sexta-feira, 15 de novembro de 2013

AS ESTRELAS DE SÍLVIA BRAGANÇA

antares 2
 

A Silvia Bragança, uma amiga pintora de 75 anos de idade e com um percurso extenso e multifacetado, inaugurou ontem uma exposição na Fortaleza, em Maputo. Fiz para o catálogo o texto que vai em baixo e no momento li o texto que pinga a seguir. A exposição vai continuar, na Fortaleza, durante o próximo mês.  

Como transmite o anjo? As formas de comunicação angélica distinguem-se dos modos de ver e de aprender sensíveis, e o anjo testemunha o mistério na sua forma mistérica, transmite o invisível enquanto invisível, não o atraiçoa com os sentidos.

O anjo actua como um espelho, certamente, mas da pureza do silêncio e do mistério de Deus.

E mesmo que o homem se encontre num estado de não-dualidade, num estado de enosis (de fusão entre o sujeito e o objecto), a contemplação da Verdade, impossível de alcançar discursivamente, segundo o místico Angelus Silesius, só se produz por contágio: «Deus habita uma luz a que nenhuma estrada conduz; quem não se converte em luz, não o vê em toda a eternidade». O que o poeta Holderlin corroborou ao escrever: «creem no divino/ só aqueles que o são».

O que tem isto a ver com a exposição que Sílvia Bragança nos apresenta? Tudo, e não na acepção relativista de tudo reconduzir a tudo, mas no sentido em que existe nesta pintura um entrelaçamento entre as realidades conscientes e o inconsciente, como acontece na respiração. Na nossa e na respiração das Estrelas, nos seus pulsares, que aqui se representam - numa radiografia da luz.

 
betelgueuse  2
 
 
Para Sílvia Bragança pintar e pensar são uma e a mesma coisa. Ao ponto de ter havido uma fase da sua obra plástica em que as linhas se confundiam com a experiência saturada das letras e o desenho com a cristalização das frases. Por outro lado, Silvia sofre da mesma confiança que fazia Cézanne declarar que a cor é o «lugar onde o nosso cérebro e o universo se reúnem».
 
O que talvez falte à pintora e pedagoga Sílvia Bragança, para se entender de imediato a mensagem que lhe motivou estas imagens, é uma memória panorâmica do seu trajecto nas artes, para que se veja que esta criadora, que se renovou sempre nas formas, nos materiais e na abordagem dos seus temas, tem perseguido dois temas fundamentais: o da Solidariedade - que se realiza na liberdade e na paz e a levou a quadros e desenhos de denúncia (sobretudo da guerra) -, e o do Sagrado, visível em muitas representações explícitas da Virgem e do Menino, que realizou ao longo da sua vida (- e que aliás lhe valeram o repúdio numa exposição em Moçambique, numa história tão triste como anedótica, como se as revoluções estéticas fossem apenas rupturas e não também movimentos de translação que acabam por nos recolocar no exacto ponto de partida: i.é, face à história da pintura e das suas variações) e noutras obras abstractas em que materiais (rodas, engrenagens ou bandas de metal coladas sobre a tela) heterogéneos buscavam harmonizar-se e dispor-se segundo um princípio de atracção das cores e dos materiais que visava duplicar um vínculo de re-ligação perene: as leis do Amor.

Ora, o Amor é uma das portas de entrada do Sagrado.

Sílvia Bragança nunca teve receio de experimentar, formas e formatos, tecnologias, materiais (rendas, tecidos, transparências, engrenagens, tela, imagens digitais, etc.) e processos, nem de misturar as iconologias ocidentais com as indianas, e até combinou as paletas de cores das diversas tradições. Fê-lo sempre em confluência, e até no dever ético de reconduzir a pobreza à expressão. Volta a fazê-lo nestas quase duas dezenas de imagens que têm por tema as Estrelas, num gesto visionário que o poeta Lucrécio aprovaria.

 
rigel 2
 
 
Diga-se já que esta é uma pintura ecológica posto que visa relembrar-nos que o homem participa de duas realidades - a da vida material e a do macrocosmos (a "materialidade espiritual", diluída a contradição, que nos catapulta para o Sagrado) -, e que não passa, como fugaz entidade, de um elo. Face aos fantasmas da violência – a fome, a guerra, a ganância, o egoísmo, a injustiça - que o homem, por soberba, provoca na sua vida social, Sílvia, quebrando definitivamente nesta pintura "o espelho da realidade" que era a pintura figurativa, coloca-nos diante do inapreensível, da dimensão cósmica, devolve-nos à nossa pequenez. Eis uma forma diferente de fazer política que agradaria a Roberto Matta, o pintor chileno de grande empenho revolucionário que em vez de pintar retratos dos líderes políticos se dedicava a figurar barrocas visões do cosmos e da quarta dimensão.
 
rigel 1

De origem indiana, cultura que cada vez cava mais fundo nela, Silvia projecta-nos no "Tu és ISSO" da Chandogya Upanishad, simbolizando esse Isso a plena exterioridade do que nos conforma e é, simultaneamente, tanto o nosso contexto como o que, interiormente, nos constitui: por ex., as Estrelas e a sua luz, "exteriores" a nós e essenciais à nossa matriz mais molecular.

Com esta particular visão de algumas estrelas que constelam o nosso céu, físico ou imaginário (Betelgueuse, Sol, Arcturus, Sirius, Pollux, Antares, entre outras) Sílvia Bragança dá-nos um suporte para nos ausentarmos de nós mesmos, até à fissão dos nós mais entranhados do nosso ego, numa contemplação que nos pode ajudar a desembaraçar o peso do vivido; pois como sabia Nietzsche afirmar não é carregar a vida com o peso dos valores superiores, mesmo os heróicos, mas sim criar valores novos.

Contemplar as estrelas, além de nos penetrar de humildade, ajuda-nos a esvaziar a sombra da sua infinidade de ecos e aproxima-nos do silêncio.

