quinta-feira, 7 de novembro de 2013

TREZE TALHADAS DE EPICURO COM AÇÚCAR

ALICE W R, almost disappeared
 
Talvez porque tenha conhecido bons filhos da mãe entre os poetas mais líricos, tenho algumas dificuldades em aceitar em mim tais margens de açúcar, mas enfim, os tempos que me rodeiam  estão de guerra e talvez seja tempo de esvaziar gavetas, tão bissextas. Aqui fica num primeiro postal, um ciclo que terá uns sete anos pelo menos e que nunca inclui em qualquer livro, sendo este o seu lugar certo.
 
EPICURO NO TEU JARDIM
1
O sopro, transpiração
de dentro, catálogo
do que a palavra
não oxidou; o sopro,

em andas de carne,
pintado com branco
de cereja - a sua felicidade
esplendia. O invisível

é sempre o mesmo
mas o visível não
e solta-me os lábios
no declive do teu nome.


2
Psiu, psiu, não há impasse
quando passas e a velha
rua de paralelepípedos
levanta as saias

pra mostrar a terra
ao rubro, não há impasse
quando nos velhos casarões,
de supetão, despontam varandas

de ciúme, não há impasse.
Refém fica o mundo,
e no deserto
adestram-se besteiros.



3

Vejo p’lo menos um
falcão no teu punho:

a minha memória
que desiste de ser alga
no céu. Vejo p’lo

menos um jardim
suspenso no mapa
da retina:

a tua mão, mais
larga que o meu medo,

a acariciar a paisagem
que te procura.


4
Por corsário, almirante,
por mexeriqueiro alcião
me tomava, quando
a canícula me pôs
a boca no teu arroio.
 
O mundo engrandece
o homem se pelo in-
verso da foz três carpas
resvaladiças fazem furos
no oxigénio e lhe crivam
na gema da memória
pupilas castanho-oliva.



5
Vaticínios que a tua vontade
incinera, látego
de um bezouro
que a estela espalmou.

Descampados ficam os braços
se te ausentas,
que desperdício os olhos
se a tua mão

não os tapa, no umbral
do teu silêncio respira
a minha palavra,
ilhada.


6
Um só poro,
que uma ruga
em ti revolva,
faz-me falta.

Os antúrios não
florescem sem
a sombra da tua
tesoura. Eis

o fulcro do que
me põe absorto:
perder de vista
o mar.



7
Alçado na tua voz
como o rouxinol
na alba da morte,

ou a malha cativa
na tua meia. Não
estou só, a luz
 
é um fiel vassalo
do relâmpago.


8
A sede é tanta, tanta,
que a morte é serena
e craveja de irrealidade
as cercanias e o exterior.
 
Engordar, rir, enrubescer,
incidências tão vagas
como domingos implumes.
Mas quando passas

inflamam-se as antenas,
sou mariposa fixada p’los
estames de dentes-de-leão
e o múltiplo ventila o um.
 


9
Deixa que me embriague,
ou falho de visão
cairei no tráfego
da poeira, em vez
de convocar astros,
os imensos girassóis
que a procela acossa.

Deixa que me embriague
na floração do teu sangue
e nada obstruirá
na glande a sua
panorâmica sideral.


10
Ruivo é o sol.
Tu és a umbria manhã
onde o azouge
executa as sombras,
lembrando que todo
o limo é pedra,
e o vento ideograma
à cata de leitor.

Verde é o sol
e só na umbrosa
aspa do teu corpo
chameja o frescor.



11
Olhar sonâmbulo,
carícia sonâmbula,
obsessão sonâmbula,
a que faz nascer
a minha língua na tua
boca, e vaporiza
a tua nicotina nos meus
pulmões, e umbilica
o teu sexo à minha
figueira maldita.
Recomenda-se
aos vindouros: não
ponham terra, não
ponham flores em cima,
ponham ar, ar fresco – pois
sonâmbula era a música.


12
Tão vulgarizada a metáfora
do espelho, julgava impossível
a novidade. Mas num filme
sobre um país libertado
vi um jovem que pedia
a um estrangeiro: tira-me
uma fotografia, nunca
me vi ao espelho.

E percebi: só
magnificado pelo qu’
esplendes, raiado
em ti, me vejo.


13
Epicuro, deus
dos jardins, é teu
cativo. És o mundo
real que lhe apura
as aparências, o vergel
onde a neblina acosta.

Ouço-o:"olha-se
com pouca atenção a vida
se não se viu o coração
que mata de forma
cuidadosa. Mas é
de lei: é necessário
um resíduo de trevas".

E aí tu passas
e fico cego
às crepitações do ar.
 
 

terça-feira, 5 de novembro de 2013

STORYTELLING E AS GAFAS DE GIMFERRER




STORYTELLING

                   
                                            para o Henrique Fialho, com um abraço ao Corvo

1


‘aparquei no soneto, decidido

a depilar a algazarra,

a cagança e o descaro –

que um trocadilho entre

garça e graça já passe

por poema. gosto da secura

dos indigentes a cismar

nas melhoras beatas, do acinte

janota com que enrolam

as mortalhas, num renovo:

vejo aí as qualidades da terra.

e o que arde desafecta…’, pre -

cisou ao riscar o fósforo

com que floresceu no petróleo.



