sábado, 30 de junho de 2018

Hans Hartung


TRÊS CRISTAIS MANCHADOS

29/06/2016
Oscar Wilde tinha muitos tiques de rapaz engenhoso e por isso alcançam tanto êxito os seus aforismos: vestem sempre qualquer ocasião, mesmo que sirvam propósitos diferentes. Mas às  tantas acertava, como aqui: «É essa a missão da verdadeira arte - obrigar-nos a fazer uma pausa e a olhar para determinada coisa uma segunda vez
Fazer retomar ou tardar-nos o olhar sobre algo até que a pedra fique pedríssima, como se diz num verso de Herberto, é mesmo uma condição da arte. Sendo o contrário da crença modernista de que tudo se dissolve no ar: também acontece mas o que importa adensa e a cada leitura acrescenta-se uma dobra. O próprio entusiasmo esteriliza se não se adensa e molda a obra. E o entusiasmo antecipa amiúde a paixão: um olhar que se torna lento e densificado pela emoção.

//

Bom, estes tweets que apanhei na Nuvem e que agora divulgo, nao me parecem exactamente dele, ou podem se-lo se à figura somarmos a inteligencia:  

OS TWEETS DE DONALD TRUMP

É difícil não twittar todos os dias
Quando se é jurassic como o twist.
Sou um homem da minha geração
Com casamentos e escapadelas
E nao é minha culpa se a vida é 
Uma álgida genitália russa 
Tremendamente escarpada.

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Como dizia o meu mestre Duchamp
Num número da Reader’s Digest
Quanto ao valor da arte actual
Não gosto de entupir as sanitas.
Por isso só protejo os negócios.

//
Não há baleias em perigo de extinção,
O que há é cetáceos desenhados a lápis.
Se o ozono já está esfarrapado
sobre Washington Square?
Propos-me a Ivanka que respondesse:
Perguntem ao Henry James,
O que ele disser sobre esta praça
Para mim é exacto.

//
Se o clima muda muito
use o nosso ar condicionado
- a América dá-lhe um ano de garantia

//
Estou para a política como o diabetes para o açúcar
E introduzi temas novos na análise política
O macho alfa, o fake news, o America first,
Desde que estão comigo que
Todos os caminhos vão dar à Blonde.

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Não sei de que se queixam
As peles dos casacos de Melania 
afinal são tão autênticas
como idênticas.
Aqui nao há fakes.

//
Conheci a minha mulher num cruzeiro
Que um tal Wallace quis denegrir
Mas onde vimos um pinguim 
a lavar os dentes.

//
O Kim tinha as unhas arranjadas.
Um homem que as arranja assim
Não faz pactos com o Diabo.
É um democrata, embora de uma amnésia paliativa.



//
Parecia uma múmia em gelatina
Mas com a cabeleira de Monsieur Verdoux
(o único filme de Chaplin que tolero)
Mas tinha o aperto de mão de um toureiro
Aquele presidente de… Andorra…
Não era de Andorra? O do Ronaldo, o boxeador…



30/06/2018 
Bom, e primeiro que tudo há que ser grato. Grato ao Nuno Moura, que se propôs reeditar a minha poesia invisível. Em seis volumes de que saiu agora o primeiro, e com seis livros inéditos.
Tem graça que só quando o Henrique Fialho se referiu ao facto dos livros da Douda Correria não terem código de barras é que o notei.
E gosto disso, de uma editora de poesia que se dirige apenas aqueles que querem mesmo ler o livro e se dão ao trabalho de o procurar.
É louco o Nuno porque tem fé. Mas creio igualmente que só as coisas impossíveis é que podem acontecer, as demais descuram-se a meio do processo porque um verão chuvoso fez descrer o curso das imagens.
Que ele não tenha prejuízo, é o único que peço.
Três poemas do livro de que o Henrique Fialho fez uma generosa recensão, aqui: https://universosdesfeitos-insonia.blogspot.com/2018/06/oitenta-flechas-para-atrair-cotovia.html

O QUE SOBROU AO FIM DO MUNDO

1

Assim que me livrei, como lastro, dos brilhos,
precipitou-se sobre mim, anelada, fulgurante,
a noite.  Sobejam ainda pequenas vaidades

e um drama insolúvel para um lerdo animal de carga:
não tenho a memória na ponta da língua.
Daí que, quando, na senda do que respiro,

a imaginação me afunda no seu lençol
freático, tenha que me certificar se não nado
como um coentro, pois a morte é a granel,

não escolhe os filhos. Eis o farnel de prudências
que retive. Do mais me desfiz: sinais de identidade,
amores aparatosos, palavras que fulgem como isqueiros.

O importante na mão é a sua leveza, abrir-se
para dar, abrir-se para receber. É o que o pulso
e o ninho têm em comum: o vento.

E agora, mal fecho as pálpebras, uma infância
tropeça nas escadas, uma galinhola, em pleno voo,
tomba de joelhos, um prego finalmente respira fundo.

É uma vigília que não cessa enquanto
nos meus pulsos a fadiga de ser
prodigaliza a sede de ser outro

e a fome de outra pele descarrila a minha.


2
(uma variante de Auden)

Não nos sobrava vida para morrer
e aí tudo recomeçou: houve que trepar
como os salmões até à fonte
aonde a gema da inocência se contorce.

Não nos sobrava vida para morrer,
já póstumos e sem vintém, de alma
surrada e crivada de desertos
a quem não alivia o ribombar das chuvas ácidas.

Há lá gáudio, Auden, numa morte assim!
Que consolo colhe o ceifador que não agoira
no horizonte a espiga ávida do porvir?

Nada nos sobrava e morrer era tão doce
que repugnava a sua mais leve menção.
Sim, Auden, a derrocada dos castelos dá flor!


3
Como um nó que a noite refaz na árvore
 que se abateu, o bico do corvo de colarinho
revolve o esterco nos orifícios, tubulações 

e palmares internos do adormecido
— aberto o seu flanco pelo bisturi
do sonho, onde em borbotões

se galvaniza a desembocadura de um rio.
Vem outro corvo e regurgita
sobre as feridas cristais de rocha.