Nestes quadros a beleza – categoria cara à pintora – é desatada (é o termo) pela nossa sensibilização aos sinais de uma coerência orgânica, formal, que nos conecta a uma vibração "óptica" particular e apaziguadora. Mais do que ver os quadros simplesmente estas imagens, somos submetidos à sua influência, creio.

Concreções orgânicas, sedimentos de luz, feixes e fluidos coloridos com texturas que por vezes tomam grumos e se irisam em torvelinhos, estes quadros convidam-nos a olhar para lá do que é aparente, e a procurar compreender como as cores latejam, interagem e se relacionam em superfícies luminosas onde os nossos fantasmas já não cabem. Como se fossem cunhagens originais de antes do nosso mundo referencial – o que talvez nos torne o inferno habitável.
 

sol 1
 

 
Olhar para estas estrelas talvez nos perca, talvez nos salve. Como acontecia com Kandinsky e Mondrian, que também não temiam a palavra ascese.

Gostaria de acabar citando um belíssimo trecho do filósofo Rafael Argullol: «A ideia mais audaz que pode conceber-se é a de um infinito que, enamorado da nossa vida, só através desta tenha a sua razão de ser.»

Por isso me parecem tão humanas estas estrelas de Sílvia Bragança. Deixe-se contaminar.



terra 1


2.


 
Pouco sei sobre a astronomia africana e por isso não me vou pôr a inventar, mas sei que, ao contrário do que muita gente julga, nas sociedades axiais, isto é, nas diferentes sociedades tradicionais – como a hindu, a chinesa, a africana ou a cristã medieval -, há muitos pontos de contacto sobre imensas matérias. E por isso trago em meu socorro o Dante, que foi talvez o maior expoente do que seja o pensamento tradicional na Europa, e que no Canto I, depois de ter vislumbrado o Inferno, escreveu:

«Então o medo acalmou um pouco –
O tempo de desânimo, passado na grande angústia
Que no lago do coração ainda durava…»

Este lago no coração é o que nos importa para aqui.

Acreditavam muitos naquele tempo que existia no coração uma cavidade – que o poeta chamava lago del cor – onde habitava o espírito vital. Dessa cavidade partia o sangue e o calor que o tal espírito vital derramava por todo o corpo. No coração estavam assim sediados os sustos, as paixões, os temores, etc. Não no coração por inteiro mas especialmente nesse lago del cor.

Cabe lembrar que uma das características dos lagos é serem um espelho do firmamento, das estrelas. Ou seja, numa perspectiva que hoje chamaríamos de holística, os astros estavam umbilicalmente ligados ao destino e aos acidentes sofridos pelos humanos pelo que, como se diz na Tábua de Trismegisto, um das bíblias da alquimia, o que está em cima, ou o macrocosmos, reflectia-se no que estava em baixo, no microcosmos.

Tudo isto pareceria um pouco esotérico para uma exposição de pintura se a pintora não fosse a Sílvia Bragança, que tem vindo a firmar-se numa busca espiritual em que cada elemento pictórico exige ser re-significado na constelação a que pertence. Não esqueçamos que uma das suas últimas exposições tentava associar a dinâmica da relação entre as cores às ocultas leis da matemática. Fê-lo intuitivamente, mas isso apenas ilustrava a sua demanda de uma verdade para a pintura.

Dizemos verdade para a pintura e não para a representação – pois tendo sido ela uma pintora que alternou sempre entre vertentes de abstração e outras neo-figurativas, exactamente nesta exposição deixa-nos a patinar na perplexidade, sem a muleta da representação de um modelo. Esta pintura não representa nada que nos seja conhecido previamente, antes apresenta, como se fosse uma substância nutritiva, pautas de relação cromática que cabe a cada um de nós aceitar ou não, mas que são dinâmicas e nos mexem com a sensibilidade.

São estrelas, diz a sua autora, ou os modos subjectivos como ela as vê e sente e nos transmite, na secreta esperança de que estas figuras – com os seus arabescos, bandas de cor, pulsações e traços - sejam correias de transmissão para uma re-ligação com a luz e o afecto universal.

Isto é, esta pintura não nos deixa indiferentes, convida-nos a aceitar ou a rejeitá-la, mas sobretudo, ao prescindir das categorias que normalmente relacionamos com a arte: a beleza, a composição, as simetrias da empatia, as marcas de reconhecimento, creio que nos desloca para uma zona onde a dimensão do mistério volta a fazer sentido – esta é uma estética da comunhão, onde se desenha outro tipo de harmonias, orgânicas, as quais se articulam não como como objectos definitivos, acabados, mas antes como um lugar de passagem.

E precisamente por isso, do ponto de vista estético, esta é uma aposta de risco, sendo que, para mim, sobretudo quando o risco se ancora num percurso com uma dimensão humana e expressiva inegáveis, onde há empenho no risco ocasiona-se a arte porque esta nos abre novas janelas para meandros da percepção e da sensibilidade que ainda não estavam iluminados.

domingo, 10 de novembro de 2013

MÉTODO E ECLIPSE: QUATRO PRIMEIRAS PROPOSIÇÕES

                      depois de ter lido o unicórnio, de juan emar, na minha sala de leituras


 

1

Se quero rejeitar a presença da metáfora num poema

faço um compasso de espera.

Após o que pego no transferidor

e meço os ângulos ao intervalo. Em tendo dúvidas uso a fita métrica

avaliando a justeza do colarinho ao pescoço

que me ergue a cabeça.

Tem de estar cingido para eu estar apto a reflectir com equilíbrio.

Não é raro um desajuste, posto eu comprar as camisas

nas calamidades. Um número abaixo ou acima

abre-me um furo na precisão do raciocínio,

e pode brotar por esse mínimo lapso o corno de unicórnio.

É assim desde criança, quando fazia birra antes de dormir

e repetia histérico "não caibo no sono, não caibo no sono…",

debatendo-me para entrar dentro do saco

antes que me nascesse na testa a armação.