 

2



tocava uma trompete fantasma. feminina

comme il faut. as suas cordas vocais imitavam

o instrumento, enfim, os pistões comme il faut

excursionavam num ataque d’asma de má sina

ou por desafinadas notas agudas felizardas

por explodir. canoras silvas de saliva

que bastavam para colorir uma narça

colectiva. ‘papagaios é o que a tua mãe guarda

na cona, fosse mais cedo era o Victor Hugo!’,

atirava se o picavam por derrota do Benfica.

o mar há muito não presta e não passa de peúga

rota, só lá me enfiei lá dentro, comme il faut,

para achar os sons do homem-orquestra:

glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glu-glô…



 

3



tinha um filtro irónico e reinadio, por isso

afluía de natural a uma vidinha de raposo

gingão: mulherio, assaltos

(nunca aos vizinhos), dissipação.

sabia a Bíblia de fio a pavio

e chamava ao sexo a espada

de Salomão. deixou três ramelosos

rebentos, duas mulheres, um rio

de livros e permutas. ‘o hiv,

como um planctôn daninho, presta-se

a papar o Leviatã’, e mostrou-me o Vi-

agra, numa gargalhada impoluta,

antes de, atraído à Cloaca Mãe,

abraçar a Grande Puta.



 

4



tão magro, de alcunha o Entremez,

o mínimo flato era nele

um sismo de grau três. palavras

leva-os o vento, repetia, naquele

triste embaraço depois da Rosa

o ter trocado plo retalhista.

‘a rapariga afligia-se de te

ver a alpista’, atirou acintosa

uma amiga. ‘eu não

emagreço por gosto

mas por vocação,

eu simplesmente ouso – si

labou - concentrar-me

n-o o-s-s-o.’



 

5



o barra em jogos florais

a meio da queda constatou:

não distinguia nos estratos

da falésia aliterações

de rimas sonantes.

sem se deter (e onde?)

um melro cruzou

o desamparo do seu corpo.

quis detê-lo,

trocar com o dele

o seu aparato.

chamou-o, como se parido

naquele momento,

a ferros: m-e-l-r...



 

6



‘os pretos são todos iguais mas

nos pormenores são só idênticos’,

gracejava, escarafunchando a cicatriz

no braço, do último acidente nas obras.

um dia a serra eléctrica, numa guinada,

deixou-lhe a mão pendurada por um fio.

arrancou-a. queria uma de ferro. vira

na televisão, disse nos bombeiros.

não lha deram. ‘com uma mão

assento o tijolo mas não lhe coloco

o cimento’. era de Santiago onde o eco

é iletrado e ninguém lhe respondia

às cartas. partiu a garrafa, mordeu

o cepo, e trilhou o casco no pescoço.



 

7 (a última carta do futebolista)



entrava no balneário, a suar em bica, da jogatana,

e ao molhar-me, reflectindo-me no cromado

das torneiras, sentia-me culpado. em criança

só havia torneiras de cobre em casa. e só

aos dez anos, numa deslocação da família

ao campo me dei conta que a água caía,

nas mãos da minha mãe que me esfregava

a cara, de uma torneira amarelada e fosca.



até aí o opaco não entrara na minha vida.

olhava a torneira e ela não espelhava a minha cara

deformada. mudou tudo quando fiquei famoso,

as torneiras cromadas fizeram-me pensar que todos

os objectos foram criados para me reflectir.

que me perdoem, não foi isto que me ensinaram.



 

8 (o meu mestre)



para que mantinha aquele cacifo

há dez anos na estação

de Santa Apolónia ninguém

sabia. todo ele um mistério,

calibrado em frases soltas

e sibilinas: «só o insensato orgulho

do homem o leva a conceber

deus como um ladrão de cinzas?»,

anotei uma vez, à socapa,

porque Ele não gostava de perder

tempo a olhar para trás.

‘depois cortas-me a cabeça e

guardas-ma no cacifo’, instruiu-

-me no dia anterior ao ocorrido.



 

 
9



o amigo tem horas?

e, ele, célere, puxava

da naifa e desmoralizava

as tripas do inquiridor.

recai-se quando se fala

do tempo e nos desconec-

tamos do seu fluxo: o

tempo é uma mandala

na areia, reflecte tudo,

se a unha risca o padrão

o vento começa a ficar feio,

disse na polícia. à terceira ini-

ciaram-no nos electro-choques:

morreu de barriga cheio.



 

10



em menino, pedi um penico e caguei

um galo: o meu primeiro prodígio.

inventei depois, tendo em vista os litígios

dos casais – os meus avós, pais, tios… –,

a faca que se desenrola como a língua

do camaleão. a minha terceira

invenção foi o pára-quedas que amua

e não abre quando transporta um pária,

ou um desses borjeços que se pelam

por um trocadilho à Zé do Pipo:

‘eh pá, não é hamlet, é omolete!’

admiram-se se fui à televisão

e encharquei de gasolina o tipo

do execrável Compre Você Mesmo?




11



há deslizes mais venturosos que outros,

figueiras que no devido tempo

cospem o figo aos pés do mestre,

sílabas de uma só dentadura: o espelho

da sua vida. nasceu pobre, morreu

endividado – chamar-se-se-ia a tal,

nos velhos tempos da política, coerência.

alimentou dois projectos, aquela cabeça

a que num assomo de auto-estima

chamava "o meu torresmo": escrever

uma ficção que seria uma "tradução

das partes gagas"e um manual

de título ‘Kamasutra para Rouxinóis’.

o drama é que toda a vida confundiu

kamasutra com kamikazes e o 11 com o 13.



 

AS GAFAS DE GIMFERRER                             
 


Não se lembra se foi nas reuniões de tupperware

a que a mãe o arrastava, ou da vez que foi às putas,

no rasto de colegiais que o desagravaram com absinto.

Na certeza porosa, inebriaram-no os estames

da genesíaca flor carnívora e extraviou o número

de ouro, a divina proporção que piratearia

em riso a sua flagrante auto-estima. Areiam-se-lhe

as gafas num gafado espelho de Deus? Ou são

o ecrã em que revê - no mesmíssimo transe

da esposa, que a seu lado mergulha

os morangos nas natas – as pernas

de Marlene Dietrich? Não admira

que a ponta do nariz lhe ressalte como

cornija em saudoso apelo d’andorinhas.