Acorda de um pulo, o coração represo
como o polegar malhado por martelo.
Calafrio. A sua vida antiga está por um fio.

Vai à janela, em vez do renque de tílias
vê os grampos duma cicatriz,
o céu como a capital da dor.

A mulher acena-lhe da cama,
os seus tenros ramos enovelados pelo remoinho
do sono. A sua voz é uma sombra,

«vem, foi só um pesadelo», abstraída
ainda dos detalhes — da sua unha cónica
no mindinho, das rémiges pretas

que lhe eriçam selvaticamente as omoplatas

sexta-feira, 29 de junho de 2018



DA  CLANDESTINIDADE DO DESASSOSSEGO DAS RAPOSAS

Depois de um longo jejum julgo ter chegada a hora de retomar o Raposas a Sul. A minha mulher diz que ando intratável desde que me abati ao serviço do blogue e o melhor, antes que tudo se agrave, sendo eu uma criatura de maninho âmbito familiar e extraviado para a boémia, é retomar o barco.
A história do Raposas é um caso de resiliência. Bem sei que esta palavra hoje parece rebarbativa, sobretudo para quem não leu o Cyrulnik e o seu Un Merveilleux Malheur, onde nos é demonstrado que o espírito de resiliência é uma constante humana e não uma grelha interpretativa epocal e sujeita às flutuações da moda.
No meu caso isso foi claro. Em 2011 alguém da Migração moçambicana vendeu o meu DIRE a outrém (talvez a um nigeriano, para ser parecido comigo) e fez desaparecer todos os meus processos para se encobrir. E de repente fiquei clandestino. Mais de um ano num doloroso brique-à-braque. Até que a coisa se resolveu. Foi um ano de depressão em que perdi o emprego, trabalhos vários, e assisti ao desfile de alguma pulhice humana. Para pôr a cabeça acima da água escrevi um romance e pus o arado no Raposas a Sul. Dada a situação, com um ímpeto simétrico ao cerco de que era vítima.
Descobri então uma capacidade de desdobramento que depois se tornaria ancora. Ainda hoje me espanto como, estando numa cápsula tao apertada, mantinha gestos de astronauta e punha os braços fora da nave, para remar onde sentia que a propulsão falhava e rumo a outras coordenadas muito distintas da angústia em que vivia.
Poucos souberam do meu problema porque há infernos para serem vividos com decoro e decência, sem serem impostos aos outros. Agora já se tornou história, serão objecto de novela.
Nos últimos anos tenho-me repartido entre narrativas que roçam a áspera realidade africana e   outros de puro voo conceptual, como se habitasse em Estocolmo. O recente A Paixão de João de Deus, ou o que se seguirá, o romance A Vida em Marte, esclareceram-me: é sim possível pairar acima das circunstâncias e plantar outras paisagens no meio do Inferno. Nem é outro o mecanismo criativo.
Há vários motivos para retomar o Raposas, de um modo apegado.
Primeiro, julgo que se aproximam tempos de novas clandestinidades.
Segundo, o mais frívolo fb não estimula o pensamento mas o slogan.
Terceiro, favorece-me mais a disciplina a que me obriga um blogue do que a prática do ímpeto e do improviso nas outras redes sociais, demasiado histéricas (como a seu tempo denunciou o Henrique Fialho) e mais ajustado ao seu próprio mecanismo do que ao ritmo descosido e desalinhado que é o meu.
E porque continuo a gostar de estar sozinho e só gosto do convívio a espaços, ciente de que a verdadeira partilha se dá no tempo e não no instante. E não no momento oportuno, mas no inesperado.
Aqui, quem quiser ler que leia, mais não se pede.
Além disso fui acumulando notas nos cadernos que precisam de uma segunda demão e apercebo-me de que há leitores atentos, como o Henrique Fialho (o primeiro estímulo para eu voltar às lides) que não merecem uma hibernação tao duradoura.
 Basta um leitor, um leitor atento.
Além disso, os próximos tempos vão ser de muito trabalho e convém-me manter vivo um caderno de notas. Já dizia o Lorca que o duende para se manifestar precisa de um corpo. Melhor não o diria.
Vou distribuir assim os meus trabalhos e os dias:
No Raposas edito as minhas notas diarísticas e de leitura, e transcrevo (por norma, dois dias depois) as crónicas semanais que escrevo para o Hoje Macau e o Savana (- como estas são escritas para muito diferentes territórios, Macau e Moçambique, muitas vezes no mesmo dia, e embora eu procure evitar, é natural que aconteçam, consoante os temas, transbordos, contágios e vazamentos de umas crónicas noutras; nestes casos só transcreverei uma delas). Ah, e claro, as traduções, que retomarei com gozo.
No Caliban publicarei as recensões e outros ensaios maiores. Anúncio já recensões sobre os últimos romances do Carlos Alberto Machado e do Manuel da Silva Ramos.
O que mais vier à rede é sereia.
 E aqui vos deixo com a crónica que saiu no Savana desta semana:

ARCA DE NOÉ 13, OS DESAFIOS RELIGIOSOS:

O que exacerba nestas decapitações, que se notícia em Cabo Delgado, é a tremenda facilidade com que se mata. Quando se mata não é apenas sobre o corpo que se exerce a violência, degolam-se igualmente as representações. Decapitar é negar um rosto, desorbitando o sentido que fazia, o diálogo que podia propor. Esta é em primeira instância uma violência contra as representações. E em primeiro lugar contra as que o islão alimenta de si e para si mesmo.
Por outro lado, crer que os cristãos são o alvo é cair na ingenuidade, aqueles são o primeiro pretexto – seguir-se-ão os outros, todos, pois esta é uma cruzada da morte e a morte vicia-se na crueldade.
A cruzada religiosa é uma máscara. De que, eis a primeira questão.
Imagino os jovens de Cabo Delgado que neste momento se sentem inermes no meio de monstros que os cercam. O nazismo fazia às escondidas, nos campos de concentração, o que estes radicais fazem às claras, se possível com publicidade, emprestando um intratável decoro aos crimes históricos. O que espanta- a história dos homens e das comunidades teve sempre infelizmente este cariz- é que ocorra neste tempo.
E convém não assobiarmos para o lado. Estes movimentos radicais só acham terreno fértil em países onde se falharam duas coisas essenciais ao desenvolvimento: a educação e o aplainamento de extremados e indesejáveis desequilíbrios sociais. Ou seja, em terreno, onde o poder se exerce à antiga: com cinismo e como discricionária vontade de alguns, e não como fruto natural do governo se exercer apenas como um facilitador que torna operativas as mediações sociais.  
Falo evidentemente das condições propícias para a escalada, e da facilidade com que estes movimentos se implantam no terreno, pois as metástases do mal estão espalhadas globalmente e há indeclináveis pontos de contacto subterrâneo entre o actual fechamento da Europa aos refugiados e estes viveiros latentes de novos focos terroristas que se estabelecem a sul.
Estamos globalmente lixados, embora uns mais do que os outros - os do Sul.
Entretanto, quem há dez anos se ria da estultícia programática do Boko Haram tem de admitir hoje, ainda que tolos continuem, que dominam metade da Nigéria. Até pela razão mais simples, que as autoridades, arrogantes, nunca levam em conta: a anomia propaga-se de forma mais fácil e rápida do que a ordem, que exige gerações.
Por outro lado, não sei se - como sugeria Amade Camal na semana passada, na entrevista a este jornal- se se poderá dizer taxativamente que estes terroristas não seguem princípios residualmente islâmicos, ou se o empresário não quis desviar o pensamento de uma ferida.
Já o poeta sírio Adonis (1930), educado no Islamismo, no abrasivo Violence et Islam (Seuil, Dec. de 2015), um livro de entrevistas, não tem dúvidas sobre o carácter ferino do islão, e denuncia a sua violência genética e o seu estado de falência. Citando os textos dos Hadiths, do Corão, dos Sutras, e “saturando-nos” com a sua autoridade de um homem de dentro, Adonis zurze quase envergonhadamente por ver a “sua” civilização de quinze séculos definhar na pulsão degenerativa do Daesh – um caso, diz, de “arteriosclerose” religiosa.
Neste livro, previna-se, não encontramos um ajuste de contas mas um homem que ama as “fontes vivas” da cultura de onde emergiu – e que lhe alimentou dezenas de livros – mas que ama igualmente a verdade e que decepcionado, faz uma análise da malograda Primavera Árabe, diagnosticando um final triste para a cultura que sempre almejou dignificar:
«O homem que se pensa mais vigoroso do que a morte – porque se imagina a piquenicar agradavelmente no paraíso – pratica a barbárie sem medo ou sentimento de culpabilidade. Ele simplesmente está separado da natureza e da cultura. Vejo no Daesh o fim do Islão. Ē um seu prolongamento, certo; sendo igualmente o seu fim. Actualmente, sobre o plano intelectual o Islão não tem nada a dizer. Nem élan, nem visão para mudar o mundo, nem pensamento, nem arte, nem ciência. Esta repetição é o próprio signo do fim. (…) O Daesh não oferece uma nova leitura do Islão ou a construção de uma nova cultura ou de uma nova civilização. Antes é o encerramento, a ignorância, o ódio do saber, o ódio do humano e da liberdade. E é um fim humilhante!»
Evidentemente que, como um homem de bem, e não como um tolo iconoclasta, Adonis não confunde a fé dos seus membros com o anquilosamento estrutural das instituições.
Mas acusa noutra passagem:
«O Islão matou a poesia. Este assassinato, com efeito, é igualmente o da subjectividade, representa o detrimento do indivíduo e da sua experiência de vida em proveito da crença comum, a da Oumma (a comunidade). O Islão rejeitou que a poesia fosse um conhecimento e uma demanda da verdade. Ele baniu-a e condenou-a. Ora, a poesia perde todo o sentido se não for exactamente uma busca da verdade. Posso mesmo dizer que a poesia é uma desmontagem e um desmantelamento da religião, tanto na sua crença como no seu conhecimento. Ademais, é a poesia que diz a verdade. (…) Do ponto de vista poético, a religião é um duplo niilismo: dado que é uma destruição da beleza da existência sobre a terra, querendo-a substituir por um enchimento infinito de lendas em torno do paraíso. A poesia tem a vantagem de afrontar directamente a divindade sem se transformar numa outra religião. Ela rechaça a ideologia. Como a mitologia, antes questiona e abre e desdobra horizontes infinitos para a busca.»
Saliente-se: este não é o livro de um ressabiado mas apenas o de um homem que à submissão prefere a inquirição e que não receia ferir-se no acto de abordar a verdade.
Não será Adonis abusivamente generalista. metendo debaixo da mesma redoma salafitas e wahabitas e as demais correntes do Islão, moderadas? Suspeito que sim.
O que não invalida o incómodo de se verificar que nas últimas décadas o incremento do islão tem tido a sombra dos petrodólares sauditas, de feição wahabita, e que, com a multiplicação das mesquitas e madrassas financiadas por essa via, as expressões radicais se multiplicaram. Na Ilha de Moçambique, um pequeno exemplo, já há sinais de intolerância religiosa entre as diversas confissões religiosas, tensão que não existia.
Como recorda Bernard Lewis, o maior historiador recente sobre o Médio Oriente, “O ramo wahabista do islão é muito fanático, até o ponto de ser absolutamente intolerante, mas controla os lugares santos do islão, Meca e Medina, o que o dota de um enorme prestígio no mundo muçulmano.» É de descurar, esta observação?
Imaginemos, agora para me servir de uma analogia que faz o historiador, que o Ku Klux Klan chegasse ao controle absoluto do Vaticano (ele fala do Texas, por causa do petróleo) e tivesse à sua disposição os meios de propaganda da Igreja Católica para fazer proselitismo da sua muito peculiar interpretação do cristianismo. Então teríamos um equivalente aproximado do que sucedeu no mundo islâmico moderno.
O que agora nos é dado a ver não é a evolução natural do islão, mas sim o resultado de décadas de radicalismo alimentado pelos sauditas. O que acabou por ficar descontrolado.
Saber se os assassinos de Cabo Delgado são muçulmanos ou se a falsa reivindicação é apenas um álibi não esmorece uma questão co-lateral: que imagem quer hoje o islão dar de si mesmo? Esta mesma questão, aliás, coloca-se às três religiões do Livro, hoje em crise, mas, enfim, estes crimes são reivindicados por supostos salafitas.
Será um enorme equívoco ou um engodo, mas o caos está instalado e entronca na questão de se saber como reverter décadas de radicalismo generosamente financiado. Julgo que esta operação só poderá preceder do próprio mundo islâmico. Este é o maior desafio que se coloca hoje à nação islâmica e ao seu tecido intelectual. Contrariar o diagnóstico de Adonis parece-me uma nobre missão.