                                   : neste espaço respiro,

enquanto espero que as metáforas se aquietem

ou que o vinho mas amorteça, nesse limiar

onde toda a chuva se distrai do dilúvio apesar

da linguagem atrair desde o fundo do mar insondáveis hexâmetros.

Eu sou budista, não me fixo em nenhuma imagem, nuvens que vêm e vão,

senão faço                                           um compasso de espera

e no sofá da sala deito-me em migração para o consolo dos clássicos.

Metáfora comigo não entra desde que Andrómaca trocou

o amor-próprio pela contemplação da espuma dos oceanos

e inaugurou com a traição a Heitor uma figura de estilo.

Comigo nenhum esqueleto

é bailarino ou se imagina o grumo que burla o nada,

de papel a neve. Mesmo no meio do nevoeiro procuro os factos.

E a esse cárcere vulgar que é a metáfora num verso, abomino.

Logo que me chega necessidade de abrir o compasso apago a luz

e se insistente me invade a questão, excruciante:

está de luto o carvão que não acha a sua chama?

pego no balde de cal e caio, caio, caio, caio o escuro

até à exaustão da mente. E não me falem de deus, que

a sua tosse convulsa mata em mim o melómano.

 

2

O tema único é afinal o amor

ainda que assombrado pela morte

que assiste da varanda ao erro

da sua desatendida designação perpétua.

Tema que por um breve lampejo

tem o valor da ostra

ou de uma ou outra gargalhada

num país de tristes.

Quando falo de ostras falo de pulmão,

dessa breve ignição que leva o reformado

a lançar as cartas no jardim

e a derrotar o labirinto.



3

Agradeço a este verso não me deixar ao léu.

E, confesso, cabem-lhe também ter feito os desenhos

utilizados nesta página. Queria então, ao menos,

ter dado um timbre ao poema, a feição polifónica

e ambulatória de um sampler.

Mas assim que ela chegou – palhaço

enfarinhado ou homem diagonal ao seu ridículo –

vi-me privado do jogo de questionamento das identidades,

absorvido simplesmente pela sua presença,

como se estivesse em lótus no topo rochoso

de um fiorde norueguês e a minha respiração,

pontiaguda, fosse perfurada pela paisagem,

à beira da exaltação que, estranha à vontade,

antecipa a penetração. Sob o tecto deste verso

que não me deixou ao léu

e me eximiu da matéria da cólera,

devolvido ao sinal gráfico

de ser um só, felino empoleirado num talo

que foca mas não chega ao céu.




4                             (Denise Levertov)


Enquanto o meu amigo lê, mija o urso branco,

placidamente, tinge a neve

de açafrão.


No preciso momento da leitura, espreguiça-se um ror

de deuses entre as lianas: com olhos de obsidiana

vigiam gerações de folhas.


À medida que vai lendo

volta o mar às suas páginas mais negras,

folheando-as

com sombrio humor.




 

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

TREZE TALHADAS DE EPICURO COM AÇÚCAR

ALICE W R, almost disappeared
 
Talvez porque tenha conhecido bons filhos da mãe entre os poetas mais líricos, tenho algumas dificuldades em aceitar em mim tais margens de açúcar, mas enfim, os tempos que me rodeiam  estão de guerra e talvez seja tempo de esvaziar gavetas, tão bissextas. Aqui fica num primeiro postal, um ciclo que terá uns sete anos pelo menos e que nunca inclui em qualquer livro, sendo este o seu lugar certo.
 
EPICURO NO TEU JARDIM
1
O sopro, transpiração
de dentro, catálogo
do que a palavra
não oxidou; o sopro,

em andas de carne,
pintado com branco
de cereja - a sua felicidade
esplendia. O invisível

é sempre o mesmo
mas o visível não
e solta-me os lábios
no declive do teu nome.


2
Psiu, psiu, não há impasse
quando passas e a velha
rua de paralelepípedos
levanta as saias

pra mostrar a terra
ao rubro, não há impasse
quando nos velhos casarões,
de supetão, despontam varandas

de ciúme, não há impasse.
Refém fica o mundo,
e no deserto
adestram-se besteiros.



3

Vejo p’lo menos um
falcão no teu punho:

a minha memória
que desiste de ser alga
no céu. Vejo p’lo

menos um jardim
suspenso no mapa
da retina:

a tua mão, mais
larga que o meu medo,

a acariciar a paisagem
que te procura.


4
Por corsário, almirante,
por mexeriqueiro alcião
me tomava, quando
a canícula me pôs
a boca no teu arroio.
 
O mundo engrandece
o homem se pelo in-
verso da foz três carpas
resvaladiças fazem furos
no oxigénio e lhe crivam
na gema da memória
pupilas castanho-oliva.



5
Vaticínios que a tua vontade
incinera, látego
de um bezouro
que a estela espalmou.

Descampados ficam os braços
se te ausentas,
que desperdício os olhos
se a tua mão

não os tapa, no umbral
do teu silêncio respira
a minha palavra,
ilhada.


6
Um só poro,
que uma ruga
em ti revolva,
faz-me falta.

Os antúrios não
florescem sem
a sombra da tua
tesoura. Eis

o fulcro do que
me põe absorto:
perder de vista
o mar.



7
Alçado na tua voz
como o rouxinol
na alba da morte,

ou a malha cativa
na tua meia. Não
estou só, a luz
 
é um fiel vassalo
do relâmpago.


8
A sede é tanta, tanta,
que a morte é serena
e craveja de irrealidade
as cercanias e o exterior.
 
Engordar, rir, enrubescer,
incidências tão vagas
como domingos implumes.
Mas quando passas

inflamam-se as antenas,
sou mariposa fixada p’los
estames de dentes-de-leão
e o múltiplo ventila o um.
 


9
Deixa que me embriague,
ou falho de visão
cairei no tráfego
da poeira, em vez
de convocar astros,
os imensos girassóis
que a procela acossa.

Deixa que me embriague
na floração do teu sangue
e nada obstruirá
na glande a sua
panorâmica sideral.