 

 

 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

ELUCIDAÇÃO DOS VENTOS SOLARES

                                                 a mensagem das baleias, alice w r




 
1

Cabeças expectantes como carvões
a quem ventila
a chaga da memória

e que só pela mutação têm repouso,
no mínimo viável que antecede

a elucidação
dos ventos solares,

uma ambulância azul
e sem um vinco por fora,
à imagem do céu,

enquanto
por dentro ardem
sementes dum amor
irrestrito

como o primeiro piri-
piri na língua
quando até a água foge

do Deus que s’esconde.

 

 

2

Sonhemos com as coisas imperfeitas,

a uva num pires quando nos abre a porta
a vulva, no canapé,
that

o amor na vulnerabilidade
dos que não se admitem ensimesmados
that

o pasmo na ausência qu’
inebria as ruínas,

não receemos as coisas imperfeitas,
o ar rarefeito da montanha
expande o olhar

descasco-te a laranja?

a fuga que lucilou
nos teus olhos perdeu o horário
do comboio
sob os ulmeiros.
do you remember?

Amemos as coisas imperfeitas;

quem perde a vida lubrifica-a
na discrepância
that

 

3

Não supunha que pudesse crescer
para dentro, colarinho
no pescoço
de outros nomes,

afinal, nem só a pele
descartável da cobra
pesponta
no vazio,

desassossegando luas
entre os áugures.

Quem envereda p’los sismos
do amor
encaracola
na liberdade,
dorme na esteira.

Não supunha.

Ou que albino,
o vento, me assarapantasse o guarda-
-chuva
e soassem clamores

o desejo da tua língua
na vara
             líquida que
torna habitável o inferno.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

DIFÍCIL É VOAR

                                                            WHY WHY, by Alice W R



Difícil é voar e não depende do balanço
mas do lastro de ar que irrejeitável

nos erga a prumo, como se deus
- uma garrafa de oxigénio entupida de génios

verdes – nos tivesse concedido uma audição.
Sequer depende da atracção do firmamento

já que tantas daquelas luzes são urnas.
Difícil é voar porque uma intrincada porção

de carne entope como betão os poros
que abriam ao vento o corpo – e dele, galáxia

natal, faziam via rápida. E quem arrisca
agora a pele se, inumana, a ascenção

inflama em todo o metacarpo o ferro?
Não há cão crestado que não queira sair

do sol. Contudo, é vero, o carvão sobe
descendo em si mesmo, até ao brilho

da gema, e não se desvalida a gravidade
à primeira oportunidade, se até as ossadas

sob a neves s’abstraem da mensuração
da discórdia e, confundidas no branco,

ganham asas - estrelas em floco?
Só o homem, amassado pelas wastes lands

que no coração laminou, não se inspira
a sair de si próprio e abraça-se às moscas,

pubescentes e gris, do realismo para furtar-
-se às transformações silenciosas

que tumultuam as marés ou
levam o pigmeu à flexão do medo,

ebriedade com que mata o elefante,
aparentando-se finalmente ao homem.

 
nota:
"galáxia natal" é de Wallace Stevens

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

O LANÇAMENTO DE A MALDIÇÃO DE ONDINA EM LISBOA


                                                               

E lá aconteceu ontem o lançamento de A Maldição de Ondina. Eu li o texto em baixo, citando o José Teixeira Pimentel. O do António-Pedro Vasconcelos será publicado na imprensa. Foi uma festa porreira, onde reencontrei vários amigos. A todos eles grato, etc.



«O tempo tem destas coisas, desníveis e curvas de nível, e hoje apresentou-se chocho e pôs-me melancólico, pelo menos às sete da manhã deste dia 25, quando redigi este apontamento, sob o espectro da certeza de que preferia voltar atrás e ter sido guarda das pimentas d’el-rei dom Manuel de Portugal ou, em último recurso, ter sido amante da Debra Winger ou da Eva Mendes, a ter perdido dois anos com A Maldição de Ondina – um remédio que aliás nem me aliviou da gota.

Para já a relação teria sido muito mais rápida, por muito magnésio que eu pusesse nas mãos a enguia teria escapado. Depois a despedida seria de uma vez só, não era este enredo a conta-gotas que me faz sentir um amante póstumo.

Não creio que um amante póstumo tenha grande proveito.

Cansaços.

No dia em que fiz cinquenta e um – estava a acabar a Ondina -  tive uma estranha epifania: senti que quando fosse meia-noite me iria transformar numa abóbora. Uma coisa estapafúrdia para um cinquentão.

Comentei o meu desconforto com a minha filha mais nova, a Jade, e ela, do alto dos seus seis anos, respondeu-me:

Pai, uma abóbora não ressona.

E então compreendi que o meu desejo mais secreto aos 51 anos era não adormecer para não incomodar os outros com a minha apneia.

Ímpeto cristão, só me falta o baptismo.

Mas isso é na vida.

Os romances, pelo contrário devem ressonar, e fortemente - não transigir.

Incomodar pelos motivos que evocam, pela insónia em que colocam o leitor mesmo que não saiba porquê.

Como escreveu um amigo que leu a Maldição, uma frase que acho antológica: «Nunca gostei tanto de um livro de que discordasse tanto».

É este pacto que procuro traduzir na escrita, não o sentimento da fusão mas o do ligeiro incómodo que nos leva a prosseguir. Só neste intervalo entre uma impossível adesão ao que está a ser dito e o transe eléctrico da leitura é que pode acontecer algo novo, quando tudo, no dizer do velho Heraclito, «fica governado pelo relâmpago».