quinta-feira, 11 de agosto de 2016

DESANUVIAR AS NUVENS, CELEBRAR O CORPO



Quando estou um dia sem ler sinto-me como o carreiro que se extraviou da sua formiga.  E gaguejo. Para retomar a articulação da fala preciso de alimento, isto é: de leitura.
Hoje calhou-me o Efeitos de Captura, de Luís Filipe Sarmento. E calhou-me bem porque numa região deserta um dia enevoado é sempre bem vindo.
Abre o Wittgenstein o seu Cultura e Valor com a seguinte proposição: «Temos tendência para confundir a fala de um chinês com um gorgolejo inarticulado. Alguém que compreenda o chinês reconhecerá, no que ouve, a língua. Muitas vezes, não consigo analogamente, distinguir num homem a humanidade».
O que gosto no livro do Sarmento é que: a) ele posiciona-se perante a linguagem como nós diante do chinês, b) nele, o «gorgolejo inarticulado» estende-se ao “mistério” do corpo, c) o espaço de abertura ao outro não descura o social (o político) e na sua busca, também ele, procura «distinguir num homem a humanidade».
O livro divide-se em três andamentos ou blocos temáticos:
- Do Abismo
- Da Superfície
- Do Raro
No primeiro fala do abysmo (é com ipsilon que o poeta o grafa nos poemas) que se abre no corpo em relação ao mistério do seu sentido intrínseco.
Logo nos dois primeiros versos do poema de abertura:
«Capto a imagem do corpo
e dou-lhe um nome: rosto.»
vemos que o rosto está no lugar do corpo, como  remate de um feixe que não traz logo consigo elucidação mas antes dúvida:
«O rosto não é uma face
mas a sua assinatura
plena de perplexidades».
Espantoso é o que vem a seguir, porque sendo embora uma evidência é um achado, no sentido que predetermina um ovo de Colombo:
«Porque sou um rosto que não vejo
nunca me libertarei da imagem
captada no corpo do outro,
capturando-me inexoravelmente.»
Portanto, o primeiro obstáculo da condição humana começa no facto de «tudo significar outra coisa» (uma asserção que Herberto já havia sublinhado) e só pela imagem do corpo que o outro me devolve se manifesta um vislumbre de assentimento. Antes desse apaziguamento erguem-se os «pontos de abstracção», obstáculos no caminho para a transparência, e que, aliás, nos tendem a enganar porque a luz que os assinala é afinal diferida, codificada:
«Como se tudo começasse
nos sentidos negros
da abstracção: a luz
sintética revela-nos
o conhecimento
que nos perturba.»
E por isso tantas vezes:
«Entre mim e o objecto do meu olhar
há um abismo que me aprisiona
a palavra libertária.»
Esta aporia, esta violência que enclausura a própria palavra na intransitibilidade com que os objectos estabelecem connosco uma “economia de relação” (sempre a merda de economia) que acaba por fantasmear-se, deixando-nos à míngua de significação, só tem escapatória na realidade do corpo, o qual, por sua vez, depende, para volver inteligível, da relação, da abertura ao outro e «à captura mútua» em que os significados permutam de valores até o vínculo impor uma liberdade (uma liberdade dilatada por rejeitar na base qualquer “economia de relação”) que se preserva pela sua paradoxal dádiva ao outro:
«Na experiência do corpo
a impossibilidade total do objecto
risco de fronteira
(…)
a boca inunda-se
de um dilúvio pleno
retomando o corpo perdido».
Portanto, um ser humano completo é mais do que uma disposição intelectiva e só se produz face à extrema coragem de abrirmos os poros ao «dilúvio» do outro, que começa como a água na boca. E nesta reciprocidade, como se diz a fechar o livro, há:
«uma tomada de posse
neste espelho que já não me pertence
a derrota de quem vence.»
O último verso do livro funciona como uma espécie de paráfrase a uma espantosa asserção de Maria Zambrano, a qual capatulta uma redimensão ética nos relacionamentos históricos e humanos: «e um dia os vencidos serão plagiados».
E por aqui creio estabelecer-se outro veio deste Efeitos de Captura, que começa por indagar o mistérios do corpo para clarificar o que existe de político no seu devido ou indeviso uso. Lê-se no primeiro poema que abre o andamento Da Superfície:
« (...) se Trimegisto tinha razão –
se tudo o que está em baixo
é como o que está em cima –
a evasão ao medo
será um confronto histórico
com os sequazes do dinheiro.
Não é uma luta divina
com a nova ordem mundial:
será o corpo a corpo
com a sobrevivência
em busca do berço perdido.»
E este corpo a corpo cedo é assediado por milhentas armadilhas, de entre as quais a massa de descrições com que o poder nivela a textura áspera da realidade numa superfície escorregadia e atreita à reprodução discursiva (convertendo em viciosos círculos a espiral que a libertação dos corpos funda ao reinventar a cada instante da relação a sua “linha de pensamento”), à retórica dos manuais-de-instrução que tecem as nervuras, os dispositivos de desejo impostos pela “natureza” redutora do “consumidor”:
«Corpo a corpo com a deceção:
luta de uma geração agnóstica
por imposição, o mundo à superfície
é um manual de instruções,
um ritual iniciático,
pela sobrevivência
no pantanal dos economistas eleitos,
(...) contra a humanidade desfalcada.
 (…)
e o mundo tremeu, desabou, ruiu em inglês
e deflagrou em mandarim»