10
Ruivo é o sol.
Tu és a umbria manhã
onde o azouge
executa as sombras,
lembrando que todo
o limo é pedra,
e o vento ideograma
à cata de leitor.

Verde é o sol
e só na umbrosa
aspa do teu corpo
chameja o frescor.



11
Olhar sonâmbulo,
carícia sonâmbula,
obsessão sonâmbula,
a que faz nascer
a minha língua na tua
boca, e vaporiza
a tua nicotina nos meus
pulmões, e umbilica
o teu sexo à minha
figueira maldita.
Recomenda-se
aos vindouros: não
ponham terra, não
ponham flores em cima,
ponham ar, ar fresco – pois
sonâmbula era a música.


12
Tão vulgarizada a metáfora
do espelho, julgava impossível
a novidade. Mas num filme
sobre um país libertado
vi um jovem que pedia
a um estrangeiro: tira-me
uma fotografia, nunca
me vi ao espelho.

E percebi: só
magnificado pelo qu’
esplendes, raiado
em ti, me vejo.


13
Epicuro, deus
dos jardins, é teu
cativo. És o mundo
real que lhe apura
as aparências, o vergel
onde a neblina acosta.

Ouço-o:"olha-se
com pouca atenção a vida
se não se viu o coração
que mata de forma
cuidadosa. Mas é
de lei: é necessário
um resíduo de trevas".

E aí tu passas
e fico cego
às crepitações do ar.
 
 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

STORYTELLING E AS GAFAS DE GIMFERRER




STORYTELLING

                   
                                            para o Henrique Fialho, com um abraço ao Corvo

1


‘aparquei no soneto, decidido

a depilar a algazarra,

a cagança e o descaro –

que um trocadilho entre

garça e graça já passe

por poema. gosto da secura

dos indigentes a cismar

nas melhoras beatas, do acinte

janota com que enrolam

as mortalhas, num renovo:

vejo aí as qualidades da terra.

e o que arde desafecta…’, pre -

cisou ao riscar o fósforo

com que floresceu no petróleo.



 

2



tocava uma trompete fantasma. feminina

comme il faut. as suas cordas vocais imitavam

o instrumento, enfim, os pistões comme il faut

excursionavam num ataque d’asma de má sina

ou por desafinadas notas agudas felizardas

por explodir. canoras silvas de saliva

que bastavam para colorir uma narça

colectiva. ‘papagaios é o que a tua mãe guarda

na cona, fosse mais cedo era o Victor Hugo!’,

atirava se o picavam por derrota do Benfica.

o mar há muito não presta e não passa de peúga

rota, só lá me enfiei lá dentro, comme il faut,

para achar os sons do homem-orquestra:

glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glô…



 

3



tinha um filtro irónico e reinadio, por isso

afluía de natural a uma vidinha de raposo

gingão: mulherio, assaltos

(nunca aos vizinhos), dissipação.

sabia a Bíblia de fio a pavio

e chamava ao sexo a espada

de Salomão. deixou três ramelosos

rebentos, duas mulheres, um rio

de livros e permutas. ‘o hiv,

como um planctôn daninho, presta-se

a papar o Leviatã’, e mostrou-me o Vi-

agra, numa gargalhada impoluta,

antes de, atraído à Cloaca Mãe,

abraçar a Grande Puta.



 

4



tão magro, de alcunha o Entremez,

o mínimo flato era nele

um sismo de grau três. palavras

leva-os o vento, repetia, naquele

triste embaraço depois da Rosa

o ter trocado plo retalhista.

‘a rapariga afligia-se de te

ver a alpista’, atirou acintosa

uma amiga. ‘eu não

emagreço por gosto

mas por vocação,

eu simplesmente ouso – si

labou - concentrar-me

n-o o-s-s-o.’



 

5



o barra em jogos florais

a meio da queda constatou:

não distinguia nos estratos

da falésia aliterações

de rimas sonantes.

sem se deter (e onde?)

um melro cruzou

o desamparo do seu corpo.

quis detê-lo,

trocar com o dele

o seu aparato.

chamou-o, como se parido

naquele momento,

a ferros: m-e-l-r...



 

6



‘os pretos são todos iguais mas

nos pormenores são só idênticos’,

gracejava, escarafunchando a cicatriz

no braço, do último acidente nas obras.

um dia a serra eléctrica, numa guinada,

deixou-lhe a mão pendurada por um fio.

arrancou-a. queria uma de ferro. vira

na televisão, disse nos bombeiros.

não lha deram. ‘com uma mão

assento o tijolo mas não lhe coloco

o cimento’. era de Santiago onde o eco

é iletrado e ninguém lhe respondia

às cartas. partiu a garrafa, mordeu

o cepo, e trilhou o casco no pescoço.



 

7 (a última carta do futebolista)



entrava no balneário, a suar em bica, da jogatana,

e ao molhar-me, reflectindo-me no cromado

das torneiras, sentia-me culpado. em criança

só havia torneiras de cobre em casa. e só

aos dez anos, numa deslocação da família

ao campo me dei conta que a água caía,

nas mãos da minha mãe que me esfregava

a cara, de uma torneira amarelada e fosca.



até aí o opaco não entrara na minha vida.

olhava a torneira e ela não espelhava a minha cara

deformada. mudou tudo quando fiquei famoso,

as torneiras cromadas fizeram-me pensar que todos

os objectos foram criados para me reflectir.

que me perdoem, não foi isto que me ensinaram.



 

8 (o meu mestre)



para que mantinha aquele cacifo

há dez anos na estação

de Santa Apolónia ninguém

sabia. todo ele um mistério,

calibrado em frases soltas

e sibilinas: «só o insensato orgulho

do homem o leva a conceber

deus como um ladrão de cinzas?»,

anotei uma vez, à socapa,

porque Ele não gostava de perder

tempo a olhar para trás.

‘depois cortas-me a cabeça e

guardas-ma no cacifo’, instruiu-

-me no dia anterior ao ocorrido.