Não conheço outras leis para a escrita.

Nem para o tempo.

Por isso me fascinou este outro mistério que descobri esta noite na net e que me abysmou em reflexões que me tiraram o sono:

o pai de Rousseau, o Isaac Rousseau, foi relojoeiro num harém, em Constantinopla.

Relojoeiro num harém – eis tarefa para uma vida. E uma tarefa tão material, dado o tempo ser «a morte no trabalho» como dizia do cinema o Godard, como imensamente obscura.

Mas viu-se o pai de Rosseau obrigado a regressar a Genebra por insistência da mulher, Suzanne – de quem se dizia ser bonita e espirituosa a um ponto que teve um corrupio de pretendentes semelhante ao de Penélope -, e fez-lhe um último filho, para depois assistir ao sobressalto de vê-la falecer no parto de um – veja-se a ironia – bebé enfezado e doentio. O próprio Jean-Jacques.

Dizem os relatos que ambos ficaram nostálgicos, o bebé e o pai, e que dedicados ao culto da ausente Suzanne, se entregaram à leitura, devorando a grande colecção de romances que ela deixara – acumulada durante a estada de Isaac no harém oriental. AS coisas impensáveis a que podem levar as badanas de um harém.

Quando esgotaram esta biblioteca, bulímicos, concentraram-se na do avô materno, onde o muito jovem Rousseau virou, como se fossem líquidos, todas as páginas dos autores da sua época e os da antiguidade.

Mas suspeito que este jovem educado um pouco ao deus dará e com um pai que só lhe presta atenção por saudades da falecida, há-de ter chegado à adolescência e, numa noite de luar, talvez no esplendor da descoberta do seu corpo, embatido com o seu primeiro mistério metafísico: o que faz um relojoeiro num harém?

Qual é natureza exacta do seu trabalho? E qual é o verdadeiro marcador de tempo no serralho? E por fim, talvez a mais vertiginosa das perguntas: um relojoeiro num harém não se sente afogar numa espécie de infinito, de coalho que impede qualquer regularidade na medida?

Que podia o embaralhado Rousseau imaginar, para se safar a tal vertigem, senão «um bom selvagem», uma pulsão-em-flor que escape ao controle dos ritos e das regras “civilizacionais” – que permita, enfim, evadir-se de tudo o que dava sentido ao cumprimento das horas e à necessidade de um relojoeiro.

Pressinto que Jean-Jacques Rousseau, de repente, contra o pai, aspirou à hipótese de no futuro, e unilateralmente, vir a ser amante da Debra Winger ou da Eva Mendes, e nunca por nunca relojoeiro.

É aqui que nos encontramos e que eu deslindo outro princípio para a arte: encontrar mais que foi perdido (Elias Canetti), como só pode acontecer em Eros.

Mas enquanto ninguém me manda o contacto da Eva Mendes, só me resta escrever outro libro, para me salvar desta dupla maldição.

Por isso, meus caros, até mais logo.«

 







sábado, 21 de setembro de 2013

REVISITAÇÃO DE HELDER MACEDO & UM PROBLEMA

 O problema com o Mal é que sob a sua filigrana já lá não respira ninguém, um outro. Não que o não “pareça”, ostensivo, importuno, omnipresente. Mas os seus modelos estão de tal forma saturados que já não trazem o pavor que os tornava indescritíveis.
Já não consentimos imaginar o Mal para além do que nos é oferecido. Estamos reféns das imagens que os seus modelos reproduzem. Ei-los mensuráveis, colados como selos às cartas endereçadas ao bem-que-nos-pariu.
E eis-nos abarrotados, até ao infinito, de cabidela, de vampiros, de espelhos que se vingam retroactivamente, de ogres & aliens, de democratas que mentem ruidosamente e de tiranos de viscosas mentes que florescem sob o bolor dos Hannibals desta vida, de putaria baixa & escarninha.
Como insistir na perfídia que já só se repete, extenuada, e já não afigura ser mais do que uma sobra?
Ser sacana, maldoso, ímpio, perverso, f. da p. qb, enrabar os anjos, engessados ou não, que intensidades traz agora, quando os massacres se sucedem indiferentes, em directo, e em Chicago escalpar bebés é o divertimento?
Lady Macbeth boceja e nós, depois de todo o bem cariado, chegámos ao mal sem sombra.
Para abusar de dois versos de Helder Macedo, o mal “telefona-me às vezes depois da meia-noite/quando o silêncio raspa o vidro da janela” – e, foda-se, mal damos por esse “penetra” na nossa festa.
E suspeito que depois da “naturalização” do mal começaremos a perceber que o silêncio foi perfurado. 
Quanto tempo precisaremos para compreender que perfurado não quer dizer perfumado?
“E eu nem sequer estarei aqui a dar por isso/ por termos ficado todos tão parecidos” – volta a escrever o Helder Macedo, um poeta absolutamente a redescobrir
e mais uma voz que confirma a minha intuição de que há décadas que confundimos a literatura com o turismo de massas, cabendo-nos a obrigação de corrigir o tiro.
 
 
Ladrilhos emprestados a “POEMAS NOVOS E VELHOS” de Helder Macedo, Presença, 2011, livro a que voltarei:
 
 
De VIAGEM DE INVERNO
 
2
Um salto de raposa sobre a estrada
último sol à beira da fronteira.
depois somente a sombra
duma luz diurna
a câmara dos ecos
e círculos de corvos sobre a neve
(…)
 
3
Na encruzilhada
vi-me reunido
restituído ao corpo que previra
despedido
na bifurcada ausência
da estrada sem regresso
ou transgredido
na transparência nua
da pele em que te teço
ou reconheço
nessa rasgada lua
nesse mar vão de sangue reflectido.
 