Um livro que se posiciona do lado da espiral contra o círculo só pode denunciar a usura que hoje abala a Europa (e neste aspecto o “fascista” Pound tornou-se profeta), mas, é uma das qualidades do livro, embora não ignore (e faz dele diagnóstico) o estado das coisas Efeitos de Captura não cede ao niilismo e antepõe ao «kaos» (curiosamente, o políticamente correcto) a vitalidade de um princípio de dilucidação solar:   
«Neste museu de destroços
não reconheço nenhum apocalipse: apenas o novo lugar
da minha residência destruída.
Nesta cidade impossível, o choro recém-nascido
devolve-me a consciência da memória
liberta de velhos ancoradouros.
Uma nova estética no palco de um teatro invulgar
abala a representação do passado: a derrota
do malogro descobre à superfície
um repositório desconhecido de sensações.»
Contra as aparências, portanto, ressalta o singular, o Raro, a terceira categoria dese livro e que organiza o “campo” do terceiro movimento:
«O raro
só deflagra, não se multiplica:
apenas a loucura dos meus olhos
o captura na sua efemeridade»
É o Raro que desanuvia o sombrio movimento da doxa, que repele as unanimidades e a realidade sensatamente organizada ( - ele «não se multiplica»). É o Raro que torna os universos (tal como os corpos) cambiantes e reversíveis e que re-converte o Kaos em sentido. É o Raro, por fim, que ilumina de forma tão apetecível as modulações sensíveis do vencido que se torna apetecível imitá-lo:  
«O indizível infinito
existe sem tréguas
como um espetáculo
que sensibiliza
o meu prazer. Rara
presença, o infinito
amedronta-me
no prazer de o tornar
finito: objeto percetível
cuja carne saboreio
numa lenta digestão
do kaos.
Rara ambiguidade:
a dor e o prazer de te comer
quando me capturas.»
É pois o Raro que permite distinguir, como um afloramento granítico, nas afecções do corpo o Amor e entre tantos supostos humanos a Humanidade. A qual continua a procurar-se, desesperadamente. Por isso há uma ambivalência no título do livro: aos efeitos de captura estamos sempre expostos, não há imunidade contra eles. Mas há os efeitos de captura patológicos, aqueles que nos aproximam da reificação, e aqueles que nos tornam autónomos porque eles são igualmente a combinatória da vulnerabilidade do Outro e o respeito integral que só o Amor desempenha nisso.
É também Raro este livro, com certeza um dos mais apaixonantes de 2015.


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Este textículo, impressivo e rápido, sob influência imediata da leitura fez-se a partir da leitura da versão parcial do livro, ainda que bilingue, saído na Argentina, na editorial Levíatan.
Para uma análise apurada e magnífica do texto integral deve ler-se https://mjcantinho.com/2015/10/04/apresentacao-de-efeitos-de-captura/ 
















sábado, 30 de julho de 2016

O VENTO E A ESCOLTA, 29/08/2016

irving penn


Quando estou num período mais repousado, por questões de equilíbro e ecologia mental, tento traduzir ou fazer versões de pelo menos um poema por dia. Hoje descobri outra razão adicional para o fazer: a busca de uma expressão exacta, como quem esculpe na água.
Mais dois poemas de Milosz. No segundo habita um verso que é particularmente luminoso do ponto de vista da intuição que nos inculca: «Amo a matéria que é só um espelho que gira». Este é um verso que diríamos herbertiano, não fora ser-lhe três décadas anterior – dele ressalta o veio profundo que navega subterraneamente na diccção de alguns grandes poetas, uma espécie de vsão transpesoal interior/anterior ao expresso. E repare-se como este «espelho que gira» é já «o andado desandado» do segundo poema, escrito sessenta anos depois.

MANHÃ

Bela é a terra
belas são as nuvens
belo é o dia
e muito intenso é o amanhecer.


Assim cantava um homem olhando para baixo, a cidade,
de onde fumegava uma bateria de cem chaminés.

E o pão da mesa era um segredo,
de vê-lo palpitava a fronte
o homem levantou alto o braço
e entre risos dançava ao redor, desfraldado.

O sabor do pão recorda a luz do sol
ao comê-lo, do pão irradiam raios.
Depois, indo para o trabalho, o homem sentiu o amor
e mencionou-o às pedras da rua.

Amo a matéria que é só um espelho que gira.
Amo o movimento do sangue, única razão do mundo.
Creio na destrublidade de tudo o que existe.
Para não perder-me, tenho na mão um lívido mapa de veias.


ESTE MUNDO

Acontece que houve um mal entendido.
Tomou-se por literal o que não passava ainda de uma prova.
Os rios voltarão às suas origens,
o vento deixará de dar voltas.
As árvores não brotarão e voltarão às suas raízes.
Os velhos correrão atrás da bola,
Olhar-se-ão no espelho e serão outra vez meninos.
Os mortos despertarão sem compreender.
Até que todo o andado se desandará.
Que alívio! Respirai, vós que tanto haveis sofrido!