 

 
9



o amigo tem horas?

e, ele, célere, puxava

da naifa e desmoralizava

as tripas do inquiridor.

recai-se quando se fala

do tempo e nos desconec-

tamos do seu fluxo: o

tempo é uma mandala

na areia, reflecte tudo,

se a unha risca o padrão

o vento começa a ficar feio,

disse na polícia. à terceira ini-

ciaram-no nos electro-choques:

morreu de barriga cheio.



 

10



em menino, pedi um penico e caguei

um galo: o meu primeiro prodígio.

inventei depois, tendo em vista os litígios

dos casais – os meus avós, pais, tios… –,

a faca que se desenrola como a língua

do camaleão. a minha terceira

invenção foi o pára-quedas que amua

e não abre quando transporta um pária,

ou um desses borjeços que se pelam

por um trocadilho à Zé do Pipo:

‘eh pá, não é hamlet, é omolete!’

admiram-se se fui à televisão

e encharquei de gasolina o tipo

do execrável Compre Você Mesmo?




11



há deslizes mais venturosos que outros,

figueiras que no devido tempo

cospem o figo aos pés do mestre,

sílabas de uma só dentadura: o espelho

da sua vida. nasceu pobre, morreu

endividado – chamar-se-se-ia a tal,

nos velhos tempos da política, coerência.

alimentou dois projectos, aquela cabeça

a que num assomo de auto-estima

chamava "o meu torresmo": escrever

uma ficção que seria uma "tradução

das partes gagas"e um manual

de título ‘Kamasutra para Rouxinóis’.

o drama é que toda a vida confundiu

kamasutra com kamikazes e o 11 com o 13.



 

AS GAFAS DE GIMFERRER                             
 


Não se lembra se foi nas reuniões de tupperware

a que a mãe o arrastava, ou da vez que foi às putas,

no rasto de colegiais que o desagravaram com absinto.

Na certeza porosa, inebriaram-no os estames

da genesíaca flor carnívora e extraviou o número

de ouro, a divina proporção que piratearia

em riso a sua flagrante auto-estima. Areiam-se-lhe

as gafas num gafado espelho de Deus? Ou são

o ecrã em que revê - no mesmíssimo transe

da esposa, que a seu lado mergulha

os morangos nas natas – as pernas

de Marlene Dietrich? Não admira

que a ponta do nariz lhe ressalte como

cornija em saudoso apelo d’andorinhas.

 

 

 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ELUCIDAÇÃO DOS VENTOS SOLARES

                                                 a mensagem das baleias, alice w r




 
1

Cabeças expectantes como carvões
a quem ventila
a chaga da memória

e que só pela mutação têm repouso,
no mínimo viável que antecede

a elucidação
dos ventos solares,

uma ambulância azul
e sem um vinco por fora,
à imagem do céu,

enquanto
por dentro ardem
sementes dum amor
irrestrito

como o primeiro piri-
piri na língua
quando até a água foge

do Deus que s’esconde.

 

 

2

Sonhemos com as coisas imperfeitas,

a uva num pires quando nos abre a porta
a vulva, no canapé,
that

o amor na vulnerabilidade
dos que não se admitem ensimesmados
that

o pasmo na ausência qu’
inebria as ruínas,

não receemos as coisas imperfeitas,
o ar rarefeito da montanha
expande o olhar

descasco-te a laranja?

a fuga que lucilou
nos teus olhos perdeu o horário
do comboio
sob os ulmeiros.
do you remember?

Amemos as coisas imperfeitas;

quem perde a vida lubrifica-a
na discrepância
that

 

3

Não supunha que pudesse crescer
para dentro, colarinho
no pescoço
de outros nomes,

afinal, nem só a pele
descartável da cobra
pesponta
no vazio,

desassossegando luas
entre os áugures.

Quem envereda p’los sismos
do amor
encaracola
na liberdade,
dorme na esteira.

Não supunha.

Ou que albino,
o vento, me assarapantasse o guarda-
-chuva
e soassem clamores

o desejo da tua língua
na vara
             líquida que
torna habitável o inferno.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DIFÍCIL É VOAR

                                                            WHY WHY, by Alice W R



Difícil é voar e não depende do balanço
mas do lastro de ar que irrejeitável

nos erga a prumo, como se deus
- uma garrafa de oxigénio entupida de génios

verdes – nos tivesse concedido uma audição.
Sequer depende da atracção do firmamento

já que tantas daquelas luzes são urnas.
Difícil é voar porque uma intrincada porção

de carne entope como betão os poros
que abriam ao vento o corpo – e dele, galáxia

natal, faziam via rápida. E quem arrisca
agora a pele se, inumana, a ascenção

inflama em todo o metacarpo o ferro?
Não há cão crestado que não queira sair

do sol. Contudo, é vero, o carvão sobe
descendo em si mesmo, até ao brilho

da gema, e não se desvalida a gravidade
à primeira oportunidade, se até as ossadas

sob a neves s’abstraem da mensuração
da discórdia e, confundidas no branco,

ganham asas - estrelas em floco?
Só o homem, amassado pelas wastes lands

que no coração laminou, não se inspira
a sair de si próprio e abraça-se às moscas,

pubescentes e gris, do realismo para furtar-
-se às transformações silenciosas

que tumultuam as marés ou
levam o pigmeu à flexão do medo,

ebriedade com que mata o elefante,
aparentando-se finalmente ao homem.

 
nota:
"galáxia natal" é de Wallace Stevens

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O LANÇAMENTO DE A MALDIÇÃO DE ONDINA EM LISBOA


                                                               

E lá aconteceu ontem o lançamento de A Maldição de Ondina. Eu li o texto em baixo, citando o José Teixeira Pimentel. O do António-Pedro Vasconcelos será publicado na imprensa. Foi uma festa porreira, onde reencontrei vários amigos. A todos eles grato, etc.