9
(…)
Mas os olhos que eu vi ainda eram negros
da cor da primavera.
 
10
A esquina estava lá
e a árvore prevista
mas não eu.
Falto-me?
Faltei-me
mas nem sempre é necessário não faltar.
Basta o simulacro de árvore na esquina
basta a avenida sem estrada onde passei
basta ouvir-me o silêncio em cada passo.
 
18
O laranjal coberto de limões
 
no corpo suculento da memória
 
(…)
 
De O LAGO BLOQUEADO
 
Não há mistérios
há corpos
com saídas e entradas
que se encontram
e articulam o serem divididos
 
não há não há mistério
 
e só assim conheço a minha imagem
onde mais me desconheço
no teu corpo
minha imagem verdadeira
como quis sempre não saber
 
há corpos
corpos apenas que não são embrulhos
de alma
nem morte redimida pela vida
 
por isso meu amor vejo-me em ti
porque te desconheço
e também te vejo em mim
 
mas não falo já de mim nem para ti
porque não és o corpo
que reflicto
à tua semelhança
que no entanto é tudo quanto sou
 
sossega meu amor
não há mistério
meu amor
meu excesso frio de paixão
há corpos
há corpos que se encontram
e se sondam
até que os corpos parem de morrer.
 
 
De O SETE
 
 
(…)
pra cama pra cama
e basta de prosa
quem fica de fora
não sofre nem goza
 
e arrunfa tafunfa
menina cachuncha
e trica larica
na pita catita
 
(…)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

HARPO MARX NA JAULA DOS LEÕES


Revistas as provas finais do meu livro «Harpo Marx na Jaula do Leão», que sairá ilustrada com cinco belíssimos desenhos do Manuel San Payo.
É um livro de poesia que não sei classificar e que, pressinto, dividirá os leitores, tão à míngua de um lirismo de que, neste livro, me sinto algo arredado, ainda que termine com um longo poema de amor; o qual os que tendem a querer catar emoções nos versos acharão frio.
Um livro algo conceptual, em que o satírico alterna com alguns momentos de uma melancolia expansiva e em que o discursivo e o narrativo se sucedem, aqui e ali, armadilhados por elipses.
Será o meu segundo livro depois dos 50, e julgo que com  o anterior«Não se Emenda, a Chuva», constituirá o momento mais maduro da minha produção. Neles abandonei os malabarismos da metáfora e da linguagem, numa mescla de construção e coloquialidade.
Aqui deixo o poema de entrada do ciclo que dá nome ao livro:


HARPO MARX NA JAULA DO LEÃO
                                                     para o João Paulo Cotrim
1

Lembro-me duma jaula abelhuda
que não desgruda do desassossego de uma veia
e de Harpo Marx lá dentro, com um leão
vagamente adormecido —
a buzina, emaranhada na juba,
muda — e dele
com o indicador nos pedir «shiu».

Ou talvez confunda
com outra jaula num comboio
e outra indubitável fera fulva
em Some Like it Hot , de Billy Wilder.
O sniper que me ajusta a mira da memória
é que não me deixa mentir:
era felino o rosto de Harpo.

Glória de um homem talhado
para reinar, ainda que só
entre crisântemos, harpas e mimos,
tendo por ministros particulares
os poucos anjos
que – às primeiras, roazes, feiras
do Verão –, inebriados
pelo vento de nortada que tatua
o desejo nos pomares, não se evadem.

E ainda que vasto seja o sobrevoo
(a imaginação dos adultos sempre pinga),
nunca será o desfecho previsível,
se, em troca de uma língua-de-gato,
em criança nos inquirem
                                       o que
queres ser quando fores grande…
por isso, sem aparato, foi esse
o meu segredo
mais bem guardado na inflamável
fortaleza das amígdalas.

Queixava-se o Borges, eu que tantos
fui não fui o patusco que enxugou
na sua ínsua maledetta o profuso estuário
da Ava Gardner (não era esta a Eva dele,
mas a que mais me aflui à infância
do desejo): retórica pura — 
em matéria de sexo, só os toureiros
e as condessas descalças sabem da poda.

Eu queria ter sido simplesmente
o Harpo Marx das pontas
que ficaram por montar, a sua mudez
presciente, posto serem as palavras
barcos que partem, encadeados
por desavisados destinos.


E, asseguro-vos, a vergonha
que tinha valia por doze sarapitolas,
enchia oito frascos de compota.

 