COMENTÁRIO A PASCAL

Pascal: «il n’aime plus cete personne qu’il aimait il ya dix ans. Je crois bien: elle n’ est plus la même, ni lui non plus. Il était jaune e elle aussi; elle est tout autre. Il l’aimerait peut-être, telle qu’elle étais alors.»
A asserção é heraclitiana e há algo de pueril neste juízo. Próprio de um homem que nunca teve mulher. É evidente que  tempo nos muda e, simultaneamente, muda também as circunstâncias e o pano de fundo em que amávamos. De facto as relações afectivas têm estações como a natureza e conhecem o inverno. Na nossa imaturidade não acreditamos que o inverno prepara a Primavera, dado associarmos, com nefanda estupidez, o amor à intensidade emocional dos instantes. O amor é uma lenta aprendizagem do tempo à sua feição natural, que é cíclica. Ou antes, é uma forma de incarnar sem atrito as transformações silenciosas que o tempo produz em si mesmo ao vivenciar as suas manifestações.
Crescemos sem darmos conta, como amadurecem os frutos e os cães mudam de temperamento – um dia olhamos a criança e notamos: está enorme! Nós não nos vemos envelhecer, de forma consciente – a não ser que tenhamos a doidice de Frida Khalo que tinha um espelho no dossel, suspeito que para espreitar duas coisas: o seu rosto lânguido quando gozava e, no inverso, os estragos que o sacho e a enxada do tempo faziam no seu corpo. Provavelmente, por fim, para surpreender a chegada da morte, embora seja impossível estarmos em vigília permanente; suspeito que a morte lhe terá chegado pelas traseiras. Na verdade, a vida é sem esperança e o amor – essa entronização do tempo em nós através da atenção e do corpo de outrém – é a aceitação disso sem tragédia, com sabor incluído e um ligeiro patetismo. Não convoco aqui, para já, outro elemento vital ao amor mas suplementar: a dignidade. É um suplemente desejável, mas à parte. Pode haver paixão sem dignidade, pode ser até iníqua. Faz parte do espectro da paixão desvelar nódoas no carácter, porque é sem moral. O amor pelo contrário, é a polpa que aprende a não corromper-se. É a isto que se chama fidelidade. Que não tem nada a ver com os acidentes na paisagem – a passagem de um ou outro aerolito momentâneo – mas antes com a constância de acreditar que o inverno prepara a primavera. Pelo que a proposição pascaliana  (ou heraclitiana) não passa de uma puerilidade coroada pelo sucesso da sua fórmula.


INFORME SOBRE A SITUAÇÃO NA TURQUIA

Formigam os homens endiabrados
À procura da pata de Deus.  

segunda-feira, 25 de julho de 2016

ESCRITOS NA VARANDA: IMPERMANÊNCIA



Uma vez em casa do poeta Joaquim Manuel Magalhães vi-o riscar com sanha uma palavra que a editora havia impresso ao fim da página de rosto do seu belo livro Segredos, Sebes, Aluviões, enquanto vociferava contra a impertinência da “sentença” intrusa.  A palavra era “impermanência”. Bom, o Joaquim era então um pequeno deus e eu um candidato a oficiante, teria ele menos dez anos do que os que conto nesta altura. Já na juvenília da veterania autorizo-me a pensar que, mesmo nos melhores de nós, além da soberba há vezes em que também nos sobra a imprudência.
Lembrei-me desta história depois de ter escrito o poema que se segue, no intervalo de uma dessas pesadas tarefas que impõem uma mudança de casa. Resolvi descansar uma hora e levei para o café uma antologia do Milosz. Foi no confronto com este magnífico polaco que se verteu o poema:

«IMPERMANÊNCIA

As estrelas exumam a luz
do fundo do seu próprio abismo.
Pestanejam e salta o tigre.

É infindável o núcleo das estrelas,
vive na ponta dos seus raios,
na transparência com que o felino

trespassa as suas presas,
alumbrando-lhes a carne e os ossos
- como a palavra, sentada

num grão de pó, lhes parece
agora saturada! A energia
que as estrelas despendem

neste esforço é a mesma que late
no teu coração, amor, e insuficiente

é o nosso fôlego para retê-lo.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

MAGNÓLIA E DANTE / a parte maldita


A arrumar papeis redescubro este artigo que fiz sobre  o magnifico Magnolia, nos distantes anos 90. Porque o achei sem rugas, aqui o deixo



MAGNÓLIA E DANTE:
A PARTE MALDITA
Blake e Miles são os dois dálmatas que flanam pela mansão de Earl Partridge, o empertigado magnate da comunicação que se debate com a doença, num leito que se adivinha derradeiro.
Houvesse um terceiro dálmata (poderia chamar-se Bacon) e refazia-se assim a figura de Cérbero, o monstro com três fa(u)ces de cão e corpo eriçado de cabeças de serpente (que fisionomicamente têm semelhanças com as cabeças dos dálmatas, nasceram do mesmo padrão), que guarda Aqueronte, o rio da morte, e convocava-se, ao mesmo tempo, a poesia, a música e a pintura: três testemunhas fiáveis do “passamento” dos humanos neste trânsito terreno.
Magnólia, o filme de Paul Thomas Anderson, encena um mundo em queda, nos seus diversos círculos infernais. Precisamente, uma das leituras inesperadas que este filme proporciona nasce da consonância do seu universo com o que Dante desenha a pontas de fogo n’ O Inferno. E numa narrativa que começa com o insólito caso de um suicidado, Sydney Barringer, às mãos dos seus pais, e por expôr a serialização que as coincidências organizam, assestando uma nova mira para a inteligibilidade do real (as sincronicidades jungianas), a existência de inegáveis semelhanças estruturantes com a obra de Dante permite lê-lo como uma plausível variante cinematográfica da Divina Comédia.