«O tempo tem destas coisas, desníveis e curvas de nível, e hoje apresentou-se chocho e pôs-me melancólico, pelo menos às sete da manhã deste dia 25, quando redigi este apontamento, sob o espectro da certeza de que preferia voltar atrás e ter sido guarda das pimentas d’el-rei dom Manuel de Portugal ou, em último recurso, ter sido amante da Debra Winger ou da Eva Mendes, a ter perdido dois anos com A Maldição de Ondina – um remédio que aliás nem me aliviou da gota.

Para já a relação teria sido muito mais rápida, por muito magnésio que eu pusesse nas mãos a enguia teria escapado. Depois a despedida seria de uma vez só, não era este enredo a conta-gotas que me faz sentir um amante póstumo.

Não creio que um amante póstumo tenha grande proveito.

Cansaços.

No dia em que fiz cinquenta e um – estava a acabar a Ondina -  tive uma estranha epifania: senti que quando fosse meia-noite me iria transformar numa abóbora. Uma coisa estapafúrdia para um cinquentão.

Comentei o meu desconforto com a minha filha mais nova, a Jade, e ela, do alto dos seus seis anos, respondeu-me:

Pai, uma abóbora não ressona.

E então compreendi que o meu desejo mais secreto aos 51 anos era não adormecer para não incomodar os outros com a minha apneia.

Ímpeto cristão, só me falta o baptismo.

Mas isso é na vida.

Os romances, pelo contrário devem ressonar, e fortemente - não transigir.

Incomodar pelos motivos que evocam, pela insónia em que colocam o leitor mesmo que não saiba porquê.

Como escreveu um amigo que leu a Maldição, uma frase que acho antológica: «Nunca gostei tanto de um livro de que discordasse tanto».

É este pacto que procuro traduzir na escrita, não o sentimento da fusão mas o do ligeiro incómodo que nos leva a prosseguir. Só neste intervalo entre uma impossível adesão ao que está a ser dito e o transe eléctrico da leitura é que pode acontecer algo novo, quando tudo, no dizer do velho Heraclito, «fica governado pelo relâmpago».

Não conheço outras leis para a escrita.

Nem para o tempo.

Por isso me fascinou este outro mistério que descobri esta noite na net e que me abysmou em reflexões que me tiraram o sono:

o pai de Rousseau, o Isaac Rousseau, foi relojoeiro num harém, em Constantinopla.

Relojoeiro num harém – eis tarefa para uma vida. E uma tarefa tão material, dado o tempo ser «a morte no trabalho» como dizia do cinema o Godard, como imensamente obscura.

Mas viu-se o pai de Rosseau obrigado a regressar a Genebra por insistência da mulher, Suzanne – de quem se dizia ser bonita e espirituosa a um ponto que teve um corrupio de pretendentes semelhante ao de Penélope -, e fez-lhe um último filho, para depois assistir ao sobressalto de vê-la falecer no parto de um – veja-se a ironia – bebé enfezado e doentio. O próprio Jean-Jacques.

Dizem os relatos que ambos ficaram nostálgicos, o bebé e o pai, e que dedicados ao culto da ausente Suzanne, se entregaram à leitura, devorando a grande colecção de romances que ela deixara – acumulada durante a estada de Isaac no harém oriental. AS coisas impensáveis a que podem levar as badanas de um harém.

Quando esgotaram esta biblioteca, bulímicos, concentraram-se na do avô materno, onde o muito jovem Rousseau virou, como se fossem líquidos, todas as páginas dos autores da sua época e os da antiguidade.

Mas suspeito que este jovem educado um pouco ao deus dará e com um pai que só lhe presta atenção por saudades da falecida, há-de ter chegado à adolescência e, numa noite de luar, talvez no esplendor da descoberta do seu corpo, embatido com o seu primeiro mistério metafísico: o que faz um relojoeiro num harém?

Qual é natureza exacta do seu trabalho? E qual é o verdadeiro marcador de tempo no serralho? E por fim, talvez a mais vertiginosa das perguntas: um relojoeiro num harém não se sente afogar numa espécie de infinito, de coalho que impede qualquer regularidade na medida?

Que podia o embaralhado Rousseau imaginar, para se safar a tal vertigem, senão «um bom selvagem», uma pulsão-em-flor que escape ao controle dos ritos e das regras “civilizacionais” – que permita, enfim, evadir-se de tudo o que dava sentido ao cumprimento das horas e à necessidade de um relojoeiro.

Pressinto que Jean-Jacques Rousseau, de repente, contra o pai, aspirou à hipótese de no futuro, e unilateralmente, vir a ser amante da Debra Winger ou da Eva Mendes, e nunca por nunca relojoeiro.

É aqui que nos encontramos e que eu deslindo outro princípio para a arte: encontrar mais que foi perdido (Elias Canetti), como só pode acontecer em Eros.

Mas enquanto ninguém me manda o contacto da Eva Mendes, só me resta escrever outro libro, para me salvar desta dupla maldição.

Por isso, meus caros, até mais logo.«

 