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

ENTREVISTA A UM POMBO CORREIO SOBRE O MUNDO MINERAL

Em 1012 o Diogo Vaz Pinto e a Inês Dias dirigiram-me uma série de perguntas sobre “poesia e crítica” – perdi o enunciado que me enviaram – para um volume que incidiria precisamente sobre a relação entre esses dois patamares do universo da escrita, mas cuja publicação se gorou. Aqui ficam as minhas respostas.
1
Eu apareci cedo mas amadureci tarde, o que condicionou o modo como fui lido.
Fui para muitos um “champignon de route” do Al Berto, editado por ele em 79, e quando publiquei o meu primeiro livro “sério”, em 97, o Al Berto tinha morrido.
Pelo meio, andei pelos jornais, assisti a muitas mudanças, e já toda a gente estava farta do meu nome quando me meti verdadeiramente à estrada.
Daí suspeitar que poucos conhecem realmente o que escrevi. Acresça-se a isto o facto da maioria dos meus livros serem literalmente invisíveis (tenho que ir à bruxa).
Antes de 97 não conheci qualquer “fortunata crítica” e era justo. Mas tinha feito amigos: a Maria Velho da Costa, com quem escrevi vários filmes, o Herberto Helder, o António Barahona, o Grabato Dias, o Fernando Assis Pacheco, o Hélder Moura Pereira (eu andei sempre com os mais velhos), o Virgílio Martinho, entre outros.
O eco deles fez-me insistir na minha «poesia esquisita» (FPA). Só tinha que robustecer. Engordei então 20 quilos e passei a ter uma voz pletórica como a do Orson Welles (brinco).
Quando o António Guerreiro, a Maria João Cantinho, o João Barrento, o Urbano Tavares Rodrigues, o Eduardo Prado Coelho, escreveram sobre mim aí eu já tinha encetado o meu erro, pelo que não tiveram qualquer influência.
2
Só um best-seller pode mensurar os seus efeitos. Além disso vivo fora, literalmente, e nunca estive ligado a grupos ou ao empenho de gerações. O meu percurso tem sido solitário e dividido as opiniões, e já é tarde para me preocupar com isso. Aliás, neste momento há quem goste mais de mim como prosador do que como poeta. Why not?
3
Andei sempre levemente desconectado. Porque só acredito em coisas decantadas. Mas, a partir de 2005 e do livro Piripiri Suite, escrito já em Moçambique, sob o choque de uma erosão sobre homens, paisagens e ideias, como nunca imaginara existir, algo me roeu o luxo das metáforas, e tornou-me mais descritivo, aproximando-me de um certo modo mais próximo ao da geração de 90.
Mas continuo a pensar que preferia ter sido Michaux ou Ted Hughes a Phillip Larkin.
Neste momento, os poetas a que dedico a minha atenção integral são dois indianos: Lokenath Bhattacharya e Sujata Bhatt, um marroquino Abdelatif Laâbi, e um belga flamengo, Hugo Claus.
E acho que, no Brasil, se está a publicar excelente poesia na net. Já deram conta de Maira Parula?
4
Comentar a poesia exige um despojamento descoroçoador. É mais fácil arranjar uma grelha de conceitos e dois ou três tutores, que configurem uma sensibilidade, e, em nome de uma pertinência auto-legitimadora, aplicá-la. Fica meia costeleta fora do prato, nesta técnica de Procrustes, e nota-se um tal cuidado em «não caluniar as aparências» que fica por responder a questão central, a que Sócrates coloca a Fedro: se a verdade viesse de um carvalho, de uma pedra, nós aceitávamo-la?
Terá a poesia pouco a ver com a questão da verdade? Talvez, mas, paradoxalmente, não pode deixar de atender a esta pergunta.
Penso que, na “demanda” crítica, renunciamos demais aos acontecimentos e às singularidades em nome dos afectos, do conforto, da chantagem da “camaradagem”. Raras vezes a crítica não confirma a derrota do humano. Portanto, sim, a crítica é parcial, tendenciosa, protege uns em detrimento de outros por razões que não se prendem à qualidade do texto e, sendo difícil exigir que não seja assim – pois, perguntava Shakespeare, podem com sangue ser os homens diferentes? -, convém que alguma lucidez vá periodicamente corrigindo a mão.
5
O último serviço de pombos-correios que existia no mundo fechou as portas em 2001, na região de Orissa, na Índia. Não sei se ganhámos, se não fomos amputados de um certo tipo de imaginário. O mesmo se coloca com a música, gostar só de música pop, ou rock, e não ouvir música clássica ou erudita, não é uma mera questão de gosto mas de amputação de amplitudes na sensibilidade musical. Nas edições, neste momento, como em tudo, tende-se para a estereotipia – não é só a rejeição da poesia mas também a de um determinado tipo de prosa que se verifica. Hoje o Rabelais, o Sterne ou o Machado de Assis não teriam editores, são excessivamente digressivos e tanto vocabulário ofende a paciência do “leitor médio”. Cabe-nos reagir.   
6     
Estamos submersos numa saturada permuta com “o real” e algum excesso de cinismo e de conformismo recheou de “aporias” o poema. Do que pode resultar que “o grau de realidade” poética se meça pelo grau de trivialidade, de tédio, e vice-versa.
Nestes moldes a poesia servirá pouco o agir humano.
À melancolia, por exemplo, há ainda quem a aguente?
Tão sedutor como improfícuo, o lado de grande bazófia desconstrutora em Wittgenstein que contaminou tudo.
E vale ainda a poesia? Enquanto for capaz de trazer novas inquirições julgo que terá um papel social inigualável pois a poesia para mim é como a fotografia para o Bazin: algo que terá talvez mais a ver com o mundo mineral do que com a cultura humana. E aquilo que assim nos interpela nunca se despede.      
 

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

A SÍRIA E A QUESTÃO DE ADORNO



Não creio que um poeta com um mínimo de seriedade possa, a dado momento, deixar de enfrentar a questão de Adorno.

Qual é a questão de Adorno?

Dizia ele, se admitimos que Auschwitz é o mal absoluto e que a poesia não pode, doravante, estimular a busca de uma beleza ideal, como é que a poesia, depois de um acontecimento que revelou aquilo que havia de mais negro na humanidade, é ainda possível?

Pode o poeta transmitir qualquer coisa que seja - malgrado o inferno com que modelizou a memória - da ordem do "canto lírico", face à violência, face ao aviltamento da indiferença a que uma sobrecarga de informação nos expõe, hoje?

Houve inclusive quem tenha afirmado, "um poeta que, hoje, se queira lírico não passa de um canalha".

Depois do que nos noticiam na Síria, estas questões são de novo actualíssimas.

Foquemo-nos pois no que "pode" a poesia.

A poesia, em meu entender, sendo "apenas" um meio entre outros de contribuir para a felicidade dos homens, como declarou Wallace Stevens, fá-lo resgatando-nos da monotonia a que todo o primado da representação propende, despertando em nós "o caçador de instantes".