Magnolia compõe um mosaico de destinos que se animam como labaredas à medida que se vai impondo o âmbito dramático. As personagens de Magnolia, nove como os círculos deO Inferno, só descobrem a sua verdadeira dimensão quando acossadas pelo carácter emergente, irreversível, inaceitável da dinâmica que a morte descongela.
O feliz prazer da repetição ou reiteração, que governa a vida da infância até à estação final, vê aí amputado de súbito aquilo que futuriza a vida: o poder de antecipar (Julian Marias). É pela voragem da morte que o filme lhes sega as ilusões e nos faz penetrar na autêntica dimensão das personagens: a Dor, letal e impensável “latência manifesta”. Aquilo que obstrui à vida o seu delta de possibilidades.
Mas lembremos os traços gerais da trama: Earl Partridge/ Jason Robards (1), dentro de poucas horas, vai morrer. A sua jovem mulher Linda/ Julianne Moore (2), que sempre o atraiçoou e herdará a sua fortuna, devia estar radiante. E no entanto... O moribundo só tem um desejo: rever o filho, Frank Mackey/ Tom Cruise (3), que ele, um dia abandonou à cabeceira da cama onde a sua primeira mulher morreria do “mesmo” cancro que agora o abate. Frank converteu-se num falocrata irado, um guru da misogenia que quer converter os vínculos sexuais à lógica do «fast food». Para realizar o contacto com o filho Earl só pode contar com a solidariedade de Phil/ Philip Seymour Hoffman (4), o devotado enfermeiro que o assiste.
Entretanto, outro núcleo duro de personagens orbita à volta de Jimmy Gator/ Philip Baker Hall (5), um celebrizado pivot televisivo que por sua vez também morre com um cancro. Gator, para os telespectadores incarna os valores da família americana, mas existe um fosso entre as aparências e a realidade. Como sabe Claudia/ Melora Walters (6), sua filha, de quem o pai abusou e que agora é um farrapo humano entregue à toxicodependência. Na vida desta, por via de uma queixa dos vizinhos entra Jim (7), um polícia de falas mansas absolutamente devotado à causa do bem. Implicados com Gator estão também Stanley(8), um menino prodígio que é um barra nos concursos de temática cultural, e Donney (9), um ex-campeão dos concursos, e cujo sucesso não o deixou amadurecer para o amor (como ele diz:«tenho mesmo amor para dar mas não sei onde o pôr»).
Entre a agonia de Earl e a apocalíptica chuva de sapos perfazem-se as poucas horas desta narrativa quase contada em tempos reais.        
As sequências do filme incrustam-se umas nas outras: não se desenvolvem, como é corrente, de modo espasmódico, linear, até à sua tensão final, funcionando antes como elásticos que se esticam e contraem. À maneira de uma boneca russa que assimila ou incorpora bonecas semelhantes, o filme cruza tramas que desenham um padrão comum. E assim pelo entrelaçamento de histórias paralelas, de destinos activados pela dor que os isola, instaura-se uma sincronia, a mesma que Ossip Mandelstam, em Colóquio sobre Dante, detectava em O Inferno: «O tempo para Dante é o conteúdo da história, entendida como um acto único e sincrónico».
Escrevia Mandelstam: «o terror do presente, uma espécie de terror praesentis» estampa-se com tal veemência no poema que «o presente puro equivale a um exorcismo.Ao separar-se de todo o futuro e do passado, o presente conjuga-se como dor pura, como perigo».
Repare-se agora no que diz Dante, no Canto XVI: «Eu estava onde ouvia o ribombar/ da água caindo noutro círculo, semelhante ao que soa um colmear.» É espantoso verificar como isto ilustra a montagem de Magnólia. A montagem do filme processa-se por cortes verticais, não faz “avançar” o tempo, é –lhe interior. Cada cena é um estrato, de onde a “água” (o caudal das imagens) transborda, caindo no seguinte: o mecanismo é normalmente um travelling lento que vai aproximando a câmara da personagem até ao GP (grande-plano). Quando a câmara foca esse mapa que é o rosto, o instante conjuga-se como dor pura, como perigo, e os sulcos da emoção acabam por emaranhar-se, decalcar-se uns nos outros, por transbordar, alterando assim o desenho do mapa, isto é, do rosto.
A dor de Earl, por exemplo, que lhe reduz a expressão à afasia, permite o raccord com a elocução de Gator, que também está minado. Ou a volúpia de Frank a enaltecer nos seus seminários o membro viril tece um raccord com o grito de remorso de Linda quando alude aos felácios com que traiu Earl.
Sublinha-se este procedimento formal em duas sequências onde a montagem desenha uma “panorâmica” de 360º pelas personagens: primeiro no começo da emissão do concurso televisivo, O Que É Que As Crianças Sabem?;depois, no momento anterior à queda dos sapos, quando todas as personagens interpretam o terrível refrão da canção de Aimée Mann,Wise Up: «A dor não vai parar/ Até que consigas despertar». Despertar para quê? Para a morte? O que é iniludível é que essas duas “panorâmicas” perfazem um círculo, infernal, que a todos contém. Ninguém está ileso.
Adiantava-se acima que as personagens são nove como os círculos do cone invertido doInferno. E serão atribuíveis a cada uma características que as afinam com os diferentes tipos de «pecadores» recenseados em cada círculo? De imediato podem-se identificar três dos protagonistas centrais da fita – Earl, Franck, Gator – com as três feras assustadoras que aparecem a Dante, no início da sua jornada: a pantera, o leão, a avareza. A jovem pantera com o filho, Frank, o leão com o pai, Earl, a avareza, por antonomásia, com Gator – o animador televisivo que pode manipular o destino financeiro dos concorrentes. Curiosamente, estão os três ligados à “indústria dos media” e neste caso, ousemos extrapolar, nesta Trindade coube a Gator o papel do Espírito Santo, aquele que na realidade corporiza e valida o “espírito” da televisão.
Mas podíamos ensaiar algumas outras afinidades: Stanley, o menino prodígio da televisão, Don, o ex-menino prodígio, e os pais de ambos, podem perfeitamente caber no círculo IV, os dos «avarentos e pródigos» (os pais são avarentos porque retém «o dom de amar», ou o condicionam às performances dos filhos, os pródigos);Linda teria o destino dos «luxuriosos», o Círculo II; Frank engrossa a lista dos «fraudulentos» que recheiam o Círculo VIII, como aliás o seu pai e Gator; a filha deste, Claudia, inscreve-se no Círculo VII, o dos «violentos contra si mesmo»; Jim, o polícia, identifica-se com os «pusilânimes» do Vestíbulo, que se situa aquém do Aqueronte, etc.