sábado, 21 de setembro de 2013

REVISITAÇÃO DE HELDER MACEDO & UM PROBLEMA

 O problema com o Mal é que sob a sua filigrana já lá não respira ninguém, um outro. Não que o não “pareça”, ostensivo, importuno, omnipresente. Mas os seus modelos estão de tal forma saturados que já não trazem o pavor que os tornava indescritíveis.
Já não consentimos imaginar o Mal para além do que nos é oferecido. Estamos reféns das imagens que os seus modelos reproduzem. Ei-los mensuráveis, colados como selos às cartas endereçadas ao bem-que-nos-pariu.
E eis-nos abarrotados, até ao infinito, de cabidela, de vampiros, de espelhos que se vingam retroactivamente, de ogres & aliens, de democratas que mentem ruidosamente e de tiranos de viscosas mentes que florescem sob o bolor dos Hannibals desta vida, de putaria baixa & escarninha.
Como insistir na perfídia que já só se repete, extenuada, e já não afigura ser mais do que uma sobra?
Ser sacana, maldoso, ímpio, perverso, f. da p. qb, enrabar os anjos, engessados ou não, que intensidades traz agora, quando os massacres se sucedem indiferentes, em directo, e em Chicago escalpar bebés é o divertimento?
Lady Macbeth boceja e nós, depois de todo o bem cariado, chegámos ao mal sem sombra.
Para abusar de dois versos de Helder Macedo, o mal “telefona-me às vezes depois da meia-noite/quando o silêncio raspa o vidro da janela” – e, foda-se, mal damos por esse “penetra” na nossa festa.
E suspeito que depois da “naturalização” do mal começaremos a perceber que o silêncio foi perfurado. 
Quanto tempo precisaremos para compreender que perfurado não quer dizer perfumado?
“E eu nem sequer estarei aqui a dar por isso/ por termos ficado todos tão parecidos” – volta a escrever o Helder Macedo, um poeta absolutamente a redescobrir
e mais uma voz que confirma a minha intuição de que há décadas que confundimos a literatura com o turismo de massas, cabendo-nos a obrigação de corrigir o tiro.
 
 
Ladrilhos emprestados a “POEMAS NOVOS E VELHOS” de Helder Macedo, Presença, 2011, livro a que voltarei:
 
 
De VIAGEM DE INVERNO
 
2
Um salto de raposa sobre a estrada
último sol à beira da fronteira.
depois somente a sombra
duma luz diurna
a câmara dos ecos
e círculos de corvos sobre a neve
(…)
 
3
Na encruzilhada
vi-me reunido
restituído ao corpo que previra
despedido
na bifurcada ausência
da estrada sem regresso
ou transgredido
na transparência nua
da pele em que te teço
ou reconheço
nessa rasgada lua
nesse mar vão de sangue reflectido.
 
9
(…)
Mas os olhos que eu vi ainda eram negros
da cor da primavera.
 
10
A esquina estava lá
e a árvore prevista
mas não eu.
Falto-me?
Faltei-me
mas nem sempre é necessário não faltar.
Basta o simulacro de árvore na esquina
basta a avenida sem estrada onde passei
basta ouvir-me o silêncio em cada passo.
 
18
O laranjal coberto de limões
 
no corpo suculento da memória
 
(…)
 
De O LAGO BLOQUEADO
 
Não há mistérios
há corpos
com saídas e entradas
que se encontram
e articulam o serem divididos
 
não há não há mistério
 
e só assim conheço a minha imagem
onde mais me desconheço
no teu corpo
minha imagem verdadeira
como quis sempre não saber
 
há corpos
corpos apenas que não são embrulhos
de alma
nem morte redimida pela vida
 
por isso meu amor vejo-me em ti
porque te desconheço
e também te vejo em mim
 
mas não falo já de mim nem para ti
porque não és o corpo
que reflicto
à tua semelhança
que no entanto é tudo quanto sou
 
sossega meu amor
não há mistério
meu amor
meu excesso frio de paixão
há corpos
há corpos que se encontram
e se sondam
até que os corpos parem de morrer.
 
 
De O SETE
 
 
(…)
pra cama pra cama
e basta de prosa
quem fica de fora
não sofre nem goza
 
e arrunfa tafunfa
menina cachuncha
e trica larica
na pita catita
 
(…)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

HARPO MARX NA JAULA DOS LEÕES


Revistas as provas finais do meu livro «Harpo Marx na Jaula do Leão», que sairá ilustrada com cinco belíssimos desenhos do Manuel San Payo.
É um livro de poesia que não sei classificar e que, pressinto, dividirá os leitores, tão à míngua de um lirismo de que, neste livro, me sinto algo arredado, ainda que termine com um longo poema de amor; o qual os que tendem a querer catar emoções nos versos acharão frio.
Um livro algo conceptual, em que o satírico alterna com alguns momentos de uma melancolia expansiva e em que o discursivo e o narrativo se sucedem, aqui e ali, armadilhados por elipses.
Será o meu segundo livro depois dos 50, e julgo que com  o anterior«Não se Emenda, a Chuva», constituirá o momento mais maduro da minha produção. Neles abandonei os malabarismos da metáfora e da linguagem, numa mescla de construção e coloquialidade.
Aqui deixo o poema de entrada do ciclo que dá nome ao livro:


HARPO MARX NA JAULA DO LEÃO
                                                     para o João Paulo Cotrim
1

Lembro-me duma jaula abelhuda
que não desgruda do desassossego de uma veia
e de Harpo Marx lá dentro, com um leão
vagamente adormecido —
a buzina, emaranhada na juba,
muda — e dele
com o indicador nos pedir «shiu».

Ou talvez confunda
com outra jaula num comboio
e outra indubitável fera fulva
em Some Like it Hot , de Billy Wilder.
O sniper que me ajusta a mira da memória
é que não me deixa mentir:
era felino o rosto de Harpo.

Glória de um homem talhado
para reinar, ainda que só
entre crisântemos, harpas e mimos,
tendo por ministros particulares
os poucos anjos
que – às primeiras, roazes, feiras
do Verão –, inebriados
pelo vento de nortada que tatua
o desejo nos pomares, não se evadem.

E ainda que vasto seja o sobrevoo
(a imaginação dos adultos sempre pinga),
nunca será o desfecho previsível,
se, em troca de uma língua-de-gato,
em criança nos inquirem
                                       o que
queres ser quando fores grande…
por isso, sem aparato, foi esse
o meu segredo
mais bem guardado na inflamável
fortaleza das amígdalas.

Queixava-se o Borges, eu que tantos
fui não fui o patusco que enxugou
na sua ínsua maledetta o profuso estuário
da Ava Gardner (não era esta a Eva dele,
mas a que mais me aflui à infância
do desejo): retórica pura — 
em matéria de sexo, só os toureiros
e as condessas descalças sabem da poda.

Eu queria ter sido simplesmente
o Harpo Marx das pontas
que ficaram por montar, a sua mudez
presciente, posto serem as palavras
barcos que partem, encadeados
por desavisados destinos.


