régulo. Na cadeia evolutiva dos seres, para citar Pascal, estando o homem encravado entre a besta e o anjo (para dar o nome de uma figura ao espírito), qual a vantagem de voltar em hipopótamo?
É um retrocesso. Pode até ser verdade mas é absolutamente improdutivo. Vejam lá o extremo poder que alguém exibe voltando em hipopótamo! Não seria preferível possuir uma criança e voltar como mestre-escola, o maior da região e arredores? Voltar em hipopótamo parece-me o mais disparatado dispêndio de energias. Ainda por cima pervertendo a natureza sã do hipopótamo, tornando-o alcoólico.
E o pior é que vejo a mesma absoluta inépcia comercial por parte da TVM. Como é que se tem um assunto desta natureza entre mãos e não se consegue fazer uma série de 18 episódios com ele, vendendo-o em todos os canais internacionais? Será que, na verdade, eles próprios não acreditam nas suas tradições? Há, em tanta improdutividade, Felizardo, qualquer coisa que me escapa.
Repito, eu acredito que o régulo tenha voltado em hipopótamo. Porém não vejo a utilidade do fenómeno.  Nem para a comunidade, nem para o hipopótamo. Ou antes, para este até discirno um sinal positivo: magnificado em vinho, na próxima encarnação ressuscitará em régulo.
O que eu consegui enxergar, na reportagem, foi o aproveitamento político. O responsável provincial que lá foi prestar homenagem ao hipopótamo-régulo, confirmou a comunidade na identidade das suas tradições e deixou-a contentinha e refém do seu secular obscurantismo. E, aliviem-se as almas beatas, o dinheirinho gasto em vinho não foi desviado em sandálias para as crianças.  

terça-feira, 1 de novembro de 2011

AS FLORES DO N'AUFRAGO



Acordo de noite, sufocado, com ânsias de um filmito. ‘A míngua aqui vos deixo uma serie que escrevi por ocasião dos cem anos do cinema:  
O ECLIPSE
de Michelangelo Antonioni
 
 
E a coroar todas as suspeições havia o exame derradeiro: passar pelo crivo de um filme de Antonioni e sair com o «gosto pela arte» incólume, com algo de pneumático a saciar a alma. Gostar de Fellini, ou de Truffaut, ou até de Marco Ferreri - nesses distantes idos de 70 em que Dillinger Morreu provocava levantamentos populares na plateia - era simples. O difícil, para um aprendiz de cinéfilo com leituras de Camus e que farejava Foucault, era aguentar a parada antonioniana sem fazer «bluff».
Quem assistia a O Grito, ou a Deserto Vermelho, ou, no extremo, a O Eclipse - sem o sentimento de ser o coração de Lola Ferrari no momento em que é atropelado por um seio demasiado amplo para o seu âmbito - é que podia ser considerado um cinéfilo impenitente. E se, aos 15 anos, a minha perplexidade esbracejava diante da «durée» dos planos ou daqueles diálogos à beira de recusarem a comunicação, o primeiro abanão a sério levei-o quando Antonioni, em O Eclipse, faz parar o bulício da Bolsa de Roma - uma verdadeira selva enlouquecida - para registar um «minuto de silêncio» em memória de um corrector falecido.
Se Ferreri - contra a fúria dos meus amigos - me deliciara com os seus tempos reais em Dillinger Morreu, sobretudo na cena em que Michel Picolli nos ensina a fazer uma tortilha (ou seria um bife à café?), Antonioni, nessa sequência, rejeita a elipse e eclipsa os dogmas mais persistentes da muito oleada máquina de cinema de Hollywood, pois esse minuto de cinema consagra exactamente um minuto de não-acção. Hoje, ao ler em George Steiner (Barbarie de L'Ignorance, 1999): «La dignité de l'homme pour moi consiste aussi dans l'inutile, dans le fait que n'est pas rentable une grande pensée... E lá où la censure est celle du marché et des mass média, elle peut-être plus efficace que celle des idiots de la police secrète, qui se trompent, mais à quel prix?»... anuo, acenando a cabeça, mas devo a Antonioni e a essa lição sobre o poder expressivo da «inacção» saber o que se coloca em jogo no alarme do crítico.
Há uma «nuance» aqui: na verdade, o silêncio é suspendido por cinco segundos, para ser explicado por Piero/Alain Delon a Vittoria/ Monica Vitti porque é que na Bolsa «um minuto custa milhões». Nessa breve e impaciente interrupção sela-se a metáfora do filme. Vittoria, uma jovem mulher, rompe com o seu amante e encontra-se sozinha e desamparada. Procura o conforto junto da mãe, mas esta só pensa nos seus negócios na Bolsa. Conhece assim um jovem corrector, que a tenta cativar. Mas Piero depressa denuncia a sua venalidade, e resta a Vittoria a solidão e - o que é magnificamente dado numa cena nocturna, na qual uma deambulação sem rumo definido leva-a a «reencontrar» os pequenos ruídos que compõem o silêncio da cidade - reconciliar-se com a escuta do “inescrutável”.
O fluxo ininterrupto das movimentações na Bolsa sinaliza no filme a tendência para, nas sociedades contemporâneas, se ensurdecer à sombra do «luxo da comunicação» - ao mesmo tempo que «as velocidades contemporâneas» submergem numa sensação de inactualidade os nossos códigos sentimentais.
O sistema, que até sobre «valores virtuais» especula, forçando uma mais-valia, evita um vínculo maior, que é o da partilha desinteressada da palavra e do silêncio numa relação - tudo o que pela escuta mútua amplia o afecto. Diz Vittoria a certa altura a uma amiga: «Há dias em que mesa, tecido, livro ou homem são a mesma coisa» - i.e., a mesma falta de atenção e de diálogo. Por isso, quem interrompe o «minuto de silêncio» na Bolsa é a ansiedade do espectador, irmanado com o agiotismo de Piero. Ou não são os filmes, mesmo os de puro entretenimento, objectos de e para «proveito»?