O facto de Jim ser um pusilânime, defeito que o coloca, digamos, no hall do Inferno, ser-lhe-á favorável. A sua exterioridade abre-lhe as portas da narração, dando-lhe o direito de ser um dos cicerones desta visita aos labirintos das trevas que a malha urbana tece. Ainda que o deixe duplamente sozinho face à consciência de que pouco pode fazer para alterar o seu e os restantes destinos. Jim e Phil, um enfermeiro de tal forma devotado que só lhe resta uma réstia de vida «por procuração», simbolizam «o bem» nesta fita. Ambos altruístas, embora impotentes: a nenhum deles é reservado o poder da cura. A situação deles compara-se à que Dante definiu para Virgílio: «mais do que uma sombra e muito menos que um homem».
Jim, com honras de narrador final, resume deste modo a sua missão no mundo: «Às vezes as pessoas precisam de ser perdoadas. A parte tramada é que não posso abrir mão disto...». Subentenda-se: a parte tramada é não lhe caber o livre arbítrio, condenado a esse papel de uma vã misericórdia! É caso para invocar a terrível fórmula de Séneca: «antes de sermos marinheiros somos naúfragos!». 
A única finalidade aceitável das actividades humanas como a cultura é a produção de singularidades que enriqueçam de modo contínuo a relação do sujeito com o mundo. Nos concursos televisivos esta relação é pervertida pois a cultura é convocada para ser diluída como item ou molécula no fluxo informativo. Stanley sabe identificar e mesmo cantar um trecho de Carmen de Bizet mas não é um fruidor do «belo canto», pois esta qualidade requeriria um desperdício de tempo; tão vital à sua abulimia de dados informativos.
O que é que as crianças deste concurso televisivo sabem? Que as esferas cognitivas e a da emocionalidade estão de costas voltadas. Que a concorrência começa em casa, o que as obriga a viver num cenário onde o tempo já não devaneia, sonha, ou se extravia. O tempo, neste filme, sofre-se como um desgaste ou um veio por onde correm a especulação e o embuste. Tempo é dinheiro. E por isso caiem sapos do céu, como se moedas de lama fossem. Na realidade, em Magnólia, o céu já não existe, foi convertido numa enorme pantalha luminosa onde cada sapo equivale a um grão.
A dado momento, não vaticina um jovem rapper que o crime que Jim investiga foi cometido pelo «Verme»? Verme era um dos nomes que designava o Diabo na Idade Média. E consequentemente justifica-se o espanto do jovem rapper em relação à cegueira com que as forças da ordem sonegam o evidente.
Uma sociedade na qual o tempo já não é transporte no sonho e onde sobrevém uma dificuldade em fixar o que se apresenta à frente dos olhos produz uma modelização restritiva quer do sujeito, quer do social. Ángel Crespo num ensaio sobre as «metamorfoses» em Dante conclui que, em O Inferno, estas estão subordinadas ao que o pecado de cada um potencializava. Ou seja, as metamorfoses (os suicidas transformados em árvores, por exemplo) espelham uma eterna confirmação da falta praticada e a maior condenação estaria nesse impedimento em ser-se outro, ou outra coisa. A impossibilidade de esquecer, em suma. Queixa-se Gator, a dado momento: «Nós podemos cortar com o passado mas o passado não corta connosco». 
No filme, o drama de Donney, que sintomaticamente quer mudar a sua imagem com uma operação aos dentes, reside na sua impossibilidade de esquecer que já foi, como Stanley um menino de ouro e que agora não passa de uma nódoa-em-aberto. Este insofismável sentimento da queda tem raíz na sua «imagem televisiva» - de um implacável vencedor - em contradição com a sua débil presença «ao vivo». Donney não sabe descartar-se da sua imagem, o que precipita uma extrema indistinção sobre o que em cada momento sente. 
E isto leva-nos a outra analogia, a da esfera televisiva com Dite, a cidadela que se implanta no Sexto Círculo de O Inferno e à beira de cujas muralhas se localiza o cemitério de Epicuro e dos seus sequazes.
Segundo Epicuro o bem supremo do homem está no prazer negativo, na ausência completa de dor para o corpo e de perturbação para a alma. O pensamento de Epicuro está para a filosofia como as poluções nocturnas estão para o amor mas o figurino antecipadamente «virtual» das suas posições - o bem é substituído pelo prazer e o mal pela dor - estatui como norma de conduta um critério eminentemente subjectivo, que contribui para a dissolução de qualquer vínculo moral.
Perfil que me parece encaixar no perfil desse «espectador televisivo» que Fernando Belo evocava num dos seus livros (em Filosofia e Linguagem) ao relatar o caso daquela senhora das Avenidas Novas que à menção da bomba de neutrons replicava, excitada: «Não hei-de morrer sem ver. Ora, está consumada a aspiração das guerras «em directo». E com ela chegaram o turismo televisivo, a ginástica ou o sexo televisivo, a lotaria e o confessionário. Hoje, o hedonismo social persegue o êxito televisivo – que entre outros atractivos converte vícios em virtudes e até um aprisionado Capitão de Abril (o Otelo) numa inesperada fera sexual – que, com uma irónica vocação mallarmeneana, tende a olhar o mundo como um atributo da sua caixa virtual.  
Em Dite, a cidade onde se acolhiam, repare-se, os «violentos contra Deus, a natureza e a Arte», todos os seus «internos» se encontravam sob vigilância de uma tropilha de demónios. Esta vigilância medida ao décimo de milímetro não me parece distante da que é hoje ensaiada por uma Entidade Audiovisual que procura moldar o mundo ao seu circuito interno. E que dizer quando até o interior do corpo (como nas tomografias de Earl) é vasculhado pelas «imagens», transformando a doença num ruído?
Saliente-se, por último, o paradoxo que desencadeia o facto de que quanto mais nos sentimos vigiados pelas câmaras menos queremos ver o que está diante dos olhos.  
Conta Boccaccio na sua “Vida de Dante” que os últimos treze cantos do Paraíso se haviam extraviado e que acabaram por ser encontrados quando um sonho revelou a Pedro Alighieri, filho de Dante, onde se escondiam. Não teria Dante, para quem a sua obra se inscrevia no quadro das profecias, achado que esta precisava de ser actualizada soprando aos ouvidos de um adormecido Anderson a trama para o filme?
É uma hipótese: é mais que um dizer.