Este caçador de instantes (a "figura" caçei-a em Rafael Argullol) é o homem que não admite a imagem de um continuum, seja para o tempo, seja para a vida, e entroniza com uma outra medida da existência, paralela, descontínua, livre, não normativa, em permanente transformação.

Então, a sua energia lírica estilhaça as margens da representação para se ancorar na expressão, essa melodia ou ferida incicatrizável que vivifica a linguagem e altera a nossa relação com a realidade, induzindo-lhe uma mudança.

Ao cantar as "rugosidades do real", a ténue fragilidade do aparente ou a força do gratuito, a poesia contagia a realidade, compromete-a com o contingente, e precisamente, por recriar sucessivamente as suas condições de existência, i.é, de inteligibilidade, desvia-nos da tentação de ficarmos dependentes das coisas ideais.

Ou seja, concebemos a poesia como uma "fuga" para a realidade e não uma fuga dela. Ainda que esta realidade, como a vislumbro, seja dilatada: o realismo é apenas um dos seus braços, e não ao contrário.

Pode então a poesia enfrentar o Mal Absoluto?

Existe, no meu entender, um erro de perspectiva na formulação de Adorno.

É uma falácia querer contrapor ao mal absoluto a inefabilidade de uma beleza ideal ou de um bem perene, que não faleça, pelo motivo mais drástico: toda a aspiração a uma idealidade tende a degenerar rapidamente num Mal Absoluto.

Mesmo que tenha como pretexto a poesia ou uma experiência espiritual ou religiosa.

Neste aspecto, as religiões orientais defendem-se mais do que as Religiões do Livro, ao partirem do princípio de que um estado de budeidade, por exemplo, ou a meditação, são experiências inapelavelmente individuais, nas quais a transmissão do dogma não substitui a prova da experiência. Abre-se aqui o espaço para um segundo nascimento, que independe duma instância suprapessoal, duma mediação impersonalizada. Aquilo que é aceite como experiência comum a alguns, e até como cânone, tem de ser verificado por cada um. É esse o sentido do conselho budista: «Se encontrares Buda, mata-o!».

Pelo contrário, o proselitismo ou o integrismo religioso, de outras esferas religiosas, são Males Absolutos onde somos interceptados pela "heteronomia do valor": agimos "em nome" de uma pura exterioridade, de uma mediação que nos administra os valores e a emoção. Somos então dominados pela patologia do simbólico, a qual reverte o qualitativo no quantitativo.

Nos antípodas disto, a poesia, pelo rigor da porosidade (o poeta é o homem mais "esburacado" do mundo) que a incorpora, o desenho do incriado e a consciência da sua vulnerabilidade histórica, não tolera a massa, a abstração, a obturação do nome.

É plausível mas não aceitável a ideia de um Mal Absoluto para as Massas. Este assemelha-se a uma formação coraligínea sem peixes: um anonimato. O Mal Absoluto é intrinsecamente pessoal, tem um nome, o nome que "eterniza" a vítima.

O erro de Adorno foi ter admitido, legitimado, a abstração, cedendo às relações de força que o fascismo potenciou: um morto apenas repete outro, converte-se num número. Só um nome materializa o lugar da memória.

Se os média não fossem já essa produção maquinal de «incultura informada» (Konstantinos Tsatos) que nos ejecta para a abstração, os mortos da Síria (as crianças, cuja morte escava dentro de nós) tinham todos nomes. Mil e tal mortos não me diz nada, o Francisco, o José, o Joaquim o Ahamad, a Fátima, têm um rosto - interpelam-nos.

Uma Massa é uma simultaneidade de movimentos em fusão, rapidamente indistintos, cegos.

Ao aceitar nomear a obscenidade de um Mal Absoluto dirigido às Massas, Adorno sem querer polinizou um conceito que torna imagináveis outros genocídios, dado que o Bem, o Mal, ou a Beleza, concebidos como uniformidades, aparentemente têm os ilimites (é sempre possível alargar os seus limites, como a sua actualidade, no caso da Beleza) do mercado da comunicação - estão sempre em expansão, como o universo.

O que os gregos anteciparam com o conceito de hybris (a desmesura).

O que se pretendeu liquidar em Auschwitz? A singularidade. Aquela morte programada, colectiva, ilustrava a crença de que se podia burocratizar – i. é neutralizar – as intensidades humanas, a subjectividade, impersonalizar o fluxo. A vida era ali encarada como o pequeno acidente, a paráfrase, que dá proporcionalidade ao lugar-comum.

A poesia, pelo contrário, desconcerta o lugar-comum, opera nos antípodas dele e ilumina o que escapa à linguagem, ao que a atravessa e ultrapassa, em nome de uma incidência particular, de uma experiência concreta, que só a palavra galvaniza. E dirige-se a cada um.

Por este viés, a beleza não emerge como a cristalização de um ideal, algo embrionário que chegou à sua perfeição, antes se valida como o que harmoniza momentaneamente o caos e desperta um padrão no informe, uma melodia, relevando «um sentido para a existência que estava até aí fora do conceito» (Yves Bonnefoy).

É por isso que a morte não atinge a motricidade da expressão poética e que a questão de Adorno afinal visa um alvo errado ou se concentra na época errada.

Creio que Adorno se dirigia ainda ao poeta épico, enquanto no Eliot de Terra Baldia, por exemplo, já se entrevê um caminho de aporias. A poesia de Terra Baldia é a soma das estrias que foi possível salvar à fragmentação e à incomunicabilidade; já Celan consegue ser fulgurante naquilo que gagueja.