E, asseguro-vos, a vergonha
que tinha valia por doze sarapitolas,
enchia oito frascos de compota.

 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

ENTREVISTA A UM POMBO CORREIO SOBRE O MUNDO MINERAL

Em 1012 o Diogo Vaz Pinto e a Inês Dias dirigiram-me uma série de perguntas sobre “poesia e crítica” – perdi o enunciado que me enviaram – para um volume que incidiria precisamente sobre a relação entre esses dois patamares do universo da escrita, mas cuja publicação se gorou. Aqui ficam as minhas respostas.
1
Eu apareci cedo mas amadureci tarde, o que condicionou o modo como fui lido.
Fui para muitos um “champignon de route” do Al Berto, editado por ele em 79, e quando publiquei o meu primeiro livro “sério”, em 97, o Al Berto tinha morrido.
Pelo meio, andei pelos jornais, assisti a muitas mudanças, e já toda a gente estava farta do meu nome quando me meti verdadeiramente à estrada.
Daí suspeitar que poucos conhecem realmente o que escrevi. Acresça-se a isto o facto da maioria dos meus livros serem literalmente invisíveis (tenho que ir à bruxa).
Antes de 97 não conheci qualquer “fortunata crítica” e era justo. Mas tinha feito amigos: a Maria Velho da Costa, com quem escrevi vários filmes, o Herberto Helder, o António Barahona, o Grabato Dias, o Fernando Assis Pacheco, o Hélder Moura Pereira (eu andei sempre com os mais velhos), o Virgílio Martinho, entre outros.
O eco deles fez-me insistir na minha «poesia esquisita» (FPA). Só tinha que robustecer. Engordei então 20 quilos e passei a ter uma voz pletórica como a do Orson Welles (brinco).
Quando o António Guerreiro, a Maria João Cantinho, o João Barrento, o Urbano Tavares Rodrigues, o Eduardo Prado Coelho, escreveram sobre mim aí eu já tinha encetado o meu erro, pelo que não tiveram qualquer influência.
2
Só um best-seller pode mensurar os seus efeitos. Além disso vivo fora, literalmente, e nunca estive ligado a grupos ou ao empenho de gerações. O meu percurso tem sido solitário e dividido as opiniões, e já é tarde para me preocupar com isso. Aliás, neste momento há quem goste mais de mim como prosador do que como poeta. Why not?
3
Andei sempre levemente desconectado. Porque só acredito em coisas decantadas. Mas, a partir de 2005 e do livro Piripiri Suite, escrito já em Moçambique, sob o choque de uma erosão sobre homens, paisagens e ideias, como nunca imaginara existir, algo me roeu o luxo das metáforas, e tornou-me mais descritivo, aproximando-me de um certo modo mais próximo ao da geração de 90.
Mas continuo a pensar que preferia ter sido Michaux ou Ted Hughes a Phillip Larkin.
Neste momento, os poetas a que dedico a minha atenção integral são dois indianos: Lokenath Bhattacharya e Sujata Bhatt, um marroquino Abdelatif Laâbi, e um belga flamengo, Hugo Claus.
E acho que, no Brasil, se está a publicar excelente poesia na net. Já deram conta de Maira Parula?
4
Comentar a poesia exige um despojamento descoroçoador. É mais fácil arranjar uma grelha de conceitos e dois ou três tutores, que configurem uma sensibilidade, e, em nome de uma pertinência auto-legitimadora, aplicá-la. Fica meia costeleta fora do prato, nesta técnica de Procrustes, e nota-se um tal cuidado em «não caluniar as aparências» que fica por responder a questão central, a que Sócrates coloca a Fedro: se a verdade viesse de um carvalho, de uma pedra, nós aceitávamo-la?
Terá a poesia pouco a ver com a questão da verdade? Talvez, mas, paradoxalmente, não pode deixar de atender a esta pergunta.
Penso que, na “demanda” crítica, renunciamos demais aos acontecimentos e às singularidades em nome dos afectos, do conforto, da chantagem da “camaradagem”. Raras vezes a crítica não confirma a derrota do humano. Portanto, sim, a crítica é parcial, tendenciosa, protege uns em detrimento de outros por razões que não se prendem à qualidade do texto e, sendo difícil exigir que não seja assim – pois, perguntava Shakespeare, podem com sangue ser os homens diferentes? -, convém que alguma lucidez vá periodicamente corrigindo a mão.
5
O último serviço de pombos-correios que existia no mundo fechou as portas em 2001, na região de Orissa, na Índia. Não sei se ganhámos, se não fomos amputados de um certo tipo de imaginário. O mesmo se coloca com a música, gostar só de música pop, ou rock, e não ouvir música clássica ou erudita, não é uma mera questão de gosto mas de amputação de amplitudes na sensibilidade musical. Nas edições, neste momento, como em tudo, tende-se para a estereotipia – não é só a rejeição da poesia mas também a de um determinado tipo de prosa que se verifica. Hoje o Rabelais, o Sterne ou o Machado de Assis não teriam editores, são excessivamente digressivos e tanto vocabulário ofende a paciência do “leitor médio”. Cabe-nos reagir.   
6     
Estamos submersos numa saturada permuta com “o real” e algum excesso de cinismo e de conformismo recheou de “aporias” o poema. Do que pode resultar que “o grau de realidade” poética se meça pelo grau de trivialidade, de tédio, e vice-versa.
Nestes moldes a poesia servirá pouco o agir humano.
À melancolia, por exemplo, há ainda quem a aguente?
Tão sedutor como improfícuo, o lado de grande bazófia desconstrutora em Wittgenstein que contaminou tudo.
E vale ainda a poesia? Enquanto for capaz de trazer novas inquirições julgo que terá um papel social inigualável pois a poesia para mim é como a fotografia para o Bazin: algo que terá talvez mais a ver com o mundo mineral do que com a cultura humana. E aquilo que assim nos interpela nunca se despede.