 A ESTRADA
de  Federico Fellini

Cenário: a estrada fora. A princípio, Zampano/Anthony Quinn é o núncio da morte. Chega e informa a família de Rosa, a última mulher que tomou para si, da sua inopinada morte, pelo que tem de levar outra. Cabe a Gelsomina ser a próxima vendida ao hércules das feiras, Zampano. O estranho é a família, anestesiada pela miséria, não lhe perguntar como morreu a primogénita. Talvez porque a morte seja ali, naquelas choças implantadas numa fímbria de areia à beira-mar, uma presença tão quotidiana como a visão da água - um destino irrevogável, inclemente, que não pede meças ao tempo nem ao lugar. Se morreu, paciência, há que aceitar a nova dádiva de Zampano. Em acto contínuo se realiza a transacção, sendo Gelsomina promovida a «aprendiz» de artista. Assim começa este extraordinário «road movie» de Fellini, e o filme prossegue em traços grossos, sem meias tintas, da mesma forma que o vinho não se mistura com a água para manter activas as suas propriedades calóricas.
É improvável que Gelosima alguma vez tenha ido ao cinema, tal o grau de miséria. E contudo, interiorizou o mimo, a generosa gramática gestual de Charlot. É um Charlot sem safadezas nem cálculos, que só incorporou o lirismo, e por isso destituído de armas para a sobrevivência. Neste sentido, A Estrada, o filme que marca o início de uma trajectória brilhante, é um dos primeiros filmes pós-modernos (e é tão nitidamente consciente o artifício em Fellini que, para evocar o sortilégio do cinema, Zampano, nas suas actuações, anuncia que rebenta as correntes no peito «com a força do nervo óptico»), dado serem as suas personagens não extraídas da «realidade» mas escalonadas como um efeito da memória do cinema e uma homenagem a um dos génios do mudo - Charles Chaplin. Podemos até pôr a hipótese de A Estrada ser o último dos filmes mudos, o filme que seria improvável fazer trinta e muitos anos depois do mudo. Realiza-se neste filme um modelo de concisão, poesia e velocidade. Quem o vê várias vezes apercebe-se da forma veloz como Gelsomina é exposta às experiências, como se fosse um lanho batido por vagas alterosas. Em meia hora acolhe a notícia da morte da irmã, é vendida, torna-se artista de circo, é desflorada, conhece a traição e o sentimento de ser rejeitada, aprende a obedecer como um cão, conhece cinco ou seis povoações, planta tomates e parte sem os ver crescer...
Há uma velocidade estonteante neste filme só comparável à velocidade com que Orson Welles faz evoluir a narrativa em Citzien Kane, mas, o que é espantoso, sem fazer uso do corte, de uma montagem visível, dando até a impressão que o tempo está suspenso como a radiação dos corpos. Zampano e Gelsomina são dois monólitos, duas criaturas que nunca alteram o talhe da origem com que foram afeiçoados. Imunes à reflexão sobre a experiência. Andam ao deus-dará, tal qual foram postos no mundo, ele grunhindo sem abertura para o diálogo, ela com a fragilidade do palhaço a quem ninguém dá atenção. É espantoso o modo autista como ele dá as suas únicas referências biográficas. Ela pergunta: «Onde é que nasceste?», ele: «Na minha terra.»; ela insiste: «Sim, mas onde?», e ele, lapidar: «Em casa do meu pai». A vida secou-lhe passado e presente, só tem reflexo, sobretudo o que se refracta no olvido alcoólico. Pelo meio, há um funâmbulo, o Doido, que morre ao enfrentar em terra as fúrias de Zampano e a fuga deste, deixando a Gelsomina um capote, a corneta e algum dinheiro. Ela é que não deixa de cantar, da nascença ao canto do cisne. Um poema.