Ou seja, Auschwitz foi a ilustração de uma lei determinista, enquanto a poesia que não se confina ao género – porque também há uma poesia parafrástica, condicionada pela representação - é o que é de todo indeterminado, uma dança que exigisse que estivéssemos atentos aos intervalos do ritmo, pois só aí se recupera a imprevisibilidade do vento.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

ELUCIDAÇÃO ÀS FONTES

 
O que parece impossível pode acontecer: na Abysmo reuniram-se uma série de amigos escritores que em vez de rivalizarem entre si dialogam, em vez de competir riem mutuamente, em vez de serem egoístas discutem os livros uns dos outros, na tentativa, muitas vezes ainda em embrião, de que cada um dê o melhor de si na senda do seu projecto. Isto é raro e deve ser mantido, e vale mais que contractos milionários em editoras que só têm para oferecer relações de utilidade.
Pior, estamos todos evidentemente irresignados com as nossas situações pontuais, mas não com o mundo, o que nos leva a todos – e esta é outra característica comum – a afirmar e a agir, em vez de nos confinarmos à energia do ressentimento.
Não somos nem queremos ser “marginais profissionais”, ou “revolucionários façanhudos”, com morais bicudas que não admitem transigir com a ética, unicamente escritores que fazem aquilo em que acreditam, convicta e com o máximo de verdade e persuasão possíveis.
Parece que isto dá azo a todas as interpretações malsãs e equívocos. Paciência.
É engraçada a minha história com o Cotrim e como ela tem dado azo a tantas desembocaduras. 
Não me lembro exactamente do dia em que o conheci e que entrámos imediatamente em empatia. Sei que já convergimos maduros na amizade e que sempre nos divertimos juntos. Fomos cúmplices várias vezes: tentámos vender histórias às televisões, em várias edições que publiquei sobre indicação dele quando tive uma pequena editora, a Íman (olá Vera Tavares, olá Pedro Nora, olá João Chambel, olá Daniel Lopes, olá Jaime Rocha, olá Vicente Franz Cecim, olá Nicodemos Santos, olá Nuno Torres, olá António Rodrigues, olá Vergílio Alberto Vieira, olá José Mário Silva, olá Teresa Aica Barios, olá Diniz Conefrey, olá Ondjaki, olá João Jesus de Paes Loureiro, olá Vasco Baptista Marques, olá Celso Martins, olá Paulo Ramalho, olá Maria Velho da Costa, olá Rui Tavares, olá Helder Moura Pereira, olá José Amaro Dionísio, olá Teresa Noronha, olá Amadeu Baptista, olá José Teófilo Duarte… - meus cúmplices, autores, tradutores, sócios da Íman), em projectos e desânimos vários… mas divertíamo-nos sempre como brutos. E às vezes divertíamo-nos de uma forma tão desproporcionada que um dia o nosso almoço, regado como soía acontecer na corte de Salomão, acabou comigo com a cabeça do úmero esmigalhada.
Em consequência do qual passei um semana no hospital, assistindo a todos os bombardeamentos de Cabul.  De onde saiu um dos meus melhores poemas de sempre (um ribeirinho de dezoito páginas em que endereço uma carta ao poeta sírio Adonis, e que depois seria publicado no livro «Combate de Flautas», pela &etc.).
Não. Não foi um caso de violência doméstica. Eu havia comprado uma ópera brasileira «Guarani», e discutíamos a ópera italiana contra a alemã. Ele queria à viva força levar o CD para gravar, sem eu o ter ouvido, e eu insistia na devida necessidade de eu ter a primazia. E a meio da praceta do Camões ele, de brincadeira, agarra-me no cd e dá-me um piparote com a anca. Eu surpreendido pelo inusitado encosto da nave Apolo 13 dei um mau passo para o lado, tropecei numa pedra da calçada e caí desamparado sobre a caldeira de uma árvore tendo batido com o ombro numa esquina da caldeira.
A única coisa que tenho a lamentar é que nunca ouvi a ópera Guarani.
Portanto, devo ser o único autor no mundo que parte os ossos sempre que almoça com o seu editor.
Isto liga.
Mas isso não me dá direitos de propriedade. Portanto ao contrário do que diz a Isabel Coutinho (por amabilidade, o que me alegra) não sou co-proprietário nem co-editor da Abysmo.
Aquilo é mesmo dele, do má-raça-Cotrim, e nós, os seus amigos e autores, estamos todos interessadíssimos em que resulte, e por isso falamos uns com os outros, mas os livros saem como saem porque é ele quem os faz e porque ele os faz como o poeta que é – o resto são balelas.
Claro que a amizade pode ser uma espécie de proporcionalidade que é indeterminável e que vou tentar arrastá-lo para o casamento da minha irmã (pá, temos gim, grappa, uísque, uma piscina e uma cantoria infindável), mas isso são outras favas por contar.

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

"LINCHADO POR ENGANO"

foto de josé teixeira
 
Eu não sei se alguma vez estive com o jovem escultor Alexandria, “linchado por engano” (que destino!) num dos bairros periféricos de Maputo, por um povo a quem a indiferença dos políticos anda a deixar colérico. É provável que sim e o luto em que anda a malta da Garajinha, uma das poucas tertúlias que frequento em Maputo, indica-me que sim. Mas fique registado a minha perplexidade e desconsolo. A minha revolta.
Tenho vários amigos artistas que vivem nas periferias e estão todos muito, excessivamente, inquietos com a vaga de violência que nesse momento campeia por lá.
Sobre este assunto, veja-se o excelente texto do José Teixeira no blogue Ma-schamba, aqui. http://networkedblogs.com/O5HTJ. Aqui deixo também uma foto do Pimentel, suponho, com alguns trabalhos daquele que era considerado uma das novas vozes mais originais da arte moçambicana.